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sexta-feira

OS AGENTES DO DESTINO

 


OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto "Adjustment Team", de Philip K. Dick. Fotografia: John Toll. Montagem: Jay Rabinowitz. Música: Thomas Newman. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Isa Dick Hackett, Jonathan Górdon. Produção: Bill Carraro, Michael Hackett, Chris Moore, George Nolfi. Elenco: Matt Damon, Emily Blunt, Terence Stamp, Michael Kelly, Anthony Mackie, John Slattery. Estreia: 14/02/2011

Depois de perder uma eleição praticamente ganha para o Senado americano - devido à publicação de uma foto de sua juventude -, o carismático David Norris (Matt Damon) encontra, por acaso, a bela Elise Sellas (Emily Blunt), que sonha em tornar-se uma bailarina mundialmente famosa. Inspirado pelo otimismo da moça (e por um beijo trocado), Norris faz um discurso que imediatamente o faz voltar às graças dos eleitores e à disputa pelo Congresso. Ainda abismado com o encontro com Elise - de quem não sabe nem o nome -, o ambicioso político acaba a encontrando um mês depois, novamente sem esperar. O novo encontro faz nascer entre eles um romance promissor, mas o que Norris não sabe - e irá saber da pior maneira possível - é que a história desse nascente amor vai contra os planos do destino. Perseguido por um grupo misterioso de homens de preto - autointitulados Comitê de Ajuste -, David precisa decidir entre um brilhante futuro na política (o que deixaria Elise livre para realizar seus sonhos profissionais) ou a possibilidade de um final feliz com a mulher por quem está apaixonado. Para isso, ele recorre à ajuda de um dos agentes, o empático Harry Mitchell (Anthony Mackie) - principal responsável pelo desvio da rota programada para o destino do rapaz.

Sucesso apenas razoável de bilheteria, "Os agentes do destino", estreia do cineasta George Nolfi, chegou às telas com pedigree: baseado em conto de Philip K. Dick, o mesmo autor de clássicos da ficção científica, como "Blade Runner: o caçador de androides" e "O vingador do futuro", a produção estrelada por Matt Damon e Emily Blunt merecia sorte melhor. Elegante e ágil, inteligente e instigante, o filme de Nolfi consegue o equilíbrio quase perfeito entre um thriller e uma história de amor, evitando o caminho fácil das sequências de ação alucinantes e das explicações em excesso. Deixando que o espectador vá preenchendo as lacunas conforme elas vão aparecendo, o roteiro brinca com a percepção do público em relação a conceitos como destino, amor, livre arbítrio e futuro. Com efeitos visuais discretos que não chamam mais atenção que a trama e uma trilha sonora eficiente do veterano Thomas Newman, "Os agentes do destino" se beneficia, também, da química entre seus dois atores centrais. Era imprescindível para que a história funcionasse, que os intérpretes de David Norris e Elise Sellas convencessem o público de que desafiariam o que fosse para ficarem juntos, e, ótimos atores que são, Damon e Blunt fisgam o público já em seu primeiro contato - a ponto de, mesmo separados, jamais deixarem de ser a base de toda a trama.

 

Um dos roteiristas do estupendo "O ultimato Bourne" (2007), e portanto dono de pleno domínio de ritmo e narrativa, George Nolfi apresenta, em "Os agentes do destino", uma noção visual digna de veteranos. A elegância das sequências de ação demonstra um cuidado raro em não apenas deixar o espectador mergulhado na agonia de seus protagonistas, mas também em oferecer uma experiência mais rica em termos plásticos. Detalhes do figurino - como os chapéus que permitem o acesso ao mundo dos chamados agentes - e a fotografia eficiente mas que nunca chega a desviar a atenção da trama (cortesia do duplamente oscarizado John Toll) são exemplos claros do talento do cineasta em utilizar-se da imagem para contar a história com todos os elementos à sua disposição. Se o enredo criado por Dick em 1954 - e adaptado com total liberdade por Nolfi - já é interessante por si próprio, sua transposição para para as telas realça seus questionamentos éticos e atualiza a história, contrapondo em seu cerne a discussão entre o que é mais importante: o amor ou a carreira, a chance de um futuro alvissareiro ou a felicidade de um amor verdadeiro.

