ATRAVÉS DE UM ESPELHO (Sasom i en spegel, 1961, Svensk Filmindustri, 90min) Direção e roteiro: Ingmar Bergman. Fotografia: Sven Nykvist. Montagem: Ulla Ryghe. Figurino: Mago. Direção de arte: P. A. Lundgren. Produção: Allan Ekelund. Elenco: Harriet Andersson, Gunnar Bjornstrand, Max Von Sydow, Lars Passgard. Estreia: 16/10/61
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme Estrangeiro, Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Fazia pouco tempo que a Academia de Hollywood havia criado oficialmente a categoria de Melhor Filme Estrangeiro quando o sueco Ingmar Bergman levou seu segundo Oscar consecutivo. Não que fosse um acontecimento inédito - o italiano Federico Fellini também já tinha duas estatuetas em casa, por "A estrada da vida" e "Noites de Cabíria", premiados em 1956 e 1957, respectivamente. Acontece que, ao contrário de "A fonte e a donzela" (vencedor do Oscar em 1960), o segundo filme oscarizado de Bergman, "Através de um espelho", não foi exatamente aplaudido pela crítica norte-americana quando foi lançado, e um dos artigos chegava a prever que o auge criativo do cineasta estava em seus últimos momentos. Nem mesmo a aprovação da Academia (e sua indicação ao Oscar de roteiro original no ano seguinte, quando foi exibido nos EUA) ajudou a mudar essa situação. Foi preciso que muitos anos se passassem até que finalmente o filme fosse reconhecido como um clássico - e levando-se em conta que até o próprio diretor, pouco afeito a autoelogios, o considerava um de seus melhores trabalhos, demorou bastante para que assumisse, junto aos críticos, um lugar de destaque em sua elogiada filmografia. Vencedor de um prêmio no Festival de Berlim em 1962, "Através de um espelho" é um dos primeiros passos de Bergman em direção à estrutura consagrada cinco anos mais tarde com uma de suas obras-primas, "Persona" (1966).
Assim como em "Persona" e em boa parte de sua obra, Bergman usa e abusa de longas pausas, diálogos profundos e personagens de uma complexidade ímpar. Através de um roteiro que lembra o teatro de Strindberg - e cuja estrutura mais tarde seria emulada pelos filmes mais sérios de Woody Allen -, "Através de um espelho" se mostra sucinto e com intenções filosóficas. A busca por Deus, crises de fé e a procura incessante por uma paz de espírito que se revela muito mais difícil do que se poderia supor, o filme de Bergman é aparentemente econômico em termos dramáticos, mas emocionalmente devastador. Lógico que, sob a visão quase gélida do cineasta, a emoção parece mais cerebral, e é justamente esse aparente paradoxo (razão vs sentimento) que se revela a base do filme: os personagens são inteligentes e cultos, mas sua tentativa de racionalizar o que os devora por dentro acaba se revelando inútil quando a angústia e o desespero assumem a protagonização.
A trama, desenvolvida no roteiro do próprio Bergman, tem início com o retorno de Karin (Harriet Andersson) ao convívio familiar, depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico. Seu relacionamento com o marido, Martin (Max von Sydow), há muito deixou de ser um casamento tradicional, transformando-se, aos poucos, em uma amizade profunda. Martin se dedica a cuidar da esposa, e resolve levá-la à propriedade de verão da família, em uma ilha distante. A eles, juntam-se o pai de Karin, David (Gunnar Bjornstrand) - um célebre escritor que praticamente abandonou os filhos após a morte da esposa - e seu irmão, Minus (Lars Passggard), batalhando a seu próprio modo com os hormônios da adolescência. O que deveria ser uma reunião familiar pacífica aos poucos vai se tornando uma grande sessão de terapia: Karin descobre que sua doença mental, herdada da mãe, é incurável, e David tenta reaproximar-se dos filhos - enquanto cabe a Martin tentar equilibrar as relações e apoiar sua mulher em sua descida rumo à insanidade e a busca por uma resposta de Deus a suas questões mais profundas.
Longe de ser um filme fácil, "Através de um espelho" não deixa de ser, também, uma das obras mais acessíveis de Bergman. Apesar de sua utilização de símbolos e metáforas, seu roteiro é linear e fluido, como uma boa peça de teatro. Para isso, ele conta, logicamente, com um quarteto de atores completamente entregues. Harriet Andersson brilha na pele de Karin, a mais complexa dos personagens, uma mulher constantemente no fio da navalha. Max von Sydow, um dos colaboradores habituais do diretor, mostra, mais uma vez, como a economia de gestos e palavras pode engrandecer um filme. O estreante Lars Passgard também dá conta do recado, com um personagem cujos sentimentos somente aos poucos vão sendo revelados (ao espectador e a ele mesmo), e o veterano Gunnar Bjornstrand transmite, através de uma interpretação discreta, todo o turbilhão de culpa e melancolia de seu David. Um filme para adultos, "Através de um espelho" é quase a antítese do cinema comercial americano - para uns, um bálsamo. Para outros, uma tortura. Ainda assim, é impossível negar seu brilhantismo dramático e sua direção exemplar.
