PEGGY SUE: SEU PASSADO À ESPERA (Peggy Sue got married, 1986, TriStar Pictures, 103min) Direção: Francis Ford Coppola. Roteiro: Jerry Leichtling, Arlene Sarner. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Barry Malkin. Música: John Barry. Figurino: Theadora Van Runckle. Direção de arte/cenários: Dean Tavoularis/Marvin March. Produção executiva: Barrie M. Osborne. Produção: Paul R. Gurian. Elenco: Kathleen Turner, Nicolas Cage, Joan Allen, Helen Hunt, Sofia Coppola, Barbara Harris, Jim Carrey, Don Murray, Barry Miller, Kevin J. O'Connor. Estreia: 05/10/86
3 indicações ao Oscar: Atriz (Kathleen Turner), Fotografia, Figurino
A carreira de Francis Ford Coppola se divide entre produções ambiciosas (que tanto podem agradar em cheio quanto serem solenemente ignoradas pelo público) e filmes menores, de baixo orçamento e pretensões ainda menores. Em 1986, ele estava vindo do fracasso comercial do épico musical "Cotton Club" (84) quando acertou a mão com um drama romântico, delicado e sensível que refletia a nostalgia generalizada em relação à uma época mais inocente dos EUA, pré-assassinato de John Kennedy e Guerra do Vietnã. Projeto herdado da diretora Penny Marshall (que foi afastada pelos produtores por ser considerada inexperiente para um filme que já era tido pelo estúdio como uma produção relativamente grande), "Peggy Sue: seu passado à espera" não apenas deu à Kathleen Turner um dos maiores papéis de sua carreira (e uma subsequente indicação ao Oscar de melhor atriz) como contava com um jovem Jim Carrey em papel coadjuvante e revelou o nome de Nicolas Cage à plateia (ainda que em uma atuação um tanto equivocada e questionada pelo próprio diretor).
Na verdade, a presença de Cage esteve por um fio principalmente por sua insistência em utilizar-se de um tom de voz que tanto Coppola (seu próprio tio) e os produtores simplesmente odiaram desde o princípio. O fato de Cage ter vencido a disputa diz muito sobre sua personalidade persuasiva, mas é inegável que sua presença desequilibra o resultado final - quando Penny Marshall estava no comando da produção, por exemplo, os nomes cotados para viver o protagonista masculino foram os de Tom Hanks, Dennis Quaid e Sean Penn, todos atores bem menos excêntricos e de registro mais sutil. Sempre que Cage entra em cena, o filme assume um tom mais debochado, contrastando com o lirismo impresso pela fotografia de Jordan Cronenweth (também indicada ao Oscar) e pela trilha sonora leve e onírica, a cargo de John Barry e canções populares do começo dos anos 60. Felizmente a presença do ator não atrapalha o desempenho luminoso de Kathleen Turner, que transborda emoção e graça em cada diálogo.
Substituindo Debra Winger, que abandonou o projeto depois de um acidente de bicicleta, Turner está plenamente à vontade em cena, convencendo tanto como a dona-de-casa frustrada de 43 anos em vias de divorciar-se quanto como a adolescente atônita ao descobrir seu poder inexplicável de mudar os rumos de sua vida quando acorda em 1960. Aproveitando-se de um roteiro que explora o humor, o romantismo e o surreal da situação, a atriz revelada por Lawrence Kasdan em "Corpos ardentes" (81) entrega uma performance encantadora e tão mágica quanto o enredo: Peggy Sue, uma mulher desiludida com o fim de seu casamento com o namorado de adolescência, Charles Bodell (Nicolas Cage), vai quase à contragosto a uma festa para celebrar o reencontro de seus colegas de escola. Coroada rainha da festa, ela subitamente desmaia e, para sua surpresa/deleite/angústia, desperta em 1960, quando ainda não estava definitivamente comprometida com o futuro marido. Percebendo a possibilidade de modificar seu destino, ela resolve tentar a sorte com outro rapaz, o sensível e rebelde poeta Michael Fitzsimmons (Kevin J. O'Connor) - mas para isso ela terá de desvencilhar-se de Charles, completamente apaixonado por ela.
Equilibrando seu filme entre as decisões amorosas da protagonista e a forma como ela passa a lidar com a novidade temporal de sua vida - o reencontro com a irmã caçula, o contato com os avós já falecidos, a tentativa de ajudar Charles em sua carreira musical lhe dando de bandeja um sucesso ainda não lançado dos Beatles, sua associação com o gênio da escola, Richard Norvick (Barry Miller) -, Coppola dirige "Peggy Sue" com mão leve, sem jamais pesar o drama e preferindo sublinhar o tom lúdico do roteiro, em contraste com o humor acelerado e juvenil de "De volta para o futuro", dirigido por Robert Zemeckis um ano antes e que também brincava com viagens no tempo. Felizmente evitando explicações mirabolantes para a situação central - e também uma solução fácil e insatisfatória -, o filme fecha sua trama de forma coerente e emocionante, sem trair o público ou transfigurar seus personagens. Um entretenimento adulto e um dos melhores Francis Ford Coppola da década de 80!
