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quarta-feira

AMARGO REGRESSO

AMARGO REGRESSO (Coming home, 1977, Jerome Hellman Productions, 127min) Direção: Hal Asbhy. Roteiro: Waldo Salt, Robert C. Jones, estória de Nancy Dowd. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Don Zimmerman. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Michael Haller/George Gaines. Produção: Jerome Hellman. Elenco: Jane Fonda, Jon Voight, Bruce Dern, Penelope Milford, Robert Carradine. Estreia: 15/02/78

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Hal Asbhy), Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Bruce Dern), Atriz Coadjuvante (Penelope Milford), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 3 Oscar: Ator (Jon Voight), Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Ator/Drama (Jon Voight), Atriz/Drama (Jane Fonda)

Aguerrida militante contra a Guerra do Vietnã - o que lhe causou sérios problemas com o FBI, como ela mesma conta em sua autobiografia "Minha vida até agora" (Ed. Record) - a atriz Jane Fonda não apenas visitou o país como forma de entender os detalhes do sangrento conflito como empenhou-se em uma campanha para divulgar a maneira desumana com que os veteranos eram tratados pelo governo norte-americano. De inúmeras conversas com homens que voltaram aos EUA mutilados, paraplégicos e com sérios problemas psicológicos, surgiu a ideia de um filme que atingisse o público não através de discursos, mas de uma história dramática sobre pessoas comuns, que poderiam morar na casa ao lado do espectador. Sua tentativa de conscientizar a plateia - que contou com a ajuda de um ex-soldado chamado Ron Kovic, que estava tentando levar suas experiências para as telas em um filme chamado "Nascido em 4 de julho" - deu muito mais certo do que ela poderia imaginar. No mesmo ano em que outro filme sobre o Vietnã, "O franco-atirador", com uma visão mais conservadora da guerra, arrebatou os principais Oscar (filme e diretor para Michael Cimino), "Amargo regresso" saiu da festa da Academia com três estatuetas bastante importantes: ator, atriz e roteiro original. Era a prova inconteste de que o público americano estava mais do que disposto a ouvir e questionar um de seus maiores fracassos.

A ideia original de Fonda era contar com a direção do britânico John Schlesinger, que declinou do convite por considerar (acertadamente) que somente um cineasta norte-americano poderia contar a história explorando todas as suas nuances críticas e sentimentais. Entra em cena, então, Hal Ashby, dono de uma sensibilidade única, capaz de iluminar temas sombrios - como "Ensina-me a viver" (71), bizarra história de amor entre um adolescente e uma idosa - e criticar as instituições tradicionais - como visto em "A última missão" (73), estrelado por Jack Nicholson e que mirava a Marinha americana. Ciente das intenções sociopolíticas do roteiro desenvolvido por Waldo Salt e Robert C. Jones, Ashby abdicou da ironia característica de seus filmes anteriores para contar uma história de amor intensa e delicada, sem medo de expor com crueza e realismo todos os ângulos possíveis da trama, desde seu pacifismo explícito até seu foco na sexualidade de veteranos da guerra, algo até então nunca mostrado no cinema hollywoodiano. De forma poética e adulta, "Amargo regresso" conseguiu romper paradigmas e se tornou, com justiça, um dos filmes mais aclamados sobre o assunto, mostrando que Jane Fonda, mais do que uma militante de plantão, como a acusavam alguns detratores da época, ainda era uma atriz capaz de atrair público para as salas de cinema, mesmo em filmes com assuntos indigestos.


Em um grande momento da carreira, Fonda interpreta Sally Hyde, a esposa de um capitão do Exército americano que, sozinha em casa depois que o marido volta ao Vietnã, inicia um trabalho como voluntária em um hospital de veteranos. Chocada com a forma como muitos deles são tratados - praticamente ignorados pelo governo que os havia mandado para o conflito - ela reencontra, dentre os pacientes, um antigo colega de escola, Luke Martin (Jon Voight), paralisado da cintura para baixo e revoltado com sua situação. Convivendo com a jovem Violet (Penelope Milford, em papel oferecido à Meryl Streep e indicada ao Oscar de atriz coadjuvante) - namorada de um soldado e irmã de um rapaz com sérios problemas psicológicos depois de ter voltado da Ásia - e tomando consciência de uma realidade que conhecia apenas pelos olhos miltaristas do marido (Bruce Dern, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), Sally acaba se apaixonando por Luke, iniciando um romance a que ela sente-se incapaz de resistir.

