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segunda-feira

MÃES PARALELAS

 


MÃES PARALELAS (Madres paralelas, 2021, El Deseo/Pathé Films, 123min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: Teresa Font. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Paola Torres. Direção de arte/cenários: Antxón Gomez/Vicent Díaz. Produção: Agustin Almodóvar, Esther García. Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón, Rossy de Palma. Estreia: 01/9/2021 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Penélope Cruz), Trilha Sonora Original

Os filmes do espanhol Pedro Almodóvar dificilmente podem ser resumidos em poucas palavras sem que se perda, no processo, todas as nuances de tramas raramente simples como podem parecer em um primeiro momento. "Mães paralelas" não foge à regra: o que a princípio soa como um mero melodrama (gênero no qual o diretor navega com conforto e experiência), se mostra, ao final, um poderoso estudo não apenas sobre a maternidade em si, mas também sobre relações familiares, sobre escolhas de vida e sobre o passado como força motriz para transformações no presente. Ao unir a história de duas desconhecidas que tem suas vidas transformadas pelo nascimento de seus bebês com uma trama a respeito de mortos pela ditadura franquista, Almodóvar se arrisca em um terreno novo - o drama político - sem abdicar de suas características mais notáveis (e que fizeram sua glória junto a cinéfilos e críticos).

"Mães paralelas" apresenta quase tudo aquilo que se pode esperar de um bom Almodóvar: personagens femininas fortes (com o bônus de uma atuação monstruosa de Penélope Cruz, a cada dia mais bonita e boa atriz), uma trama repleta de idas e vindas (que causa o terror de quem tenta resumir suas sinopses), uma trilha sonora marcante (indicada ao Oscar) e a capacidade de envolver o público sem muito esforço - além do retorno de sua parceria com a ótima Rossy de Palma. Voltando a um tema bastante caro a si mesmo - a maternidade -, o cineasta abre mão do deboche de suas produções mais anárquicas e aponta sua câmera em direção a uma história mais sombria e dramática, em que questões éticas e menções políticas caminham lado a lado sem que se atropelem ou ofusquem. Pode-se dizer que é um de seus filmes mais maduros e elegantes - o que, de certa forma, deixa pouco espaço para soluções mais catárticas e/ou lacrimosas. Pode soar um tanto anticlimático vindo de um diretor de sangue tão efervescente, mas não deixa de ser também um aceno a tempos mais delicados e sutis. "Mães paralelas" é um Almodóvar tanto atípico quando extremamente característico: um paradoxo que é, a seu modo, a cara de um dos mais fecundos e criativos realizadores da Europa desde a década de 1980.


A trama de "Mães paralelas" começa com o encontro de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit) em uma maternidade: a primeira, com 40 anos, está prestes a dar à luz ao filho de seu amante casado; a segunda, adolescente, tem uma relação difícil com a mãe, uma atriz retomando a carreira, e não conta com o apoio do pai do bebê. Algum tempo depois, as duas se reencontram em uma situação pouco comum - não convém dar mais detalhes para não estragar as surpresas que vão surgindo - e criam laços inesperados e profundos. Enquanto isso, Janis insiste em seu projeto profissional de buscar, com a ajuda do pai de sua filha, as ossadas de presos políticos desaparecidos durante o regime franquista. 

Mencionado em uma única linha de diálogo de "Carne trêmula" (1997) - e mesmo assim de forma bastante implícita -, o sangrento período, compreendido entre 1939 e 1976, em que Francisco Franco espalhou violência e repressão junto a seus opositores na sociedade espanhola, surge em "Mães paralelas" com importância crucial, ainda que isso só fique claro em seus instantes finais. O que pode parecer um tanto gratuito transforma-se, aos poucos, em mais uma prova da capacidade de Almodóvar em conduzir o espectador por caminhos imprevisíveis - e com mais camadas do que se pressupunha. Afinal, se o cerne de seu filme é a maternidade (símbolo maior de lar e família), não seria o reencontro com o passado uma forma de fazer as pazes com o futuro? Almodóvar não apresenta respostas, apenas aponta questões - como um bom artista em sintonia com a sensibilidade e a inteligência de sua plateia. Talvez tudo só faça sentido um bom tempo depois da sessão, mas não é essa perenidade que caracteriza o bom cinema?

sexta-feira

ATAQUE DOS CÃES


ATAQUE DOS CÃES (The power of the dog, 2021, Netflix/BBC Films, 126min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, romance de Thomas Savage. Fotografia: Ari Wegner. Montagem: Peter Sciberras. Música: Jonny Greenwood. Figurino: Kirsty Cameron. Direção de arte/cenários: Grant Major/Amber Richards. Produção executiva: Rose Garnett, Simon Gillis, John Woodward. Produção: Jane Campion, Iain Canning, Roger Frappier, Tanya Seghatchian, Emile Sherman. Elenco: Benedict Cumberbatch, Kirsten Dunst, Jesse Plemmons, Kodi Smith-McPhee. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Direção (Jane Campion), Ator (Benedict Cumberbatch), Ator Coadjuvante (Jesse Plemons/Kodi Smith-McPhee), Atriz Coadjuvante (Kirsten Dunst), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Direção de Arte/Cenários, Som

Vencedor do Oscar de Direção (Jane Campion)

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Direção (Jane Campion), Ator Coadjuvante (Kodi Smith-McPhee)

Quem conhece o cinema da neozelandesa Jane Campion sabe que o que lhe interessa é o turbilhão interno de seus personagens. Mesmo quando o sexo está ameaçando romper o verniz de civilidade que revestem seus protagonistas é o que se passa além de seus desejos carnais que chama a sua atenção. Foi assim, por exemplo, com a pianista muda que redescobre o prazer e o amor no mais inesperado momento, no premiado "O piano" (1993) e com a dama da sociedade que se vê alvo de uma armadilha engendrada por seu marido e sua melhor amiga, em "Retrato de uma mulher" (1996). E é assim também em "Ataque dos cães", que estreou no Festival de Veneza de 2021 e imediatamente despertou comentários entusiasmados que o levaram a merecidas doze indicações ao Oscar: a despeito de parecer, a princípio, apenas uma desconstrução dos cânones do western, a história da relação doentia/intrigante/imprevisível entre dois irmãos e a mulher que surge entre eles é um estudo sombrio sobre ciúme, vingança e intolerância, contado com o estilo quase contemplativo de Campion - desta vez centrando sua trama em um protagonista masculino.

Afastada do cinema desde "O brilho de uma paixão" (2009) - como diretora esteve envolvida apenas com a minissérie "Top of the lake", entre 2013 e 2017 -, Jane Campion voltou à cena no auge de sua força narrativa. Explorando o romance de Thomas Savage como ponto de partida, a cineasta/roteirista nada contra a corrente do cinema de fácil digestão ao criar uma teia de sentimentos escondidos, sensações recalcadas e meias-verdades que vão se avolumando até o final - um clímax poderoso, mas de uma sutileza tal que deixa no espectador a dúvida sobre seus reais desdobramentos. O roteiro de Campion é repleto de silêncios avassaladores, sublinhados pela bela trilha sonora de Jonny Greenwood e, enfeitado pelas deslumbrantes paisagens da Nova Zelândia (fazendo as vezes do estado de Montana, cenário da trama), conduz o público a um labirinto de intenções escusas e atrações dúbias: seus personagens não são unidimensionais, seus desejos quase nunca se revelam facilmente e muitas das aparências enganam - essa é "a força do Cão" do título original, a capacidade que o demônio tem de disfarçar sua real face até que seja tarde demais. O teor fatalista do enredo - que pode até soar como uma tragédia grega - encontra na direção suave de Campion (premiada com uma estatueta da Academia) a tradução ideal: mesmo que imprima um ritmo bem mais lento do que a média do cinema contemporâneo, a realizadora acerta em cheio em não apressar o desenvolvimento de seus personagens e de suas ações, oferecendo a eles (e a seus intérpretes fabulosos) espaço suficiente para que jamais pareçam gratuitos ou incoerentes.

