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sexta-feira

NOSSAS NOITES


NOSSAS NOITES (Our souls at night, 2017, Netflix, 103min) Direção: Ritesh Batra. Roteiro: Scott Neustadter, Michael H. Weber, romance de Kent Haruf. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: John F. Lyons. Música: Elliot Goldenthal. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Helen Britten. Produção executiva: Pauline Fischer, Ben Ormand. Produção: Finola Dwyer, Robert Redford, Erin Simms. Elenco: Jane Fonda, Robert Redford, Matthias Schoenaerts, Judy Greer, Bruce Dern, Phyllis Sommerville, Iain Armitage. Estreia: 01/9/2017 (Festival de Veneza)

O primeiro encontro profissional entre Jane Fonda e Robert Redford se deu em 1966, no filme "Caçada humana", dirigido por Arthur Penn e estrelado por Marlon Brando. No ano seguinte, estrelaram, no auge da beleza e da juventude, a comédia romântica "Descalços no parque", baseada em peça teatral de Neil Simon. Uma terceira parceria veio em 1979 com "O cavaleiro elétrico", dirigido por Sydney Pollack, e demorou quase quatro décadas para que uma nova colaboração chegasse até os fãs da dupla. Produzido pela Netflix, o drama romântico "Nossas noites" estreou no Festival de Veneza de 2017 e, se não fez o barulho que se poderia esperar de tal reunião isso se deve mais à despretensão do filme do que por sua possível falta de qualidades. Delicada e sensível, a adaptação do livro de Kent Haruf é um presente para um público em busca de histórias simples e bem contadas, com personagens com as quais é fácil se identificar de alguma maneira. E é claro que contar com a ajuda de Fonda e Redford não atrapalha em nada. Mesmo que não acrescente nada ao gênero e faça pouco pela carreira dos envolvidos, pode-se dizer, sem medo, que "Nossas noites" é um filme para aquecer o coração.

Sem medo de demonstrar a idade, Fonda e Redford são a principal fonte de interesse no filme dirigido pelo indiano Ritesh Batra, que ficou conhecido no Ocidente graças ao simpático "The lunchbox" (2013). Inteligente, Batra acerta em cheio a não tentar dissimular o tom quase melodramático da história e assumir seu dom para o romantismo exarcebado - ainda que pincelado com tons realistas e modernos. Fonda vive Addie Moore, uma viúva que, tentando amenizar a solidão, bate à porta de seu vizinho, Louis Waters (Redford), também viúvo, e faz a ele uma proposta inusitada: já que se conhecem há anos, ainda que superficialmente, por que não tentam dormir juntos na casa dela, como forma de fazer companhia um ao outro? A proposta é clara: não é sexo que Addie está procurando, e sim uma forma de conexão humana. Sem nada a perder, Louis aceita a nova amizade e os dois, aos poucos, começam a criar uma intimidade - ela ainda sofre com a morte precoce da filha, ainda criança, e ele tenta lidar com o sentimento de culpa de ter traído a esposa quando a filha ainda era pequena. Conforme vão se tornando mais próximos, porém, Abbie e Louis passam a ser o assunto da vizinhança - e não demoram a perceber que um sentimento muito forte está nascendo entre eles.


 

Como não poderia deixar de acontecer, no entanto, a felicidade do novo casal começa a incomodar, principalmente a Gene (Matthias Schoenaerts), filho de Abbie e ex-aluno de Louis: com o casamento em crise, Gene procura a mãe para pedir que ela fique um tempo com seu filho, Jamie (Iain Armitage), até que ele resolva sua vida. A presença do menino, ao contrário de afastá-la de seu novo amigo, faz com que Abbie o valorize ainda mais: juntos, os três formam uma nova e unida família, onde o respeito, o amor e o carinho são parte crucial da equação. Mas será que sua coragem em investir em um novo amor depois dos setenta anos valerá a pena? Ou os problemas do passado serão mais fortes que a busca pela felicidade já no outono da vida? O roteiro, escrito pelos mesmos Scott Neustadter e Michael H. Weber da comédia romântica "(500) dias com ela" (2009), não se aprofunda em tais questões, que surgem conforme a relação entre os protagonistas vai se tornando cada vez mais sincera. Assim como na vida, os problemas aparecem em cada esquina (e de tamanhos variados) e precisam ser resolvidos antes dos próximos passos, e os personagens lidam com eles sem grandes cenas dramáticas ou lágrimas desnecessárias. "Nossas noites" é um filme de pequenos momentos, de sentimentos reais e personagens que podem morar ao lado do espectador. Para uns é uma qualidade, para outros pode ser entediante.

A química entre Robert Redford - um dos produtores do filme - e Jane Fonda é preciosa. Despidos do glamour de estrelas de cinema, ambos entregam atuações comoventes, que envolvem o público sem fazer muito esforço. Apesar do início um tanto estranho - a proposta de Addie não é exatamente algo comum - e de certa demora em estabelecer obstáculos à nascente história de amor, "Nossas noites" entrega à audiência um produto com muito mais conteúdo do que boa parte de seus congêneres, normalmente dedicados à romances entre jovens fotogênicos em cenários paradisíacos. Addie e Louis vivem em uma cidadezinha do Colorado sem maiores atrativos e há muito não podem ser considerados símbolos sexuais, mas a história do escritor Kent Haruf, que morreu seis meses antes da publicação de seu livro - ressoa em qualquer lugar do mundo justamente por sua humanidade franca e honesta. Dirigido com sutileza e interpretado por dois dos maiores nomes do cinema hollywoodiano, "Nossas noites"" vale a pena. É como um chocolate quente no auge do inverno.

quinta-feira

ÍNTIMO & PESSOAL

ÍNTIMO & PESSOAL (Up close & personal, 1996, Touchstone Pictures/Cinergi Pictures Entertainment, 124min) Direção: Jon Avnet. Roteiro: Joan Didion, John Gregory Dunne, inspirado no livro de Alanna Nash. Fotografia: Karl Walter Lindenlaub. Montagem: Debra Neil-Fisher. Música: Thomas Newman. Figurino: Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Jeremy Conway/Doree Cooper. Produção executiva: John Foreman, Ed Hookstratten. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner, David Nicksay. Elenco: Robert Redford, Michelle Pfeiffer, Stockard Channing, Joe Mantegna, Kate Nelligan, Glenn Plummer, James Rebhorn, Scott Bryce. Estreia: 01/3/96

Indicado ao Oscar de Canção Original ("Because you loved me")



Primeiro foi o sucesso da Touchstone Pictures em conseguir os direitos do livro "Almost golden: The Jessica Savitch Story", escrito por Allana Nash. Depois, a expectativa em realizar um filme capaz de chamar a atenção do público e da crítica - além de faturar estatuetas douradas pelo caminho. E no fim, o desespero de perceber que o material que tinham em mãos era radicalmente o oposto do que se poderia esperar de uma produção com o selo Disney. É de imaginar o que um estúdio conhecido por seus filmes realizados para a família poderia pensar ao ler uma história sombria e trágica, com uma protagonista envolvida com álcool, drogas, maridos abusivos e até suicídio. Tendo isso em conta, é compreensível que a trajetória de Savitch - uma das primeiras mulheres a assumir o cargo de âncora em um telejornal nos EUA, no final dos anos 70 - tenha se metamorfoseado, então, em "Íntimo & pessoal", um açucarado drama romântico que em nada (ou quase nada) lembra sua origem dramática e que, por ironia, passou batido nas cerimônias de premiação e nem mesmo entusiasmou seu público-alvo. Um entretenimento apenas razoável, o filme de Jon Avnet (do bem-sucedido "Tomates verdes fritos", de 1991) só não é totalmente esquecível graças à beleza e ao carisma de sua estrela, Michelle Pfeiffer - que, por sua vez, deve ter sido a mais frustrada da história toda.

