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quinta-feira

A MARCA DA MALDADE

A MARCA DA MALDADE (Touch of evil, 1958, Universal Pictures, 95min) Direção: Orson Welles. Roteiro: Orson Welles, romance "Badge of evil", de Whit Masterson. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Aaron Stell, Virgil Vogel. Música: Henry Mancini. Figurino: Bill Thomas. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy, Alexander Golitzen/John P. Austin, Russell A. Gausman. Produção: Albert Zugsmith. Elenco: Charlton Heston, Janet Leigh, Orson Welles, Marlene Dietrich, Joseph Calleia, Akim Tamiroff, Joanna Moore. Estreia: 23/4/58

Em uma cena do filme “Ed Wood” (94), dirigido por Tim Burton, o protagonista – conhecido pela alcunha pouco lisonjeira de “o pior diretor de todos os tempos” – encontra um arrasado Orson Welles sentado em uma mesa de bar, afogando as mágoas. Em uma rápida conversa, o cineasta considerado gênio já em seu filme de estreia, o incensado “Cidadão Kane” (41), reclama dos rumos de sua carreira, enfatizando que está em vias de começar um filme em que Charlton Heston fará o papel de um mexicano (!!). A conversa entre os dois cineastas (separados pela diferença de talento mas unidos pela paixão com que desenvolviam seus filmes) provavelmente nunca aconteceu, mas é bastante ilustrativa: tanto Wood, com seus filmes de fundo de quintal, como Welles, com obras-primas como “Soberba” (42), sofreram nas mãos dos produtores, que, passando por cima de qualquer ambição autoral de ambos, não hesitavam em impor suas próprias ideais acerca dos resultados finais. No caso de Wood, o problema até não era tão grande – quase ninguém assistia a seus filmes, sempre tidos como o mais absoluto exemplo de cinema trash – mas Welles realmente tinha do que se queixar. Desde que se tornou o gênio mais admirado de Hollywood por seu primeiro filme, o diretor caiu em desgraça junto aos estúdios, que, não sabendo lidar com sua personalidade forte, passaram a interferir ferozmente em seus trabalhos seguintes. Mesmo com o apoio de nomes de peso da indústria a seu lado – como a estrela Rita Hayworth, com quem era casado durante as filmagens de “A dama de Shangai” (42) – seu brilhantismo não era o suficiente para que ele mantivesse uma carreira sólida e estável.

“A marca da maldade” – o tal filme com Charlton Heston no papel de mexicano – é um perfeito exemplo dessa intromissão dos estúdios no trabalho do cineasta, que renegou a versão final imposta pelo estúdio à época de sua estreia, com alterações em número suficiente para que ele mesmo deixasse uma carta com informações expressas de sua visão do filme. Tal carta, de posse do ator Charlton Heston até o final da década de 90, serviu de guia para uma nova montagem, que seguia à risca suas orientações e estreou, já com aura de clássico injustiçado, em 1998. De pequenos detalhes – como a mudança dos créditos para o final do filme, como forma de não prejudicar o belo plano-sequência de abertura, com três minutos de duração – até outras modificações mais ligadas à edição, as novidades acabaram por dar ao filme um ritmo mais interessante e um tom ainda mais sombrio e pessimista – coisas que a Universal, obviamente, não considerava comerciais. Aliás, até mesmo a simples presença de Welles como ator (papel para o qual foi exclusivamente contratado no início do projeto) já era algo temerário, uma vez que, apesar de sua fama de gênio, seu nome não era necessariamente um chamariz de público.