 

O personagem principal do filme é Phil Burbank (Benedict Cumberbatch em mais um desempenho memorável): fazendeiro bruto, quase irascível e pouco dado a sutilezas, ele desperta a antipatia imediata da independente Rose (Kirsten Dunst), proprietária de um restaurante de beira de estrada, ao implicar com os modos delicados e sensíveis de seu filho único, Peter (o ótimo Kodi Smith-McPhee). A relação pouco amistosa entre eles não impede, porém, que Rose aceite o pedido de casamento de George (Jesse Plemons), irmão de Phil, e se mude com ele para a fazenda que ambos dividem. A aparente falta de educação de Phil contrasta radicalmente com a delicadeza de Rose e Peter - e logo um clima de constante tensão se instala na propriedade. A dinâmica entre o quarteto só começa a mudar quando Phil inicia uma aproximação com Peter - um caminho sem volta que leva a uma tragédia inesperada, com raízes ocultas em um passado infeliz e (mal) enterrado.

O elenco escolhido por Campion é abismal - não por acaso seus quatro atores centrais chegaram a indicações da Academia. Mesmo sem precisar de longos diálogos, todos eles são capazes de expressar uma vasta gama de emoções - seus olhos, seus gestos e seus silêncios transmitem toda a angústia que circunda a existência de seus personagens. Kirsten Dunst surge como a peça inicialmente frágil em uma disputa de poder e testosterona que só pode acabar mal, mas são Benedict Cumberbatch e Kodi Smith-McPhee que roubam a cena. Seus embates são fascinantes e carregados de uma tensão cujo tamanho vai crescendo até o ponto de explodir - uma explosão que, inteligente e sutil, Campion impede que contradiga o tom delicado do filme até então. Pode até decepcionar a quem espera algo mais radical, mas não trai a essência tanto da produção em si quanto da filmografia de sua criadora. "Ataque dos cães" é um filme para poucos - como o são todos os filmes anteriores de Jane Campion - que recebeu um merecido Oscar por seu meticuloso trabalho. Mas é, também, uma pérola, que se sobressai diante da mesmice de boa parte do cinema contemporâneo hollywoodiano - e uma senhora bola dentro da Netflix, cada vez mais se firmando como espaço para grandes diretores (como Martin Scorsese, Alfonso Cuarón e David Fincher) que buscam liberdade artística.

terça-feira

A PIOR PESSOA DO MUNDO


A PIOR PESSOA DO MUNDO (Verdens verste menneske, 2021, Oslo Pictures/MK2 Productions/Film i Vast, 128min) Direção: Joachim Trier. Roteiro: Joachim Trier, Eskil Vogt. Fotografia: Kasper Tuxen. Montagem: Olivier Bugge Coutté. Música: Ola Flottum. Figurino: Ellen Daheli Ystehede. Direção de arte/cenários: Roger Rosenberg/Mirjam Veske. Produção executiva: Dyveke Bjorkly Graver, Tom Kjeseth, Joachim Trier, Eskil Vogt. Produção: Andrea Beretsen Ottmar, Thomas Robsahm. Elenco: Renate Reinsve, Anders Danielsen Lie, Herbert Nordrum. Estreia: 08/7/2021 (Festival de Cannes)

2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Internacional, Roteiro Original

Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Renate Reinsve) 

Ao contrário do que podem fazer acreditar as redes sociais e os filmes tipicamente hollywoodianos, a vida não é feita de escolhas fáceis. Optar por um caminho - seja ele profissional, romântico ou familiar - significa, por definição, que é preciso abandonar todos os outros, e isso é, ninguém pode negar, definitivamente árduo e doloroso. Nessa trajetória rumo ao amadurecimento, feridas são abertas, pessoas são magoadas e é constante a sensação de que a felicidade de uns provavelmente será a infelicidade de outros. E é justamente esse sentimento de angústia que atormenta a vida de Julie, a protagonista da comédia dramática "A pior pessoa do mundo" - que representou a Noruega na disputa pela estatueta de melhor filme internacional no Oscar 2022. Indicado também na categoria de roteiro original, o filme de Joachim Trier aposta na aparente simplicidade de sua trama para envolver o espectador em uma narrativa que equilibra com rara felicidade um humor sutil, um drama que dribla miraculosamente o sentimentalismo e elementos de comédia romântica - sem que se transforme, no processo, em uma mixórdia de gêneros aleatórios. Inteligente e verossímil, é também, a prova cabal de que o cinema fora de Hollywood há muito deixou de lado o rótulo de hermético ou intelectual.

Julie - interpretada por Renate Reinsve, premiada como melhor atriz no Festival de Cannes 2021 - está chegando aos trinta anos e se encontra em várias encruzilhadas. Profissionalmente não consegue decidir-se definitivamente por nenhuma carreira - medicina, psicologia e fotografia são suas opções, com maior tendência à última. Familiarmente, sente-se presa à mágoa que sente por ser preterida pelo próprio pai. E romanticamente, então, é ainda pior. Envolvida seriamente com Aksel (Anders Danielsen Lie) - alguns anos mais novo e quadrinista profissional -, ela percebe, angustiada, que não compartilha com ele os desejos de formar uma nova família. Tal situação a leva a sentir-se atraída por Eivind (Herbert Nordrum), um barista com quem se sente mais à vontade e mais próxima do que pode se chamar de felicidade. Porém, as coisas não são assim tão fáceis - e qualquer decisão que toma a leva por caminhos que podem não ter mais volta. Incapaz de sentir-se totalmente firme dos rumos de sua vida e por consequência agindo de forma a machucar a quem ama, Julie por vezes se torna o que mais temia: a pior pessoa do mundo.


 

O roteiro de "A pior pessoa do mundo" é um achado. Tanto pode seguir a cartilha do naturalismo, criando personagens verossímeis e situações facilmente identificáveis por qualquer espectador quanto pode apostar no caminho contrário - o primeiro encontro real entre Julie e Eivind, por exemplo, acontece enquanto o mundo à sua volta parece estático, como se não existisse de verdade. Os personagens criados por Joachim Trier e Eskil Vogt são, ao mesmo tempo, adoráveis e falíveis - dotados, portanto, de defeitos e qualidades intrinsecamente humanos. E a atuação de seu elenco, tanto principal quanto coadjuvante, é digna de aplausos entusiasmados. Se Anders Danielsen Lie chama a atenção com um personagem complexo e multidimensional - com direito a reviravoltas dramáticas e até mesmo um surpreendente nu frontal -, é Renate Reinsve que faz do filme uma pequena obra-prima: escolhida pelo diretor às vésperas de abandonar a carreira de atriz e investir no ramo da marcenaria (!!), Reinsve simplesmente torna Julie uma das mais fortes protagonistas femininos do cinema das últimas décadas. Dotada de uma série aparentemente inesgotável de nuances, a jovem vencedora do Festival de Cannes consegue até mesmo mudar de feições, de acordo com cada momento da trama: sexy, insegura, ousada, traumatizada, angustiada, decidida, apaixonada.... sempre que Julie está em cena, seus sentimentos são facilmente reconhecidos no rosto comum (mas nem por isso esquecível) de sua intérprete. Como se fosse uma página em branco, pronta para transmitir os anseios de sua personagem, Reinsve rouba o filme inteiro para si - não à toa, é sua imagem que estampa o principal cartaz da produção e sua personalidade a inspiração para a história.

"A pior pessoa do mundo" é um filme delicioso, uma prova inconteste de que a simplicidade narrativa nem sempre significa pobreza de ideias ou falta de criatividade. Ao retratar gente cujos desejos e traumas refletem os mesmos que qualquer um da plateia, a trama de Joachim Trier acaba por devolver ao público tanto sua capacidade de refletir quanto de sonhar, sem deixar de, nesse meio-tempo, lembrar que o cinema não serve apenas como válvula de escape ou sessão de terapia: perfeitamente equilibrado entre esses dois pontos, é, segundo palavras do diretor, "uma comédia romântica feita para aqueles que não gostam de comédias românticas". Ou seja, é a vida real com verniz de fantasia - não aliena completamente e não machuca com profundidade. Imperdível!


sexta-feira

CYRANO


CYRANO (Cyrano, 2021, MGM Pictures/Working Title Films/BRON Studios, 123min) Direção: Joe Wright. Roteiro: Erica Schmidt, musical de sua autoria, peça teatral original de Edmond Rostand. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Valerio Bonelli. Música: Aaron Dessner, Bryce Dessner. Figurino: Massino Cantini Parrini, Jacqueline Durran. Direção de arte/cenários: Sarah Greenwood/Katie Spencer. Produção executiva: Matt Berninger, Carin Besser, Jason Cloth, Aaron Dessner, Bryce Dessner, Aaron L. Gilbert, Erica Schmidt, Sheeraz Shah, Kevin Ulrich, Lucas Webb, Sarah-Jane Robinson. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Guy Helley. Elenco: Peter Dinklage, Haley Bennett, Kelvin Harrison Jr., Ben Mendelsohn, Monica Dolan, Glen Hansard. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Telluride)

