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terça-feira

À BEIRA DO ABISMO

 


À BEIRA DO ABISMO (Man on a ledge, 2012, Summit Entertainment/Di Bonaventura Pictures, 102min) Direção: Asger Leth. Roteiro: Pablo F. Fenjves. Fotografia: Paul Cameron. Montagem: Kevin Stitt. Música: Henry Jackman. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Alec Hammond/Chryss Hionis. Produção executiva: Jane Myers, David Ready. Produção: Lorenzo di Bonaventura, Mark Vahradian. Elenco: Sam Worthington, Elizabeth Banks, Jamie Bell, Edward Burns, Ed Harris, Kyra Sedgwick, Anthony Mackie, William Sadler, Genesis Rodriguez, Titus Welliver. Estreia: 26/01/2012

Às vezes tudo que um fã de filmes policiais precisa é de uma trama despretensiosa, com um bom ponto de partida, um elenco de bons atores e, se possível, uma ou mais reviravoltas (que nem precisam fazer todo o sentido do mundo).  "À beira do abismo" oferece tudo isso, e, mesmo sem ter feito muito barulho nas bilheterias, cumpre exatamente o que promete. Mesmo que o roteiro não se esquive de clichês e a direção do dinamarquês Asger Leth nunca ultrapasse o status de correta, o resultado final não decepciona a quem procura uma sessão descompromissada e que prescinde de efeitos visuais milionários para envolver as plateias. Estrelado pelo então ascendente Sam Worthington - saído do sucesso de "Avatar" (2009) e a meses de liderar o elenco do remake de "Fúria de titãs" (2012) -, "À beira do abismo" é a prova de que o trivial frequentemente pode ser bastante eficaz.

A primeira cena do filme mostra um homem de cerca de 30 anos, chamado Walker, se hospedando no 21º andar de um hotel de Nova York. Depois de pedir uma farta - e cara - refeição, ele limpa todas as impressões digitais do quarto e simplesmente se dirige ao parapeito, com o claro objetivo de se jogar. Para que isso não aconteça (ou ao menos que seja adiado), ele pede a presença de Lydia Mercer (Elizabeth Banks), experiente em negociar com suicidas, que acaba de sair de uma situação traumática com vítimas. O que nem Lydia nem o encarregado do caso, Jack Dougherty (Edward Burns), sabem é que o tal homem se chama, na verdade, Nick Cassidy, e é um ex-policial que, condenado pelo roubo de um valiosíssimo diamante, fugiu do presídio depois do funeral do pai e tem o objetivo de provar sua inocência. Mais do que isso, durante o processo de negociação, acontece o roubo a uma joalheria de propriedade do milionário David Englander (Ed Harris), que também está em vias de apresentar à cidade um ambicioso projeto imobiliário. Será que os três fatos tem relação? Por que Cassidy escolheu justamente Mercer para tentar impedí-lo de jogar-se do prédio? E qual o plano do jovem Joey (Jamie Bell) para invadir silenciosamente a joalheria de Englander?

 

As respostas vão surgindo aos poucos, nem sempre de forma sutil, mas sempre de modo a empurrar adiante a história, como manda o manual dos roteiros de Hollywood. Boa parte dos segredos são desvelados antes mesmo da metade da sessão, que se dedica então a cenas de ação dirigidas com certa competência pelo dinamarquês Asger Leth, cujo currículo contava apenas com o documentário "Os fantasmas de Cité Soleil" (2006): nessa segunda fase, o filme abandona a narrativa fragmentada que havia adotado (com interessantes e empolgantes flashbacks) para abraçar com vontade o subgênero "filmes de golpe". Nem tudo funciona - o personagem de Ed Harris por vezes soa deslocado -, mas consegue manter o ritmo de forma admirável. Ecoando situações de "Um dia de cão" (1975) - as testemunhas populares como parte da ação, a cobertura midiática - e do clássico "Horas intermináveis" (1951), de Howard Hawks - a ideia central, tirada de uma reportagem sobre um caso de suicídio ocorrido em 1938 -, "À beira do abismo" ganha pontos ao não cair na armadilha de tentar ser engraçado (ainda que as interações entre Jamie Bell e Genesis Rodriguez sejam recheadas de falas de duplo sentido) e conquistar o público com um tom adulto que tampouco apela à violência tão comum no cinema policial.

A discrição da direção de Leth também é responsável por extrair de seu elenco desempenhos firmes - ainda que não exatamente memoráveis. Sam Worthington sai-se bem com um protagonista que não depende de efeitos digitais, mesclando força e fragilidade nas medidas adequadas, enquanto o jovem Jamie Bell destaca-se em um papel de anti-herói e Elizabeth Banks (em papel que quase ficou com Amy Adams) tem o carisma necessário para segurar dividir as principais cenas com Worthington sem parecer coadjuvante. É de lamentar apenas a forma como Ed Harris e Kyra Sedgwick (como a repórter Suzie Morales) são subaproveitados - especialmente Kyra, cuja personagem poderia ter rendido ótimos momentos. Tais pequenos problemas, no entanto, não chegam a atrapalhar a diversão. "À beira do abismo" é um entretenimento bastante decente, que deixa claro o potencial de seu ator central para além dos limites de Pandora.