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segunda-feira
quarta-feira
CIDADÃO X
CIDADÃO X (Citizen X, 1995, HBO Pictures, 105min) Direção: Chris Gerolmo. Roteiro: Chris Gerolmo, livro de Robert Cullen. Fotografia: Robert Fraisse. Montagem: William Goldenberg. Música: Randy Edelman. Figurino: Maria Hruby. Direção de arte/cenários: Jószef Romvári/Lóránt Jávor. Produção executiva: Laura Bickford, Matthew Chapman, David R. Ginsburg. Produção: Timothy Marx. Elenco: Stephen Rea, Donald Sutherland, Max Von Sydow, Jeffrey DeMunn, Imelda Staunton, Joss Ackland. Estreia: 25/02/95
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)
O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.
Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.
Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.
Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Filmes, Séries ou Minisséries (Donald Sutherland)
O mais famoso e cruel assassino serial da história da Rússia, Andrei Chikatilo, acumulou mais de 50 mortes no período compreendido entre 1978 e 1992. Suas vítimas eram predominantemente menores de idade, meninos e meninas que violentava, assassinava e mutilava enquanto era incansavelmente caçado pela polícia, incapaz de acreditar que seu país pudesse ser o cenário de tamanhas atrocidades. Finalmente preso e condenado, Chikatilo virou manchete pelo mundo todo, e não demorou para que sua história se mostrasse material ideal para uma adaptação para o cinema. Para surpresa de muitos, porém, quem passou à frente dos grandes estúdios de Hollywood foi a televisão: produzido pela HBO - anos antes de tornar-se uma marca famosa pela qualidade de seus produtos - o telefilme "Cidadão X" estreou nos EUA exatamente um ano depois do desfecho da aterrorizante trajetória do monstro russo, e, com um elenco de grandes atores e a ousadia de não aliviar a violência da trama, acabou por mostrar-se uma bela opção de entretenimento para os fãs do gênero.
Fazendo algumas modificações na história original - principalmente em relação à dinâmica entre o principal investigador do caso e seus superiores - o roteiro de "Cidadão X" começa com a descoberta do corpo de uma adolescente em uma floresta. Insatisfeito com a forma com que sua equipe lidou com o caso, o dedicado Viktor Bukarov (Stephen Rea) pede que façam uma busca mais rigorosa no local do crime, à procura de mais indícios. Para sua surpresa, outros sete corpos são localizados enterrados nas proximidades, o que logo lhe deixa claro de que são todas vítimas de um mesmo assassino. Disposto a investigar a fundo o caso, ele conta com o apoio do Coronel Mikhail Fetisov (Donald Sutherland), que, sabendo como lidar com os meandros da política comunista e suas idiossincrasias, lhe oferece toda a ajuda possível, inclusive um encontro com um experiente psiquiatra, Alexandr Bukhanovsky (Max Von Sydow), que traça o perfil psicológico do criminoso a ser caçado, a quem passam a chamar de Cidadão X. Anos e anos se passarão, no entanto, antes que Viktor finalmente consiga por as mãos no monstruoso homicida, que se esconde sob a personalidade de um respeitável homem comum, funcionário de uma fábrica e discreto pai de família.
Ao optar por revelar a identidade do assassino logo no começo do filme - em impressionante atuação de Jeffrey DeMunn - e focar na quase obsessiva investigação de Viktor e seus problemas com as autoridades policiais russas, "Cidadão X" corria o risco de ver seu suspense diluído e, portanto, o interesse diminuído por parte da plateia. Porém, com um roteiro inteligente e uma edição sóbria - que sublinha os momentos de tensão sem que pareçam óbvios ou excessivamente sanguinolentos - a trama é conduzida sem sobressaltos, se equilibrando entre o enredo policial e uma (nem tão) sutil crítica à burocracia da Rússia comunista pré-Perestroika. Stephen Rea mais uma vez brinda o espectador com uma interpretação minimalista, sem maiores arroubos de genialidade, mas consistente o bastante para servir como os olhos da plateia diante da série de horrores que testemunha. Donald Sutherland ganhou um Golden Globe por seu desempenho como o chefe de Rea, mas é Max Von Sydow que praticamente rouba a cena, mesmo aparecendo em poucas mas cruciais sequências: seu embate com o cruel Chikatilo, já no terço final do filme, é de arrepiar, assim como todas as cenas em que o vilão se prepara para dar o bote em suas presas. Mesmo sem inovar na estética ou na narrativa, Chris Gerolmo consegue manter a tensão até o minuto final, que mostra o destino do serial killer com extrema elegância e sutileza.