Indicado ao Oscar de Figurino

Escrita por Edmond Rostand em 1897, "Cyrano de Bergerac" tornou-se, com o passar do tempo, uma das peças teatrais mais montadas da história - e um ícone cultural dos mais duradouros, atravessando gerações sempre com o mesmo sucesso. Parte da responsabilidade de tal perenidade deve-se ao cinema, que em várias ocasiões aproveitou-se para adaptar o texto do dramaturgo francês para as telas - caso da versão estrelada por José Ferrer em 1950 (que deu ao ator o Oscar da categoria) e da transposição estrelada por Gérard Depardieu em 1990 (que também foi indicada à estatueta de melhor ator). A mais nova tradução de Rostand para o público cinéfilo, lançada em 2021, prova que, apesar de tudo, a força de sua história ainda se presta a novos olhares e inovações estilísticas. Dirigido por Joe Wright, "Cyrano" não apenas ousa em transformar a tragédia em musical como altera o principal elemento do texto, fazendo de seu protagonista não um homem que sofre com um nariz descomunal, mas um talentoso soldado torturado por sua condição de anão. Beneficiado com o talento inegável de Peter Dinklage - aproveitando o sucesso de seu trabalho na série "Game of thrones" -, o Cyrano de Wright em nada deixa a desejar em relação a seus antecessores, apesar de ter sido praticamente ignorado pela Academia e outras cerimônias de premiação.

Na verdade, a versão de Wright é uma adaptação indireta do clássico de Rostand. Sua origem é a reinvenção do texto original, criada pela dramaturga Erica Schmidt e montada em 2018 em Connecticut - e no ano seguinte em teatros off-Broadway, em Nova York. Sem a necessidade de uma fidelidade absoluta ao clássico, o cineasta - autor de adaptações de obras como "Orgulho e preconceito" (2005) e "Anna Karenina" (2012), além do excepcional "Desejo e reparação" (2007) - explora todas as possibilidades visuais da trama com uma liberdade encantadora e uma sensibilidade irresistível. Até mesmo seus artifícios para modernizar a forma de contar a história - e evitar o tédio que um texto em versos poderia causar a um público menos paciente - soam orgânicos e inteligentes, valorizados por uma reconstituição de época cuidadosa e uma fotografia (de Seamus McGarvey) cujo maior mérito é não tentar se sobrepor à trama e aos personagens. As canções - em especial a bela "Close my eyes", com a participação de Glen Hansard, do filme "Apenas uma vez" (2007) - conseguem integrar-se à narrativa com elegância ímpar, e se a escalação de Dinklage para o papel-título soa genial, o mesmo pode ser dito da escolha de Kelvin Harrison Jr. para viver o galã Christian - pela primeira vez um ator negro assume (ao menos nas telas) o papel do antagonista romântico (e involuntário) da história de amor entre Cyrano e a bela Roxanne.


 

Apesar das alterações oriundas da adaptação feita por Schmidt - que é casada com o ator Peter Dinklage -, a trama do filme permanece, em sua essência, a mesma: o protagonista é o romântico e sensível Cyrano, apaixonado pela doce Roxanne (Haley Bennett), e que esconde de todos o seu amor, ciente de que sua aparência física jamais permitirá uma aproximação maior entre eles. Corajoso e dotado de grande inteligência, o enamorado soldado francês vê sua situação ficar ainda mais complicada quando um colega, Christian (Kelvin Harrison Jr.), também cai de amores pela bela e voluntariosa jovem. Bonito mas sem muito conteúdo intelectual, Christian recorre a Cyrano para que este escreva versos sentimentais que possam conquistá-la: a farsa dá certo, e Roxanne se deixa seduzir, sem desconfiar que, na verdade, está encantada pela alma de seu velho amigo. Tudo poderia seguir indefinidamente se não fosse um outro problema no caminho do inusitado triângulo amoroso: o poder de um outro apaixonado por Roxanne, que, rejeitado, resolve mandar Christian (e Cyrano) para o campo de batalha.

Sem contar com um orçamento milionário que poderia lhe colocar como um grande épico - em especial nas cenas de batalha, cuja economia é muito bem disfarçada pelo talento do cineasta em criar soluções visuais criativas -, "Cyrano" acabou por passar quase despercebido pelo grande público, perdido entre as produções com maior visibilidade e marketing. Joe Wright - um diretor que entende como poucos as engrenagens do cinemão clássico - extrai o máximo do que lhe é oferecido, brindando o espectador com um espetáculo de extremo bom gosto, ainda que sem a opulência que se poderia esperar de uma produção de época. Com um começo um tanto confuso - um problema que se resolve muito a contento logo em seguida - e a sensação de estranhamento em relação à inclusão de canções em um material tão conhecido, o filme acaba por envolver principalmente pelo talento inquestionável de seu elenco, pela inteligência em contornar o que poderiam ser problemas e pela sensibilidade de uma história atemporal e emocionante. E é impossível não se deixar conquistar pelo carisma de Peter Dinklage, um Cyrano de Bergerac com todos os atributos para ingressar no rol de seus mais clássicos intérpretes.

 

quinta-feira

O BOM PATRÃO

 


O BOM PATRÃO (El buen patrón, 2021, Básculas Blanco/Crea SGR/ICAA, 116min) Direção e roteiro: Fernando León de Aranoa. Fotografia: Pau Esteve Birba. Montagem: Vanessa Marimbert. Música: Zeltia Montes. Figurino: Fernando García. Direção de arte/cenários: César Macarrón. Produção executiva: Pilar de Heras, Marisa Fernández Armenteros, Laura Fernández Espeso, Eva Garrido, Patricia de Muns. Produção: Fernando León de Aranoa, Javer Méndez, Jaume Roures. Elenco: Javier Bardem, Manolo Solo, Almudena Amor, Óscar de La Fuente, Sonia Almarcha, Fernando Albizu, Tarik Rimli. Estreia: 21/9/2021

A Balanças Blancos é uma tradicional fábrica, com décadas de história e a reputação de ser um dos ambientes de trabalho mais generosos do país. Seu presidente, Blanco (Javier Barden), inclusive, insiste em declarar que seus funcionários são como membros da família e que são eles os maiores responsáveis por seus sucesso e perenidade. Às vésperas da visita de uma comissão que poderá escolher a empresa para receber um diploma de excelência, porém, a aparência de exemplar tranquilidade do local começa a ruir. Em pouco mais de uma semana, caberá a Blanco lidar com uma série de problemas de ordem pessoal e profissional que põem em xeque sua capacidade de liderar não apenas seus empregados, mas principalmente suas relações familiares e de amizade. E tudo começa com dois acontecimentos aparentemente sem conexão: a tentativa de ajudar o filho delinquente de um antigo operário ao dar-lhe um emprego na loja da mulher e a demissão de outro empregado, que, revoltado, inicia uma manifestação na frente do prédio da empresa, acompanhado dos filhos pequenos e chamando cada vez mais a atenção da mídia.

Recordista histórico em indicações ao Goya - o Oscar espanhol -, com vinte indicações, "O bom patrão" levou seis estatuetas, incluindo melhor filme, direção, ator e roteiro original. Não chega a ser surpresa, quando se assiste à produção de Fernando León de Aranoa: um equilíbrio perfeito entre comédia e drama - com pitadas de suspense e uma dose generosa de crítica social -, o filme apresenta um protagonista falível e humanamente verossímil que ganha o público justamente por seus erros. Lógico que o carisma e o talento de Javier Bardem ajudam muito nesse quesito, mas o roteiro delicioso é tão repleto de camadas, de detalhes e de ironias que é difícil não se deixar envolver sem muito esforço. Contada em capítulos - cada um dedicado a um dia da atribulada semana de Blanco -, a trama de Aranoa vai se tornando, aos poucos, um acúmulo de situações problemáticas que apenas empurram a plateia em direção à empatia quase absoluta pelo personagem central, mesmo sendo ele desprovido de muitos escrúpulos. O que começa com um certo humor sombrio vai gradualmente assumindo contornos trágicos - e a direção firme do cineasta dribla magistralmente as armadilhas que surgem a cada cena, além de distanciar-se do tom de deboche explícito que a trama poderia assumir e aproximá-la de uma fábula repleta de cinismo sobre o mundo capitalista e a hipocrisia da sociedade como um todo.

