ADIVINHE QUEM VEM PARA JANTAR (Guess who's coming to dinner,
1967,Columbia Pictures Productions, 108min) Direção: Stanley Kramer.
Roteiro: William Rose. Fotografia: Sam Leavitt. Montagem: Robert C.
Jones. Música: De Vol. Direção de arte/cenários: Robert Clatworthy/Frank
Tubble. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Katharine Hepburn, Spencer
Tracy, Sidney Poitier, Katharine Houghton, Cecil Kellaway, Beah
Richards. Estreia: 11/12/67
10 indicações ao
Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Spencer Tracy),
Atriz (Katharine Hepburn), Ator Coadjuvante (Cecil Kellaway), Atriz
Coadjuvante (Beah Richards), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora
Adaptada, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Original
Não deixa de ser uma coincidência poética o fato de meros dois dias separarem a morte do ator Spencer Tracy e a decisão por unanimidade da Suprema Corte norte-americana em declarar inconstitucional a lei que considerava crime, em 14 estados dos EUA, o casamento interracial: o último filme do consagrado ator - e que ele havia finalizado apenas 17 dias antes de morrer - punha em discussão justamente uma das maiores chagas do país que veria, menos de um ano depois, o assassinato de Martin Luther King: o racismo muitas vezes mascarado pela hipocrisia e pelo verniz do liberalismo da classe média. Dirigido por Stanley Kramer, um dos mais politizados cineastas de sua época, "Adivinhe quem vem para jantar" marcou também a última colaboração - de nove - entre Tracy e Katharine Hepburn, um dos casais não oficiais mais queridos e respeitados de Hollywood e a primeira vez que um filme com um assunto tabu como a miscigenação deixou pra trás o fracasso de bilheteria e tornou-se um grande sucesso comercial e de crítica. Mas, à parte a importância do tema, dos veteranos atores e da competência de Kramer em tornar palatável até o mais controverso dos assuntos, o grande trunfo do filme, e o que fez neutralizar todo e qualquer risco, tinha um nome: Sidney Poitier.
Um dos nomes mais populares entre as plateias norte-americanas dos anos 60, Sidney Poitier representava o que para muitos era a epítome do bom-moço, e sua penetração junto inclusive às camadas mais preconceituosas do público era derivada justamente dessa figura respeitável, honesta e bem-sucedida que seus personagens transmitiam a cada filme. Seu sucesso era tão inquestionável que até mesmo um Oscar de melhor ator ele chegou a ganhar, em 1963, pelo filme "Uma voz nas sombras" - vale lembrar que até então nenhum ator negro havia chegado a tanto e isso era um feito considerável em um país ainda em convulsão com as frequentemente sangrentas lutas pelos direitos civis. Como era de se esperar, porém, o sucesso de Poitier e sua persona forjada ao prazer e gosto de uma audiência branca encontrava resistência justamente junto a seus pretensos semelhantes: ativistas dos movimentos negros rechaçavam com desprezo a pasteurização de sua cultura para melhor fruição de um público predominantemente WASP - branco, anglo-saxão, protestante. O filme "O mordomo da Casa Branca" (2014), de Lee Daniels, exemplifica a questão, em uma discussão entre o protagonista (Forest Whitaker), dedicado aos presidentes do país, e seu filho (David Oyleomo), radical ativista do grupo Panteras Negras que via em Poitier um exemplo a ser renegado pelo povo afro-americano. A importância do ator na indústria do entretenimento ianque é inegável - mas também o são os questionamentos levantados pelos não-entusiastas. E essa dubiedade é, talvez, o cerne de "Adivinhe quem vem para jantar", um filme repleto de boas intenções mas que, de certa forma, esbarra em um muro de escolhas questionáveis em sua narrativa.
