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quinta-feira

ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD


ERA UMA VEZ EM... HOLLYWOOD (Once upon a time in... Hollywood, 2019, Sony Pictures, 161min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Figurino: Arianne Phillips. Direção de arte/cenários: Barbara Ling/Nancy Haigh. Produção executiva: Jeffrey Chan, Georgia Kacandes, Yu Dong. Produção: David Heyman, Shannon McIntosh, Quentin Tarantino. Elenco: Leonardo DiCaprio, Brad Pitt, Margot Robbie, Emile Hirsch, Margaret Qualley, Timothy Olyphant, Dakota Fanning, Bruce Dern, Al Pacino, Luke Perry, Costa Ronin, Lena Dunham, Kurt Russell, Rafal Zawierucha, Damon Herriman. Estreia: 21/5/2019 (Festival de Cannes)

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (Leonardo DiCaprio), Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários. Edição de Som, Mixagem de Som

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Brad Pitt), Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 3 Golden Globe Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Coadjuvante (Brad Pitt), Roteiro

Foi na madrugada de 6 de agosto de 1969 que um crime - violento e chocante em sua gratuidade - acabou, segundo a escritora Joan Didion, com o movimento hippie, a era do amor livre e a atmosfera dos anos 60 como um todo. Um grupo de seguidores do messiânico Charles Manson invadiu a casa da atriz Sharon Tate, grávida de oito meses do cineasta Roman Polanski (em alta com o sucesso de seu "O bebê de Rosemary", lançado no ano anterior) e a assassinou, juntamente com um grupo de amigos, deixando no local uma série de detalhes macabros que alimentaram as manchetes dos jornais por meses a fio. A investigação do crime, a prisão dos responsáveis e o julgamento midiático ocuparam a mente do mundo - e em especial dos EUA - por anos e ainda permanecem como uma lembrança trágica de uma época encerrada abruptamente com um banho de sangue. O trauma foi tanto que demorou meio século para que um grande estúdio de Hollywood finalmente rompesse o silêncio a respeito do assunto - e mesmo assim somente com o aval de um nome de prestígio, com coragem o suficiente para mexer em um vespeiro mantido sob uma redoma de respeito pelos envolvidos e pelo medo de um fracasso de bilheteria. Foi somente quando Quentin Tarantino anunciou que seu filme seguinte ao western "Os oito odiados" (2016) teria Sharon Tate como uma de suas personagens principais que a história (até então contada mal e porcamente em documentários e telefilmes de pouca repercussão) voltou a povoar o imaginário mundial - e despertar uma curiosidade que só fez aumentar conforme chegava a data de estreia.

Pensando em marcar a estreia de "Era uma vez em... Hollywood" para 6 de agosto de 2019, data em que o crime completaria 50 anos, Tarantino foi voto vencido quando a Sony Pictures - que ganhou os direitos de distribuição em uma disputa acirradíssima com a Warner, a Universal, a Paramount, a Lionsgate e Annapurna Pictures - preferiu adiantar a data para 26 de julho, pouco mais de dois meses depois do lançamento da produção no Festival de Cannes. Até que tal evento acontecesse, porém, muito foi dito, inventado, polemizado e misteriosamente escondido a respeito do filme. Com um roteiro secreto (lido apenas por parte da equipe de filmagem, como forma de evitar os dissabores que quase cancelaram "Os oito odiados" depois do vazamento de seu script) e notícias que chegavam aos poucos, "Era uma vez em... Hollywood" já era, muito antes de chegar às telas, uma das produções mais comentadas e esperadas da temporada - por inúmeras razões. Além do marketing espontâneo que qualquer trabalho de Tarantino gera, não era nada mal ter Brad Pitt e Leonardo DiCaprio nos papéis principais em uma trama que misturava, da forma como apenas o cineasta consegue fazer sem soar prolixo, a trajetória de Sharon Tate, a desilusão de um astro da antiga indústria com os novos tempos, a decadência de um gênero específico (o western), bastidores do cinema pelos olhos de um dublê e diálogos preciosos. Tido por Tarantino como seu filme mais pessoal - algo como "Roma" foi em relação a Alfonso Cuarón - e escrito em um período de cinco anos (nos quais o cineasta também o transformou em um romance, lançado em seguida à estreia), "Era uma vez em... Hollywood" provou que a espera valeu a pena, tanto em termos artísticos quanto comerciais. Com uma renda internacional que ultrapassou os 370 milhões de dólares, dez indicações ao Oscar (e duas categorias no bolso), o filme pode até não ter agradado a todo mundo - algo corriqueiro na filmografia de Tarantino -, mas é, inegavelmente, uma das obras cinematográficas mais importantes de seu tempo.