 


Se não, vejamos: incomodado com a presença incômoda do ex-funcionário - que acampa, junto com os filhos, diante da fábrica, munido de um megafone e de uma vontade férrea de chamar toda a atenção possível da mídia -, Blanco faz o possível e o impossível para removê-lo da vista da comissão governamental, que pode aparecer a qualquer dia para inspecionar a empresa e confirmar seu status de exemplar. Para isso, não hesita em apelar para a lei - e até para meios heterodoxos e violentos a ponto de piorar ainda mais a situação. Não bastasse isso, o empresário precisa lidar com a queda de rendimento de seu braço direito, Miralles (Manolo Solo), que está deixando a crise em seu casamento atrapalhar a vida profissional - e é evidente que Blanco irá se intrometer nas relações extraconjugais do casal para tentar resolver as contendas, mesmo que para isso tenha que envolver outras pessoas na questão. Por fim, o incansável patrão se deixa seduzir pela nova estagiária, a jovem Liliana (Almudena Amor), apenas para descobrir que tal romance casual pode ter desdobramentos inusitados - e quase cruéis.

Dominado por um espetacular Javier Bardem - que apesar disso deixa espaço de sobra para interpretações superlativas de todo o elenco, mesmo aqueles em participações pequenas -, "O bom patrão" é uma amostra de que o cinema espanhol sobrevive muito bem mesmo sem a sombra de Pedro Almodóvar, seu maior representante junto ao público médio. Fernando León de Aranoa é um cineasta que conduz sua história com um visual sóbrio, um humor quase sofisticado e sutileza, deixando entrever nas entrelinhas uma crítica contundente ao sistema de classes e ao jogo social da burguesia - no discurso de Blanco, todos formam uma mesma família, mas na prática, conforme os interesses vão se revelando, as regras mudam e deixam notar um tecido que está esperando o primeiro puxão para romper completamente. Blanco tenta demonstrar, por todo o filme, uma falsa sensação de controle, mas não é preciso muito para que sua aflição transpire por uma série de atos desesperados que, ao invés de ajudar, apenas pioram o quadro. Os risos que "O bom patrão" desperta são nervosos, quase cínicos - e é isso que faz dele uma joia rara, um filme que, de modo inteligente, une o riso e a reflexão como forma de entretenimento da mais alta qualidade.

terça-feira

BAR DOCE LAR


BAR DOCE LAR (The tender bar, 2021, Amazon Studios, 106min) Direção: George Clooney. Roteiro: William Monahan, livro de J.R. Moehringer. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Tanya M. Swerling. Música: Dara Taylor. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Melissa M. Levander. Produção executiva: Barbara A. Hall, Ibrahim Hamdan, J. R. Moehringer. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Ted Hope. Elenco: Tye Sheridan, Ben Affleck, Lily Rabe, Christopher Lloyd, Daniel Ranieri, Briana Middleton. Estreia: 10/10/2021 (BFI London Festival)

Não deixa de ser triste perceber que George Clooney, anteriormente conhecido por escolher projetos de interesses político e social para sua carreira como cineasta, tenha entrado em um período pouco relevante. Filmes como "Confissões de uma mente perigosa" (2002), "Boa noite, e boa sorte" (2005) e "Tudo pelo poder" (2011) parecem ter ficado para trás, diante de produções esquecíveis ou simplesmente medíocres, como "Caçadores de obras-primas" (2014) e "Suburbicon: bem-vindos ao paraíso" (2017). Infelizmente seu projeto mais recente, "Bar doce lar", volta a não entusiasmar, apesar de algumas qualidades perceptíveis. Baseado em um livro de memórias de J.R. Moehringer, o filme é apenas mais uma história pouco original de amadurecimento, prejudicada por personagens pouco interessantes e por um roteiro irritantemente convencional - uma surpresa quando se sabe que seu autor é William Monahan, vencedor do Oscar por "Os infiltrados" (2006), uma obra-prima de estrutura e concisão.

O filme de Clooney conta a história de J.R., desde sua infância (quando é interpretado pelo encantador Daniel Ranieri) até a juventude (quando passa a ser vivido pelo promissor Tye Sheridan). Filho de uma batalhadora mãe solteira (Lily Rabe) e um pai radialista que só dá as caras esporadicamente e não faz a menor questão de um relacionamento mais profundo com ele, o menino não demora a estabelecer um vínculo emocional com o tio, Charlie (Ben Affleck), dono de um bar que assume, sem hesitar, a figura paterna para o sobrinho. É com Charlie que o pequeno J.R. aprende valores, dicas de sobrevivência emocional, macetes sociais e é a partir de suas conversas que surge nele o amor pelos livros e o desejo de tornar-se escritor. Sobrevivendo em meio a um quase caos - a casa do avô é frequentemente povoada por inúmeros tios e primos barulhentos -, J.R. cresce e, em busca de realizar seu sonho de escrever - e o de sua mãe, de que ele faça uma faculdade -, descobre um mundo que nem sempre é hospitaleiro e gentil. Apaixonado por uma colega, Sidney (Briana Middleton), ele entra também no mundo dos amores complicados.

 

Sem apresentar nada do que já tenha sido visto em vários outros filmes do gênero, "Bar doce lar" peca por sua narrativa morna e sem grandes momentos memoráveis. A cada cena um pouco mais interessante - o avô do menino salvando a comemoração de Dia dos Pais na escola do neto, o confronto de J.R. com os esnobes pais de Sidney, a melancólica espera do menino por um pai que nunca chega para levá-lo a um jogo - segue-se inúmeras outras repetitivas e que não despertam no espectador nada além de uma sensação de dèjà-vu constante. Para isso contribui muito o fato de que a história de Moheringer não é, a rigor, nem um pouco empolgante, e seu personagem principal tampouco cativa por uma personalidade marcante, apresentando, na maior parte do tempo, uma passividade que torna quase impossível ao público importar-se de verdade com seu destino. Nem mesmo o talento do jovem Tye Sheridan consegue dar profundidade suficiente para disfarçar a fragilidade da estrutura do roteiro de Monahan e a direção mecânica de Clooney. Quem de certa forma se destaca é Ben Affleck, que mesmo sem apresentar nada de novo em sua atuação, recebeu indicações ao Golden Globe e ao SAG Awards na categoria de ator coadjuvante - apesar de ser o primeiro nome nos créditos.

Dizer que "Bar doce lar" é um filme ruim é exagerar, já que tem uma produção cuidadosa, uma trilha sonora deliciosa e um elenco que se esforça ao máximo para extrair o melhor de cada momento. Porém, com o currículo acumulado por George Clooney atrás das câmeras, era de se esperar algo menos óbvio e tão pouco ambicioso. Falta de ambição nem sempre é defeito - muitas vezes, inclusive, pode ser uma grande qualidade -, mas dessa vez tal característica deixa no ar a sensação de oportunidade perdida: o cineasta poderia ter assinado uma produção emocional e nostálgica mas ficou muito aquém de suas expectativas. O resultado é uma produção correta mas passa longe de atingir o mesmo nível dos melhores filmes do diretor. Uma pena!

quinta-feira

MEU FILHO

 


MEU FILHO (My son, 2021, Une Hirondelle Productions/Wild Bunch International/Sixteen Films, 95min) Direção: Christian Carion. Roteiro: Christian Carion, Laure Irrmann. Fotografia: Eric Dumont. Montagem: Loic Lallemand. Música: Laurent Perez Del Mar. Figurino: Carole Miller. Produção executiva: Adam Fogelson, John Friedberg, Robert Simonds, Kimberly Fox. Produção: Marc Butan, Christian Carion, Brahim Chioua, Noémie Devide, Marc Gabizon, Laure Irrmann, Vicent Maraval, Rebecca O'Brien. Elenco: James McAvoy, Claire Foy, Tom Cullen, Gary Lewis. Estreia: 15/9/2021 (Internet)

Em 2017, o cineasta Christian Carion surpreendeu o público francês com "Meu filho", uma produção que, apesar da sinopse não exatamente original, fugia da narrativa tradicional ao negar a seu ator principal, Guillaume Canet, o roteiro que conduzia a trama. As reações de Canet ao que era proposto pelos colegas de cena é que levavam a história adiante - e transmitiam a sensação de desorientação necessária à construção do suspense. Quatro anos mais tarde, ciente das limitações que um filme não falado em inglês encontra no mercado internacional, Carion envolveu-se pessoalmente no remake de sua obra - com um ator britânico (James McAvoy) e uma mudança de cenário (da França para as montanhas escocesas) - e, com o máximo de fidelidade possível, fez de sua refilmagem um produto que, se não chega a revolucionar o gênero, ao menos envolve o espectador em um espiral de intrigas e mistérios que vai se desenrolando aos poucos até o final que infelizmente não consegue escapar do clichê.