Vindo de fracassos consecutivos de bilheteria – incluindo duas adaptações da obra de Shakespeare, “Macbeth” (48) e “Othello” (52) – Welles foi chamado pela Universal para trabalhar apenas como ator, mas o estúdio acabou convencido por Charlton Heston, então já consagrado por sucessos como “Os dez mandamentos” (56), de Cecil B. de Mille, para contratá-lo também como roteirista e diretor (mas, ainda assim, sem os salários cumulativos para tais funções). Assumindo a tripla responsabilidade, Welles recomeçou quase do zero: pegou o roteiro escrito por Paul Monash – por sua vez baseado em um romance barato chamado “Badge of evil”, de Whit Masterson – e iniciou seu processo de transformar alguns elementos da trama a fim de servir melhor à sua visão da narrativa. Apesar do afirmado na cena do filme de Tim Burton, não foi o estúdio quem optou por fazer de Charlton Heston um policial mexicano, e sim o próprio Welles, que inverteu as nacionalidades do casal protagonista e transferiu o cenário da ação de uma pequena cidade californiana para a fronteira México/EUA. Reservando para si um papel crucial – o do asqueroso chefe de polícia Quinlan, que lhe tornou ainda mais volumoso fisicamente – e oferecendo uma pequena participação para a amiga Marlene Dietrich, o cineasta ainda conseguiu com que Janet Leigh diminuísse seu salário apenas pela possibilidade de trabalhar com ele, ao contrário do que sugeria seu agente. Sorte da futura Marion Crane, que cravou sua imagem em mais um importante exemplar do grande cinema americano.

Charlton Heston (um tanto estranho em sua caracterização) vive Mike Vargas, um detetive mexicano que está em vias de desbaratar uma quadrilha de traficante de drogas comandada por um misterioso criminoso chamado Grandi, que não hesita em mandar-lhe recados ameaçadores ou sequer matar inocentes para demonstrar seu poder. Bem no dia de seu casamento com a destemida Susan (Janet Leigh), Vargas se vê envolvido na investigação de um atentado à bomba que matou um casal dentro de um carro, praticamente na sua frente. Enquanto tenta descobrir os culpados pelo crime, ele enfrenta a oposição explícita de um policial do México, o Capitão Hank Quinaln (Orson Welles), que não é exatamente um primor de honestidade: grotesco em seus modos heterodoxos (pra dizer o mínimo), Quinlan bate de frente com Vargas quando percebe que o mexicano não irá fechar os olhos diante de suas arbitrariedades, que incluem forjar provas e torturar suspeitos. Quem acaba de vítima da batalha é Susan, que, sozinha em um hotel afastado, sofre as consequências do embate.

Com um roteiro que privilegia o clima e a as imagens mais do que as reviravoltas da história - uma forma que Welles encontrou de impedir estragos ainda maiores caso o filme lhe fosse tirado das mãos, como de fato o foi - "A marca da maldade" é um show de visual e interpretações. Welles em pessoa é o maior destaque, com seu Quinlan absolutamente monstruoso tanto em forma quanto em alma, mas é preciso destacar o trabalho competente de Janet Leigh e o brilhantismo da atuação de Akim Tamiroff, na pele do imprevisível Joe Grandi e ao fascínio que sempre acompanha a presença de Marlene Dietrich, aqui como Tanya, uma cartomante que parece saber bem mais do que deveria. É o conjunto de todos esses fatores que faz do filme mais um trabalho irrepreensível de Orson Welles, mostrando ser muito mais do que o criador de "Cidadão Kane" - o que já não seria pouca coisa.

sábado

HAMLET

HAMLET (Hamlet, 1996, Castle Rock Entertainment, 238min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Kenneth Branagh, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Alex Thomson. Montagem: Neil Farrell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção: David Barron. Elenco: Kenneth Branagh, Derek Jacobi, Julie Christie, Kate Winslet, Brian Blessed, Richard Briers, Rufus Sewell, Michael Maloney, Richard Attenborough, Billy Crystal, Judi Dench, Gérard Depardieu, John Gielgud, Rosemary Harris, Charlton Heston, Jack Lemmon, Timothy Spall, Robin Williams. Estreia: 25/12/96