 Com um título inspirado em Sergio Leone e seus "Era uma vez no Oeste" (1968) e "Era uma vez na América" (1984), o nono filme de Tarantino - se as duas partes de "Kill Bill" forem consideradas apenas um único projeto - quase foi realizado em preto-e-branco e poderia ter estreado com uma duração de 4 horas e 20 minutos. Mas cinema é uma arte de concessões e do jeito que está, o filme é uma pequena obra-prima (mais uma na carreira do Tarantino diretor ). Tudo funciona perfeitamente - até mesmo o que parece gratuito tem ressonâncias bem mais profundas do que aparenta. Por trás dos longos diálogos (característica inconfundível do Tarantino roteirista) e das referências que podem soar como grego ao público médio, a trama é uma pérola de nostalgia, melancolia e pitadas generosas de uma ironia tão fina que pode até passar despercebida - ao menos até o clímax, tão inesperado e surpreendente que foi objeto de um pedido especial dos realizadores para que não fosse comentado pela imprensa ou pela plateia. Justificável: assim como em "Bastardos inglórios" (2009), Tarantino rege seu próprio universo, manda em seus próprios domínios, subverte as próprias regras e a história, se for preciso. Longe de desagradar aos puristas, encontra uma maneira de fazer com que a magia do cinema sempre se sobressaia - e sublinhe seu talento em encantar e decepcionar com a mesma intensidade.

O filme se passa em 1969, quando a Era de Ouro de Hollywood está em seus estertores. Longe de ainda ter a relevância que tinha na década de 1950, quando estrelava populares séries de western na televisão, Rick Dalton (vivido por Leonardo DiCaprio) paira sob uma Los Angeles a que mal reconhece, tentando encontrar uma maneira de manter uma carreira já tida como acabada. Vizinho do cineasta Roman Polanski (praticamente um símbolo de uma nova indústria, moderna e jovem), Dalton luta contra o próprio instinto de autodestruição enquanto relembra seus melhores momentos, ao lado de grandes atores e cercado de respeito e adulação. Invariavelmente acompanhado de seu dublê, Cliff Booth (Brad Pitt, vencedor do Oscar de ator coadjuvante) - bem mais confortável com as novas regras do jogo, a ponto de quase deixar-se envolver com um grupo de hippies bem mais jovens -, o ex-astro vê, aos poucos, uma nova Hollywood surgir diante de seus olhos. Enquanto isso, sua deslumbrante vizinha, Sharon Tate (Margot Robbie), começa a sentir o gostinho da fama e vislumbrar um brilhante futuro, tanto na carreira quanto na vida doméstica. Com visões distintas de sua época e de sua profissão, Dalton e Tate terão suas vidas cruzadas de forma totalmente inesperada e violenta.

Lançado no mesmo Festival de Cannes que 25 anos antes deu a Tarantino a Palma de Ouro e o aval necessário para que se tornasse um dos autores mais prestigiados do cinema norte-americano, "Era uma vez em... Hollywood" não saiu ileso a críticas e polêmicas. Se Debra Tate, irmã de Sharon, viu sua resistência ao projeto ruir ao encontrar Margot Robbie e reconhecer nela qualidades que a faziam lembrar da saudosa atriz, o mesmo não pode ser dito em relação às queixas de Shannon Lee, filha do ator Bruce Lee que não achou graça nenhuma na forma como o roteiro retratou seu pai - bastou uma única sequência para que Shannon considerasse tudo um insulto à memória do ator. Também foi alvo de críticas as liberdades artísticas tomadas pelo cineasta em relação à uma trama crucial para o roteiro: ao criar personagens novos na famigerada Família Manson (ou mesclar personagens reais com fictícios), Tarantino incomodou os puristas que esperavam uma descrição real dos crueis fatos de 6 de agosto de 1969 - que não tiveram interesse em perceber as reais intenções do diretor ao unir a realidade (ainda que alterada) com a fantasia: "Era uma vez em... Hollywood" não é um documentário sobre os assassinatos cometidos naquela fatídica noite - é uma comédia dramática sobre a união de dois mundos, sobre os meandros do destino e sobre a inexorabilidade do tempo até mesmo dentro de um universo que vende fantasia. É um filme com a cara de seu diretor - para o bem ou para o mal - e uma inteligente homenagem a uma atriz cujo futuro foi interrompido pela força do fanatismo. Como qualquer filme de Tarantino, não é para todos os públicos. Mas é sensacional!

