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quinta-feira

O ÚLTIMO DUELO


O ÚLTIMO DUELO (The last duel, 2021, 20th Century Studios/Pearl Street Films/Scott Free Productions, 152min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ben Affleck, Matt Damon, Nicole Holofcener, livro de Eric Jager. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Claire Simpson. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Judy Farr. Produção executiva: Madison Ainley, Kevin Halloran, Drew Vinton. Produção: Ben Affleck, Matt Damon, James Flynn, Jennifer Fox, Nicole Holofcener, Morgan O'Sullivan, Ridley Scott. Kevin J. Walsh. Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Ben Affleck. Estreia: 10/9/2021 (Festival de Veneza)

Pode parecer estranho que um filme sobre duelos medievais– via de regra um terreno fértil para demonstrações de virilidade e violência – possa caber tão confortavelmente em discussões contemporâneas, mas é impossível chegar ao final da sessão de "O último duelo" sem a sensação de que, apesar de estarmos seis séculos separados cronologicamente das desditas de sua protagonista feminina, Marguerite de Thibouville, nunca estivemos tão perto delas em termos comportamentais. Ao acrescentar um assunto tão premente como o machismo estrutural em uma trama que do contrário poderia inserir-se como apenas mais uma produção fadada ao esquecimento, a adaptação do livro de Eric Jager – anunciada pela primeira vez em 2015 mas só aprovada pela 20th Century Fox quatro anos mais tarde – acabou por tornar-se um dos filmes mais interessantes de 2021. Tal mérito, no entanto, não impediu o fracasso retumbante nas bilheterias e a polêmica criada por seu diretor, Ridley Scott, ao creditar seu insucesso à preferência do público por filmes de super-heróis (sem deixar de fazer, com tal declaração, uma crítica feroz à inteligência das plateias mundo afora).

O que Scott não levou em consideração em suas declarações foi o fato de que o filme estava fadado a não ter o sucesso que merecia – e que seu orçamento acima de 100 milhões de dólares precisava – graças também ao pouco caso da Disney, que tinha "O último duelo" entre os títulos herdados em sua fusão com a Fox e falhou fragorosamente em sua divulgação. Sem o marketing agressivo que é fator indispensável para o êxito comercial de grandes produções, "O último duelo" estreou sem alarde e teve uma carreira das mais melancólicas, com público escasso e repercussão quase nula. Ignorado pela Academia e pelas cerimônias de premiação mais importantes (apenas o National Board of  Review o incluiu em sua lista dos dez melhores filmes do ano), o primeiro filme de Scott a ser lançado em 2021 (o segundo foi o bem mais comentado "A Casa Gucci") pode não estar entre seus melhores trabalhos – afinal estamos falando do homem que deu ao mundo obras-primas como "Alien: o oitavo passageiro" (1979), "Blade Runner: o caçador de androides" (1982), "Thelma & Louise" (1991) e "Gladiador" (2000) – mas merecia mais atenção. Se não por seus méritos cinematográficos (é um filme sem grandes ousadias narrativas e até mesmo bastante lento em seu desenvolvimento), ao menos pela importância temática e pela inteligência em inserir um surpreendente feminismo em um gênero predominantemente masculino.


É bom deixar claro, no entanto, que boa parte do sucesso de "O último duelo" em navegar em terreno tão delicado vem do desempenho exemplar de Jodie Comer. Revelada ao grande público na série "Killing Eve" – ao lado da ótima Sandra Oh – e agora parte do universo Star Wars graças à sua participação em "Star Wars: a ascensão Skywalker" (2019), Comer é a alma do filme de Scott, o centro de uma trama sobre o poder patriarcal e seus trágicos desdobramentos. Sua personagem, Marguerite de Thibouville, é o catalisador de uma discussão que ecoa, sem muito esforço, nos inacreditáveis ventos “conservadores” que sufocam o mundo do século XXI. Quando finalmente é oferecido ao público sua versão de um drama que envolve estupro, violência física e assédio moral, é difícil não traçar paralelos com as constantes manchetes sobre feminicídio que assolam os telejornais de hoje. A luta de Marguerite nos idos do século XV ainda é a luta das mulheres de 2022: ser vista como um indivíduo com personalidade e direitos próprios, não atrelados a gênero ou quaisquer outros tipos de vínculos afetivos, morais ou financeiros. Vista como propriedade do marido – tido então como o maior prejudicado pelo alegado estupro que sofreu – e questionada pelo fato de ter um dia ousado considerar seu agressor como um homem atraente – quem disse que dá para confiar em outras mulheres só porque elas são mulheres também? -, Marguerite não é vítima apenas de violência sexual, mas sim de uma sociedade machista que não hesita em apelar para preconceitos e crendices para afirmar sua pretensa superioridade. É revoltante, mas é chocantemente atual!