4 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Uma das mais clássicas manifestações artísticas da loucura - ou do arremedo de uma - acabou tornando-se uma das mais ousadas produções cinematográficas da década de 90 e quiçá da história da sétima arte. Conhecido por suas adaptações da obra do dramaturgo William Shakespeare para o cinema, o irlandês Kenneth Branagh - que já havia dirigido "Henry V" (89) e "Muito barulho por nada" (93) e atuado como Iago em "Othello" (96) - arriscou sua reputação e seu prestígio ao transpor o mais clássico dos clássicos do bardo, palavra por palavra, para as telas. Brilhantemente produzido, interpretado por um elenco estrelado que se dá ao luxo de ter Charlton Heston, Gérard Depardieu e Jack Lemmon em pontas e longo a ponto de testar os limites de paciência do público - poucos minutos menos de quatro horas de duração - o "Hamlet" de Branagh (e pode-se dizer sem medo, o "Hamlet" definitivo do cinema) pode assustar até ao mais fervoroso purista com sua fidelidade canina ao texto original, mas, graças à direção segura e inteligente, a uma edição cirurgicamente precisa e a um elenco impecável, sobressai-se às demais adaptações pelo ritmo pulsante e pela modernidade visual impressa em cada fotograma. Realizado com meros 18 milhões de dólares - um trocado perto dos orçamentos milionários que assustavam os executivos dos estúdios à época - o filme de Kenneth Branagh é assombrosamente deslumbrante e um presente para os fãs de bom cinema e bom teatro.

Uma das histórias mais conhecidas da literatura mundial, "Hamlet" só chegou às telas com tal opulência visual e ousadia narrativa - que não oprime uma linha sequer do texto original - graças à teimosia de seu diretor e ator principal, que rondou por mais de um ano de estúdio em estúdio de Hollywood tentando financiamento para um projeto que todos consideravam fadado ao fracasso. Não é difícil imaginar os motivos para tanta recusa: não apenas Branagh batia pé nas quatro horas de duração de seu filme como tinha ainda que lidar com a bilheteria decepcionante e as críticas negativas de seu filme anterior, "Frankenstein de Mary Shelley", que não havia tido o desempenho esperado pelos produtores. Além do mais, Shakespeare estava se tornando arroz de festa na terra do cinema, sendo adaptado de todas as formas possíveis e imagináveis - até mesmo o australiano Baz Luhrmann estava a caminho de lançar uma versão psicodélica de "Romeu e Julieta", estrelado por Leonardo DiCaprio e o próprio "Hamlet" já havia sido refilmado recentemente por Franco Zefirelli, com Mel Gibson no papel principal. Tudo conspirava contra o irlandês, até que a Castle Rock tomou coragem e, com poucas exigências finais (um elenco com atores conhecidos e uma versão editada para lançamento mundial) deixou que o cineasta fosse em frente. É impossível assistir-se ao resultado final sem um suspiro de agradecimento profundo à sua coragem.


Mesmo acima da idade para interpretar o papel principal, Kenneth Branagh é o corpo e a alma de "Hamlet", a energia que contagia a todos e o estopim de uma trama recheada de traições vis, paixões avassaladoras, ódios arraigados e uma coleção de mortes das mais conhecidas do teatro universal - que em suas mãos soa fresca e reluzente como se tivesse sido escrita há dois dias. Para quem não sabe, se é que alguém não sabe, tudo começa quando o jovem príncipe Hamlet volta à sua Dinamarca natal para os funerais de seu pai (Brian Blessed) e para as novas núpcias de sua mãe, Gertrude (Julie Christie), que, mal esperou quatro meses para casar-se com o cunhado, Claudius (Derek Jacobi), novo rei do país. Infeliz com a situação, o príncipe fica ainda mais movido ao ódio quando o fantasma de seu progenitor lhe aparece, acusando o irmão de tê-lo assassinado para roubar-lhe a esposa e o trono. Com o objetivo de vingar a morte do pai, Hamlet inicia um plano ambicioso - que envolve fingir uma loucura que ele pode mesmo portar, um grupo de atores mambembes que recebe no palácio com o objetivo de impulsionar uma confissão do tio e até a mulher que ama, a doce Ofélia (Kate Winslet).