Em um papel oferecido a Sylvester Stallone, Jack Nicholson e Al Pacino, o ator Jon Voight tem o grande momento de sua carreira, com uma interpretação onde mescla indignação e doçura com uma maestria poucas vezes vista. Sua transformação no decorrer da trama - de veterano furioso a homem apaixonado e consciente de sua importância para evitar que seu drama se repita com outros jovens - é fascinante, e encontra eco em um desempenho tocante de Jane Fonda. Com uma atuação discreta e eficiente, ela faz jus a seu segundo Oscar - o primeiro foi consequência de seu trabalho em "Klute, o passado condena" (71) - sem precisar apelar para a lágrima fácil. Assim como acontece com o personagem de Voight, sua Sally Hyde passa por profundas mudanças do início ao fim do filme, e poucas intérpretes seriam capazes de apresentar tantas alterações de maneira tão sutil quanto Fonda, que transmite em cada cena a importância da mensagem pacifista da história contada. Quando estão juntos em cena, Fonda e Voight soltam faíscas - e sua cena de sexo, bem dirigida e de extremo bom-gosto, é daquelas de ficar para sempre na memória do espectador. Bonito, relevante e sensível, "Amargo regresso" é mais um marco na brilhante trajetória de Jane e um dos filmes mais importantes de sua época.

segunda-feira

TIGERLAND


TIGERLAND, A CAMINHO DA GUERRA (Tigerland, 2000, New Regency Pictures, 101min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Ross Klavan, Michael McGruther. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Mark Stevens. Música: Nathan Larson. Figurino: Thomas Stokes. Direção de arte/cenários: Andrew Laws/Shawn R. McFall. Produção executiva: Ted Kurdyla. Produção: Beau Flynn, Steven Haft, Arnon Milchan. Elenco: Colin Farrell, Matthew Davis, Clifton Collins Jr., Tom Guiry, Shea Whigham, Russell Richardson, Michael Shannon, Cole Hauser. Estreia: 06/10/00


Normalmente, quando o diretor Joel Schumacher tem dinheiro em mãos comete bombas como os dois "Batman" com sua assinatura. Quando conta com estrelas do porte de Julia Roberts entrega obras totalmente dispensáveis, como o xaroposo "Tudo por amor". E quando tem roteiros com a griffe John Grisham, varia entre o correto "O cliente" e o quase ótimo "Tempo de matar". Mas é quando surge despretensioso e com um elenco de atores - e não astros - que o cineasta que já realizou o sensacional "Um dia de fúria" - com Michael Douglas em seu melhor trabalho - demonstra que de vez em quando ele sabe ser um bom cineasta.

“Tigerland, a caminho da guerra” é o melhor exemplo dessa teoria. Feito com um orçamento minúsculo, sem alarde e com um elenco praticamente desconhecido, o filme pode não ter feito um sucesso estrondoso – muito longe disso, aliás – mas recolheu elogios calorosos e o que não é nem um pouco ruim, um prêmio da Associação de Críticos de Boston para seu protagonista, o irlandês Colin Farrell. Farrell, estreante em cinema, mereceu o prêmio e os elogios. Com uma postura rebelde na vida real, ele cabe como uma luva no papel de Roland Bozz, um recruta com sérios problemas disciplinares que, no ano de 1971 vai para um campo de treinamento chamado Tigerland, a última parada dos soldados americanos antes de serem enviados para o Vietnã. Líder por natureza, Bozz imediatamente esbarra na autoridade retratada por seus superiores e na antipatia causada entre alguns colegas, que não aceitam sua maneira de lidar com suas idéias pacifistas. Aos poucos, Bozz transforma-se na esperança dos soldados que querem fugir da guerra.