segunda-feira

O PODER DO AMOR

 


O PODER DO AMOR (Something to talk about, 1995, Warner Bros, 106min) Direção: Lasse Hallstrom. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Mia Goldman. Música: Graham Preskett, Hans Zimmer. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Roberta J. Holinko. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Anthea Sylbert, Paula Weinstein. Elenco: Julia Roberts, Dennis Quaid, Robert Duvall, Kyra Sedgwick, Gena Rowlands, Brett Cullen. Estreia: 20/7/95

Nem sempre o encontro de talento, prestígio e popularidade resulta em um grande sucesso. "O poder do amor" é um exemplo claro dessa afirmação: mesmo com a união do celebrado diretor Lasse Hallstrom (então já indicado ao Oscar por "Minha vida de cachorro", de 1987), da roteirista Callie Khouri (oscarizada por "Thelma & Louise", de 1991) e da atriz Julia Roberts, o filme ficou muito aquém do esperado nas bilheterias e tampouco entusiasmou a crítica. Vendida como uma comédia romântica quando na verdade é um drama familiar quase sonolento, e lançado em um período de crise na carreira de Roberts - que vinha acumulando fracassos comerciais que ameaçavam seu status de grande estrela - a produção da Warner decepcionou tanto o estúdio (que esperava um estouro financeiro) quanto seus fãs, ansiosos por rever seu belo sorriso e seu carisma milionário, o que só voltaria a acontecer com "O casamento do meu melhor amigo", lançado dois anos mais tarde.

Além da direção burocrática de Hallstrom, "O poder do amor" sofre, basicamente, pela absoluta falta de humor de seu roteiro - uma surpresa quando se trata de Khouri - e por personagens que falham em despertar a simpatia do espectador. Até mesmo a protagonista, uma mulher traída e tentando refazer a vida, sofre com um desenvolvimento pouco interessante. Grace Bichon (interpretada no piloto automático por Julia Roberts) administra o haras de seu pai, Wyly King (Robert Duvall), e vive um casamento aparentemente perfeito com o sedutor Eddie (Dennis Quaid). Sua frágil felicidade sofre um baque, no entanto, quando ela descobre que seu marido tem um romance com uma colega de trabalho. Humilhada e ressentida, Grace vai morar com a irmã caçula, Emma Rae (Kyra Sedgwick) e, se recusando a qualquer contato com o ex-marido, passa a questionar o sistema de quase submissão a que as mulheres de sua família se sujeitam em relação aos homens que a cercam. Tal comportamento chega até sua mãe, Georgia (Gena Rowlands), que até então jamais havia percebido tal situação em seu relacionamento.

 

O roteiro de Callie Khouri, como não poderia ser diferente, oferece às personagens femininas um destaque maior do que aos homens da história. Isso não significa, no entanto, que elas sejam capazes de conquistar a plateia. Com diálogos frequentemente enfadonhos e que soam artificiais até mesmo recitados por atrizes do porte de Roberts, Rowlands e Sedgwick, a trama anda em círculos, dá espaço para histórias paralelas pouco atraentes - que envolvem o haras da família e um novo relacionamento pouco crível à protagonista - e sofre com uma indesculpável falta de charme. Nem mesmo os belos cenários, os imponentes cavalos e o elenco carismático são suficientes para disfarçar o ritmo claudicante imposto pela direção - uma surpresa, uma vez que o sueco Hallstrom tem enorme talento para sublinhar as características mais emocionais de seus filmes, como mostrou em "Regras da vida" (1999), que lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar. E se não bastasse o fato do desperdício de suas atrizes, o filme oferece oportunidades ainda menores a seus atores, relegados a segundo plano e com personagens quase patéticos - se tal opção é proposital para enfatizar a força das mulheres há formas menos simplórias de atingir seu objetivo do que fazer dos maridos da família King/Bichon dois babacas machistas e unidimensionais.

É uma pena que "O poder do amor" fique tão aquém das possibilidades de sua equipe de talentos. Seu marketing desastroso - certamente o público esperava uma comédia romântica leve e agradável e encontrou um pretensioso drama com ambições de emular o cinema europeu - foi apenas um dos culpados por fazer dele um dos trabalhos menos marcantes de Julia Roberts. Sem nenhuma cena marcante, uma trama pouco inventiva e uma narrativa cujo ritmo jamais permite o envolvimento do espectador, o filme só não é um desastre completo porque, apesar de tudo, seu elenco esforçado faz valer seus longos 106 minutos de duração - mesmo que a história seja esquecida pouco tempo depois do final da sessão.

terça-feira

MORRENDO E APRENDENDO


MORRENDO E APRENDENDO (Heart and souls, 1993, Universal Pictures, 104min) Direção: Ron Underwood. Roteiro: Brent Maddock, S.S. Wilson, Gregory Hansen, Erik Hansen, estória de Gregory Hansen, Erik Hansen, Brent Maddock, S.S. Wilson, curta-metragem de Gregory Hansen. Fotografia: Michael Watkins. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Marc Shaiman. Figurino: Jean-Pierre Dorleac. Direção de arte/cenários: John Muto/Anne Ahrens. Produção executiva: Cari-Esta Albert, James Jacks. Produção: Sean Daniel, Nancy Roberts. Elenco: Robert Downey Jr., Kyra Sedgwick, Tom Sizemore, Charles Grodin, Alfre Woodard, Elisabeth Shue, David Paymer. Estreia: 13/8/93
 

