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quinta-feira

A FOGUEIRA DAS VAIDADES

 


A FOGUEIRA DAS VAIDADES (The bonfire of the vanities, 1990, Warner Bros, 125min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Michael Cristofer, romance de Tom Wolfe. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow, David Ray. Música: Dave Grusin. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Joe Mitchell, Justin Scoppa. Produção executiva: Peter Guber, Christine Peters, Jon Peters. Produção: Brian DePalma. Elenco: Tom Hanks, Bruce Willis, Melanie Griffith, Morgan Freeman, Kim Catrall, Saul Rubinek, John Hancock, Rita Wilson, Kirsten Dunst. Estreia: 21/12/90

Sherman McCoy é um bem-sucedido magnata de Wall Street, bem casado e em franca ascensão profissional e financeira. Peter Fallow é um jornalista quase decadente, quase alcóolatra e quase em vias de abandonar a carreira. Uma noite, depois de um encontro, McCoy vê a amante atropelar um jovem negro em um bairro barra-pesada de Nova York e a incentiva a fugir do local, certo de que jamais serão descobertos. Por acaso, Fallow descobre a identidade do dono do veículo e, com a atenção da imprensa, não hesita em divulgá-lo e contar sua história. Exposto na mídia, McCoy se vê perdendo a a família, o respeito, a posição social e até mesmo a liberdade: bode expiatório de uma série de interesses políticos e advogados corruptos, ele se vê diante da ambição de gente como o demagogo reverendo de uma comunidade negra e um promotor público com ambições pouco louváveis. Enquanto sua descida é cada vez mais veloz, o caminho de Fallow rumo ao topo parece inevitável - e ele parece bastante disposto a pagar o preço do sucesso.

As expectativas a respeito da adaptação cinematográficas do best-seller "A fogueira das vaidades" - primeiro livro de ficção de Tom Wolfe - eram altas. Aplaudido pela imprensa e presença constante nas listas dos mais vendidos por meses, o romance de Wolfe - uma obra repleta de ironia e sarcasmo, sem herois e recheado de personagens dúbios e pouco agradáveis - soava como um desafio a quem quer que assumisse a responsabilidade de levá-lo às telas sem perder sua essência amoral. No entanto, desde sua gênese tudo apontava para um potencial desastre, justamente por seu tom pouco disposto a corroborar  a ideia do american way of life. Entre seguir a trama à risca - apostando na capacidade das plateias de abraçar ousadias temáticas e narrativas - e desfigurar a obra original como forma de alcançar uma bilheteria expressiva, a Warner Bros acabou por decidir-se pela segunda opção - o que resultou em críticas violentas e uma resposta ensurdecedora por parte do público: com pouco mais de 15 milhões de dólares de arrecadação mundial (contra um orçamento estimado em 47 milhões), a obra dirigida por Brian De Palma entrou para a história como um dos maiores fracassos de Hollywood, além de ser considerado um dos piores filmes das carreiras de todos os envolvidos - um grupo que conta com nomes poderosos da indústria, como Tom Hanks e Bruce Willis.

 


Antes de iniciar o processo de tornar-se um dos intérpretes mais respeitados de sua geração - com dois Oscar consecutivos de melhor ator -, Tom Hanks foi uma escolha inusitada e corajosa para viver o protagonista, Sherman McCoy, um bem-sucedido magnata de Wall Street, e só entrou em cena depois que Mike Nichols abandonou o barco e, com ele, levou Steve Martin, cujo perfil combinava bem mais com o personagem - antes ainda de Hanks outros nomes importantes chegaram a ser cotados, como Jon Voigt, Kevin Costner, Christopher Reeve e até John Lithgow (o preferido do diretor Brian De Palma) e Chevy Chase (que teria sido a escolha do próprio Tom Wolfe). A entrada de Hanks - assim como a de outros nomes chave do projeto, cortesia do então produtor Peter Guber  - acabou sendo um fator decisivo para o rumo da produção em direção a uma atmosfera bastante distinta do livro original, enfatizada pelo roteiro de Michael Cristofer (outro contratado por Guber): com sua aura de bom moço, Hanks suavizava a personalidade arrogante e amoral de McCoy e de certo modo equilibrava o cinismo do jornalista Peter Fallow, o segundo personagem central da trama - inglês no romance (assim como John  Cleese, que recusou o papel) e americano no cinema (o que não foi o suficiente para convencer Jack Nicholson a entrar no jogo). Em mais uma cartada para chamar a atenção do público, o estúdio ousou novamente e chamou Bruce Willis (em alta pelo sucesso de "Duro de matar", de 1988, mas sem maiores êxitos fora do cinema de ação). A surpreendente dupla formada por Hanks e Willis (mais o tititi em torno do livro de Wolfe) já seria o bastante para garantir notas de jornais, mas as esperadas filas nos cinemas ficaram apenas na vontade: o fiasco de bilheteria e as críticas impiedosas (cinco indicações ao Framboesa de Ouro, incluindo pior filme, atriz, roteiro e diretor) mostraram que nem grandes cineastas e atores de prestígio são imunes a erros gigantescos. Mas afinal de contas, passadas décadas de sua estreia, fica a pergunta crucial: "A fogueira das vaidades" é assim tão ruim?

Apesar de algumas ideias visuais interessantes - o plano-sequência de abertura, a fotografia pouco convencional - e do esforço de Brian De Palma em traduzir o tom artificial do romance através de atuações não naturalistas do elenco (que beira a histeria), o resultado final é decididamente frustrante. O roteiro de Michael Cristofer jamais consegue seduzir o público - talvez pela falta de um personagem com quem haja qualquer identificação, talvez por sua indecisão entre o drama e a comédia - e a escalação do elenco é flagrante ao menos exigente espectador. Tom Hanks é um ator excelente (como seria provado poucos anos depois), mas não acerta o tom de seu Sherman McCoy - não à toa o próprio ator o considera seu pior filme. Bruce Willis tem pouco a fazer com seu Peter Fallow - e quando o faz parece repetir os mesmos trejeitos de um de seus mais famosos personagens até então, na série de TV "A gata e o rato". E Melanie Griffith - escolha de De Palma, com quem havia trabalhado em "Dublê de corpo" (1984) - até tenta ser mais do que apenas uma mulher sensual, mas não alcança todas as nuances que lhe são exigidas - qualquer uma atriz considerada para o papel (Uma Thurman, Robin Wright, Kyra Sedwick) provavelmente teria se saído melhor. Juntos (ao lado de Morgan Freeman e F. Murray Abraham, também subaproveitados), eles parecem perdidos em cena, soterrados pelos artifícios técnicos do diretor e por suas tentativas infrutíferas de imprimir o tom de farsa da trama de Wolfe - deliciosa no papel, bastante problemática na tela.

Uma comédia farsesca que não atinge nem perto de seu potencial crítico, "A fogueira das vaidades" sofreu também com o erro primário de não ser direcionado para uma plateia mais sofisticada - os leitores da obra original - e tentar atingir um público médio que, via de regra, rejeita produções com conceitos menos maniqueístas. Ao deformar o romance de Wolfe para que coubesse em suas ambições comerciais, a Warner acabou com o que de havia de melhor no livro (a perspicaz leitura das ironias da sociedade) e o transformou em um produto mais "palatável" (leia-se superficial e sem nenhuma personalidade). O pífio resultado financeiro e o massacre da crítica apenas refletiram a profusão de equívocos acumulados desde sua concepção. Uma pena!

DUBLÉ DE CORPO

DUBLÉ DE CORPO (Body double, 1984, Columbia Pictures, 114min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrecht, estória de Brian De Palma. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cloudia. Produção executiva: Howard Gottfried. Produção: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melanie Griffith, Gregg Henry, Dennis Franz, Deborah Shelton. Estreia: 15/10/84

Brian De Palma é um fã confesso de Alfred Hitchcock. Mais do que isso, porém, é um cineasta de grande sensibilidade e talento, capaz de utilizar-se das referências ao mestre do suspense para dar forma a tramas surpreendentes, com um apuro visual impecável e pleno domínio do ritmo e da tensão. Um exemplo claro disso é "Dublê de corpo", um de seus mais famosos (e violentos) filmes: repleto de citações - diretas ou indiretas - à filmografia de Hitch, seu trabalho imediatamente posterior ao polêmico "Scarface" (83), refilmagem sanguinolenta do clássico de Howark Hawks, é uma aula de cinema, tanto tecnicamente quanto em termos de narrativa. Não exatamente reconhecido à época de seu lançamento - chegou a ser indicado a Pior Diretor no Framboesa de Ouro - e posteriormente alçado à categoria de cult, é um filme que resiste bravamente ao teste do tempo por ao menos uma grande razão: mais que uma simples homenagem a um dos mais seminais criadores do suspense no cinema, é, na verdade, um compêndio do que o melhor o gênero pode oferecer a seu público.