Sem exagerar nos efeitos visuais e conquistando o público mais por sua história do que pela aposta na adrenalina pura e simples, "Os agentes do destino" rendeu pouco mais de 127 milhões de dólares em sua carreira internacional, em um ano que viu, em seus dez maiores sucessos comerciais nove continuações e uma produção infantil com personagens já consagrados - "Os Smurfs". Competindo com Harry Potter, Jack Sparrow, Bella & Edward, Transformers, Ethan Hunt e Dominic Toretto, o conto de amor e rebeldia criada por Philip K. Dick não fez feio - principalmente por ser um respiro de criatividade e ineditismo em um universo saturado de marcas registradas. Pode não ser uma obra-prima e talvez nem mesmo uma produção memorável na filmografia de seus envolvidos, mas é digno, decente e francamente divertido.

quinta-feira

UM LUGAR SILENCIOSO


UM LUGAR SILENCIOSO (A quiet place, 2018, Paramount Pictures, 90min) Direção: John Krasinski. Roteiro: John Krasinski, Bryan Woods, Scott Beck, história de Bryan Woods, Scott Beck. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Marco Beltrami. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jeffrey Beecroft/Heather Loeffler. Produção executiva: Scott Beck, Celia Costas, Aaron Janus, John Krasinski, Allyson Seeger, Bryan Woods. Produção: Michael Bay, Andrew Form, Brad Fuller. Elenco: Emily Blunt, John Krasinski, Millicent Simmonds, Noah Jupe, Cade Woodward, Leon Russom. Estreia: 09/3/2018 (South by Southwest Film Festival)

Indicado ao Oscar de Edição de Som

Depois de penar por um bom tempo resumido a produções direcionadas a um público menos exigente e formado em grande parte por adolescentes que se satisfaziam em assistir a assassinos mascarados chacinando suas vítimas sem a menor sutileza, o cinema de terror em Hollywood parece ter encontrado um caminho para atingir os espectadores mais maduros. Cineastas como Jordan Peele - de "Corra" (2017) e "Nós" (2019) - e Ari Aster - de "Hereditário" (2018) e "Midsommar" (2019) - se tornaram os principais nomes de uma espécie de renascimento do gênero, que passou a atingir então as críticas positivas que raramente conquistava - Peele chegou até mesmo a levar um Oscar de roteiro original por "Corra!", que também foi indicado aos prêmios de filme, ator e direção. Respeitados como há muito não conseguiam ser, os novos filmes de terror norte-americanos não deixaram de ser, no entanto, bastante bem-sucedidos. Um exemplo claro desse novo painel é "Um lugar silencioso", uma produção barata (custou cerca de 17 milhões de dólares, o que não paga sequer o cachê de uma grande estrela) que rendeu surpreendentes 340 milhões ao redor do mundo - e imediatamente tornou-se um dos filmes mais populares da temporada, com direito a duas sequências ainda inéditas. Tudo graças à união certeira de um bom roteiro, atuações acima da média, uma tensão palpável e uma direção inspirada do também ator (e corroteirista) John Krasinski.

Sim, Krasinski é mais conhecido do público como o adorável Jim Halpert da versão ianque da série "The office", e como o agente Jack Ryan da adaptação televisiva dos livros de John LeCarré, mas "Um lugar silencioso" não é seu primeiro trabalho na direção. Seus dois primeiros filmes, a comédia dramática "A família Hollar" (2016) e ""Brief interviews with hideous men" (2009), ficaram inéditos no Brasil e tampouco fizeram barulho nos EUA. Seu contato com o material que se tornaria "Um lugar silencioso" começou com um convite feito pelos produtores para que ele assumisse o papel principal do filme, depois que o roteiro de Scott Beck e Bryan Woods livrou-se da possibilidade de ser incorporado a um capítulo da série "Cloverfield": animado com a trama, Krasinski mudou de ideia e acabou não apenas aceitando trabalhar como ator, mas também como diretor e corroteirista. Além disso, escalou para o papel da protagonista feminina, sua mulher, a excelente Emily Blunt, também encantada com o roteiro - e, ao contrário de simples nepotismo, foi uma escolha mais do que acertada: Blunt entrega uma atuação visceral, premiada com uma estatueta do SAG Awards.


A trama de "Um lugar silencioso" é daquelas fáceis de resumir em uma única frase: família tenta sobreviver ao ataque de monstros violentos que encontram suas vítimas através do sons que elas fazem. Porém, por trás desse enredo aparentemente simples, o filme é uma pérola do gênero. Calcada basicamente na química do elenco, do desenho de som inteligente (única indicação ao Oscar do filme) e da direção firme de Krasinski, que mantém o ritmo até os minutos finais, a produção envolve o espectador desde seu começo, dando a ele a chance de ir descobrindo aos poucos todos os detalhes da situação em que estão os Abbott. Vagando por uma cidade fantasma e impedidos de fazer qualquer tipo de ruído, eles são apresentados sem passado: o que interessa ao roteiro é como eles estão e como farão para manter-se salvos de uma situação para a qual não tinham nenhuma experiência. Imersivo ao máximo - o primeiro (e rápido) diálogo falado acontece aos 38 minutos -, o filme mergulha o público em uma viagem de tensão e suspense como poucas produções recentes de terror. Evitando a violência gráfica ou o excesso de clichês, a trama é conduzida com sutileza ímpar, que não deixa de infligir medo na plateia - especialmente quando demonstra, desde seu princípio, que ninguém está completamente a salvo.

