CINE
HOLLIÚDY (Cine Holliúdy, 2013, Dowtown Films, 91min) Direção e roteiro: Halder Gomes.
Fotografia: Carina Sanginitto. Montagem: Helgi Thor. Direção de
arte/cenários: Juliana Ribeiro. Produção executiva: Halder Gomes, Dayane
Queiroz. Produção: Halder Gomes. Elenco: Edmilson Filho, Miriam
Freeland, Roberto Bomtempo, Joel Gomes, Rainer Cadete, Jesuíta Barbosa,
Falcão. Estreia: 09/8/13
A princípio, um filme nacional cujo protagonista lembra Carlitos e que pode ser descrito como uma mistura entre "Cinema Paradiso" (1989), de Giuseppe Tornatore e "Bye bye, Brasil" (1976), de Cacá Diegues pode parecer um samba do crioulo doido, uma miscelânea sem sentido de estilos e nacionalidades com tudo para dar errado. Porém, quando a comédia "Cine Holliúdy" chega a seus créditos finais, depois de uma hora e meia de um humor ingênuo e despretensioso, é impossível ao espectador não ter se deixado cativar. Versão estendida de um curta-metragem do cineasta cearense Helder Gomes, o filme é uma lufada de ar fresco nas comédias pasteurizadas e rigidamente presas à fórmula já desgastada do tradicional cinema de humor brasileiro. Com raízes nitidamente regionalistas e sem ter vergonha delas - muito pelo contrário, as assume com extremo orgulho e as utiliza como mais um meio de fazer rir, através de um dialeto particular a ponto da necessidade de se utilizar legendas para melhor compreensão - "Cine Holliúdy" é uma grande e carinhosa brincadeira com a sétima arte, debochado e nostálgico em doses exatas. E de quebra ainda faz uma sutil crítica aos governos populistas e à chegada da televisão nos mais escondidos recantos do país, matando assim, a diversão popular representada pelo circo e pelas salas de cinema.
Apesar das leituras sociais e políticas que pode suscitar, porém, "Cine Holliúdy" é, acima de tudo, entretenimento. E dos bons. Simples, direto e sem medo de atingir o público pela pureza de seu humor quase infantil, o filme de Halder Gomes se beneficia de uma estrutura narrativa sem maiores ousadias e um protagonista cujo carisma gigantesco conquista o espectador logo de cara. Dotado de uma esperança e uma pureza que o tornam irresistível a qualquer público, Francisgleydisson é herdeiro direto do vagabundo de Chaplin, com seu humor físico de uma precisão cirúrgica e seu humanismo à toda prova. Não à toa, faz parte de sua receita uma criança (seu filho, que tem no pai seu maior e infalível ídolo) e uma dama (sua esposa, apaixonada pelo marido e disposta a qualquer sacrifício para manter-se a seu lado e alimentar seus sonhos). É esse triângulo familiar o alicerce no qual se sustenta a trama criada pelo cineasta, que mergulha no coração do Brasil dos anos 70 para contar uma história de amor ao cinema - mais especificamente o cinema de artes marciais que consagrou-se à época graças a filmes de Bruce Lee e outros menos cotados. São filmes assim que Francisgleydisson apresenta em seu cinema itinerante, que sofre com a concorrência da televisão e a burocracia que enfrenta em cada cidade a que chega.
Sem medo de apostar em estereótipos para alcançar com facilidade a simpatia do público, Helder Gomes acerta em cheio ao assumir o lado quase circense de seu filme. Quando Francisgleydisson e sua família chegam à uma pequena cidade do interior do Ceará para abrir seu "Cine Holliúdy", o que se vê na tela é um desfile de tipos impagáveis, invariavelmente com o objetivo de fazer rir através da identificação imediata. Muitas vezes sem mesmo um nome, os habitantes do lugar surgem para comentar a chegada da novidade, expor suas expectativas e, posteriormente, unir-se aos demais conterrâneos na fatídica exibição, um clímax cuidadosamente preparado para arrancar gargalhadas sem muito espaço para qualquer tipo de aprofundamentos psicológicos e/ou dramáticos. Em certos casos, seria um defeito. No filme de Gomes, é um gol de placa: de forma certeira ele apresenta seus personagens secundários com poucas linhas de texto e não é preciso mais nada para que todos eles já fiquem registrados na mente do espectador. O galã, o cego, o gay, a moça fogosa, o padre, o prefeito, a primeira-dama e outros tipos são apenas símbolos, arquétipos cômicos que fortalecem a proposta do cineasta em fazer de seu filme um microcosmo do Brasil, uma visão bem-humorada de um país que, mesmo afundado em uma ditadura militar, ainda não havia desistido de sonhar (e que metáfora melhor para o sonho do que uma tela de cinema?).