Recém saída de um parto e sem disposição para filmagens extensas e cansativas fora dos EUA, Pfeiffer recusou o papel principal de "Mistress of the sea" - um filme de ação sobre piratas do sexo feminino e que nunca chegou a ser realizado - para estrelar "Íntimo & pessoal" quando o filme de Avnet ainda era sobre Jessica Savitch e sua história, tragicamente encerrada em decorrência de um acidente de carro em outubro de 1983. Conhecida nacionalmente por seu trabalho como repórter e apresentadora, Savitch cobriu eventos importantes para o país, como as convenções dos partidos Democrata e Republicano de 1980 - mas era mais conhecida por seu carisma e pela naturalidade diante das câmeras (apesar de ter seu talento ser frequentemente questionado por detratores, que a consideravam apenas um rosto bonito). Poucas semanas antes de sua morte, em um incidente que muitos consideraram um forte indício de que ela poderia realmente estar abusando de drogas, Savitch fez uma desastrosa aparição ao vivo na NBC, parecendo completamente perdida e incoerente. Sua morte não encerrou as discussões sobre o assunto - mas sua vida pessoal era muito mais complexa do que todos pensavam, mas tudo que fazia dela tão especial em termos dramáticos foi simplesmente apagado do roteiro quando a Touchstone decidiu que, ao invés de explorar os demônios de sua protagonista, iria direcionar o foco do filme para uma história de amor que não tinha absolutamente nada a ver com a realidade.



Surgia assim, então, Sally Atwater, uma jovem e ambiciosa modelo que, disposta a tornar-se conhecida como repórter televisiva, abandona seu estado natal, a Pensilvânia, e parte para Miami. Contratada como assistente, ela não demora a demonstrar garra o bastante para ser escolhida como a "moça do tempo" da NBC - e, em seguida, passar a fazer pequenas reportagens para a emissora. Com o apoio do experiente Warren Justice (Robert Redford), Sally (já devidamente rebatizada como Tally) aos poucos começa a subir mais degraus na carreira, e os dois iniciam um romance maduro e honesto. O futuro do relacionamento, porém, é posto à prova quando Tally se torna um rosto conhecido no país inteiro - e Justice se vê diante de uma séria crise que lhe coloca em posição inferior no campo profissional. Enquanto Tally ascende cada vez mais, ele busca uma maneira de continuar trabalhando e encontrando desafios que o façam sentir-se vivo e importante.

Uma espécie de "Nasce uma estrela" dentro do jornalismo, "Íntimo & pessoal" é uma produção que não atinge todos os seus potenciais. Nem de longe perto do brilhantismo de seu "Tomates verdes fritos", Jon Avnet entrega um trabalho apenas correto, ainda que muitas vezes de uma simplicidade narrativa excessiva. Robert Redford não tem muito o que fazer na pele de Warren Justice, um personagem sem grande complexidade, e até mesmo Michelle Pfeiffer, apesar do carisma e do talento, não consegue ultrapassar os limites de uma protagonista retratada com insegurança pelo roteiro: na primeira metade do filme, Tally é uma personagem de comédia romântica, com direito até mesmo a cenas bem-humoradas (que nem sempre funcionam); e na reta final assume ares de heroína trágica, com momentos lacrimosos sublinhados pela bela "Because you loved me", na voz de Céline Dion. Essa quase esquizofrenia do filme é que dificulta à plateia envolver-se totalmente em sua história - pode até emocionar aos mais sensíveis, mas, perto do que poderia ter sido (especialmente com todos os dramas vividos por Savitch, sua inspiração original), é apenas um drama derivativo e previsível. Fácil de assistir, mas igualmente fácil de esquecer.

sábado

CONSPIRAÇÃO E PODER

CONSPIRAÇÃO E PODER (Truth, 2015, Sony Pictures Classics, 125min) Direção: James Vanderbilt. Roteiro: James Vanderbilt, livro "Truth and duty: the press. the president, and the privilege of power", de Mary Mapes. Fotografia: Mandy Walker. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Brian Tyler. Figurino: Amanda Neale. Direção de arte/cenários: Fiona Crombie, Kirk Petruccelli/Glen W. Johnson. Produção executiva: Antonia Barnard, Mikkel Bondesen, James Packer, Steven Silver, Neil Tabatznik. Produção: Bradley J. Fischer, Doug Mankoff, Brett Ratner, William Sherak, Andrew Spaulding, James Vanderbilt. Elenco: Cate Blanchett, Robert Redford, Dennis Quaid, Topher Grace, Elisabeth Moss, Bruce Greenwood, Stacy Keach, Dermot Mulroney. Estreia: 12/9/15 (Festival de Toronto)

O romance entre o cinema e os bastidores do jornalismo já rendeu clássicos inquestionáveis, desde aqueles que defendem a imprensa - "Todos os homens do presidente" (76) - até aqueles que criticam seus abusos - "A montanha dos sete abutres" (57) e "Rede de intrigas" (76). Em 2015, para marcar sua estreia como diretor, o roteirista James Vanderbilt resolveu acrescentar mais um título à primeira lista com "Conspiração e poder", transposição para as telas de uma história real que abalou o telejornalismo norte-americano em 2004 e colocou o então candidato à reeleição George W. Bush diante de um escândalo que quase lhe custou o segundo mandato - mas que, por incrível que pareça, prejudicou muito mais a equipe jornalística do prestigiado "60 minutos", incluindo seu respeitado apresentador Dan Rather. Com base no livro escrito por Mary Mapes, a produtora do programa e principal mira do ataque dos partidários de Bush, Vanderbilt - autor do elogiado script de "Zodíaco" (06), de David Fincher - amargou um fracasso de bilheteria e foi ignorado pelas cerimônias de premiação, mas não faz feio em comparação com outros filmes do gênero, principalmente pela equação equilibrada entre uma boa história e um elenco afiadíssimo, liderado por Cate Blanchett e Robert Redford - coincidentemente um dos atores centrais do icônico "Todos os homens do presidente".