O sucesso avassalador de "Ghost: do outro lado da vida", que em 1990 pegou até mesm a Paramount de surpresa, ao tornar-se um enorme êxito comercial e concorrer ao Oscar de melhor filme (além de ter arrebatado duas estatuetas), fez com que os estúdios de Hollywood começassem a prestar mais atenção em roteiros que explorassem, de uma forma ou outra, a espiritualidade. Nenhum deles resultou em um filme memorável - até mesmo o esperado "A mulher do açougueiro", estrelado pela mesma Demi Moore, fracassou retumbantemente -, mas algumas produções acabaram injustamente renegadas, tidas como subprodutos oportunistas enquanto, na verdade, tinham qualidades o bastante para, no mínimo, fazer uma bela carreira como cult. É o caso de "Morrendo e aprendendo", emocionante e divertida comédia dramática dirigida por Ron Underwood que passou praticamente em branco nos cinemas - e, no caso de países como Inglaterra e Hungria, foi lançado diretamente em vídeo: com um roteiro bem amarrado, atuações precisas e um tom acertadamente nostálgico, o filme cativa logo nos primeiros minutos e, se não chega a ser uma obra-prima ou um marco na carreira dos envolvidos, ao menos não faz feio em sua tentativa de emocionar aos mais sensíveis.

Originado de um curta-metragem de nove minutos dirigido pelo corroteirista Gregory Hansen, "Morrendo e aprendendo" chegou aos cinemas quando seu astro, Robert Downey Jr., já estava devidamente reconhecido como um dos mais promissores astros de sua geração - prestígio alcançado pelos prêmios conquistados por seu desempenho em "Chaplin" (1992). Isso não impediu, no entanto, que naufragasse solenemente nas bilheterias e se tornasse, com o tempo, um dos trabalhos menos lembrados do ator - que, apesar dos pesares, o considera um de seus filmes preferidos. Não é para menos: anos antes de atingir o status de grande astro com "Homem de ferro" (2008), ele teve a oportunidade de exercitar seu timing cômico, seu carisma e seus dotes dramáticos, com um protagonista que, em outros tempos, poderia muito bem ter sido interpretado por Cary Grant. E isso que ele só aparece depois de meia hora de projeção.

 

"Morrendo e aprendendo" começa em 1959, quando duas situações completamente opostas confluem em uma terceira. Em um delas, um trágico acidente com um ônibus causa a morte do motorista e dos quatro passageiros. Em outra, um casal comemora o nascimento do primeiro filho, Thomas, ocorrido quase ao mesmo tempo. Presos à Terra mesmo depois da morte, as vítimas acabam se tornando anjos da guarda do menino, que pelos próximos sete anos, conviverá com eles com naturalidade e segurança - pelo menos até que eles percebam que sua presença está atrapalhando o desenvolvimento natural da criança. Sempre presentes em sua vida, mesmo que invisíveis, os quatro espíritos acabam por voltar à ciência de Thomas anos mais tarde, quando Thomas já é um adulto bem sucedido profissionalmente - ainda que com sérios problemas em assumir um compromisso com a bela namorada, Anne (Elisabeth Shue): procurados pelo motorista do ônibus, Hal (David Paymer), eles descobrem que deveriam ter aproveitado seu tempo ao lado do rapaz para resolver as pendências deixadas no momento de suas mortes. Com os dias contados antes de partirem definitivamente, eles precisam, então, contar com a ajuda do incrédulo jovem para limpar as arestas de suas vidas - o que não é exatamente tarefa das mais fáceis.

Milo Peck (Tom Sizemore), um ladrão de galinhas, embarcou no ônibus depois de arrumar encrenca com um de seus contratantes - que lhe pagou para roubar, de uma criança, uma revista em quadrinhos rara e valiosa. Harrison Winslow (Charles Grodin) sofria com uma timidez atroz, que o impedia de fazer carreira como cantor lírico. Julia (Kyra Sedgwick) estava em crise no relacionamento com o namorado, a quem amava apesar de não ter a coragem de dar um passo definitivo. E Penny Washington (Alfre Woodard), uma mãe solteira, tinha dúvidas a respeito de sua competência materna em cuidar sozinha de três crianças. Com a possibilidade de usar o corpo de Thomas para encerrarem seus ciclos terrenos, os quatro partem em busca de redenção, em uma jornada que envolve risos, lágrimas e música. Para sorte do espectador, cada etapa dessa trajetória é apresentada de forma lúdica e orgânica: até mesmo as coincidências que surgem no caminho dos personagens soam plausíveis - responsabilidade de um roteiro sem medo de mergulhar na emoção e de protagonistas adoráveis, capazes de conquistar o público sem fazer muito esforço. Dirigido com sensibilidade por um Ron Underwood que acabara de assinar "Amigos, sempre amigos" (1991) - que deu o Oscar de coadjuvante a Jack Palance - e passaria à televisão já no começo dos anos 2000, "Morrendo e aprendendo" é uma delícia de sessão da tarde, um filme despretensioso e leve que mostrava, já em 1993, o imenso talento de Downey Jr..