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terça-feira
MARLEY E EU
MARLEY E EU (Marley & Me, 2008, Fox 2000 Pictures, 115min) Direção: David Frankel. Roteiro: Scott Frank, Don Roos, livro de John Grogan. Fotografia: Florian Ballhaus. Montagem: Mark Livolsi. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Produção executiva: Joe Caracciolo Jr., Arnon Milchan, Ani Williams. Produção: Gil Netter, Karen Rosenfelt. Elenco: Owen Wilson, Jennifer Aniston, Eric Dane, Kathleen Turner, Alan Arkin, Nathan Gamble, Haley Bennett, Ann Dowd. Estreia: 25/12/08
Quando compraram os direitos de adaptação para o cinema do livro "Marley e eu", do jornalista John Grogan, os executivos da Fox 2000 Pictures sabiam que tinham em mão um potencial sucesso: com mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas nos EUA, a história da relação entre uma família e seu cão labrador por 13 anos já havia encharcado lenços de papel também pelo mundo, com uma prosa leve e emocional que atingia em cheio o coração de todos aqueles apaixonados por animais. Quando o filme finalmente estreou, no Natal de 2008, ninguém se surpreendeu com a bilheteria animadora de mais de 140 milhões de dólares no mercado doméstico (e outros 100 milhões no mercado externo). Não era pra menos: com uma história que fala direto aos sentimentos, uma mistura certeira de humor e drama, um diretor acostumado a agradar ao público médio (David Frankel, de "O diabo veste Prada") e um elenco liderado por nomes conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston, o êxito era, mais do que esperado, praticamente certo. Tudo bem que o filme não é uma obra-prima (é longo demais, por vezes soa repetitivo e chega no limite do piegas), mas merece ser aplaudido por suas qualidades: é simpático, agradável e - milagre dos milagres! - consegue conquistar todas as fatias de público sem precisar apelar para efeitos especiais milionários ou super-heróis invencíveis. Ao falar de gente como a gente - com sentimentos reais e vívidos - é um perfeito "filme-família", que faz sorrir e chorar na mesma medida (ou talvez chorar mais do que sorrir, em especial em seus últimos minutos).
Apesar de concentrar boa parte de sua narrativa na relação entre Marley, o labrador batizado em homenagem ao cantor jamaicano Bob Marley e adotado ainda pequeno, e seus donos, o roteiro de "Marley e eu" também detalha a história de amor entre seus pais humanos - o casal de jornalistas John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) - a partir de seu casamento. John sonha em seguir uma carreira de repórter sério, assim como seu melhor amigo, Sebastian (Eric Dane), mas o máximo que consegue é uma coluna no jornal onde trabalha, em que acaba se tornando popular justamente pelo tom leve e descompromissado de suas crônicas - grande parte delas citando as aventuras e desventuras de seu cão de estimação, um companheiro leal mas pouco afeito a regras de convivência tais como não comer tudo que encontra pela frente (de livros a aparelhos eletrônicos) ou pular em cima de estranhos. Jenny não tem tantas ambições profissionais quanto domésticas, e resolve cuidar apenas da família quando começa a ter os filhos que sempre sonhou - e depois de um traumático aborto espontâneo. Conforme a família vai crescendo, Marley vai se tornando parte cada vez mais indissociável do clã - para o bem e para o mal, já que seus hábitos pouco comuns tanto encantam quanto enlouquecem a todos.
Por dois terços de narrativa, "Marley e eu" mantém seu tom ameno e divertido de crônica familiar, com algum espaço para as crises no casamento entre John e Jenny - todas resolvidas em poucos minutos, de forma a não aprofundar um tema apenas secundário da trama. Quando a família Grogan sai da ensolarada Miami para a distante Filadélfia, porém, o tom começa lentamente a ficar mais sombrio. É aos poucos que Marley começa a dar sinais de cansaço, velhice e dor, o que aponta para um final previsível mas nem por isso menos melancólico. Essa transição entre gêneros é conduzida com sutileza por Frankel, que se aproveita de um roteiro sensível e bem-humorado (cortesia da dupla de veteranos Scott Frank e Don Roos) e do ótimo timing de seu casal de atores principais, que se desvencilha com facilidade das armadilhas dramáticas mesmo quando não resta muito a fazer exceto entregar-se à catarse final - orquestrada milimetricamente para levar qualquer um às lágrimas, mas felizmente executada com elegância e respeito. Qualquer um da plateia que tenha - ou tenha tido - um animal de estimação é tocado pela emoção pungente e verdadeira que emana da história, talvez justamente por ela ser real e honesta.
Essa honestidade que percorre todo o filme é que faz de "Marley e eu" uma produção tão bem-sucedida. Não há reviravoltas gigantescas ou sequências de humor inspiradíssimas, de fazer o público gargalhar: há somente a descrição da vida de uma família apaixonada uns pelos outros e por seu cachorro de estimação, e de como essa relação, construída através de anos de paciência e amor incondicional, é capaz de substituir qualquer ambição profissional ou financeira sem prejuízos à busca pela felicidade. Uma narrativa simples - quase simplória - mas que funciona às mil maravilhas e faz lembrar de como o menos às vezes é mais quando se quer tocar o coração da plateia. É um filme que cumpre exatamente o que promete - e é irresistível justamente por isso!