OBSESSÃO FATAL

OBSESSÃO FATAL (Unlawful entry, 1992, 20th Century Fox, 117min) Direção: Jonathan Kaplan. Roteiro: Lewis Colick, estória de George D. Putnam, John Katchmer, Lewis Colick. Fotografia: Jamie Anderson. Montagem: Curtiss Clayton. Música: James Horner. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Lawrence G. Paull/Rick Simpson. Produção: Charles Gordon. Elenco: Kurt Russell, Ray Liotta, Madeleine Stowe, Roger E. Mosley, Ken Lerner, Deborah Offner, Carmen Argenziano. Estreia: 26/6/92

Em 3 de março de 1991, um dos acontecimentos mais infames da história da polícia de Los Angeles rodou o mundo: o espancamento violento e cruel de Rodney King, um taxista negro, acusado de dirigir em alta velocidade, por quatro agentes brancos. A indignação apenas aumentou, quando, no final de abril de 1992, os policiais foram absolvidos por um júri popular: uma onda de rebeliões por toda a Califórnia durou três dias em que confrontos, incêndios, saques e depredações mostraram a revolta da população afro-americana, causando mortes e destruição - e resultando, de forma indireta, como uma espécie de compensação, na absolvição do ex-jogador de futebol O.J. Simpson por duplo homicídio, em 1995. Não era exatamente um período apropriado para a estreia de um filme que tratava justamente de abuso policial - mas mesmo assim, a 20th Century Fox correu o risco e lançou "Obsessão fatal", um suspense dirigido pelo veterano Jonathan Kaplan que não tinha medo de eleger como vilão alguém que deveria (ao menos no imaginário do cinema popular) ser o herói. A crítica se dividiu, o público também, e o filme arrecadou quase 60 milhões de dólares nas bilheterias. Nada mal para um filme que, mesmo longe de ser memorável, ousou em mostrar o outro lado da moeda - exatamente em uma época em que este lado se revelava tão dúbio.

Lançado no mesmo ano em que o cineasta Jonathan Kaplan também estreou seu "Love field: as barreiras do amor" - que deu à Michelle Pfeiffer uma indicação ao Oscar de melhor atriz -, "Obsessão fatal" é um filme de gênero, sem ambições de revolucionar o cinema ou chegar às cerimônias de premiação (ainda que Ray Liotta tenha sido indicado ao MTV Movia Awards na categoria de Melhor Vilão). Com personagens bem definidos entre bem e mal e uma narrativa clássica e sem sobressaltos, o roteiro segue o padrão dos filmes policiais hollywoodianos, inovando apenas na inversão de papéis e questionando até que ponto o cidadão comum está realmente a salvo quando nas mãos da autoridade oficial. Um questionamento importante - e que por pouco não foi enfatizado com a presença de Kevin Costner (então a personificação do homem americano médio) no elenco: assim como Jeff Bridges e Bill Pullman (pré-sucesso de "Independence Day"), Costner foi considerado para o papel principal do filme, que acabou nas mãos bastante competentes de Kurt Russell, e é de imaginar como seria a reação do público ao ver nas telas o seu herói patriota e de dignidade ilibada enfrentando o mal fardado. Levando-se em consideração o ponto de ebulição pelo qual passavam os EUA à época, porém, foi até melhor que o namoradinho da América (recém oscarizado por "Dança com lobos") tenha preferido um outro viés para tocar no inconsciente do país, estrelando o romance interracial "O guarda-costas", ao lado da cantora Whitney Houston, e levando multidões às salas de exibição.


Ray Liotta - que também não foi a escolha inicial para o papel do vilão, já que Mel Gibson, John Travolta, Tom Berenger e Charlie Sheen recusaram a proposta - dá seguimento a sua tendência em interpretar personagens ameaçadores com uma composição exata entre gentileza e violência (ao menos até o clímax um tanto exagerado). No filme de Kaplan, ele vive o policial Pete Davis, o atencioso agente da lei que ajuda o casal Carr em um momento de angústia, quando eles tem sua casa invadida por um estranho. Prestimoso ao extremo, ele orienta Michael (Kurt Russell) na instalação de sistemas de segurança e, aos poucos, torna-se um amigo sempre disposto a colaborar em qualquer circunstância. Elogiado por Carr a seus superiores, Davis passa inclusive a frequentar os mesmos ambientes do casal - especialmente porque sente-se irremediavelmente atraído pela bela Karen (Madeleine Stowe), com quem tenta iniciar um flerte. Tal constatação e um episódio de violência testemunhado por Michael faz com que ele resolva afastar-se do policial, mas esbarra em um grande problema: como proteger-se de alguém que deveria justamente ser a sua proteção?

