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quinta-feira

O MESTRE

O MESTRE (The master, 2012, The Weinstein Company, 144min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Mihai Malaimare Jr.. Montagem: Leslie Jones, Peter McNulty. Música: Johnny Greenwood. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: David Crank, Jack Fisk/Amy Wells. Produção executiva: Ted Schipper, Adam Somner. Produção: Paul Thomas Anderson, Megan Ellison, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Joaquin Phoenix, Philip Seymour Hoffman, Amy Adams, Madisen Beaty. Estreia: 01/9/12 (Festival de Veneza)

 3 indicações ao Oscar: Ator (Joaquin Phoenix), Ator Coadjuvante (Philip Seymour Hoffman), Atriz Coadjuvante (Amy Adams)

O cinema de Paul Thomas Anderson não é para qualquer um. A forma bastante peculiar com que o cineasta trata de personagens complexas/problemáticas não é exatamente o que os fãs de produções mainstrean procuram quando se dispõem a frequentar salas de exibição. Posto isso, é bom que o espectador saiba exatamente o que esperar quando se dispuser a assistir a "O mestre", um dos mais complexos trabalhos do cineasta que, desde seu segundo longa, "Boogie nights", se tornou uma espécie de queridinho da crítica mas nunca chegou a emplacar um enorme sucesso de bilheteria - justamente por não se render a concessões comerciais. Erroneamente descrito por gente mal-informada como uma crítica à Cientologia - culto bastante popular nos EUA e especialmente em Hollywood, onde tem seguidores fervorosos como Tom Cruise e John Travolta - a trama criada por Anderson vai mais fundo do que simplesmente expor as entranhas de qualquer culto ou religião, dando ênfase muito mais à alma de seu protagonista, torturado por questões pessoais mal resolvidas e uma insegurança cruel em relação a como tratar de sua própria vida.

Vivido por um sensacional Joaquin Phoenix na única atuação masculina de 2012 que era capaz de tirar o Oscar das mãos de Daniel Day-Lewis, o veterano da Marinha americana Freddie Quell é uma das mais fortes personagens criadas por Paul Thomas Anderson - e isso que estamos falando do homem por trás de crias antológicas como Dirk Diggler e Jack Horner, de "Boogie nights", Frank McKey, de "Magnólia" e Daniel Plainview, de "Sangue negro" (este último criado pelo romancista Upton Sinclair mas adequado perfeitamente à obra do cineasta). Sofrendo de um alcoolismo crônico oriundo de seu stress pós-guerra e incapaz de manter-se em qualquer emprego - além de ter sérios problemas de relacionamento com as pessoas que o rodeiam - ele acaba, em uma de suas crises, invadindo o iate de Lancaster Dodd (Philip Seymour Hoffman), criador e líder de um culto chamado A Causa. Percebendo em Freddie uma alma presa a questões traumáticas de seu passado, Dodd também vê no jovem um grande potencial e o aceita junto a seu grupo e sua família. O comportamento errático e violento de Freddie, porém, vai entrar em rota de colisão com as regras e ensinamentos de Dodd, que se vê pressionado a tomar uma séria decisão entre manter ou não o rapaz junto dele.


"O mestre" é o típico filme que é muito melhor quando assistido do que quando resumido em palavras - e que cresce a cada revisão. Apesar da história ser interessante por si só, são as imagens cuidadosamente planejadas de Paul Thomas Anderson e a atuação de seus magníficos atores que dão a ele seu status de grande obra. Mesmo que o ritmo por vezes seja claudicante - e exija um nível de paciência extra de seus espectadores - a narrativa de Anderson é instigante o suficiente para prender a atenção, em especial porque, assim como em seus trabalhos anteriores, o roteiro nunca escorrega para o previsível, tanto em termos visuais quanto em níveis de história. Como poucos cineastas de seu tempo, Paul Thomas Anderson tem o dom de mexer em feridas adormecidas de suas personagens, que sofrem para atingir uma redenção que nem sempre existe, e o faz com maestria admirável. Em "O mestre", enquanto questiona a possibilidade das pessoas em ser donas da própria vida (sem depender de muletas de quaisquer tipos, incluindo aí e principalmente a religião) ele brinda o público com interpretações esplêndidas de seu elenco - outra característica marcante de sua filmografia.

