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segunda-feira

O TESOURO DE SIERRA MADRE

O TESOURO DE SIERRA MADRE (The treasure of Sierra Madre, 1948, Warner Bros, 126min) Direção: John Huston. Roteiro: John Huston, romance de B. Traven. Fotografia: Ted McCord. Montagem: Owen Marks. Música: Max Steiner. Direção de arte/cenários: John Hughes/Fred M. McLean. Produção executiva: Jack L. Warner. Produção: Henry Blanke. Elenco: Humphrey Bogart, Walter Huston, Tim Holt, Bruce Bennett, Bart MacLane. Estreia: 14/01/48

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator Coadjuvante (Walter Huston), Roteiro
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (John Huston), Ator Coadjuvante (Walter Huston), Roteiro
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (John Huston), Ator Coadjuvante (Walter Huston) 

"O tesouro de Sierra Madre" é um filme extraordinário. E mesmo que não fosse, ele já teria um lugar muito especial reservado na história do cinema: até agora é o único filme a premiar, na mesma cerimônia de entrega do Oscar, tanto o pai quanto o filho. Se John Huston levou pra casa as estatuetas de direção e roteiro, seu pai, o veterano Walter Huston, saiu da festa com o troféu de melhor ator coadjuvante - por um papel que ele quase recusou por não se se tratar do protagonista. Convencido pelo filho não apenas a aceitar o papel mas também a construir o personagem com o máximo de realismo (leia-se sem a dentadura que o veterano ator utilizava), Walter roubou todas as cenas em que aparecia, e só não eclipsou totalmente o ator principal porque o tal ator principal era ninguém menos que Humphrey Bogart, no auge da carreira - mas chegou a preocupar os executivos da Warner, que tinham medo que sua atuação apagasse o brilho de Bogart, um de seus maiores astros.

Porém, antes que brilhasse naquele que é considerado seu melhor desempenho, o veterano ator quase recusou o papel: ainda se considerando ator de papéis principais, ele foi convencido pelo filho depois de muitas tentativas. O próprio diretor não havia pensando em seu pai quando teve a ideia de transformar o livro de B. Traven em filme - em 1935, quando leu o romance e decidiu adaptá-lo, John queria que Walter fosse o protagonista. Já em 1941, quando finalmente parecia que o projeto iria enfim decolar, os atores escolhidos pela Warner para o elenco eram George Raft, Edward G. Robinson e John Garfield. Mas então o destino (na forma da II Guerra Mundial) interferiu nos planos do estúdio e do cineasta: Huston foi dirigir uma série de documentários sobre o conflito e deixou de lado (por um tempo) seu desejo de realizar o filme. Nesse meio-tempo, o roteirista Robert Rossen ficou trabalhando na adaptação e Bogart se tornou, repentinamente, o maior nome da Warner. Com o final da guerra, Huston voltou à Hollywood e pode, finalmente, retomar seu projeto de estimação - e o que Jack L. Warner julgava apenas mais um western B tornou-se um de seus filmes mais caros (e ligeiramente complicados). Um dos primeiros filmes norte-americanos a ser filmado inteiramente no exterior, "O tesouro de Sierra Madre" levou a equipe inteira para o México por quase seis meses e ultrapassou o orçamento inicial em alguns milhões de dólares, para desespero do estúdio - que só reconheceu o valor do resultado final quando o filme tornou-se um clássico adorado pela crítica (o que aconteceu, principalmente, graças a inúmeros relançamentos).


