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sexta-feira

THOR

 

THOR (Thor, 2011, Marvel Studios/Paramount Pictures/Marvel Entertainment, 115min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Ashley Edward Miller, Zack Stentz, Don Payne, estória de J. Michael Straczynski, Mark Protosevich, personagens criados por Stan Lee, Larry Lieber, Jack Kirby. Fotografia: Haris Zambarloukos. Montagem: Paul Rubell. Música: Patrick Doyle. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Lauri Gaffin. Produção executiva: Louis D'Esposito, Alan Fine, Stan Lee, David Maisel, Patricia Whitcher. Elenco: Chris Hemsworth, Natalie Portman, Anthony Hopkins, Tom Hiddleston, Stellan Skarsgard, Kat Dennings, Clark Gregg, Colm Feore, Idris Elba, Rene Russo. Estreia: 17/4/2011 (Sidney)

 A princípio pode parecer bastante estranho que um cineasta de tanto prestígio quanto Kenneth Branagh - indicado aos Oscar de ator e diretor aos 29 anos, por "Henry V" (1989) - tenha sido o escolhido para comandar "Thor", uma produção nitidamente comercial que dava continuidade às adaptações para as telas dos super-heróis da Marvel, iniciadas com o sucesso estrondoso de "Homem de ferro" (2008). Porém, basta ver os conflitos familiares na origem do personagem para compreender as razões por tal escolha: famoso por suas transposições das peças de Shakespeare para o cinema, Branagh viu ecos da obra do bardo na relação entre os protagonistas e, como fã dos quadrinhos desde a infância, aceitou o desafio de imprimir uma visão artística a um produto meramente mercadológico. Não se pode dizer que conseguiu atingir totalmente seus objetivos, mas em termos financeiros - com quase 450 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - deixou o estúdio plenamente satisfeito e deu mais um passo em direção a seu "Os Vingadores", lançado em 2012.

Como é comum em filmes de origem, "Thor" se dedica, em boa parte de suas quase duas horas de duração, a contar os motivos que levaram o protagonista a sair de seu planeta natal, Asgard, e chegar à Terra, onde irá, futuramente, fazer parte da S.H.I.E.L.D. - organização que será responsável pela reunião de todos os heróis da Marvel para fins de proteção do planeta. A trama começa narrando uma batalha, acontecida em 965 A.C., quando um exército de Asgard impede os temíveis Gigantes Gelados de transformarem a Terra em um planeta devastado através dos poderes do Tesseract (um artefato com poderes ilimitados). O objeto fica, então, em poder do rei de Asgard, o poderoso Odin (Anthony Hopkins em papel oferecido a Mel Gibson). Anos mais tarde, uma tentativa de invasão da sala onde está guardado o objeto causa uma ruptura no clã de Odin: para defender a paz, seu filho mais velho e herdeiro do trono, Thor (Chris Hemsworth), desafia as orientações paternas e se inssurge contra os invasores, causando o rompimento da antiga trégua. Como punição, Odin envia o rapaz para a Terra (Midgard) - sem o martelo que lhe concede seus poderes - mas não percebe que seu filho adotivo, o sorrateiro Loki (Tom Hiddleston), está em negociações com os inimigos do reino para que possa ser coroado o novo soberano. Na Terra, enquanto isso, Thor se apaixona pela bela cientista Jane Foster (Natalie Portman) - e terá que recuperar seu martelo para impedir a destruição do planeta, consequência das articulações de seu ressentido irmão.

 

Não é difícil perceber, no roteiro de "Thor", as tais relações com a obra de Shakespeare - o próprio Tom Hiddleston enxerga, em seu Loki, pontos de semelhança com Edmund, um dos personagens da clássica "O rei Lear". A difícil relação entre pai e filhos - detalhe que chamou a atenção de Anthony Hopkins e o fez aceitar o papel de Odin, saindo de uma quase aposentadoria - é o grande trunfo dramático do filme de Branagh, e um atrativo a mais em um filme que, do contrário, poderia resumir-se a apenas mais um show pirotécnico. Utilizando-se de elementos da mitologia nórdica - de forma explícita ou espalhadas em citações visuais e em diálogos aparentemente banais -, "Thor" é uma produção que oferece exatamente o que seu público-alvo procura, equilibrando sequências de ação com momentos que permitem o brilho de seu elenco, em especial Tom Hiddleston, que rouba a cena com seu Loki, ao mesmo tempo cruel e dotado de um senso de humor que conquista de imediato a plateia. E se Chris Hemsworth parece o intérprete ideal para viver o super-herói do título, ele teve - assim como Thor - de disputar o papel com... seu próprio irmão, Liam Hemsworth, que, quase como prêmio de consolação, foi viver um dos personagens principais da série "Jogos vorazes".