quinta-feira

QUASE 18

QUASE 18 (The edge of seventeen, 2016, Gracie Films/STC Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig. Fotografia: Doug Emmett. Montagem: Tracey Wadmore-Smith. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: William Arnold/Ide Foyle. Produção executiva: Oren Aviv, Pete Corral, Brendan Ferguson, Adam Fogelson, Cathy Schulman, Robert Simonds, Donald Tang, Lisa Walder, Zhongjun Wang, Zhonglei Wang, Jerry Ye. Produção: Julie Ansell, James L. Brooks, Kelly Fremon Craig. Elenco: Hailee Steinfeld, Woody Harrelson, Haley Lu Richardson, Kyra Sedgwick, Blake Jenner, Hayden Szeto. Estreia: 16/9/16 (Festival de Toronto)

Se tivesse sido lançada nos anos 80, a comédia adolescente "Quase 18" poderia facilmente ser confundida com uma produção de John Hughes, e sua protagonista interpretada por Molly Ringwald. Ícones do gênero em sua época graças a filmes como "Clube dos cinco", "A garota de rosa-shocking" e "Gatinhas e gatões", Hughes e Ringwald conquistaram legiões de fãs por terem conseguido o quase impossível: falar com uma plateia jovem e ávida por representatividade em um período repleto de heróis de ação brutamontes e efeitos visuais espetaculares. Com roteiros simples e diretos, que dialogavam sem frescura com seu público-alvo, seus filmes atravessaram gerações e tornaram-se tanto documentos de um momento específico no tempo quanto fontes de referência inesgotáveis. Foi assim que Will Gluck utilizou-se de seus elementos primordiais para criar o delicioso "A mentira" (2010) e é assim que a jovem Kelly Fremon Craig chegou a encantar a crítica e o público com sua estreia na direção: "Quase 18" tem John Hughes em seu DNA, e mantém o frescor e a inteligência de seus melhores trabalhos - além de contar com uma inspiradíssima Hailee Steinfeld no papel central.

Nadine, a atormentada protagonista de "Quase 18", parece ter sido escrito especialmente para Steinfeld, tamanha a sintonia entre personagem e atriz. Indicada ao Oscar de coadjuvante já em seu primeiro papel no cinema, no western "Bravura indômita", de 2010, a jovem Steinfeld demonstra no filme de Fremon Craig que seu talento vai muito além de sorte de principiante: carismática e expressiva, ela explora todas as nuances que o papel exige, a ponto de oferecer um lado humano e simpático até mesmo a suas atitudes mais egoístas e pouco razoáveis. Com um roteiro realista e sem condescendências escrito pela própria diretora, o filme foge das armadilhas de menosprezar os problemas de sua protagonista, fazendo com que o público consiga compreender o tamanho de cada um deles através de sua perspectiva - talvez exagerada, mas de acordo com sua idade e sua visão de mundo. Justamente por não fazer de Nadine uma adolescente exemplar e repleta de virtudes, mas sim uma pessoa mais próxima da realidade, o filme conquista, diverte e faz pensar - sem nunca deixar de lado sua aura de divertimento juvenil.


Nadine, a protagonista, é uma adolescente de dezessete anos que nunca sentiu o gostinho de ser a mais popular da escola ou ter muitos amigos. Quieta e desiludida, ela observa o próprio irmão, Darian (Blake Jenner), assumir o posto de preferido da mãe, Mona (Kyra Sedgwick), e destacar-se em todas as atividades a que se propõe, enquanto passa os dias reclamando da sorte ao lado da única amiga, Krista (Haley Lu Richardson). O que já era ruim torna-se ainda pior quando Krista resolve se apaixonar por Darian, deixando Nadine furiosa e sentindo-se a mais traída das criaturas. Só quem a entende é um colega nerd, Erwin (Hayden Szeto) - que ela não percebe ser apaixonado por ela - e um paciente professor, Mr. Bruner (Woody Harrelson), em quem ela descarrega toda a sua raiva e agressividade. Tentando sobreviver à adolescência, a menina ainda precisa lidar com a paixão que sente por um dos rapazes mais populares da escola, que mal sabe de sua existência, e a saudade do pai, que morreu quando ela ainda era uma criança.