Mais do que simplesmente contar com cada detalhe - por mais insignificante que ele possa parecer - a história criada por Shakespeare, Kenneth Branagh consegue, em seu filme, o que havia conseguido apenas parcialmente em suas adaptações anteriores: fazer com que o texto extremamente teatral da peça caiba com perfeição na tela de cinema - no caso, em formato 65mm, que lhe permitiu alcançar um visual mais clássico que buscava com o objetivo de aproximar o filme de um cinema mais visualmente atraente e que só voltou a ser utilizado em 2012, quando Paul Thomas Anderson filmou seu "O mestre". Seu objetivo é plenamente atingido quando a plateia testemunha momentos de pura poesia visual, enfatizada pela fotografia esplêndida de Alex Thomson e pela direção de arte irretocável que concorreu ao Oscar - assim como o figurino de Alexandra Byrne, a música de Patrick Doyle e o roteiro do próprio diretor. Pulsante, passional e por vezes exaustivamente emocionante, "Hamlet" é a mais perfeita combinação entre cinema e teatro já realizada. Uma obra-prima de grandes proporções.

terça-feira

UM DOMINGO QUALQUER

UM DOMINGO QUALQUER (Any given sunday, 1999, Warner Bros, 150min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, John Logan, história de John Logan e Daniel Pyne. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Stuart Levy, Tom Nordberg, Keith Salmon, Stuart Waks. Música: Richard Horowitz, Paul Kelly. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Ron Reiss, Ford Wheeler. Produção executiva: Richard Donner, Oliver Stone. Produção: Dan Halstead, Lauren Shuler Donner, Clayton Towsend. Elenco: Al Pacino, Cameron Diaz, Dennis Quaid, Jamie Foxx, Anne-Margret, Charlton Heston, James Woods, LL Cool J, Matthew Modine, Lauren Holly, Aaron Eckhart. Estreia: 22/12/99

Oliver Stone pode ser considerado o mais americano dos cineastas. Basta dar uma olhada para trás em sua filmografia para constatar sua obsessão com temas intimamente ligados ao interesse de seu país natal. Filmes como “Platoon” e “Nascido em 4 de julho” versavam sobre a guerra do Vietnã. “JFK” contava a conspiração que culminou na morte do presidente John Kennedy e “Assassinos por natureza” brincava com a fascinação pela violência – talvez seu filme com maior alcance universal. Em “Um domingo qualquer” mais uma vez Stone utiliza um tema tipicamente ianque – o futebol americano – para exibir sua técnica invejável, mesmo que para contar uma história sem maiores novidades.

Al Pacino (em mais uma de suas atuações nervosas) vive Tony D’Amato, o técnico do Miami Sharks, um time que anda em uma maré de derrotas consecutivas. Não bastasse os problemas em campo, como o acidente com o capitão do time (um surpreendente Dennis Quaid), ele ainda tem que enfrentar a pressão da dona do time, a ganaciosa Christina Pagliacci (Cameron Diaz canastra ao extremo), que precisa de uma vitória para acalmar seus investidores e a arrogância do novo astro do time, o talentoso mas arredio Will Beamean (Jamie Foxx, espetacular).




Ao situar sua trama em um terreno praticamente desconhecido do público não-americano, Stone acaba perdendo muito da identificação que talvez pudesse ambicionar com os demais espectadores. Apesar de muitas situações serem plenamente similares com outros esportes – e os personagens-clichês abundam, desde o médico mau-caráter vivido por James Woods à esposa ambiciosa do jogador afastado, interpretada por Lauren Holly – o filme ainda tem uma personalidade extremamente nacionalista que incomoda mais do que agrada. O inegável talento de Stone, no entanto, deixa tudo mais atraente ao consumidor normal. Tudo que o diretor se acostumou a entregar à platéia está em doses quase exageradas.

A fotografia realista de Salvatore Totino, a edição alucinada e o desenho de som acachapante fazem com que se tenha a impressão de estar no meio do gramado, junto com os jogadores. O ritmo, alucinante em alguns momentos e quase contemplativo em outros, pode deixar os mais sensíveis tontos - e Stone nem se importa em mostrar um jogador perdendo um olho durante um jogo ou esportistas cheirando cocaína e fazendo sexo com prostitutas em festas regadas à álcool e drogas. As metáforas estão por toda parte – a citação ao clássico “Ben-hur” chega ao requinte de contar com o próprio astro do filme, Charlton Heston, em participação especial – e o trabalho de Pacino, Foxx e Quaid equilibram como podem os exageros histriônicos de Cameron Diaz. O final chega perto do clichê, mas espertamente consegue fugir dele com classe e ironia.