Quando compraram os direitos de adaptação para o cinema do livro "Marley e eu", do jornalista John Grogan, os executivos da Fox 2000 Pictures sabiam que tinham em mão um potencial sucesso: com mais de 1 milhão de exemplares vendidos apenas nos EUA, a história da relação entre uma família e seu cão labrador por 13 anos já havia encharcado lenços de papel também pelo mundo, com uma prosa leve e emocional que atingia em cheio o coração de todos aqueles apaixonados por animais. Quando o filme finalmente estreou, no Natal de 2008, ninguém se surpreendeu com a bilheteria animadora de mais de 140 milhões de dólares no mercado doméstico (e outros 100 milhões no mercado externo). Não era pra menos: com uma história que fala direto aos sentimentos, uma mistura certeira de humor e drama, um diretor acostumado a agradar ao público médio (David Frankel, de "O diabo veste Prada") e um elenco liderado por nomes conhecidos como Owen Wilson e Jennifer Aniston, o êxito era, mais do que esperado, praticamente certo. Tudo bem que o filme não é uma obra-prima (é longo demais, por vezes soa repetitivo e chega no limite do piegas), mas merece ser aplaudido por suas qualidades: é simpático, agradável e - milagre dos milagres! - consegue conquistar todas as fatias de público sem precisar apelar para efeitos especiais milionários ou super-heróis invencíveis. Ao falar de gente como a gente - com sentimentos reais e vívidos - é um perfeito "filme-família", que faz sorrir e chorar na mesma medida (ou talvez chorar mais do que sorrir, em especial em seus últimos minutos).
Apesar de concentrar boa parte de sua narrativa na relação entre Marley, o labrador batizado em homenagem ao cantor jamaicano Bob Marley e adotado ainda pequeno, e seus donos, o roteiro de "Marley e eu" também detalha a história de amor entre seus pais humanos - o casal de jornalistas John (Owen Wilson) e Jenny (Jennifer Aniston) - a partir de seu casamento. John sonha em seguir uma carreira de repórter sério, assim como seu melhor amigo, Sebastian (Eric Dane), mas o máximo que consegue é uma coluna no jornal onde trabalha, em que acaba se tornando popular justamente pelo tom leve e descompromissado de suas crônicas - grande parte delas citando as aventuras e desventuras de seu cão de estimação, um companheiro leal mas pouco afeito a regras de convivência tais como não comer tudo que encontra pela frente (de livros a aparelhos eletrônicos) ou pular em cima de estranhos. Jenny não tem tantas ambições profissionais quanto domésticas, e resolve cuidar apenas da família quando começa a ter os filhos que sempre sonhou - e depois de um traumático aborto espontâneo. Conforme a família vai crescendo, Marley vai se tornando parte cada vez mais indissociável do clã - para o bem e para o mal, já que seus hábitos pouco comuns tanto encantam quanto enlouquecem a todos.
Por dois terços de narrativa, "Marley e eu" mantém seu tom ameno e divertido de crônica familiar, com algum espaço para as crises no casamento entre John e Jenny - todas resolvidas em poucos minutos, de forma a não aprofundar um tema apenas secundário da trama. Quando a família Grogan sai da ensolarada Miami para a distante Filadélfia, porém, o tom começa lentamente a ficar mais sombrio. É aos poucos que Marley começa a dar sinais de cansaço, velhice e dor, o que aponta para um final previsível mas nem por isso menos melancólico. Essa transição entre gêneros é conduzida com sutileza por Frankel, que se aproveita de um roteiro sensível e bem-humorado (cortesia da dupla de veteranos Scott Frank e Don Roos) e do ótimo timing de seu casal de atores principais, que se desvencilha com facilidade das armadilhas dramáticas mesmo quando não resta muito a fazer exceto entregar-se à catarse final - orquestrada milimetricamente para levar qualquer um às lágrimas, mas felizmente executada com elegância e respeito. Qualquer um da plateia que tenha - ou tenha tido - um animal de estimação é tocado pela emoção pungente e verdadeira que emana da história, talvez justamente por ela ser real e honesta.
Essa honestidade que percorre todo o filme é que faz de "Marley e eu" uma produção tão bem-sucedida. Não há reviravoltas gigantescas ou sequências de humor inspiradíssimas, de fazer o público gargalhar: há somente a descrição da vida de uma família apaixonada uns pelos outros e por seu cachorro de estimação, e de como essa relação, construída através de anos de paciência e amor incondicional, é capaz de substituir qualquer ambição profissional ou financeira sem prejuízos à busca pela felicidade. Uma narrativa simples - quase simplória - mas que funciona às mil maravilhas e faz lembrar de como o menos às vezes é mais quando se quer tocar o coração da plateia. É um filme que cumpre exatamente o que promete - e é irresistível justamente por isso!
sexta-feira
O TURISTA ACIDENTAL
O TURISTA ACIDENTAL (The accidental tourist, 1988, Warner Bros,
121min) Direção: Lawrence Kasdan. Roteiro: Lawrence Kasdan, Frank
Galati, romance de Anne Tyler. Fotografia: John Bailey. Montagem: Carol
Littleton. Música: John Williams. Figurino: Ruth Myers. Direção de
arte/cenários: Bo Welch, Cricket Rowland. Produção executiva: Phyllis
Carlyle, John Malkovich. Produção: Michael Grillo, Lawrence Kasdan,
Charles Okun. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Geena Davis, Bill
Pullman, Amy Wright, David Ogden Stiers, Ed Begley Jr.. Estreia:
23/12/88
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)
A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.
Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.
A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.