Se no celebrado filme de Alan J. Pakula o galã mais cobiçado das décadas de 60 e 70 vivia um dos repórteres que desmascararam o presidente Richard Nixon no escândalo chamado Watergate, dessa vez Redford assume com tranquilidade um papel de segundo plano, ainda que igualmente importante para os desdobramentos da ação. Cabe à Cate Blanchett - linda e excelente atriz como sempre - a função de estar na linha de frente. Ela vive Mary Mapes, uma competente e dedicada produtora jornalística, responsável por algumas das pautas mais premiadas e importantes do programa "60 Minutos", apresentado pelo veterano Dan Rather (Redford, em atuação elogiada pelo próprio repórter) na CBS. Conhecida por sua fé no jornalismo como fonte de levar a verdade ao público, ela põe a mão em uma matéria de enorme potencial político quando, em 2004, descobre uma série de documentos que comprovam que o então jovem George W. Bush usou de sua influência política e financeira para fugir da Guerra do Vietnã - e, pior ainda, desertou do serviço militar por um período de tempo. Partindo apenas da palavra de Bill Burkett (Stacy Keach) um ex-militar ressentido contra o governo, e com pressa de colocar o programa no ar antes das eleições, Mapes logo sente o gostinho do sucesso ser substituído pelo sabor amargo da opinião pública: peritos surgem para questionar os documentos, testemunhas antes seguras dos fatos mudam de ideia e até mesmo alguns poderosos da emissora passam a duvidar da veracidade da notícia. Sua carreira, até então intocável, passa a depender de ela conseguir provar suas acusações.





Imprimindo um tom sóbrio e elegante à sua narrativa, James Vanderbilt faz uma estreia bastante competente, com bom uso de todos os elementos clássicos do gênero e a exploração correta de cada membro de sua equipe, da diretora de fotografia Mandy Walker e do editor Richard Francis-Bruce - indicado ao Oscar por "Um sonho de liberdade" (94) e "Seven" (95) - até a trilha sonora minimalista, quase imperceptível, de Brian Tyler, que só se faz notar em momentos cruciais, mantendo-se discreta e eficaz durante toda a projeção. Tomando claramente o lado de Mapes na questão - afinal de contas o ponto de vista é dela - e questionando com contundência os mecanismos da busca incansável pela verdade no jornalismo, Vanderbilt cria um panorama bastante rico da situação, conduzindo a plateia pelos meandros do telejornalismo sem nunca perder de mão seu interesse pelos personagens. O time formado por Mapes é tratado com carinho e particular interesse, explorando os desejos e ambições de cada um que a cerca. Há Roger Charles (Dennis Quaid), um militar aposentado e ainda fiel à sua vocação, mas ainda mais leal à verdade; há o jovem Mike Smith (Topher Grace), cuja carreira repleta de altos e baixos trai sua sede de aventuras; e há Lucy Scott (Elizabeth Moss), que entra na jogada com o objetivo de somar pontos à sua carreira e acaba por encontrar um labirinto traiçoeiro. O roteiro dá espaço a cada um desses personagens, mas jamais perde o foco - e essa é sua maior qualidade.

Sem buscar apoio em momentos cômicos ou românticos, "Conspiração e poder" é um retrato atraente e envolvente de um assunto cada vez mais em voga em tempos tão vorazes em termos de informação (e má informação): discutindo os limites da ética e a força do dinheiro e do poder em questões de alto impacto, o roteiro é uma aula de narrativa simples e direta. Apesar de sua verborragia - algo de que poucos filmes sobre o assunto conseguem escapar - e do interesse quase restrito ao público norte-americano (que fez pouco caso do filme nas bilheterias, injustamente), é uma produção de classe e inteligência, que conquista o espectador pelo cérebro e não pela adrenalina. Pode soar um tanto esquemático e frio para quem busca mais tensão e um grande clímax, mas é potente o bastante para permanecer na memória - em especial graças ao desempenho exemplar (mais um!) de Cate Blanchett. Corpo e alma do filme, ela responde pelas cenas mais intensas da produção - em especial em seu embate final com seus inquisidores, liderados por Dermot Mulroney. Estoica, corajosa e brilhante, Mary Mapes encontrou em Blanchett a intérprete ideal. E ao público, resta aplaudir.

sexta-feira

GENTE COMO A GENTE

GENTE COMO A GENTE (Ordinary people, 1980, Paramount Pictures, 124min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Judith Guest. Fotografia: John Bailey. Montagem: Jeff Kanew. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva, Phillip Bennett/William Fosser, Jerry Wunderlich. Produção: Ronald L. Schwary. Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh. Estreia: 19/9/80

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Atriz (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Judd Hirsch), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Redford)), Atriz/Drama (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Revelação Masculina (Timothy Hutton) 

Em 1979, a Academia de Hollywood achou por bem oferecer suas mais valiosas estatuetas - melhor filme, direção, roteiro e ator - a um pequeno drama familiar chamado "Kramer vs Kramer", que também deu a uma então jovem Meryl Streep o prêmio de atriz coadjuvante. A preferência dos votantes por produções mais intimistas e voltadas para sentimentos comuns a uma parcela mais significativa da plateia se manteve no ano seguinte, quando a estreia do ator Robert Redford atrás das câmeras também saiu da cerimônia do Oscar carregado de homenagens. Passando por cima de obras superlativas, como "Touro indomável" (de Martin Scorsese) e "O homem elefante" (de David Lynch), o delicado "Gente como a gente" conquistou as láureas de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um romance de Judith Guest) e ator coadjuvante (para o estreante Timothy Hutton, na época com apenas 20 anos de idade).

Em termos puramente cinematográficos, talvez realmente tenha sido um exagero da Academia optar pelo filme de Redford em detrimento das obras-primas de Scorsese e Lynch, mas não é difícil compreender suas razões, principalmente se for levada em conta a tendência da época em dar mais atenção a sentimentos discretos do que a grandes explosões de violência e dor. No final dos anos 70, os eleitores da Academia pareciam mais dispostos a abraçar famílias desfeitas do que grandes espetáculos - em uma espécie de surpreendente introspecção que não duraria por muitos anos, uma vez que já em 1982, com "Gandhi", de Richard Attenborough, eles voltaram a prestigiar gigantescas produções. E a obra de Guest, um romance devastador sobre a dor da perda, a incapacidade de lidar com o vazio existencial e o esfacelamento de um núcleo familiar aparentemente perfeito, serviu como uma luva para tais preferências conservadoras do Oscar. O resultado - nada surpreendente depois da chuva de Golden Globes (cinco no total, incluindo um prêmio de revelação masculina para Hutton, que também saiu como melhor coadjuvante) - espelhou também a escolha do National Board of Review e a Associação de Críticos de Nova York. Como se pode ver, não apenas a Academia se deixou seduzir pela sensibilidade de Redford em abordar temas tão difíceis.


"Gente como a gente" lança seu olhar curioso para dentro do lar da família Jarrett - ou o que sobrou dela após a morte do filho mais velho, Buck, em um acidente de barco. Desde o trágico acontecimento, seu irmão caçula, Conrad (Timothy Hutton), não se cansa de sentir-se culpado, o que o levou até mesmo a uma tentativa de suicídio. Já em casa depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, ele tenta retomar a rotina escolar e de treinos na equipe de natação, mas esbarra na frieza da própria mãe, Beth (Mary Tyler Moore), que tinha preferência pelo filho morto e demonstra desprezo e apatia pelo rapaz. Seu sofrimento em relação a isso é amenizado em parte pelas atenções do pai, Calvin (Donald Sutherland) - também aterrorizado pelos acontecimentos - e por seu novo terapeuta, Berger (Judd Hirsch, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que luta para fazê-lo compreender melhor o mundo a seu redor e perceber as coisas como elas realmente são. É graças a ele que o jovem Conrad se sente capaz de iniciar um tímido relacionamento com Jeannine (Elizabeth McGovern) mesmo quando não se sente totalmente apto a isso. Apesar de tudo, porém, é a falta de comunicação com Beth que o devasta - a ponto de ter a certeza absoluta de que não é amado por ela.