A trama já começa com a chegada de Edmond Murray (James McAvoy) às buscas de seu filho de sete anos, desaparecido de um acampamento nas montanhas escocesas. Chamado pela ex-mulher, Joan (Claire Foy) - de quem está separado há alguns anos e que já está em uma nova relação -, Edmond não consegue deixar de sentir-se culpado pelo fato de ser um pai ausente, em constantes viagens a trabalho, inclusive por países em situações de conflito. Questionado pela polícia, que suspeita de um sequestro com vítima escolhida a dedo, Edmond não se conforma em apenas fazer parte das equipes que procuram o menino pelas matas. Assumindo uma investigação própria e com métodos não ortodoxos, ele se depara com pistas falsas, suspeitos bastante dúbios e até com a possibilidade de ter responsabilidade indireta com o desaparecimento. A cada passo que dá adiante, porém, o tempo vai se esgotando - e o final de sua procura vai ficando com chances cada vez maiores de não ser bem-sucedida. 

Avassalador no papel principal, James McAvoy demonstra, mais uma vez, sua capacidade aparentemente infinita de se reinventar nas telas - vale lembrar que o ator inglês já deu vida a um psicopata com problemas mentais ("Fragmentado"), um soldado da I Guerra tentando retomar a vida depois de uma acusação injusta de assédio ("Desejo e reparação"), um inexperiente médico que se torna o homem de confiança do ditador Idi Amin ("O último rei da Escócia") e o jovem Professor Xavier (na segunda trilogia dos X-Men), apenas para citar alguns. É ele, com sua garra e dedicação, que faz com que o filme de Carion saia da vala comum dos filmes de ação para se tornar um passatempo bastante digno - ao menos em seus dois primeiros terços. É nessa primeira parte que a ideia do cineasta em esconder de seu ator central o roteiro faz toda a diferença: conforme vai tomando conhecimento de fatos que cercam o possível crime, Edmond vai sendo surpreendido com informações novas, que mudam o rumo das investigações e de sua própria vida - e é o mesmo que acontece com McAvoy, que vai descobrindo a trama através do que é lançado diante de seus olhos. Da tristeza à preocupação, da raiva à coragem, do desespero à desconfiança de todos a seu redor, o astro tira de letra todos os desafios impostos pelo diretor e vai chegando, junto com o público, a um desfecho que, esse sim, deixa no ar uma sensação de anti-clímax.

Depois de dois terços de uma ação aflitiva e de uma tensão crescente, que vai envolvendo o espectador de maneira gradual, "Meu filho" chega a seu último ato caindo na armadilha fácil do exército de um homem só e abandonando o tom de suspense psicológico que vinha adotando até então. A resolução do mistério - preguiçosa e clichê - só serve para justificar um embate entre Edmond e seus algozes, que, é preciso reconhecer, fotografado com elegância e inteligência pelas câmeras de Eric Dumont, que com uma textura quase palpável, enfatiza o tom sombrio e claustrofóbico da trama e valoriza a construção metódica de uma história desesperadora para qualquer pai. Mesmo não sendo um filme completamente memorável - exceção feita ao trabalho de McAvoy, brilhante do início ao fim -, "Meu filho" é o programa ideal para os fãs de suspense e ação. Não muda a vida de ninguém, mas tampouco é uma perda total de tempo.

quarta-feira

O CONTADOR DE CARTAS

 


O CONTADOR DE CARTAS (The card counter, 2021, Focus Features, 111min) Direção e roteiro: Paul Schrader. Fotografia: Alexander Dynan. Montagem: Benjamin Rodriguez Jr.. Música: Robert Levon Been, Giancarlo Vulcano. Figurino: Lisa Madonna. Direção de arte/cenários: Ashley Fenton/Mary Goodson. Produção executiva: Carte Blanche, Catherine Boily, Tiffany Boyle, Lee Broda, Philip H. Burgin, Anders Erdén, Santosh Govindaraju, Patrick Hibler, Ruben Islas, Nadine Luque, Martin McCabe, Joel Michaely, Kathryn Moseley, Patrick Muldoon, Mitch Oliver, William Olsson, Stanley Preschutti, Elsa Ramo, Jeff Rice, Jason Rose, Martin Scorsese, Mick Southworth, Kyle Stroud, James Swarbrick, Elton Tsang, Ken Whitney, Liz Whitney. Produção: Lauren Mann, Braxton Pope, David M. Wulf. Elenco: Oscar Isaac, Tye Sheridan, Willem Dafoe, Tiffany Haddish, Alexander Babara. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

Há mais em comum entre Travis Bickle - vivido por Robert DeNiro em "Taxi driver" (1976) -, o Reverendo Ernst Toller - interpretado por Ethan Hawke em "Fé corrompida (2017) - e William Tell, o protagonista de "O contador de cartas", além do fato de terem sido todos criados pelo roteirista Paul Schrader. Solitários, torturados psicologicamente e à beira de um iminente ataque de nervos - que pode explodir como um surto de violência -, eles formam, a seu modo, um grupo de protagonistas quase silenciosos que habitam um universo particular, cercado por uma constante tensão e pela expectativa de tragédias. E Tell, interpretado por Oscar Isaac, se não flerta diretamente com o perigo da noite nova-iorquina ou a pressão dos dogmas religiosos, precisa lidar com os próprios demônios, um passado traumático e uma inesperada relação que pode lhe servir como caminho para a redenção.

Tell é, como deixa bem claro o título do filme, um contador de cartas, ou seja, um jogador que vai de cassino em cassino ganhando dinheiro no blackjack graças a seu talento de calcular, na hora da partida, as possibilidades numéricas do jogo. Recém saído de uma pena de oito anos na prisão - onde desenvolveu seu talento -, ele leva uma vida discreta e quase monástica, evitando apostar alto para fugir dos radares. Sua existência praticamente invisível sofre uma transformação, porém, quando duas pessoas surgem em seu caminho com intenções bastante diversas. Primeiro, La Linda (Tiffany Hadish), que trabalha para um grupo de investidores que lhe oferece patrocínio em suas aventuras nos jogos - em troca de uma comissão. Depois, é o jovem Circk Baufort (Tye Sheridan, em papel herdado de Shia LaBeouf), que se revela filho de um antigo colega seu da época em que treinavam métodos de tortura sob as ordens de um cruel instrutor: Circk quer vingar-se de tal criminoso - agora um bem-sucedido empresário de nome John Gordo (Willem Dafoe) - por ter destruído sua família, mas Tell prefere oferecer ao rapaz uma viagem por cassinos do país como forma de lhe fazer mudar de ideia. Tal situação o aproxima não apenas de seu passado, mas também de uma chance de deixar para trás uma vida de violência e truculência.

Filmado em um período de apenas vinte dias - sem contar a pausa imposta pela contaminação por Covid-19 de um membro da equipe - e frequentemente utilizando-se apenas de um ou dois takes por cena, "O contador de cartas" é uma produção econômica por vários motivos além do financeiro. Com uma atuação minimalista, Oscar Isaac constrói seu William Tell com total parcimônia de recursos, mas nunca de excelência: quieto, discreto, misterioso, Tell só aos poucos se permite revelar seus reais sentimentos - e mesmo assim de forma a não deixar que eles ultrapassem o limite autoimposto. Suas relações - com Circk, com La Linda, com Gordo - são forjadas a sofrimento e angústias que ele só desabafa em seus diários, uma espécie de confessor que não o julga ou critica. Em um desempenho exemplar (mais um em uma carreira em franca ascensão), Isaac ousa criar um protagonista que não busca a simpatia incondicional do espectador - e para isso conta com uma edição propositalmente truncada, efeitos de fotografia bastante eficientes e um roteiro quase incômodo de Schrader, um cineasta cuja visão de mundo não pode ser considerada exatamente otimista - e cujo comportamento frequentemente agressivo chegou a preocupar a Focus Features, distribuidora do filme, que pediu a ele que se afastasse das redes sociais durante o período de lançamento para não prejudicar a repercussão da produção.