Talvez uma das maiores qualidades de “Tigerland” seja o fato de ele ser um filme de guerra sem guerra. Toda sua trama se passa antes que suas personagens sejam de fato enviadas ao Vietnã, o que passa uma sensação de tensão que normalmente não se vê em produções do gênero. O treinamento de Bozz e seus colegas geram cenas bastante fortes, que nunca fogem do clichê, mas que o utilizam com inteligência e sensibilidade. Essa sensibilidade fica clara em momentos mais emotivos, como as conversas do protagonista com Cantwell (Tom Guiry), jovem que deixou mulher e quatro filhos em casa e um dos líderes do pelotão, Miter (o ótimo Clifton Collins Jr.) que decidiu ir pra guerra para morrer como um homem e provar à família que é corajoso.

"Tigerland" é um pequeno filme de guerra, sem maiores arroubos de criatividade, com qualidades gritantes. A fotografia de Matthew Libatique, o roteiro surpreendente e conciso e a direção sem tiques de Schumacher contam preciosos pontos para seu resultado geral, mas é a empolgante atuação deColin Farrell que o eleva a status de pérola a ser descoberta. Em seu primeiro grande papel, Farrell - uma das maiores promessas do início do século - deita e rola, em uma interpretação na medida exata entre a rebeldia e a doçura. Não fosse o trabalho impecável do ator, era bem provável que esse pequeno drama de guerra passasse absolutamente despercebido.

NASCIDO EM 4 DE JULHO

NASCIDO EM 4 DE JULHO (Born on the fourth of july, 1989, Universal Pictures, 145min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, Ron Kovic, livro de Ron Kovic. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: John Williams. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Derek R. Hill. Casting: Risa Bramon, Billy Hopkins. Produção: A. Kitman Ho, Oliver Stone. Elenco: Tom Cruise, Willem Dafoe, Raymond J. Barry, Lily Taylor, Stephen Baldwin, Frank Whaley, Kyra Sedgwick, Tom Berenger. Estreia: 20/12/89

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Oliver Stone), Ator (Tom Cruise), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Diretor (Oliver Stone), Montagem
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Oliver Stone), Ator/Drama (Tom Cruise), Roteiro

Em meados dos anos 70, desfrutando do merecido sucesso obtido graças aos filmes da série "O poderoso chefão", Al Pacino tinha um projeto de estimação: ele queria fazer o papel central na adaptação da autobiografia de um veterano do Vietnã que havia ficado paraplégico depois de ter sido atingido durante um combate. Nem mesmo o prestigio de Pacino, no entanto, foi suficiente para salvar oa ideia de ser cancelada antes mesmo de chegar à fase de produção. Mas depois de 1986 - e do sucesso acachapante de "Platoon" - o conflito no sudeste asiático tornou-se assunto "quente" junto aos estúdios e, com o oscarizado Oliver Stone à frente do projeto, "Nascido em 4 de julho", baseado nas memórias de Ron Kovic, finalmente chegou às telas americanas, com outro astro milionário no papel central: Tom Cruise.

Batalhando para ser levado a sério como ator dramático desde que contracenou com Paul Newman em "A cor do dinheiro" (86), Cruise decidou-se com um afinco louvável em sua missão de tornar-se Kovic, que não era exatamente favorável a sua escolha para interpretá-lo nas telas - afinal de contas, Cruise havia sido o galã e responsável pelo estrondoso sucesso de "Top gun, ases indomáveis", que era uma nem tão mal-disfarçada propaganda bélica envolta em uma historinha de amor. Foi preciso que Oliver Stone interviesse a seu favor - e que o próprio ator demonstrasse sua paixão pelo roteiro - para que finalmente o veterano anuísse. E, a julgar pela medalha de honra com que presenteou o galã de "Cocktail" ao final das filmagens, não se arrependeu em nenhum momento da escolha de Stone.