Sem jamais cair na caricatura ou qualquer tipo de excesso, Hailee Steinfeld concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical, mas perdeu para Emma Stone, favorita absoluta por seu desempenho em "La La Land: cantando estações". Sua lembrança entre os indicados mostra, no entanto, que é difícil resistir a seu encanto juvenil e sua sinceridade contagiante. Logo na primeira cena, quando entra na sala do professor avisando que irá cometer suicídio, Nadine conquista a plateia com seu jeito exagerado e dramático de encarar a vida e as situações pelas quais passa, e durante os próximos 100 minutos, o público se deixa docilmente conduzir por seu universo de desespero e angústia - tudo mostrado com o bom-humor e o respeito que se poderia esperar de uma discípula de John Hughes como é o caso da diretora/roteirista. Sucesso moderado de bilheteria (rendeu o dobro do orçamento de 9 milhões de dólares, mas não chegou a causar barulho nas caixas registradoras da produtora), "Quase 18" é um filme pequeno, que nada contra a maré de superproduções caras e megalomaníacas e pode encontrar sua audiência em quem procura entretenimento menos ambiciosos. Merece ser descoberto como um legítimo representante de um gênero sempre querido e inteligente.

domingo

O LENHADOR

O LENHADOR (The woodsman, 2004, Lee Daniels Productions/Dash Films, 87min) Direção: Nicole Kassel. Roteiro: Nicole Kassel, Steven Fechter, peça teatral de Steven Fechter. Fotografia: Xavier Pérez Grobet. Montagem: Lisa Fruchtman, Brian A. Kates. Música: Nathan Larson. Figurino: Frank Fleming. Direção de arte/cenários: Stephen Beatrice/Christine Wick. Produção executiva: Kevin Bacon, Damon Dash, Brook, Dawn Lenfest. Produção: Lee Daniels. Elenco: Kevin Bacon, Kyra Sedgwick, Benjamin Bratt, Michael Shannon, Mos Def, Eve. Estreia: 19/01/04 (Festival de Sundance)

Primeiro há que se louvar a coragem de um filme de ter como protagonista um pedófilo sem retratá-lo como um vilão desalmado e cruel e sim como uma pessoa dotada de sentimentos ao mesmo tempo em que luta contra sua natureza monstruosa. Depois, deve-se aplaudir a delicadeza que Kevin Bacon, um ator ainda não devidamente valorizado pela indústria hollywoodiana, empresta a esse mesmo protagonista, jamais carregando nas tintas melodramáticas de um personagem cercado de armadilhas e convites ao overacting. Só então pode-se degustar "O lenhador" como o filme que ele realmente é: um drama denso e intrigante que, ao invés de mergulhar o espectador em um espetáculo de violência e tensão, o convida a testemunhar silenciosamente o pesadelo de um homem assombrado por seus fantasmas pessoais enquanto tenta retornar ao convívio da sociedade - e livrá-la de outra ameaça similar a ele.

Baseado em uma peça teatral de Steven Fechter - também um dos autores da adaptação para as telas - "O lenhador" tem entre seus produtores o futuro cineasta Lee Daniels, o que fica claro em sua abordagem seca e direta do tema, sem espaços para pieguice ou lágrimas desnecessárias. Assim como Daniels faria em seu maior sucesso, "Preciosa" (09), a diretora Nicole Kassel prefere uma abordagem menos sensacionalista de sua trama, buscando não a compaixão da plateia, e sim sua percepção em relação à vasta gama de sentimentos e circunstâncias que cercam o protagonista, Walter, que, depois de 12 anos de prisão, tem sua liberdade retomada junto com a carga de ter sido condenado por abuso sexual infantil. Vigiado de perto pelo rígido Sargento Lucas (Mos Def), Walter se vê morando diante de uma escola de ensino fundamental - o que testa diariamente sua decisão em manter-se na linha - e arruma emprego em uma madeireira, onde seu silêncio acaba por despertar a curiosidade dos colegas, em especial da pouco simpática Mary-Kay (Eve), que não demora em descobrir seu segredo e espalhar pelo local. Antes que isso aconteça, no entanto, ele inicia um hesitante romance com uma colega, Vicki (Kyra Sedgwick, esposa de Bacon na vida real) e passa desconfiar das intenções de um misterioso motorista que diariamente estaciona seu carro diante da escola em frente a seu apartamento.


Utilizando-se da história da Chapeuzinho Vermelho como metáfora para uma de suas subtramas - que envolve uma menina com quem Walter inicia uma temerária relação - e empurrando seu roteiro para longe do previsível, o filme de Kassel explora, em pouco menos de uma hora e meia, uma série de questionamentos relevantes e instigantes. Ao inserir Walter - com toda a sua bagagem de culpa - em uma série de ambientes que testam sua força de vontade de ir contra seus instintos mais básicos, a trama analisa o preconceito, o conceito de culpa e crime, questiona as possibilidades de redenção de um homem eternamente marcado por seus delitos e, mais estimulante ainda, o contrapõe a um outro possível criminoso, o que pode torná-lo um heroi, a despeito de seu passado. Sua história de amor com Vicki, também dona de um background depressivo e seus próprios demônios, não é daquelas sentimentais que Hollywood costuma apresentar, o que também é um ponto positivo em sua tentativa de fugir de qualquer tipo de excessos dramáticos, e até mesmo sua relação lacônica com o policial que o vigia apresenta matizes inteligentes e verossímeis. Não bastasse, a cena em que Walter consegue com que sua nova amiguinha desabafe em relação à sua vida familiar é de partir o coração - sem que, para isso, seja necessário mais do que um bom texto, bons atores e uma direção sensível.