As filmagens no México não foram exatamente um paraíso. Logo que o trabalho começou, na cidade de Tampico, a produção descobriu que eles não mais bem-vindos no local: devido a uma reportagem publicada em um jornal da cidade, o filme faria um retrato pouco lisonjeiro dos mexicanos, o que, logicamente, desagradou aos nativos. O motivo de tal reportagem tão deliberadamente equivocada tinha a ver com o fato de o editor do jornal não ter recebido (por baixo dos panos) o "agrado" que normalmente todos que precisavam da cidade lhe oferecia. O problema chegou até o presidente do país, que, procurado por dois sócios mexicanos de Huston, deu fim ao problema - e o próprio editor acabou morrendo semanas depois, atingido pelo tiro de um marido ciumento. Com as filmagens retomadas - e Walter Huston roubando a cena descaradamente -, parecia que nada iria atrapalhar a equipe, nem mesmo o consultor técnico Hal Croves, indicado pelo autor do livro para acompanhar os trabalhos. O que todos comentavam no set era que Croves era provavelmente o próprio B. Traven, cujo rosto era desconhecido de todos, graças à sua personalidade reclusa e misteriosa. Esposa de John Huston, a atriz Evelyn Keyes, que estava ao lado do marido durante as filmagens, tinha certeza do fato, mas foi embora antes que pudesse confirmá-lo - e antes de descobrir que o cineasta tinha a intenção de adotar uma criança mexicana considerada a mascote do grupo: quando ele voltou para casa com o pequeno Pablo à tiracolo, encontrou Keyes atônita (e pouco disposta a compreender seu gesto, uma vez que o casamento não durou muito).

Filme preferido de diretores como Robert Redford e Paul Thomas Anderson, "O tesouro de Sierra Madre" conta uma história de ambição e ganância, temas caros a John Huston, cuja filmografia insiste em jogar luz sobre personagens dúbios e pouco simpáticos. Os protagonistas são Fred C. Dobbs (Humphrey Bogart) e Bob Curti (Tim Holt), que, sem dinheiro e sem perspectivas, são atraídos pela ideia de encontrar ouro e mudar de vida. Acompanhando o experiente Howard (Walter Huston), os dois partem para as montanhas de Sierra Madre - mas basta que comecem a ter sucesso em sua missão para que a confiança dê lugar à paranoia, e não demora para que todos passem a suspeitar do caráter uns dos outros. O roteiro (reescrito por John Huston) é um primor, dotado de ritmo e identidade próprios, e a direção é simples e eficiente, assim como a fotografia em preto-e-branco de Ted McDord, que utiliza de forma impecável as locações mexicanas. Sem excessos e enxuto, é um filme que sobrevive ao teste do tempo - e, mais importante ainda, melhora a cada revisão. Um clássico por excelência!

quinta-feira

A CONDESSA DESCALÇA

A CONDESSA DESCALÇA (The barefoot contessa, 1954, United Artists, 128min) Direção e roteiro: Joseph L. Mankiewicz. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: William Hornbeck. Música: Mario Nascimbene. Figurino: Fontana. Direção de arte: Arrigo Equini. Elenco: Humphrey Bogart, Ava Gardner, Edmond O'Brien, Marius Goring, Valentina Cortese, Rossano Brazzi. Estreia: 29/9/54

2 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Edmond O'Brien), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Edmond O'Brien) 
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Edmond O'Brien) 

Em 1950, o cineasta Joseph L. Mankiewicz realizou uma das mais fieis traduções dos bastidores do teatro, o inesquecível "A malvada". Quatro anos mais tarde, ele voltou suas lentes ferinas e envoltas em cinismo para o mundo do cinema, repleto de personagens cuja visão de mundo cruel e destrutiva combinava exatamente com a sua. Inspirado livremente em alguns fatos da vida da atriz Rita Hayworth - especialmente seu casamento com o príncipe Ali Khan - e em elementos óbvios da trajetória de sua estrela Ava Gardner, que já tinha então no currículo uma turbulenta história de amor com Frank Sinatra, o roteiro de "A condessa descalça" lançou um olhar bastante amargo ao que acontece por trás do glamour da sétima arte. Concorreu ao Oscar da categoria, mas perdeu para "Sindicato de ladrões", dirigido por Elia Kazan e que também não era exatamente o mais otimista dos filmes produzidos por Hollywood em sua época.

