Mostrando postagens com marcador WILLIAM FRIEDKIN. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador WILLIAM FRIEDKIN. Mostrar todas as postagens

segunda-feira

JADE

 


JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Augie Hess. Música: James Horner. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Alex Tavoularis/Gary Fettis. Produção executiva: William J. MacDonald. Produção: Gary Adelson, Craig Baumgarten, Robert Evans, Christine Peters. Elenco: David Caruso, Linda Fiorentino, Chazz Palminteri, Richard Crenna, Michael Biehn, Donna Murphy, Angie Everhart. Estreia: 13/10/95

Vencedor do Oscar de melhor diretor por "Operação França" (1971) - que também levou a estatueta de melhor filme - e o nome por trás do estrondoso sucesso de "O exorcista" (1973), William Friedkin declarou, em uma entrevista, que dentre todos os seus trabalhos, o seu favorito era "Jade", lançado em 1995. Das duas uma: ou o veterano cineasta buscava reacender as polêmicas em torno do filme ou estava seriamente fora de seu juízo perfeito. Medíocre, quase amador e constrangedor em suas tentativas de soar sexy ou transgressor, a produção estrelada por David Caruso e Linda Fiorentino naufragou fragorosamente nas bilheterias - custou cerca de 50 milhões de dólares e rendeu menos de 10 - e praticamente enterrou a carreira de seu astro, vindo da bem-sucedida série de televisão "Nova York contra o crime" e que, com dois fracassos consecutivos (o outro foi "O beijo da morte", que estreou poucos meses antes), chegou a pensar em abandonar Hollywood. Parte de uma série de produções da primeira metade da década de 1990 que apostavam no erotismo para chamar a atenção das plateias, "Jade" demonstrou, sem espaço para dúvidas, o desgaste da fórmula - e o fato de ter um elenco sem carisma e uma história fraca ajudou (e muito) em sua pouca repercussão.

Apesar de o roteirista de "Jade" ser o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem" (1992) - o enorme sucesso popular que deu início ao boom do gênero - e de sua estrutura ter similaridades bastante óbvias, o filme de Friedkin sofre com a apatia de seu protagonista masculino (tanto o personagem quanto o ator, David Caruso), a sensualidade pouco atraente de sua estrela feminina (Linda Fiorentino sem repetir o êxito de sua performance avassaladora em "O poder da sedução") e a direção quase preguiçosa de William Friedkin - também responsável pelas constantes alterações no roteiro, provável motivo da fragilidade do produto final. Mesmo nas sequências de ação, o cineasta fica longe de demonstrar a segurança vista, por exemplo, em "Operação França" - as perseguições automobilísticas soam repetitivas e são incapazes de empolgar o público, além de parecerem completamente deslocadas da trama (confusa, desinteressante e, pior de tudo, totalmente artificial em suas tentativas de parecer sensual).

 

Assim como em "Instinto selvagem" e "Corpo em evidência" (1992) - estrelado por Madonna e igualmente amparado em sexo e violência -, "Jade" começa com um violento assassinato relacionado a aventuras eróticas. A vítima é um proeminente empresário, morto a golpes de machado. Durante a investigação, a equipe liderada pelo procurador assistente de São Francisco, David Corelli (David Caruso), encontra uma série de fotos do governador do estado, Lew Edwards (Richard Crenna), mantendo relações com uma prostituta chamada Patrice Jacinto (Angie Everhart). Interrogada pela polícia, Patrice revela que o morto mediava encontros de garotas de programa com homens ricos da região e que a mais desejada dentre todas era uma mulher com o nome de guerra de Jade - uma profissional conhecida por realizar todos os desejos de seus clientes, por mais bizarros que possam ser. Novas pistas, porém, levam a Katrina Gavin (Linda Fiorentino), respeitada psicóloga clínica casada com o advogado Matt Gavin (Chazz Palmiteri em papel oferecido a Kenneth Branagh) - Katrina é Jade, uma personalidade que lhe permite atingir o prazer sexual, e tal revelação leva o próprio Corelli a suspeitar de sua inocência, por mais que isso lhe incomode pessoalmente: ele não apenas é amigo íntimo de Gavin como também é completamente apaixonado pela principal suspeita do caso.