Krasinski demonstra que, mesmo sem experiência em filmes de terror, compreende perfeitamente as engrenagens do gênero, entregando cenas que deixam o público em um silêncio tão completo quanto o dos personagens da tela. Elementos simples, como um prego na escada e um brinquedo eletrônico, colaboram para sublinhar o tom nervoso e arrebatador da produção que tem ao menos uma cena já antológica, em que Evelyn (vivida com intensidade por Blunt) é obrigada a dar à luz, sozinha, sem emitir um único gemido: é muito provável que a plateia, completamente seduzida pela proposta do filme, esteja também em silêncio absoluto - fato que, em exibições-teste, assustou os exibidores que não entendiam que também os espectadores, hipnotizados pela história, deixavam a pipoca e o refrigerante de lado para não fazer o barulho que poderia acabar com a vida dos personagens. Nada mais apropriado para um filme de terror que, sem apelar para a violência explícita, encontrou de cara seu lugar no coração dos fãs do gênero - e que já tem duas continuações confirmadas (uma delas, já pronta, teve o lançamento adiado por causa da pandemia de Coronavírus). É esperar para ver se os próximos capítulos serão tão gratificantes.

sexta-feira

A GAROTA NO TREM

A GAROTA NO TREM (The girl on the train, 2016, DreamWorks, 112min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Erin Cressida Wilson, romance de Paula Hawkins. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Andrew Buckland, Michael McCusker. Música: Danny Elfman. Figurino: Michelle Matland, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Celia Costas. Produção: Jared LeBoff, Marc Plattt. Elenco: Emily Blunt, Justin Theroux, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Luke Evans, Lisa Kudrow, Édgar Ramirez, Laura Prepon, Allison Janney. Estreia: 20/9/16

Sucesso absoluto de vendas, com mais de 3 milhões de cópias vendidas somente nos EUA até julho de 2015, o romance "A garota no trem" não demorou para chamar a atenção da sempre carente de criatividade Hollywood. Não era para menos: além da popularidade do livro (que fatalmente levaria seus leitores às salas de cinema), a trama criada pela escritora inglesa Paula Hawkins servia perfeitamente a uma adaptação cinematográfica, com suas personagens complexas e surpreendentes e um final inesperado e imprevisível bem ao gosto do público médio. O resultado nas bilheterias não desanimou o estúdio responsável pelo projeto - a DreamWorks - e mais de 170 milhões de dólares foram arrecadados pelo mundo, um resultado bastante satisfatório quando se trata de um filme adulto, sem efeitos visuais elaborados ou grandes nomes no cartaz. Estrelado por uma fabulosa Emily Blunt - indicada ao BAFTA (o Oscar britânico) e ao prêmio do Sindicato de Atores - e dirigido com segurança por Tate Taylor (cujo "Histórias cruzadas" foi indicado ao Oscar de melhor filme em 2012), "A garota no trem" é uma adaptação fiel e inteligente, que explora as maiores qualidades de sua origem literária enquanto brinca com todas as possibilidades do cinema de gênero, prendendo a atenção até seus minutos finais sem deixar de lado o cuidado com as nuances dramáticas de seus personagens - todos repletos de mistérios, segredos e mentiras que vão se revelando aos poucos diante dos olhos do espectador.