Considerado pelo ex-presidente norte-americano Barack Obama como um de seus filmes preferidos da temporada 2021, "O contador de cartas" é, também, a definição perfeita de uma produção independente. Com nada menos que 20 produtores executivos creditados (incluindo Martin Scorsese, parceiro de Schrader em quatro oportunidades), o filme ganha em qualidade justamente por essa liberdade. Sem precisar se ater às amarras de uma produção comercial de um grande estúdio, Paul Schrader pode exercitar suas idiossincrasias e seu estilo seco, em uma narrativa sofisticada e adulta que acerta em não subestimar a inteligência do espectador e evitar a violência explícita: ao contrário do clímax sangrento de "Taxi driver", o cineasta dessa vez opta por sugerir mais do que mostrar. Pode soar um tanto lento para quem busca um filme de ação, mas aqueles que comprarem seu estilo elegante e sutil podem ser positivamente surpreendidos.

quinta-feira

CONCORRÊNCIA OFICIAL


CONCORRÊNCIA OFICIAL (Competencia oficial, 2021, ICAA/Orange/RTVE, 115min) Direção: Mariano Cohn, Gastón Duprat. Roteiro: Andrés Duprat, Gastón Duprat, Mariano Cohn. Fotografia: Arnaud Valls Colomer. Montagem: Alberto del Campo. Figurino: Wanda Morales. Direção de arte/cenários: Alain Bainée/Sara Natividad. Produção executiva: Antonio Banderas, Penélope Cruz, Laura Férnadez Espeso, Oscar Martínez, Javier Méndez, Javier Pons. Produção: Jaume Roures. Elenco: Penélope Cruz, Antonio Banderas, Oscar Martínez, José Luiz Gómez. Estreia: 04/9/2021

O que fazer quando se chega aos 80 anos de idade, tem dinheiro de sobra e sonha em ter o nome para a posteridade? O empresário Humberto Suárez (José Luiz Gómez), depois de pensar em inúmeras possibilidades (como uma ponte, por exemplo) chega à conclusão de que o melhor negócio que pode fazer é financiar um filme. Mas não um filme qualquer, e sim um grande filme, o melhor que o dinheiro pode comprar. E é com esse objetivo que ele contrata a premiada Lola Cuevas (Penélope Cruz) para dirigir a adaptação de um célebre romance que tem todos os ingredientes para transformar-se em sucesso. Dona de uma personalidade bastante excêntrica, Lola embarca no projeto com a condição de contar, no elenco, com dois dos maiores atores do país: o prestigiado Iván Torres (Oscar Martínez) e o popular Félix Rivero (Antonio Banderas). O que nem Humberto nem os tarimbados atores poderiam imaginar é que os métodos de Lola para atingir a perfeição fogem muito do convencional - e transformam os ensaios em um inferno, fazendo emergir ressentimentos, inseguranças e sentimentos pouco nobres de todos os envolvidos no processo.

Dirigido pelos argentinos Mariano Cohn e Gastón Duprat, "Concorrência oficial" é um deleite para os fãs de cinema em geral e artistas em particular: ao mergulhar em um universo repleto de egos inflados e talentos superestimados, a dupla de cineastas e roteiristas brinca com o próprio métier sem nunca perder, apesar do tom de deboche, o respeito pelo cinema e seus realizadores. Ao retratar diretores egóicos, atores autocentrados e produtores sem o menor tino artístico, a trama surpreende o espectador com uma narrativa imprevisível e personagens repletos de camadas, reveladas aos poucos, conforme suas barreiras vão sendo demolidas a ferro, fogo e dinâmicas bizarras criadas por Lola - interpretada com perceptível prazer por Penélipe Cruz, uma das produtoras executivas do filme, ao lado de seus colegas de elenco. Com um visual exuberante que lembra seus melhores momentos com o espanhol Pedro Almodóvar - nitidamente uma influência na paleta de cores vivas e na excentricidade dos personagens -, Cruz deita e rola com diálogos saborosos, repletos de absurdos e referências à cultura pop. De maneira inteligente, os diretores conseguem até mesmo uma auto-citação: o romance adaptado por Cuevas, "Rivalidade", é de autoria de Daniel Mantovani, personagem do filme anterior dos realizadores, "Um cidadão ilustre", vivido pelo mesmo Oscar Martínez que interpreta aqui o celebrado Iván Torres.


 

Iván Torres é um ator de métodos clássicos, do tipo que cria um passado para os personagens que irá interpretar e mergulha profundamente em sua criação. A forma como lida com seu ofício bate de frente com a quase irresponsabilidade de Féliz Rivero, seu colega e rival, que leva a profissão bem menos a sério - e, paradoxalmente, é bem mais popular entre o público. O confronto entre dois estilos de atuação é a faísca procurada por Lola, que os escolhe justamente por sua radical diferença, que ela julga apropriada para a história de dois irmãos rivais. Enquanto ensaia cada linha de diálogo do roteiro - para enfado de ambos, cada um por uma razão diferente - e cria dinâmicas quase humilhantes para arrancar deles interpretações viscerais (a ponto de fazê-los ler o roteiro sob uma rocha que pesa toneladas e pode vir a desabar a qualquer momento), a polêmica diretora não percebe que, em determinado momento, torna-se também vítima de suas técnicas quando passa a questionar o que é verdade ou não na relação entre seus astros - o que pode até acarretar uma tragédia inesperada.

É difícil saber o que é mais precioso em "Concorrência oficial". Do roteiro, original e mordaz, à escalação do elenco, absolutamente certeira, tudo no filme de Cohn e Duprat funciona às mil maravilhas. O estranhamento do primeiro ato - quando Lola Cuevas inicia seu processo criativo - dá lugar, gradativamente, a uma trama recheada de ironias, brilhantemente abraçadas por seus atores, todos em estado de graça. Equilibrando-se entre o humor mais fino e o suspense por vezes inesperado, o filme transita com facilidade por diversos gêneros, extraindo o melhor de cada um deles para oferecer à plateia um banquete cuidadosamente preparado. Criticando o culto à celebridade ao mesmo tempo em que não perdoa o exagerado pedantismo de certa parcela da elite artística, a produção faz rir e pensar na mesma intensidade - é um programa inteligente e leve, que mostra, mais uma vez, a inegável qualidade do cinema argentino contemporâneo.

terça-feira

DESERTO PARTICULAR


DESERTO PARTICULAR (Deserto particular, 2021, Fado Filmes/Anacoluto/Grafo Audiovisual, 121min) Direção: Aly Muritiba. Roteiro: Aly Muritiba, Henrique dos Santos. Fotografia: Luis Armando Arteaga. Montagem: Patricia Saramago. Música: Felipe Ayres. Figurino: Isbella Brasileiro. Direção de arte/cenários: Fabiola Bonofiglio, Marcos Pedroso. Produção executiva: Vasco Esteves, João Fonseca, Raiane Rodrigues, Chris Spode. Produção: Gonçalo Galvão Teles, Luis Galvão Teles, Antonio Gonçalves Júnior, Aly Muritiba. Elenco: Antonio Saboia, Pedro Fasanaro, Thomas Aquino, Laila Garin, Zezita Matos, Flávio Bauraqui. Estreia: 02/9/2021 (Festival de Veneza)

É difícil falar sobre "Deserto particular" sem tropeçar em spoilers. Por mais que o filme se sustente independentemente da reviravolta que acontece em sua metade - o que fica nítido em uma revisão - e se mantenha como um dos exemplares mais empolgantes do cinema brasileiro das últimas décadas, é crucial que se mantenha em segredo um dos pontos vitais de seu roteiro, sob pena não de estragar a experiência, mas de privar o espectador do prazer de descoberta que tanto nos emociona quanto eletriza.