Apesar da linguagem televisiva - e de conseguir driblar suas limitações com criatividade e bom senso - "Cidadão X" é, antes de tudo, uma excelente história, contada de forma correta e sóbria, com um elenco acima de qualquer crítica. Pode incomodar àqueles que procuram uma obra-prima do gênero, mas aqueles que o encararem como o que ele realmente é - um telefilme acima da média, realizado com extremo cuidado e talento - podem se surpreender e ver que a HBO já estava, na metade dos anos 90, a caminho de sua excelência técnica e criativa. Uma bela opção para quem gosta do gênero.
sexta-feira
O SÉTIMO SELO
O SÉTIMO SELO (Det sjunde inseglet, 1957, Svensk Filmindustri, 96min)
Direção: Ingmar Bergman. Roteiro: Ingmar Bergman, baseado em sua peça
teatral "Pintura sobre madeira". Fotografia: Gunnar Fischer. Montagem: Lennart Wallen.
Música: Erik Nordgren. Figurino: Manne Lindholm. Produção: Allan
Ekelund. Elenco: Max Von Sydow, Gunnar Bjornstrand, Bengt Ekerot, Nils
Poppe, Bibi Andersson. Estreia: 16/02/57
Impactantes imagens em preto-e-branco, reflexões angustiadas e existenciais acerca de Deus e da morte e um clima que equilibra a morbidez da Peste Negra com a vida despreocupada e feliz de um grupo de artistas mambembes cuja maior preocupação é sobreviver a cada dia em contato com a simplicidade da natureza. São esses os elementos que fazem de "O sétimo selo" um dos mais icônicos trabalhos do diretor sueco Ingmar Bergman. Antes mesmo de consagrar-se como um dos cineastas mais influentes da Europa ao tratar de temas complexos e intimistas - normalmente em filmes estrelados por sua esposa Liv Ullman - Bergman fascinou crítica e público com uma trama repleta de simbolismos que reflete algumas de suas obsessões mais caras, como religião, metafísica e altas doses de existencialismo. Não à toa, entrou indelevelmente na lista dos mais importantes realizadores do cinema mundial, iniciando uma jornada frequentemente densa e pessoal - e paradoxalmente, universal.
Dono de uma temática pouco comercial e a princípio um tanto mórbida, "O sétimo selo" só saiu do papel graças ao sucesso de crítica do filme anterior de Bergman, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), uma comédia romântica, vejam só, que incentivou os financiadores suecos a apostarem no talento do cineasta então relativamente jovem (tinha menos de 40 anos de idade) e com ideias bem particulares a respeito do mundo que o cercava. Baseado em uma peça de sua autoria chamada "Pintura sobre madeira", transmitida pelo rádio em 1954, Bergman recheou seu filme com imagens buscadas na memória afetiva - seu pai era um rígido pastor luterano e pregava em uma igreja cujos murais inspiraram o futuro cineasta - e em suas próprias questões espiritualistas, que abarcavam não somente a religião, mas a humanidade em si (e o que faz do homem o que ele realmente é). Complexo e belo na exata medida, a obra acabou saindo do Festival de Cannes com o prêmio especial do júri e iniciou uma carreira vitoriosa que faz dela um dos mais adorados, imitados e citados filmes da história do cinema, tendo inspirado desde Woody Allen até Schwarzenegger (em "O último grande herói", de 1993). Nem mesmo o mundo do rock ficou impune à obra, como bem pode confirmar Van Halen, que batizou uma de suas canções em homenagem ao filme.