A partir de uma ideia surgida durante as filmagens de "Vestida para matar" - quando a atriz Angie Dickinson precisou de uma dublé de corpo para suas cenas no chuveiro - e preenchido com algumas experiências de De Palma nos bastidores de seus filmes anteriores, o roteiro de "Dublé de de corpo"  é repleto de reviravoltas e mudanças de rumo, que prendem o espectador do primeiro ao último minuto. Tudo começa quando o ator Jake Scully (Craig Wasson em papel oferecido a Kurt Russell), sofrendo de claustrofobia, é demitido de um filme B de terror, dirigido por seu amigo Rubin (Dennis Franz), por não conseguir manter-se no caixão onde seu personagem, um vampiro, passa parte de seu dia. Frustrado e humilhado, ele chega em casa e flagra a esposa com outro homem: em poucas horas ele está sem trabalho, sem mulher e sem casa para morar. Buscando um novo emprego, ele conhece o também ator Sam Bouchard (Gregg Henry), que lhe oferece uma solução inesperada: enquanto ele viaja a serviço, Scully pode ficar no fantástico apartamento de um amigo, tendo como única obrigação regar as plantas do lugar. Antes de deixar o novo hóspede sozinho, porém, Bouchard lhe apresenta outro atrativo do lugar: a sexy vizinha da casa em frente, que toda noite faz um sensual striptease diante da janela. Não demora para que Scully - sozinho e deprimido - se sinta completamente atraído pela bela e desinibida moradora, a quem vê também sendo espancada pelo marido (em uma referência clara à "Janela indiscreta", de 1956).


Obcecado pela vizinha, o ator passa a seguí-la, mas não consegue evitar que, em plena luz do dia, ela seja roubada por um sinistro indígena - sua claustrofobia volta a atacá-lo quando está correndo atrás do criminoso em um túnel, quase como James Stewart em "Um corpo que cai" (58) - nem tampouco que, mais tarde, ela seja violentamente assassinada. Testemunha ocular do homicídio, Scully (que chegou a trocar alguns beijos com a vítima) se surpreende, porém, quando, ao assistir um vídeo pornô, descobre que talvez seus olhos tenham lhe pregado uma peça. Penetrando o submundo dos filmes de sexo hardcore, ele conhece Holly Body (Melanie Griffith), uma profissional que será seu passaporte para uma série de descobertas desconcertantes a respeito de tudo aquilo que ele julgava saber - e pelo caminho, perceber que foi usado como um peão em uma conspiração muito mais complicada do que parecia.

Com pleno domínio das ferramentas que o cinema pode oferecer, Brian De Palma mergulha a plateia em um jogo de espelhos cruel e angustiante, sem poupar cenas de violência e um erotismo perturbador. Revelando Melanie Griffith - indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por um papel recusado por Brooke Shields e oferecido também à Jamie Lee Curtis, Tatum O'Neal e Carrie Fischer - como um símbolo sexual quase inusitado e ousado a ponto de mostrar uma longa sequência sem diálogos (que remete a si mesmo, em um momento clássico de "Vestida para matar"), "Dublé de corpo" é também um fascinante estudo sobre o voyeurismo e a obsessão, retratados com um senso de urgência e paranoia de que somente De Palma é capaz sem soar derivativo ou vazio. Um dos grandes filmes da década de 80, tão marcante hoje quanto há trinta anos.

quarta-feira

UM TIRO NA NOITE

UM TIRO NA NOITE (Blow out, 1981, Cinema 77/Geria/Filmway Pictures, 107min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Vicki Sanchez. Direção de arte/cenários: Paul Sylbert/Bruce Weintraub. Produção executiva: Fred Caruso. Produção: George Litto. Elenco: John Travolta, Karen Allen, John Lithgow, Dennis Franz, Peter Boyden, Curt May. Estreia: 07/7/81

Acostumado a uma sucessão de altos e baixos em uma trajetória profissional que tanto lhe deu grandes sucessos de bilheteria, como "Os embalos de sábado à noite" (77), "Grease: nos tempos da brilhantina" (78) - e até o fraquinho mas imensamente popular "Olha quem está falando" (89) - quanto fracassos homéricos, a exemplo do tenebroso "Perfeição" (85), o ator John Travolta experimentou, em 1994, uma ressurreição de espantar até aos mais crédulos e vividos fãs de cinema, quando voltou a tornar-se um nome quente em Hollywood graças ao incensado "Pulp fiction: tempo de violência". O filme deu um bem-vindo novo fôlego a uma carreira praticamente estagnada, respeito da crítica e até mesmo uma indicação ao Oscar. Aplaudido aos quatro ventos, louvado e considerado uma das mais influentes obras da década de 90, o trabalho de Quentin Tarantino revelou a uma nova geração de espectadores um talento dramático que pouca gente conseguia vislumbrar no galã de olhos azuis que não hesitou em deixar a vaidade de lado para interpretar um matador de aluguel viciado em cocaína e muitos quilos acima do peso ideal. Esse talento, revelado em um desempenho icônico, foi descoberto por Tarantino não em seus filmes mais celebrados, onde requebrava o corpo em coreografias que marcaram época, mas sim em uma trama de suspense que naufragou nas bilheterias no início dos anos 80 apesar de suas vastas qualidades artísticas. Dirigido por Brian De Palma logo após o impacto de "Vestida para matar" - em que prestava reverência ao mestre Hitchcock - "Um tiro na noite" confirmou sua capacidade de aproveitar os velhos clichês do gênero em histórias originais, mas não encontrou seu público e teve de contentar-se em esperar que o tempo o tornasse cult - e desse à Travolta a chance de voltar às boas graças da indústria.

Como o título original já denuncia, "Um tiro na noite" é uma homenagem clara e reverente ao clássico "Blow up: depois daquele beijo" (66), de Michelangelo Antonioni. No filme do cineasta italiano, um jovem fotógrafo descobria um assassinato ocorrido em um parque no momento de revelar seus negativos. Na obra assinada por De Palma - que mesmo inspirado por Antonioni não deixa de lado seu fetiche pelos ensinamentos de Hitchcock - o protagonista é Jack Terry (John Travolta), um técnico de som de filmes de terror barato que tem sua vida transformada em uma madrugada, quando, ao gravar ruídos para um de seus próximos trabalhos, acaba sendo testemunha de um acidente de carro que mata um candidato à presidência dos EUA. No processo, salva da morte por afogamento a acompanhante do político, a prostituta Sally Bedina (Nancy Allen, à época casada com o diretor), e entra de gaiato em uma conspiração muito mais perigosa quando, ao escutar os sons gravados, descobre que antes do estouro do pneu que causou a queda do carro no rio, um tiro foi disparado. Ignorado pela polícia e pelas autoridades, Jack se une à Sally para desmascarar os culpados, utilizando-se, para isso, de seus conhecimentos profissionais.


Um apaixonado confesso pela arte cinematográfica e seus artifícios narrativos (que utiliza sem pestanejar em praticamente toda a sua filmografia), Brian De Palma faz, em "Um tiro na noite", uma bela homenagem à sétima arte, muito bem embalada em um gênero que domina como poucos. Desde a primeira sequência, que abraça carinhosamente os filmes B de horror, o cineasta oferece à plateia uma trama intrigante (ainda que previsível em muitos momentos) e recheada de um tesão explícito pela arte de fazer cinema, De Palma usa a trajetória de seu protagonista em busca da verdade como um pretexto para exibir seu vasto conhecimento do ofício. Tudo funciona como um relógio em sua narrativa visual e sonora, começando com a sutil trilha sonora de Pino Donaggio, passando pela edição enxuta e claustrofóbica de Paul Hirsch e chegando ao desenho de som, o ponto crucial do filme e razão de ser de sua existência: foi durante o processo de sonorização de "Vestida para matar" que o diretor teve a ideia de contar uma história que explorasse os bastidores do cinema através de uma técnica pouco conhecida (e também pouco valorizada) pela plateia. Surgiu, então, um enredo que misturava momentos de pura tensão, curiosidades sobre bastidores e uma conspiração que lembrava (e muito) um acidente de carro envolvendo o então senador Edward Kennedy.