É difícil falar de "Deserto particular" sem elogiar o roteiro enxuto, por vezes claustrofóbico, de Aly Muritiba e Henrique dos Santos, que mergulha o público em uma narrativa quase seca, que vai se expandindo até quase irromper em uma enxurrada de sensações conflitantes. Ao contrapor masculino/feminino, sudeste/nordeste, força/fragilidade, os autores - merecidamente premiados com o Grande Prêmio do Cinema Brasileiro de 2022 - abraçam sem medo as dicotomias que regem o país, retratando-as em relações interpessoais jamais previsíveis e calcadas em um suspense psicológico dos mais admiráveis. Criando personagens verossímeis e nada óbvios, Muritiba e Henrique fogem do maniqueísmo ao dotar seus protagonistas tanto de qualidades quanto de defeitos e aproximá-los da plateia mesmo quando cometem erros quase imperdoáveis.

 


É difícil falar de "Deserto particular" sem aplaudir seu elenco. Se o estreante Pedro Fasanaro quase rouba a cena com uma atuação corajosa que escapa com louvor das armadilhas a que poderia ser submetido com seu surpreendente Robson, seu entorno é igualmente impecável - desde Thomas Aquino como seu fiel escudeiro Fernando, dono de alguns diálogos impagáveis, até a ótima Zezita Matos como sua imprevisível avó. E qualquer elogio que se faça a Antonio Saboia por seu desempenho como o protagonista Daniel provavelmente será insuficiente para dimensionar a extensão de sua façanha. Em duas horas de duração, Saboia transita - muitas vezes sem qualquer aviso prévio - por uma vasta gama de sentimentos, intercalando momentos de fúria, dor, amor, solidão, frustração e tesão com a segurança de um grande (e ainda subestimado) ator. Sua construção de Daniel -um policial afastado da corporação depois de um episódio de violência - envolve desde a expressão corporal exemplar (não apenas sua musculatura, mas também sua postura fala mais do que qualquer monólogo) até a atenção a seu semblante (normalmente sisudo mas capaz do mais apaixonado sorriso quando necessário).

É difícil falar de "Deserto particular" sem admirar a direção inteligente de Aly Muritiba. Ao equilibrar seu cuidado com os atores com o senso estético que remete a road movies célebres como "Paris, Texas" (1984), o cineasta, responsável pelos premiados "Ferrugem" (2018) e "Jesus Kid" (2021) constrói uma atmosfera repleta de sensualidade e tensão, onde cada cena, cada sequência, cada linha de diálogo levam a um estado de completo envolvimento da plateia, a quem não resta alternativa senão entregar-se completamente a uma história de amor, obsessão e tolerância contada com, acima de tudo, respeito por seus protagonistas: como uma testemunha neutra dos acontecimentos, sua câmera praticamente lê a alma dos personagens, atormentados por suas paixões irreparáveis e medos irreprimíveis. Não bastasse tudo isso, Muritiba ainda encerra seu filme com um hino pop capaz de entusiasmar o mais renitente espectador:é impossível ficar incólume a "Total eclipse of the heart", que, na voz rouca de Bonnie Tyler, ilustra com perfeição os meandros da história de amor entre Daniel e Sara.

Por fim, é impossível falar de "Deserto particular" sem lamentar que não tenha chegado a figurar entre os indicados ao Oscar de melhor filme internacional, vaga que tentou depois de selecionado pelo comitê responsável. Ao falar sobre amor e tolerância em um período tão lúgubre na cultura nacional, teria sido um alento - e um justo reconhecimento a suas qualidades - vê-lo disputando a estatueta da Academia. Como nem só de prêmios e reconhecimentos internacionais, porém, "Deserto particular" se mantém como uma obra fundamental da arte brasileira. Bravo!

quinta-feira

O ÚLTIMO DUELO


O ÚLTIMO DUELO (The last duel, 2021, 20th Century Studios/Pearl Street Films/Scott Free Productions, 152min) Direção: Ridley Scott. Roteiro: Ben Affleck, Matt Damon, Nicole Holofcener, livro de Eric Jager. Fotografia: Darius Wolszki. Montagem: Claire Simpson. Música: Harry Gregson-Williams. Figurino: Janty Yates. Direção de arte/cenários: Arthur Max/Judy Farr. Produção executiva: Madison Ainley, Kevin Halloran, Drew Vinton. Produção: Ben Affleck, Matt Damon, James Flynn, Jennifer Fox, Nicole Holofcener, Morgan O'Sullivan, Ridley Scott. Kevin J. Walsh. Elenco: Matt Damon, Adam Driver, Jodie Comer, Ben Affleck. Estreia: 10/9/2021 (Festival de Veneza)

Pode parecer estranho que um filme sobre duelos medievais– via de regra um terreno fértil para demonstrações de virilidade e violência – possa caber tão confortavelmente em discussões contemporâneas, mas é impossível chegar ao final da sessão de "O último duelo" sem a sensação de que, apesar de estarmos seis séculos separados cronologicamente das desditas de sua protagonista feminina, Marguerite de Thibouville, nunca estivemos tão perto delas em termos comportamentais. Ao acrescentar um assunto tão premente como o machismo estrutural em uma trama que do contrário poderia inserir-se como apenas mais uma produção fadada ao esquecimento, a adaptação do livro de Eric Jager – anunciada pela primeira vez em 2015 mas só aprovada pela 20th Century Fox quatro anos mais tarde – acabou por tornar-se um dos filmes mais interessantes de 2021. Tal mérito, no entanto, não impediu o fracasso retumbante nas bilheterias e a polêmica criada por seu diretor, Ridley Scott, ao creditar seu insucesso à preferência do público por filmes de super-heróis (sem deixar de fazer, com tal declaração, uma crítica feroz à inteligência das plateias mundo afora).

O que Scott não levou em consideração em suas declarações foi o fato de que o filme estava fadado a não ter o sucesso que merecia – e que seu orçamento acima de 100 milhões de dólares precisava – graças também ao pouco caso da Disney, que tinha "O último duelo" entre os títulos herdados em sua fusão com a Fox e falhou fragorosamente em sua divulgação. Sem o marketing agressivo que é fator indispensável para o êxito comercial de grandes produções, "O último duelo" estreou sem alarde e teve uma carreira das mais melancólicas, com público escasso e repercussão quase nula. Ignorado pela Academia e pelas cerimônias de premiação mais importantes (apenas o National Board of  Review o incluiu em sua lista dos dez melhores filmes do ano), o primeiro filme de Scott a ser lançado em 2021 (o segundo foi o bem mais comentado "A Casa Gucci") pode não estar entre seus melhores trabalhos – afinal estamos falando do homem que deu ao mundo obras-primas como "Alien: o oitavo passageiro" (1979), "Blade Runner: o caçador de androides" (1982), "Thelma & Louise" (1991) e "Gladiador" (2000) – mas merecia mais atenção. Se não por seus méritos cinematográficos (é um filme sem grandes ousadias narrativas e até mesmo bastante lento em seu desenvolvimento), ao menos pela importância temática e pela inteligência em inserir um surpreendente feminismo em um gênero predominantemente masculino.


É bom deixar claro, no entanto, que boa parte do sucesso de "O último duelo" em navegar em terreno tão delicado vem do desempenho exemplar de Jodie Comer. Revelada ao grande público na série "Killing Eve" – ao lado da ótima Sandra Oh – e agora parte do universo Star Wars graças à sua participação em "Star Wars: a ascensão Skywalker" (2019), Comer é a alma do filme de Scott, o centro de uma trama sobre o poder patriarcal e seus trágicos desdobramentos. Sua personagem, Marguerite de Thibouville, é o catalisador de uma discussão que ecoa, sem muito esforço, nos inacreditáveis ventos “conservadores” que sufocam o mundo do século XXI. Quando finalmente é oferecido ao público sua versão de um drama que envolve estupro, violência física e assédio moral, é difícil não traçar paralelos com as constantes manchetes sobre feminicídio que assolam os telejornais de hoje. A luta de Marguerite nos idos do século XV ainda é a luta das mulheres de 2022: ser vista como um indivíduo com personalidade e direitos próprios, não atrelados a gênero ou quaisquer outros tipos de vínculos afetivos, morais ou financeiros. Vista como propriedade do marido – tido então como o maior prejudicado pelo alegado estupro que sofreu – e questionada pelo fato de ter um dia ousado considerar seu agressor como um homem atraente – quem disse que dá para confiar em outras mulheres só porque elas são mulheres também? -, Marguerite não é vítima apenas de violência sexual, mas sim de uma sociedade machista que não hesita em apelar para preconceitos e crendices para afirmar sua pretensa superioridade. É revoltante, mas é chocantemente atual!