Mas, afora as discussões que levanta e o trabalho irretocável de Jodie Comer, o quão bom "O último duelo" é como cinema? Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que Ridley Scott não está em seus melhores momentos como realizador – "A Casa Gucci" chega a constranger, em alguns momentos -, mas mesmo no piloto automático ele é capaz de contar sua história sem maiores sobressaltos. O roteiro, escrito por Matt Damon e Ben Affleck (em sua primeira reunião na função desde o Oscar por "Gênio indomável", de 1997), tem a colaboração preciosa de Nicole Holofcener para dar o necessário toque feminino à trama, mas sofre com a pouca profundidade de seus protagonistas (com a exceção gloriosa de Marguerite) e com o ritmo lento em excesso em sua primeira hora de projeção – algo que a edição poderia ter resolvido com poucas perdas no desenvolvimento da história. O desenho de produção é caprichado e a fotografia de Darius Wolsky sublinha o tom opressivo do enredo – algo para o qual a trilha sonora de Harry Gregson-Williams também colabora com precisão. E se o elenco masculino sofre com personagens pouco simpáticos para defender (Matt Damon e Adam Driver empalidecem diante de Comer), a técnica de contar várias versões do mesmo fato – importada do clássico japonês "Rashomon" (1950) – lhes dá a possibilidade de buscar nuances diferentes a cada novo depoimento.

"O último duelo" não é a obra-prima que Ridley Scott merece apresentar em sua maturidade – ele completou 84 anos em novembro passado e está prolífico como nunca -, mas merece ser descoberto e tratado como o ótimo filme que é. Em um momento com tantas produções inócuas e sem muito a dizer, é uma produção capaz de fazer pensar mesmo depois de seus letreiros finais.

INFILTRADO NA KLAN


INFILTRADO NA KLAN (BlackKkKlansman, 2018, Focus Features/Legendary Entertainment/Perfect World Pictures, 135min) Direção: Spike Lee. Roteiro: Spike Lee, Charlie Wachtel, David Rabinowitz, Kevin Willmot, livro de Ron Stallworth. Fotografia: Chayse Irvin. Montagem: Barry Alexander Brown. Música: Terence Blanchard. Figurino: Marci Rodgers. Direção de arte/cenários: Curt Beech/Cathy T. Marshall. Produção executiva: Marcei A. Brown, Matthew A. Cherry, Edward H. Hamm Jr., Win Rosenfeld, Jeanette Volturno. Produção: Jason Blum, Spike Lee, Raymond Mansfield, Sean McKittrick, Jordan Peele, Shaun Redick. Elenco: John David Washington, Adam Driver, Laura Harrier, Topher Grace, Ryan Eggold, Jasper Paakkonen, Michael Buscemi, Alec Baldwin. Estreia: 14/5/2018 (Festival de Cannes)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Spike Lee), Ator Coadjuvante (Adam Driver), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original

Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado

Vencedor do Grande Prêmio do Júri no Festival de Cannes

 A sequência inicial de "Infiltrado na Klan" já deixa antever o que virá pelas próximas duas horas: diante de uma montagem de cenas dos filmes "O nascimento de uma nação" (1915) - considerado um dos filmes mais racistas da história do cinema - e "... E o vento levou" (1939) - cujo duvidoso retrato da escravidão vem sendo questionada seriamente nos últimos anos -, o supremacista branco Kennebrew Beauregard (vivido por Alec Baldwin) faz um febril discurso a respeito de como os afro-americanos estão tomando os EUA e impondo seu modo de vida através da violência. Seu ponto de vista assustador - que seria cômico se não fosse trágico - dá início ao melhor filme de Spike Lee em muito, muito tempo, uma afirmação comprovada pela generosa bilheteria e pelo reconhecimento da Academia de Hollywood, que lhe premiou com o Oscar de roteiro adaptado e o indicou em outras cinco categorias, incluindo as duas mais importantes: melhor filme e diretor. Ovacionado desde sua estreia, no Festival de Cannes de 2018 (de onde saiu com o Grande Prêmio do Júri), "Infiltrado na Klan" se torna ainda mais relevante por ter sido lançado menos de um ano depois das manifestações racistas de Charlottesville, na Virgínia, cujas imagens são mostradas no final do filme e que causaram a morte da jovem Heather Heyer. Mais importante do que nunca, a produção é o filme certo na hora certa. Mais importante ainda, foi dirigido no tom exato entre o drama social e a ironia, opção que muito provavelmente o Spike Lee do final dos anos 1980 e começo dos 1990 não teria feito.

Conhecido no final do século passado por sua virulência e tendência para o marketing agressivo, Spike Lee chamava a atenção tanto por seus discursos veementes quanto por seus trabalhos cinematográficos - dentre os quais destacam-se "Faça a coisa certa" (1989) e "Malcolm X" (1992), ambos louvados pela crítica e exemplos nítidos da ira do cineasta à época. Em "Infiltrado na Klan", o cineasta parece ter encontrado o meio-termo entre sua militância e as regras do cinema comercial - do qual aproximou-se nos anos 2000, com o sucesso financeiro de "O plano perfeito", que rendeu surpreendentes 186 milhões de dólares em 2006. Mesmo com um material explosivo em mãos, Lee prefere o caminho menos óbvio para contar sua história, talvez por ter consciência do quão surreal ela pode parecer aos olhos do espectador, mesmo sendo verdadeira. Baseado no livro em que Ronn Stallworth conta sua inusitada (e perigosa) aventura, o roteiro (escrito por Lee, Charlie Watchel, David Rabinowitz e Kevin Willmot), ganhou merecidamente o Oscar da categoria, ao fazer magistralmente a transposição das páginas para a tela: nunca antes Lee esteve tão certeiro em utilizar-se das ferramentas do cinema em seu favor.

Mais do que apenas contar uma história em imagens, o cineasta brinca com referências culturais - como a blackexploitation do cinema norte-americano - e não hesita em inserir, em momentos-chave, um tom menos ágil e mais contundente - é o caso do discurso do ativista negro Stokely Carmichael (Corey Hawkins), no começo do filme, e de um trágico relato de crime de ódio, feito por Jerome Turner (uma participação não creditada do veterano Harry Belafonte), perto do final. Ao contrário de quebrar o ritmo, tais acréscimos tornam a narrativa ainda mais rica e lembram o espectador que, apesar da leveza com que a trama vem sendo conduzida, o assunto é mais sério e urgente do que se pode imaginar. É admirável como Lee é capaz de equilibrar tão bem cenas cômicas (mas nunca de um humor histérico) e sequências de pura tensão (será que o protagonista conseguirá evitar o atentado a bomba planejado pela KKK contra a sua namorada ativista? Será que seu colega de missão será reconhecido em plena cerimônia do grupo?) As respostas a essas e outras questões que vão surgindo durante o filme são apresentadas de forma orgânica e com uma fluência empolgante, que envolve a plateia sem muito esforço. Para isso conta, também, a escalação certeira de um elenco acima de qualquer crítica.