Mas nem mesmo essa citação clara e óbvia a um fato político acontecido em seu próprio país - somada ao interessante mergulho no que acontece por trás das câmeras - ajudou a plateia a se deixar seduzir pelo filme. John Travolta - segunda opção para o papel, substituindo Al Pacino - arrancou elogios da crítica, mas deu início a um período escuro da carreira, que teria seguimento com "Os embalos de sábado continuam" (83) e uma série de produções ignoradas nas bilheterias. Não se sabe exatamente o que causou tal descaso popular ao filme de Brian De Palma - uma produção correta, com grandes momentos de suspense e um roteiro inteligente - mas talvez a ideia de um dos produtores (à época desconsiderada rapidamente) pudesse ter ajudado no resultado final, em termos comerciais: sem carisma e pouco conhecida do público, Nancy Allen teve seu papel quase oferecido à Olivia Newton-John, como forma de capitalizar sua química com o galã, já comprovada em "Grease". Mas Travolta já não era mais o protagonista dançante de seus maiores hits e buscava novos desafios artísticos. Demorou mais de dez anos - e o faro de Quentin Tarantino - para ser reconhecido como bom ator, mas basta prestar atenção em sua atuação em "Um tiro na noite" para perceber que seu talento já estava presente. Com mais de trinta anos de idade, o filme merece ser descoberto pelas novas gerações.

terça-feira

FEMME FATALE

FEMME FATALE (Femme fatale, 2002, Quinta Communications, 114min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Thierry Arbogast. Montagem: Bill Pankow. Música: Ryuichi Sakamoto Figurino: Olivier Beriot. Direção de arte/cenários: Anne Pritchard/Françoise Benoit-Fresco. Produção executiva: Mark Lombardo. Produção: Tarak Ben Ammar, Marina Gefter. Elenco: Rebecca Rojmin-Stamos, Antonio Banderas, Peter Coyote. Estreia: 30/4/02 

Dizer que Brian De Palma é o maior discípulo de Alfred Hitchcock produzido por Hollywood é limitar e diminuir a carreira de um dos mais interessantes cineastas norte-americanos contemporâneos, capaz tanto de obras impecáveis, como "Os intocáveis" (87), quanto de desastres monumentais - como bem podem testemunhar aqueles que tiveram de encarar a tenebrosa adaptação de "A fogueira das vaidades" (90), do romance de TomWolfe. Nem sempre feliz na escolha de seus projetos, De Palma foi obrigado a encarar um período bastante complicado em sua trajetória quando, depois do grande sucesso comercial de "Missão: impossível" (96), passou a acumular fracassos críticos e de bilheteria que minaram sua credibilidade junto ao público e aos estúdios - foi nessa época que ele enfileirou os horrorosos "Olhos de serpente" (98) e "Missão Marte" (2000), dois fiascos retumbantes. Renegado pela indústria, o diretor acabou encontrando consolo em terras estrangeiras, mais precisamente na França: recuperando-se da má fase profissional em Paris, o diretor teve a ideia daquele que se tornaria seu próximo filme, um suspense recheado de erotismo e com uma protagonista feminina das mais fortes de sua filmografia, a ousada, corajosa e sexy Laurie Ash, interpretada com nítida satisfação pela bela Rebecca Romijn-Stamos (a Mística dos filmes "X-Men").

Depois de considerar Jennifer Lopez e Uma Thurman para o papel central -Thurman abandonou o projeto por causa da gravidez - e convencer Antonio Banderas a assumir o principal papel masculino (com a ajuda da então esposa do ator, Melanie Griffith, com quem havia trabalhado em "Dublé de corpo" e "A fogueira das vaidades"), De Palma entregou à plateia do Festival de Cannes 2002 um de seus filmes mais pessoais, recheado de algumas de suas mais marcantes características como cineasta. Em pouco menos de duas horas de duração, o espectador vê diante de si longas sequências silenciosas, movimentos de câmera criativos e surpreendentes, personagens amorais, uma edição inteligente e umas duas boas reviravoltas capazes de pegar de surpresa até o mais atento fã de cinema. Homenageando a sétima arte desde sua abertura - cenas do clássico "Pacto de sangue", de Billy Wilder, dando o tom da trama - até de forma mais explícita - com o início da história acontecendo em pleno Festival de Cannes (com direito até mesmo a participações especiais do cineasta Régis Wargnier e da atriz Sandrine Bonnnaire) - "Femme fatale" é um filme que brinca com as aparências e com as expectativas do público, emendando uma história na outra de maneira quase imperceptível, até um desfecho inesperado que comprova o talento de seu criador em romper com o trivial quando se trata de contar uma história que envolva o público.


E é impossível não se deixar envolver pelo roteiro criado por De Palma, que já começa mostrando a que veio: em suas primeiras cenas, a belíssima Laurie Ash, se aproveitando de seu status de fotógrafa credenciada pelo Festival de Cannes, seduz a acompanhante de um dos candidatos à Palma de Ouro e, com a ajuda de um grupo de comparsas, supostamente rouba as joias da atraente modelo. Supostamente. A partir do momento em que as coisas saem do controle dos mentores do golpe, o filme inicia sua jornada em conduzir o público por caminhos que trafegam sem medo pela violência, pelo erotismo e pela absoluta falta de regras. Em poucos minutos Laurie se transforma em outra mulher, mais sofisticada e ainda mais misteriosa, que vê seu passado criminoso ameaçar vir à tona pelas mãos do paparazzo Nicolas Bardo (Antonio Banderas) - um homem dividido entre a ambição de ser reconhecido profissionalmente e a atração irresistível que sente pelo alvo de sua câmera. Ele busca o sucesso e o dinheiro; ela procura salvar a pele de revelações aterradoras que podem destruir seu casamento com um homem poderoso (Peter Coyote): juntos, eles irão, despudoradamente, tentar alcançar seus objetivos, mesmo que tais sejam potencialmente contrários um ao outro. No meio desse caminho, o roteiro dá conta de esfregar na cara da plateia cenas de grande tensão sexual (Rojmin nunca esteve tão sensual e desejável) e alguns momentos puramente cinematográficos que são sua assinatura (com direito a tela repartida e ângulos inusitados).

Se existe uma falha no desenho dos personagens de "Femme fatale" - que se comportam mais como personagens do que gente de verdade, o que de certa forma é coerente com a proposta do filme - ela é plenamente compensada com a técnica empregada por Brian De Palma para grudar o espectador na cadeira até os minutos finais da sessão. Econômico na hora de dar detalhes a respeito de seus protagonistas, ele os contorna com tons fortes e simplesmente os utiliza como matéria-prima de uma profusão de sequências muito interessantes visualmente, que mantém o suspense em constante ritmo enquanto prepara um final provocativo e que deixa no ar a sensação quase tangível de desconforto. Pode não ser o melhor Brian De Palma, mas só o fato de tirar a plateia da zona de conforto já faz de "Femme fatale" um programa acima da média - um programa valorizado pela beleza e o talento fascinante de Rebecca Rojmin (ainda Stamos à época), que mostra que pode ir muito além de uma violenta mutante.

segunda-feira

PAIXÃO

PAIXÃO (Passion, 2012, SBS Productions/Integral Film/France 2 Cinéma, 102min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, roteiro original de Natalie Carter, Alain Corneau. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: François Gedigier. Música: Pino Donaggio. Figurino: Karen Muller-Serreau. Direção de arte/cenários: Cornelia Ott/Ute Bergk. Produção: Said Ben Said. Elenco: Rachel McAdams, Noomi Rapace, Karoline Herfurth, Paul Anderson, Dominic Raacke, Rainer Block, Benjamin Sadler. Estreia: 07/9/12 (Festival de Veneza)

A carreira de Brian De Palma sempre sofreu de inconstância, tanto em termos de qualidade quanto em termos de sucesso popular. A cada "Carrie, a estranha" (76) e "Os intocáveis" (87) que fazia, surgiam atrocidades massacradas pela crítica, como "A fogueira das vaidades" (90) e "Dália negra" (2006) - sem falar naqueles que ficavam no meio-termo, como "Pecados de guerra" (89) e "O pagamento final" (94). Seu remake do filme francês "Crime de amor", estrelado por Kristin Scott Thomas em 2010, porém, conseguiu a façanha de ser imperdoavelmente fraco como cinema e ter passado em brancas nuvens pelas bilheterias, mesmo tendo estreado no prestigiado Festival de Veneza de 2012. Rebatizado como "Paixão" e com pouquíssimas alterações em relação à sua origem, o filme é uma trama de suspense cujo cenário é o competitivo mundo da publicidade, mas apesar de seu visual elegante e do enredo promissor, é uma sucessão de sequências anticlimáticas e inverossimilhanças capazes de incomodar até ao mais benevolente espectador.