Dirigindo seu primeiro filme com ritmo europeu - lento, discreto, delicado - e evitando ao máximo o sentimentalismo barato que poderia vir com uma trama tão repleta de sofrimento, Robert Redford mostrou-se um cineasta interessado em questões relevantes e sinceras. Sua carreira posterior, no comando de uma série de filmes politicamente responsáveis e pungentes, demonstra seu cuidado em narrar histórias onde o maior interesse reside nos personagens e em seus fantasmas interiores. Surge daí seu talento em extrair de seus atores performances memoráveis. Usando sua experiência como ator para melhor orientar seu elenco, Redford consegue a façanha de criar personagens repletos de nuances e complexos a ponto de evitar o que mais se teme em filmes do gênero: o maniqueísmo. Beth, se aparenta uma frieza quase desprezível em relação ao filho mais jovem, tem seus momentos de dor, escondidos sob uma carapaça que nem mesmo a doçura do rapaz consegue romper. Calvin está no meio de um fogo cruzado, entre a mulher por quem se apaixonou e o filho que tenta ajudar (mas quem fará isso por ele?). E Conrad, sentindo-se culpado pela morte do irmão e pela decepção que causou à mãe, vê na autodestruição o caminho mais correto a seguir. São todos personagens fortes e verossímeis, tratados com respeito pelo roteiro de Alvin Sargent, também premiado com o Oscar. Pode não ser um filme espetacular ou que fez o cinema avançar como técnica, mas "Gente como a gente" tem qualidades redentoras e, assistido com o coração aberto, é emocionante e inesquecível.

quarta-feira

DESCALÇOS NO PARQUE

DESCALÇOS NO PARQUE (Barefoot in the park, 1967, Paramount Pictures, 106min) Direção: Gene Sacks. Roteiro: Neil Simon, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Joseph LaShelle. Montagem: William Lyon. Música: Neal Hefti. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Hal Pereira, Walter Tyler/Robert Benton, Arthur Krams. Produção: Hal B. Wallis. Elenco: Robert Redford, Jane Fonda, Charles Boyer, Mildred Natwick, Herbert Edelman, Mabel Albertson. Estreia: 25/02/67

Indicado ao Oscar de Atriz Coadjuvante (Mildred Natwick)

Um dos mais populares dramaturgos americanos de sua geração, Neil Simon nem precisava ir muito longe para buscar inspiração para seus textos, sempre recheados de fina ironia e um senso de humor inteligente. Seus casamentos, por exemplo, forneciam matéria-prima mais do que suficiente para suas peças de teatro, invariavelmente bem-sucedidas tanto nos palcos quanto nas telas de cinema. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "Descalços no parque", que escreveu inspirado nas primeiras semanas de seu relacionamento com a dançarina Joan Bain. Lançada como espetáculo da Broadway em 1963 (dirigida por Mike Nichols) e adaptada para o cinema pelo próprio autor, a história de amor e desavença entre um casal que descobre que casamento é mais do que a lua-de-mel acabou por se tornar o primeiro sucesso de bilheteria das carreiras de dois então jovens atores que não demorariam em virar ídolos: Robert Redford e Jane Fonda.

Redford já tinha defendido seu personagem, o advogado certinho Paul Bratter, nos palcos, e sua presença no filme de estreia do diretor Gene Sacks revelava um inesperado timing cômico que seria ainda mais depurado em dois de seus filmes mais populares que viriam a seguir - "Butch Cassidy e Sundance Kid" (69) e "Golpe de mestre" (73), ambos ao lado do colega Paul Newman. Enquanto isso, a filha de Henry Fonda vinha de produções que nem de longe exploravam todo o seu potencial como atriz e mulher bonita, como "Até os fortes vacilam" (60), com Anthony Perkins e "Dívida de sangue" (65), realizado ao lado de Lee Marvin. Na pele da descolada e vivaz Corie, cuja espontaneidade contrasta radicalmente com a rigidez do marido, Jane deu o primeiro passo em direção ao sucesso de público e crítica que viria a lhe render dois Oscar na década de 70, juntamente com uma sucessão de polêmicas envolvendo sua militância contra a Guerra do Vietnã. Em 1967, quando o filme estreou, ambos eram apenas talentosos jovens atores em busca de um lugar ao sol - e seus desempenhos exalavam um frescor perceptível ainda hoje, a despeito do fato de o filme não ter mantido o mesmo nível de atemporalidade de suas atuações.


"Descalços no parque" começa logo após a cerimônia de casamento dos jovens, belos e saudáveis Paul e Corie Bratter, que vão demorar menos de uma semana para perceberem que a vida de casados não se resume aos seis dias que passam trancados no quarto de um hotel. Logo que se mudam para o minúsculo apartamento no quinto andar de um prédio sem elevadores - escolhido por Corie em sua ânsia de aventurar-se na rotina matrimonial - os dois passam a encarar crise após crise, seja devido ao tamanho reduzido de seu lar, seja por causa da vizinhança bizarra ou até mesmo por começarem a notar um no outro traços de personalidade pouco atraentes. Corie despreza o jeito conservador do marido, que, por sua vez, percebe na esposa um desejo quase infantil de aproveitar cada prazer da vida - inclusive ao lado do excêntrico vizinho, Victor Velasco (Charles Boyer), que ela pretende casar com sua mãe, Ethel (Mildred Natwick, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante). A crise, que aparenta ser passageira, acaba por estender-se mais do que o esperado, e ambos serão obrigados a questionar seu casamento.

Analisado friamente, "Descalços no parque" não acrescenta nada ao gênero comédia romântica - ainda que mereça crédito por subverter a fórmula "rapaz encontra moça" e já começar sua narrativa com o casal de protagonistas casado. Porém, alguns diálogos brilhantes e o elenco impecável compensam certos momentos mais lentos e desnecessários. Muito do que funciona - as referências constantes às escadas que levam ao apartamento, por exemplo - vem do talento de Neil Simon em extrair humor do cotidiano e da química faiscante entre Robert Redford e Jane Fonda em seu terceiro filme juntos - eles ainda contracenaram em "O cavaleiro elétrico", em 1979, já consagrados. Eles são tão agradáveis e carismáticos que sempre que estão em cena fazem esquecer a perda de ritmo de determinadas situações criadas pelo roteiro e transformam um filme simples e despretensioso em um entretenimento acima da média. Para assistir em um domingo chuvoso nada melhor.

domingo

O ENCANTADOR DE CAVALOS

O ENCANTADOR DE CAVALOS (The horse whisperer, 1998, Touchstone Pictures, 172min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Eric Roth, Richard LaGravenese, romance de Nick Evans. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Hank Corwin, Freeman Davies, Tom Rolf. Música: Thomas Newman, Gwil Owen. Figurino: Judy L. Ruskin. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau, Hilton Rosemarin. Produção executiva: Rachel Pfeffer. Produção: Patrick Markey, Robert Redford. Elenco: Robert Redford, Kristin Scott Thomas, Sam Neil, Dianne Wiest, Chris Cooper, Scarlett Johanssen, Cherry Jones, Kate Bosworth. Estreia: 15/5/98