A disputa entre os Hemsworth, porém, foi apenas a reta final pela escolha do ator que iria personificar um dos mais icônicos ídolos dos quadrinhos. Um projeto que já datava de 1991, quando Stan Lee em pessoa aproximou-se de Sam Raimi - vindo do elogiado "Darkman: vingança sem rosto" (1990) - para dirigir uma adaptação a ser produzida pela 20th Century Fox, "Thor" só voltou a ser objeto de interesse de Hollywood com o êxito de "Homem de ferro" e a decisão da Marvel em criar todo um universo cinematográfico. Cineastas como Guillermo Del Toro e Steven Spielberg foram cogitados para comandar o filme - mas apenas com a contratação de Kenneth Branagh as coisas começaram a andar, e mesmo assim, a seleção para o protagonista movimentou a indústria. De astros consagrados como Brad Pitt e Daniel Craig a jovens promessas, como Channing Tatum, Charlie Hunnam e Joel Kinnaman, o papel do herdeiro do trono de Asgard esteve vago até que Chris - que já havia provado o gostinho da fama com "Star Trek" (2009) - finalmente entrou em cena e assumiu a bronca. O sucesso de bilheteria - e até a boa vontade da crítica - mostraram que o público aprovou a decisão.

quinta-feira

O ABUTRE

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, Bold Films/Sierra-Affinity, 117min) Direção e roteiro: Dan Gilroy. Fotografia: Robert Elswitt. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/Meg Everist. Produção executiva: Betsy Danbury, Gary Michael Walters. Produção: Jennifer Fox, Tony Gilroy, Jake Gyllenhaal, David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 1976, o cineasta Sidney Lumet lançou um dos mais contundentes ataques ao sensacionalismo da mídia, o já clássico "Rede de intrigas", que deu o Oscar de melhor atriz à Faye Dunaway e de melhor ator (póstumo) a Peter Finch. Quase quatro décadas depois, as coisas não mudaram muito (se é que não pioraram ainda mais) no universo do jornalismo, e o roteirista Dan Gilroy - de "O legado Bourne" - fez sua estreia na direção com mais um ataque feroz contra os urubus do quarto poder. Escorado em uma atuação impressionante de Jake Gyllenhaal, o suspense "O abutre" é um soco na boca do estômago da plateia, colocando-a como testemunha e cúmplice de seu protagonista, um dos mais psicóticos personagens surgidos nas telas de Hollywood em muito tempo.

Assustadoramente magro e visualmente chocante, Gyllenhaal - injustamente esquecido pela Academia que preferiu Bradley Cooper e a soporífera patriotada de "Sniper americano" - interpreta Louis Bloom, um jovem que descobre, meio por acaso, uma forma de ganhar dinheiro explorando a desgraça alheia: vender imagens de acidentes de carro, tiroteios, assassinatos e outros tipos de violência às emissoras de televisão que as veiculam diariamente, como parte de uma dieta sombria e grotesca. Comprando uma câmera amadora e contratando a preço de banana um assistente que não tem onde cair morto - o ingênuo Rick (Riz Ahmed) - Bloom passa a disputar a primazia das desgraças com um veterano das ruas, o também ambicioso Joe Loder (Bill Paxton), e torna-se, com o tempo, fornecedor quase oficial de uma pequena emissora da cidade, cuja diretora de telejornalismo, Nina (Rene Russo), tem uma elástica noção de ética. Quando percebe que pode ganhar ainda mais dinheiro manipulando as cenas dos crimes para torná-las mais atraentes para o telespectador, o rapaz não hesita em ultrapassar todos os limites, chegando até mesmo a esconder informações da polícia para aumentar seu poder de negociação junto à imprensa.