Apesar do tema altamente inflamável, Jonathan Kaplan não se aprofunda na questão principal a ser discutida, preferindo seguir o caminho do entretenimento. Não é uma opção inválida, uma vez que sua intenção é apenas conduzir a plateia por duas horas de tensão, e ele o faz com relativo sucesso. Liotta deita e rola com seu personagem, enquanto sobra a Russell tomar a dianteira no posto de herói e defender a frágil e bela esposa - Madeleine Stowe, que tem a incumbência de dar vida ao menos ativo dos protagonistas e não faz feio. Entre mortos e feridos, todos se salvam. Mesmo que por vezes seja um tanto previsível, "Obsessão fatal" é um bom filme de suspense, que prende a atenção até os últimos minutos e, de quebra, desmonta a imagem superior e inquebrantável de autoridade constituída tão questionável no momento de sua estreia. Um filme que é, para o bem e para o mal, um retrato de sua época.

domingo

OS OITO ODIADOS

OS OITO ODIADOS (The hateful eight, 2015, Double Feature Films, 187min) Direção e roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Fred Raskin. Música: Ennio Morricone. Figurino: Courtney Hoffman. Direção de arte/cenários: Yohei Taneda/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Georgia Kacandes, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Richard N. Gladstein, Shannon McIntosh, Stacey Sher. Elenco: Kurt Russell, Samuel L. Jackson, Jennifer Jason Leigh, Walter Goggins, Bruce Dern, Michael Madsen, Tim Roth, Demián Bichir, James Parks, Channing Tatum. Estreia: 07/12/15

3 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Jennifer Jason Leigh), Fotografia, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Trilha Sonora Original 

Já nem é mais novidade: a cada filme novo de Quentin Tarantino que chega às telas o mundo se divide entre aqueles que o incensam como um dos mais originais e inventivos cineastas norte-americanos já existentes e aqueles que questionam seu talento e criatividade, lançando mãos de críticas que - vá lá - até fazem certo sentido sob determinados pontos de vista. Porém, a verdade é que, independente do fato de gravitar sempre em um universo todo particular (aparentemente localizado em algum lugar entre os anos 70 e 80 e povoado de filmes de baixo orçamento e roteiros pra lá de bizarros), Tarantino é um dos poucos diretores em atividade no cinema americano ainda capazes de suscitar tanta discussão e despertar tanto interesse da mídia, do público e da crítica. E não poderia ser diferente em relação a "Os oito odiados", seu oitavo longa, que correu o sério risco de jamais ver a luz dos projetores quando teve seu roteiro vazado antes mesmo da fase de pré-produção. Furioso com o imprevisto - e coberto de razão - Tarantino quase desistiu do projeto mas, convencido pelo amigo Samuel L. Jackson (apaixonado pela história e pelos personagens), voltou atrás na decisão. Sorte dos fãs inveterados (que encontrarão no filme, em versão exagerada, tudo que o diretor sempre ofereceu em seus trabalhos anteriores) e azar dos detratores (que, se arriscarem uma sessão, podem correr o risco de uma overdose de longos diálogos, sangue aos borbotões e maneirismos técnicos que a tantos agrada e a tantos outros repele).

Revisitando um gênero caro à sua memória afetiva, o western (que já havia homenageado com propriedade no ótimo "Django livre"), Tarantino acrescenta a "Os oito odiados" um clima de mistério à Agatha Christie e um tom teatral que enfatiza como nunca sua facilidade absurda de criar diálogos inspiradíssimos e personagens antológicos em situações extremas. Situando sua trama em um período imediatamente posterior à Guerra de Secessão, o diretor joga o público direto no gélido frio do Wyoming, onde a diligência do caçador de recompensas John Ruth (Kurt Russell em um grande momento da carreira) encontra um concorrente, o famoso Major Marquis Warren (Samuel L. Jackson mostrando porque é um dos maiores atores americanos de sua geração, especialmente quando dirigido por Tarantino). Warren pede que Ruth lhe dê uma carona (e aos cadáveres que ele pretende trocar por uma gorda quantia de dólares) até a cidade de Red Rock e não demora para juntar-se a ele e à sua prisioneira, Daisy Domergue (a sensacional Jennifer Jason Leigh) na difícil viagem rumo a seu destino. Domergue é uma assassina procurada que Ruth tem a intenção de entregar ao carrasco de Red Rock e todos eles se surpreendem quando, ainda no caminho em direção à cidade, eles dão de cara com Chris Mannix (Walton Goggins), que alega ser o novo xerife do local e que também pede ajuda para chegar até lá.