Por mais talentosa que seja, Rachel McAdams não tem o jogo de cintura suficiente para herdar o papel que foi da esplêndida Scott Thomas no filme de Alain Corneau - que morreu poucos dias antes do lançamento de seu filme. Na versão de De Palma, a protagonista não apenas rejuvenesceu como ganhou também uma agressividade sexual mais explícita, a pedido da própria McAdams e de sua parceira de cena, Noomi Rapace - a Lisbeth Salander da trilogia sueca "Millenium". McAdmas deixa um pouco de lado a imagem construída em uma série de comédias e dramas românticos para investir pesado em Christine Stanford, uma publicitária ambiciosa e manipuladora que não hesita em tomar para si as ideias de sua nova assistente, Isabelle James (Rapace), com o objetivo de conquistar um lugar de mais poder na agência onde trabalha. Seu estilo arrojado e seco estende-se também a seu casamento com Dirk Harriman (Paul Anderson, em papel que seria de Dominic Cooper), repleto de fantasias sexuais bizarras. Quando, durante uma viagem a negócios o sedutor Dirk convence Isabelle a passar a noite com ele, as caras da relação entre chefe e assistente são embaralhadas e um imprevisível jogo de dominação - com o poder constantemente alternado - começa, levando as duas executivas a um perigoso caminho.


Elegantemente conduzido pelo cineasta - cuja experiência em criar climas de suspense com movimentos de câmera fluidos e quase imperceptíveis - "Paixão" é uma obra que deve muito de seu resultado final a uma coleção de fetiches elencados pelo roteiro: dominação, lesbianismo e adultério são elementos indissociáveis da trama concebida por Corneau e Natalie Carter (que colaborou com De Palma na adaptação para a refilmagem). Mantendo constantemente a dubiedade a respeito de suas duas protagonistas, De Palma confunde o público a cada momento, transferindo de uma para a outra a condução dos desvios da narrativa, em um artifício interessante mas que carece de maior força. Ao optar por não dar a nenhuma delas uma personalidade simpática - ambas sofrem de uma total falta de empatia - o veterano diretor se arrisca em não conquistar a plateia... e perde no jogo. Nem McAdams nem Rapace (ótima nas adaptações dos livros de Stieg Larsson mas péssima aqui) tem nuances o bastante para lidar com as complexidades de suas personagens, deixando tudo nas mãos da técnica de De Palma e no visual estonteante criado pelo diretor de fotografia José Luis Alcaine (que tem no currículo trabalhos com Pedro Almodóvar). A estética apurada, contudo, não basta - e o filme deixa a péssima sensação de muita beleza e pouco conteúdo.

É decepcionante ver como De Palma - que passou de célebre imitador de Hitchcock a um nome de peso dentro da indústria hollywoodiana - parece patinar dentro das armadilhas que ele mesmo criou para si, em "Paixão". Seus criativos movimentos de câmera e sua atenção em transformar a edição em peça fundamental da narrativa continuam intactos, mostrando o fabuloso cineasta que ele é. Porém, falta consistência dramática e sinceridade na forma como ele trata suas personagens: existe a nítida impressão de que elas servem unicamente para dar margem às reviravoltas do enredo, que inclui desvio de dinheiro, humilhações públicas e toda sorte de manipulação - de ambos os lados da tela. A surpresa do final, inclusive, é previsível e sem maior impacto, parte devido à falta de segurança do diretor em manter o pulso firme de sua história, parte graças às atuações um tanto mecânicas de suas atrizes centrais, em momento pouco feliz das carreiras. "Paixão" pode agradar aos menos exigentes, mas é um De Palma muito aquém do que se deve esperar dele.

quarta-feira

DÁLIA NEGRA

DÁLIA NEGRA (The Black Dahlia, 2006, Universal Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Josh Friedman, romance de James Ellroy. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Bill Pankow. Música: Mark Isham. Figurino: Jenny Beavan. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Elli Griff. Produção executiva: Boaz Davidson, Rolf Deyhle, Danny Dimbort, James B. Harris, Henrik Huydts, Josef Lautenschlager, Trevor Short, Andreas Thiesmeyer, John Thompson. Produção: Rudy Cohen, Moshe Diamant, Avi Lerner, Art Linson. Elenco: Josh Hartnett, Aaron Eckhart, Scarlett Johansson, Hilary Swank, Mia Kirschner, Mike Starr, Fiona Shaw, Patrick Fishler. Estreia: 30/8/06 (Festival de Veneza) 

Indicado ao Oscar de Fotografia

Em 1997, o filme "Los Angeles, cidade proibida" deixou de quatro a indústria cinematográfica, o público, a crítica e até a Academia - que lhe deu dois Oscar e só não foi além porque um tal "Titanic" estava fazendo estragos na bilheteria e no coração dos espectadores. Baseado em um extenso e complexo romance policial de James Ellroy ambientado na terra do cinema nos dourados anos 50, o filme de Curtis Hanson estabeleceu um novo parâmetro para o gênero noir, lançou a carreira de Russell Crowe, mostrou que Kim Basinger poderia ser convincente como atriz e, de quebra, surpreendeu a plateia com uma trama intrincada, repleta de personagens fascinantes e um desfecho mais do que satisfatório. Quase uma década depois, Brian De Palma - um cineasta propenso tanto a obras geniais como "Os intocáveis" quanto a bombas homéricas como "Olhos de serpente" - tentou repetir o feito com "Dália negra". A fórmula era quase a mesma: um livro de Ellroy, dois policiais machões liderando a investigação de um assassinato (que aconteceu na vida real), mulheres fatais, corrupção policial e um período histórico mais do que apropriado a todos esses elementos (a dura, porém romântica, década de 40). Por que é, então, que, ao contrário da obra de Hanson, "Dália negra" resultou em um filme tão, mas tão ruim?


Na verdade, várias respostas podem ser dadas - e todas elas estarão certas. Aqueles que culparem a escolha de Josh Hartnett para liderar o elenco no papel crucial do jovem policial e boxeador Bucky Bleichert, não poder ter mais razão, já que Hartnett nunca apresentou sequer uma atuação decente na carreira - e não faz diferente no filme de DePalma, com uma interpretação pífia e risível, que jamais permite ao espectador envolver-se nos dramas de seu personagem. A parcela que apontar os dedos para o equívoco da escalação de Hilary Swank para o crucial papel da femme fatale Madeleine Linscott terão carradas de razão - boa atriz ela é, mas totalmente inadequada como uma socialite sexualmente voraz (e que o roteiro insiste em dizer que é parecida com a personagem-título, vivida por Mia Kirschner, uma atriz sem semelhança física alguma com ela). Até mesmo os mais gentis, que podem questionar a necessidade de Scarlett Johansson de tentar ser sexy em toda e qualquer cena - mesmo que ela a principio não peça tal característica - não estão errados, principalmente quando se sabe que, posteriormente, Johansson exploraria esse seu discutível talento em absolutamente todos os filmes que fez. Mas, mesmo com todos esses defeitos gritando diante da audiência, o que há de mais fatal nas pretensões de "Dália negra" em ser um filme memorável positivamente é seu roteiro: sem a inteligência de Curtis Hanson e Brian Elgeland de enxugar a trama, modificar o que deveria e não confundir o foco da narrativa, Josh Friedman (também autor da versão spielberguiana de "Guerra dos mundos") entregou a De Palma uma obra sem personalidade, confusa, sem um centro narrativo e, mal dos mares, chata de doer.



Restou ao cineasta o desafio de transformar a mixórdia de Friedman em um filme minimamente interessante, coisa que nem mesmo suas décadas de experiência foram suficientes para lhe ajudar. Tudo bem, DePalma ainda deve ser aplaudido por algumas sequências visualmente empolgantes - duas, para ser mais exato - mas sempre que tenta sair de sua zona de conforto e buscar um algo a mais em termos dramáticos, esbarra em uma trama mal costurada que tenta dar conta de várias histórias e termina por não ser bem-sucedida em nenhuma delas. Nem mesmo a presença do competente Aaron Eckhart é o bastante, já que nem mesmo o melhor ator do mundo seria capaz de consertar tantos erros juntos - que conseguem contaminar até a normalmente eficiente Fiona Shaw, que, na pele da mãe de Hilary Swank na tela, protagoniza uma das cenas mais constrangedoras de sua carreira. É de se pensar - e suspirar tristemente - nas misérias que David Fincher faria à frente do projeto que, sim, esteve em suas mãos, mas do qual desistiu depois de perceber que suas ideias (um longa em preto-e-branco com três horas de duração) jamais conseguiriam ser aceitas pelo estúdio - que deve ter ficado extremamente arrependido com o fato, já que gastou 50 milhões de dólares em um filme que, merecidamente, não rendeu nem metade disso nas bilheterias.