Realmente, Cruise se esforçou nitidamente para deixar para trás o sorriso radiante de mocinho que tanto encantou suas fãs. Desgrenhado, amargurado, raivoso e desiludido com as mentiras contadas pelo governo do país que amava mais do que tudo, Kovic, o protagonista, é o papel perfeito para qualquer ator buscando a glória e - talvez mais do que tudo - uma certa estatueta dourada. Por se enfeiar, por despir-se de vaidade e por se permitir alcançar algo mais do que enfeitar paredes de quartos de adolescentes, Cruise levou um Golden Globe e chegou mais perto que nunca de um Oscar (que perdeu para Daniel Day-Lewis, realmente bem superior em "Meu pé esquerdo"). Seu trabalho tem momentos de real emoção, impossível negar. Mas "Nascido em 4 de julho" é muito mais do que o veículo de um jovem astro em direção ao respeito artístico. É, antes de mais nada, um importante libelo pacifista, feito com todo o coração pelo sempre apaixonado Oliver Stone.

De certa forma foi até bom que o livro de Ron Kovic tenha demorado tanto para ver a luz dos refletores. Ainda que provavelmente Al Pacino tivesse feito o papel do protagonista com o perfeccionismo de sempre, é duvidoso se William Friedkin, a primeira escolha para dirigir o material, tenha os mesmos sentimentos que Stone em relação a ele. Apesar das cenas violentas passadas na guerra, esse trabalho do diretor é comandado principalmente pela emoção. É sobre a relação de Kovic com a perda dos movimentos, com sua família católica, com seus ideais equivocados transmutados em fúria, que "Nascido em 4 de julho" fala. Não é um filme DE guerra, é um filme sobre COMO a guerra é cruel, injusta e - por que não? - cegamente democrática. É um filme sobre certezas despedaçadas e sobre a transformação de um jovem que sonhava em ser como John Wayne em "Iwo Jima" em um pacifista ativo e realista. E é justamente nessa transição - repleta de armadilhas para qualquer ator - que Cruise sofre. O texto é forte, contundente. A direção de Stone é discreta e direta. Mas falta estofo dramático ao ator central, que, apesar dos esforços, não chega a entregar a atuação que poderia.

Tecnicamente "Nascido em 4 de julho" é um primor: a fotografia de Robert Richardson (dividida em apenas três cores que estabelecem o clima de cada cena) é esmerada e a edição (premiada com o Oscar) consegue ser, ao mesmo tempo, ágil e contemplativa. A trilha sonora do veterano John Williams cumpre seu papel de emocionar sempre que exigida e o elenco coadjuvante (com vários atores de "Platoon" em pontas) pontua com sobriedade o espetáculo de Tom Cruise. Mas é justamente Cruise - ainda que bastante bem na maior parte do filme - o elo menos forte do filme. Mas só o fato de, por causa dele, o filme ter encontrado seu público, já é um grande mérito.

quarta-feira

PECADOS DE GUERRA

PECADOS DE GUERRA (Casualties of war, 1989, Columbia Pictures, 121min) Direção: Brian DePalma. Roteiro: David Rabe, livro de Daniel Lang. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Bill Pankow. Música: Ennio Morricone. Figurino: Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Wolf Kroeger/Peter Hancock, Hugh Scaife. Casting: Lynn Stalmaster. Produção: Art Linson. Elenco: Michael J. Fox, Sean Penn, John C. Reilly, John Leguizamo, Don Harvey, Thuy Thu Le. Estreia: 18/8/89

Depois da chuva de Oscar e do sucesso de crítica e bilheteria de "Platoon", Hollywood abriu de vez as portas a filmes versando sobre o Vietnã, um tema até então tabu entre os estúdios - ainda que "O franco-atirador" e "Apocalypse now" tenham tido seu quinhão de prestígio. No mesmo ano em que o mesmo Oliver Stone de "Platoon" mostrou outro ângulo do conflito no contundente "Nascido em 4 de julho", outro cineasta de primeiro time embarcou na tendência. Ainda no embalo do merecido sucesso de "Os intocáveis", Brian DePalma comandou "Pecados de guerra", uma história real de crueldade e violência que, apesar de não fazer o devido barulho junto às cerimônias de premiação - nem tampouco nas caixas registradoras - é forte o bastante para ser considerada um dos pontos altos de sua carreira irregular.