A trama pouco verossímil de "Jade" - assim como seu ritmo pouco convidativo e o desenvolvimento precário de seus personagens - colabora com a sensação de filme feito às pressas, sem cuidado com questões cruciais de roteiro e pós-produção. Além de esteticamente decepcionante - nem mesmo as cenas de sexo são minimamente excitantes - e transmitir uma aura de filme B, o trabalho de Friedkin sofre com um elenco fraquíssimo, incapaz das menores nuances de realismo. Caruso - inexpressivo como poucos -, ficou com o papel recusado por Warren Beatty (!!!) e Fiorentino, vinda dos elogios unânimes por "O poder da sedução" - onde pintava e bordava com sua sexualidade franca e amoral -, é subaproveitada, sem ter seu carisma explorado a contento. Escalada para um papel em que praticamente toda Hollywood foi considerada - das óbvias Sharon Stone, Madonna e Demi Moore às mais ousadas possibilidades Nicole Kidman, Jodie Foster e Julia Roberts -, ela acabou por sofrer as consequências do fracasso da produção: de estrela promissora, passou a figurar em uma lista de coadjuvantes pouco lembrados (apesar de ainda obter sucesso como o principal nome feminino de "Homens de preto", de 1997). Já o caso de David Caruso foi quase pior: depois de dois grandes fiascos seguidos, tomou parte de algumas produções obscuras e só retornou ao relativo prestígio em 2002, quando assumiu o papel principal de "CSI: Miami".

Esquecível e quase constrangedor, "Jade" é uma mancha na carreira de William Friedkin, apesar de sua opinião contrária. Talvez sirva para madrugadas insones - mas mesmo assim só se não houver mais nenhuma opção.

PARCEIROS DA NOITE

PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980, United Artists, 102min) Direção: William Friedkin. Roteiro: William Friedkin, romance de Gerald Walker. Fotografia: James Contner. Montagem: Bud Smith. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Robert deMora. Direção de arte/cenários: Bruce Weintraub/Robert Drumheller. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen, Richard Cox, Don Scardino, Jay Acovone, Joe Spinell, James Remar. Estreia: 08/02/80

Parece coisa de ficção, mas consta que é a mais pura verdade: em 1972, quando estava filmando "O exorcista" - que se tornaria um dos filmes de terror mais bem-sucedidos da história do cinema - o cineasta William Friedkin utilizou-se de um radiologista de verdade para uma cena em que a jovem protagonista, vivida por Linda Blair, passava por uma bateria de exames para diagnosticar seu problema (que, como todo mundo que assistiu ao filme sabe, era o demônio em pessoa). O assistente do tal radiologista, um rapaz chamado Paul Bateson, acabou preso, alguns anos depois, acusado de ter assassinado o amante, o crítico de cinema Addison Verrill. Em 1979, durante a fase de pesquisa para seu filme "Parceiros da noite" - baseado em um romance de Gerald Walker, por sua vez baseado no caso real de um serial killer que, no período 1962-1979, depois de fazer suas vítimas, frequentadores do submundo gay nova-iorquino, desovava partes de seus corpos em sacolas plásticas no Rio Hudson - o diretor resolveu conversar com Bateson, na tentativa de entender um pouco mais sobre a mentalidade de um criminoso como ele. O que Friedkin não poderia sequer imaginar é que Bateson - mais tarde condenado à prisão perpétua - sempre deu a entender, em seu período na prisão, de que ele era também o real assassino que deu origem ao livro de Walker. Por uma incrível coincidência, o vencedor do Oscar de melhor direção por "Operação França" (71) trabalhou, ainda que por um breve período de tempo, com o homem que seria a base para o mais polêmico e complicado trabalho de sua carreira.