Diretor de dois filmes de temática espírita ("Bezerra de Menezes" e "As mães de Chico Xavier"), Helder Gomes encontrou em "Cine Holliúdy" sua voz definitiva. É um filme de personalidade forte e com o timing exato de humor e sensibilidade (em um equilíbrio inversamente proporcional ao italiano "Cinema Paradiso", de quem pega emprestado o nome e a temática), além de ser dono de uma brasilidade absolutamente indissociável de sua trama e protagonistas. Na pele do doce e sonhador Francisgleydisson, o ator Edmilson Filho - campeão de artes marciais que faz uso de seu impressionante talento para o humor físico para criar uma antológica sequência na parte final do filme - surge como uma grande revelação do cinema nacional, uma alternativa saudável e renovadora aos artifícios do chamado "cinema comercial brasileiro". Com seu carisma à serviço de um roteiro delicioso, de humor brejeiro mas nunca vulgar, ele transforma o filme em uma joia rara, digno de figurar entre as grandes comédias já produzidas no Brasil. Imperdível!
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segunda-feira
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PRAIA DO FUTURO
PRAIA DO FUTURO (Praia do Futuro, 2014, Coração da Selva/Hank Levine
Film/Watchmen Productions, 106min) Direção: Karim Ainouz. Roteiro: Karim
Ainouz, Felipe Bragança, colaboração de Marco Dutra. Fotografia: Ali
Olay Gozkaya. Montagem: Isabela Monteiro de Carvalho. Música: Hauschka.
Figurino: Ruth Aragão, Camila Soares. Direção de arte: Marcos Pedroso.
Produção executiva: Luciano Patrick, Andro Steinborn. Produção: Geórgia
Costa Araújo, Hank Levine. Elenco: Wagner Moura, Clemens Schick, Jesuíta
Barbosa, Fred Lima, Thomás Aquino. Estreia: 11/02/14 (Festival de
Berlim)
Apesar do título, "Praia do Futuro" não é uma ficção científica nacional. O ponto turístico que dá nome ao filme de Karim Ainouz - de "Madame Satã" e "Abismo prateado" - fica em Fortaleza (CE), e é apenas um ponto de referência geográfico para uma trama que fala sobre isolamento social, solidão e o medo de romper com as amarras sentimentais sob a ótica mais sensorial do que verbal do cinema de Ainouz. Contrário à onda de filmes puramente comerciais que se alastrou pela cinematografia nacional, o cineasta cearense constrói uma narrativa calcada basicamente em silêncios - opressivos ou carinhosos - e, se decepciona ao público que busca roteiros mais convencionais, conquista a plateia mais afeita às ideias do que a números de bilheteria. Premiado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo como o melhor filme brasileiro de 2014 - além de outros prêmios em festivais internacionais - "Praia do Futuro" não é um filme para qualquer um, apesar da presença do festejado Wagner Moura encabeçando os créditos.
Moura, em uma interpretação corajosa que apaga em poucos minutos de tela a lembrança do truculento Capitão Nascimento de "Tropa de Elite", vive Donato, um salva-vidas melancólico que tem sua existência totalmente transformada depois que não consegue resgatar do mar um turista alemão que morre afogado em seu turno. Transtornado, ele trava conhecimento com o melhor amigo da vítima, Konrad (Clemens Schick) e os dois acabam se apaixonando. Depois do período de dez dias necessário para o encerramento das buscas pelo corpo do afogado, Konrad volta para Berlim. Algum tempo depois, Donato vai visitá-lo e, ao fim de suas férias, resolve ficar de vez na Alemanha, deixando para trás a mãe e o irmão caçula e o emprego. Essa decisão - que faz com que esteja sempre se sentindo deslocado e não completamente conectado à própria vida - sofre um novo baque quando, anos depois, seu irmão, Ayrton (Jesuíta Barbosa) aparece para visitá-lo e cobrá-lo pela total falta de notícias.