No ar nos EUA como um dos protagonistas da série "Caras e caretas" e marcado como o adolescente Marty McFly dos filmes "De volta para o futuro", Michael J. Fox, tentou, em "Pecados de guerra" provar que não era um ator tão limitado quanto seus detratores alegavam (e Sean Penn, seu colega de elenco, utilizava dessas críticas nos bastidores, para provocar reações mais intensas na sua relação no filme, incentivado pelo diretor). Fox vive o jovem soldado Eriksson, mais um entre os milhares de americanos que foram lutar por seu país na guerra do Vietnã. Ético, pacífico e honrado, ele testemunha horrorizado as atrocidades que o conflito desperta na humanidade, tentando compreender o que acontece à sua volta. Sua indignação chega a extremos, no entanto, quando, liderados por um colega de pelotão, o sádico Meserve (Sean Penn), um grupo de soldados sequestra, estupra e mata uma jovem camponesa. Chocado, ele resolve levar a questão a instâncias superiores, mas esbarra na indiferença que norteia os crimes cometidos em nome da paz.



Deixando de lado os movimentos estonteantes de câmera que caracterizaram seus primeiros trabalhos, DePalma atinge, em "Pecados de guerra" um outro nível em sua obra. Confiando na força da história, das personagens e da mensagem pacifista como um todo, o homem que legou ao gênero suspense filmes como "Carrie, a estranha" e "Doublé de corpo" concentra-se mais em criar o clima de desesperança e angústia dos soldados envolvidos no incidente do que em uma edição picotada ou uma violência exarcebada. Apesar de tratar-se de um filme de guerra, o sangue que corre na história de Eriksson não é o sangue de soldados em batalha e sim de civis, de gente inocente vitimizada por um horror sem fim. Sintomaticamente, a cena mais sanguinolenta do filme é a morte estúpida da jovem raptada por Meserve e cia - que tem lugar justamente fora do front propriamente dito.

E em mais um reflexo de sua intenção primordial de escorar sua obra em pessoas reais e não em efeitos de fotografia, DePalma escolheu um elenco não apenas adequado, e sim extremamente inteligente. Se Michael J. Fox sai-se muito bem na pele do atarantado Eriksson, fugindo com competência da persona adolescente forjada por seus papéis mais famosos, seu elenco coadjuvante não fica atrás. John C. Reilly - estreando no cinema - e John Leguizamo - alguns anos antes de seu assustador "Benny Blanco from the Bronx", do filme "O pagamento final", também de DePalma - seguram bem a barra de servir de escada para o duelo entre o protagonista e o "vilão", interpretado por um já sensacional Sean Penn.

Ainda no início de sua carreira - e já dono de uma personalidade forte como intérprete - Penn assusta e fascina como o insensível Meserve, um rapaz transformado em quase-animal que vê na possibilidade de cometer atrocidades e ser perdoado por elas uma forma de legitimar sua falta de humanidade - ele é uma espécie de retrato de uma juventude inconsequente e cruel, vista com complacência por uma sociedade deturpada por valores morais e éticos equivocados.

Ao questionar não apenas a guerra em si mas também as engrenagens que levam humanos a tornarem-se armas beligerantes e amorais diante de situações extremas, "Pecados de guerra" merece ser louvado e admirado.