Diretor de filmes de suma importância social e política, como "O vento será tua herança" (60) - sobre um professor do interior dos EUA que vai parar no banco dos réus por ensinar a Teoria da Evolução de Darwin aos alunos - e "Julgamento em Nuremberg" - que tratava da batalha para condenar criminosos nazistas da II Guerra Mudial - o inteligente Stanley Kramer sabia que o tema de "Adivinhe quem vem para jantar" era controverso e poderia melindrar os mais conservadores (leia-se preconceituosos) do país. Foi com esse pensamento em vista que resolveu transformar seu protagonista negro em alguém que pudesse ser mais palatável a essa parcela do público - a quem, de certa forma, a mensagem era dirigida. Entra em cena, então, Sidney Poitier, com seu jeito polido, educado, inofensivo até. No filme, ele vive o dr. John Prentice, médico bem-sucedido, viúvo e repleto de boas intenções que entra na vida da família Drayton - brancos, cultos, inteligentes e aparentemente liberais - como uma tempestade inesperada: ele é apresentado pela jovem Joey (Katharine Houghton) como seu noivo, por quem se apaixonou perdidamente durante uma viagem ao Havaí. Mais do que simplesmente um namoro inconsequente, a relação entre os dois se revela séria e urgente, já que pretendem casar-se em poucos dias. Os até então modernos Matt (Spencer Tracy) - editor de um jornal de grande circulação - e Christina (Katharine Hepburn) - dona de uma galeria de arte - se veem, então, diante de uma situação que põe em xeque suas convicções e teorias. Quando os pais de John também entram na jogada, para um jantar ao qual também comparece um padre católico (Cecil Kellaway, indicado ao Oscar de coadjuvante), a noite se transforma em um debate onde se discute não apenas o futuro do casal, mas também o amor em geral e a situação social de um país inteiro.
A questão de John Prentice ser o protótipo do bom-moço - como se apenas se ele cumprisse todas as regras impostas por uma sociedade branca ele fosse apto a receber seu aval - ainda é muito discutida, como forma de diminuir o impacto de "Adivinhe quem vem para jantar" à época de sua estreia. Lógico que não foi a escolha ideal em termos ideológicos - é o mesmo que hoje em dia se fazer um filme com personagens gays que vivem sob normas heteronormativas como forma de não chocar a audiência e angariar sua simpatia - mas é injusto não reconhecer que Kramer, juntamente com o roteirista William Rose, fez um trabalho bastante corajoso e importante, além de não esquecer jamais dos ingredientes que fazem um bom filme: uma história interessante, um roteiro ágil e vivaz, uma direção firme e um elenco de sonhos. O último dueto entre Spencer Tracy e Katharine Hepburn é digno de seus melhores trabalhos, e fica na história como um testemunho de dois astros inteligentes, talentosos e engajados. É só deixar de lado a ideia de que poderia ter sido diferente e assistir ao filme pelo que ele é para apreender sua relevância e deleite.
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O VENTO SERÁ TUA HERANÇA
O VENTO SERÁ TUA HERANÇA (Inherit the wind, 1960, Stanley Kramer
Productions, 128min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Nedrig Young (como Nathan E.
Douglas), Harold Jacob Smith, peça teatral de Jerome Lawrence, Robert E.
Lee. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knutdson. Música:
Ernest Gold. Direção de arte: Rudolph Sternad. Produção: Stanley Kramer.
Elenco: Spencer Tracy, Fredric March, Gene Kelly, Dick York, Donna
Anderson, Harry Morgan. Estreia: 25/6/60 (Festival de Berlim)
4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy. Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.
O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.
Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.
Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.
4 indicações ao Oscar: Ator (Spencer Tracy), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
Tudo começou em 1925, em uma pequena cidade do Tennessee chamada Dayton, quando um professor do ensino médio chamado John Thomas Scopes foi preso, acusado de violar uma lei estadual que proibia o ensino da Teoria da Evolução, do cientista Charles Darwin. Levado à julgamento, o caso passou a ser conhecido nacionalmente como o "Julgamento do Macaco" e dividiu furiosamente os moradores da cidade (a maioria deles fundamentalistas religiosos). Trinta anos mais tarde, o caso chegou à Broadway, em uma peça teatral escrita por Jerome Lawrence e Robert E. Lee que ganhou dois Tony Awards no ano seguinte. Foi apenas questão de tempo até que Hollywood se interessasse - através do diretor e produtor Stanley Kramer - pelo tema e pela adaptação da peça. Com um elenco liderado por dois vencedores do Oscar (Spencer Tracy e Fredric March) e um astro de musicais se arriscando em um filme dramático (Gene Kelly), Kramer acabou por fazer, com "O vento será tua herança" uma espécie de ensaio para aquele que se tornaria sua maior obra-prima, "Julgamento em Nuremberg", lançado em 1961 também com a participação de Tracy. Porém, se "Julgamento em Nuremberg" se tornaria um clássico absoluto no subgênero "filmes de tribunal", a transposição da história de John Scopes para as telas não conseguiu fugir de uma pequena cota de problemas.