É simplesmente hipnotizante, por exemplo, a cena em que Lancaster Dodd tem seu primeiro embate psicológico com Freddie Quell, com uma espécie de interrogatório que leva a uma catarse emocional empolgante: só por essa cena Joaquin Phoenix e Philip Seymour Hoffman já poderiam sair da cerimônia do Oscar com suas estatuetas douradas debaixo do braço. O mesmo pode ser dito da sequência em que os métodos e o culto de Dodd são questionados pelo convidado de uma festa - cena que tem consequências aterradoras que certamente justificam a má-vontade com que os cientologistas receberam o filme nos EUA. É essencial dizer, no entanto, que "O mestre" não é um filme sobre a Cientologia e nem tampouco critica qualquer espécie de grupo religioso. O filme - que poderia tranquilamente figurar entre os finalistas ao Oscar principal - é mais um impactante estudo psicológico de Paul Thomas Anderson, caminhando para se tornar um dos maiores cineastas americanos em atividade.

quarta-feira

SANGUE NEGRO

SANGUE NEGRO (There will be blood, 2007, Paramount Vintage/Miramax, 158min) Direção: Paul Thomas Anderson. Roteiro: Paul Thomas Anderson, romance "Oil", de Sinclair Lewis. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Jack Fisk/Jim Erickson. Produção executiva: Scott Rudin, Eric Schlosser, David Williams. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Daniel Day-Lewis, Paul Dano, Ciarán Hinds, Dillon Freasier. Estreia: 27/9/07

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Paul Thomas Anderson), Ator (Daniel Day-Lewis), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Daniel Day-Lewis), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Daniel Day-Lewis) 

Paul Thomas Anderson não é um cineasta dos mais despretensiosos. Desde que seu segundo longa-metragem, "Boogie nights, prazer sem limites", de 1997, chegou às telas - o primeiro, "Jogada de risco", é um cult pouco conhecido pelo grande público - seu estilo sofisticado de contar histórias aparentemente simples tornou-se xodó da crítica e passou a desconcertar a plateia, confundida com tramas tão díspares quanto "Magnólia" e "Embriagado de amor", que tinham em comum, em uma primeira análise, apenas sua localização geográfica (a Califórnia) e o cuidado extremo com a direção de atores - vale lembrar que Tom Cruise concorreu ao Oscar pelo primeiro e até Adam Sandler convenceu como protagonista dramático no segundo. Porém, nem mesmo o mais ardoroso fã de Anderson e seu estilo próprio de cinema poderia imaginar o que ele faria em seu quinto filme: pela primeira vez trabalhando com material alheio (o roteiro é baseado no romance "Oil", de Sinclair Lewis), o cineasta fez de "Sangue negro" um dos filmes fundamentais de sua época, um minucioso trabalho de direção, interpretação e técnica capaz de encantar a qualquer espectador disposto a se deixar levar pela magia da sétima arte em seu conceito mais puro. Amparado por uma devastadora atuação de Daniel Day-Lewis - que levou o segundo e merecido Oscar da carreira por seu desempenho - "Sangue negro" é uma obra-prima que, além de todas as suas qualidades, nada corajosamente contra a corrente do cinema comercial inócuo e derivativo feito em Hollywood.

Sem fazer concessões ao mainstream, Paul Thomas Anderson já começa sua lista de ousadias ao eleger como protagonista de seu filme um personagem frio, ambicioso e totalmente desprovido de qualquer traço que possa despertar a simpatia da audiência: Daniel Plainview é francamente desagradável, um misantropo ganancioso capaz dos atos mais desprezíveis para atingir seu objetivo de acumular mais e mais poços de petróleo nos primeiros anos do século XX. Cego de ambição, ele não hesita nem mesmo em adotar o filho bebê de um funcionário morto em trabalho como forma de comover as famílias de quem pretende adquirir terras e prometer dinheiro para a construção do templo da Igreja da Terceira Revelação, comandada pelo jovem e igualmente ambicioso Eli Sunday (Paul Dano) - que acabará se tornando seu maior rival e a única pessoa com coragem suficiente para desafiá-lo através dos anos, em uma batalha muitas vezes violenta onde eles medirão forças junto à comunidade.