Quem procura um filme de suspense que explore com sadismo as entranhas da mente de um pedófilo deve passar ao largo de "O lenhador". Apesar de ter como protagonista um homem condenado por tal crime e nunca deixar que o público se esqueça disso, o filme de Nicole Kassel vai muito mais além do simplismo de seu tema central, alcançando notas superiores e oferecendo bem mais do que a ilustração de um desvio sexual. É um belo trabalho, delicado e inteligente que se escora na interpretação econômica e sensacional de Kevin Bacon, brilhante em um de seus trabalhos mais corajosos e viscerais.

sábado

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU

ASSASSINATO EM PRIMEIRO GRAU (Murder in the first, 1995, Warner Bros, 122min) Direção: Marc Rocco. Roteiro: Dan Gordon. Fotografia: Fred Murphy. Montagem: Russell Livingstone. Música: Christopher Young. Figurino: Sylvia Vega Vasquez. Direção de arte/cenários: Kirk M. Petruccelli/Greg Grande. Produção executiva: Marc Rocco, David L. Wolper. Produção: Marc Frydman, Mark Wolper. Elenco: Kevin Bacon, Christian Slater, Gary Oldman, Embeth Davidtz, William H. Macy, Stephen Tobolowsky, Brad Dourif, R.Lee Ermey. Estreia: 20/01/95

Um dos mais famosos presídios do mundo, Alcatraz foi o tema central de um dos mais conhecidos filmes de Clint Eastwood, "Alcatraz, fuga impossível", de 1979. Considerado um dos presídios mais seguros do planeta, localizado em uma ilha perto de San Francisco e construída em 1934 (sobreviveu como instituição penal até 1963), Alcatraz passou, ao menos na sétima arte, de cenário a personagem. Em "Assassinato em primeiro grau", ele foi, inclusive, acusado de cumplicidade em um homicídio. Baseado em uma história real, o filme de Marc Rocco - que ficou com um projeto inicialmente pensado para Oliver Stone - tem boas intenções (denunciar o sistema penitenciário e a violação de direitos humanos), mas esbarra na total falta de sutileza de seu diretor.

Nos anos 30, quando Alcatraz estava no auge de sua fama como um local de fuga impossível, o jovem Henry Young (Kevin Bacon) tenta escapar, em companhia de outros presidiários. Capturado em seguida, ele é mandado para a solitária, ficando sem sol, sem luz e sem contato com quaisquer seres humanos pelo absurdo prazo de 3 anos e 2 meses - sendo que o máximo permitido por lei para tal castigo é de apenas 19 dias. Brutalizado pelo superindentente do lugar, o frio Milton Glenn (Gary Oldman), ele sai do buraco onde esteve encarcerado e tenta voltar à vida normal de condenado. No entanto, ele mata violentamente o delator de seu plano de fuga e volta ao banco dos réus, sob risco de ser condenado à morte - sendo que foi preso pela primeira vez por roubar 5 dólares de um posto de correio. Para defendê-lo, é designado o jovem e idealista James Stamphill (Christian Slater), que surpreende a audiência ao afirmar que o principal culpado do crime não é Young, e sim o sistema carcerário de Alcatraz.


Como convém a um filme com pretensões comerciais, "Assassinato em primeiro grau" toma algumas liberdades poéticas para contar sua história, a principal delas em relação a um de seus protagonistas, o apenado Henry Young. Retratado no roteiro de Dan Gordon como uma vítima absoluta do sistema e da sociedade (como normalmente acontece com filmes com intenções de provocar discussões), o verdadeiro Young não era tão desprovido de maldade e nem tão puro assim, tendo cometido roubo a banco, violência contra um refém e até mesmo um assassinato ANTES de ser encarcerado em Alcatraz. Não justifica nenhuma violência cometida contra ele, é claro, mas é um truque um tanto sujo dos produtores, que forçam assim uma empatia óbvia com ele. E talvez seja justamente nesse ponto que a receita desanda.

Dirigindo com mão pesada uma história por si só trágica e absurda, Marc Rocco - que não assinou mais nenhum filme desde então - peca principalmente por não permitir ao público as discussões que tenta suscitar. Não há espaço para argumentos, uma vez que, no maniqueísta roteiro, o bem e o mal estão claramente delineados. Henry Young é puro, virgem, injustiçado e torna-se um herói involuntário da mídia. James Stamphill é idealista, íntegro e corajoso, capaz de lutar contra todo o sistema apenas para ver a justiça prevalecer. E Milton Glenn, que dirige o presídio, é frio, cruel, arrogante e incapaz de um sentimento nobre. Essa pobreza de nuances é o calcanhar de Aquiles do projeto, que se salva da mediocridade graças a seu elenco.

Apesar de Christian Slater ser sempre o mesmo, ele divide a cena com dois atores que, de maneiras diferentes, atigem seus objetivos. Enquanto Kevin Bacon luta claramente para dar credibilidade a seu Henry Young, mesmo caindo na armadilha do exagero em alguns momentos (sua entrega ao papel é louvável), Gary Oldman não parece precisar de muito esforço para sobressair-se. Seu olhar impenetrável, seu tom monocórdio e sua expressão de rocha dizem muito mais do que a trilha sonora exagerada e os diálogos empolados e repleto de frases de efeito do roteiro. Nem mesmo a fotografia - aparentemente claustrofóbica mas na verdade apenas escura e sem criatividade - chama a atenção, sendo tão comum quanto o resultado final do filme.