Mas, afora as discussões que levanta e o trabalho irretocável de Jodie Comer, o quão bom "O último duelo" é como cinema? Em primeiro lugar, é preciso reconhecer que Ridley Scott não está em seus melhores momentos como realizador – "A Casa Gucci" chega a constranger, em alguns momentos -, mas mesmo no piloto automático ele é capaz de contar sua história sem maiores sobressaltos. O roteiro, escrito por Matt Damon e Ben Affleck (em sua primeira reunião na função desde o Oscar por "Gênio indomável", de 1997), tem a colaboração preciosa de Nicole Holofcener para dar o necessário toque feminino à trama, mas sofre com a pouca profundidade de seus protagonistas (com a exceção gloriosa de Marguerite) e com o ritmo lento em excesso em sua primeira hora de projeção – algo que a edição poderia ter resolvido com poucas perdas no desenvolvimento da história. O desenho de produção é caprichado e a fotografia de Darius Wolsky sublinha o tom opressivo do enredo – algo para o qual a trilha sonora de Harry Gregson-Williams também colabora com precisão. E se o elenco masculino sofre com personagens pouco simpáticos para defender (Matt Damon e Adam Driver empalidecem diante de Comer), a técnica de contar várias versões do mesmo fato – importada do clássico japonês "Rashomon" (1950) – lhes dá a possibilidade de buscar nuances diferentes a cada novo depoimento.

"O último duelo" não é a obra-prima que Ridley Scott merece apresentar em sua maturidade – ele completou 84 anos em novembro passado e está prolífico como nunca -, mas merece ser descoberto e tratado como o ótimo filme que é. Em um momento com tantas produções inócuas e sem muito a dizer, é uma produção capaz de fazer pensar mesmo depois de seus letreiros finais.

segunda-feira

O MAURITANO

 


O MAURITANO (The Mauritanian, 2021, Wonder Street/BBC Films, 129min) Direção: Kevin Macdonald. Roteiro: Michael Bronner (M. B. Traven), Rory Haines, Sohrab Noshirvani, livro "Guantánamo Diary", de Mohamedou Ould Slahi, Larry Siems. Fotografia: Alwin H. Kuchler. Montagem: Justine Wright. Música: Tom Hodge. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Collett/Michele Barfoot. Produção executiva: Michael Bloom, Adam Fogelson, John Friedberg, Dan Friedkin, Rose Garnett, Micah Green, Robert Halmi, Ryan Heller, Zak Kilberg, Jim Reeve, Rober Simonds, Russell Smith, Daniel Steinman, Maria Zuckerman. Produção: Adam Ackland, Michael Bronner, Leah Clarke, Benedict Cumberbatch, Christine Holder, Mark Holder, Beatriz Levin, Lloyd Levin, Branwen Prestwood Smith. Elenco: Tahar Rahim, Jodie Foster, Benedict Cumberbatch, Shailene Woodley, Denis Ménochet. Estreia: 12/02/2021 

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Jodie Foster)

Nos meses imediatamente posteriores aos atentados de 11/9, o governo norte-americano tornou-se obcecado na caça aos responsáveis pela tragédia – conforme Kathryn Bigelow mostrou quase didaticamente em seu “A hora mais escura” (2012). No rastro desse apetite por vingança, nem sempre cumpriu à risca tudo aquilo que prega sob sua máscara de defensor ferrenho da democracia, e muitas vezes escorregou feio ao impor a força bruta em detrimento da inteligência – algo que o cineasta sul-africano Gavin Hood denunciou em “O suspeito”, seu subestimado thriller lançado em 2007. Os abusos cometidos pelos EUA em nome de justiça – e sua absoluta falta de escrúpulos em encontrar bodes expiatórios – volta às telas em “O mauritano”, contundente drama político dirigido pelo escocês Kevin Macdonald que deu à Jodie Foster o Golden Globe de melhor atriz coadjuvante deste ano e nem tão surpreendentemente assim, levando-se em consideração seu tema, foi solenemente ignorado pela Academia.

Temas politicamente controversos não assustam Macdonald, um cineasta que tem em seu currículo o oscarizado documentário “Munique, 1972: um dia em setembro” (1999) – sobre o atentado terrorista que matou atletas israelenses nas Olimpíadas de Munique – e o elogiado “O último rei da Escócia” (2006) – que retratava sem pudor as atrocidades cometidas na Uganda sob o comando de Idi Amin. Tal característica faz dele o diretor ideal para um roteiro que, se não é exatamente inovador em suas revelações sobre o tratamento dado pelos EU a seus pretensos inimigos, ao menos não subestima a inteligência do público - nem tampouco evita ilustrar seus pontos de vista com sequências bastante incômodas. Assim como no filme que deu o Oscar de melhor ator a Forest Whitaker, em “O mauritano” não faltam cenas de violência explícita, ainda que coerentes com a trama e o clima denso da narrativa. Macdonald intercala momentos quase pacíficos – longos diálogos e manobras jurídicas – com explosões de uma crueldade física e psicológica capazes de revoltar ao mais zen dos espectadores. Para isso, conta com um time de colaboradores brilhantes: da trilha sonora angustiante de Tom Hodge à fotografia caprichada do alemão Alwin H. Kuchler (de “Steve Jobs”), tudo funciona para sublinhar a tensão constante do roteiro – que surpreende ao fugir dos clichês dos filmes de julgamento ao focar sua atenção não no tribunal, e sim em seus preâmbulos.


 Enquanto na maioria dos filmes hollywoodianos o clímax sempre acontece no embate entre defesa e promotoria – com revelações de última hora e reviravoltas inesperadas -, em “O mauritano” o jogo acontece muito antes que qualquer personagem surja diante de um juiz. Tudo começa quando, poucos meses depois do atentado ao World Trade Center, o mauritano Mohamedou Ould Slahi (Tahar Rahim) é preso e levado à prisão militar de Guantánamo, onde passa anos sofrendo de frequentes sessões de tortura e interrogatórios violentos. Largado na prisão por mais de uma década – sem ao menos uma acusação formal -, Mohamedou só vê uma luz no fim do túnel quando seu caso cai nas mãos de Nancy Hollander (Jodie Foster, competente como sempre), uma advogada especializada em causas humanitárias que usa de todas as suas armas e experiência para 1) ganhar a confiança do novo cliente, e 2) ter acesso aos documentos que podem lhe esclarecer (e aos tribunais) os motivos que levaram à sua prisão. O acusado, depois de anos de maus-tratos, não confia facilmente em sua nova defensora e até parece esconder alguns segredos cruciais – mas a justiça precisa ser feita e a lei, cumprida. E mesmo sem confiar plenamente na inocência de Mohamedou, Hollander entra em rota de colisão com o promotor Stuart Couch (Benedict Cumberbatch) – também pouco confortável com as meias-verdades da investigação.

Corajoso em enfrentar a imagem de defensor da democracia que os EUA tentam vender incansavelmente, “O mauritano” sofre com um ritmo irregular – apesar dos esforços da edição em criar vários tempos como forma de agilizar a narrativa. Jodie Foster, Benedict Cumberbatch e Shailene Woodley (como a advogada assistente de Hollander) são atores excepcionais, mas nem mesmo eles conseguem evitar uma certa queda de interesse em alguns momentos – especialmente quando comparados com todas as cenas em que Tahar Rahim está presente. Revelado no premiado “O profeta” (2009), Rahim apresenta um desempenho arrebatador, oferecendo consistência a um personagem cuja dubiedade é um de seus maiores trunfos. Às vezes simpático e ocasionalmente suspeito, Mohamedou é a prova viva de que, culpados ou inocentes, todos merecem o melhor e mais isento julgamento possível – algo que, conforme aponta o filme de Kevin Macdonald, nem sempre acontece nos domínios da terra do Tio Sam. Forte e contundente, “O mauritano” é um filme importante e relevante, uma história real que, mais do que apenas indignar e chocar, reafirma os reais bastidores da guerra ao terror imposta pelos EUA ao redor do mundo. Não é uma obra-prima, mas é suficientemente bem orquestrada para ressoar por um bom tempo na mente do público.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...