Moldando sua narrativa em elipses e cortes bruscos que contrastam com a bela fotografia - solar no Brasil, gélida na Alemanha - Karim Ainouz entrega um filme que fala mais à mente do que ao coração. Seus belos enquadramentos sustentam uma trama de aparente fragilidade dramática, mas que se revela, aos poucos, um retrato doloroso e angustiante de uma existência que nunca atinge totalmente seu potencial de realização. Donato é um personagem de grande profundidade psicológica - um homem incapaz de lidar satisfatoriamente com seus desejos, suas ambições e com as expectativas das pessoas a seu redor - e Wagner Moura é um ator extraordinário, que consegue, mesmo com poucas palavras, transmitir ao espectador todo seu turbilhão emocional sem soar fraco. Nem sempre seu parceiro na maioria das cenas (Clemens Schick) atinge tal nível de profundidade, mas a entrada de Jesuíta Barbosa em cena parece dar início ao encerramento de um ciclo de vida de seu personagem que engrandece a obra. Uma das maiores promessas do cinema brasileiro, Barbosa encara Moura de frente e, para os impacientes de plantão, o filme ganha ritmo e emoção.
Na pele de Ayrton, o irmão caçula que chega à Berlim para acertar as contas com Donato, Jesuíta Barbosa injeta fôlego novo e proporciona ao filme de Ainouz o que parecia estar faltando até então: sentido. Com um roteiro que exige mais do cérebro e da sensibilidade de seu público do que o normal, "Praia do futuro" traduz os sentimentos dos personagens em imagens - a água servindo como um arremedo de lar para Donato, as corridas de moto forjando uma liberdade para Konrad - e é somente a chegada de Ayrton que faz com que a barreira do silêncio imposta entre o casal de amantes seja quebrada: o jovem não aceita a deserção do irmão quando ele ainda era uma criança e sua mãe precisava de sua ajuda e não tem medo de expor, sem meias-palavras, todos os problemas do rapaz (medo, indecisão, inconstância) e balançar suas certezas. Juntos em cena, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa estão brilhantes - não à toa, o segundo foi eleito o melhor ator coadjuvante do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2014.
Um filme feito para fãs de um cinema menos comercial e mais voltado para sensações do que para reações imediatas, "Praia do Futuro" pode ser acusado pelos frequentadores médios como "parado", "pedante", "metido a cult" e "chato". Mas em um tempo em que filme brasileiro normalmente significa comédias rasteiras e imitações baratas de clichês americanos, talvez tais definições que se desejam pejorativas tornem-se medalhas a ostentar com orgulho. Cinema nem sempre é feito para agradar multidões, e são filmes assim, de emoções aparentemente pequenas, que tocam mais fundo o cérebro e a alma.
Apesar do título, "Praia do Futuro" não é uma ficção científica nacional. O ponto turístico que dá nome ao filme de Karim Ainouz - de "Madame Satã" e "Abismo prateado" - fica em Fortaleza (CE), e é apenas um ponto de referência geográfico para uma trama que fala sobre isolamento social, solidão e o medo de romper com as amarras sentimentais sob a ótica mais sensorial do que verbal do cinema de Ainouz. Contrário à onda de filmes puramente comerciais que se alastrou pela cinematografia nacional, o cineasta cearense constrói uma narrativa calcada basicamente em silêncios - opressivos ou carinhosos - e, se decepciona ao público que busca roteiros mais convencionais, conquista a plateia mais afeita às ideias do que a números de bilheteria. Premiado pela Associação de Críticos de Arte de São Paulo como o melhor filme brasileiro de 2014 - além de outros prêmios em festivais internacionais - "Praia do Futuro" não é um filme para qualquer um, apesar da presença do festejado Wagner Moura encabeçando os créditos.
Moura, em uma interpretação corajosa que apaga em poucos minutos de tela a lembrança do truculento Capitão Nascimento de "Tropa de Elite", vive Donato, um salva-vidas melancólico que tem sua existência totalmente transformada depois que não consegue resgatar do mar um turista alemão que morre afogado em seu turno. Transtornado, ele trava conhecimento com o melhor amigo da vítima, Konrad (Clemens Schick) e os dois acabam se apaixonando. Depois do período de dez dias necessário para o encerramento das buscas pelo corpo do afogado, Konrad volta para Berlim. Algum tempo depois, Donato vai visitá-lo e, ao fim de suas férias, resolve ficar de vez na Alemanha, deixando para trás a mãe e o irmão caçula e o emprego. Essa decisão - que faz com que esteja sempre se sentindo deslocado e não completamente conectado à própria vida - sofre um novo baque quando, anos depois, seu irmão, Ayrton (Jesuíta Barbosa) aparece para visitá-lo e cobrá-lo pela total falta de notícias.