"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz Coadjuvante (Geena Davis), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Geena Davis)
A expectativa era grande em torno do reencontro entre o cineasta Lawrence Kasdan e a dupla de atores William Hurt e Kathleen Turner, afinal, eles haviam incendiado as telas de cinema sete anos antes com o neo-noir "Corpos ardentes" (81), que embora tenha fracassado nas bilheterias, tornou-se referência no gênero thriller erótico pouco depois - chegando a gerar inúmeras imitações, quase nunca tão boas quanto ele. Acontece que tal expectativa acabou sendo o maior problema enfrentado por "O turista acidental", drama familiar baseado no best-seller de Anne Tyler e que foi o projeto que marcou a reunião do talentoso trio: misturar um livro de sucesso, um cineasta competente, uma atriz em alta (Turner já havia concorrido ao Oscar por "Peggy Sue, o passado à espera" (86)) e um ator oscarizado (por "O beijo da mulher-aranha" (85)) só poderia dar coisa boa, e ninguém esperava o contrário. Mas, apesar de todos os ingredientes estarem disponíveis, o filme não obteve o resultado esperado. Mesmo tendo concorrido ao Oscar de melhor filme do ano - em uma indicação até hoje pouco compreensível - e ter sido premiado pela Associação de Críticos de Nova York, o filme de Kasdan peca por ser um drama irregular, que alterna momentos brilhantes com outros simplesmente aborrecidos.
Apesar do nome de Turner aparecer no cartaz com o mesmo destaque que Hurt - certamente uma estratégia de marketing - é o ator, que emplacou uma sucessão de indicações ao Oscar (em 85, 86 e 87) que carrega o filme nas costas, como o protagonista absoluto da trama criada por Tyler. Ele interpreta Macon Leary, um escritor de guias de viagem para executivos torturado pela morte violenta do filho adolescente e que vê seu casamento aparentemente estável com a bela Sarah (Kathleen Turner) acabar melancolicamente. Vivendo seus dias sem maior entusiasmo - e voltando a conviver com sua estranha família, com quem mantém uma relação quase distante - Macon tem sua rotina alterada quando conhece Muriel Pritchett (Geena Davis), uma jovem amalucada que trabalha no hotel para cães onde ele deixou seu animal de estimação durante uma viagem. Os dois - ele retraído, tenso e incapaz de lidar com os sentimentos em torno da perda do filho e ela excêntrica, alegre e corajosamente criando seu filho pequeno sozinha - acabam por formar um inusitado casal, que será ameaçado por suas diferenças, pelas circunstâncias sociais e, pior ainda, pelo retorno de Sarah, que resolve tentar uma nova chance para seu casamento.
A boa ideia do roteiro de Kasdan e Frank Galati - indicados ao Oscar da categoria - de ilustrar passagens dos livros de Leary (que faz sugestões práticas aos leitores de como carregar pouca bagagem, por exemplo) com momentos de sua vida é realmente interessante, fazendo um bem-vindo contraponto entre o que é teoria e realidade. As metáforas do livro de Tyler parecem intactas em sua transposição para o cinema e Kasdan é, comprovadamente um roteirista de mão cheia, capaz de escrever diálogos que soam naturais mesmo com personagens que beiram o surreal, como a doidivanas Muriel, que Geena Davis interpreta com graça e propriedade mesmo não tendo sido a primeira escolha para o papel - Jessica Lange, Ellen Barkin e Laura Dern estavam à sua frente. Optando pela discrição da atuação em contraste com o quase exagero das atitudes da personagem, Davis (que no mesmo ano estava no elenco do blockbuster "Os fantasmas se divertem") equilibra os dois pontos de Muriel a ponto de fazer com que o público acredite que, por exemplo, ela é capaz de sair de seu país de uma hora para outra apenas para encontrar o ex-namorado. Talvez tenha sido essa sutileza da interpretação a responsável pelo Oscar de coadjuvante que Davis papou de nomes mais fortes, como Sigourney Weaver, Michelle Pfeiffer e Frances McDormand.
"O turista acidental" é um filme americano de alma europeia. Seu drama, apesar de devastador, não se revela em catárticas cenas lacrimosas e sim na tristeza profundamente enraizada de Macon Leary, que prefere isolar-se do mundo e das emoções a ter que enfrentá-las corajosamente. Lawrence Kasdan não se permite nem ao menos explorar mais detalhadamente a origem da tragédia do casal central, optando, ao invés disso, por flashes rápidos do acontecido (mais como forma de situar a plateia do que para buscar a comoção rasteira). Esses acertos, porém, esbarram em cenas desnecessárias (como quase todas as que envolvem a família de Macon, inclusive retratando o romance nascente entre sua irmã e seu chefe, vivido por um ainda desconhecido Bill Pullman) que tiram o foco, a energia e o ritmo do filme. Fosse mais econômico certamente ele teria criado uma pequena obra-prima. Como está, seu filme é, longe de ruim, apenas correto e sóbrio - e, considerando a explosão sensual de "Corpos ardentes", a quase frieza de "O turista acidental" não deixa de ser um interessante paradoxo que mostra sua versatilidade e competência.
terça-feira
A HONRA DO PODEROSO PRIZZI
A HONRA DO PODEROSO PRIZZI (Prizzi's honor, 1985, ABC Motion
Pictures, 130min) Direção: John Huston. Roteiro: Richard Condon, Janet
Roach, romance de Richard Condon. Fotografia: Andrzej Bartkowiak.
Montagem: Kaja Fehr, Rudi Fehr. Música: Alex North. Figurino: Donfeld.
Direção de arte/cenários: Dennis Washington/Bruce Weintraub. Produção:
John Foreman. Elenco: Jack Nicholson, Kathleen Turner, Robert Loggia,
John Randolph, William Hickey, Anjelica Huston, Lawrence Tierney, Lee
Richardson. Estreia: 13/6/85
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner)
Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.
Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.
Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato
"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (John Huston), Ator (Jack Nicholson), Ator Coadjuvante (William Hickey), Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston), Roteiro Adaptado, Montagem, Figurino
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Anjelica Huston)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Comédia/Musical, Diretor (John Huston), Ator Comédia/Musical (Jack Nicholson), Atriz Comédia/Musical (Kathleen Turner)
Penúltimo filme da carreira de John Huston - o derradeiro seria "Os vivos e os mortos" (88), adaptado de conto de James Joyce - e último realizado nos EUA, "A honra do poderoso Prizzi" surpreende pela energia imposta pelo então quase octogenário cineasta a uma trama que mistura no mesmo caldeirão um filme de máfia, uma comédia de humor negro e uma crítica à hipocrisia da sociedade patriarcal e machista da América. Adaptado de um romance de Richard Condon, o filme foi lançado às pressas nos EUA porque o estúdio considerava que o material não tinha estofo comercial, mas acabou sendo contrariado pelas críticas mais do que positivas, pelo sucesso de público e, melhor ainda, pelas generosas oito indicações ao Oscar - e pela estatueta mais do que justa abocanhada por Anjelica Huston, que ficou com o papel oferecido a atrizes tão díspares quanto Mia Farrow, Demi Moore e Michelle Pfeiffer e provou que era mais do que simplesmente a filha do diretor e namorada de Jack Nicholson.
Nicholson, aliás, está em um de seus desempenhos mais discretos, sem o arsenal de caras e bocas que marcaram sua carreira - e também recebeu uma justa indicação ao Oscar. Ele vive Charley Partanna, o afilhado do poderoso Don Corrado Prizzi (William Hickey), chefe de um das mais poderosas famílias mafiosas dos EUA. Trabalhando para a família como matador, ele também tem relações com o passado da neta de Corrado, a ousada Maerose (Anjelica Huston), com quem mantinha um relacionamento que acabou com uma tumultuada separação e a expulsão dela do rígido clã. Em uma festa de casamento, Partanna cai de amores pela bela Irene Walker (Kathleen Turner), que está em Nova York a negócios. Os dois iniciam um tórrido romance que acaba em casamento, mas logo as coisas se mostram bem mais complicadas do que pareciam a princípio, já que ambos tem a mesma profissão e não demora para que sejam contratados para matar um ao outro.
Com um roteiro brilhante co-escrito pelo autor do romance que lhe deu origem, "A honra do poderoso Prizzi" brinca com os clichês dos filmes de máfia sem nunca deixar de prestar-lhe os devidos tributos de cânones essenciais da cultura cinematográfica americana. Evitando a violência explícita - mesmo as cenas de morte tem um pé no surreal, o que as deixa no mínimo bizarras - e utilizando um senso de humor mordaz que encontra em seus atores os intérpretes ideais, Huston conduz as reviravoltas de seu filme com a segurança de um cineasta que sabe melhor do que ninguém - a julgar por sua cinematografia cínica e quase cruel - como funciona a alma daqueles cidadãos cujas regras são ditadas por seus próprios interesses e ambições. Um dos últimos diretores da velha guarda de Hollywood, ele não deixa de lado a elegância nem mesmo quando seus personagens agem de forma egoísta ou violenta. Pode-se até dizer que "Prizzi" é um filme de gângster sem sangue algum - até mesmo em seu clímax existe uma discrição à moda antiga, como se seguisse a máxima de Hitchcock, que dizia que um assassinato
"A honra do poderoso Prizzi" chegou ao Oscar enfrentando a concorrência quase injusta de "Entre dois amores", de Sydney Pollack, que com suas características de épico romântico deixou todos os indicados do ano comendo poeira, incluindo o belíssimo "A cor púrpura", de Steven Spielberg. Mesmo tendo o aval do Golden Globe, onde teve sorte bem melhor, o filme de Huston ficou apenas com a estatueta de Anjelica, o que nem de longe reflete suas inúmeras qualidades. Um retrato bem-humorado do mundo da máfia mas que jamais abandona seu jeitão de filme de gângster, é uma pequena obra-prima de um dos mais importantes cineastas da história do cinema ianque e, de quebra, apresenta uma química de ouro entre Jack Nicholson, Anjelica Huston e Kathleen Turner. Um filme para quem gosta de cinemão.
quinta-feira
AS VIRGENS SUICIDAS
AS VIRGENS SUICIDAS (The virgin suicides, 2000, American Zoetrope, 97min) Direção: Sofia Coppola. Roteiro: Sofia Coppola, romance de Jeffrey Eugenides. Fotografia: Edward Lachman. Montagem: Melissa Kent, James Lyons. Música: Air. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: Jasna Stefanovic/Megan Less. Produção executiva: Willi Baer, Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, Julie Constanzo, Dan Halsted, Chris Hanley. Elenco: Kirsten Dunst, Kathleen Turner, James Woods, Josh Hartnett, Michael Paré, Scott Glenn, Danny DeVito, A. J. Cook, Jonathan Tucker, Hayden Christensen, Hannah Hall, Leslie Hayman, Chelse Swain. Estreia: 12/5/00
Quando o psiquiatra chamado para atender a jovem Cecilia Lisbon - que tentou o suicídio cortando os pulsos aos 13 anos de idade - lhe diz "O que você está fazendo aqui, querida? Você nem é velha o bastante para saber o quão dura é a vida.", nenhuma resposta poderia ser mais certeira e verdadeira do que a disparada pela melancólica paciente: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos." O diálogo, curto mas direto, talvez seja o norte e uma espécie de bússola para melhor se entender o desenrolar de "As virgens suicidas", estreia de Sofia Coppola como cineasta depois de uma vexaminosa tentativa de ser atriz em "O poderoso chefão parte III", dirigido por seu papai Francis. Adaptado do primeiro romance do americano Jeffrey Eugenides (publicado em 1993), seu filme é um retrato delicado e sensível sobre um período da vida, que, ao contrário do que se costuma dizer por aí, pode ser tenebrosamente traumático, em especial para as garotas.