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("A soft place to fall")

Quem conhece a filmografia de Robert Redford como cineasta sabe muito bem que o galã transformado em diretor oscarizado - pelo belo "Gente como a gente", de 1980 - tem um ritmo todo particular de contar as histórias que escolhe apresentar à plateia. Foi assim, por exemplo, com "Nada é para sempre" (92), que ilustrava uma trama familiar e fraternal com o ritmo suave da pesca, e com "Quiz show, a verdade dos bastidores" (94), que escancarava a corrupção da televisão americana em plenos anos 50 como um cerebral filme de detetives da década de 70. Não houve surpresa nenhuma, portanto, quando ele lançou "O encantador de cavalos", seu filme seguinte: baseado em um romance de Nick Evans que teve seus direitos comprados por Redford antes mesmo de ser publicado, o filme se desenvolve lentamente diante dos olhos do espectador, oferecendo a ele a oportunidade de envolver-se gradualmente com a trama, os personagens e as belas imagens captadas pela câmera do veterano Robert Richardson - Oscar por "JFK", de Oliver Stone. A quem está acostumado com a edição quase alucinante da maioria do filmes pós-anos 80, pode parecer chato e enfadonho - o estilo convencional do cineasta muitas vezes é assim considerado - mas aqueles que aceitarem experimentar podem se surpreender com uma bela e emocionante história de amor e reparações sentimentais.

Logo nos primeiros minutos de projeção Redford já mostra que não está disposto a brincadeiras, com uma impressionante sequência que mostra um trágico acidente envolvendo um caminhão e dois cavalos em um estrada coberta de uma neve escorregadia e traiçoeira. O resultado do desastre - dirigido com sensibilidade e delicadeza que equilibram suas consequências funestas - é a morte da adolescente que cavalgava um dos animais (que também acaba se tornando uma vítima fatal) e a amputação de parte da perna da outra menina, a tímida Grace (Scarlett Johansson em início de carreira). Seu cavalo, Pilgrim, sobrevive, mas fica extremamente ferido a ponto de tornar-se sério candidato à eutanásia. Quem impede tal desfecho é Annie (Kristin Scott Thomas), editora-chefe de uma revista nova-iorquina que acredita que matar o animal seria o golpe de misericórdia no sofrimento de sua filha, Grace. Disposta a curar o cavalo - e consequentemente ajudar na recuperação da garota, com quem vive um relacionamento difícil - ela viaja até Montana com o objetivo de convencer o famoso "encantador de cavalos" Tom Booker (Redford em pessoa, pela primeira vez sendo dirigido por ele mesmo) a aceitar o trabalho de recuperar a saúde de Pilgrim.


Não é preciso ser especialista para adivinhar que Booker não apenas irá tratar do cavalo, mas também irá consertar a relação entre mãe e filha, colaborar na autoaceitação de Grace em sua nova condição, questionar o modo de vida urbano e estressante de Annie e, lógico, envolver-se romanticamente com ela, que passa por um período conturbado no casamento com Robert (Sam Neill). Nadando contra a corrente do cinema comercial americano, porém, Redford trata dessa sessão de terapia conjunta e atípica sem pressa, de forma quase contemplativa e onírica, que valoriza cada fotograma, cada expressão de seus atores - e entre os coadjuvantes estão os ótimos Dianne Wiest e Chris Cooper - e cada deslumbrante cenário de Montana. É óbvio que essa decisão em levar a história a seu próprio tempo estica a duração do filme a quase três horas de duração, o que pode incomodar aos mais inquietos, mas é louvável a coragem de Redford em desafiar as normas ao assinar uma produção que ainda por cima tem a ousadia de contar uma história de amor pudica e discreta, ao contrário dos amores histéricos que frequentam as salas de exibição. Tudo bem, sua química com Kristin Scott Thomas - uma das maiores atrizes de sua geração - não é das melhores, mas o fato de seu relacionamento sustentar-se basicamente em olhares e intenções faz dele um dos mais maduros e interessantes da década, apesar do fracasso do filme nas bilheterias (talvez justamente por romper os padrões comerciais do gênero).

E é interessante também como Redford encontra um generoso espaço em seu drama romântico para mostrar o tratamento que seu personagem oferece ao cavalo de Grace - e que, afinal, dá título ao filme. As cenas em que Tom Booker e Pilgrim interagem - e posteriormente incluem a menina em sua relação - são emocionantes na medida certa, evitando o sentimentalismo fácil ao mesmo tempo em que conquistam o público com sua delicadeza ímpar, enfatizada pela bela fotografia e pela trilha sonora de Thomas Newman. "O encantador de cavalos" é um filme para plateias adultas, que estão cansadas das fórmulas desgastadas expostas com ritmo de videoclipe. É suave, maduro e muito bonito.

segunda-feira

QUIZ SHOW - A VERDADE DOS BASTIDORES

QUIZ SHOW, A VERDADE DOS BASTIDORES (Quiz show, 1994, Hollywood Pictures/Baltimore Pictures, 133min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Paul Attanasio, livro "Remembering America: a voice from the sixties", de Richard N. Goodwin. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Stu Linder. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Huttman/Samara Schaffer. Produção executiva: Richard Dreyfuss, Judith James, Frederick Zollo. Produção: Michael Jacobs, Julian Krainin, Michael Zonik, Robert Redford. Elenco: Ralph Fiennes, Rob Morrow, John Turturro, Paul Scofield, Christopher McDonald, David Paymer, Hank Azaria, Mira Sorvino, Griffin Dunne, Martin Scorsese, Barry Levinson. Estreia: 23/9/94

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Paul Scofield), Roteiro Adaptado

O ano é 1958. Um dos mais populares programas de TV dos EUA, apresentado pela NBC, é o game-show "Twenty-one", apresentando por Jack Barry (Christopher McDonald), onde dois candidatos duelam pela possibilidade de ganhar até 100 mil dólares respondendo a perguntas de conhecimento geral. Percebendo que o campeão das últimas semanas, Herbie Stempel (John Turturro) já não tem mais a resposta entusiasmada da plateia (a audiência estancou e parece que não há jeito de voltar a subir), os patrocinadores do programa resolvem retirá-lo do show e substituí-lo por alguém mais palatável ao gosto médio. Stempel, um judeu do Queens sem formação acadêmica e de aparência pouco admirável, acaba sendo deixado de lado por Charles Van Doren (Ralph Fiennes), um professor universitário de considerável herança intelectual - e dono de uma beleza que passa a encantar as mulheres. Enquanto Van Doren começa a acumular uma bela fortuna saindo vencedor dos programas de que participa, o antigo concorrente, sentindo-se traído pela produção da emissora, resolve expor a rede de mentiras que se passa nos bastidores. Segundo ele, os participantes escolhidos como os vencedores já recebem todas as respostas antes do início da atração, como forma de garantir sua vitória. Suas acusações chegam até os ouvidos de Dick Goodwin (Rob Morrow), um jovem idealista e ambicioso que trabalha no Congresso Americano, que resolve tirá-las a limpo.