O filme começa com um funeral em um dia chuvoso. Como logo é informado, trata-se do enterro de Maria D'Amato (Ava Gardner), uma estrela de cinema que, com apenas três filmes, tornou-se uma das mais amadas atrizes do mundo. As circunstâncias de sua morte e sua caminhada até a fama é o que será mostrado a partir de então, através de diferentes pontos de vista que podem tanto confirmar algumas situações quanto contradizer outras. Não chega a ser radical como "Rashomon" (50), de Akira Kurosawa - que mostra o mesmíssimo fato contado de quatro maneiras opostas - nem tão revolucionário quanto "Cidadão Kane" (41), de Orson Welles - que brincava com as inúmeras perspectivas a respeito de seu protagonista sem nunca reiterar nenhuma delas. Mas serve para ilustrar com perfeição a complexidade de sua protagonista, uma mulher simples e de origem modesta que sobe com uma velocidade estonteante ao topo do sucesso apenas para descobrir que nem mesmo ela sabe exatamente o que deseja.


O principal narrador da história - e talvez o mais confiável, haja visto sua relação mais próxima com a protagonista - é o cineasta Harry Dawes (Humphrey Bogart em papel oferecido inicialmente a Marlon Brando). É ele quem oferecerá à plateia o retrato mais humano e menos egoísta de Maria Vargas, uma jovem dançarina de flamenco que, descoberta em um bar de segunda categoria em Madri, é levada imediatamente para Hollywood pelo ambicioso produtor Kirk Edwards (Warren Stevens), que a trata como simples mercadoria e com quem passa a ter uma relação de altos e baixos. Protegida por Dawes - diretor de seus três filmes - Maria assume um nome artístico e consegue transformar até mesmo difíceis situações familiares em marketing positivo, para alívio do relações públicas do estúdio, Oscar Muldoon (Edmond O'Brien, premiado com o Oscar de ator coadjuvante). Rebelde e dona de uma alegria de viver que contrasta com o ambiente normalmente asséptico e enfadonho das festas a que é obrigada a frequentar, Maria não consegue esconder uma carência afetiva imensa e a preferência por um estilo de vida menos engessado - o que inclui aí uma série de aventuras sexuais com homens mais próximos de sua real origem.

É essa carência, disfarçada por luxo e glamour, que empurra Maria para os braços de dois homens que irão ditar (ou ao menos tentar) as regras de sua vida. O primeiro é o milionário Alberto Bravano (Marius Goring), que não demora em mostrar sua real faceta violenta e mesquinha. O segundo é o conde italiano Vincenzo Torlato-Favrini (Rossano Brazzi), que lhe oferece um mundo de sonhos e a possibilidade de abandonar as telas e tornar-se membro da alta sociedade europeia. É a forma como esse aparente sonho se transforma em armadilha que encerra a trajetória de Maria, cuja morte, trágica e quase previsível diante dos fatos que se apresentam, encerra com amargura uma história de Cinderela sem final feliz. Sem medo de melindrar colegas ou ofender colaboradores, Mankiewicz pega ainda mais pesado do que em "A malvada", retratando o mundo do cinema como um lugar recheado de seres interesseiros e desprezíveis - é sintomático que apenas o diretor interpretado por Bogart, normalmente ligado a personagens menos afáveis, seja o único porto seguro de Maria: é como se o próprio cineasta estivesse apontando o dedo a seu universo, revelando ao espectador toda a falta de empatia e compaixão que o reveste. É contundente e melancólico, mas valorizado por um roteiro inteligente, uma direção discreta e uma estrela que, não à toa, foi chamada, um dia, de "o animal mais belo do mundo". "A condessa descalça" é o grande filme da carreira de Ava Gardner. E um dos (vários) grandes do diretor.

domingo

NO SILÊNCIO DA NOITE

NO SILÊNCIO DA NOITE (In a lonely place, 1950, Columbia Pictures, 94min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Andrew Solt, adaptação de Edmund H. North, estória de Dorothy B. Hughes. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Viola Lawrence. Música: George Antheil. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Robert Peterson/William Kiernan. Produção: Robert Lord. Elenco: Humphrey Bogart, Gloria Grahame, Frank Lovejoy, Martha Stewart, Carl Benton Reid. Estreia: 17/5/50