Como uma espécie de Travis Bickle - personagem de Robert De Niro em "Touro indomável" - Louis Bloom é um lobo solitário e perigoso, um misantropo doentio fruto de seu próprio tempo: enquanto Bickle era um veterano da guerra do Vietnã, Bloom é vítima de uma sociedade desesperada pelo êxito e pela vitória, conforme ele deixa claro em seus discursos constantes copiados de manuais de sucesso profissional. Levando uma vida patética e tediosa, ele encontra em sua nova "carreira" não apenas um jeito de ganhar dinheiro, mas de ser notado, respeitado e amado - nem que seja através de chantagem. Seus métodos pouco ortodoxos - pra não dizer tão criminosos quanto os atos que registra com sua câmera - o levam em direção a um precipício do qual ele parece não ter medo, e que fica cada vez mais atrelado à sua necessidade patológica de fama e atenção. Suas armas não são visíveis e é aí que o roteiro de Gilroy (indicado ao Oscar) mostra sua força: aparentemente um simples peão, Louis Bloom é a representação clara e inequívoca de uma imprensa crescentemente cruel e desumana, um monstro incapaz de esconder sua própria face e disposto a sacrificar o que for preciso para atingir seus objetivos egocêntricos. Em um período onde a mídia mais uma vez dita a ordem das coisas em nível mundial, "O abutre" é um filme obrigatório.

E se por seu teor político-social o filme de Dan Gilroy - irmão de Tony, o diretor de "Conduta de risco" - é nada menos que essencial, como cinema também não é nada desprezível. Filmado basicamente à noite (o que enfatiza seu tom sombrio e sublinha o suspense crescente da trama), o trágico e violento conto do cineasta leva o espectador a uma excursão angustiante pelo lado pouco glamouroso de Los Angeles e dos bastidores da televisão - mostrados sob uma luz realista e pouco lisonjeira e valorizados pela bela atuação de Rene Russo (esposa do diretor e em um de seus melhores trabalhos) e pela revelação do jovem Riz Ahmed, que pontuam com perfeição o show de Jake Gyllenhaal, em uma interpretação antológica e fascinante que transforma cada cena em um espetáculo à parte. "O abutre", com seu senso de realidade e inteligência, é um dos melhores filmes da temporada 2014, infelizmente não devidamente reconhecido como tal pelas cerimônias de premiação.

terça-feira

THOMAS CROWN - A ARTE DO CRIME

THOMAS CROWN, A ARTE DO CRIME (The Thomas Crown Affair, 1999, United Artists/MGM, 113min) Direção: John McTiernan. Roteiro: Leslie Dixon, Kurt Wimmer, estória de Alan R. Trustman. Fotografia: Tom Priestley. Montagem: John Wright. Música: Bill Conti. Figurino: Kate Harrington, Mark Zunino. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Leslie E. Rollins. Produção executiva: Michael Tadross. Produção: Pierce Brosnan, Beau St. Clair. Elenco: Pierce Brosnan, Rene Russo, Denis Leary, Ben Gazzarra, Frankie Faison, Fritz Weaver, Faye Dunaway. Estreia: 27/7/99

Em 1968, dois dos maiores astros da época, Steve McQueen e Faye Dunaway, protagonizaram "Crown, o magnífico", um policial romântico que se tornaria um clássico do estilo e referência para futuras produções que tentassem misturar dois gêneros aparentemente opostos. Mais de três décadas depois do lançamento do original, com sua eterna falta de criatividade, Hollywood resolveu revisitar a história da improvável história de amor entre um milionário entediado e a investigadora de uma companhia de seguros que está em seu encalço. Revestida com elegância e um erotismo, a nova versão - estrelada pelo então 007 Pierce Brosnan e pela bela Rene Russo - modificou detalhes da trama original e acabou agradando à crítica e ao público, ambos sedentos por filmes adultos que falassem mais ao cérebro do que aos músculos. Dirigido por John McTiernan - cujo currículo repleto de blockbusters explosivos incluia os primeiros "Duro de matar" e "Predador" - "Thomas Crown, a arte do crime" surpreende pela sutileza e pela inteligência em contar uma história policial sem recorrer a um único tiro.