A história de "Assassinato em primeiro grau" é interessante. O elenco convence. Mas o filme é desnecessariamente longo e aborrecido. Um diretor mais talentoso talvez o salvasse de ser tão comum e tão historicamente discutível!

terça-feira

VIDA DE SOLTEIRO

VIDA DE SOLTEIRO (Singles, 1992, Warner Bros, 99min) Direção e roteiro: Cameron Crowe. Fotografia: Tak Fujimoto, Ueli Steiger. Montagem: Richard Chew. Música: Paul Westerberg. Figurino: Jane Ruhm. Direção de arte/cenários: Stephen J. Lineweaver/Clay A. Griffith. Casting: Owens Hill. Produção executiva: Art Linson. Produção: Cameron Crowe, Richard Hashimoto. Elenco: Matt Dillon, Bridget Fonda, Campbell Scott, Kyra Sedgwick, Sheila Kelley, Bill Pullman, James LeGros, Eric Stoltz, Jeremy Piven, Tom Skerrit, Paul Giamatti. Estreia: 18/9/92

A principal informação que pessoas normais tem a respeito de Seattle é que é a cidade que foi o berço do movimento "grunge", que, no início dos anos 90, legou ao mundo bandas como Pearl Jam e Nirvana (da cidade vizinha Aberdeen). E é justamente nessa Seattle musical e jovem que se passa uma das comédias românticas mais bacanas da década, que, se não tornou-se o êxito comercial esperado, ao menos amealhou fãs fiéis e ardorosos. "Vida de solteiro", escrito e dirigido pelo ex-repórter da revista Rolling Stone, Cameron Crowe, é uma delícia de se assistir e ouvir, mesmo depois de várias revisões.


O filme é, basicamente, uma colagem de pequenas anedotas romântico/sentimentais de um grupo de jovens de vinte e muitos anos que moram no mesmo prédio no subúrbio de Seattle. A garçonete Janet (Bridget Fonda, com ótimo timing cômico) é apaixonada pelo namorado, o músico Cliff (Matt Dillon, de cabelo comprido e visual desgrenhado), líder de uma banda de rock, Citizen Dick. O romance dos dois, porém, é atrapalhado pela absoluta falta de romantismo do rapaz, que prioriza a "carreira" em detrimento à sua relação com a namorada. O ex-namorado de Janet, o engenheiro de trânsito Steve (Campbell Scott) tenta vender o projeto de um supertrem à prefeitura da cidade, enquanto inicia um hesitante romance com a ambientalista Linda (Kyra Sedgwick assumindo com propriedade o papel que foi oferecido a Jodie Foster, Jennifer Jason Leigh e Mary Stuart Masterson), insegura em relação a confiar em homens, depois que foi enganada pelo último amante. E Debbie (Sheila Kelley), cansada da solidão, faz um vídeo procurando um novo amor.


Ao acompanhar a trajetória dessa meia dúzia de personagens simpáticos, humanos e absolutamente verdadeiros, Crowe entrega à plateia um dos mais inteligentes retratos de uma geração normalmente considerada apática. Em sua história, o diretor/roteirista não se contenta apenas em fazer rir ou emocionar com as mancadas sentimentais de seus heróis: eles também buscam o sucesso profissional, também sonham em viver longe de jogos amorosos, também tem dúvidas e inseguranças. Ninguém, em "Vida de solteiro" é totalmente seguro de si: Janet pensa em aumentar os seios para reconquistar o namorado, Cliff é um roqueiro bem medíocre, Steve é dedicado à profissão mas não atinge o sucesso esperado, Linda sofre por não ter certeza de seus sentimentos e Debbie é uma maluquete que não se importa em ceder o pretendente à colega de apartamento em troca de algumas lavadas de louça. São todas personagens escritas com carinho e bom-humor, quase como uma descrição que alguém faz dos melhores amigos.



E está tudo lá, em "Vida de solteiro": as inseguranças ("será que eu devo ligar?"), os conselhos errados ("mulher gosta de mistério..."), as cantadas equivocadas ("não fazer tipo é seu tipo") e as declarações de amor inesperadas ("não me faça ter que lembrar desse cachorro-quente pra sempre..."). Está lá a trilha sonora vibrante e a participação especial de músicos e amigos do diretor (Eddie Vedder e a banda Pearl Jam são os integrantes da Citizen Dick, e Tim Burton faz uma ponta como um cineasta amador de vanguarda). Está lá o elenco de jovens atores em seus melhores dias e está lá, principalmente, a simpatia e o alto-astral que fazem de uma comédia romântica um dos gêneros mais queridos pelo público. Mas, acima de tudo, "Vida de solteiro" é uma celebração ao amor, à amizade, à juventude e, por que não?, à Seattle.