No meio do caminho, devido a uma nevasca, a diligência se vê obrigada a fazer uma parada inesperada na estalagem de Minnie Mink (Dana Gourrier), uma conhecida de Warren que, em viagem para visitar a mãe, deixou o local aos cuidados do mexicano Bob (Demian Bichir). Juntando-se aos demais hóspedes também presos na hospedaria - o carrasco Oswaldo Mobray (Tim Roth), o lacônico Joe Gage (Michael Madsen) e o veterano General Sandy Smithers (Bruce Dern) - os novos visitantes não demoram a perceber um clima de tensão e desconfiança no ar. O que ninguém sabe, porém, é que os comparsas de Daisy não tem a menor intenção de permitir que ela seja entregue e enforcada, e que tem um plano elaborado para resgatá-la antes de sua chegada a Red Rock. Caberá então ao perspicaz Major Warren descobrir quem do grupo reunido na hospedaria está ao lado da temida e debochada assassina.


"Os oito odiados" é Tarantino do primeiro frame - os créditos com o mesmo design dos letreiros já trai suas origens - ao último minuto - que chega somente depois de quase três horas de duração. Muitos reclamam da demora em começar a ação propriamente dita (tiros, sangue, violência), mas é difícil sentir-se incomodado ao ver em cena atores tão fantásticos - Samuel L. Jackson, Michael Madsen, Tim Roth, Bruce Dern e Jennifer Jason Leigh (os três primeiros repetindo a parceria com o diretor e Jennifer merecidamente indicada ao Oscar de coadjuvante) - desfilando seu talento pela tela. Com o auxílio luxuoso da bela fotografia de Robert Richardson (também indicada ao Oscar) e da sensacional trilha sonora do veterano Ennio Morricone (vencedor de sua primeira estatueta por seu trabalho), o filme realmente aparenta ter um problema de ritmo - só depois de uma hora e meia é que as coisas realmente começam a acontecer - mas basta olhar com atenção para perceber que nada é por acaso, nenhum diálogo é supérfluo e a longa duração serve para mergulhar o espectador na tensão indispensável ao clímax sanguinolento, de dar inveja à carnificina de "Cães de aluguel", filme de estreia de Tarantino e que o colocou, de primeira, no coração dos cinéfilos e da crítica.

Com uma violência estilizada que enfatiza seu humor nigérrimo - Jennifer Jason Leigh passa o filme inteiro sendo espancada, para horror das feministas - e o tom politicamente incorreto que sempre caracterizou a obra do diretor, "Os oito odiados" é a cara de seu criador. Seus diálogos são longos e expressivos. Sua violência é um misto de crueza e humor negro. Seu linguajar é cortante e realista, Não é uma obra-prima como "Pulp fiction, tempo de violência" ou "Bastardos inglórios", mas é mais uma declaração incontestável de um estilo cinematográfico que já está indelevelmente marcado na cultura popular norte-americana e mundial há pelo menos duas décadas, quer se goste ou não. Falem bem ou falem mal, é impossível ficar indiferente a um filme de Quentin Tarantino. E de quantos artistas se pode dizer o mesmo hoje em dia?

SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM

SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM (Silkwood, 1983, ABC Motion Picture, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, Alice Arlen. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Sam O'Steen. Música: Georges Delerue. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Richard James. Produção executiva: Larry Cano, Buzz Hirsch. Produção: Michael Hausman, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Kurt Russell, Cher, Craig T. Nelson, Ron Silver, Diana Scarwid, David Strathairn, Fred Ward, Bruce McGill, Will Patton Estreia: 14/12/83

5 indicações ao Oscar: Diretor (Mike Nichols), Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Cher), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Cher) 

Ao contrário do que acontece no Brasil, nos EUA o negócio dos sindicatos profissionais é coisa bastante séria, a ponto de nomes como Jimmy Hoffa - presidente do sindicato dos caminhoneiros - e Norma Rae - nome fictício de uma moradora do sul do país que tornou-se líder sindicalista da indústria têxtil - tenham servido de inspiração para filmes estrelados por gente graúda (Jack Nicholson no primeiro e Sally Field, no papel que lhe deu seu primeiro Oscar, no segundo). Nos anos 80, quando a paranoia nuclear estava no ar, ameaçando a população com uma tragédia invisível - e que deu origem a uma espécie de ciclo que inclui o polêmico "Síndrome da China" (79), estrelado por Michael Douglas e Jane Fonda- o cineasta Mike Nichols resolveu juntar os dois temas em um mesmo filme, baseado em um história real ocorrida meros nove anos antes. "Silkwood, o retrato de uma coragem", estrelado por Meryl Streep - e que foi o primeiro roteiro da futuramente célebre Nora Ephron a chegar às telas - concorreu a cinco Oscar, incluindo diretor e atriz (a quinta indicação de Streep, já então duplamente premiada com a estatueta), mas teve o azar de concorrer com o furacão "Laços de ternura" e saiu da festa com as mãos abanando. Isso não diminiu sua importância, sua qualidade e, melhor ainda, sua força como denúncia e drama.