Mantendo no filme a estrutura do livro, composta por três diferentes pontos-de-vista e com idas e vindas no tempo para confundir o público com pistas que podem ou não levar à solução de um possível crime, "A garota no trem" envolve já desde as primeiras cenas, que mostram o desequilíbrio físico e mental de sua protagonista, Rachel Watson (Emily Blunt, caprichando na interpretação sem cair no exagero): abandonada pelo namorado, Tom (Justin Theroux), e sendo obrigada a ver sua felicidade com a nova mulher, Anna (Rebecca Ferguson) e seu bebê - que moram na casa que compraram juntos - a jovem passa os dias dedicada a dois atos pouco saudáveis. Primeiro, está cada vez mais entregue à bebida, entornando doses violentas de vodca que a fazem inclusive ter lapsos de memória. Em segundo, ela passa diariamente diante da casa de Tom - e é essa rotina aparentemente banal que irá mudar completamente o rumo de seus dias. Na casa ao lado da de Tom, mora um casal apaixonado e atraente, que representam para Rachel a vida que ela gostaria de ter. Obcecada pela jovem bela e loura, Rachel fica chocada quando, um dia, a vê aos beijos com outro homem - e logo em seguida fica sabendo que ela desapareceu misteriosamente. O bizarro sentimento de traição - afinal, como ela poderia ter estragado a vida tão perfeita que tinha apenas por um caso qualquer? - logo dá lugar à sensação de que, na noite do desaparecimento de Megan Hipwell (Haley Bennett), alguma coisa aconteceu também com ela. Só o que ela recorda é de ter tentando falar com a desaparecida - e de ter acordado na manhã seguinte machucada e sem lembranças completas. Com medo de ela mesma ter feito algo errado, Rachel inicia uma busca desesperada por seus momentos no dia do crime - e se envolve tanto com o marido de Megan, Scott (Luke Evans), quanto com seu psiquiatra, Kamal Abdic (Édgar Ramirez), com a intenção de encontrar a verdade.


Exatamente como no livro, "A garota no trem" dá voz às três mulheres que são a engrenagem da narrativa. Como um quebra-cabeças angustiante e tenso, Rachel, Megan e Anna fornecem peças que se completam e/ou contradizem, de acordo com o desenrolar da engenhosa trama de Hawkins, que mistura com destreza temas delicados como abuso doméstico, alcoolismo, obsessão e traumas emocionais em um atraente pacote visual - cortesia da bela fotografia que se utiliza de sombras e luzes difusas para recriar em imagens o opressivo universo de Rachel, em que a verdade e a imaginação se sobrepõem sem ordem e métrica. A edição ágil e urgente também colabora para a sensação de perigo constante que envolve os personagens, em um trabalho instigante que desorienta a plateia até o terço final, quando finalmente tudo se encaixa e a verdade vem à tona - não com a mesma força do livro, mas ainda assim potente o bastante para não decepcionar a quem ficou quase duas horas tentando descobrir se Rachel realmente matou a mulher que admirava (ou isso foi ato de algum dos homens que a rondam no presente e no passado). Um conjunto bem azeitado entre direção, roteiro, técnica e principalmente elenco - que, a princípio, seria bastante diferente do que chegou às telas.

Emily Blunt sempre foi a primeira escolha de Taylor - apesar de ter sido em Michelle Williams que a autora do livro pensava quando criou a personagem. O mesmo não pode ser dito do restante do elenco, todos importantíssimos para dar vida ao roteiro de Erin Cressida Wilson mas cujos atores participaram de uma intensa dança das cadeiras. Primeiro foi Chris Evans quem abandonou o projeto, culpa de sua participação no filme "Um laço de amor", e foi substituído por Justin Theroux, mais conhecido como o marido de Jennifer Aniston. Em seguida foi a vez de Jared Leto, que faria o papel de Scott, marido da mulher desaparecida e que, assim como Chris, teve problemas de agenda e abdicou do papel - deixando-o para Luke Evans, conhecido dos fãs de filmes de ação por seu trabalho nos capítulos 6 e 7 da série "Velozes e furiosos" e nos dois últimos filmes da trilogia "O Hobbit". Por fim, a atriz que viveria um dos mais cruciais da trama (o da complexa e misteriosa Megan Hipwell) acabou sendo a jovem Haley Bennett, revelada ao público como uma Britney Spears genérica na comédia "Letra e música" (2007) e que estava saindo das filmagens do remake de "Sete homens e um destino". Ficando com o papel que teve Margot Robbie e Kate Mara como possíveis donas, Bennett demonstra um talento insuspeito, oferecendo à sua personagem uma gama de emoções capaz de apavorar gente muito mais experiente. Quase uma antítese de Rachel Watson, sua Megan Hipwell vai sendo desvendada gradualmente à plateia - e no final ela acaba sendo a grande surpresa de um filme que, contrariando a lógica dos grandes estúdios, tem como protagonistas três mulheres comuns, dotadas apenas de sua força inerente e sua coragem. Nada mal para um filme-pipoca!

segunda-feira

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM

SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, Black Label Media/Lionsgate, 121min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Joe Walker. Música: Johann Johansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jan Pascale. Produção executiva: Erica Lee, Ellen H. Schwartz, John H. Starke. Produção: Basil Iwanyk, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Molly Smith. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan. Estreia: 19/5/15 (Festival de Cannes)

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som

O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.