Esse escândalo de manipulação da mídia - fato hoje tão corriqueiro que nem chega mais a ser notícia - ocorreu de verdade e foi o tema do livro "Remembering America: a voice from the sixties", escrito pelo próprio Goodwin e serviu de base para o quarto filme do ator Robert Redford como cineasta, "Quiz show, a verdade dos bastidores". Indicado para quatro estatuetas da Academia - incluindo melhor filme, direção e roteiro - o filme é uma reconstituição sóbria e clássica de um período americano anterior ao pesadelo em que o país mergulharia com o assassinato de John Kennedy em 1963, que traria a reboque a guerra do Vietnã e o recrudescimento dos conflitos raciais. A perda da inocência que estava em vias de ocorrer talvez tenha se deixado vislumbrar com a história do "Twenty-one", parece dizer Redford, que nem por isso parece julgar os fatos que apresenta. Como bom cineasta contador de histórias, ele apenas serve como narrador, deixando as conclusões - e as opiniões - com o público.


E Redford talvez nunca tenha estado melhor como cineasta do que em "Quiz show". Amparado por um roteiro seguro e repleto de nuances sociais e psicológicas - o filme engloba tanto os meandros das emissoras de tv quanto os dramas pessoais dos envolvidos com a tramoia - ele também tira de seus atores interpretações viscerais: Ralph Fiennes - vindo direto da indicação ao Oscar por "A lista de Schindler" (93) - constroi um Charles Van Doren minimalista, sutil, que fala com os olhos e transmite sua variada gama de sentimentos sem precisar apelar para o óbvio (assim como o faz também o veterano Paul Scofield na pele de seu pai, uma atuação que colocou-o na lista dos concorrentes à estatueta de coadjuvante), enquanto John Turturro brilha na pele do exagerado, falastrão e dramático Herbie Stempel: o contraste entre as duas atuações é um golpe de mestre do diretor, que deixa claro ao público as motivações dos competidores. Van Doren sucumbiu à fama, à glória e até mesmo à ingenuidade de achar que sua vitória ajudaria na educação do país. Stemple precisava de dinheiro, de atenção, de ter o reconhecimento por sua cultura. Ambos caíram em desgraça.

Realizado com capricho - a ambientação e os figurinos são impecáveis - e dirigido com elegância e discrição, "Quiz show" chegou ao Oscar 95 enfrentando pesos-pesados como "Forrest Gump, o contador de histórias" e "Pulp fiction, tempo de violência", o que talvez explique o fato de ter saído de mãos abanando da cerimônia. Mas também é bem possível que os eleitores da Academia não tenham gostado de perceber o quanto podem ser manipulados pela mídia. A verdade doi, mesmo que venha embrulhada em um belo e fascinante papel de presente.

quinta-feira

NADA É PARA SEMPRE

NADA É PARA SEMPRE (A river runs through it, 1992, Allied Filmmakers/Wildwood Enterprises, 130min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Richard Friedenberg, estória de Norman MacLean. Fotografia: Philippe Rousselot. Montagem: Robert Estrin, Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Kathy O'Rear. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Gretchen Rau. Produção executiva: Jake Eberts. Produção: Patrick Markey,Amalia Mato, Robert Redford. Elenco: Tom Skerrit, Brad Pitt, Craig Scheffer, Brenda Blethyn, Emily Lloyd, Joseph Gordon-Levitt. Estreia: 30/10/92

3 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Fotografia


Há de se reconhecer que, vez ou outra, a Academia de Hollywood acerta em cheio em suas escolhas. Um perfeito exemplo dessa afirmação é o Oscar de melhor fotografia concedido a Philippe Rousselot na cerimônia de 1993: as belíssimas sequências captadas por ele para o filme "Nada é para sempre", são o que há de melhor no filme de Robert Redford, baseado na estória real do escritor Norman MacLean e na sua relação com a família e a natureza (mais especificamente a pesca). Tratando cada cena como se fosse um quadro, o diretor de fotografia francês - que já tinha no currículo uma indicação à estatueta por seu trabalho em "Esperança e glória" (87) - transforma as vastas paisagens de Montana em um personagem de crucial importância para a trama, ditando o ritmo da narrativa e emoldurando em deslumbrantes takes a bela e trágica história contada com delicadeza e poesia por um inspirado Redford - que conseguiu os direitos de filmagem por muito tempo cobiçados por gente como William Hurt.

Diretor bissexto - ele assinou apenas três filmes em doze anos - Robert Redford ganhou um Oscar já por sua estreia na função, com o dramático "Gente como a gente", de 1980, que, assim como "Nada é para sempre", tem um núcleo familiar como base para uma história que versa sobre amor, amizade, perdas e o duro aprendizado que vem com elas. Um cineasta arraigado aos valores mais tradicionais da sociedade americana - apesar de sua postura política liberal - Redford traduz, em seus filmes, uma visão poética e melancólica de seu país, seja através de um vilarejo lutando por seus direitos básicos - tema de "Rebelião em Milagro" (88) - ou de uma família desestruturada pelo suicídio de um adolescente incapaz de lidar com suas inseguranças frente a um futuro incerto. Em "Nada é para sempre", ele viaja até o inicio do século XX para vasculhar os preconceitos, a religiosidade e a estrutura social de uma pequena cidade americana que serve como microcosmo de um país em construção. E encontra uma poderosa história, que conta de maneira suave e caudalosa como um rio em toda a sua extensão.


O cerne de "Nada é para sempre" é a pesca, esporte praticado de forma quase sagrada pelos homens da família MacLean (sim, o sistema é patriarcal, onde à mãe, vivida por Brenda Blethyn, cabem apenas os afazeres domésticos e as eventuais visitas à Igreja presbiteriana local onde seu marido é o pastor). O chefe da casa - vivido com a medida certa de aspereza e delicadeza por Tom Skerrit - é o pastor da pequena localidade onde moram, e educa os dois filhos com rigidez, dentro das normas religiosas e morais com que também foi criado. A história começa realmente quando o mais velho dos irmãos, Norman (Craig Scheffer), retorna, depois de seis anos distante, à casa dos pais. Formado mas ainda indeciso em relação à seu futuro, ele encontra o caçula, Paul (Brad Pitt em seu primeiro papel de destaque depois do furor que causou em "Thelma & Louise", de 1991) respeitado como jornalista, mas metido em diversas encrencas relacionadas a jogo e bebidas. O reencontro dos irmãos - de personalidades distintas mas profundamente ligados um ao outro - também acontece quando Norman se apaixona por Jesse (Emily Lloyd), de convições religiosas diferentes às de sua família e Paul resolve desafiar a preconceituosa sociedade local envolvendo-se com uma bela mestiça indígena.