Tanto o livro de Eugenides quanto o roteiro de Sofia, bastante fiel à sua origem, não são explícitos em culpar a sociedade ou a família ou o capitalismo ou qualquer outro vilão que psicólogos e pretensos entendidos em adolescência tentam criar. Ao invés disso, tudo é visto de forma imparcial, quase documental. É sintomático que a trama seja narrada por gente de fora, como Tim Weiner (Jonathan Tucker) e Trip Fontaine (Josh Hartnett na juventude e Michael Paré na maturidade), que contam ao público a sua percepção (e a de seus amigos) da tragédia que envolveu as cinco meninas Lisbon em uma pequena cidade do Michigan no ano de 1974. Assim como Fontaine, a audiência não sai da sessão com certezas definitivas e sim com a sensação de pesar e tristeza, para a qual contribui a bela trilha sonora do Air. Talvez por também ser mulher - e logicamente ter passado pela adolescência - Sofia Coppola não aponta dedos para suas jovens protagonistas, mesmo que em muitos momentos elas não sejam exatamente exemplares (em especial Lux, vivida por Kirsten Dunst, de certa forma a personagem central da história e catalisadora dos surpreendentes eventos do roteiro).
As meninas Lisbon são filhas de um casal superprotetor, autoritário e religioso: a dona-de-casa Sara (Kathleen Turner deixando de lado sua persona sexy) e o professor Ronald (James Woods à vontade em um papel longe dos marginais com os quais acostumou seu público). Criadas quase isoladas das pessoas de sua idade - o que aumenta o clima de mistério a seu respeito entre os meninos da vizinhança - elas sofrem um baque quando a caçula, Cecilia (Hanna R. Hall), atenta contra a própria vida. O fato faz com que o casal repense a rigidez de suas normas, mas uma tragédia inesperada novamente afasta a família do convívio social, ao qual só retornarão alguns meses depois, quando Lux é convidada pelo bonitão Trip Fontaine a acompanhá-lo ao baile de formatura. Um impulso de Lux acaba deixando seus pais ainda mais tensos e, retiradas da escola e trancadas em casa, elas passam a comunicar-se com os vizinhos através de música. O mais importante desses amigos é Tim Weiner (Jonathan Tucker) - que narra a história através de suas lembranças afetivas em relação a ela.
"As virgens suicidas" é singelo, é quase etéreo. Sofia Coppola acompanha com carinho e delicadeza a trajetória de Lux e suas irmãs sem apressar o ritmo, sem apelar para o grotesco, sem explorar a sensualidade reprimida e pulsante de sua protagonista (que se transforma de menina de família em ninfa vingativa em um trabalho excelente de Kirsten Dunst). Sofia também surpreende ao explorar em Kathleen Turner e James Woods traços de suas personalidades pouco vistas nas telas (e é fascinante perceber como não é preciso muito destaque para que tanto Turner quanto Woods brilhem em seus papéis de pais impotentes diante da desgraça de seu núcleo familiar). E é comovente a forma com que a cineasta - então estreante - consegue dizer tanto em tão poucas (e belamente fotografadas) imagens. Não é preciso que os corpos das virgens suicidas sejam mostrados para que o público se sinta tocado e emocionado. De uma certa forma suas almas já haviam sido desnudadas pouco antes - e isso é bem mais chocante e arrasador.
"As virgens suicidas" é o primeiro e paradoxalmente o mais maduro trabalho de Sofia Coppola como cineasta. Depois dele ela assinaria o bem-sucedido "Encontros e desencontros" (que lhe deu o Oscar de roteiro original) e os polêmicos "Maria Antonieta" e "Em qualquer lugar". Nenhum deles atingiu a medida certa entre melancolia e nostalgia de sua estreia.
Quando o psiquiatra chamado para atender a jovem Cecilia Lisbon - que tentou o suicídio cortando os pulsos aos 13 anos de idade - lhe diz "O que você está fazendo aqui, querida? Você nem é velha o bastante para saber o quão dura é a vida.", nenhuma resposta poderia ser mais certeira e verdadeira do que a disparada pela melancólica paciente: "Obviamente, doutor, você nunca foi uma menina de 13 anos." O diálogo, curto mas direto, talvez seja o norte e uma espécie de bússola para melhor se entender o desenrolar de "As virgens suicidas", estreia de Sofia Coppola como cineasta depois de uma vexaminosa tentativa de ser atriz em "O poderoso chefão parte III", dirigido por seu papai Francis. Adaptado do primeiro romance do americano Jeffrey Eugenides (publicado em 1993), seu filme é um retrato delicado e sensível sobre um período da vida, que, ao contrário do que se costuma dizer por aí, pode ser tenebrosamente traumático, em especial para as garotas.