Thomas Crown (Pierce Brosnan, também produtor do filme), é um milionário do setor de aquisições que, sentindo-se aborrecido com a pasmaceira de sua vida fácil, volta e meia envolve-se em complicados esquemas de falsificação das obras de arte que rouba (sem despertar a menor suspeita) até mesmo dos mais sofisticados e seguros museus do mundo. Sua tranquilidade é posta em xeque, porém, quando ele rouba um valiosíssimo Monet, em uma arriscada manobra realizada durante o horário de visitação às obras: disposta a recuperar o quadro e assim poupar milhões de dólares, a seguradora contratada pelo museu chama a competente e dedicada investigadora Catherine Banning (Rene Russo, linda e sexy) para descobrir seu paradeiro. Esperta e experiente, Banning logo passa a desconfiar do charmoso e prestativo Crown e, ignorando os conselhos do policial Michael McCann (Dennis Leary), se aproxima dele com o objetivo de desmascará-lo. Não é preciso muito tempo para que surja entre investigadora e investigado uma atração irresistível, que pode por tudo a perder.


Mantendo o tempo todo a dubiedade em relação aos verdadeiros sentimentos de seus protagonistas em relação um ao outro, o roteiro de "Thomas Crown, a arte do crime" prende a atenção do público em vários niveis: tanto funciona como um romance de alta voltagem erótica (as cenas de sexo, de extremo bom gosto, mostram o pela primeira vez nu o corpo escultural da bela Rene Russo) quanto como um policial bem engendrado, repleto de pistas espalhadas pelo caminho, à espera de serem unidas. O desfecho, um clímax bem armado e inteligente, não decepciona a ninguém, enfatizando a opção de McTiernan em contar uma história utilizando-se do cérebro como principal elemento. Depois de deslumbrar a audiência com tomadas de tirar o fôlego de paisagens deslumbrantes, mansões luxuosas e obras de arte fascinantes (além de momentos românticos pra ninguém botar defeito), ele encerra seu filme com uma sequência exemplarmente bem editada e empolgante, mostrando de uma vez por todas que a sutileza pode substituir sem perda a violência desnecessária. É impossível que o público termine a sessão sem que fique com a bela sensação de ter sido respeitado em sua inteligência, o que, convenhamos, é algo raríssimo em produções comerciais norte-americanas.

Contando ainda com a simpática participação especial de Faye Dunaway - que viveu a investigadora na primeira versão do filme - na pele da terapeuta do enfastiado milionário, "Thomas Crown, a arte do crime" é um entretenimento maduro, esperto, romântico e elegante, que nada contra a corrente do emburrecimento do cinema hollywoodiano. É, também, um dos poucos filmes de sua época a ter como protagonista um casal acima dos 30 anos de idade que não hesita em usar e abusar da sensualidade sem culpa. Palmas para ele!

quarta-feira

EPIDEMIA

EPIDEMIA (Outbreak, 1994, Warner Bros, 127min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Laurence Dworet, Robert Roy Pool. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Hoy, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Neil Travis. Música: James Newton Howard. Figurino: Erica Edel Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Duncan Henderson, Anne Kopelson. Produção: Gail Katz, Arnold Kopelson, Wolfgang Petersen. Elenco: Dustin Hoffman, Rene Russo, Morgan Freeman, Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Patrick Dempsey. Estreia: 06/3/95

Um filme sobre um ameaçador vírus capaz de matar em poucas horas - e que está perigosamente se espalhando pelos EUA - dirigido por Ridley Scott, estrelado por Robert Redford e Jodie Foster e chamado "Hot zone" estava em preparação na Fox quando a notícia de que uma produção similar estava em andamento na Warner. O fato de dois filmes semelhantes estarem em desenvolvimento nem é tão raro em uma terra de poucas ideias realmente originais quanto Hollywood, mas tornou-se uma batalha aberta, com os dois estúdios ansiosos pela primazia nas bilheterias. Porém, ao contrário do que acontece na maioria das vezes (quando mais de um filme sobre o mesmo assunto realmente chega a estrear e disputar público), "Epidemia", a produção da Warner, dirigida por Wolfgang Petersen e estrelada por Dustin Hoffman e René Russo acabou por abortar o trabalho de Scott, Redford e companhia e chegar sozinho às telas. Embalado pela epidemia do vírus Ebola na África poucos meses antes - um marketing macabro mas bastante eficiente - o filme se deu bem nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares mundo afora.