Aproveitando o filme para lidar com seu medo quase patológico da morte, Bergman utiliza sua trama para fazer desfilar, diante do público, uma série de sequências antológicas, valorizadas pela fotografia expressionista de Gunnar Fischer e pelas atuações inesquecíveis de Max Von Sydow (em seu primeiro trabalho com o diretor, com a exceção de uma ponta em "Morangos silvestres") e Bengt Ekerot (no papel icônico da Morte). Von Sydow vive Antonius Blok, um cavaleiro que, depois de passar anos lutando nas Cruzadas, retorna a seu país e o encontra assolado pela Peste Negra. Testemunhando cenas brutais de execuções à mulheres consideradas bruxas e fiéis de autoflagelando em nome de Deus, Blok vê surgir à sua frente a Morte em pessoa. Sabendo que ela sempre esteve à sua volta, ele aproveita a oportunidade para questioná-la a respeito de suas dúvidas existenciais, propondo que eles joguem uma partida de xadrez enquanto isso. Nesse meio-tempo, ele conhece uma família de artistas mambembes que o faz ver um outro lado da vida, menos sombrio e repleto de esperanças no futuro.
Sem medo de apostar na inteligência e na sensibilidade do público, levantando questões sem a intenção de respondê-las explicitamente, Ingmar Bergman leva seu estilo poético e lúdico até as últimas consequências. Inserindo momentos leves e dotados de um insuspeito senso de humor em meio a divagações existenciais das mais densas, o cineasta mergulha a plateia em uma viagem sensorial e mística que, felizmente, jamais descamba para a religiosidade rala ou piegas. "O sétimo selo" é um filme inteligente e brilhante em seus questionamentos metafísicos e existenciais, além de deslumbrar também por seu visual extraordinário. Um Bergman dos melhores - e por incrível que possa parecer, um dos mais acessíveis.
Impactantes imagens em preto-e-branco, reflexões angustiadas e existenciais acerca de Deus e da morte e um clima que equilibra a morbidez da Peste Negra com a vida despreocupada e feliz de um grupo de artistas mambembes cuja maior preocupação é sobreviver a cada dia em contato com a simplicidade da natureza. São esses os elementos que fazem de "O sétimo selo" um dos mais icônicos trabalhos do diretor sueco Ingmar Bergman. Antes mesmo de consagrar-se como um dos cineastas mais influentes da Europa ao tratar de temas complexos e intimistas - normalmente em filmes estrelados por sua esposa Liv Ullman - Bergman fascinou crítica e público com uma trama repleta de simbolismos que reflete algumas de suas obsessões mais caras, como religião, metafísica e altas doses de existencialismo. Não à toa, entrou indelevelmente na lista dos mais importantes realizadores do cinema mundial, iniciando uma jornada frequentemente densa e pessoal - e paradoxalmente, universal.
Dono de uma temática pouco comercial e a princípio um tanto mórbida, "O sétimo selo" só saiu do papel graças ao sucesso de crítica do filme anterior de Bergman, "Sorrisos de uma noite de amor" (55), uma comédia romântica, vejam só, que incentivou os financiadores suecos a apostarem no talento do cineasta então relativamente jovem (tinha menos de 40 anos de idade) e com ideias bem particulares a respeito do mundo que o cercava. Baseado em uma peça de sua autoria chamada "Pintura sobre madeira", transmitida pelo rádio em 1954, Bergman recheou seu filme com imagens buscadas na memória afetiva - seu pai era um rígido pastor luterano e pregava em uma igreja cujos murais inspiraram o futuro cineasta - e em suas próprias questões espiritualistas, que abarcavam não somente a religião, mas a humanidade em si (e o que faz do homem o que ele realmente é). Complexo e belo na exata medida, a obra acabou saindo do Festival de Cannes com o prêmio especial do júri e iniciou uma carreira vitoriosa que faz dela um dos mais adorados, imitados e citados filmes da história do cinema, tendo inspirado desde Woody Allen até Schwarzenegger (em "O último grande herói", de 1993). Nem mesmo o mundo do rock ficou impune à obra, como bem pode confirmar Van Halen, que batizou uma de suas canções em homenagem ao filme.
Aproveitando o filme para lidar com seu medo quase patológico da morte, Bergman utiliza sua trama para fazer desfilar, diante do público, uma série de sequências antológicas, valorizadas pela fotografia expressionista de Gunnar Fischer e pelas atuações inesquecíveis de Max Von Sydow (em seu primeiro trabalho com o diretor, com a exceção de uma ponta em "Morangos silvestres") e Bengt Ekerot (no papel icônico da Morte). Von Sydow vive Antonius Blok, um cavaleiro que, depois de passar anos lutando nas Cruzadas, retorna a seu país e o encontra assolado pela Peste Negra. Testemunhando cenas brutais de execuções à mulheres consideradas bruxas e fiéis de autoflagelando em nome de Deus, Blok vê surgir à sua frente a Morte em pessoa. Sabendo que ela sempre esteve à sua volta, ele aproveita a oportunidade para questioná-la a respeito de suas dúvidas existenciais, propondo que eles joguem uma partida de xadrez enquanto isso. Nesse meio-tempo, ele conhece uma família de artistas mambembes que o faz ver um outro lado da vida, menos sombrio e repleto de esperanças no futuro.