Quem teve a oportunidade de trabalhar com o cineasta Nicholas Ray – mais conhecido por ser o autor do icônico “Juventude transviada” (55) e do faroeste iconoclasta “Johnny Guitar” (54) – sabia que ele era capaz de mudar os roteiros dos filmes que dirigia a seu bel-prazer, sem consultar produtores ou quem quer que estivesse com a mão no dinheiro. Foi isso ele que fez, por exemplo, em “No silêncio da noite”, seu segundo trabalho consecutivo com o ator Humphrey Bogart, novamente por sua produtora, a Santana – o filme anterior havia sido o contundente “O crime não compensa” (49). Baseado livremente em um romance de Dorothy B. Hughes, Ray simplesmente resolveu mudar o final do roteiro (do qual ele não era um dos autores) e, acompanhado apenas de Bogart, da estrela Gloria Grahame (com o qual ele começou as filmagens casado) e de membros essenciais da equipe, rodou um desfecho bem menos romântico do que o original. A autora do livro, Hughes, que também era uma das roteiristas, não se importou com a mudança sutil da última cena: se ela se importasse com coisas do tipo provavelmente nem teria deixado seu nome nos créditos do filme.

Não que o filme de Ray seja ruim, muito pelo contrário. Acontece que, a pedido do próprio Ray, o protagonista do livro de Hughes foi substancialmente modificado em sua transição para as telas, já que o diretor tinha mais interesse em falar sobre “o mal que existe dentro de todos nós” do que contar apenas mais uma história policial. O resultado de mudança tão drástica em um ponto tão crucial fala por si: “No silêncio da noite” não é um filme noir aos moldes do que fazia Humphrey Bogart um dos maiores astros da década de 40, mas sim um estudo sobre o controle (ou falta dele) de um estado de ânimo que beira a violência e a agressão. Utilizando como pano de fundo a indústria de cinema – coisa que o sensacional “Crepúsculo dos deuses” faria no mesmo ano, sob a batuta de Billy Wilder – Ray conseguiu, ao mesmo tempo, realizar um thriller dramático e uma crítica velada aos bastidores de uma Hollywood que nunca soube exatamente como lidar com seu talento e sua subversão.


O protagonista do filme é Dix Steele (Humphrey Bogart), um roteirista de sucesso que é convocado para escrever a adaptação de um romance pouco inspirado mas que pode vir a tornar-se um grande êxito. Na mesma noite em que recebe a incumbência, ele recebe em sua casa a jovem Mildred, que trabalha na chapelaria do bar a que o roteirista frequenta e, como fã do livro a ser adaptado, aceita contar a história a ele – que não está disposto a lê-lo. Algumas horas mais tarde, os dois se despedem, a moça vai embora e é assassinada algum tempo depois, estrangulada e jogada de um carro em movimento. Sabendo de sua visita a Dix, a polícia o procura como um dos suspeitos – mesmo sendo ele amigo de um dos policiais, . Uma das testemunhas que podem livrá-lo da suspeita é sua vizinha, Laurel Gray (Gloria Grahame), com quem ele acaba se envolvendo em um romance tenso e passional. Conforme as investigações a respeito da morte de Mildred avançam, porém, Laurel começa a ter dúvidas a respeito da inocência de Dix, que se mostra dono de uma personalidade brutal e explosiva, chegando inclusive a espancar um jovem depois de uma rixa de trânsito. Tal possibilidade começa a afastá-la do amante, mesmo que o medo que tenha de uma reação desproporcional a uma tentativa de separação a mantenha paralisada.