Logo que o projeto de "Parceiros da noite" surgiu no horizonte chamou para si a fúria de todos os setores da sociedade norte-americana. Dos republicanos mais ferrenhos aos militantes mais ferozes do movimento LGBT, todo mundo parecia disposto a apedrejar o filme antes mesmo de sua estreia. A comunidade gay organizava piquetes para atrapalhar as filmagens, clamando contra o que considerava um retrato preconceituoso e tendencioso. Os grandes estúdios de Hollywood, por sua vez, recusavam financiar uma produção que obviamente causaria mais controvérsia do que bilheteria - filmes de temática gay invariavelmente fracassavam comercialmente em um país à beira de uma onda de conservadorismo que encontraria no vírus da AIDS (noticiado pela primeira vez um ano após sua estreia) um pretexto mais do que perfeito para sua ideologia. Entre idas e vindas, a ideia de traduzir para as telas o romance de Walker passou pelas mãos de diversos diretores - Brian De Palma (que apesar de interessado não conseguiu os direitos de produção e foi fazer "Vestida para matar"), o alternativo Paul Morrissey (que queria Jeff Bridges no papel principal) e até (pasmem!!) Steven Spielberg, já consagrado por "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau", mas antes de "Caçadores da Arca Perdida" e "E.T.: o extra-terrestre", que só pulou fora por causa da alta de apoio dos estúdios - e, mesmo com Friedkin no comando, demorou a encontrar um protagonista de peso. O cineasta queria o então novato Richard Gere e chegou a convidar Robert De Niro e Roy Scheider para o elenco, mas foi Al Pacino, então em alta graças a sucessivas indicações ao Oscar, quem ficou com um dos papéis mais polêmicos de sua trajetória artística - e que precipitou uma pausa estratégica pouco tempo depois.


Fracasso de bilheteria e de crítica - chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro - e atacado sem piedade por todos os lados, "Parceiros da noite" é um filme que merece uma revisão. Se recusando a tornar mais palatável o universo sombrio e por vezes chocante de uma parte do submundo gay - no caso, os clubes sadomasoquistas - o roteiro de Friedkin mergulha o espectador em sequências sufocantes, quase claustrofóbicas, filmadas com uma aspereza quase documental (não à toa, seu diretor de fotografia, James Contner, pensou em apelar para o preto-e-branco). Pouco afeito a melindres desnecessários, Friedkin não poupa a plateia de cenas que retratam, com o máximo de realismo permitido a uma produção que se pretendia comercial, a rotina de frequentadores de bares homossexuais da Nova York do final da década de 70. Funcionando quase como um voyeur, o público penetra em salas escuras, onde o perigo pode estar em qualquer canto - algo assim como Richard Brooks fez com os bares de solteiros em "À procura de Mr. Goodbar" (77), em que Diane Keaton desafiava o perigo em encontros casuais com estranhos. Para isso, ele se utiliza do ponto de vista de seu protagonista, o policial Steve Burns, que se vê diante de um mundo novo (e ao mesmo tempo fascinante e grotesco) quando é escalado para caçar um serial killer que vem fazendo suas vítimas entre os frequentadores desses locais.

Escolhido para a missão por ter o tipo físico das vítimas, Burns aceita servir de isca para que a polícia de Nova York encontre o criminoso, e, para isso, passa a frequentar assiduamente bares e clubes noturnos voltados à prática específica de sadomasoquismo. Escondendo a missão até mesmo da namorada, Nancy (Karen Allen), ele se envolve gradualmente com a situação, testemunhando a forma como a própria polícia trata a comunidade homossexual e participando, sem querer, da vida de um novo vizinho, que sofre com os ciúmes do namorado violento. Abalado com o andamento das investigações, Burns inicia um lento processo de desconstrução de si mesmo - que acarreta até mesmo dúvidas a respeito de sua própria sexualidade. E é nesse tom dúbio de um protagonista complexo e multifacetado que William Friedkin mostra sua coragem: às vésperas de entrar em um período de extremo puritanismo, o público dos EUA realmente não tinha como abraçar um filme como "Parceiros da noite". Não apenas por sua violência, por mostrar uma sexualidade alternativa que repudiava o estereótipo ou por colocar um ator popular como Al Pacino no centro da narrativa, mas sim por ousar eleger como protagonista um policial que que destoa radicalmente do herói com que a plateia já estava acostumada no gênero. Embaralhando suas cartas com pistas falsas, mesnagens subliminares e um final em aberto que deixa qualquer um pensando por muito tempo após a sessão, Friedkin mostra que um filme policial não precisa necessariamente abrir mãos dos clichês para provocar e instigar. A estrutura do seu roteiro é simples - apresentação, desenvolvimento, desfecho - e não há maiores ousadias visuais. O que o eleva a um patamar acima de seus congêneres é a inteligência de buscar algo mais do que simplesmente apresentar um jogo de gato e rato: "Parceiros da noite" é desconfortável, tenso e, levando-se em consideração que já tem quase quatro décadas, um filme à frente de seu tempo. Pode parecer datado em alguns momentos, mas ainda é forte o bastante para resistir à passagem dos anos.