APOCALYPSE NOW


APOCALYPSE NOW (Apocalypse now, 1979, United Artists/Miramax, 202min) Direção e produção: Francis Ford Coppola. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Lisa Fruchtman, Gerald B. Greenberg, Walter Murch. Música: Carmine Coppola e Francis Ford Coppola. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/George R. Nelson. Casting: Terry Liebling, Vic Ramos. Elenco: Marlon Brando, Martin Sheen, Robert Duvall, Dennis Hopper, Sam Bottoms, Laurence Fishburne, Harrison Ford. Estreia: 10/5/79

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 2 Oscar: Fotografia, Som
Vencedor da Palma de Ouro em Cannes: Melhor Filme
Vencedor de 3 Golden Globes: Diretor (Francis Ford Coppola), Ator Coadjuvante (Robert Duvall), Trilha Sonora


Alguns filmes tem bastidores tão ou mais interessantes do que o produto que chega às telas dos cinemas. Um exemplo óbvio dessa afirmação é "Apocalypse now", que, lançado no festival de Cannes de 1979 tornou-se o primeiro - e até hoje único - filme a abocanhar a Palma de Ouro sem estar terminado. E se for levado em consideração que as filmagens começaram em 1976 nas Filipinas e que foram mais turbulentas que a própria guerra do Vietnã que retrata, percebe-se claramente que a adaptação livre de Francis Ford Coppola do livro "O coração das trevas", de Joseph Conrad é uma das mais problemáticas que se tem notícia. O inferno, no entanto, nesse caso, levou ao paraíso. Eleito em 2007 pelo American Film Institute como o 30º melhor filme da história, além de frequentar com assiduidade as listas dos melhores de qualquer instituição especializada em cinema, "Apocalypse now" é um dos filmes mais importantes realizados em Hollywood, e uma prova do poder de fogo de seu diretor.

Cheio de moral graças ao sucesso merecido dos dois primeiros capítulos da série "O poderoso chefão", Coppola viajou para as Filipinas - mesmo indo contra os conselhos de Roger Corman - para transformar a África do livro de Conrad no Vietnã, cuja guerra estava recém acabada e ainda dolorosamente na vida dos americanos. Seu plano era passar seis semanas filmando. Acabou passando 16 meses de crises pessoais, atrasos no cronograma, estouro de orçamento, imprevistos técnicos e artísticos e principalmente graves problemas de saúde - o ator principal, Martin Sheen, chegou a ter um enfarte (aos 36 anos), devidamente escondido dos executivos que produziam o filme. A epopeia de Coppola em realizar seu filme acabou devidamente registrado por sua esposa, Eleanor, que em 1991 lançou o documentário "O apocalipse de um cineasta", um precioso retrato de uma das mais complicadas filmagens da história do cinema.


Antes que Coppola assumisse o posto de diretor, "Apocalypse now" correu o sério risco de ser assinado por um George Lucas pré-"Star Wars", até que a demora em sua produção acabou empurrando o filme para seu colo. A demora em encontrar um protagonista - Steve McQueen, Al Pacino, Jeff Bridges e um entusiasmado Nick Nolte foram cogitados - seria o menor dos problemas que Coppola iria enfrentar. Mesmo com a saída de Harvey Keitel (substituído por Martin Sheen), as coisas não davam a impressão de que iriam transformar-se no rolo compressor que se tornaram; Sam Bottoms fez a maioria de suas cenas chapado (de speed, LSD ou maconha), Laurence Fishburne mentiu a idade para entrar no elenco(tinha apenas 14 anos), James Caan cobrou demais para participar (um jovem Harrison Ford assumiu seu papel) e Marlon Brando, escalado para o crucial papel de Kurtz foi provavelmente a causa maior do fato do cineasta ter pensado seriamente em suicídio.

A história de "Apocalypse now" começa em 1969. O capitão Benjamin Willard (Martin Sheen) recebe a missão (absolutamente secreta) de localizar, no Cambodja, o Coronel Kurtz (Marlon Brando), um genial e condecorado soldado americano que, alegam seus superiores, perdeu a sanidade mental e, liderando um grupo de nativos, vem armando atos de violência e terrorismo nas florestas asiáticas. Willard não apenas tem de encontrar Kurtz, mas também matá-lo. Acompanhado de um grupo de soldados, ele atravessa um rio que não conhece absolutamente - testemunhando atos enlouquecidos de guerra - e chega até as matas onde está seu alvo. Surpreendido e pego como refém, ele vê no homem que procura o retrato do absurdo do conflito.