“Um domingo qualquer” não é nem de longe o melhor trabalho de Oliver Stone mas tem qualidades suficientes para garantir o interesse por suas longas duas horas e meia. Basta ter um pouco de paciência.

segunda-feira

TRUE LIES

TRUE LIES (True lies, 1994, 20th Century Fox/Lighstorm Entertainment, 141min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, basedo no roteiro "La totale", de Claude Zidi, Simon Michael, Didier Kaminka. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Cindy Carr. Produção executiva: Lawrence Kasanoff, Rae Sanchini, Robert Shriver. Produção: Stephanie Austin, James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrére, Charlton Heston, Art Malik, Grant Heslov. Estreia: 15/7/94. Bilheteria EUA: U$ 146.261.000

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Jamie Lee Curtis)

Em 1994 a carreira de Arnold Schwarzenegger estava por um fio. O fracasso comercial de "O último grande herói", em que ele brincava com sua imagem de astro de filmes de ação o havia colocado em uma situação delicada dentro de uma indústria onde tudo é medido por dólares. Para recuperar seu prestígio - e uma bilheteria respeitável - ele reuniu-se ao cineasta que melhor havia sabido lidar com seu talento dramático limitado em seus maiores êxitos financeiros, os dois capítulos iniciais de "O exterminador do futuro". Com James Cameron na direção e Schwarza na liderança do elenco não havia como "True lies" dar errado. E não deu. Mesmo com um orçamento de 120 milhões de dólares, a refilmagem da desconhecida comédia francesa "La totale" - obviamente inchada com efeitos visuais de primeira qualidade - devolveu ao ator seu status de grande herói das telas, além de ter brindado o público com um dos mais divertidos filmes de sua carreira.

Brincando de James Bond, Schwarzenegger tem em "True lies" seu melhor papel, no qual ele consegue ultrapassar suas limitações e atingir um patamar inédito em sua carreira. Como Harry Tasker, um agente secreto do governo americano envolvido em uma perigosa trama de terrorismo nuclear, o monossilábico Exterminador não apenas explode automóveis, mas anda a cavalo pelo Central Park (e dentro de um elevador), pilota um avião de caça, fala árabe e dança tango. Tudo enquanto tenta salvar seu casamento.

Tasker é um agente do governo americano que esconde até mesmo da família sua verdadeira profissão. Sob o disfarce de um tedioso vendedor de computadores, ele leva uma vida repleta de adrenalina enquanto sua esposa, Helen (Jamie Lee Curtis) acredita que ele é um burocrata sonolento. Durante um de seus perigosos trabalhos, no entanto, Harry descobre que sua mulher está se envolvendo com outro homem, em busca de mais emoção para sua vida. Para salvar seu casamento, ele inventa uma missão para ela, mas eles acabam tendo que lidar de verdade com uma ameaça de terroristas árabes.


"True lies" é tudo que o cinema de entretenimento holywoodiano pode oferecer. É divertido do início ao fim, equilibrando com maestria sequências de ação realmente empolgantes com momentos extremamente engraçados. Jamie Lee Curtis - merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical - rouba a cena descaradamente, explorando cada diálogo e cada possibilidade de sua personagem. A cena em que Helen precisa forjar um striptease, por exemplo, é um primor de bom humor e tanto Curtis quanto Schwarzenegger deitam e rolam na pele de personagens que parecem feitos sob medida.  Tom Arnold e Bill Paxton, em papéis coadjuvantes, também colaboram para o alto astral do filme que, mesmo falando sobre assuntos um tanto polêmicos jamais deixa de ser o que se propõe: uma aventura delirante, alucinante e muito, muito cara.

O orçamento milionário de "True lies", ao contrário do que acontece em muitos filmes, é plenamente justificável quando se assiste a cada uma de suas cenas. Cada centavo gasto por Cameron - um cineasta com grande tendência à megalomania - é visível nas telas. Os 120 milhões gastos - que dariam para produzir quase quatro filmes como "Velocidade máxima" - nunca parecem supérfluos nas mãos de Cameron, que cuida de cada detalhe com mão de ferro. Pode ser um inferno para quem trabalha com ele, mas para o público que assiste a seus filmes, esse detalhismo todo faz toda a diferença.