Mas, afinal, qual é a história de "Dália negra"? A princípio - e a julgar pelo título - poderia-se dizer que é a investigação da polícia de Los Angeles do brutal assassinato de uma jovem aspirante a atriz, morta em 1947 e jogada com o corpo partido ao meio em um terreno baldio da cidade. Porém, no filme, tal investigação (de um crime real, cujos culpados - um dos quais matou também a mãe do escritor Jams Ellroy - só foram descobertos em 2003) é apenas incidental: o roteiro concentra-se principalmente no quadrilátero amoroso formado pelos policiais Bucky Bleichert (Josh Hartnett e sua total falta de talento) e Lee Blanchard (Aaron Eckhart, o melhor do elenco), a jovem Kay Lake (Scarlett Johansson com seus tiques habituais) e a misteriosa socialite Madeleine Linscott (Hilary Swank, totalmente fora de tom). Esses quatro personagens são a base do roteiro de Friedman, mas não conseguem sustentar sua esquizofrenia generalizada - eles entram e saem de cena sem a menor sintonia e sem propósito aparente, em cenas que soam extremamente aleatórias. Restam apenas a atmosfera bem criada pela fotografia do veterano Vilmos Zsigmond (indicada ao Oscar) e a reconstituição de época cuidadosa. Muito pouco para um filme que tinha grandes ambições. Uma pena.

sábado

VESTIDA PARA MATAR

VESTIDA PARA MATAR (Dressed to kill, 1980, Filmways Pictures/Cinema 77 Films, 105min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Jerry Greenberg. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gary Weist/Gary Brink. Produção: George Litto. Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon, Dennis Franz. Estreia: 25/7/80

Se o cineasta Brian De Palma ficou conhecido por ser o mais fiel discípulo de Alfred Hitchcock, boa parcela de responsabilidade por tal afirmação se deve a "Vestida para matar", um de seus mais radicais exercícios de estilo, dono de algumas das sequências mais empolgantes do início da década de 80. Violento, tenso e tecnicamente brilhante, o filme é uma antologia de momentos de cinema em forma pura, que dispensa diálogos desnecessários para jogar o espectador em uma trama labiríntica e doentia, que bebe da fonte do mestre do suspense tanto de forma discreta (o clima, a obsessão pela sexualidade reprimida) como de maneira nítida (com citações quase óbvias de "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e principalmente "Psicose"). Entretanto, mesmo com todas essas homenagens, De Palma consegue o que parecia impossível, imprimindo a seu trabalho uma personalidade que o separa de meros imitadores, com ousadias quase impensáveis para um filme com pretensões comerciais.

As ousadias de De Palma já começam a dar as caras na cena inicial, que apresenta aquela que, assim como Janet Leigh em "Psicose" (60), parece ser a protagonista: Kate Miller (Angie Dickinson) aparece em nudez frontal (dublada por outra atriz), tomando banho sensualmente, até ser atacada por trás por um desconhecido, enquanto seu marido se barbeia calmamente a poucos metros. Logo o público descobre que tudo não passa de um sonho, mas em poucos minutos tudo está estabelecido, desde o tom que substitui rapidamente o sonho pelo pesadelo até a personalidade insatisfeita de Kate, cujo segundo casamento não lhe faz feliz sexualmente. Logo ela está fazendo suas queixas a seu terapeuta, o dr. Robert Elliott (Michael Caine), que lhe confessa sentir uma forte atração por ela - atração esta impedida de tornar-se realidade por sua condição de médico e homem casado. É aí que De Palma dá a primeira mostra de sua eficiência: em uma longa sequência de vinte minutos quase sem nenhum diálogo, Kate visita um museu, acompanha com o olhar outros frequentadores, flerta com um desconhecido e posteriormente parte atrás dele, em enlouquecidos travellings que conduzem o público para dentro da angústia da protagonista. Mais adiante, ainda em silêncio, eles embarcam em uma tórrida cena de sexo dentro de um táxi, que tem continuidade no ato pós-sexual, quando ela descobre um segredo atordoante sobre seu romance ocasional. Dentro do elevador, ao deixar o prédio, ela dá ao espectador o choque que Hitchcock inaugurou e que funciona mais uma vez às mil maravilhas: é violentamente assassinada por uma mulher loira que a ataca com uma navalha.


A partir desse primeiro susto, o filme segue adiante em sua narrativa, acompanhando as investigações do assassinato, testemunhado por Liz Blake (Nancy Allen, esposa do diretor à época das filmagens), uma garota de programa que se torna a suspeita preferida do detetive Marino (Dennis Franz). Contando com a ajuda do filho de Kate, o jovem nerd Peter (Keith Gordon, hoje um cineasta que dirigiu o ótimo "Amor maior que a vida" (00)), Liz tenta descobrir quem é a assassina, mas logo descobre que está correndo sério risco de ser a próxima vítima. Vem então mais uma sequência digna de aplausos: perseguida pela misteriosa criminosa (que veste uma capa preta e sinistros óculos escuros mesmo à noite), a jovem prostituta encontra refúgio no metrô, mas encontra não apenas uma nova ameaça em um grupo de homens que insinuam querer estuprá-la mas também em um policial que desconfia de sua história. Durante vários minutos a respiração do público fica em suspenso, à espera de um novo susto. Palmas para a direção, a edição e a trilha sonora quase clássica de Pino Donaggio.

"Vestida para matar" não é, no entanto, apenas uma colagem de grandes sequências de suspense. É uma história inteligente e corajosa, que dá a Michael Caine um de seus papéis mais marcantes - que ele herdou, pasmem, de Sean Connery, que só não o interpretou por estar preso a outros compromissos profissionais. O final, surpreendente e psicologicamente coerente, também é inspirado em Hitchcock, mas de uma maneira que não soa requentado ou simplesmente imitado. De Palma, também autor do roteiro, dá a seu público um espetáculo de imagens e sons sem deixar de oferecer também uma trama consistente e que em momento algum subestima sua inteligência. Um dos melhores filmes de suspense de sua época, que ainda hoje funciona extraordinariamente bem.

sexta-feira

CARRIE, A ESTRANHA

CARRIE, A ESTRANHA (Carrie, 1976, United Artists, 98min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Lawrence D. Cohen, romance de Stephen King. Fotografia: Mario Tosi. Montagem: Paul Hirsch. Música: Pino Donaggio. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Jack Fisk, William Kenney/Robert Gould. Produção: Paul Monash. Elenco: Sissy Spacek, Piper Laurie, Amy Irving, Nancy Allen, John Travolta, William Katt, Betty Buckley. Estreia: 03/11/76

2 indicações ao Oscar: Atriz (Sissy Spacek), Atriz Coadjuvante (Piper Laurie)

Em 1976 ninguém conhecia Stephen King. Se hoje seu nome é amplamente reconhecido por todos os fãs de livros e filmes de terror - além de outras obras que fogem do gênero e também foram adaptadas com sucesso para o cinema, como "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94) - a situação era bem diferente então. Seu primeiro romance, escrito enquanto trabalhava em uma lavanderia, chegou a ser recuperado da lata de lixo por sua esposa antes de ser publicado e chegar às telas de cinema no rastro de sucessos de bilheteria como "O bebê de Rosemary" (68) e "O exorcista" (73). Inspirado em duas colegas de escola que eram isoladas dos colegas graças ao fanatismo religioso de suas famílias e que morreram bastante jovens, ele criou Carrie White, a adolescente que tornou-se uma das personagens clássicas de sua literatura principalmente depois que conquistou os espectadores de cinema. Dirigido por Brian DePalma, "Carrie, a estranha", foi um enorme sucesso de bilheteria, cimentou o nome de King entre os apaixonados pelo gênero e, surpreendentemente para um filme de terror, indicou sua protagonista (a então estreante Sissy Spacek) ao Oscar de melhor atriz.

Spacek, que tinha 26 anos à época das filmagens, convence plenamente como a colegial Carrie, especialmente devido à sua franzina compleição física. Indicada ao cineasta por seu marido, o diretor de arte Jack Fisk, Spacek agarrou sua oportunidade com unhas e dentes, entregando uma atuação até hoje lembrada como uma das mais intensas de sua vitoriosa carreira - que inclui um Oscar por sua interpretação da cantora country Loretta Lynn em "O destino mudou sua vida" (80). Desde a primeira cena, em que a ingênua Carrie descobre (da pior maneira possível) o que acontece com as mulheres quando elas menstruam, até o apoteótico e pirotécnico final (copiado até mesmo na telenovela "Rainha da sucata", porém com menos violência), a atriz dá um show particular, transitando com firmeza entre a timidez e a insegurança de uma jovem estudante renegada pelas colegas e a fúria incontrolável que surge diante das humilhações sofridas, que despedaçam cruelmente seus momentos de maior felicidade. Seus embates com Piper Laurie, que interpreta sua mãe, uma religiosa cujo fanatismo beira a caricatura, são dignos de figurar entre os maiores momentos do cinema de terror, mesmo que o suspense esteja principalmente nas entrelinhas dos diálogos e no clima absorvente criado pela fotografia de Mario Tosi e pela trilha sonora impecável de Pino Donaggio.