Na pele do Coronel Kurtz, Marlon Brando mostra porque é um nome ímpar na história da sétima arte. Ao chegar às Filipinas muitos quilos mais gordo, careca e sem ter lido uma única linha do romance de Conrad, o ator despertou a ira de Coppola, mas é inegável que, no momento em que entra em cena, na escuridão planejada por Vittorio Storaro (vencedor do Oscar de fotografia), ele rouba o filme descaradamente. Recitando T.S. Elliot, assustadoramente perturbado e expressando física e psicologicamente os horrores da guerra, seu Coronel Kurtz imediatamente gruda no inconsciente do público como uma das performances mais fascinantes do cinema, dando sentido ao que antes parecia uma viagem alucinógena de Coppola e cia.

Mas afinal de contas, "Apocalypse now" é realmente uma obra-prima? Sim. E não. Sim, porque qualquer filme que apresentasse a atuação arrebatadora de Brando e a fotografia deslumbrante de Storaro e gravasse na memória da audiência sequências tão brilhantes como o ataque aéreo ao som da "Cavalgada das Valquírias", de Wagner mereceria o título. E não, porque obras-primas com falhas dificilmente podem ser chamadas assim. E "Apocalypse" tem algumas falhas. Entre os momentos de brilho absoluto encontram-se cenas simplesmente aborrecidas e lentas, que quebram o ritmo da narrativa - e nem mesmo a versão "Redux" lançada em Cannes em 2001 consegue salvar esses momentos. Seus trinta minutos finais - justamente aqueles em que Brando bota o filme no bolso, apesar do trabalho excelente de Martin Sheen, Dennis Hopper (como um fotógrafo de guerra) e Robert Duvall (como um militar metido a surfista) - compensam qualquer sono, mas ainda assim é um filme que requer mais paciência do que o habitual.

Claustrofóbico, lisérgico, aterrador... são palavras que descrevem o inferno imaginado por Francis Ford Coppola. Mas é a voz de Marlon Brando como Coronel Kurtz que nunca mais sai da mente da audiência: "O horror... o horror..." E dizem que este é o filme que mais perto chega da verdadeira guerra do Vietnã...

sábado

O FRANCO-ATIRADOR


O FRANCO-ATIRADOR (The deer hunter, 1978, Universal Pictures, 182min) Direção: Michael Cimino. Roteiro: Deric Washburn, baseado em uma história de Michael Cimino, Deric Washburn, Louis Garfinkle, Quinn K. Redeker. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Peter Zinner. Música: Stanley Myers. Casting: Cis Corman. Produção: Michael Cimino, Michael Deeley, John Peverall, Barry Spikings. Elenco: Robert DeNiro, John Savage, John Cazale, Christopher Walken, Meryl Streep, George Dzunza, Chuck Aspegren. Estreia: 08/12/78

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Atriz Coadjuvante (Meryl Streep), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Michael Cimino), Ator Coadjuvante (Christopher Walken), Montagem, Som
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Michael Cimino)


A guerra do Vietnã acabou em 1975 e não demorou muito para que alguns - corajosos - cineastas resolvessem mexer nas feridas ainda abertas do povo americano em relação à tragédia. Em 1978, nada menos do que dois filmes bastante interessantes e bem-sucedidos deram voz aos veteranos de um dos mais absurdos conflitos bélicos da história (se é que algum conflito bélico é menos do que absurdo...) Dirigido por Hal Ashby, "Amargo regresso" deu Oscars a Jane Fonda e Jon Voight, mas "O franco-atirador", de Michael Cimino, saiu-se ainda melhor, levando pra casa 5 estatuetas concedidas pela Academia, entre as quais as de Melhor Filme, Direção e Ator Coadjuvante. Em comum, os dois filmes tem, além da temática, uma visão humanista e a preocupação com as consequências psicológicas da guerra, tanto em quem lutou nela quanto nas pessoas que os rodeiam.