Sem medo de apostar na inteligência e na sensibilidade do público, levantando questões sem a intenção de respondê-las explicitamente, Ingmar Bergman leva seu estilo poético e lúdico até as últimas consequências. Inserindo momentos leves e dotados de um insuspeito senso de humor em meio a divagações existenciais das mais densas, o cineasta mergulha a plateia em uma viagem sensorial e mística que, felizmente, jamais descamba para a religiosidade rala ou piegas. "O sétimo selo" é um filme inteligente e brilhante em seus questionamentos metafísicos e existenciais, além de deslumbrar também por seu visual extraordinário. Um Bergman dos melhores - e por incrível que possa parecer, um dos mais acessíveis.
sábado
TÃO FORTE, TÃO PERTO
TÃO FORTE, TÃO PERTO (Extremely loud & incredibly close, 2011, Warner Bros, 129min) Direção: Stephen Daldry. Roteiro: Eric Roth, romance de Jonathan Safran Foer. Fotografia: Chris Menges. Montagem: Claire Simpson. Mùsica: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett/George De Titta Jr. Produção executiva: Celia Costas, Mark Roybal, NOra Skinner. Produção: Scott Rudin. Elenco: Tom Hanks, Sandra Bullock, Thomas Horn, Max Von Sydow, Viola Davis, Jeffrey Wright, John Goodman, Zoe Campbell. Estreia: 25/12/11
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Max Von Sydow)
2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Max Von Sydow)
O inglês Stephen Daldry tem uma boa
folha de serviços prestados ao cinema desde sua estreia com o lírico “Billy
Elliot” (00), que de cara lhe rendeu uma indicação ao Oscar de melhor diretor.
Depois, voltou ao páreo pelo brilhante “As horas” (02) – que deu à Nicole
Kidman a estatueta de melhor atriz – e pelo dramático “O leitor” (08) – que
também premiou sua protagonista, Kate Winslet, com uma estatueta dourada. De
seus três primeiros (e ótimos) filmes, dois foram homenageados pela Academia
com uma indicação ao Oscar máximo, o que encheu o público e a crítica de
expectativas em relação a seu quarto trabalho. A estreia de “Tão forte e tão
perto”, no entanto, mostrou que todo mundo corre o risco de errar. Mesmo
arrebatando uma quase inexplicável indicação ao Oscar de melhor filme – um
quase que pode ser compreendido pelos humores da parcela mais conservadora da
Academia – e tendo conquistado alguns críticos, o filme de Daldry é uma decepção
quase total, principalmente por ter como seu maior e mais irrecuperável defeito
a péssima escolha de seu ator principal. Ao contrário do que aconteceu quando
Jamie Bell saiu do anonimato para dar vida e alma ao menino que sonhava com o
balé em “Billy Elliot”, a opção pelo novato Thomas Horn para protagonizar “Tão forte,
tão perto” arruinou todo o projeto de Daldry. Descoberto em um programa de
perguntas e respostas da TV americana, Horn faz com que assistir-se ao filme se
torne uma tortura quase insuportável. E não é preciso ser cientista da NASA
para saber que quando um protagonista (a base de qualquer filme, afinal) não
tem empatia com o público, não há marketing milagroso o suficiente para
salvá-lo da ruína.
Ok, “Tão forte e tão perto” não
chega a ser uma ruína completa – Daldry é um diretor de muito talento para
perder tanto a mão, e os coadjuvantes são admiráveis (inclui-se aqui Tom Hanks
em uma participação especial mas essencial ao estabelecimento da trama, Max Von
Sydow em uma interpretação indicada ao Oscar e Viola Davis injetando humanidade
em cada cena que aparece). Mas para cada qualidade que apresenta – a edição de
Claire Simpson, com momentos brilhantes e a bela trilha sonora de Alexandre
Desplat – existe uma série de problemas que impedem o espectador de mergulhar
sem reservas na história criada pelo escritor Jonathan Safran Foer. O primeiro
deles – e o maior, a ponto de praticamente anular o que o filme tem de bom – é,
como afirmado anteriormente, o protagonista. Não apenas o personagem é chato,
irritante, mimado e histérico, como seu intérprete consegue – ao invés de
diluir tais características pouco louváveis – ampliá-las ainda mais. A cada
cena em que Thomas Horn aparece na pele do herói da história, Oskar Schell,
gritando, esperneando e xingando quem aparece em sua frente, é uma tentação imensa
não abandonar a trama, por mais interessante que ela pudesse ter parecido em
seu princípio.