Jogando com as chances de Dix ser ou não o assassino de Mildred – elemento que aos poucos vai perdendo a importância no roteiro, que se dedica a mostrar aos poucos todas as facetas do personagem para Laurel e a plateia – Nicholas Ray constrói um brilhante exercício de tensão, valorizado pela interpretação inspirada de Bogart e pela constante sensação de dubiedade enfatizada pelo roteiro. Driblando as complicações dos bastidores – sua separação de Gloria Grahame, por exemplo, que se casou com seu filho de outro casamento algum tempo depois, obrigou o produtor Robert Lord a fazê-los assinar um termo de compromisso em que se obrigavam a deixar os problemas fora das filmagens – Ray assinou um filme incomum, que poderia ter sido muito diferente caso outras escolhas tivessem se mantido. Enquanto o cineasta conseguiu convencer o produtor a escalar sua então esposa Grahame para o papel principal – cotado para Lauren Bacall ou Ginger Rogers – o ator John Derek, um dos astros de “O crime não compensa”, foi afastado do projeto quando o roteiro mudou a faixa etária do protagonista (mais jovem no romance que em sua versão para as telas). Com Bogart e Grahame nos papéis centrais e a direção inteligente e sofisticada de Ray, “No silêncio da noite” foge das obviedades e acaba por ser uma experiência bastante interessante – ainda que talvez decepcione a quem espera um policial convencional.

sexta-feira

O CRIME NÃO COMPENSA

O CRIME NÃO COMPENSA (Knock on any door, 1949, Santana Picture Corporation, 101min) Direção: Nicholas Ray. Roteiro: Daniel Taradash, John Monks Jr., romance de Willard Motley. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: Viola Lawrence. Música: George Antheil. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Robert Peterson/William Kiernan. Produção: Robert Lord. Elenco: Humphrey Bogart, John Derek, George Macready, Allene Roberts. Estreia: 21/02/49


Nicholas Ray já teria seu nome marcado indelevelmente na história do cinema se tivesse se limitado a assinar “Juventude transviada”, ponto de nascimento do mito James Dean, em 1955. Seis anos antes, porém, ele já demonstrava sua predileção pelas angústias da mocidade angustiada. Em “O crime não compensa”, lançado em 1949 como estreia da companhia independente do ator Humphrey Bogart, a Santana, Ray deixava claro suas preocupações sociais em uma trama que não apenas mostrava Bogart em um papel atípico em sua carreira – um advogado a quilômetros de distância dos detetives cínicos e amorais que marcaram sua trajetória – como discutia um tema que não era exatamente um chamariz de bilheteria: a influência do meio na vida de uma juventude aparentemente sem alternativas que não a ilegalidade. Baseado em um romance de sucesso escrito por Willard Motley, o filme por pouco não fica marcado por ser também a estreia de outra lenda de Hollywood.

Impressionado com a atuação do jovem e então desconhecido Marlon Brando na montagem de “Uma rua chamada Pecado”, Humphrey Bogart, na condição de astro e produtor do filme, ofereceu a ele o segundo papel central do filme, o do delinquente juvenil Nick Romano, um rapaz cuja vida repleta de pequenas e grandes tragédias o leva ao banco de réus em um julgamento por homicídio. Já rebelde por natureza, Brando se interessou pelo mote do personagem – a famosa “Viva rápido, morra jovem e seja um cadáver atraente!” – mas acabou por declinar do convite e deixar o papel nas mãos de outro estreante, John Derek (Brando, como se sabe, chegou às telas de cinema justamente repetindo seu papel da peça de Tennessee Williams, em uma adaptação dirigida por Elia Kazan e lançada em 1951). Já tendo contratado Nicholas Ray para comandar seu filme – era um admirador da estreia do cineasta, “Amarga esperança” (48) – Bogart começou sua carreira como produtor com o pé direito. “O crime não compensa” é uma obra que não deixa nada a dever aos mais bem-sucedidos produtos semelhantes que fizeram a glória de um dos maiores estúdios de Hollywood.