Ficando com o papel que seria de Harrison Ford em uma primeira versão do roteiro, Dustin Hoffman faz sua estreia em um filme de ação na pele de Sam Daniels, um coronel do exército norte-americano encarregado de investigar o surgimento de uma epidemia de febre hemorrágica oriunda da África. Como responsável pelo USAMRIID (Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas dos EUA), ele alerta as autoridades sobre o possível alcance da doença em território americano, mas vê seus conselhos ignorados por seu superior, o General Billy Ford (Morgan Freeman), que afasta a possibilidade de uma epidemia em seu país. O que Daniels não sabe é que o mesmo Ford, em conluio com outro general, Donald McClintock (Donald Sutherland) já sabia da existência de um vírus semelhante, surgido no Zaire em 1967 - e que ambos juraram ter extinguido depois da ordem de explodir a aldeia que apresentava a doença, em uma ação secreta do governo. Vinte e cinco anos depois, porém, o vírus está de volta, transmutado, mais potente e ameaçando o país, onde chegou através de um pequeno macaco contrabandeado. Quando uma pequena cidade torna-se o centro da epidemia, cabe a Daniels impedir que a mesma decisão seja tomada: com a ajuda do jovem Major Salt (Cuba Gooding Jr.) e da ex-mulher Robby (René Russo) - cientista por quem ainda é apaixonado - ele tem que localizar o hospedeiro, encontrar uma cura e salvar a vida de centenas de pessoas.


Dividindo seu foco entre as pesquisas científicas, a busca pelas causas da epidemia, as conspirações governamentais de gabinete e as trágicas consequências da epidemia, o filme de Wolfgang Petersen surpreendentemente não se torna uma obra sem personalidade. O roteiro equilibrado permite à plateia que se envolva com cada uma das histórias contadas, que, unidas, formam um conjunto coeso e bastante interessante, especialmente porque escapa do sensacionalismo quase inevitável do tema. Petersen evita inclusive imagens muito gráficas, preferindo a sugestão ao invés do óbvio: claro que há cenas que mostram as vítimas agonizando e com o corpo perdendo sangue profusamente, mas até mesmo nesses momentos há uma elegância e uma discrição que o afasta dos slasher movies sanguinolentos. Não interessa ao diretor apavorar o público com imagens cruéis e sim prendê-lo na poltrona com uma história de tensão e ação com inteligência acima da média. E isso ele consegue sem fazer muita força.

A maior qualidade de "Epidemia", no entanto, vem do fato de ele conseguir ser um filme de puro entretenimento a respeito de um assunto sério e assustador. Sem a intenção de ser didático, ele é apenas um filme de ação, realizado com toda a competência de que um cineasta como Petersen é capaz. Além do mais, apresenta um elenco de competência indiscutível - além de Hoffman, Morgan Freeman e Donald Sutherland, há ainda um Kevin Spacey pré-consagração - e um senso de ritmo dos mais felizes. O terço final, quando Daniels está em vias de encontrar o macaco hospedeiro e o governo já está mandando aviões acabarem com a pequena cidade onde a epidemia está se descontrolando, é um primor de suspense, enfatizado pela trilha sonora de James Newton Howard e pela edição soberba, capaz de deixar qualquer espectador com a respiração suspensa. E, além de tudo, não é sempre que o público tem a chance de testemunhar um dos maiores atores do cinema - Dustin Hoffman - brincar de herói de filme de ação. Um diferencial a mais em um filme que cumpre o que promete.

segunda-feira

O PREÇO DE UM RESGATE

O PREÇO DE UM RESGATE (Ransom, 1996, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Richard Price, Alexander Ignon, história de Cyril Hume, Richard Maibaum. Fotografia: Piotr Sobocinski. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill. Música: James Horner. Figurino: Rita Ryack. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Bode. Produção executiva: Todd Hallowell. Produção: Brian Grazer, B. Kiplin Hagopian, Scott Rudin. Elenco: Mel Gibson, Rene Russo, Gary Sinise, Delroy Lindo, Lily Taylor, Liev Schreiber, Evan Handler, Donnie Wahlberg, Brawley Nolte, Dan Hedaya. Estreia: 08/11/96