Piper Laurie, aliás, que foi indicada ao Oscar de coadjuvante por seu desempenho, acreditava piamente que o filme de DePalma era um comédia de humor negro, uma sátira ao gênero, devido ao exagero das atitudes de sua personagem, capaz de trancar a filha adolescente em um armário como forma de castigá-la. Sumida das telas desde "Desafio à corrupção" (61), Laurie é um destaque absoluto do filme, com seu olhar apavorado, seus discursos louvatórios e sua figura assustadora. Nem mesmo Julianne Moore, com seu enorme talento, conseguiu resultado melhor na reinvenção do filme dirigida por Kimberly Peirce em 2013 - que, como fatalmente acontece, optou pelos efeitos visuais em detrimento do clima. O que há de mais interessante em "Carrie" são as dicotomias propostas pelo tema: bem/mal, amor/ódio, amizade/desprezo, religiosidade/paganismo. King consegue até mesmo criar uma teoria para o despertar da telecinese de sua protagonista, que tem início justamente quando ela torna-se mulher, menstruando pela primeira vez diante de um grupo de colegas maldosas e irresponsáveis: ela está pronta para o mundo, mas junto com o amor (de que ela tem apenas um vislumbre momentâneo) vem o ódio, a inveja e, consequentemente, as reações a isso.

Para quem não conhece a trama, é fácil resumir: Carrie White, uma jovem de 17 anos, filha de uma mãe fanaticamente religiosa que a mantém isolada de todos - à exceção de seus colegas de escola - descobre que tem o poder de mover objetos e até mesmo provocar incêndios apenas com a força do pensamento. Tal descoberta ocorre justamente depois que ela é humilhada no vestiário da escola, depois de desesperar-se quando menstrua pela primeira vez. A represália que suas colegas sofrem por tal "travessura" acaba por jogar Carrie em uma armadilha sádica que ocorre justamente em seu baile de formatura, quando ela é coroada a Rainha. Seus minutos de glória e felicidade são logo transformados em um pesadelo e ela acaba se vingando de todos os seus inimigos utilizando seus poderes recém-descobertos - até ser obrigada a encarar sua mãe, que não aceita o fato de sua filha estar despertando para o mundo.

Clássico absoluto, "Carrie, a estranha" consegue manter, mesmo em tempos onde a violência é moeda corrente no cinema mundial, seu status de referência do gênero. Além do mais, apresenta, em início de carreira, os jovens John Travolta e Amy Irving. Obrigatório!

terça-feira

MISSÃO IMPOSSÍVEL

MISSÃO IMPOSSÍVEL (Mission: impossible, 1996, Paramount Pictures, 110min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Koepp, Robert Towne, história de David Koepp, Steven Zaillian, série de TV criada por Bruce Geller. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Paul Hirsch. Música: Danny Elfman. Figurino: Penny Rose. Direção de arte/cenários: Norman Reynolds/Peter Howitt. Produção executiva: Paul Hitchcock. Produção: Tom Cruise, Paula Wagner. Elenco: Tom Cruise, Jon Voight, Emmanuele Bèart, Henry Czerny, Jean Reno, Ving Rhames, Kristin Scott-Thomas, Vanessa Redgrave, Emilio Estevez. Estreia: 22/5/96

Na metade da década de 90, Tom Cruise já era um astro estabelecido e consagrado, tanto em termos comerciais quanto artísticos, tendo sido inclusive reconhecido com uma indicação ao Oscar por seu trabalho em "Nascido em 4 de julho". Adorado pelas fãs, bem casado - então com a bela Nicole Kidman - e poderoso, parecia que nada lhe faltava. Mas ambição pouca é bobagem e o galã de "Top Gun, ases indomáveis" deu, então, um passo adiante dentro da indústria: uniu-se a sua empresária Paula Wagner e tornou-se produtor de cinema. Sua estreia na função não poderia ter sido mais bem-sucedida: adaptado de uma famosa série de TV americana, "Missão impossível" não apenas rendeu milhares e milhares de dólares como também abriu uma lucrativa franquia e elevou Cruise a um improvável posto de herói de filmes de ação.


Lançada em 1966, no auge da Guerra Fria, a série criada por Bruce Geller durou 7 temporadas e empolgava a audiência com tramas bem elaboradas sobre espionagem e agentes secretos. Sua versão cinematográfica é feliz em modernizar o conceito da série sem perder sua essência, equilibrando sequências de ação bem cuidadas e cenas do mais puro suspense, o que trai a presença de Brian DePalma na cadeira de diretor. Acostumado a brincar com o público em cenas de absoluta tensão - que o digam "Os intocáveis" e "O pagamento final" - DePalma exercita mais uma vez seu lado hitchcockiano, sem, no entanto, esquecer em momento algum que está comandando um produto comercial caro e que tem por objetivo divertir acima de tudo. A violência gráfica e explícita de "Scarface", por exemplo, é deixada de lado, substituída por uma elegância concisa, que se estende ao elenco escalado em várias partes do mundo e que se mostra ideal para a trama desenvolvida especialmente para a versão cinematográfica do seriado.

O roteiro - escrito por David Koepp e Robert Towne, dois dos mais respeitados profissionais da área - começa em Praga, para onde a equipe de Jim Phelps (Jon Voight) é enviada com a missão de apossar-se de um disquete com informações fundamentais para o governo americano. As coisas, porém, dão muito errado e o time praticamente é exterminado sob os olhos do líder do grupo, o agente Ethan Hunt (Tom Cruise). Acusado de traição por um dos chefes da organização, Eugene Kittridge (Henry Czerny), cabe a Hunt provar sua inocência e descobrir quem é o verdadeiro agente duplo. Para isso, ele conta com a ajuda da mulher de Phelps, a bela Claire (Emmanuele Beart) e de dois agentes renegados, Franz Krieger (Jean Reno) e Luther Stickell (Ving Rhames, o Marcelus Wallace de "Pulp Fiction").

Filmado em locações na Tchecoslováquia, "Missão impossível" é um thriller empolgante, realizado com capricho - e um orçamento generoso. A trama intrincada criada por Towne e Koepp nada mais é do que a desculpa para algumas cenas de tirar o fôlego, sejam elas grandiosas (a luta final dentro de um túnel, com direito até mesmo a um helicóptero) ou minimalistas (já é antológica a cena em que Cruise, na pele de Hunt, fica pendurado a poucos centímetros do chão de uma sala milimetricamente à prova de intrusos). O tal disquete com informações políticas nada mais é do que um exemplar dos famosos "mcguffins" tão queridos a Alfred Hitchcock - elementos de importância vital às personagens, mas que servem apenas para justificar o andamento do roteiro. No caso de "Missão impossível", a lista capaz de corromper aos mais íntegros não é tão importante quanto a edição impecável e o cuidado com a parte técnica: é exemplar a maneira com que Brian DePalma lida com o desenho de som e com o uso parcimonioso dos efeitos visuais em seu filme. Eles fazem parte da trama e nunca são exagerados, nem mesmo no clímax final, em que o quase cerebralismo de sua primeira parte dá espaço à adrenalina total.

"Missão impossível" é diversão de primeira qualidade. Conta com um elenco escalado a dedo - que se dá ao luxo de ter Emilio Estevez, Kristin Scott-Thomas e Vanessa Redgrave como coadjuvantes de luxo - e não subestima a inteligência do espectador. Mesmo tendo gerado duas continuações que dão mais valor à pirotecnias visuais do que a tramas consistentes, é uma auspiciosa estreia de Tom Cruise como produtor.

quarta-feira

O PAGAMENTO FINAL

O PAGAMENTO FINAL (Carlito's way, 1993, Universal Pictures, 144min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Koepp, romances "Carlito's way" e "After Hours", de Edwin Torres. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Kristina Boden, Bill Pankow. Música: Patrick Doyle. Figurino: Aude Bronson-Howard. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Leslie A. Pope. Casting: Bonnie Timmermann. Produção executiva: Ortwin Freyermuth, Louis A. Stroller. Produção: Willi Baer, Martin Bregman, Michael S. Bregman. Elenco: Al Pacino, Penelope Ann Miller, Sean Penn, John Leguizamo, Viggo Mortensen, Luis Guzman, James Rebhorn. Estreia: 10/11/93

2 indicações ao Golden Globe: Ator Coadjuvante (Sean Penn), Atriz Coadjuvante (Penelope Ann Miller)

Dez anos separam "Scarface" de "O pagamento final". Nesse meio-tempo, Brian DePalma conheceu a frieza da crítica com os fracassados "A fogueira das vaidades" e "Síndrome de Caim", enquanto Al Pacino se afastava do cinema e retornava em grande estilo, chegando a ganhar seu merecido Oscar, por "Perfume de mulher". O reencontro de diretor e ator não poderia ter chegado em melhor hora. E não poderia ter sido mais bem-sucedido. Ainda que a bilheteria não tenha correspondido à altura, "O pagamento final" é um dos melhores policiais dos anos 90. Novamente reunidos pelo produtor Martin Bregman, DePalma e Pacino demonstram uma maturidade muito bem-vinda ao contar uma trágica história sobre a força do ambiente sobre os indivíduos.