terça-feira

KILLER JOE - MATADOR DE ALUGUEL

KILLER JOE, MATADOR DE ALUGUEL (Killer Joe, 2011, Voltage Pictures, 98min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de Tracy Letts. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Darrin Navarro. Música: Tyler Bates. Figurino: Peggy Schnitzer. Direção de arte/cenários: Franco Giacomo-Carbone/Alice Baker. Produção executiva: Vicki Cherkas, Molly Conners, Zev Foreman, Roman Viaris, Christopher Woodrow. Produção: Nicolas Chartier, Scott Einbinder. Elenco: Matthew McConaughey, Emile Hirsch, Thomas Haden Church, Gina Gershon, Juno Temple. Estreia: 08/9/11 (Festival de Veneza)

William Friedkin tinha 77 anos de idade quando dirigiu "Killer Joe, matador de aluguel", sua segunda incursão no universo teatral do ator e dramaturgo Tracy Letts, de quem já havia adaptado o suspense psicológico "Possuídos", em 2006.  A menção da idade do cineasta não é gratuita: mesmo perto de completar oito décadas de vida - metade dela dedicada à sétima arte - o homem por trás de sucessos de bilheteria e crítica como "Operação França" (71) e "O exorcista" (73) demonstra invejável energia e um mórbido senso de humor em uma trama regada à violência extrema, sensualidade mórbida e uma amoralidade de arrepiar os cabelos dos conservadores de plantão. Não à toa, foi um dos primeiros filmes a empurrar o ator Matthew McConaughey em direção ao prestígio que culminou com seu Oscar por "Clube de compras Dallas", lançado dois anos depois. Na pele de um assassino de aluguel sem vestígios de ética ou moral, o ex-galã de comédias românticas bobas e despretensiosas se despe de qualquer preconceito e entrega uma atuação corajosa e visceral, infelizmente ignorada pelas cerimônias de premiação justamente por sua ousadia.

McConaughey o personagem-título, um detetive de polícia que complementa (e muito) a renda fazendo servicinhos extras, como assassinar pessoas. Ele é procurado pelo desesperado Chris Smith (Emile Hirsch, cada vez melhor e mais intenso), que, acumulando dívidas de jogo com bandidos pouco cerimoniosos na hora de cobrar o que lhes é devido, precisa urgentemente de sua parte no seguro de vida de sua mãe, com quem tem uma relação pouco amistosa. Para contratar Joe, o rapaz convence a fazer parte do plano seu próprio pai, Ansel (Thomas Haden Church) - separado há anos da futura vítima e agora casado com a vulgar Sharla (Gina Gershon) - e sua irmã caçula, Dottie (Juno Temple), a beneficiária do seguro. Sem grana para pagar o adiantamento ao estranho assassino, Chris e Ansel aceitam oferecer-lhe como garantia a ingênua Dottie, por quem ele sente uma irresistível atração quase pedófila, mas as coisas, como se poderia esperar, saem do controle antes mesmo que eles decidam mudar de ideia a respeito do nefasto plano.