Na pele de Ronn Stallworth, um  jovem policial negro do Colorado que consegue se infiltrar na sede local da KKK através de telefonemas e da ajuda de seu colega, Flip Zimmermann, está John David Washington, uma das grandes promessas da nova geração: filho do também ator Denzel Washington (que já colaborou diversas vezes com Spike Lee), John David tem um carisma que imediatamente põe o espectador a seu lado. Adam Driver, que interpreta Zimmermann, um judeu que assume a identidade de Stallworth quando é preciso uma presença física junto aos líderes da Klan, recebeu uma indicação ao Oscar de ator coadjuvante que confirmou uma fase excelente na carreira - além de sua atuação em filmes da nova série "Star Wars" ele voltou a concorrer à estatueta dourada (dessa vez na categoria principal) por "História de um casamento". E é preciso aplaudir o trabalho de Topher Grace, em um corajoso retrato de David Duke, um dos maiores líderes do grupo racista. Tudo é tão bem desenvolvido que até dá para perdoar a criação de um interesse romântico para Ronn, a militante Patrice Dumas, vivida por Laura Harrier, outra revelação do cineasta: ao contrário de outros filmes, a presença de Patrice não é apenas oferecer cenas idílicas, e sim servir como a voz da consciência de Ronn. Um toque que faz toda a diferença e torna "Infiltrado na Klan" um filme obrigatório não apenas para o público interessado no tema, mas principalmente para os fãs de cinema de qualidade. Uma pena que, podendo escolher essa pequena obra-prima como vencedor do Oscar de melhor filme, a Academia optou pelo raso e artificial "Green Book: O guia", que apresenta uma versão quase hipócrita do racismo. Se houvesse mais coragem por parte dos eleitores, o filme de Lee - que conta com o também cineasta Jordan Peele ("Corra!") entre os produtores - teria saído da cerimônia carregado de estatuetas douradas.

sexta-feira

SILÊNCIO

SILÊNCIO (Silence, 2016, Cappa Defina Productions/CatchPlay, 161min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Jay Cocks, Martin Scorsese, romance de Shusaku Endô. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Thelma Schoonmaker. Música: Kathryn Kluge, Kim Allen Kluge. Figurino: Dante Ferretti. Direção de arte/cenários: Dante Ferretti/Francesca LoSchiavo. Produção executiva: Brandt Andersen, Michael Barnes, Paul Breuls, Dale A. Brown, Manu Gargi, Wayne Marc Godfrey, Niels Juul, Nicholas Kazan, Matthew J. Malek, Gianni Nunnari, Chad A. Verdi, Michelle Verdi, Tyler Zacharia. Produção: Vittorio Cecchi Gori, Barbara de Fina, Randall Emmett, David Lee, Gaston Pavlovich, Martin Scorsese, Emma Tillinger Koskoff, Irwin Winkler. Elenco: Andrew Garfield, Adam Driver, Liam Neeson, Ciàran Hinds, Tadanobu Asano, Issei Ogata. Estreia: 29/11/16 (Vaticano)

Indicado ao Oscar de Fotografia

Foi em 1988 que Martin Scorsese ganhou de presente de um padre de Nova York o romance "Silêncio", do escritor japonês Shusaku Endô, sobre dois jovens sacerdotes portugueses que partem para o Japão do século XVII em busca de seu mentor, que evidências apontam ter se tornado um apóstata - ou seja, renegado o cristianismo por medo de ser torturado e morto. Como um católico fervoroso que é, Scorsese ficou profundamente tocado com a história e pensou imediatamente em transformá-la em filme. No entanto, as reações raivosas a seu "A última tentação de Cristo", baseado no romance do grego Nikos Kazantzakis e também com alto teor de questionamento religioso, o levaram a deixar o projeto de lado. Demorou mais de uma década até que, ao lado do amigo Jay Cocks, retomasse a ideia de uma adaptação: de acordo com seus planos, "Silêncio" seria seu filme seguinte ao igualmente complicado (e igualmente projeto de estimação) "Gangues de Nova York" (2002). Mas as coisas, para variar, não correram conforme o esperado e, sem financiamento para uma produção cara e ambiciosa (além de potencialmente fadada a um fracasso comercial), Scorsese tratou de seguir a vida - e levar seu tão merecido Oscar, em 2007, por "Os infiltrados".