E, é preciso reconhecer, o pontapé
inicial é instigante: o atentado às Torres Gêmeas em onze de setembro de 2001
deixa órfão de pai o excêntrico Oskar Schell, um menino com problemas em
interatividade social – a ponto de ter sido considerado suspeito de portar a
Síndrome de Asperger – e que, devido a seu modo especial de comportamento,
dedica-se a atividades que requerem o máximo de atenção e método. A perda da
referência paterna joga Oskar em um estado ainda mais particular de existência
– as caças ao tesouro promovidas por Thomas (Tom Hanks) pela cidade de Nova
York e pelo Central Park cessam por completo e ele não consegue ligar-se
satisfatoriamente com a mãe, Linda (Sandra Bullock, que não ajuda nem
atrapalha). A chance de reconectar-se com o passado surge, porém, quando o
menino encontra, sem querer, uma chave guardada dentro de um pequeno envelope
dirigido a alguém com o nome Black. Crente de que tal objeto faz parte de mais
um enigma proposto por Thomas, o menino começa então uma jornada detalhada – e
matematicamente assustadora – para tentar localizar o dono da chave. No
caminho, encontra todo tipo de pessoa, o que o irá obrigar a lidar com uma realidade
com a qual ele nunca antes havia tido contato.
A busca de Oskar pela resolução do
enigma da chave misteriosa e da identidade de Black é interessante: o roteiro
do premiado Eric Roth (Oscar por “Forrest Gump: o contador de histórias”) é bem
amarrado e prende como pode a atenção da plateia, com personagens coadjuvantes
irresistíveis como a doce Abby (interpretada por Viola Davis) e outros que,
mesmo sem uma linha de diálogo, conseguem emocionar com seus dramas pessoais.
Quando Max Von Sydow entra em cena, então, tudo parece que vai finalmente
deslanchar: surdo-mudo graças a um trauma pessoal, seu personagem (que paga
pelo aluguel em um quarto na casa da avó de Oskar e junta-se a ele na
peregrinação em busca de respostas) rouba o filme em poucos minutos – mas então
seu silêncio esbarra na histeria do protagonista juvenil e tudo vai por água
abaixo. O primeiro encontro entre os dois – quando o menino conta sua história
ao calado interlocutor – poderia ser empolgante, com seu texto inteligente e
montagem ágil: na voz irritante de Thomas Horn é quase uma tortura. E se
levarmos em consideração o quão frágil é o clímax do filme, o final da sessão
dá uma violenta sensação de tempo perdido.
Mas é apenas uma sensação. “Tão forte
e tão perto” é bem dirigido, bem escrito, bem editado e tem algumas qualidades
quase redentoras, como Von Sydow, Viola e Tom Hanks. A história é interessante,
há momentos de real emoção e – o que ainda é raro no cinema americano – o
trauma do 11/9 é tratado sob um viés humano e sensível. Mas, levando-se em
conta o quão boa poderia ter sido a união de tanta gente talentosa, não deixa
de ser um filme frustrante e bastante chato. Um escorregão na carreira até
então brilhante de Stephen Daldry.
quarta-feira
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA
O ESCAFANDRO E A BORBOLETA (Le escaphandre et le papillon,
2007, Pathé Renn Productions, 112min) Direção: Julian Schnabel. Roteiro:
Ronald Harwood, livro de Jean-Dominique Bauby. Fotografia: Janusz
Kaminski. Montagem: Juliette Welfling. Música: Paul Cantelon. Figurino:
Olivier Bériot. Direção de arte/cenários: Michel Eric, Laurent Ott.