Sem poupar a audiência de uma violência rara e realista cada vez mais rara no anêmico cinema comercial americano, Friedkin também mergulha fundo em uma sexualidade perturbadora, explorando o relacionamento doentio entre Joe e Dottie - uma menina que, além de mais jovem tem perceptíveis problemas mentais - em cenas de deixar qualquer espectador mais conservador arrepiado de indignação. Sem hesitação em deixar seus atores vulneráveis (e portanto totalmente entregues a seus personagens), o veterano cineasta arranca de todos performances memoráveis, com um roteiro que abdica de um heroi, elegendo como protagonista um homem que, a despeito de sua profissão e preferências sexuais, tem um código de ética mais rígido do que qualquer integrante da família que o contrata. No entanto, por incrível que pareça, a falta de qualquer limite moral dos personagens criados por Letts - e sua consequente nulidade em conquistar a identificação da plateia - acaba sendo um de seus maiores trunfos: desobrigada de qualquer simpatia com Chris, Joe e demais envolvidos na trama, a audiência acaba por testemunhar suas desventuras com o distanciamento ideal, só rompido com a insistência de Friedkin em encharcar a tela de sangue e uma crueldade que chega às raias do humor negro - constatação que fica ainda mais evidente em seu clímax.

Comentado desde a estreia do filme no Festival de Veneza, o desfecho de "Killer Joe", quando todos os personagens são confrontados com verdades pouco confortáveis que levam a um banho de sangue de dar inveja a Quentin Tarantino e seus seguidores menos talentosos, é, no mínimo, desconfortável. Basta dizer que uma coxinha de frango frita nunca mais será vista da mesma forma depois do final da sessão - não à toa, um dos cartazes do filme estampava uma, em mais uma brincadeira ousada dos realizadores. Sem medo de ferir suscetibilidades e apostando na vontade do público em ser surpreendido e tratado como adulto, o trabalho de Friedkin é um dos policiais mais tensos, brutais e potentes de sua época. Coisa de quem sabe o que está fazendo.

quarta-feira

OS RAPAZES DA BANDA

OS RAPAZES DA BANDA (The boys in the band, 1970, Cinema Center Films, 118min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Mart Crowley, peça teatral homônima de sua autoria. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Gerald Greenberg, Carl Lerner. Figurino: W. Robert La Vine. Direção de arte/cenários: John Robert Lloyd/Phil Smith. Produção executiva: Dominick Dunne, Robert Jiras. Produção: Mart Crowley. Elenco: Kenneth Nelson, Frederick Combs, Cliff Gorman, Laurence Luckinbill, Keith Prentice, Peter White, Reuben Greene, Robert La Tourneaux, Leonard Frey. Estreia: 17/3/70

Aqueles que conhecem o William Friedkin cinemático de "Operação França"(71) - que lhe rendeu um Oscar - e "O exorcista"(73) - um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos - talvez tomem um susto ao dar de cara com "Os rapazes da banda", realizado por ele um pouco antes de tornar-se um dos mais confiáveis cineastas comerciais de Hollywood. O possível susto não é devido à qualidade do filme - uma adaptação febril de um sucesso da Broadway - mas sim a seu assunto. Em uma América pré-AIDS e muito antes da onda de correção política e certa liberalidade temática no cinema americano, "Os rapazes da banda" é um retrato sem filtros e sem medo da polêmica do estilo de vida gay do final da década de 60, ainda que centrado em um grupo de personagens que dificilmente podem ser chamados de simpáticos e/ou agradáveis. Controverso justamente por apresentar gays em severas crises de identidade e em um tom de agressividade comparável a "Quem tem medo de Virginia Woolf" - a peça de Edward Albee e o filme de Mike Nichols - o filme acabou por ser defendido por Friedkin com uma frase que deixa explícito o que se pode esperar da trama: "Eu espero que haja homossexuais felizes. Eles apenas não estão no meu filme."

E, realmente, feliz é o último adjetivo que pode ser aplicado a qualquer um dos personagens da peça de Mart Crowley, que chegou às telas com o mesmo elenco da produção teatral, fato raro mas exigido pelo produtor/autor. Todos os personagens retratados em cena sofrem de algum tipo de problema pessoal, em maior ou menor grau, o que vai ficando mais e mais claro conforme a história vai se desenrolando. Como acontece normalmente em um bom texto teatral, cada personagem vai se revelando gradualmente até o clímax, onde diversas catarses finalmente os fazem deixar cair as máscaras que porventura ainda estivessem usando mesmo em um ambiente amigável. E seguindo o texto ao pé da letra, Friedkin dirige seus atores praticamente com uma lente de aumento, captando cada nuance, cada sorriso ambíguo e cada fantasma de dentro de cada um com sensibilidade e neutralidade. Essa ausência de um julgamento moral é que faz do filme o sucesso que ele é em termos dramáticos: por mais desprezíveis que alguns atos sejam ou pareçam, pela lente de Friedkin eles se transformam em atitudes perdoáveis, por um motivo ou outro.