Moldando sua narrativa em elipses e cortes bruscos que contrastam com a bela fotografia - solar no Brasil, gélida na Alemanha - Karim Ainouz entrega um filme que fala mais à mente do que ao coração. Seus belos enquadramentos sustentam uma trama de aparente fragilidade dramática, mas que se revela, aos poucos, um retrato doloroso e angustiante de uma existência que nunca atinge totalmente seu potencial de realização. Donato é um personagem de grande profundidade psicológica - um homem incapaz de lidar satisfatoriamente com seus desejos, suas ambições e com as expectativas das pessoas a seu redor - e Wagner Moura é um ator extraordinário, que consegue, mesmo com poucas palavras, transmitir ao espectador todo seu turbilhão emocional sem soar fraco. Nem sempre seu parceiro na maioria das cenas (Clemens Schick) atinge tal nível de profundidade, mas a entrada de Jesuíta Barbosa em cena parece dar início ao encerramento de um ciclo de vida de seu personagem que engrandece a obra. Uma das maiores promessas do cinema brasileiro, Barbosa encara Moura de frente e, para os impacientes de plantão, o filme ganha ritmo e emoção.
Na pele de Ayrton, o irmão caçula que chega à Berlim para acertar as contas com Donato, Jesuíta Barbosa injeta fôlego novo e proporciona ao filme de Ainouz o que parecia estar faltando até então: sentido. Com um roteiro que exige mais do cérebro e da sensibilidade de seu público do que o normal, "Praia do futuro" traduz os sentimentos dos personagens em imagens - a água servindo como um arremedo de lar para Donato, as corridas de moto forjando uma liberdade para Konrad - e é somente a chegada de Ayrton que faz com que a barreira do silêncio imposta entre o casal de amantes seja quebrada: o jovem não aceita a deserção do irmão quando ele ainda era uma criança e sua mãe precisava de sua ajuda e não tem medo de expor, sem meias-palavras, todos os problemas do rapaz (medo, indecisão, inconstância) e balançar suas certezas. Juntos em cena, Wagner Moura e Jesuíta Barbosa estão brilhantes - não à toa, o segundo foi eleito o melhor ator coadjuvante do Grande Prêmio do Cinema Brasileiro em 2014.
Um filme feito para fãs de um cinema menos comercial e mais voltado para sensações do que para reações imediatas, "Praia do Futuro" pode ser acusado pelos frequentadores médios como "parado", "pedante", "metido a cult" e "chato". Mas em um tempo em que filme brasileiro normalmente significa comédias rasteiras e imitações baratas de clichês americanos, talvez tais definições que se desejam pejorativas tornem-se medalhas a ostentar com orgulho. Cinema nem sempre é feito para agradar multidões, e são filmes assim, de emoções aparentemente pequenas, que tocam mais fundo o cérebro e a alma.
segunda-feira
TATUAGEM
TATUAGEM
(Tatuagem, 2013, Rec Produtores Associados Ltda., 110min) Direção e
roteiro: Hilton Lacerda. Fotografia: Ivo Lopes Araújo. Montagem: Mair
Tavares. Música: DJ Dolores, Johnny Hooker. Figurino: Christiana
Garrido. Direção de arte: Renata Pinheiro. Produção executiva: Nara
Aragão. Produção: João Vieira Jr.. Elenco: Irandhir Santos, Jesuíta
Barbosa, Rodrigo Garcia, Sylvia Prado, Sílvio Restiffe. Estreia:
15/11/13
Ditadura militar X liberdades individuais e culturais. Repressão X transgressão. Apolo X Dionísio. Violência X amor. Todas essas batalhas, travadas nas ruas, nas camas, nas boates e nas mentes, estão presentes em "Tatuagem", primeiro longa-metragem do pernambucano Hilton Lacerda, conhecido pelo roteiro de alguns dos mais radicais filmes brasileiros da safra pós-"Cidade de Deus", como os polêmicos "Amarelo manga", "Baixio das bestas" e "A febre do rato", todos dirigidos por Cláudio Assis. Em sua estreia como cineasta, ele não vai tão fundo quanto Assis na provocação estética, mas é extremamente bem-sucedido na sua missão de louvar um estilo de vida que, mais do que simplesmente desafiar as convenções sociais e morais de uma época negra na história do país, batia de frente com a truculência do Estado. Libertário, propositalmente exagerado e debochado sem ser bobo, "Tatuagem" é um tapa na cara da hipocrisia ao mesmo tempo em que é um belo documento sobre a liberdade.