Produção executiva: Pierre Grunstein, Jim Lemley. Produção: Kathleen
Kennedy, Jon Kilik. Elenco: Mathieu Amalric, Emmanuelle Seigner, Marie
Josée Croze, Anne Consigny, Niels Arestrup, Jean-Pierre Cassell, Max Von
Sydow. Estreia: 22/5/07 (Festival de Cannes)
4 indicações ao Oscar: Diretor (Julian Schnabel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
É de se imaginar a reação do executivo do estúdio (no caso, o Pathé, de Paris) ao ser informado do projeto de "O escafandro e a borboleta": a história de um homem vítima de um derrame que, incapaz de mover um único membro do corpo exceto o olho esquerdo, revê sua vida e seus relacionamentos enquanto escreve suas memórias através de uma técnica nova, desenvolvida por sua fonoaudióloga. O roteiro, baseado no livro autobiográfico do personagem central, previa ainda que os quarenta minutos iniciais do filme fossem totalmente através do seu ponto de vista (ou seja, sem que ele interagisse ativamente com os demais personagens) e o diretor escolhido para o projeto, Julian Schnabel - que havia sido elogiado pela cinebiografia do escritor cubano Reinaldo Arenas, "Antes de anoitecer" - não estava interessado em astros de Hollywood para liderar o elenco, ainda que Johnny Depp e Gary Oldman tivessem sido cogitados para tal. Não é de admirar, portanto que, devido a tais particularidades, a adaptação de Ronald Harwood do livro de Jean-Dominique Bauby corresse o sério risco de manter-se na lista dos "melhores roteiros não filmados" da história. Mas Schnabel pode ser acusado de tudo, menos de desapaixonado: nascido no Brooklyn, aprendeu francês e convenceu o estúdio a mudar o idioma original do script para a língua original do protagonista - que ficou nas mãos do excelente mas pouco "comercial" Mathieu Amalric. Resultado: críticas unanimemente elogiosas e quatro importantes (e merecidíssimas) indicações ao Oscar: diretor, roteiro, fotografia e edição.
Realmente, a experiência de assistir a "O escafandro e a borboleta" não é das mais fáceis, uma vez que a obra de Schnabel foge do habitual festival de clichês que inunda os filmes do gênero e exige do espectador um mergulho sem reservas no universo restrito do protagonista. No entanto, sua inteligência e sensibilidade, somados à criatividade em transformar palavras e sentimentos abstratos em imagens de extrema poesia, fazem com que, ao final da sessão, o público sinta-se banhado de uma beleza de que somente o cinema europeu - livre das amarras financeiras da indústria hollywoodiana - é capaz. Anos-luz distante dos dramalhões sobre doenças e superação, a história de Bauby - editor da revista Elle francesa - é sobretudo coberta de humanidade, ao eleger como protagonista um homem comum, com defeitos reais e qualidades verossímeis, que tem sua existência transformada radicalmente de uma hora para outra e se vê obrigado a encarar pensamentos dos quais fugiu a vida inteira. Com a ajuda da atuação brilhante de Mathieu Amalric - que não precisa nem mesmo falar pela maior parte do filme - essa viagem por sua consciência é pontuada por cenas de uma poesia melancólica e nostálgica, valorizadas pela fotografia do oscarizado Janusz Kaminski ("A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan"), que consegue revestir a claustrofobia inerente à situação da trama com um verniz de delicadeza e uma atmosfera de sonho.
Já começando o roteiro com a internação de Bauby - sem deixar tempo para o espectador acostumar-se com a nova situação, assim como ele - "O escafandro e a borboleta" o acompanha pelo calvário de exames, visitas, especulações e procedimentos hospitalares tendo apenas seus pensamentos e memórias como vínculos com seu cotidiano pré-derrame. Sofrendo de uma condição chamada "Síndrome de Encarceramento" - consequência de um AVC que o deixou em coma por várias semanas - Bauby tem plena consciência do que se passa à sua volta, mas é incapaz de mover qualquer parte do corpo, com exceção do olho esquerdo, com o qual consegue enxergar as pessoas que passam a fazer parte de sua rotina, como a fonoaudióloga Henriette (Marie Josée-Croze) - que irá ajudar-lhe em sua comunicação com o mundo e até escrever um livro - e sua ex-mulher, Céline (Emmanuelle Seigner, sra. Roman Polanski), que releva a separação dolorosa para manter-se a seu lado com os três filhos pequenos. Além disso, Bauby repassa em sua mente também a relação carinhosa que mantém com o pai (Max Von Sydow).
Equilibrando com maestria cenas tocantes e diálogos inteligentes com sequências feéricas que exploram o turbilhão sensorial de seu protagonista sem nunca cair no sentimentalismo - com direito até a um inesperado senso de humor em determinados momentos - "O escafandro e a borboleta" é uma soma de qualidades que faz dele um filme imperdível e inesquecível. Além da fotografia inspirada de Kaminski e do roteiro perfeito em sua mistura entre drama, poesia e delicadeza narrativa, a direção de Schnabel (merecidamente indicado ao Oscar por seu trabalho) consegue ultrapassar os limites de um gênero ingrato e elevar seu filme a uma pequena obra-prima.