A trama se passa durante uma única noite, no apartamento de Michael (Kenneth Nelson), um duplex com terraço localizado em Nova York. É aniversário do venenoso Harold (Leonard Frey), um de seus melhores amigos, e Michael reúne um grupo de amigos, todos homossexuais - ou, como ele mesmo descreve, "um grupo de sete rainhas escandalosas" - para a comemoração. O que deveria ser apenas uma noite comum regada a bebida, música disco e risadas - incrementadas pela presença de um jovem michê imitando Jon Voight em "Perdidos na noite" (Robert La Tourneaux) - se transforma repentinamente em uma sessão de análise indesejada com a presença de Alan (Peter White), um colega de faculdade de Michael, que se diz heterossexual e, com seu preconceito, deflagra uma violenta reação por parte do anfitrião - que tem sérias dúvidas a respeito da sexualidade do antigo amigo. Conforme a noite vai avançando (e com uma tempestade os impedindo de sair do local), Michael sugere um jogo que vai definitivamente selar o destino de todos os convidados. É assim que o casal formado pelo promíscuo Larry (Keith Prentice) e pelo sério Hank (Laurence Luckinbill) - que acabou de divorciar-se por amor ao novo parceiro - põe em pratos limpos sua relação, o afeminado Emory (Cliff Gorman) e o discreto Bernard (Reuben Greene) revelam as frustrações amorosas que os assombram e Harold finalmente põe Michael contra a parede, obrigando-o a lidar com suas próprias dúvidas a respeito de sua vida sexual. Nem mesmo o pretenso heterossexual Alan escapa impunemente do desvario da histeria de Michael.


Servindo quase como o olhar da audiência, é o discreto Donald (Frederick Combs) quem permanece incólume frente à tempestade, testemunhando a deteriorização da noite festiva em um velório de silêncios mortos que ressuscitam violentamente. O ato final do filme, que substitui o humor ferino e mordaz de seu começo - que faz o público rir com tiradas repletas de um sarcasmo tipicamente gay - serve como palco para seus atores demonstrarem seus dotes dramáticos, até então mantidos em fogo brando. Ironicamente, cinco dos atores centrais do filme morreram de AIDS até o início da década de 90, o que dá à obra um tom ainda mais urgente, mais contundente e mais triste. Os homossexuais retratados na história, como bem disse Friedkin, não são aqueles homossexuais normalmente frequentes nas telas de cinema - nem à época nem agora. Mesmo que Emory pareça o alívio cômico da trama com seus trejeitos exagerados e Harold pontue o roteiro com tiradas genialmente irônicas - "Eu sou uma bicha judia feia de 32 anos, com a cara esburacada, e que precisa de horas para decidir se vale a pena por a cara na rua!" - o tom geral do filme é de desilusão, de melancolia, como se fosse uma espécie de previsão dos anos torturantes que a comunidade encararia em pouco tempo, com a epidemia da AIDS batendo à porta violentamente. E é mérito do cineasta e de seu elenco que tudo não seja ainda mais deprimente.

"Os rapazes da banda" não é exatamente um retrato fiel do mundo gay em geral. Fugindo da generalização ao fazer um recorte muito específico de um grupo quase homogêneo - sem se preocupar com outras várias nuances do povo homossexual - o roteiro faz um jogo de contrastes entre aparências e a realidade que poderia facilmente se passar em universo heteronormativo sem maiores prejuízos. O cerne da trama - os conflitos interiores e as lutas pessoais contra os instintos e a favor da individualidade - é forte o bastante para conquistar espectadores de quaisquer orientações sexuais. E Friedkin, que aqui mostra uma direção segura que amadureceria ainda mais em seus filmes seguintes, voltaria à temática gay uma outra vez mais na carreira - e novamente causando polêmica - com o policial "Parceiros da noite". Outro enfoque, mas novamente um filme instigante e marcante.