Um dos melhores filmes de Cameron Crowe - que anos depois lançaria o magnífico "Quase famosos" - a história de Janet, Cliff, Debbie, Steve e Linda é para ver e rever sempre. De preferência com um enorme sorriso e o coração aberto.

segunda-feira

NASCIDO EM 4 DE JULHO

NASCIDO EM 4 DE JULHO (Born on the fourth of july, 1989, Universal Pictures, 145min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Ron Kovic, livro de Ron Kovic. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: John Williams. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Derek R. Hill. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Tom Cruise, Willem Dafoe, Raymond J. Barry, Lily Taylor, Stephen Baldwin, Frank Whaley, Kyra Sedgwick, Tom Berenger. Estreia: 20/12/89

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator (Tom Cruise), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Diretor (Oliver Stone), Montagem
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator/Drama (Tom Cruise), Roteiro

Em meados dos anos 70, desfrutando do merecido sucesso obtido graças aos filmes da série "O poderoso chefão", Al Pacino tinha um projeto de estimação: ele queria fazer o papel central na adaptação da autobiografia de um veterano do Vietnã que havia ficado paraplégico depois de ter sido atingido durante um combate. Nem mesmo o prestigio de Pacino, no entanto, foi suficiente para salvar oa ideia de ser cancelada antes mesmo de chegar à fase de produção. Mas depois de 1986 - e do sucesso acachapante de "Platoon" - o conflito no sudeste asiático tornou-se assunto "quente" junto aos estúdios e, com o oscarizado Oliver Stone à frente do projeto, "Nascido em 4 de julho", baseado nas memórias de Ron Kovic, finalmente chegou às telas americanas, com outro astro milionário no papel central: Tom Cruise.

Batalhando para ser levado a sério como ator dramático desde que contracenou com Paul Newman em "A cor do dinheiro" (86), Cruise decidou-se com um afinco louvável em sua missão de tornar-se Kovic, que não era exatamente favorável a sua escolha para interpretá-lo nas telas - afinal de contas, Cruise havia sido o galã e responsável pelo estrondoso sucesso de "Top gun, ases indomáveis", que era uma nem tão mal-disfarçada propaganda bélica envolta em uma historinha de amor. Foi preciso que Oliver Stone interviesse a seu favor - e que o próprio ator demonstrasse sua paixão pelo roteiro - para que finalmente o veterano anuísse. E, a julgar pela medalha de honra com que presenteou o galã de "Cocktail" ao final das filmagens, não se arrependeu em nenhum momento da escolha de Stone.


Realmente, Cruise se esforçou nitidamente para deixar para trás o sorriso radiante de mocinho que tanto encantou suas fãs. Desgrenhado, amargurado, raivoso e desiludido com as mentiras contadas pelo governo do país que amava mais do que tudo, Kovic, o protagonista, é o papel perfeito para qualquer ator buscando a glória e - talvez mais do que tudo - uma certa estatueta dourada. Por se enfeiar, por despir-se de vaidade e por se permitir alcançar algo mais do que enfeitar paredes de quartos de adolescentes, Cruise levou um Golden Globe e chegou mais perto que nunca de um Oscar (que perdeu para Daniel Day-Lewis, realmente bem superior em "Meu pé esquerdo"). Seu trabalho tem momentos de real emoção, impossível negar. Mas "Nascido em 4 de julho" é muito mais do que o veículo de um jovem astro em direção ao respeito artístico. É, antes de mais nada, um importante libelo pacifista, feito com todo o coração pelo sempre apaixonado Oliver Stone.

De certa forma foi até bom que o livro de Ron Kovic tenha demorado tanto para ver a luz dos refletores. Ainda que provavelmente Al Pacino tivesse feito o papel do protagonista com o perfeccionismo de sempre, é duvidoso se William Friedkin, a primeira escolha para dirigir o material, tenha os mesmos sentimentos que Stone em relação a ele. Apesar das cenas violentas passadas na guerra, esse trabalho do diretor é comandado principalmente pela emoção. É sobre a relação de Kovic com a perda dos movimentos, com sua família católica, com seus ideais equivocados transmutados em fúria, que "Nascido em 4 de julho" fala. Não é um filme DE guerra, é um filme sobre COMO a guerra é cruel, injusta e - por que não? - cegamente democrática. É um filme sobre certezas despedaçadas e sobre a transformação de um jovem que sonhava em ser como John Wayne em "Iwo Jima" em um pacifista ativo e realista. E é justamente nessa transição - repleta de armadilhas para qualquer ator - que Cruise sofre. O texto é forte, contundente. A direção de Stone é discreta e direta. Mas falta estofo dramático ao ator central, que, apesar dos esforços, não chega a entregar a atuação que poderia.

Tecnicamente "Nascido em 4 de julho" é um primor: a fotografia de Robert Richardson (dividida em apenas três cores que estabelecem o clima de cada cena) é esmerada e a edição (premiada com o Oscar) consegue ser, ao mesmo tempo, ágil e contemplativa. A trilha sonora do veterano John Williams cumpre seu papel de emocionar sempre que exigida e o elenco coadjuvante (com vários atores de "Platoon" em pontas) pontua com sobriedade o espetáculo de Tom Cruise. Mas é justamente Cruise - ainda que bastante bem na maior parte do filme - o elo menos forte do filme. Mas só o fato de, por causa dele, o filme ter encontrado seu público, já é um grande mérito.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...