Quem torce o nariz para filmes sobre coisas como sindicatos, no entanto, não precisa se preocupar. O roteiro de Ephron - co-escrito com Alice Arlen e também indicado ao Oscar - não se detém apenas na trajetória de sua protagonista Karen Silkwood rumo à conscientização política e social, mas abre bastante espaço também para seus dramas pessoais, que incluem um casamento falido, a distância que mantém dos três filhos e os relacionamentos com o colega de trabalho Drew (um jovem Kurt Russell) - com quem mantém um romance - e a amiga Dolly (a cantora Cher, começando a ser respeitada como atriz em papel que lhe rendeu um Golden Globe de coadjuvante), além de dar ênfase especial à sua luta para denunciar a maneira torpe com que a indústria de processamento de plutônio de sua cidade natal, Oklahoma, escondia de seus funcionários o enorme perigo de contaminação que eles corriam manipulando o material. Equilibrando essas duas pontas - a familiar e a profissional - é que o roteiro se torna especial, desviando-se do caminho fácil do sensacionalismo e conquistando o espectador pelo desenho de seus personagens.


Mike Nichols, um cineasta acostumado a apontar suas lentes para personagens complexos e arrancar de seus atores desempenhos nunca aquém de fabulosos, conta a história de Karen Silkwood em seu próprio ritmo, convidando aos poucos a audiência a estabelecer intimidade com sua protagonista, uma mulher comum, com um casamento fracassado no currículo, um relacionamento amoroso que é motivo de falatório entre seus colegas de trabalho e uma amizade com uma lésbica que é apaixonada por ela. Sua vida dá uma guinada quando ela é acusada de contaminar seu local de trabalho (uma usina de tratamento de plutônio) para conseguir um fim-de-semana de folga, o que desencadeia uma onda inesperada de contaminação que atinge uma funcionária mais idosa e a ela própria. Com a ajuda de um sindicato - de quem se torna líder, para desgosto de seu namorado - ela parte para o ataque, com planos de denunciar o caso. Sua nova atitude, porém, causa polêmica entre seus companheiros de trabalho, que sabem que o fechamento da indústria também os levaria ao desemprego.

"Silkwood" é um drama com a cara de sua época: engajado, relevante e realizado com paixão. Se Meryl Streep dispensa qualquer comentário com mais uma interpretação impecável, seus coadjuvantes merecem igual respeito. Kurt Russell injeta personalidade a um personagem que poderia ficar em um melancólico segundo plano em mãos menos competentes - a cena em que ele percebe que está perdendo Karen para a militância e quiçá para o líder sindical vivido por Ron Silver é um exemplo da discrição eficaz de seu desempenho. E Cher, até então conhecida como cantora, sai-se muito bem como Dolly, a amiga homossexual da protagonista, que é responsável por um dos momentos mais ternos do filme. Em pouco tempo, ela se tornaria uma atriz respeitada, a ponto de levar um Oscar pela comédia romântica "Feitiço da lua" e aqui, ela mostra que sua persona excêntrica em nada atrapalha seu talento dramático. Ela é um motivo a mais para se assistir a "Silkwood", que, além dela, apresenta uma verdadeira e revoltante história real. Merece uma conferida.

segunda-feira

À PROVA DE MORTE


À PROVA DE MORTE (Grindhouse: Death proof, 2007, Dimension Films, 113min) Direção, roteiro e fotografia: Quentin Tarantino. Montagem: Sally Menke.Figurino: Nina Proctor. Direção de arte/cenários: Steve Joyner/Jeanette Scott. Produção executiva: Shannon McIntosh, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Elizabeth Avellán, Robert Rodriguez, Erica Steinberg, Quentin Tarantino. Elenco: Kurt Russell, Rosario Dawson, Zoe Bell, Rose McGowan, Quentin Tarantino, Eli Roth, Vanessa Ferlito. Estreia: 15/10/07