Assim como os filmes de gângster produzidos pela Warner – e dos quais o próprio Bogart era um dos ídolos máximos – “O crime não compensa” mescla com destreza uma trama policial (que no final se revela apenas como pano de fundo para um drama com intenções mais nobres) e um estudo inteligente sobre a sociedade americana do pós-guerra. Mesmo distribuído pela Columbia, o filme de Ray não deixa de ter a identidade visual da Warner nos anos 40: a fotografia em preto-e-branco seca e eficiente, o tema relevante disfarçado por um enredo violento e, como o título sugere, um final de teor moralista (ainda que, como não poderia deixar de ser em se tratando de um filme de Nicholas Ray, bastante temperado com a controvérsia e a simpatia pelo lado menos conservador da sociedade). Bogart interpreta Andy Morton, um advogado bem-sucedido que é procurado pelo jovem Nick Romano (John Derek, que anos mais tarde se casaria com a “mulher nota 10” Bo Derek), acusado pelo assassinato de um policial. A princípio Morton recusa o caso, mas com a pressão de sua namorada – e assistente social – acaba assumindo a defesa do rapaz. No tribunal, ele se utiliza da história de vida de Romano para tentar livrá-lo da condenação.

Contado basicamente em flashbacks que explicam os motivos que levaram Romano à situação extrema em que ele se encontra, “O crime não compensa” envolve a plateia com personagens bem construídos e uma direção não intrusiva, que não tenta ser maior do que a própria história. Com seu estilo moderno e sensível, Nicholas Ray nitidamente demonstra simpatia por Nick Romano, mesmo que o personagem frequentemente cometa erros bastante condenáveis. Já Bogart, generosamente em segundo plano, serve como um guia para o público, comentando o itinerário do jovem protagonista com a experiência tanto de um ator com uma longa estrada quanto como um advogado calejado com os meandros nem sempre justos da justiça. Seu expressivo monólogo em defesa de Romano, nos últimos minutos – que deu dor de cabeça a um ator pouco acostumado a cenas tão longas e sem cortes – é um dos pontos altos do filme, comprovando sem margem para dúvidas que Ray, mais do que um mero cineasta, era um homem de cinema com coração de sociólogo.

RELÍQUIA MACABRA

RELÍQUIA MACABRA (The maltese falcon, 1941, Warner Bros, 100min) Direção: John Huston. Roteiro: John Huston, romance de Dashiel Hammett. Fotografia: Arthur Edeson. Montagem: Thomas Richars. Música: Adolph Deutsch. Figurino: Orry-Kelly. Direção de arte: Robert Haas. Produção executiva: Hal B. Wallis. Elenco: Humphrey Bogart, Mary Astor, Peter Lorre, Gladys George, Lee Patrick, Sydney Greenstreet. Estreia: 03/10/41

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator Coadjuvante (Sydney Greenstreet), Roteiro


Uma das mais frequentes críticas feitas às transposições de livros para o cinema é a falta de fidelidade ao material original, independente se tal material é um clássico absoluto ou o mais efêmero best-seller. Tal reclamação, no entanto, jamais poderá ser feito a respeito de “Relíquia macabra”, terceira adaptação do romance de Dashiell Hammet para as telas: apaixonado pela obra e por seu estilo seco e direto, o roteirista tornado diretor John Huston manteve, com fidelidade canina, a estrutura e os diálogos do livro original, um policial noir que não apenas estabeleceu os paradigmas do gênero como marcou a estreia de Huston como diretor e Humphrey Bogart como astro. Normalmente relegado a papéis de vilões ou gângsteres, Bogart tirou a sorte grande ao ser escalado para viver o detetive particular Sam Spade, criado por Hammett em 1930 e para o qual a Warner havia pensado seriamente em Edward G. Robinson. Cínico, quase amargo e insensível a ponto de não deixar que o amor atrapalhe qualquer um de seus negócios, Spade é uma espécie de pai de todos os detetives da ficção policial, nascido da experiência do próprio escritor na função. E ao lhe dar carne e osso, o ator – dois anos antes de assumir seu lado romântico em outro produto icônico do estúdio, “Casablanca”, de Michel Curtiz – forjou seu nome a ferro e fogo no ideário popular com um personagem que tornou-se, para o bem ou para o mal, a essência de sua carreira.