Durante as filmagens de "O preço de um resgate", policial inspirado em um telefilme apresentado ao vivo nos primórdios da TV americana, seu diretor Ron Howard se viu em uma situação no mínimo rara: seu trabalho anterior, "Apollo 13" disputava o Oscar de melhor produção do ano com "Coração valente", cujo responsável pela direção era ninguém menos que Mel Gibson, o protagonista de seu filme. Essa pequena curiosidade, porém, não atrapalhou em nada o resultado final, nem em termos de qualidade nem tampouco de bilheteria: com uma renda de mais de 130 milhões de dólares, "O preço de um resgate" foi mais um dos sucessos comerciais de Gibson - que, aliás, levou vantagem na festa do Oscar, ficando com as estatuetas de filme e direção (prêmio este que Howard nem sequer disputou).

Quando "O preço de um resgate" estreou, Gibson estava no auge de sua popularidade e do respeito por parte da crítica, por isso não é surpresa que o filme tenha feito tanto sucesso. A boa notícia é que, apesar de alguns erros na carreira do ator, este aqui é um de seus pontos altos, um trabalho maduro em que ele não apenas é um astro carismático e sedutor, mas também um ator experiente e capaz de emocionar sua plateia com uma personagem dúbio e rico de nuances. Mesmo que não seja exatamente brilhante, o roteiro de Alexander Ignon e do escritor Richard Price é dotado de reviravoltas empolgantes o bastante para manter a atenção do público até suas cenas finais, onde infelizmente apela para os tiroteios corriqueiros dos filmes do gênero. Até que isso aconteça, no entanto, o espectador é brindado com uma trama interessante e dramática na medida certa.



Gibson interpreta Tom Mullen, um bem-sucedido empresário do ramo da aviação que tem seu único filho, o pequeno Sean (Brawley Nolte, filho do ator Nick Nolte) sequestrado praticamente diante de seu nariz, em uma feira em um parque de Nova York em plena luz do dia. Seu desespero e de sua esposa, Kate (Rene Russo) aumenta conforme o tempo passa e os agressores exigem a quantia de dois milhões de dólares para libertar o menino. Depois de uma tentativa frustrada de recuperar o filho - em que um dos sequestradores é morto - Mullen se enfurece com a prepotência dos criminosos e resolve não apenas recusar-se a pagar o resgate mas também entregar o dobro da quantia a qualquer pessoa com informações que levem até a gangue. Sua ousada decisão muda os rumos da situação e o policial Jimmy Shaker (Gary Sinise) assume, a partir daí importância fundamental na investigação.

Apesar de ser uma espécie de refilmagem - fato do qual Mel Gibson só tomou ciência às vésperas da filmagem - "O preço de um resgate" não tem, em momento algum, ranso de produto requentado. É um drama policial intenso, centrado principalmente na angústia de Mullen e Kate e na interrelação entre os criminosos - cujos intérpretes incluem um novato Liev Schreiber. Howard acertou em cheio em intercalar cenas de grande tensão com outras onde investiga as consequências de um crime na vida de uma família. Ao eleger como protagonista um empresário não necessariamente ético ou imaculado, ele o aproxima da plateia, principalmente devido ao trabalho poderoso de Gibson e Rene Russo, que, trabalhando juntos novamente - depois de dois filmes da série "Máquina mortífera" - apresentam uma ótima química. Russo, inclusive, tem uma atuação que lhe prova uma boa atriz dramática por trás de sua beleza clássica.