Tanto o livro de Eugenides quanto o roteiro de Sofia, bastante fiel à sua origem, não são explícitos em culpar a sociedade ou a família ou o capitalismo ou qualquer outro vilão que psicólogos e pretensos entendidos em adolescência tentam criar. Ao invés disso, tudo é visto de forma imparcial, quase documental. É sintomático que a trama seja narrada por gente de fora, como Tim Weiner (Jonathan Tucker) e Trip Fontaine (Josh Hartnett na juventude e Michael Paré na maturidade), que contam ao público a sua percepção (e a de seus amigos) da tragédia que envolveu as cinco meninas Lisbon em uma pequena cidade do Michigan no ano de 1974. Assim como Fontaine, a audiência não sai da sessão com certezas definitivas e sim com a sensação de pesar e tristeza, para a qual contribui a bela trilha sonora do Air. Talvez por também ser mulher - e logicamente ter passado pela adolescência - Sofia Coppola não aponta dedos para suas jovens protagonistas, mesmo que em muitos momentos elas não sejam exatamente exemplares (em especial Lux, vivida por Kirsten Dunst, de certa forma a personagem central da história e catalisadora dos surpreendentes eventos do roteiro).
As meninas Lisbon são filhas de um casal superprotetor, autoritário e religioso: a dona-de-casa Sara (Kathleen Turner deixando de lado sua persona sexy) e o professor Ronald (James Woods à vontade em um papel longe dos marginais com os quais acostumou seu público). Criadas quase isoladas das pessoas de sua idade - o que aumenta o clima de mistério a seu respeito entre os meninos da vizinhança - elas sofrem um baque quando a caçula, Cecilia (Hanna R. Hall), atenta contra a própria vida. O fato faz com que o casal repense a rigidez de suas normas, mas uma tragédia inesperada novamente afasta a família do convívio social, ao qual só retornarão alguns meses depois, quando Lux é convidada pelo bonitão Trip Fontaine a acompanhá-lo ao baile de formatura. Um impulso de Lux acaba deixando seus pais ainda mais tensos e, retiradas da escola e trancadas em casa, elas passam a comunicar-se com os vizinhos através de música. O mais importante desses amigos é Tim Weiner (Jonathan Tucker) - que narra a história através de suas lembranças afetivas em relação a ela.
"As virgens suicidas" é singelo, é quase etéreo. Sofia Coppola acompanha com carinho e delicadeza a trajetória de Lux e suas irmãs sem apressar o ritmo, sem apelar para o grotesco, sem explorar a sensualidade reprimida e pulsante de sua protagonista (que se transforma de menina de família em ninfa vingativa em um trabalho excelente de Kirsten Dunst). Sofia também surpreende ao explorar em Kathleen Turner e James Woods traços de suas personalidades pouco vistas nas telas (e é fascinante perceber como não é preciso muito destaque para que tanto Turner quanto Woods brilhem em seus papéis de pais impotentes diante da desgraça de seu núcleo familiar). E é comovente a forma com que a cineasta - então estreante - consegue dizer tanto em tão poucas (e belamente fotografadas) imagens. Não é preciso que os corpos das virgens suicidas sejam mostrados para que o público se sinta tocado e emocionado. De uma certa forma suas almas já haviam sido desnudadas pouco antes - e isso é bem mais chocante e arrasador.
"As virgens suicidas" é o primeiro e paradoxalmente o mais maduro trabalho de Sofia Coppola como cineasta. Depois dele ela assinaria o bem-sucedido "Encontros e desencontros" (que lhe deu o Oscar de roteiro original) e os polêmicos "Maria Antonieta" e "Em qualquer lugar". Nenhum deles atingiu a medida certa entre melancolia e nostalgia de sua estreia.
sábado
A GUERRA DOS ROSES
A GUERRA DOS ROSES (The war of the Roses, 1989, 20th Century Fox, 116min) Direção: Danny DeVito. Roteiro: Michael Leeson, romance de Warren Adler. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Lynzee Klingman. Música: David Newman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Anne D. McCulley. Produção executiva: Doug Claybourne, Polly Platt. Produção: James L. Brooks, Arnon Milchan. Elenco: Michael Douglas, Kathleen Turner, Danny DeVito, Marianne Sagebrecht, Sean Astin. Estreia: 08/12/89
Em 1987, o ator Danny DeVito provou que também tinha talento por trás das câmeras, com o sucesso crítico e comercial de "Jogue a mamãe do trem". Antes disso, ele contracenou com Michael Douglas e Kathleen Turner em dois sucessos de bilheteria - "Tudo por uma esmeralda" e "A jóia do Nilo" - que comprovaram a química entre os dois atores. Não foi nenhuma surpresa, então, quando os três voltaram a trabalhar juntos em "A guerra dos Roses", uma comédia de humor ainda mais negro do que o primeiro filme de DeVito. Baseado no livro de Warren Adler - que teve uma continuação lançada mais de uma década depois - o roteiro consegue ao mesmo tempo ser mordaz, irônico e dono de uma contundente crítica social. De quebra, apresenta atuações memoráveis do seu casal protagonista.