Suspenso pela Warner por ter se recusado a participar de “Três homens maus” (41), Bogart acabou sendo o escolhido pelo estúdio para viver o protagonista da nova versão do romance de Hammett – as duas primeiras, “O falcão maltês” (31) e “Satã encontrou uma dama” (43) não haviam sido exatamente sucessos comerciais nem tampouco haviam mudado a história do cinema. John Huston, porém, ainda não era o diretor do filme, cujo comando estava nas mãos de Jean Negulesco (que iria dirigir “Como agarrar um milionário”, com Marilyn Monroe e Lauren Bacall doze anos depois). Foi somente com a demissão de Negulesco que Huston, até então apenas roteirista, pegou sua chance com unhas e dentes: com um orçamento pequeno de 300 mil dólares e um elenco sem grandes astros, o cineasta de primeira viagem filmou o livro de Hammett em ordem cronológica e, aproveitando ao máximo do talento de cada membro da equipe, criou uma obra-prima que lhe colocou, de cara, no rol dos imortais da sétima arte.







Primeiro a fotografia em preto-e-branco de Arthur Edeson: fazendo uso exemplar do jogo de luz e sombra que se tornaria característica marcante do gênero nos anos 40, Edeson criou uma atmosfera envolvente de tensão e perigo, como se a cada esquina e atrás de cada porta houvesse a chance de uma violência inesperada e sádica – culminando com a sequência final, onde as sombras em forma de cela sugerem o destino de um dos vilões da trama. Depois, a trilha sonora de Adolph Deutsch, pouco intrusiva mas incisiva, comentando a ação sem jamais roubar a atenção para si mesma. E por fim, além da ambientação simples mas eficiente em sublinhar a temática da ambição desmedida e da traição, o elenco de encher os olhos. Se Bogart rouba a cena com seu imortal Sam Spade, os coadjuvantes não ficam atrás. Talvez Mary Astor não tenha exatamente o tipo físico de uma femme fatale – ela ficou com um papel para o qual foram consideradas Rita Hayworth, Ingrid Bergman e Olivia de Havilland - mas não deixa que isso atrapalhe sua composição da ambígua Brigid O’Shaughnessy, uma misteriosa mulher que adentra o escritório do protagonista para contratar seus serviços e o leva a uma espiral de morte e violência.

Tudo começa quando o sócio de Spade, Miles Archer (Jerome Cowan) é enviado pelo companheiro para vigiar o desconhecido Floyd Thursby, a pedido da própria Brigid. Quando ambos são mortos, cabe ao detetive buscar na misteriosa dama algumas respostas – principalmente porque a polícia já está no seu calcanhar. É então que entram no jogo novas peças, que levam a todos para um caminho completamente diferente. Um deles é o inglês Kasper Gutman (o ótimo Sidney Greenstreet, estreando no cinema aos 62 anos de idade e concorrendo ao Oscar de coadjuvante). O outro é o aparentemente delicado mas extremamente traiçoeiro Joel Cairo (Peter Lorre, o vampiro de Dusseldorf em pessoa). Ambos revelam que tudo gira em torno de um artefato histório, um falcão oriundo da ilha de Malta, incrustado de joias, que é o objeto do desejo de todos eles – e cuja posse os faz abdicar dos mais óbvios sentimentos humanos.

Uma fábula sobre amoralidade e ambição, “Relíquia macabra” é, também, um dos maiores filmes policiais da história por não ter medo em abraçar seus temas controversos ou criar personagens que fogem do padrão habitual do cinema comercial – em especial durante a vigência do famigerado Código Hays, que implicava com qualquer coisa que fugisse do convencional. Além disso, oferece um roteiro brilhante e repleto de cenas antológicas e diálogos inteligentes, que permite a seus atores demonstrarem um perfeito domínio de sua arte. Não é à toa que se mantém, mesmo com mais de sessenta anos, tão fresco quanto à época de seu lançamento.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...