Quando finalmente conseguiu dinheiro suficiente para o início das filmagens, marcado para janeiro de 2015, porém, uma outra questão surgiu no caminho do diretor: a impossibilidade de contar com o elenco escalado na ocasião em que o projeto havia sido anunciado. Com a saída de Daniel Day-Lewis, Gael García Bernal e Benicio Del Toro, envolvidos em outros compromissos profissionais, Scorsese se viu obrigado a alterar a idade dos personagens e algumas de suas características para que melhor coubessem em suas novas escolhas. Assim, Day-Lewis foi substituído por Liam Neeson - invertendo a troca de papéis ocorrida em "Lincoln" (2012), de Steven Spielberg - e Gael García Bernal pelo promissor Andrew Garfield. No lugar de Benicio Del Toro - a mudança mais significativa em termos dramáticos - o escolhido foi Adam Driver, que, apesar da participação em "Star Wars: o despertar da força" (2015), dificilmente pode ser considerado um chamariz de bilheteria. Com um elenco talentoso e 40 milhões de dólares nas mãos, Scorsese viajou para Taiwan - maquiada como o Japão do século XVII pela direção de arte caprichada de Dante Ferretti e pela fotografia impressionante de Rodrigo Prieto - e deu início a 73 exaustivos dias de filmagens que finalmente proporcionaram ao diretor a chance de traduzir em imagens as palavras do escritor japonês. Infelizmente, porém, nem tudo mundo se entusiasmou com o resultado final de tanto esforço. Apesar de muitas críticas favoráveis, o filme acabou se tornando uma decepção tanto nas bilheterias (o que era relativamente esperado) quanto nas cerimônias de premiação (onde foi solenemente ignorado, salvo uma indicação ao Oscar de melhor fotografia).


Sem medo de chocar a audiência com sequências bastante explícitas - mas nunca apelativas - de tortura e violência cometidas contra aqueles que tentavam difundir o cristianismo no Japão do século XVII, Scorsese convida o espectador a uma narrativa de ritmo quase contemplativo, que contrasta vivamente com a constante tensão em que vivem os protagonistas, sempre a um passo de mergulharem em um pesadelo de intolerância e crueldade. As poderosas imagens de Rodrigo Prieto - sempre envoltas em brumas e luzes de velas - enfatizam com inteligência o turbilhão emocional de seus personagens, atormentados não apenas pelos perigos que enfrentam dia-a-dia, mas também por suas próprias consciências. A atuação extraordinária de Andrew Garfield - que no mesmo ano foi indicado ao Oscar de melhor ator por outro poderoso desempenho, em "Até o último homem", dirigido por Mel Gibson - encontra apoio no roteiro corajoso de Scorsese e Jay Cocks, que não hesita em intercalar longos diálogos teológicos com sequências inteiras dotadas de um significativo silêncio. A edição suave de Thelma Schoonmaker rompe radicalmente com sua tradição de agilidade e nervosismo, entregando ao público uma narrativa linear e delicada que equilibra a força da história com a suavidade de seus protagonistas, lutando por um ideal de paz e tolerância em um mundo pouco disposto a lhes dar ouvidos. Scorsese passeia com sua câmera por um Japão medieval povoado por pessoas com medo de suas crenças e buscando apoio espiritual diante das atrocidades cometidas em nome de Deus, mas nunca deixa de dar espaço a questionamentos, evitando apontar heróis ou vilões - ainda que, logicamente, o ponto de vista cristão sobreponha-se a qualquer outro no decorrer da trama. Dono de uma fé inabalável mas jamais fechado a discussões a respeito de sua religião, Scorsese mais uma vez levanta questionamentos relevantes na tela de cinema - mas, mais uma vez, parece pregar no deserto.

O fracasso de bilheteria de "Silêncio" não diz respeito à sua qualidade como cinema - Scorsese dá mostras, mais uma vez, do brilhante artista que é em diversos momentos da projeção - mas sim a seu tema. Controvérsia nunca foi algo estranho ao diretor nova-iorquino, que não tem medo de arriscar seu prestígio em projetos potencialmente inflamáveis, mas falar de intolerância religiosa em uma época em que o terrorismo parece uma ameaça indissolúvel apenas afastou ainda mais as plateias que lotam as salas atrás de escapismo. Seu filme é violento - não ao estilo "Os mercenários", mas dotado de uma violência real e sufocante - e inteligente demais para o público médio, mal-acostumado e fútil. Não é uma obra-prima, se estande em demais e por vezes parece um tanto redundante. Mas é visceral, sensível e de extrema relevância, além de apresentar algumas cenas plasticamente deslumbrantes e atuações intensas e apaixonadas - e um final devastador. O tempo fará justiça à "Silêncio", mais um grande filme a figurar no currículo impecável de Martin Scorsese.