Como se pode perceber, a história é o que menos importa em "Nada é para sempre", uma vez que nada conta de diferente. O que faz a diferença no filme - e o que o torna tão fascinante - é a união de fatores que forma o conjunto. Além da espetacular fotografia e da trilha sonora sutil de Mark Isham (que substituiu outra, de autoria de Elmer Bernstein), o roteiro de Richard Friedenberg - indicado ao Oscar - mantém a poesia da prosa de Norman MacLean, tanto na narração em off quanto em vários diálogos, valorizados pelo elenco bem escalado. Apesar de Craig Scheffer ser o protagonista, Brad Pitt rouba todas as cenas com seu carisma jovem que, logo em seguida o tornaria o astro mais popular de Hollywood. Tom Skerrit e Brenda Blethyn emocionam sem fazer alarde e até mesmo um pequeno Joseph Gordon-Levitt, em sua estreia no cinema, dá as caras com o jovem Norman. Filmado com precisão, delicadeza e a dose certa de emoção - leia-se sem apelar para o sentimentalismo - "Nada é para sempre" é para ser degustado com calma, paciência e serenidade. Como uma boa pescaria.

segunda-feira

PROPOSTA INDECENTE

PROPOSTA INDECENTE (Indecent proposal, 1993, Paramount Pictures, 117min) Direção: Adrian Lyne. Roteiro: Amy Holden Jones, romance de Jack Engelhard. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Joe Hutsching. Música: John Barry. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor, Bernie Pollack, Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Etta Leff. Produção executiva: Alex Gartner. Produção: Sherry Lansing. Elenco: Robert Redford, Demi Moore, Woody Harrelson, Oliver Platt, Seymour Cassel, Billy Bob Thornton. Estreia: 07/4/93

Quando foi lançado, em 1993, o filme "Proposta indecente", de Adrian Lyne, foi chamado, por um crítico, de "filme dos sonhos de qualquer cinéfilo de shopping-center". De uma certa maneira a afirmação não deixa de ser verdadeira. Utilizando elementos de obras anteriores do cineasta - o apuro visual de "9 1/2 semanas de amor" e a aura polêmica de "Atração fatal" - a adaptação livre do romance de Jack Engelhard é o típico produto de sua época: atraente por fora e sem substância nenhuma por dentro. Aliás, apenas a premissa inicial do livro de Engelhard foi utilizada no roteiro, e é preciso reconhecer que é uma senhora premissa.

Durante meses a fio a imprensa do mundo todo discutiu a ideia central do filme: você emprestaria sua mulher a outro homem, por apenas uma noite, em troca de um milhão de dólares? Pois é exatamente esta a proposta indecente do título. Em um cassino de Las Vegas, o multimilionário John Gage (Robert Redford em uma rara aparição nas telas na década de 90) conhece o jovem e atraente casal David e Diana Murphy (Woody Harrelson em um de seus primeiros papéis de destaque e a deslumbrante Demi Moore no auge da beleza). O casal, ambos belos, interessantes e apaixonados também estão absolutamente quebrados financeiramente e não tem dinheiro nem mesmo para pagar as prestações da casa que o rapaz está construindo para eles. Fascinado pela beleza de Diana, o ricaço propõe então a controversa questão: uma noite com ela e um milhão de verdinhas na conta do casal.



Não é difícil prever o que vem a partir daí, uma vez que o filme se concentra mesmo é no pós-proposta, apesar dela ser o pontapé inicial da trama. Ciúme, desconfiança e a eterna busca sobre o que é mais importante na vida acabam sendo os ingredientes da segunda metade do filme, que, em mãos pouco capazes, é a parte menos interessante do filme. Adrian Lyne, que não é um grande diretor de atores, mostra aqui toda sua fragilidade. Robert Redford nunca esteve tão desconfortável em cena, herdando um papel que, nos primórdios do projeto, seria de Warren Beatty. E se Demi Moore não precisa muito esforço para desfilar bela e sensual pela tela, é justamente o menos conhecido do trio, Woody Harrelson, quem se destaca, em uma atuação que tenta dar dignidade a uma história de telenovela.

O roteiro de "Proposta indecente" jamais consegue ultrapassar o lugar-comum. Enquanto a proposta de John Gage não é aceita e a dúvida a seu respeito atrapalha o sono de seus protagonistas o interesse do espectador é mantido aceso. Depois que o ciúme e a desconfiança assumem o papel central da história, tudo perde o foco. O romance entre Diana e Gage e a luta de David para reconquistá-la nunca consegue convencer a plateia, que é privada, a partir daí, da tensão inicial e das quentes cenas de sexo, marca registrada do diretor. Depois de uma primeira hora razoavelmente correta, tudo escorrega para uma trama inverossímil e capenga.

Porém, mesmo que não seja um filme dos melhores, "Proposta indecente" não é uma total perda de tempo.  Poucos diretores tem tanto talento para cenas de amor quanto Lyne e ele as executa com o costumeiro zelo, ajudado por uma ótima trilha sonora de John Barry -  a canção que encerra o filme é a belíssima "A love so beautiful", cantada por Roy Orbison - e pela plástica dos atores (aliás, a ideia do filme era utilizá-lo como veículo para o então casal Tom Cruise e Nicole Kidman). Pode não ser uma obra de arte do cinema, e justifica sua descrição de "filme para cinéfilos de shopping-center". Mas ao menos é bem realizado e esteticamente atraente.

domingo

ENTRE DOIS AMORES


ENTRE DOIS AMORES (Out of Africa, 1985, Universal Pictures, 161min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Kurt Luedtke, livros de Karen Blixen, Judith Thurman, Errol Trzebinski. Fotografia: David Watkin. Montagem: Pembroke Herring, Sheldon Kahn, Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: John Barry. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Stephen Grimes/Josie MacAvin. Casting: Mary Selway. Produção executiva: Kim Jorgensen. Produção: Sydney Pollack. Elenco: Meryl Streep, Robert Redford, Klaus Maria Brandauer, Michael Kitchen, Malick Bowens. Estreia: 18/12/85

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Meryl Streep), Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora, Figurino, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 7 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator Coadjuvante (Klaus Maria Brandauer), Trilha Sonora


Filmes épicos sempre fizeram a cabeça dos membros da Academia, especialmente se são baseados em fatos reais. Por isso não deixava de ser previsível a vitória esmagadora de "Entre dois amores" no Oscar 85. Dirigido por Sydney Pollack, o filme levou 7 estatuetas pra casa, não deixando chance para seus competidores - entre eles o elogiado "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Inspirado em fatos da vida da escritora dinamarquesa Karen Blixen, é um filme que conquista pela beleza de seu visual estonteante e pela atuação soberba - mais uma - de Meryl Streep.

Ficando com o papel que, em projetos anteriores foi cogitado para ser interpretado por Audrey Hepburn e Greta Garbo, Streep entrega um trabalho meticuloso e sensível, que lhe rendeu a sexta indicação ao Oscar. Ela vive Karen Blixen, que, no início do século XX, se casa com Bor (Klaus Maria Brandauer),um amigo, por puro interesse: ela quer o título de Baronesa que ele pode dar-lhe; ele deseja o dinheiro que ela tem e que pode dar início à sua criação de gado no Kenya colonizado pela Inglaterra. Logo depois do casamento as coisas começam a dar errado: ele resolve mudar os planos e plantar café, além de não abdicar de seus relacionamentos extra-conjugais. Frequentemente sozinha na enorme fazenda de sua propriedade, Karen - uma talentosa contadora de histórias - torna-se interessada pela cultura africana, além de tentar melhorar as diferenças sociais de sua região. Quando ela se apaixona pelo caçador Denys Finch-Hatton (Robert Redford), que preza sua liberdade acima de qualquer outra coisa, ela passa a experimentar também as agruras de um romance conturbado.