sábado

O EXORCISTA


O EXORCISTA (The exorcist, 1973, Warner Bros Pictures, 132min) Direção: William Friedkind. Roteiro: William Peter Blatty, baseado em seu romance homônimo. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Norman Gay, Evan Lottman. Figurino: Joe Fretwell. Direção de arte/cenários: Bill Malley/Jerry Wunderlich. Casting: Louis DiGiamo, Nessa Hyams, Juliet Taylor. Produção executiva: Noel Marshall. Produção: William Peter Blatty. Elenco: Ellen Burstyn, Max Von Sydow, Lee J. Cobb, Jason Miller, Linda Blair, Jack MacGowran, Kitty Winn. Estreia: 26/12/73

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Friedkin), Atriz (Ellen Burstyn), Ator Coadjuvante (Jason Miller), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Roteiro Adaptado, Som
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Friedkin), Atriz Coadjuvante (Linda Blair), Roteiro


Ao ganhar um prêmio de 10 mil dólares em um programa apresentado por Groucho Marx, um desconhecido chamado William Peter Blatty declarou que, com o dinheiro, ele tiraria um tempo de folga para escrever um romance. Publicado anos depois, este romance, chamado "O exorcista" assustaria milhares de pessoas, e não só através das palavras. Produzido pela Warner Bros e com produção e roteiro do próprio autor, "O exorcista" tornou-se um dos filmes de maior bilheteria da história do estúdio, ganhando em seguida, continuações, prequels e várias revisões, sempre com qualidade inferior.

Normalmente relegados a um inestimado segundo plano dentro da indústria cinematográfica, raramente os filmes de terror conseguem sair de dentro de seu gueto de fãs aficcionados e atingir não só uma plateia mais ampla mas também o reconhecimento devido junto à crítica. Por isso, não deixa de ser um fenômeno que "O exorcista" tenha conseguido essa façanha de forma tão absoluta e inegável. Incensado pela crítica e vencedor de 4 Golden Globes (inclusive melhor drama e diretor), logo a obra dirigida pelo mesmo William Friedkin do elogiado "Operação França" arrebataria surpreendentes 10 indicações ao Oscar, em especial nas categorias principais, tornando-se o primeiro filme de terror da história a conquistar tal honra. Não saiu vitorioso (o prêmio ficou com "Golpe de mestre"), mas, com milhões e milhões de dólares abarrotando seus cofres, a Warner definitivamente não tinha do que reclamar.

"O exorcista" se passa em Washington, onde a atriz Chris McNeil (Ellen Burstyn) está fazendo seu novo filme. Nos seus momentos livres, ela fica ao lado da filha adolescente Regan (Linda Blair) e dos colegas de produção. A relativa paz que reina entre ela e a filha começa a dar sinais de alarme quando a menina, normalmente doce e compassiva, começa a agir estranhamente: de uma hora pra outra, Regan começa a dizer palavrões, a comportar-se de forma agressiva e reclamar que sua cama fica pulando. Vários exames médicos depois, nada parece estar resolvido e as coisas ficam ainda piores. Inúmeros acontecimentos violentos e bizarros depois levam Chris a chegar à conclusão, com a ajuda do jovem Padre Karras (Jason Miller) - que trabalha com psicologia e está em uma crise de fé por causa da morte da mãe - que sua filha está possuida por um demônio. A única solução para o caso, seria, então, um exorcismo. A Igreja chama, para isso, o conceituado Padre Merrin (Max Von Sydow), que acaba de voltar aos EUA depois de uma escavação no Iraque.


Filmado em 224 dias (em oposição a seu cronograma inicial de 85), "O exorcista", assim como todos os filmes da época, foi objeto de muita especulação antes de ser produzido, com muitos nomes de Hollywood envolvidos - ou apenas citados - como possíveis colaboradores. Antes que William Friedkin assumisse o posto de diretor, por exemplo, nomes como John Boorman e Stanley Kubrick foram cogitados para o posto - Kubrick não acertou com o estúdio porque queria produzir ele mesmo o filme Boorman recusou porque o roteiro era "muito cruel com uma criança", o que não o impediu de, quatro anos depois, sentar-se na cadeira de diretor de sua bem inferior continuação.