Uma crítica feroz ao capitalismo e à Igreja disfarçada de épico dramático, "Sangue negro" é um triunfo também em termos técnicos. A fotografia oscarizada de Robert Elswit traduz em imagens de impressionante textura todas as nuances da narrativa de Anderson, com tomadas deslumbrantes e secas que refletem o estado de espírito vazio do protagonista e ilustram a aridez da paisagem e de sua personalidade. A edição do parceiro constante de Anderson, Dylan Tichenor, é precisa, fugindo do óbvio e da pressa, ditando um ritmo próprio à história e permitindo à Day-Lewis a possibilidade de um show à parte: construindo um Daniel Plainview repugnante mas ainda assim dono de um magnetismo quase irresistível, o ator preenche a tela com uma das interpretações mais sensacionais que o cinema americano já proporcionou em sua história. Cada olhar, cada entonação vocal, cada gesto e cada silêncio de Day-Lewis são repletos de significados, que engrandecem ainda mais o conjunto formado por Anderson, um diretor incapaz de filmar uma única cena que não seja milimetricamente calculada para atingir o máximo de impacto. Tal cuidado é o responsável por algumas sequências já clássicas, como os embates entre Plainview e seu nêmesis, Eli Sunday: pelo menos em três momentos (quando o jovem pastor se vê literalmente com o rosto esfregado na lama, quando o empresário aceita converter-se como forma de adquirir mais poços de petróleo e seu último encontro em uma quadra de boliche dentro de sua propriedade milionária) o duelo entre o veterano ator e o ótimo Paul Dano (mais conhecido até então como o irmão mais velho em "Pequena Miss Sunshine) são absolutamente impressionantes pela entrega dos atores, pela direção impecável e pela crueza das situações. E de quantos filmes o mesmo pode ser dito?

Ousado desde seus primeiros momentos - a primeira fala surge somente após cinco minutos de silêncio e demora ainda mais para que surja em cena um diálogo inteiro - "Sangue negro" é um filme feito para quem procura cinema de qualidade, corajoso e relevante, capaz de permanecer na memória do espectador muito tempo depois de seu final. Visualmente exuberante, dramaticamente consistente e intenso como poucos filmes realizados para o público adulto e inteligente, é também a prova da maturidade de um cineasta ainda jovem mas já capaz de deixar sua marca dentro de uma indústria frequentemente óbvia e autocondescendente. Bravíssimo!

quinta-feira

MAGNÓLIA

MAGNÓLIA (Magnolia, 1999, New Line Cinema, 188min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold, Mark Bridges/Chris Spellman. Produção executiva: Michael De Luca, Lynn Harris. Produção: Paul Thomas Anderson, JoAnne Sellar. Elenco: Jason Robards, Julianne Moore, Philip Seymour Hoffman, Tom Cruise, John C. Reilly, Melora Walters, William H. Macy, Philip Baker Hall, Melinda Dillon, Alfred Molina, Luiz Guszman, Jeremy Blackman. Estreia: 17/12/99

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Tom Cruise), Roteiro Original, Canção Original ("Save me")
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Tom Cruise)

Quando trata-se de cinema, normalmente o adjetivo "épico" vem acompanhado de cenários grandiosos, fotografia esplendorosa cobrindo vastas paisagens, uma trilha sonora grandiloqunte e personagens heroicos lutando por causas nobres e altruístas em espetáculos longos de ritmo alucinante. Por isso não deixa de ser um choque assistir-se à "Magnólia", de Paul Thomas Anderson, descrito por seu criador como um "épico sobre pessoas comuns". Épico? Os cenários são apartamentos à meia-luz, auditórios de programas de TV, bares frequentados por perdedores. A fotografia é sutil, discreta, tenuamente iluminada. A trilha sonora é composta por canções que falam de dor, rejeição e insegurança interpretadas por uma cantora folk de voz delicada. E as personagens podem ser consideradas quaisquer coisas, menos nobres e altruístas, porque lutam pela própria felicidade e contra a solidão e o arrependimento. Excetuando-se a longa duração (quase três horas), nada em "Magnólia" corresponde ao conceito de "filme épico". E talvez justamente por isso, por essa distorção, o trabalho de Anderson seja um dos melhores filmes da década de 90.
Anderson, também diretor do ótimo “Boogie nights, prazer sem limites” não tem medo de ousar em sua nova obra. Nada em “Magnólia” acontece da maneira que acontece em outros filmes e sim da maneira como ocorre na vida real. A história de amor contada no decorrer de sua duração - entre o policial  Jim (John C. Reilly) e a viciada em cocaína Claudia (Melora Walters, a grande revelação do filme) -  não ocorre entre dois exemplos de beleza em busca de uma felicidade de comercial de margarina e sim entre duas pessoas adultas e inseguras, com um belo histórico de problemas e personalidades conflitantes de verdade. Donnie Smith, o gênio mirim do passado (o ótimo William H. Macy) não quer ganhar dinheiro para viajar para Aspen e sim para colocar um aparelho nos dentes e assim conquistar a atenção e quem sabe o amor de um garçom mais jovem e atraente. Stanley Spector (Jeremy Blackman), o gênio mirim do presente, quer conquistar o amor do ambicioso pai e ter o direito de ir ao banheiro no momento em que precisar. O empresário moribundo Earl Partridge (o veterano Jason Robards em seu último e grande trabalho) não quer morrer em paz e sim obter o perdão do filho que abandonou, o guru de autoajuda sexual Frank T. Mackey(Tom Cruise em seu melhor trabalho, indicado ao Oscar de ator coadjuvante) e sua mulher, Linda (Julianne Moore nunca aquém de espetacular), que casou-se com ele por dinheiro, descobre, na iminência de sua morte, que o ama de verdade.