Boa parte das características que fizeram de Quentin Tarantino um dos mais influentes cineastas de sua geração estão presentes em “À prova de morte”: a ressurreição de um astro esquecido (aqui representado por Kurt Russell), os longos diálogos recheados de referências à cultura pop, o fetiche declarado aos pés femininos (sublinhados por inúmeros closes), a violência explícita e a trilha sonora escolhida a dedo entre clássicos perdidos em algum lugar entre os anos 60 e 80 são algumas delas. Por uma dessas razões insondáveis, porém, ao contrário dos bem-sucedidos filmes anteriores do diretor, essa sua incursão pelos filmes de ação não encontrou seu público à época de sua exibição nos cinemas americanos – a ponto de sua estreia no Brasil ter acontecido com um atraso de três anos. Tudo bem que o filme sofre de uma irregularidade por vezes enfadonha (é, sem dúvida, o trabalho menos interessante de Tarantino), mas a melhor explicação para seu naufrágio comercial na verdade atende pelo nome de “Grindhouse”.
“Grindhouse” era um projeto um tanto ambicioso e um tanto arriscado de Tarantino e de Robert Rodriguez, seu amigo de fé e irmão camarada. Os dois cineastas – conhecidos pela criatividade, pelo talento e pela coragem de encarar gêneros tidos como malditos pela indústria de Hollywood – queriam lançar, no mesmo pacote, dois filmes de estética e temática B, nos moldes dos programas duplos que faziam a glória dos cinemas-poeira americanos da década de 70, separados apenas por meia-dúzia de trailers fakes de filmes tão bregas quanto – por ironia, um desses trailers lançou um insuspeito herói de ação chamado Machete. Rodriguez se encarregou de um filme de terror protagonizado por zumbis asquerosos e violência de ketchup – o ultra-divertido “Planeta Terror”, com Bruce Willis e Josh Brolin – e Tarantino aproveitou a oportunidade para brincar de diretor de ação, inspirado em clássicos onde automóveis eram mais importantes do que os atores. Seu “À prova de morte” não pouparia sangue, corpos mutilados e atuações pra lá de amadoras – exatamente como acontecia com suas fontes de inspiração. Acontece que o filme estreou... e foi praticamente ignorado pelo mal-acostumado público norte-americano. Tal destino, obviamente, influenciou em sua distribuição mundial. No final das contas, os dois filmes estrearam no mercado externo como produtos independentes – o que de certa forma são – e sem o charme extra do clima decadente que cercava a ideia inicial. Sem essa referência quase imprescindível, “À prova de morte” (mais ainda do que “Planeta Terror”) acaba por tornar-se capenga, insuficiente por si próprio. Mas ainda assim – o que mostra que Tarantino sempre tem cartas na manga – é um filme com grandes momentos de tensão e é dirigido com uma inteligência visual admirável.
 Autor de papéis femininos de extrema força – vide A Noiva de “Kill Bill” e a protagonista de “Jackie Brown” – Quentin Tarantino fez de seu “À prova de morte” um filme francamente feminista, a despeito do que pode fazer pensar sua primeira metade, quando apresenta ao público um grupo de amigas irritantemente autossuficientes que saem pela noite de uma pequena cidade do Texas em busca de diversão antes de pegarem a estrada rumo a um sítio afastado. Na liderança delas está a radialista Jungle Julia (Sydney Poitier), que pretende encontrar, antes da viagem, o rapaz com quem está vivendo (ao menos segundo o que ela acha) um romance. Como forma de diversão, ela desafia sua amiga, ..., que não mora na cidade, a aceitar o desafio proposto em seu programa de rádio – que oferece ao corajoso espécime masculino que lhe pagar uma bebida e declamar-lhe o trecho de determinada poesia uma dança erótica. Quem se aproxima e reivinidica o prêmio é o misterioso Stuntman Mike (Kurt Russell, apavorante), um dublê de filmes de ação que dirige um assustador carro negro com uma caveira desenhada no capô. Desafio aceito e pago, é hora de todos irem embora. Mike oferece carona à ... (Rose McGowan, também presente em “Planeta Terror”, como a protagonista que tem a perna substituída por uma metralhadora) e todos partem em direção a seu destino. Acontece que Mike não é tão gentil quanto sua oferta de carona pode aparentar, e uma tragédia encerra a primeira metade do filme com uma cena de deixar qualquer um de queixo caído – poucas vezes o cinema americano foi tão gráfico e explícito em retratar um acidente automobilístico.