A trama de "O franco-atirador" passa-se basicamente em uma pequena cidade da Pensilvânia, que tem a indústria do aço como principal meio de subsistência. É lá que moram três amigos que estão às vésperas de embarcar para o Vietnã. Mike (Robert DeNiro), Nick (Christopher Walken) e Steven(John Savage) aproveitam o casamento do último para realizar uma espécie de festa de despedida antes do embarque - que só acontecerá depois de uma última caçada de cervos, um de seus hobbies e, talvez, um de seus últimos encontros com os amigos. Já na guerra, os amigos são feitos reféns, sofrem torturas físicas e psicológicas - em especial uma roleta-russa apavorante que virou marca registrada do filme. Depois de conseguirem fugir, no entanto, eles não mais parecem unidos. Steven volta pra casa sem as duas pernas e praticamente abandona a esposa e o filho pequeno. E ao chegar em sua cidade natal, Mike descobre que Nick não retornou do conflito e resolve buscá-lo, mesmo sendo apaixonado pela noiva dele, Linda (Meryl Streep). Chegando novamente no Vietnã, ele encontra seu melhor amigo em total desequilíbrio emocional.


O melhor em "O franco-atirador" não são suas cenas de guerra - ainda que sejam extremamente bem-feitas e realistas. O que mais chama atenção no filme de Cimino (que desfrutou de alguns momentos de glória antes de ver sua carreira afundar com o megalomaníaco "O portal do paraíso") é sua profunda compreensão humana, sua sensibilidade em lidar com as relações interpessoais traumáticas das personagens sem soar piegas ou exagerado. E para isso conta com um elenco nunca aquém do espetacular. Na pele de Mike, Robert DeNiro mais uma vez demonstra seu talento além do normal. Todas as suas cenas dramáticas são dignas de figurar entre os momentos de maior destaque na sua carreira: seu romance hesitante com Linda, sua relação de culpa com Steven e sua busca de redenção com Nick fecham um círculo de sentimentos que só mesmo alguém com o cacife de DeNiro poderia encarar com tal segurança. E cercado dos atores que ele está, não há como ter erro.

Meryl Streep (com sua primeira indicação ao Oscar) improvisou a maioria de suas falas, com o incentivo do diretor e transmite a intensidade de seus sentimentos contraditórios com a segurança de uma veterana - além de ter ameaçado abandonar o filme caso se concretizasse a ameaça de demissão do ator John Cazale, que estava morrendo de câncer durante a produção e de quem era noiva. Cazale terminou o filme (suas cenas foram as primeiras a ser filmadas) e morreu em seguida, deixando um legado de grandes filmes (os dois primeiros "O poderoso chefão" e "Um dia de cão" entre eles) e atuações intensas. John Savage, como Steven, passa a exata noção do desespero de um homem ao sentir-se privado de sua integridade física devido a uma violência sem razão e Christopher Walken levou sua estatueta de ator coadjuvante por seu trabalho impressionante como Nick, protagonista das duas cenas mais conhecidas do filme (e que foram responsáveis por uma onda de suicídios com roleta-russa nos anos subsequentes).

A longa sequência inicial de "O franco-atirador" não deixa de evocar as primeiras cenas de "O poderoso chefão" (que também começa com um casamento), mas ao contrário do filme de Copolla, aqui a violência que cobre o céu das personagens é menos glamourosa e mais crua e verdadeira. A guerra, em "O franco-atirador" é uma personagem a mais, um pesadelo constante na memória de seus veteranos e de seus familiares. Assim como o tiro único que deve matar o cervo do título original, ela é capaz de aniquilar a essência de felicidade dos seres humanos. A melancólica cena final, no bar em que os amigos costumavam se reunir, é de partir o coração. Não é de surpreender que tenha sido tão bem recebido na ocasião de seu lançamento: é um testamento vivo de um inconsciente coletivo em uma época marcada pela desilusão e pela tristeza.

Mais que um filme de guerra, "O franco-atirador" é um filme de pessoas lidando com ela e, como tal, um precioso estudo sobre a dor e a (falta de) esperança.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...