O filme é narrado por Gavin D'Amato (o próprio DeVito), um advogado que tenta demover um cliente de sua ideia de entrar com um processo de divórcio contando a história de um casal de clientes. Oliver e Barbara Rose (vividos por Douglas e Turner) se conheceram na juventude, se apaixonaram e subiram na vida juntos. Enquanto ela abandona uma promissora carreira como ginasta para dedicar-se ao casamento, ele foca toda sua energia em tornar-se um advogado bem-sucedido. Quando, depois que o casal de filhos gêmeos sai de casa para estudar, Barbara resolve começar um negócio próprio, ela percebe que não sente mais nada pelo marido, exceto repulsa e um ódio quase mortal. Ao entrar com o pedido de divórcio, no entanto, ela descobre que Oliver não está nem um pouco disposto a abrir mão da espetacular mansão em que eles vivem - e é justamente a casa que decorou com tanto esmero e cuidado a única coisa que ela deseja na custódia dos bens.
A química entre Turner e Michael Douglas é gloriosa. Fica clara, em cada sequência, a intimidade entre os dois, que se divertem claramente frente às câmeras. É hilariante a maneira com que o diretor consegue utilizar detalhes - como a implicância do casal com os bichos de estimação um do outro - para apresentar, desde sempre, aquela centelha de raiva enrustida que os move. E a forma surpreendente com que o roteiro se desenrola é triunfo de uma história tão inacreditável que acaba sendo plenamente verossímel dentro de suas idiossincrasias. Tudo é tão deliciosamente exagerado no filme de DeVito que fica difícil não aceitar seu convite para a diversão.
"A guerra dos Roses" não é uma comédia no sentido tradicional. Seu humor não busca gargalhadas e sim a identificação da plateia com os meandros de uma relação desgastada pelo tempo e pela desilusão. De certa forma é até triste. Mas ao mesmo tempo é irresistível e garantia de duas horas de bom entretenimento.
terça-feira
CORPOS ARDENTES
CORPOS ARDENTES (Body heat, 1981, Warner Bros, 113min) Direção e roteiro: Lawrence Kasdan. Fotografia: Richard H. Kline. Montagem: Carol Littleton. Música: John Barry. Figurino: Renie Conley. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Casting: Wally Nicita. Produção: Fred T. Gallo. Elenco: William Hurt, Kathleen Turner, Richard Crenna, Mickey Rourke, Ted Danson, J.A. Preston, Kim Zimmer. Estreia: 28/8/81
No início da década de 80, antes mesmo que o termo "erotic thriller" fosse cunhado e se tornasse quase um subgênero dentro da indústria hollywoodiana, o roteirista Lawrence Kasdan (autor de, entre outros, "Os caçadores da Arca perdida") incendiou o cinema americano com "Corpos ardentes", uma releitura de um estilo caro na década de 40 mas que estava sumido das telas há um bom tempo: os filmes noir. Ao acrescentar tórridas cenas de sexo a uma trama repleta de reviravoltas, sombras, personagens amorais e uma sedutora mulher fatal, o cineasta conseguiu, em sua estreia como diretor, ressuscitar um gênero considerado morto e revelar ao mundo a então estonteante Kathleen Turner.
A trama de "Corpos ardentes" se passa em um escaldante verão na cidade litorânea de Miranda Beach, perto de Miami. É durante essa onda de calor intenso que o advogado mulherengo e pouco ético Ned Racine (William Hurt) conhece e fica fascinado pela bela Matty Walker (Kathleen Turner), uma mulher casada que o envolve facilmente com seu poder de sedução. Não demora muito e logo os dois estão vivendo um tórrido romance baseado em sexo e desejo desmedido. Quando resolvem se livrar do marido de Matty, planejam com cuidado seu assassinato. Logicamente, as coisas não saem como o esperado e Ned se vê no meio de uma perigosa trama que pode levá-lo à prisão.
"Corpos ardentes" é um filme que merece ser visto e revisto. O roteiro de Kasdan consegue equilibrar um texto com diálogos saborosos, personagens bastante interessantes (inclusive um advogado dançarino vivido pelo novato Ted Danson e um especialista em explosivos interpretado por um jovem Mickey Rourke) e viradas qye prendem o espectador na poltrona sem apelar para cartas tiradas da manga. A fotografia calorosa transmite a exata noção das altas temperaturas que empurram suas personagens ao crime e à paixão, emulando com perfeição as principais características do estilo de cinema que legou à história clássicos como "Pacto de sangue", do genial Billy Wilder.
A trilha sonora de John Barry, tonitruante e sempre presente nos momentos cruciais da trama também se destaca por nunca atrapalhar o desenvolvimento da história, por si só forte o suficiente para envolver a plateia. As personagens centrais, por sua vez, são sensacionais: Ned Racine é um advogado mau-caráter, blasé, cafajeste ao extremo e metido a don juan que acaba em uma teia que o joga em um pesadelo sem fim e Matty Walker é o sonho de qualquer atriz que saiba usar o corpo sem parecer vulgar e a voz de veludo sem soar clichê. Fria, calculista e extremamente envolvente, ela seduz não apenas Ned Racine, mas todo o público, que se deixa levar por seu belo sorriso. A cena em que William Hurt quebra uma janela apenas para beijá-la é o ápice de todo o tesão que Kasdan deseja transmitir em sua obra. À plateia resta apenas segurar a respiração.
"Corpos ardentes" é um exemplar muito digno dos chamados "erotic thrillers", lançado em uma época em que as histórias e os climas eram mais importantes do que o sexo pelo sexo. A química entre William Hurt e Kathleen Turner é das mais fascinantes e é utilizada com generosidade por Kasdan, confiante no talento e no carisma do casal. Um filme que precisa ser redescoberto.
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