Baseado em dois romances do Juiz Edwin Torres - que os escreveu inspirado em suas lembranças do Brooklyn nova-iorquino - "O pagamento final" começa em 1975, quando o porto-riquenho Carlito Brigante (Al Pacino, excelente) é libertado da cadeia depois de manobras de seu ambicioso advogado David Kleinfeld (um irreconhecível e estupendo Sean Penn). Poupado de permanecer 15 anos preso, Brigante deve sua liberdade ao jovem e um tanto corrupto advogado, mas ao voltar às ruas onde cresceu, decide afastar-se da vida do crime. Assumindo a sociedade de uma boate, ele resiste bravamente a todas as ofertas de negócios escusos, dedicando-se a guardar dinheiro suficiente para ir embora para um paraíso tropical ao lado da mulher que ama, a dançarina Gail (Penelope Ann Miller). Porém, quando, por dívida moral, ele aceita ajudar Kleinfeld em uma manobra perigosa para tirar um assassino da cadeia, ele vê todo seu esforço em seguir uma vida honesta correr sérios riscos. Traído por todos em quem confia, só resta a ele mais uma vez apelar para a violência.

O Carlito Brigante criado por Al Pacino tem ecos gritantes com seu Michael Corleone. Ambos sofrem de paranoia justificada - assim como Tony Montana, de "Scarface" - e ambos tentam infrutiveramente escapar de um destino trágico e sangrento. Mas enquanto Corleone jamais suja suas mãos, Brigante vai à luta por si mesmo, empunhando armas e literalmente correndo para sobreviver. Enquanto Corleone tem poderes que se estendem ao Vaticano e a Wall Street, Brigante esconde seu suado dinheiro em um cofre da boate que comanda. Enquanto Corleone é incapaz de amar verdadeiramente uma mulher, Brigante é apaixonado por Gail acima de tudo. E mais importante: enquanto Michael Corleone sabe muito bem com quem está lidando, Brigante tem - apesar de sua malandragem de calçada - uma certa ingenuidade e um rígido padrão ético, apesar disso não o impedir de vingar-se quando estritamente necessário.

Menos propenso a movimentos mirabolantes de câmera - que fizeram sua fama no início da carreira - DePalma orquestra, em "O pagamento final" uma de suas mais afinadas sinfonias. Inteligentemente, o cineasta proporciona pequenas doses de suspense no decorrer do filme - o primeiro tiroteio é um exemplo bem acabado dessa afirmação - enquanto acompanha sem pressa o caminho do protagonista a seu destino. Nesse caminho, Carlito Brigante trava contato com antigos comparsas (um deles vivido por Viggo Mortensen em início de carreira), pequenos contraventores e ambiciosos criminosos (entre eles, o sinistro "Benny Blanco, from the Bronx", interpretado magistralmente por John Leguizamo). Nenhum deles, no entanto, mais perigoso do que seu advogado de confiança.



Personificado com maestria por um Sean Penn começando uma caminhada rumo ao respeito absoluto da crítica e do público, David Kleinfeld é uma das personagens mais fascinantes do filme - repleto de bons papéis. Viciado em cocaína, corrupto, covarde e sem o menor senso de ética ou moral, ele não é exatamente um retrato agradável da profissão de advogado, mas na pele de Penn é impossível não ter compaixão em seus momentos de puro desespero. Fisicamente irreconhecível, o ator - injustamente esquecido pelo Oscar de coadjuvante - tem a personagem que move o filme, empurrando todo mundo em direção ao clímax espetacular imaginado pelo roteiro de David Koepp e filmado com precisão cirúrgica por De Palma.

Assim como "Os intocáveis" tem no tiroteio na estação de trens sua sequência mais lembrada e comemorada - aliás, chupada do clássico "Encouraçado Potenkim", de Sergei Eisenstein - os vinte minutos finais de "O pagamento final" são de figurar em qualquer antologia de cinema. Fugindo dos mafiosos que querem sua cabeça - por motivos que não convém contar para não estragar o prazer de quem ainda (imperdoavelmente) não assistiu ao filme - Brigante foge em direção à estação central de NY para embarcar com Gail em uma viagem sem volta. Sua fuga - tensa, angustiante e magnificamente editada - mantém o espectador grudado na poltrona até seus últimos momentos, quando tudo faz um sentido avassalador.

"O pagamento final" é um filme que merece ser redescoberto. Maltratado pela crítica à época de sua estreia, se mantém com um frescor e uma força até os dias de hoje, além de contar com um Al Pacino no auge de sua forma como ator e personalidade. E, por mais intenso que "Scarface" seja, ele consegue ser ainda melhor.

PECADOS DE GUERRA

PECADOS DE GUERRA (Casualties of war, 1989, Columbia Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Rabe, livro de Daniel Lang. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Peter Hancock, Hugh Scaife. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: Art Linson. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, John C. Reilly, John Leguizamo, Don Harvey, Thuy Thu Le. Estreia: 18/8/89

Depois da chuva de Oscar e do sucesso de crítica e bilheteria de "Platoon", Hollywood abriu de vez as portas a filmes versando sobre o Vietnã, um tema até então tabu entre os estúdios - ainda que "O franco-atirador" e "Apocalypse now" tenham tido seu quinhão de prestígio. No mesmo ano em que o mesmo Oliver Stone de "Platoon" mostrou outro ângulo do conflito no contundente "Nascido em 4 de julho", outro cineasta de primeiro time embarcou na tendência. Ainda no embalo do merecido sucesso de "Os intocáveis", Brian DePalma comandou "Pecados de guerra", uma história real de crueldade e violência que, apesar de não fazer o devido barulho junto às cerimônias de premiação - nem tampouco nas caixas registradoras - é forte o bastante para ser considerada um dos pontos altos de sua carreira irregular.

No ar nos EUA como um dos protagonistas da série "Caras e caretas" e marcado como o adolescente Marty McFly dos filmes "De volta para o futuro", Michael J. Fox, tentou, em "Pecados de guerra" provar que não era um ator tão limitado quanto seus detratores alegavam (e Sean Penn, seu colega de elenco, utilizava dessas críticas nos bastidores, para provocar reações mais intensas na sua relação no filme, incentivado pelo diretor). Fox vive o jovem soldado Eriksson, mais um entre os milhares de americanos que foram lutar por seu país na guerra do Vietnã. Ético, pacífico e honrado, ele testemunha horrorizado as atrocidades que o conflito desperta na humanidade, tentando compreender o que acontece à sua volta. Sua indignação chega a extremos, no entanto, quando, liderados por um colega de pelotão, o sádico Meserve (Sean Penn), um grupo de soldados sequestra, estupra e mata uma jovem camponesa. Chocado, ele resolve levar a questão a instâncias superiores, mas esbarra na indiferença que norteia os crimes cometidos em nome da paz.



Deixando de lado os movimentos estonteantes de câmera que caracterizaram seus primeiros trabalhos, DePalma atinge, em "Pecados de guerra" um outro nível em sua obra. Confiando na força da história, das personagens e da mensagem pacifista como um todo, o homem que legou ao gênero suspense filmes como "Carrie, a estranha" e "Doublé de corpo" concentra-se mais em criar o clima de desesperança e angústia dos soldados envolvidos no incidente do que em uma edição picotada ou uma violência exarcebada. Apesar de tratar-se de um filme de guerra, o sangue que corre na história de Eriksson não é o sangue de soldados em batalha e sim de civis, de gente inocente vitimizada por um horror sem fim. Sintomaticamente, a cena mais sanguinolenta do filme é a morte estúpida da jovem raptada por Meserve e cia - que tem lugar justamente fora do front propriamente dito.

E em mais um reflexo de sua intenção primordial de escorar sua obra em pessoas reais e não em efeitos de fotografia, DePalma escolheu um elenco não apenas adequado, e sim extremamente inteligente. Se Michael J. Fox sai-se muito bem na pele do atarantado Eriksson, fugindo com competência da persona adolescente forjada por seus papéis mais famosos, seu elenco coadjuvante não fica atrás. John C. Reilly - estreando no cinema - e John Leguizamo - alguns anos antes de seu assustador "Benny Blanco from the Bronx", do filme "O pagamento final", também de DePalma - seguram bem a barra de servir de escada para o duelo entre o protagonista e o "vilão", interpretado por um já sensacional Sean Penn.