O primeiro deles surgiu logo na pré-produção, quando Kramer contratou o roteirista Nedrick Young para ser um dos autores da adaptação do texto teatral, ao lado de Harold Jacob Smith: encrencado com a justiça americana devido a suas tendências comunistas e consideradas subversivas, Young foi uma escolha ousada do cineasta, que de cara conseguiu a antipatia dos mais conservadores. Apesar de tal atitude ser compatível com as ideias da própria essência do filme - o desafio a regras arbitrárias que fomentam o preconceito e a discriminação - a reclamação de parte da comunidade hollywoodiana foi tanta que até mesmo Moss Hart, o então presidente da Liga dos Autores da América, se viu obrigado a um posicionamento, que chegou à Kramer através de um telegrama louvando sua coragem em não impedir um artista de trabalhar apenas por suas questões políticas. Munido de ainda mais ousadia, Kramer passou então a escalar seu elenco - e surpreendeu a todo mundo quando escolheu Gene Kelly para um papel sério, sem espaço para acrobacias musicais. Diante da recusa inicial do ator, Kramer arriscou-se ainda mais: acenou com a chance de colocar o astro de "Cantando na chuva" ao lado de nomes respeitados, como Spencer Tracy e Fredric March. Era uma tentação grande demais, e Kelly voltou atrás na recusa - sem desconfiar que o diretor ainda nem oferecera o projeto aos atores que haviam lhe servido de isca.
Porém, a confiança de Kramer no material era tanta que acabou justificada. Tanto Tracy quanto March - ambos duplamente já premiados com o Oscar na ocasião - embarcaram no projeto com entusiasmo de iniciantes e entregaram performances que mesmo nas filmagens já empolgavam os técnicos e colegas de elenco: muita gente, ouvindo falar de seus desempenhos, iriam conferir os trabalhos como se estivessem no teatro, chegando a aplaudir em cena aberta (e, obviamente, estragando os takes). Mas o fato é que, além do tema interessante e ainda relevante nos dias cada vez mais obscurantistas de hoje, o elenco de "O vento será tua herança" é sua maior qualidade - Spencer Tracy chegou a concorrer ao Oscar de melhor ator, mas perdeu para Burt Lancaster, em "Entre Deus e o pecado". Com sua postura ao mesmo tempo afável e venerável, o veterano astro nem parece precisar fazer muito esforço para convencer no papel de Henry Drummond, o advogado famoso que chega à pequena Hillsboro (substituindo a original, Dayton) para defender o jovem professor Bertram Cates (Dick York) contra a possibilidade de uma condenação por pura ideologia. Contando com o apoio do ambicioso jornalista E.K. Hornbeck (Gene Kelly, ótimo), ele não precisa enfrentar apenas o tribunal, e sim quase uma cidade inteira - seus únicos aliados são os jovens alunos de Cates.
Do outro lado do ringue, Fredric March dá vida ao promotor Matthew Harrison Brady, advogado cristão que prega uma conduta mais rígida e religiosa - o que lhe deu estofo suficiente para concorrer três vezes à presidência dos EUA. Velho amigo de Drummond, o eloquente promotor acaba por usar o tribunal como púlpito, inflamando os já fanáticos moradores da cidade - e usando até mesmo a filha do pastor, Rachel Brown (Donna Anderson), namorada de Cates, para atingir seu objetivo de condenar o rapaz. É óbvio que o roteiro é muito mais simpático à causa de Drummond - Brady é quase tratado de forma caricata em alguns momentos - mas a elegância da direção de Kramer impede que o filme resvale na crítica moralizadora e/ou rasa. Os diálogos inteligentes superam qualquer tipo de doutrinação e o elenco faz sua parte em dar credibilidade e consistência a questões cada vez mais importantes em um mundo dividido pela religião. "O vento será tua herança" é um filme imperdível para qualquer fã de cinema inteligente e relevante.
quinta-feira
JULGAMENTO EM NUREMBERG
JULGAMENTO EM NUREMBERG (Judgment at Nuremberg, 1961, United Artists, 186min) Direção: Stanley Kramer. Roteiro: Abby Mann. Fotografia: Ernest Laszlo. Montagem: Frederic Knudtson. Música: Ernest Gold. Produção: Stanley Kramer. Elenco: Spencer Tracy, Burt Lancaster, Marlene Dietrich, Richard Widmark, Maximilian Schell, Judy Garland, Montgomery Clift, William Shatner. Estreia: 14/12/61
11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Stanley Kramer), Ator (Maximilian Schell, Spencer Tracy), Ator Coadjuvante (Montgomery Clift), Atriz Coadjuvante (Judy Garland), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Maximilian Schell), Roteiro Adaptado
Vencedor de 2 Golden Globes: Diretor (Stanley Kramer), Ator/Drama (Maximilian Schell)
Pródiga que é em encantar a plateia com seu cinema, Hollywood também o é quando se trata de tomar partido em relação a temas polêmicos. Vez por outra, no entanto, a própria história se encarrega de prover aos estúdios e aos produtores os elementos necessários para o deleite do público. É o que acontece com "Julgamento em Nuremberg", dirigido por Stanley Kramer e lançado em 1961. Para buscar o interesse do público, o roteirista Abby Mann nem precisou buscar na sua imaginação os ingredientes do sucesso: eles realmente aconteceram, meros 13 anos antes, e foram muito mais cruéis do que a mente humana conseguiria conceber.