"Entre dois amores" é um épico romântico que exala grandiosidade a cada cena. A espetacular fotografia de David Watkin capta a beleza natural do continente africano com maestria, e a trilha sonora de John Barry corrobora o clima romântico/selvagem proposto pela história de Blixen (autora do conto que deu origem ao filme "A festa de Babette"). A reconstituição de época é caprichada e até mesmo o cuidado com os dados históricos é acurado. Mas falta ao filme de Pollack a opção por um foco específico de interesse. Dividido entre contar a luta da protagonista pelo bem-estar do povo africano, narrar sua batalha pela fazenda e mostrar sua atribulada história de amor, ele acaba por não se aprofundar o bastante em nenhuma das tramas, o que diminui consideravelmente seu impacto.


As três linhas de narrativa de "Entre dois amores" são bastante interessantes. Como paladina dos interesses dos nativos africanos, Karen assume o papel de uma mulher disposta a oferecer sua inteligência e boa-vontade a pessoas de cultura oposta à sua, mesmo batendo de frente com as lideranças locais, uma trama que, sozinha, já renderia um excelente filme. Como uma esposa solitária que luta para manter sua fazenda lucrativa e produtiva, a futura escritora se apresenta como uma espécie de Scarlett O'Hara menos voluntariosa e interesseira e, como "E o vento levou" continua provando, é uma história que manteria acesa a atenção da plateia. E como mulher apaixonada, a personagem de Meryl Streep dá à atriz a chance de mostrar porque é uma das mais destacadas profissionais do cinema. Mas justamente no foco que poderia ser o mais fascinante do filme, ela esbarra em um problema sério: a apatia de seu colega de cena.

Robert Redford - que trabalhou com Pollack em "Nosso amor de ontem" (1973) e "Havana" (1990) - é um dos mais importantes nomes do cinema americano, por causa de sua carreira como ator, diretor e produtor e devido a seu incentivo ao cinema independente, como comprova sua cria, o Festival de Sundance. Mas em "Entre dois amores" ele não faz o suficiente para justificar a paixão de Karen Blixen, não fazendo mais do que desfilar seu charme pela tela. Comparado com o furacão passional mostrado por Streep ele empalidece perigosamente e quase atrapalha o resultado final. Para sorte do espectador, no entanto, a história é tão bela e forte que é impossível não se deixar envolver por ela.

"Entre dois amores" é um belo épico romântico, conforme desejado por seu diretor Sydney Pollack. Emociona na medida certa, impressiona por sua beleza plástica e possibilita à Meryl Streep mais um show particular. De quantos filmes se pode falar isso?

quinta-feira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE


TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (All the president's men, 1976, Warner Bros, 138min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: William Goldman, baseado no livro de Bob Woodward e Carl Bernstein. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: George Jenkins/George Gaines. Casting: Alan Shayne. Produção: Walter Coblenz. Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jack Warden, Martin Balsam, Jason Robards, Hal Holbrook, Ned Beatty, Jane Alexander, Stephen Collins, Meredith Baxter. Estreia: 09/4/76

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan J. Pakula), Ator Coadjuvante (Jason Robards), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Jason Robards), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Som


Enquanto no Brasil normalmente escândalos no governo acabam em pizza - e em reeleições alguns poucos anos depois - nos EUA as coisas não são assim tão fáceis para quem está no poder, vide a crise instaurada por um simples caso extra-conjugal de Bill Clinton quando ele estava na Casa Branca. Tida como o quarto poder, a imprensa é responsável por balançar as estruturas do poder, e o maior exemplo disso provavelmente é o caso Watergate, que, revelado por dois jornalistas do Washington Post, resultou na renúncia do presidente Richard Nixon em 9 de agosto de 1974. Contada com detalhes no extenso livro "Todos os homens do presidente", escrito pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, uma das investigações mais famosas da história do jornalismo moderno foi parar nas telas de cinema já em 1976, quando o caso ainda estava fresquinho na memória do público. Resultado? Um sucesso enorme de bilheteria e crítica, além de 8 indicações ao Oscar (sendo que 4 converteram-se em estatuetas). Nada mal para um filme que, apesar da presença fulgurante do então astro do momento Robert Redford, foge do padrão filme-pipoca que começava a mandar nas salas de exibição desde que o tubarão de Steven Spielberg surgiu, no verão de 1975.

Dirigido por Alan J. Pakula - que ficou com a direção depois que o inglês John Schlesinger declinou do convite por acreditar que tratava-se de uma história que deveria ser contada por um americano - o filme, roteirizado por William Goldman (que ganhou o Oscar por isso) começa em 17 de junho de 1972, quando um arrombamento na Sede do Partido Democrata americano, localizado no edifício Watergate chama a atenção do jornalista Bob Woodward (Robert Redford), que, recém-contratado pelo Washington Post, tenta mostrar serviço, mesmo que não entenda nada de política. Contando com a ajuda do colega Carl Bernstein (Dustin Hoffman), mais experiente na área e nos meandros do serviço, ele passa a correr atrás de pistas deixadas por atitudes estranhas dos criminosos, que parecem estar ligados à Casa Branca. Quando um misterioso informante, apelidado de Garganta Profunda (Hal Holbrook) confirma suas suspeitas, os dois rapazes tem que não apenas provar sua teoria - que culpa pessoas do mais alto escalão do governo americano - mas convencer seus superiores no jornal (Jack Warden, Martin Balsam e o premiado com o Oscar de coadjuvante Jason Robards) a publicar o que poderá ser a reportagem mais incendiária da história política do país.


O mais fascinante em "Todos os homens do presidente" é a forma com que o roteiro de Goldman e a direção de Pakula se desenrola frente aos olhos privilegiados da plateia. O público acompanha cada passo dos protagonistas do filme, suas altas expectativas, suas frustrações e seus insights de maneira a torcer por eles como se fossem heróis de um filme de ação, ainda que não façam muito mais do que ficar ao telefone ou interrogando dezenas de pessoas possivelmente ligadas à investigação. Não é à toa que ainda hoje o filme seja recomendado em todas as faculdades de Jornalismo, uma vez que detalha admiravelmente a jornada de dois profissionais idealistas em busca da verdade, mesmo que ela possa lhes ser prejudicial. Para isso colabora também a escolha de seus dois atores centrais: Robert Redford assumiu o papel de Woodward para garantir o financiamento do filme - além do fato de ter sido ele o responsável pela compra dos direitos do livro - e Dustin Hoffman entregou ao filme a credibilidade artística necessária à atenção da crítica.

Ainda que seja um filme bastante complexo para não-americanos - a enormidade de nomes, cargos e responsabilidades citadas no roteiro chega a confundir em certas passagens - "Todos os homens do presidente" tem momentos de puro cinema político, no melhor estilo do cineasta grego Costa-Gavras. A música de David Shire aparece nas horas certas, sem atrapalhar o andamento da narrativa, apenas sublinhando a tensão de algumas cenas e a edição confere um tom semi-documental ao resultado final - e ainda que o filme seja um tanto longo demais, é inegável que o roteiro conseguiu enxugar todas as informações necessárias ao máximo possível para que a trama seja compreendida pela audiência sem que prejuízo de suas ambições comerciais.

"Todos os homens do presidente" é um filme bastante interessante e importante, principalmente para quem gosta de histórias reais contadas com cuidado e atenção. Nâo é adrenalina pura, mas ainda se mantém como um dos mais influentes do seu gênero.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...