O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.


Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.

Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!

sexta-feira

O DIABO VESTE PRADA


O DIABO VESTE PRADA (The Devil wears Prada, 2006, 20th Century Fox, 109min) Direção: David Frankel. Roteiro: Aline Brosh McKenna, romance de Lauren Weisberg. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Patricia Field. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Lydia Marks. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Karen Rosenfelt. Produção: Wendy Finerman. Elenco: Meryl Streep, Anne Hathaway, Stanley Tucci, Emily Blunt, Simon Baker, Adrian Granier, Gisele Budchen. Estreia: 30/6/06

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Figurino
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Comédia (Meryl Streep)

Ainda bem que não é somente de filmes sérios e densos e adaptações de histórias em quadrinhos repletos de cenas de ação bem-feitas que o cinema hollywoodiano é feito. De vez em quando, uma comédia com um aparente público-alvo limitado surpreende e se torna cult imediato, enchendo os cofres dos estúdios, divertindo a plateia e, pasmem, concorrendo ao Oscar. Logicamente contar com a espetacular Meryl Streep no papel central não atrapalha em nada, mas além da atuação impecável da veterana atriz (rejuvenescida e belíssima em um papel de má que lhe cabe perfeitamente), há muito o que se elogiar em "O diabo veste Prada", divertidíssima adaptação de um bestseller de Lauren Weisberg.

Escrito por Weisberg como uma espécie de vingança bem-humorada contra a editora-chefe da "Vogue" americana, a temida Anna Wintour, o livro tornou-se sucesso imediato nos EUA e chegou às telas sob a direção correta e dotada de exímio ritmo por David Frankel, que assinou vários episódios da série de TV "Sex and the city". Mesmo focalizando sua história nos bastidores do mundo da moda - o que, em tese, poderia atrapalhar sua penetração em outro público-alvo que não mulheres e gays - o filme é também uma crítica mordaz a um estilo de vida glamouroso e fútil e um olhar antenado às transformações sociais que permitem às mulheres a luta pela igualdade no mercado de trabalho. Tudo embalado por uma trilha sonora deliciosa - que inclui Madonna e Alanis Morissette - e um figurino luxuoso assinado por Patricia Field (também vinda de "Sex and the city" e que abocanhou uma indicação ao Oscar por seu primoroso trabalho).



Apesar de ter ganho um Golden Globe e ter concorrido ao Oscar de melhor atriz, Meryl Streep é, na verdade, coadjuvante em "O diabo veste Prada". A protagonista é Andrea Sachs (a bela e competente Anne Hatthaway), jovem recém-formada em Jornalismo e que aceita um trabalho na revista de moda "Runway" apenas como um primeiro passo para uma carreira mais sólida e relevante. Inteligente e culta, Andrea se vê repentinamente inserida em um universo luxuoso e quase surreal, cercada de modelos magérrimas, roupas caríssimas e, pior ainda, uma chefe irascível e aterrorizante, Miranda Prestley (papel de Streep, roubando cada cena com seu invejável timing cômico). Não apenas Andrea precisa lidar com sua falta de jeito com a nova função, mas também com a falta de bom-senso de sua patroa, que lhe incumbe das mais variadas missões como se essas fossem as mais corriqueiras do mundo. Enquanto isso acontece, seu relacionamento com o namorado Nate (Adrian Grenier) entra em crise e ela se vê atraída pelo jornalista Christian Thompson (Simon Baker), mais adequado a esse novo estilo de vida.

Com um humor ferino e sutil, Weisberg criou uma personagem antológica - ainda que chupada radicalmente da realidade - que desfila sua acidez e sua classe por ambientes chiques e destila seu veneno e seu desprezo em festas opulentas e bem frequentadas. Felizmente, o filme consegue fugir do maniqueísmo, emprestando à Miranda uma personalidade em que cabe com verossimilhança um lado frágil e inseguro, demonstrado em uma cena em que Streep aparece desprovida de maquiagem. Na visão de David Frankel, não há vilões e sim pessoas ambiciosas, capazes de atos desprezíveis para atingir seus objetivos mas igualmente donas de certa generosidade bem disfarçada. Essa dualidade é representada com maestria por Meryl Streep mas também ganha o dócil rosto de Anne Hatthaway, cuja personagem precisa, em determinado momento, escolher o caminho certo para sua felicidade.


Contando ainda com um elenco coadjuvante inspiradíssimo - em que se inclui o ótimo Stanley Tucci e a excelente Emily Blunt - "O diabo veste Prada" é um clássico instantâneo, inteligente e muito, muito divertido.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...