4 indicações ao Oscar: Diretor (Julian Schnabel), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem
É de se imaginar a reação do executivo do estúdio (no caso, o Pathé, de Paris) ao ser informado do projeto de "O escafandro e a borboleta": a história de um homem vítima de um derrame que, incapaz de mover um único membro do corpo exceto o olho esquerdo, revê sua vida e seus relacionamentos enquanto escreve suas memórias através de uma técnica nova, desenvolvida por sua fonoaudióloga. O roteiro, baseado no livro autobiográfico do personagem central, previa ainda que os quarenta minutos iniciais do filme fossem totalmente através do seu ponto de vista (ou seja, sem que ele interagisse ativamente com os demais personagens) e o diretor escolhido para o projeto, Julian Schnabel - que havia sido elogiado pela cinebiografia do escritor cubano Reinaldo Arenas, "Antes de anoitecer" - não estava interessado em astros de Hollywood para liderar o elenco, ainda que Johnny Depp e Gary Oldman tivessem sido cogitados para tal. Não é de admirar, portanto que, devido a tais particularidades, a adaptação de Ronald Harwood do livro de Jean-Dominique Bauby corresse o sério risco de manter-se na lista dos "melhores roteiros não filmados" da história. Mas Schnabel pode ser acusado de tudo, menos de desapaixonado: nascido no Brooklyn, aprendeu francês e convenceu o estúdio a mudar o idioma original do script para a língua original do protagonista - que ficou nas mãos do excelente mas pouco "comercial" Mathieu Amalric. Resultado: críticas unanimemente elogiosas e quatro importantes (e merecidíssimas) indicações ao Oscar: diretor, roteiro, fotografia e edição.
Realmente, a experiência de assistir a "O escafandro e a borboleta" não é das mais fáceis, uma vez que a obra de Schnabel foge do habitual festival de clichês que inunda os filmes do gênero e exige do espectador um mergulho sem reservas no universo restrito do protagonista. No entanto, sua inteligência e sensibilidade, somados à criatividade em transformar palavras e sentimentos abstratos em imagens de extrema poesia, fazem com que, ao final da sessão, o público sinta-se banhado de uma beleza de que somente o cinema europeu - livre das amarras financeiras da indústria hollywoodiana - é capaz. Anos-luz distante dos dramalhões sobre doenças e superação, a história de Bauby - editor da revista Elle francesa - é sobretudo coberta de humanidade, ao eleger como protagonista um homem comum, com defeitos reais e qualidades verossímeis, que tem sua existência transformada radicalmente de uma hora para outra e se vê obrigado a encarar pensamentos dos quais fugiu a vida inteira. Com a ajuda da atuação brilhante de Mathieu Amalric - que não precisa nem mesmo falar pela maior parte do filme - essa viagem por sua consciência é pontuada por cenas de uma poesia melancólica e nostálgica, valorizadas pela fotografia do oscarizado Janusz Kaminski ("A lista de Schindler" e "O resgate do soldado Ryan"), que consegue revestir a claustrofobia inerente à situação da trama com um verniz de delicadeza e uma atmosfera de sonho.
Já começando o roteiro com a internação de Bauby - sem deixar tempo para o espectador acostumar-se com a nova situação, assim como ele - "O escafandro e a borboleta" o acompanha pelo calvário de exames, visitas, especulações e procedimentos hospitalares tendo apenas seus pensamentos e memórias como vínculos com seu cotidiano pré-derrame. Sofrendo de uma condição chamada "Síndrome de Encarceramento" - consequência de um AVC que o deixou em coma por várias semanas - Bauby tem plena consciência do que se passa à sua volta, mas é incapaz de mover qualquer parte do corpo, com exceção do olho esquerdo, com o qual consegue enxergar as pessoas que passam a fazer parte de sua rotina, como a fonoaudióloga Henriette (Marie Josée-Croze) - que irá ajudar-lhe em sua comunicação com o mundo e até escrever um livro - e sua ex-mulher, Céline (Emmanuelle Seigner, sra. Roman Polanski), que releva a separação dolorosa para manter-se a seu lado com os três filhos pequenos. Além disso, Bauby repassa em sua mente também a relação carinhosa que mantém com o pai (Max Von Sydow).
Equilibrando com maestria cenas tocantes e diálogos inteligentes com sequências feéricas que exploram o turbilhão sensorial de seu protagonista sem nunca cair no sentimentalismo - com direito até a um inesperado senso de humor em determinados momentos - "O escafandro e a borboleta" é uma soma de qualidades que faz dele um filme imperdível e inesquecível. Além da fotografia inspirada de Kaminski e do roteiro perfeito em sua mistura entre drama, poesia e delicadeza narrativa, a direção de Schnabel (merecidamente indicado ao Oscar por seu trabalho) consegue ultrapassar os limites de um gênero ingrato e elevar seu filme a uma pequena obra-prima.
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