domingo

INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM

INSIDE LLEWYN DAVIS - BALADA DE UM HOMEM COMUM (Inside Llewyn Davis, 2013, CBS Films/StudioCanal, 104min) Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Bruno Delbonnel. Montagem: Roderick Jaynes. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Olivier Courson, Robert Graf, Ron Halpern. Produção: Ethan Coen, Joel Coen, Scott Rudin. Elenco: Oscar Isaac, Carey Mulligan, Justin Timberlake, Ethan Phillips, Max Casella, Adam Driver, John Goodman, Garrett Hedlund, F. Murray Abraham. Estreia: 19/5/13 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Fotografia, Mixagem de Som

Não adianta. Entra ano e sai ano, os irmãos Coen continuam sendo uma voz única (por mais paradoxal que seja a afirmação, uma vez que eles são dois) dentro da mesmice do cinema americano. Mesmo que por vezes aceitem fazer o jogo da indústria - com filmes mais comerciais, como "O amor custa caro" e "Queime depois de ler", que ainda assim tem um quê de rebeldia disfarçada pelos elencos estelares - eles nunca abrem mão de imprimir em cada trabalho uma personalidade que os diferenciam do mainstream. Mais uma prova disso - se é que precisa de mais uma - é o melancólico "Inside Llewyn Davis, balada de um homem comum", injustamente ignorado pela mesma Academia que encheu de louvores o fraco e previsível "Clube de compras Dallas". Repleto das qualidades que fazem da filmografia dos Coen uma das mais consistentes do cinema ianque desde sua estreia com a revisita ao filme noir "Gosto de sangue" (84), a odisseia do músico folk do título, vivido com intensidade crua pelo ótimo Oscar Isaac, é uma pérola de sensibilidade, humor negro e boa música, capaz de envolver a audiência sem precisar de grandes eventos dramáticos para isso.

Llewyn Davis, o protagonista, é um cantor folk sem lar, sem lenço e sem documento que transita pelo Greenwich Village de 1961, buscando uma chance de firmar-se na carreira depois do suicídio do parceiro artístico. Seguindo o vento, ele conta com a ajuda dos amigos para sobreviver sem um endereço fixo - mesmo que em várias ocasiões surjam conflitos sérios entre eles, especialmente com Jean (Carey Mulligan, mais uma vez ameaçando roubar a cena), namorada e parceira musical do talentoso Jim (o cantor Justin Timberlake acertando mais uma vez em sua carreira cinematográfica), que lhe revela estar grávida depois de um rápido e traumático caso. Sua vida itinerante o faz questionar frequentemente sua opção em tentar a vida artística, mas seu amor pela música sempre fala mais alto, mesmo quando tudo parece lhe gritar o contrário. Solitário e melancólico, ele vaga sem destino pelas ruas de Nova York - e Chicago - acompanhado apenas por um gato do qual nem sabe o nome e de seu violão, sua arma contra a mediocridade e a agressividade de um mundo hostil à sua presença quase invisível.





Tendo sua trajetória ilustrada pela excepcional trilha sonora supervisionada por T Bone Burnett (que fez o mesmo com "Coração louco", que deu o Oscar de melhor ator a Jeff Bridges em 2010) e iluminada magistralmente pela câmera do francês Bruno Delbonnell (merecidamente indicada a uma estatueta da Academia), que transforma cada cena em uma pequena obra de arte que reflete seu estado de espírito atormentado mas sempre inquebrantável, Llewyn Davis é mais um anti-heroi criado pelos irmãos Coen, um homem que, conforme destaca o desnecessário subtítulo nacional, é comum em seus sentimentos mas brilhante em sua tenacidade artística. Seus expressivos silêncios, seu olhar triste e a força de sua música - passional e potente - falam mais do que seus diálogos, repletos de um desamparo e de uma desesperança que contrastam com sua resiliência. Exímios roteiristas, os irmãos Coen preenchem seu filme ora com ataques agressivos ao protagonista - em especial quando se trata de Jean e sua metralhadora de ofensas - ora com um senso de humor negro sutil e inteligente. Em uma jogada de mestre, eles ainda dão a seu protagonista uma revelação bombástica, que pode (ou não) mudar drasticamente seu destino e fazem a escolha certa em relação à sua decisão de encará-la.