Cada cena em “Magnólia” surpreende por sua capacidade de emocionar sem apelar para o trivial e em buscar sempre a solução menos convencional, fato que fica evidente em seu clímax – uma chuva de sapos aparentemente sem qualquer explicação racional – e em uma das cenas mais comentadas de seu tempo – uma bela seqüência onde todos os personagens entoam a bela “Wise up”, da cantora Aimée Mann. A edição ágil de Dylan Tichenor colabora com a intenção do diretor em demonstrar o estado de excitação e angústia de seu grande número de personagens, todos envolvidos em momentos de total e dolorida verdade, seja ela o reencontro com um pai cuja imagem nunca foi positiva ou a revelação de um passado pouco agradável.

Contando com um elenco impecável (onde até mesmo Tom Cruise se sai bem, apesar da personagem irritante) e com uma trilha sonora que dificilmente pode ser excluída do rol de personagens devido à sua importância capital no desenrolar das cenas - mais do que simplesmente comentá-las, a trilha surge quase como uma espécie de consciência - "Magnólia" talvez seja o melhor exemplo de como um filme pode ser denso sem ser petulante e triste sem ser piegas. Envolvente desde sua fascinante sequência de abertura, é também a prova viva de quem nem sempre a palavra "épico" precisa estar necessariamente ligada a vastas paisagens (ainda que a alma humana muitas vezes seja tão seca e árida quanto o maior deserto).

segunda-feira

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES

BOOGIE NIGHTS, PRAZER SEM LIMITES (Boogie nights, 1997, New Line Cinema, 155min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Michael Penn. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: Bob Ziembicki/Sandy Struth. Produção executiva: Lawrence Gordon. Produção: Paul Thomas Anderson, Lloyd Levin, John Lyons, Joanne Sellar. Elenco: Mark Wahlberg, Burt Reynolds, Julianne Moore, John C. Reilly, Heather Graham, Phillip Seymour Hoffman, William H. Macy, Don Cheadle, Joanna Gleason, Thomas Jane, Alfred Molina, Luis Guzman, Melora Walters, Philip Baker Hall. Estreia: 10/10/97

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Burt Reynolds), Atriz Coadjuvante (Julianne Moore), Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Burt Reynolds)

Em 1988 um ainda adolescente Paul Thomas Anderson escreveu e dirigiu um falso documentário em curta-metragem chamado "The Dirk Diggler story", que narrava a ascensão e a queda de um ator pornô. Menos de dez anos depois, Anderson já era um cineasta - seu primeiro filme "Jogada de risco" havia sido lançado em ... - mas a história de seu curta ainda martelava em sua cabeça. Assim, com um orçamento um pouco mais generoso (mas ainda irrisório em comparação com outras produções da época) ele dirigiu seu segundo longa, que expandia - e muito - a história de Diggler. "Boogie Nights, prazer sem limites" acabou deslumbrando a crítica especializada e mostrou que Anderson era um cineasta já pronto antes mesmo dos 30 anos de idade.

A história começa em 1977, quando o adolescente Eddie Adams (Mark Wahlberg) é convidado pelo diretor de filmes "para adultos" Jack Horner (Burt Reynolds) a juntar-se à sua já consagrada equipe. Trabalhando como auxiliar de cozinha de uma casa noturna e em constante atrito com a família, Eddie identifica na relação de Horner e seus empregados um núcleo familiar mais saudável do que o seu e, com a ambição de ficar rico e famoso, assume o nome de Dirk Diggler e torna-se o maior astro pornô da época. Dotado de um instrumento de trabalho invejável, ele ganha todos os prêmios da indústria, cria personagens históricos e se envolve no mundo das drogas, iniciando então uma decadência física e moral.