A segunda parte do filme começa mais de um ano depois dos acontecimentos da primeira. Na cidade de Líbano, no Mississipi, outro grupo de amigas – todas com profissões ligadas ao cinema – aproveitam o dia de folga para procurar, em uma cidade próxima, o proprietário de um carro raro, astro de uma conhecida produção de ação chamado “Corrida contra o destino”. A ideia é de uma dublê que chega da Austrália disposta a refazer, com sua leal amiga, uma cena clássica do filme. Ideia vendida, ideia realizada. Junto com a atriz e modelo Lee (Mary Elizabeth Winstead) e a maquiadora (Rosario Dawson), as duas amigas chegam até o cobiçado veículo e convencem o dono a deixá-las fazer um test-drive. E o que poderia ser um momento da mais pura diversão e adrenalina torna-se um pesadelo quando elas encontram no caminho o psicótico Stuntman Mike – que parece disposto a fazer com elas o mesmo que fez com outras mulheres anteriormente.



É quando começa o embate – violento, tenso, perigoso, angustiante e paradoxalmente empolgante – entre Mike e suas corajosas pretensas vítimas que “À prova de morte” faz esquecer seus longos tempos mortos. Os diálogos intermináveis e (dessa vez) nem sempre interessantes escritos por Tarantino são imediatamente deixados de lado quando sua câmera literalmente joga o espectador em uma perseguição alucinante pelas estradas do Mississipi, sem direito a pausas ou alívio cômico. É como se o diretor estivesse escondendo o jogo para finalmente, em seus vinte minutos finais, resolvesse pôr todas as suas cartas na mesa, ganhando o jogo de virada. Se até então o público já estava saturado das conversas inconsequentes de suas protagonistas – um grupo francamente desagradável e sem carisma – elas tornam-se, num piscar de olhos, as heroínas máximas do filme, desafiando apenas com a coragem uma ameaça das mais aterradoras, uma espécie de alma gêmea do caminhão de “Encurralado” (73, de Steven Spielberg). Brilhantemente editada, essa longa sequência é a salvação do filme, o que acorda o espectador que porventura estivesse bocejando diante dos intermináveis bate-papos de suas personagens.
Exagerando na conversa e economizando na ação – ao menos até seu explosivo final – “À prova de morte” parece, na verdade, um filme com sérios problemas de identidade. De um lado, a tendência quase irrefreável do diretor em criar quilométricos diálogos – o que funcionou muito bem em outras obras suas mas que aqui soa como uma forma de preencher tempos mortos; de outro, a vontade de assinar um filme de extrema violência psicológica e física sem apelar para tiroteios e afins (no que é extremamente feliz, diga-se de passagem). De um lado, um filme abertamente feminista no sentido de eleger mulheres como heroínas, mesmo que muitas vezes o excesso de sensualização do roteiro soe como voyeurismo barato; do outro o paradoxo de, mesmo com essa escolha de lado, fazer do vilão da história, um homem, o absurdamente mau Stuntman Mike, o personagem mais interessante e marcante da trama. Quentin Tarantino é um cineasta inteligente e sabe como poucos lidar com a dualidade de personagens extremamente idiossincráticos e pouco convencionais, mas aqui, talvez propositalmente, haja visto o conceito do projeto, optou por deixar de lado qualquer aprofundamento psicológico. Mesmo com toda a violência, seu filme é diversão pura e desvinculada de qualquer seriedade e/ou compromissos com a verdade. Como parte de seu universo particular – com sua estética frequentemente kitsch e de um sincretismo cultural à toda prova – é uma obra que exige do espectador uma quase permissão para fugir à realidade pura e simples. No mundo de Tarantino – e em especial em “À prova de morte” – a sensualidade prescinde de corpos perfeitos ou cenários glamourosos, o perigo está à espreita tanto em estacionamentos escuros quanto em ensolaradas estradas paradisíacas e a virilidade ostensiva está sempre a um passo de pedir misericórdia ao “sexo frágil”. Tarantino brinca com as expectativas o tempo todo. Nem sempre acerta, mas quando o faz, atinge em cheio o alvo.
No final das contas, “À prova de morte” é um filme nitidamente irregular, que intercala momentos decididamente chatos entre duas cenas de grande impacto visual e emocional. Mas ainda assim é um trabalho de personalidade forte e inconfundível – Tarantino e seu cinema altamente referencial é parte da cultura pop americana e mundial desde sua estreia, com “Cães de aluguel”, de 1993. Uma pena que algumas das brincadeiras do filme – como contar com alguns dos mesmos atores e personagens de outros trabalhos seus e de Rodriguez, incluindo “Planeta Terror” – passe em brancas nuvens para quem não teve a oportunidade de vê-los conforme o planejado. É, apesar dos elogiados rasgados da prestigiada “Cahiérs du Cinéma”, que o considerou como um dos melhores filmes do ano, o trabalho menos feliz de seu realizador, que ainda assim saiu incólume do fracasso.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...