É impossível não gostar de "True lies". Quem procura uma comédia irá dar altas gargalhadas com as desventuras do casal Tasker. Quem busca um filme de ação ficará grudado na poltrona ao assistir sequências criativas e aparentemente impossíveis. E quem gosta de esquecer dos problemas por duas horas de duração vai ter 140 minutos da diversão mais competente que o dinheiro pode comprar. Se todos os filmes de ação fossem como "True lies" o mundo seria um lugar mais inteligente.

quarta-feira

BEN-HUR


BEN-HUR (Ben-hur, 1959, MGM Pictures, 212min) Direção: William Wyler. Roteiro: Karl Turnberg, baseado no romance de Lew Wallace. Fotografia: Robert L. Surtees. Montagem: John D. Dunning, Ralph E. Winters. Música: Miklos Rosza. Produção: Sam Zimbalist. Elenco: Charlton Heston, Stephen Boyd, Jack Hawkings, Haya Harareet, Hugh Griffith, Martha Scott, Cathy O'Donnell. Estreia: 18/11/59

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino Cores, Direção de Arte Cores, Som, Efeitos Especiais
Vencedor de 11 Oscar: Melhor Filme, Diretor (William Wyler), Ator (Charlton Heston), Ator Coadjuvante (Hugh Griffith), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino Cores, Direção de Arte Cores, Som, Efeitos Especiais
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (William Wyler), Ator Coadjuvante (Stephen Boyd)


Quem achava que depois de "Os dez mandamentos" e a aposentadoria de Cecil B. de Mille os filmes de temática religiosa seriam coisa do passado em Hollywood deve ter ficado de queixo caído quando o remake de um filme lançado em 1925 em uma versão muda estreou nos cinemas, no final de 1959. Adaptado do romance cristão de Lew Wallace publicado em 1880, "Ben-hur" não só pagou seu orçamento estratosférico para a época (U$ 15 milhões) como tornou-se o recordista de estatuetas da Academia por quase 40 anos, com 11 prêmios no currículo ("Titanic" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei" igualaram a marca em 1998 e 2003, respectivamente). O fato é que, mesmo que não se tenha simpatia pela propaganda do cristianismo feita pelo filme (motivo pelo qual o abertamente ateu Burt Lancaster recusou o papel-título), não se pode deixar de admirar suas inúmeras qualidades e mais ainda, de reconhecê-lo como o mais fascinante, empolgante e emocionante épico religioso de todos os tempos.

A bem da verdade, o militar Lew Wallace começou a pesquisar a vida de Jesus Cristo porque queria escrever um romance que desmentisse Sua existência ou qualquer outro dogma da Igreja católica. Reza a lenda que, depois de exaustivas pesquisas, ele chegou à conclusão não só de que Ele havia existido mas de que era realmente filho de Deus. A partir daí, logicamente, criou um dos mais populares livros de ficção a enfocar (ainda que de forma sutil) a passagem de Cristo pela Terra. Sutil, sim, afinal, apesar da presença dEle em momentos-chave da trama, "Ben-hur" não conta Sua história. O protagonista do filme dirigido por William Wyler - que aceitou fazer o filme por querer fazer algo do estilo de DeMille e porque recebeu o polpudo salário de um milhão de dólares - não faz milagres nem tampouco pode ser considerado um santo ou um líder de multidões. Ben-hur, a personagem, é um homem simples que se vê em uma situação de desespero ímpar e que tem a oportunidade de resgatar sua humanidade e sua dignidade perdidas, mesmo que para isso tenha que apelar para uma sangrenta vingança. Mais humano impossível.