Livre das amarras e das obrigações de ser uma produção de viés puramente comercial - leia-se sem o apoio e as imposições da Globo Filmes - "Tatuagem" é um filme marginal que retrata personagens marginais e os eleva à posição de heróis. Sua marginalidade, porém, não é pejorativa. Os protagonistas do filme são marginais porque escolheram viver à margem de uma sociedade doente, hipócrita e cega às atrocidades de uma ditadura militar que cerceou todo e qualquer direito à liberdade de expressão. É por sua coragem de desafiar o status quo que Clécio (Irandhir Santos, fabuloso como sempre) é o líder de um grupo de artistas que brinca com o perigo, com apresentações ousadas que cutucam o governo, a família e quem quer que represente a autoridade. Criativo e apaixonado pela arte do teatro, ele e seus colegas - um grupo que inclui o desaforado Paulete (Rodrigo García) - dividem uma espaçosa casa na Recife de 1978, já nos estertores da repressão, e frequentemente se vê obrigado a lutar pela liberação de seus espetáculos, recheados de palavrões, nudez e tudo aquilo que provoca arrepios nos lares tradicionais. Sua rotina se transforma, porém, quando ele conhece e se apaixona por alguém que pode representar seu fim.
Fininha (Jesuíta Barbosa, uma revelação a ser comemorada) é um jovem de dezoito anos ingênuo e sensível que se vê repentinamente envolvido em um mundo totalmente à parte de seu dia-a-dia. Servindo ao exército como soldado, ele não consegue evitar de se apaixonar por Clécio e seu modo anarquista de ser e viver, repleto de uma liberdade com a qual ele jamais supunha existir. Dividido entre o universo severo e rígido do quartel e a liberalidade quase excessiva do mundo que Clécio representa, Fininha acaba também por servir como ponte entre os dois mundos, principalmente quando passa a ser vítima da desconfiança de ambos os lados: os colegas começam a questionar sua lealdade e sexualidade e seus novos amigos temem que ele seja um agente infiltrado para destruir o grupo e prender a todos eles. No meio de todas essas dúvidas, ele ainda precisa lidar com a família e o amor verdadeiro que sente por Clécio - amante, mentor e amigo.
Que não se espere de "Tatuagem" a estética pasteurizada do cinema comercial brasileiro. Hilton Lacerda mostra-se fiel à sua forma radical de ver o mundo que o cerca, com uma fotografia quase suja de Ivo Lopes Araújo e uma câmera na mão que mergulha o espectador na trama sem pedir licença. Não há, nas apresentações do grupo "Chão de estrelas", nenhum glamour, apenas o amor pela arte e pela liberdade, reiterado por um humor quase chulo que cospe no rosto do perigo enquanto canta e dança diante de um entusiasmado público também sedento por ar puro. Lacerda não cai na tentação de enfeitar seus personagens ou sua história, afirmando em cada sequência sua origem nordestina e sua ideologia estética e cultural - o que pode incomodar a um público mais tradicional, assim como as cenas de sexo gay bastante ousadas mas jamais vulgares. Símbolo de um cinema mais autoral (e mesmo assim bem mais acessível do que as obras de Cláudio Assis), "Tatuagem" não é um filme para todos. É preciso estar disposto a penetrar no universo anarquista da produção para se desfrutar de tudo que ele tem de bom - ou até mesmo para rechaçá-lo com argumentos sólidos. A obra de Hilton Lacerda é mais que um filme, é uma experiência. Se vale a pena tê-la é uma questão unicamente de opinião.