"O preço de um resgate" é um policial acima da média, com um roteiro bem cuidado - no que a assinatura de um literato como Richard Price faz uma grande diferença - e uma preocupação sincera com o trabalho dos atores. E é uma das últimas interpretações dignas da carreira de Mel Gibson até o momento (com a exceção de "Sinais", lançado seis anos depois).

sábado

NA LINHA DE FOGO

NA LINHA DE FOGO (In the line of fire,1993, Columbia Pictures, 128min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Jeff Maguire. Fotografia: John Bailey. Montagem: Anne V. Coates. Música: Ennio Morricone. Figurino: Erica Edell Phillips. Direção de arte/cenários: Lilly Kilvert/Kara Lindstrom. Casting: Janet Hirshenson, Jane Jenkins. Produção executiva: Gail Katz, Wolfgang Petersen, David Valdes. Produção: Jeff Apple. Elenco: Clint Eastwood, Rene Russo, John Malkovich, Dylan McDermott, Gary Cole, John Mahoney, Tobin Bell, John Heard. Estreia: 09/7/93

3 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (John Malkovich), Roteiro Original, Montagem

Quando fez o filme "Na linha de fogo", dirigido pelo alemão Wolfgang Petersen, o ator/diretor/produtor Clint Eastwood já tinha 62 anos, ao contrário de sua personagem, o agente do Serviço Secreto americano Frank Horrigan, de cinquenta e poucos. Explica-se: quando o projeto do filme surgiu entre os estúdios de Hollywood (depois de o roteiro passar cerca de uma década flutuando entre um e outro), Robert Redford era o mais cotado para o papel de protagonista. Depois que nomes como Dustin Hoffman e Sean Connery também saíram de cena, o veterano Eastwood embarcou no projeto, levando o diretor Petersen a tiracolo. A entrada dos dois não poderia ter sido mais providencial: com quaisquer outros nomes em seus créditos, é pouco provável que "Na linha de fogo" ficasse melhor do que está. 

Como já dizia Hitchcock, um filme é tão bom quanto seu vilão. E o vilão aqui não está para brincadeiras: vivido por um genial John Malkovich (merecidamente indicado ao Oscar de coadjuvante), Mitch Leary é um dos mais interessantes bandidos do cinema americano dos anos 90, roubando descaradamente todas as cenas em que aparece. Leary é um vingativo ex-funcionário do governo americano que tem como missão de vida assassinar o presidente dos EUA. Para isso - e para sua maior diversão - ele precisa entrar em um jogo de gato e rato com Frank Horrigan (Eastwood), que, em 1963, era responsável pela segurança de John Kennedy. Sentindo-se pessoalmente atacado pelas ameaças de Leary, Horrigan solicita sua volta à equipe de proteção do líder máximo do país, contando com o apoio da bela agente Lilly Raines (Rene Russo).

 

O roteiro de Jeff Maguire - que perdeu o Oscar para o prestigiado "O piano" - é esperto o bastante para jamais subestimar a inteligência da plateia. Horrigan é um homem de idade, e isso é frequentemente lembrado, impedindo-o de assumir o papel de um herói infalível. Até mesmo seu romance com Lilly é plenamente aceitável, uma vez que não é empurrado garganta abaixo do espectador - e a beleza de Rene Russo apenas colabora em seduzir a audiência (em um papel recusado por Glenn Close e Sharon Stone). Mas é seu relacionamento com Mitch Leary quem impulsiona "Na linha de fogo": os diálogos entre os dois protagonistas são tensos e mantem o nível de suspense em alta, até o clímax interessante e eficiente.

John Malkovich - especializado em papéis de vilões - tem em Mitch Leary o papel de sua vida. Mesmo que tenha brilhado intensamente como o Visconde de Valmont em "Ligações perigosas", é na pele do psicótico assassino de "Na linha de fogo" que ele tem a oportunidade de demonstrar toda a extensão do seu talento: irônico, debochado e perigoso - com a ajuda dos vários disfarces proporcionados pela maquiagem - ele transmite toda sua crueldade e a frieza em poucas (mas muito bem declamadas) palavras. Seu olhar desequilibrado encontra na serenidade e na paciência de Clint Eastwood um contraponto perfeito, que empolga o público como poucos policiais - e a renda de mais de 100 milhões de dólares no mercado doméstico apenas comprova este fato óbvio.

Quem gosta de filmes policiais não pode perder "Na linha de fogo". É inteligente, interessante e tenso, intercalando cenas de ação bem dirigidas com diálogos bem escritos e convincentes. Além de tudo, ainda conta com Clint Eastwood - um dos mais confiáveis atores de Hollywood - e John Malkovich na melhor atuação de sua carreira. 

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...