Para a pele de Chris McNeil, nomes importantes foram considerados. Jane Fonda e Shirley MacLaine se interessaram pelo roteiro. Audrey Hepburn quis fazê-lo, mas somente se fosse filmado em Roma. E Anne Bancroft abandonou o barco devido a sua primeira gravidez. Até mesmo o nome de Debbie Reynolds foi cogitado, com sua filha Carrie Fisher (que em seguida atingiria a fama como a Princesa Leia de "Star Wars") vivendo Regan. Mas é inegável que a contratação de Ellen Burstyn foi acertada. Às vésperas de ganhar um Oscar por "Alice não mora mais aqui" (lançado em 1974), Burstyn entrega uma atuação visceral e desesperada, que exigiu dela fortes doses de emoção e trabalho físico (ela chegou a machucar seriamente a coluna durante um take).

Para viver o veterano Padre Merrin a coisa também não foi diferente. Marlon Brando poderia ter interpretado o papel que foi de Max Von Sydow, mas os produtores acharam - com razão, diga-se de passagem - que a presença de Brando no elenco faria de "O exorcista" um "filme de Marlon Brando" antes de qualquer outra coisa, o que não os interessava. E para viver o jovem Padre Karras, nomes fortes como Gene Hackman e Jack Nicholson foram sondados. Dá pra imaginar como tudo ficaria com esse elenco de sonhos??

Mesmo que os créditos de "O exorcista" não tenha sido repleto de astros, é impossível negar que as opções dos produtores não poderiam ter sido melhores. Rígido e decidido, William Friedkin foi o diretor ideal do filme, fazendo prevalecer sua visão desde o início das filmagens. Max Von Sydow e Jason Miller (pai do ator Jason Patric) equilibram com perfeição as dualidades de suas personagens religiosas. E Linda Blair demonstra, aos 14 anos, que sabe interpretar como gente grande, o que seu Golden Globe e a indicação ao Oscar comprovaram, apesar das dúvidas suscitadas pela atriz Mercedes McCambridge depois dos elogios ao filme. McCambridge foi a responsável pela voz do demônio encarnado em Regan e alegou que merecia tanta glória quanto a adolescente. Coisas de Hollywood!

"O exorcista" é brilhante! Assustador como poucos, é um filme que conta sua história sem pressa, sem correria. Até que Regan comece realmente a demonstrar os efeitos da possessão em seu corpo passa-se quase uma hora, onde o roteiro trabalha com eficiência as personalidades das personagens envolvidas na questão. A subtrama que envolve o Padre Karras e seu questionamento da fé mostra-se essencial à história central, assim como a primeira sequência no Iraque, onde o Padre Merrin tem seu primeiro contato com o demônio que irá exorcisar tempos depois - aliás, é sensacional a maneira com que Friedkin acusa a presença do mal nas cenas. No Iraque, dois cães começam a brigar, assim como duas crianças no hospital onde Regan é examinada, o que amplia a tensão nas cenas. E a edição especial - com 11 minutos a mais do que a versão lançada em 1973 - acrescenta rápidas imagens do mal inseridas entre as cenas, no melhor estilo "piscou, perdeu", o que dá um clima mais do que propício à tensão criada pela música e pela fotografia majestosa de Owen Roizman. E isso que nem é preciso falar dos inúmeros acontecimentos quase inexplicáveis ocorridos durante as filmagens e dissecados em extraordinário documentário sobre a produção infelizmente disponível no Brasil apenas em VHS (é de apavorar tanto quanto o filme em si!!)

Assistir a "O exorcista" hoje ainda é extremamente impressionante! Poucas vezes o cinema de horror foi tão a fundo - e tão gráfico - em investigar o mal. Apesar de nunca poupar o espectador, ele jamais ultrapassa os limites do que é verdadeiramente útil para contar sua história, sem apelar para sustos desnecessários. Um exemplo a ser seguido pelos Eli Roth da vida...

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...