Ainda no início de sua carreira - e já dono de uma personalidade forte como intérprete - Penn assusta e fascina como o insensível Meserve, um rapaz transformado em quase-animal que vê na possibilidade de cometer atrocidades e ser perdoado por elas uma forma de legitimar sua falta de humanidade - ele é uma espécie de retrato de uma juventude inconsequente e cruel, vista com complacência por uma sociedade deturpada por valores morais e éticos equivocados.

Ao questionar não apenas a guerra em si mas também as engrenagens que levam humanos a tornarem-se armas beligerantes e amorais diante de situações extremas, "Pecados de guerra" merece ser louvado e admirado.

sexta-feira

OS INTOCÁVEIS


OS INTOCÁVEIS (The untouchables, 1987, Paramount Pictures, 119min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: David Mamet, inspirado em livro de Oscar Fraley, Eliot Ness. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Marilyn Vance-Straker. Direção de arte/cenários: William A. Elliott/Hal Gausman. Casting: Mali Finn. Produção: Art Linson. Elenco: Kevin Costner, Robert DeNiro, Sean Connery, Andy Garcia, Charles Martin Smith, Billy Drago, Patricia Clarkson, Richard Bradford. Estreia: 03/6/87

4 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Sean Connery), Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Sean Connery)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Sean Connery)


Quatro anos depois do violento “Scarface”, Brian de Palma voltou a lidar com o tema do gangsterismo, dessa vez contando uma história mezzo verdadeira mezzo ficção. Baseado na extinta série de TV dos anos 60, “Os intocáveis” é diversão de primeira grandeza e ainda provou uma expressiva maturidade de seu diretor.

Sem deixar muito espaço para tramas paralelas, o que enfraqueceu “Scarface”, o roteiro do dramaturgo David Mamet parte logo pro assunto, mostrando a que veio: na Chicago dos anos 20, em pleno vigor da Lei Seca, o chefão do crime organizado, Al Capone (em mais uma caracterização impecável de Robert De Niro) manda e desmanda na cidade, utilizando de violência sempre que lhe é conveniente. Para tentar acabar com seus desmandos, surge Eliott Ness (um Kevin Costner jovial e promissor), que, como bom chefe de família incorruptível e honesto, resolve formar uma brigada em prol de sua prisão. Para isso une-se ao veterano policial Jim Malone (Sean Connery), o ambicioso George Stone(Andy Garcia) e o contador Oscar Wallace (Charles Martin Smith), que é quem tem a ideia mais eficaz contra o criminoso: processá-lo por sonegação do imposto de renda.


A luta travada entre Capone – capaz de comprar um corpo de jurados inteiro – e Ness e seus asseclas, os “intocáveis” do título faz do filme de De Palma o que ele é: um impactante e empolgante filme de gângster, com lados bem divididos e claros, com mocinhos de um lado e bandidos de outro. Com uma edição enxuta e ágil e uma reconstituição de época brilhante, além de uma das mais marcantes trilhas sonoras de Enio Morricone, “Os intocáveis” consegue o que parecia impossível: superar sua origem, desatacando seu quase maniqueísmo e louvando-o como uma qualidade. Em tempos cínicos nada como um pouco de nostalgia, é o que parece gritar cada fotograma de Stephen H. Burum. Sequências de uma beleza plástica inegáveis caminham lado a lado com uma violência muitas vezes inesperadas.

E nostalgia é o que não falta a “Os intocáveis”, uma vez que De Palma consegue arrumar espaço inclusive para uma bela e justa homenagem a uma das seqüências mais memoráveis da história do cinema. Praticamente copiando quadro a quadro a cena da escadaria de Odessa do alemão “Outubro”, de Serguei Eisenstein, o cineasta criou um dos mais tensos e exemplares momentos do cinema de ação dos últimos anos, que deixa a platéia com a respiração suspensa por alguns dos minutos mais recompensadores das suas duas horas de projeção.

E se Kevin Costner é o herói e Robert De Niro o vilão não pode-se deixar de notar o elenco coadjuvante. O cubano Andy Garcia parece sempre prestes a roubar as cenas de que participa e o baixinho Charles Martin Smith dá o tom cômico sem exageros. Mas foi Sean Connery, o eterno James Bond quem mais chamou a atenção da crítica. Deixando para trás a maldição de um único papel, ele chegou a levar o Oscar de coadjuvante por seu trabalho em um papel feito sob medida: na pele do policial irlandês Malone, Connery injeta humanidade e experiência a um projeto elegante e adulto. Um filme como poucos!

sábado

SCARFACE


SCARFACE (Scarface, 1983, Universal Pictures, 170min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: Oliver Stone. Fotografia: John A. Alonzo. Montagem: Jerry Greenberg, David Ray. Música: Giorgio Moroder. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Ed Richardson/Bruce Weintraub. Casting: Alixe Gordin. Produção executiva: Louis A. Stroller. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, Michelle Pfeiffer, Steven Bauer, Mary Elizabeth Mastrantonio, Robert Loggia, F. Murray Abraham. Estreia: 01/12/83

Em 1932, nos primórdios do cinema como o conhecemos hoje, Howard Hawks dirigiu o violento “Scarface, a vergonha de uma nação”, estrelado por Paul Muni. Na versão original, o protagonista tornava-se milionário durante a Lei Seca vigente na Chicago dos anos 20. Sinal dos tempos, a nova versão, dirigida por Brian de Palma e sua câmera nervosa, se passa na Miami dos anos 80 e faz uma radiografia tensa e sanguinolenta de um anti-herói que sobe na vida graças ao tráfico de cocaína. Se perde em charme, que Hawks imprimia em cada trabalho, ganha em realismo e ultraviolência.

Al Pacino, ainda que com muitos dos trejeitos de seu Michael Corleone, de “O Poderoso chefão”, brilha soberano como Tony Montana, um cubano que chega à Miami fugindo do regime totalitário de Fidel Castro. Insatisfeito com a vida quase marginal que vive, ele une-se a seu conterrâneo Manolo (o ótimo Steven Bauer) em um ambicioso negócio de tráfico de drogas que, mesmo dando errado – em uma sequência especialmente angustiante – o apresenta ao poderoso Frank (Robert Loggia), que logo o toma como homem de confiança. Apaixonado pela mulher de Frank, a bela e viciada Elvira (Michelle Pfeiffer, com pouca coisa a fazer a não ser desfilar sua figura esbelta pelas mansões do cenário), não demora muito para que Montana resolva pegar o negócio e o casamento de Frank. Enquanto enriquece vertiginosamente, vai perdendo a confiança em todos a seu redor, inclusive seu amigo Manolo, que, pra piorar ainda mais as coisas, se envolve com a única irmã de Tony, a jovem Gina (Mary Elizabeth Mastrantonio). Sua paranóia crescente e a violência que o cerca o acaba encurralando e o levando a um final trágico.


Não há como negar que Brian de Palma teve coragem em contar a história de Tony Montana sem rodeios nem firulas. O protagonista não é simpático nem tampouco coitadinho. Pacino se entrega furiosamente ao papel, especialmente nas seqüências finais, quando sua paranóia o leva ao isolamento em sua fortaleza, tal qual um personagem shakespereano. Nem o cenário propositalmente cafona consegue, no entanto, disfarçar a competência do diretor em realizar tomadas insuspeitas e criativas, principalmente nas cenas mais violentas e dramáticas. A trilha sonora de Giorgio Moroder, adequada mas quase irritante também cumpre seu papel, localizando o espectador nos aspectos mais regionais e temporais da trama. A edição alucinante - que acompanha a entrega de Montana ao vício - consegue ser impactante sem chamar atenção demasiada a si, o que sempre é sinal de competência. E o roteiro de Oliver Stone - que o escreveu lutando contra uma dependência de cocaína - não brinca em serviço, entregando à audiência um dos mais trágicos retratos do gangsterismo do cinema - e que quase levou um selo "X" à época de seu lançamento.

É notável, também, a coragem dos realizadores em quase explicitar o clima incestuoso entre Montana e Gina. O ciúme exagerado do protagonista em relação à irmã é bastante óbvia aqui, ao contrário do filme original - afinal, ele foi realizado em 1932!!!! E, como prova do talento de Stone como roteirista e polemista, ele aproveita para fazer severas críticas ao regime cubano, mesmo que estas passem batidas para quem se concentra única e exclusivamente à trama central, por si só já forte o bastante para manter a atenção durante suas longas três horas de duração.

Aliás, pode-se dizer que a duração excessiva é o pecado maior de "Scarface", um dos melhores "filmes de gângster" já realizados em Hollywood. Em nenhum momento essa nova versão mancha o nome da original, cujo diretor é devidamente homenageado com uma dedicatória no final. Vinte minutos a menos não trariam prejuízo à história e ajudaria no ritmo, mas mesmo assim é um filme obrigatório, mesmo porque Al Pacino e seu imenso talento sempre valem uma espiada.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...