Ditadura militar X liberdades individuais e culturais. Repressão X transgressão. Apolo X Dionísio. Violência X amor. Todas essas batalhas, travadas nas ruas, nas camas, nas boates e nas mentes, estão presentes em "Tatuagem", primeiro longa-metragem do pernambucano Hilton Lacerda, conhecido pelo roteiro de alguns dos mais radicais filmes brasileiros da safra pós-"Cidade de Deus", como os polêmicos "Amarelo manga", "Baixio das bestas" e "A febre do rato", todos dirigidos por Cláudio Assis. Em sua estreia como cineasta, ele não vai tão fundo quanto Assis na provocação estética, mas é extremamente bem-sucedido na sua missão de louvar um estilo de vida que, mais do que simplesmente desafiar as convenções sociais e morais de uma época negra na história do país, batia de frente com a truculência do Estado. Libertário, propositalmente exagerado e debochado sem ser bobo, "Tatuagem" é um tapa na cara da hipocrisia ao mesmo tempo em que é um belo documento sobre a liberdade.
Livre das amarras e das obrigações de ser uma produção de viés puramente comercial - leia-se sem o apoio e as imposições da Globo Filmes - "Tatuagem" é um filme marginal que retrata personagens marginais e os eleva à posição de heróis. Sua marginalidade, porém, não é pejorativa. Os protagonistas do filme são marginais porque escolheram viver à margem de uma sociedade doente, hipócrita e cega às atrocidades de uma ditadura militar que cerceou todo e qualquer direito à liberdade de expressão. É por sua coragem de desafiar o status quo que Clécio (Irandhir Santos, fabuloso como sempre) é o líder de um grupo de artistas que brinca com o perigo, com apresentações ousadas que cutucam o governo, a família e quem quer que represente a autoridade. Criativo e apaixonado pela arte do teatro, ele e seus colegas - um grupo que inclui o desaforado Paulete (Rodrigo García) - dividem uma espaçosa casa na Recife de 1978, já nos estertores da repressão, e frequentemente se vê obrigado a lutar pela liberação de seus espetáculos, recheados de palavrões, nudez e tudo aquilo que provoca arrepios nos lares tradicionais. Sua rotina se transforma, porém, quando ele conhece e se apaixona por alguém que pode representar seu fim.
Fininha (Jesuíta Barbosa, uma revelação a ser comemorada) é um jovem de dezoito anos ingênuo e sensível que se vê repentinamente envolvido em um mundo totalmente à parte de seu dia-a-dia. Servindo ao exército como soldado, ele não consegue evitar de se apaixonar por Clécio e seu modo anarquista de ser e viver, repleto de uma liberdade com a qual ele jamais supunha existir. Dividido entre o universo severo e rígido do quartel e a liberalidade quase excessiva do mundo que Clécio representa, Fininha acaba também por servir como ponte entre os dois mundos, principalmente quando passa a ser vítima da desconfiança de ambos os lados: os colegas começam a questionar sua lealdade e sexualidade e seus novos amigos temem que ele seja um agente infiltrado para destruir o grupo e prender a todos eles. No meio de todas essas dúvidas, ele ainda precisa lidar com a família e o amor verdadeiro que sente por Clécio - amante, mentor e amigo.
Que não se espere de "Tatuagem" a estética pasteurizada do cinema comercial brasileiro. Hilton Lacerda mostra-se fiel à sua forma radical de ver o mundo que o cerca, com uma fotografia quase suja de Ivo Lopes Araújo e uma câmera na mão que mergulha o espectador na trama sem pedir licença. Não há, nas apresentações do grupo "Chão de estrelas", nenhum glamour, apenas o amor pela arte e pela liberdade, reiterado por um humor quase chulo que cospe no rosto do perigo enquanto canta e dança diante de um entusiasmado público também sedento por ar puro. Lacerda não cai na tentação de enfeitar seus personagens ou sua história, afirmando em cada sequência sua origem nordestina e sua ideologia estética e cultural - o que pode incomodar a um público mais tradicional, assim como as cenas de sexo gay bastante ousadas mas jamais vulgares. Símbolo de um cinema mais autoral (e mesmo assim bem mais acessível do que as obras de Cláudio Assis), "Tatuagem" não é um filme para todos. É preciso estar disposto a penetrar no universo anarquista da produção para se desfrutar de tudo que ele tem de bom - ou até mesmo para rechaçá-lo com argumentos sólidos. A obra de Hilton Lacerda é mais que um filme, é uma experiência. Se vale a pena tê-la é uma questão unicamente de opinião.
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