Brilhantemente interpretado por Oscar Isaac - ator nascido na Guatemala e que já foi visto mas pouco notado em filmes como "Drive" (onde fazia o marido de Carey Mulligan) e "W/E, o romance do século" (dirigido por Madonna) - Llewyn Davis passa o filme inteiro lutando contra os obstáculos de um cotidiano opressor e preto-e-branco contando apenas com sua quase implacável confiança em seu talento quase nunca devidamente reconhecido (e é diferente na vida real?). Passando por momentos ora surreais - como a carona com um desagradável John Goodman, colaborador habitual dos cineastas - ora de um tristeza quase tangível, o filme conquista pela sofisticação de sua narrativa e pela delicadeza estonteante de seu visual. É um pequeno grande filme que merece ser reconhecido como tal - nem que seja para provar que nem só de elaborados efeitos especiais vive o cinema americano.

segunda-feira

FRANCES HA

FRANCES HA (Frances Ha, 2012, RT Features/Pine Discrict Pictures, 86min) Direção: Noah Baumbach. Roteiro: Noah Baumbach, Greta Gerwig. Fotografia: Sam Levy. Montagem: Jennifer Lame. Direção de arte: Sam Lisenco. Produção executiva: Fernando Loureiro, Lourenço Sant'anna. Produção: Noah Baumbach, Scott Rudin, Rodrigo Teixeira, Lila Yacoub. Elenco: Greta Gerwig, Mickey Sumner, Michael Esper, Adam Driver, Grace Gummer. Estreia: 01/9/12 (Festival de Telluride)

Woody Allen encontra a Nouvelle Vague. O que parece no mínimo improvável é o que acontece em "Frances Ha", do cineasta independente Noah Baumbach, conhecido pelos dramas familiares "A lula e a baleia" e "A família Savage". Dessa vez com uma abordagem menos densa - mas nem por isso menos melancólica sob sua superfície descolada - Baumbach usa vários elementos do movimento do cinema francês dos anos 60 para contar a história de uma jovem comum buscando seu lugar no mundo - uma das principais diretrizes das obras de cineastas como Truffaut e Godard, que viravam suas câmeras para anti-heróis que tinham como principal qualidade a normalidade. Frances, a protagonista interpretada pela corroteirista Greta Gerwig, é simples em suas atitudes, mas conquista a simpatia do espectador justamente por isso.

Trabalhando em uma companhia de dança - na qual pretende se estabelecer como professora, apesar de não ter talentos especiais para isso - e dividindo um apartamento com a melhor amiga, Sophie (Mickey Sumner), com quem mantém uma relação de adoração e plena confiança, Frances não é espetacularmente dotada, não é linda, luta com suas finanças e é quase frustrada profissionalmente. Depois de terminar um namoro não particularmente caloroso por não querer abandonar Sophie, ela vê sua rotina alterada quando é a amiga que lhe deixa sozinha, preferindo morar em outro bairro. Enquanto pula de casa em casa tentando encontrar um lugar para encaixar-se, ela busca também encontrar-se como pessoa, nunca perdendo, porém, seu jeito próprio e leve de encarar os problemas.


Fotografado em um preto-e-branco que tanto cria a nostalgia buscada pelo diretor como remete mais uma vez à nouvelle vague, "Frances Ha" tem na simplicidade uma de suas maiores qualidades. O roteiro é direto, fácil e objetivo, com um senso de humor inteligente e sutil, mesmo quando entra no terreno complexo dos relacionamentos interpessoais - daí a comparação ao cinema de Woody Allen. Frances é engraçada, desajeitada e romântica em sua busca quixotesca por uma felicidade que nem ela mesma sabe onde está, o que facilita muito a empatia do público. Interpretada por uma promissora Greta Gerwig - que usa em sua personagem muito de sua própria personalidade, como a cidade natal - é uma personagem encantadora como há muito o cinema americano não apresentava e a indicação de Gerwig ao Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical foi apenas o primeiro passo em direção a uma carreira que tem tudo para ser bem-sucedida em um futuro próximo.

No final das contas é impossível não se deixar seduzir pela beleza singela e delicada de "Frances Ha", uma pequena - menos de 90 minutos - mas intensa pérola que é o melhor filme de Baumbach justamente por não ter grandes pretensões. Forjando como sempre uma história sobre gente como a gente, o cineasta faz um gol de placa com um filme simples como a vida deveria ser. E tem como não simpatizar com um filme que se utiliza de "Modern love", o hino de David Bowie, como parte fundamental da narrativa?

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...