Ben-hur (vivido com garra pelo vencedor do Oscar Charlton Heston)é um jovem e rico judeu que se recusa a delatar aqueles que planejam uma rebelião contra Roma. Considerado traidor pelo seu melhor amigo, Messala (Stephen Boyd), um aristocrata romano, ele tem sua propriedade confiscada e vê sua mãe e irmã aprisionadas. Condenado a servir de escravo em galés, Ben-hur passa três anos trabalhando como remador (daí a famosa expressão cunhada por Nelson Rodrigues, "trabalhava como um remador de 'Ben-hur') e vê sua vida ser novamente transformada quando, durante uma batalha no mar, ele salva a vida do oficial romano Quintus Arrius (Jack Hawkins). Agradecido, o oficial o liberta e lhe dá trabalho como condutor de sua quadriga. Quando se reencontra com Messala, Ben-hur o desafia a uma corrida de quadrigas, onde a rivalidade entre os dois ex-melhores amigos de infância irá chegar a seus níveis mais extremos.

O que é mais fascinante em "Ben-hur" é seu equilíbrio perfeito entre ação e emoção. As sequências mais empolgantes (em que se destaca a até hoje impressionante corrida de quadrigas) se encaixam magistralmente aos momentos mais dramáticos da trama, que envolvem o relacionamento do protagonista com a família e - e aí entra o aspecto religioso do filme que tanto incomodou Burt Lancaster - com um misterioso homem que atravessa seu caminho por duas vezes e transforma sua vida. Em nenhum diálogo o nome de Jesus Cristo é citado, mas não é preciso ser muito inteligente para perceber quem é o misterioso transeunte.

"Ben-hur" é um espetáculo grandioso, que, no entanto, não deixa jamais de dar importância a seu roteiro em vez de dedicar-se somente a seu visual. Não é à toa que, mesmo perdendo o Oscar (única indicação não convertida em estatueta), o script de Karl Turnberg seja até hoje um exemplo de ritmo, estrutura e bons diálogos. Os diálogos, aliás, merecem um capítulo à parte. O escritor Gore Vidal, abertamente homossexual, declarou, no documentário "Celulóide secreto" - que investiga a visão do cinema sobre os gays - que muitos dos diálogos entre Ben-hur e Messala foram escritos por ele e que, nas entrelinhas, faziam menção a um relacionamento de amantes entre os dois amigos. Segundo Vidal, a ira de Messala contra Ben-hur não advinha apenas de motivos políticos e sim do fato de ter sido rejeitado pelo amante. Assistir ao filme tendo essa informação abre portas imensas na compreensão da personalidade de Messala, vivido com gosto por um Stephen Boyd que sabia dessa mensagem subliminar que foi escondida de Charlton Heston, que jamais se submeteria a ela, haja visto sua visão conservadora da vida e da política.

"Titanic" e "O Senhor dos Anéis, o retorno do rei" podem ter empatado em número de Oscar com "Ben-hur", mas ninguém pode negar a supremacia artística do trabalho de William Wyler em relação a eles. Basta lembrar que nenhum dos dois primeiros levou estatuetas de atuação, atendo-se principalmente a prêmios técnicos, ao contrário deste clássico absoluto, que deu prêmios a Heston e Hugh Griffith por suas soberbas interpretações.

sábado

OS DEZ MANDAMENTOS


OS DEZ MANDAMENTOS (The ten commandments, 1956, Paramount Pictures, 220min) Direção e produção: Cecil B. DeMille. Roteiro: Aeneas McKenzie, Jesse Lasky Jr., Jack Gariss, Fredric M. Frank. Fotografia: Loyal Griggs. Montagem: Anne Bauchens. Música: Elmer Bernstein. Elenco: Charlton Heston, Yul Brinner, Anne Baxter, Edward G. Robinson, Yvonne de Carlo, John Derek, Vincent Price, Nina Foch. Estreia: 05/10/56

7 indicações ao Oscar: Melhor filme, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Efeitos Visuais
Vencedor do Oscar de Efeitos Visuais


"Os dez mandamentos" é um exagero! Exagero de intenções, de tempo de duração (mais de três horas e meia), de tempo de filmagem (cerca de cinco anos), de elenco (mais de 70 personagens com falas) e de orçamento (U$ 13 milhões em 1956). É também a despedida de seu diretor e produtor Cecil B. DeMille do cinema e o seu legado para as gerações posteriores. Pro bem e pro mal, é o filme que melhor representa o estilo grandiloquente da obra do cineasta, e só isso já o torna obrigatório para os fãs de cinema.