Utilizando a meteórica ascensão de Diggler, o diretor/roteirista/produtor Anderson faz um inventário de uma das épocas mais queridas do imaginário americano e mundial. Os anos 70, com seus excessos, glamour e liberdade sexual, é uma personagem a mais na trama de "Boogie nights", tendo papel de fundamental importância para o desenvolvimento do roteiro - cujas 300 páginas iniciais foram diminuídas para 180 no produto final. A trilha sonora escolhida pelo diretor, por exemplo, jamais chama a atenção para si: é orgânica, parte essencial da narrativa, como um papel de parede (ou um dos pôsters do quarto do jovem Eddie). Da mesma forma, a direção de arte kitsch e o figurino espalhafatoso ajudam a contar a história, situando cada momento de forma inconfundível. É brilhante a maneira com que todos os elementos de "Boogie nights" estão absolutamente conectados, como peças interdependentes que se unem para formar um painel gigante. E para isso, além do visual, Paul Thomas Anderson conta com um elenco de causar inveja a Quentin Tarantino.



Assim como na filmografia de Tarantino, não há, em "Boogie nights", um protagonista absoluto. Ainda que Dirk Diggler seja o objeto da trama e seu catalisador, a narrativa do filme se estende além de sua trajetória. Anderson é um roteirista inspirado e inteligente, que dá a seus coadjuvantes histórias próprias que os elevam acima da condição de meras escadas. Julianne Moore está em uma de suas melhores atuações como Amber Waves, a estrela da companhia de Jack Horner, uma mulher madura, delicada e intensa que luta pela guarda do filho pequeno ao mesmo tempo em que, em sua vida paralela, pratique cenas de sexo explícito e consuma quilos e mais quilos de cocaína. Burt Reynolds - no papel de sua vida - dá a Jack Horner um intenso senso de desejo artístico (sua personagem quer mais do que simplesmente ganhar dinheiro com cinema pornô, ele quer ser reconhecido como um artista...) Heather Graham faz de sua Rollergirl (papel recusado por Gwyneth Paltrow) uma jovem tentando encontrar seu caminho na vida e até mesmo o produtor dos filmes de Horner, Coronel James, do alto de sua pedofilia, é capaz de despertar uma certa compaixão no espectador. Esse talento de Anderson em dar uma aura humana a qualquer personagem faz de "Boogie nights" um dos melhores dramas intimistas da década de 90 (a despeito de não ser tratado como tal). Melhor que ele, somente "Magnólia", lançado dois anos depois e também assinado por ele.

Mas falar de "Boogie nights" sem falar de seu tema central seria absurdo. Mesmo que suas personagens secundárias sejam tão interessantes quanto a trama principal, é sobre a indústria pornô dos anos 70 que versa "Boogie nights". A era disco - retratada de maneira carinhosa mas ainda assim com um certo ar de decadência depressiva - é a espinha dorsal do filme, o cenário sobre o qual se desenvolvem todos os dramas criados por Anderson: a entrega de Dirk às drogas, a luta de Amber pelo filho, a tragédia envolvendo Little Bill (William H. Macy) - que mata a mulher adúltera em plena festa de Reveillon - e a substituição do filme por videotape no início da década de 90 são narrados com maestria por um jovem cineasta no auge de sua energia. A primeira cena - um plano-sequência de cerca de 3 minutos que apresenta as principais personagens em um clube noturno - já demonstra, de cara, que Paul Thomas Anderson não é um cineasta qualquer.

E boa parte da energia que "Boogie nights" transmite ao espectador se deve à presença de Mark Wahlberg. Desacreditado como ator e vindo de uma carreira como modelo de cuecas Calvin Klein e como o rapper Marky Mark, o quase estreante ficou com o papel oferecido a Leonardo DiCaprio e não poderia ter se saído melhor. Não é um grande ator, mas tem uma presença cênica forte o bastante para jamais comprometer - além de ter uma estampa bagaceira que casa perfeitamente com o protagonista que interpreta. É ele o rosto (e o corpo) de "Boogie nights" e, se o filme é tão bom muito da responsabilidade é de sua entrega ao papel e da direção nervosa de Paul Thomas Anderson.

"Boogie nights" é um dos melhores filmes dos anos 90 e ponto final. É forte, é audacioso, é inteligente e tem um senso de humor dos mais macabros. Obra de gênio!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...