"Julgamento em Nuremberg" se passa em 1948, três anos depois, portanto, do final da II Guerra Mundial. O juiz de uma cidadezinha americana, Dan Heywood (Spencer Tracy) chega à Alemanha para presidir o julgamento de quatro juízes nazistas, acusados de crimes contra a humanidade. No tribunal, ele mantém a calma e a placidez necessárias enquanto assiste o embate entre o promotor Tad Lawson (Richard Widmark) e o jovem advogado de defesa, Hans Rolfe (Maximilian Schell, vencedor do Oscar de melhor ator). Mais do que simplesmente julgar os acusados, o juiz precisa também entender os pontos de vista a respeito do maior crime já cometido contra seres humanos, uma vez que, dentre os réus, existe o silencioso Ernst Janning (Burt Lancaster), que, depois de passar dias silencioso e meditativo, resolve se pronunciar, defendendo a si mesmo e seu país (em uma cena marcante e assustadoramente sincera).
"Julgamento em Nuremberg" é um filme obrigatório por inúmeras razões. Além de ser dramaticamente bem construído e contar com um elenco estelar (sendo que a maioria dos atores trabalhou com um salário menor do que o costumeiro apenas por julgar que o filme deveria ser feito por sua importância histórica), é um documento forte, pungente e realista, fugindo sempre que possível do maniqueísmo inerente ao tema. O equilíbrio do roteiro de Mann é notável, dando espaço a cenas massacrantes (o material filmado nos campos de concentração mostrado no tribunal é real) e diálogos e personagens bastante interessantes: Marlene Dietrich - inimiga pública do III Reich desde que recusou a ser a estrela de filmes de propaganda nazista e passou a fazer shows às tropas aliadas - vive, por exemplo, a viúva de um militar da SS condenado à morte, que insiste em afirmar que o povo alemão não sabia das atrocidades cometidas nos campos e, por mais que a simpatia da plateia esteja do lado do bem (a saber, os vencedores da guerra) não deixa de ser intrigante perceber como o texto forte de Mann e a atuação da bela Dietrich conseguem abalar as certezas que o público tem.
E o público, além de tudo, é brindado com o que de melhor há em termos de atuação no início dos anos 60. Maximilian Schell levou o Oscar de melhor ator disputando o prêmio com seu colega de elenco Spencer Tracy e brilha intensamente na pele do idealista advogado de defesa, que tenta desesperadamente salvar a liberdade de seus clientes mesmo sabendo que a batalha é praticamente perdida. Burt Lancaster entrega a melhor atuação de sua carreira com uma personagem indecifrável que consegue, em apenas duas cenas com diálogos substanciais (o já citado depoimento no banco das testemunhas e na sequência final com Tracy, de arrepiar qualquer fã de cinema e história). Mas são dois coadjuvantes que surpreendem ainda mais, em interpretações muito acima do chamado do dever - não à toa ambos tiveram indicações ao Oscar na categoria: Montgomery Clift e Judy Garland.
Clift, em um de seus últimos trabalhos, emociona como Rudolf Petersen, um homem vítima de esterilização por ter sido considerado mentalmente atrasado. Em apenas uma cena, Clift entrega o desempenho de sua vida, brilhantemente arrancando lágrimas com seu falar lento, sua angústia vísivel e sua indignação incurável (a defesa que ele faz da própria mãe é de fazer chorar o mais insensível dos homens). E Garland, voltando ao cinema depois de sete anos (seu último filme havia sido "Nasce uma estrela"), interpreta Irene Hoffman, que sobe ao banco das testemunhas para contar como foi obrigada a falar contra um homem mais velho, judeu, a quem tinha como pai, que foi acusado de manter relações sexuais com ela e portanto, condenado à morte. Mais velha e fisicamente descuidada, a eterna Dorothy de "O mágico de Oz" comprova seu talento único ao, corajosamente, expôr sua falta de vaidade em um papel difícil e emocionalmente complexo.
"Julgamento em Nuremberg" é um documento histórico de valor inestimável. Agrada aos fãs do gênero, conquista os interessados em história e impressiona os aficcionados por cinema clássico. Mais uma injustiça da Academia, que preferiu dar o Oscar principal ao pouco engajado "Amor, sublime amor".
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