Com os dois pés fincados na estética kitsch - provavelmente antes mesmo que o termo passasse a ser usado em referência à cinema -, deMille construiu, em "Os dez mandamentos" quase uma ópera religiosa, fugindo das atuações naturalistas que ameaçam enterrar a "velha Hollywood". Em cena, diálogos empolados, quase teatrais, contrastam com os maneirismos que atores como Marlon Brando, James Dean e Montgomery Clift começavam a tornar populares. É difícil crer que "Os dez mandamentos" tenha sido lançado praticamente junto com "Juventude transviada", tamanha a distância entre suas intenções e resultados. Em comparação com o que o cinema americano começava a almejar - falar sobre problemas sociais, aproximar-se da realidade de seu público, por exemplo - o filme de DeMille chega a ser um retrocesso, tanto em termos plásticos quanto políticos. Beira a cafonice em vários momentos, e sua religiosidade levada quase ao limite do fanatismo (culpa do catolicismo exarcebado do diretor) incomodam justamente porque o filme não parece ser um produto de seu tempo. Se soava antiquado em 1956, imaginem agora.

Deixando de lado suas implicações sociais, políticas e/ou religiosas, é impossível negar que "Os dez mandamentos" tem algumas qualidades redentoras. Se os efeitos visuais - premiados com o Oscar da categoria - hoje parecem fakes, é preciso lembrar que na década de 50, eles ainda estavam engatinhando, buscando seu lugar ao sol na indústria do cinema. E são eles - mais do que qualquer outro aspecto do filme - é que são lembrados hoje em dia pela maioria do público. Cenas como aquela em que o Mar Vermelho se abre para a passagem dos hebreus em direção à Terra Prometida não deixam de ser impressionantes, principalmente se levado em conta o fato de que foram realizadas quase meio século antes do advento da computação gráfica. Isso também pode ser dito e louvado quando se percebe a multidão arrebanhada por DeMille em algumas de suas cenas: aquelas pessoas realmente estavam ali e não foram adicionadas na pós-produção, como normalmente se faz hoje em dia. Admirável, no mínimo!

No entanto, "Os dez mandamentos" sofre - e muito - com a megalomania de seu diretor. Uns bons 90 minutos poderiam tranquilamente ter sido deixados na mesa de edição, especialmente quando se percebe que o cineasta preferiu dar importância exagerada ao romance entre Josué (John Derek) e Lilia (Debra Paget), ao invés de concentrar-se em fatos determinantes da história - as pragas que assolam o Egito são apenas citadas em off quando deveriam ter sido mostradas. E pensando bem, a história só começa realmente depois de mais de 2 horas de projeção, quando finalmente Moisés (Charlton Heston, se preparando para ganhar o Oscar por "Ben-hur", três anos depois) assume seu posto como o Libertador do povo judeu e começa a desafiar o poder de Ramsés (Yul Brynner). Até então, é impossível negar que o filme é um tanto aborrecido, forçado, antigo mesmo. Não foi à toa que, apesar de seu sucesso de bilheteria, dividiu a crítica e nem teve o êxito que se esperava nas cerimônias de premiação do ano - indicado ao Oscar de Melhor Filme (mas não de Diretor), saiu apenas com a estatueta de Efeitos Visuais, um raro acerto da Academia, que nesse mesmo ano, esnobou "Assim caminha a humanidade", dando o prêmio máximo a "A volta ao mundo em 80 dias".

Gostar de "Os dez mandamentos" de forma incondicional diz muito sobre seu caráter religioso. Como cinema, impressiona em alguns momentos e decepciona em outros tantos. Como discurso teológico emociona os convertidos, mas dificilmente convence ateus. É uma bela história, sem dúvida, contada com tanto luxo que chega às raias do brega. Mas é também um bocado arrastado, com um ritmo lento e algumas atuações bastante antiquadas. É um filme que se pretendia uma obra-prima, mas que ficou no meio do caminho rumo a suas intenções. Ainda assim, é o testamento de um cineasta dos mais importantes da história do cinema.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...