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quinta-feira

O OPOSTO DO SEXO

O OPOSTO DO SEXO (The opposite of sex, 1998, Rysher Entertainment, 105min) Direção e roteiro: Don Roos. Fotografia: Hubert Taczanovski. Música: Mason Daring. Figurino: Peter Mitchell. Direção de arte/cenários: Michael Clausen/Kristin Peterson. Produção executiva: Steve Danton, Jim Lofti. Produção: Michael Besman, David Paul Kirkpatrick. Elenco: Christina Ricci, Martin Donovan, Lisa Kudrow, Lyle Lovett, Johnny Galecki, William Lee Scott, Ivan Sergei. Estreia: 22/5/98

Cerceado pela irritante e muitas vezes injustificável onda do politicamente correto que tomou conta dos EUA e do mundo a partir dos anos 90, o humor correu o sério risco de desaparecer do cinema americano - ao menos aquele humor ferino, cáustico e quase cruel que arrancava graça nos pequenos detalhes do cotidiano e fazia a plateia rir de si mesma. Felizmente alguns focos de resistência sempre surgem em períodos assim e o roteirista Don Roos faz parte desse grupo. Autor do texto de filmes mais variados - como o suspense "Mulher solteira procura...", o drama "Somente elas" e a desnecessária refilmagem de "As diabólicas", além de vários episódios de séries de TV, como a inesquecível "Casal 20" - Roos fez sua estreia como diretor ignorando os limites impostos pelo insosso gosto médio: "O oposto do sexo" é debochado, irônico, politicamente incorreto até a raiz dos cabelos... e muito, muito engraçado.

Logicamente, quem gosta de humor pastelão e piadas escatológicas sobre fluidos corpóreos e afins não irá comprar o humor de Roos, que usa e abusa do sarcasmo como principal ingrediente de seu roteiro, que brinca com o universo gay e a discriminação que o circunda sem medo de parecer ofensivo ou condescendente. Ao eleger como protagonista uma adolescente preconceituosa, mau-caráter, cínica e desprovida de qualquer sentimento que não seja em proveito próprio - Dede Truitt, vivida com gosto e perspicácia por uma sensacional Christina Ricci - o diretor já deixa pra trás qualquer noção pré-estabelecida de bom comportamento, utilizando-se da narração em off (artifício normalmente execrado por roteiristas mas que aqui funciona como uma ironia a mais) como um instrumento para cutucar os clichês do cinema: volta e meia ele também distorce a narrativa e mostra como elementos externos podem modificar um ponto de vista da plateia (uma música emotiva, por exemplo, que manipula uma cena que poderia não comover, ou a divisão da tela para permitir à audiência escolher entre uma cena já vistas muitas vezes ou outra, totalmente sem graça e emoção). Através da língua sem filtros de Dede - que larga atrocidade atrás de atrocidade sem dó nem piedade de ninguém - o roteiro faz rir ao mesmo tempo em que faz o espectador pensar bastante sobre os próprios (pré) conceitos.


A trama toda começa quando Dede perde o padrasto e resolve, sem avisar a ninguém, sair da pequena cidade da Louisiana onde vive para encontrar o meio-irmão, Bill (Martin Donovan, alter ego do diretor independente Whit Stillman em vários pequenos filmes dos anos 90), professor homossexual de uma cidade de Indiana, que vive bem de vida depois da morte do namorado, vítima da AIDS. Cínica e mentirosa - além de homofóbica e preconceituosa - ela acaba seduzindo Matt (Ivan Serguei), o novo namorado do irmão, que ingenuamente, acredita quando ela se declara grávida dele. Quando os dois vão embora tentar vida nova, porém, os rastros que deixam ameaçam destruir a vida de Bill, especialmente quando um antigo aluno, também amante de Matt, o acusa de abuso sexual durante seu período como estudante (uma mentira criada como forma de chantagem). Para provar sua inocência - além de reconquistar o amor de Matt, adotar o bebê e recuperar as cinzas de seu falecido namorado, sequestradas por Dede - Bill parte atrás do novo casal, contando com a ajuda fiel de Lucia (Lisa Kudrow, a Phoebe da série "Friends" em papel bastante diferente), sua cunhada solteirona que nunca acreditou nas mentiras da adolescente.

São muitas as qualidades que fazem de "O oposto do sexo" uma comédia muito acima da média, e uma das melhores dos anos 90 - apesar de ser injustamente pouco lembrada ou conhecida pelo grande público. Os diálogos são inteligentes e engraçadíssimos. O ritmo é perfeito, sem momentos mortos. Os personagens, apesar de soarem um tanto estereotipados, tem características psicológicas fortes e interessantes. A abordagem da homossexualidade é franca e direta sem que perca o humor e a seriedade. E o elenco é um show à parte, especialmente o feminino: cada uma à sua maneira, Christina Ricci (bagaceira, vulgar, cruel em sua frieza gananciosa) e Lisa Kudrow (seca, amargurada e racional em sua solidão e tristeza) mostram outros lados de seus talentos, brindando o público com interpretações brilhantes, dentre as melhores de suas carreiras. Elas são o maior destaque do filme, mas há muito com o que se divertir quando se resolve experimentar as aventuras de Dede Truitt.

segunda-feira

MONSTER - DESEJO ASSASSINO

MONSTER, DESEJO ASSASSINO (Monster, 2003, Media 8 Entertainment, 109min) Direção e roteiro: Patty Jenkins. Fotografia: Steven Bernstein. Montagem: Arthur Coburn, Jane Kurson. Música: BT. Figurino: Rhona Meyers. Direção de arte/cenários: Edward T. McAvoy/Shawn R. McFall. Produção executiva: Andreas Grosch, Stewart Hall, Sammy Lee, Meagan Riley-Grant, Andreas Schmid. Produção: Mark Damon, Donald Kushner, Clark Peterson, Charlize Theron, Brad Wyman. Elenco: Charlize Theron, Christina Ricci, Bruce Dern, Lee Tergesen, Annie Corley, Pruitt Taylor Vince. Estreia: 16/11/03 (API Film Festival)


Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Charlize Theron)
Vencedor do Urso de Prata no Festival de Berlim: Melhor Atriz (Charlize Theron)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Charlize Theron)

 Já é comum e notório em Hollywood o fato de que deixar a vaidade de lado para encarnar um papel difícil – e difícil aqui pode ser traduzido como doente mental, homosssexual, deficiente físico, etc – é o caminho mais certeiro para ganhar um Oscar. As evidências estão expostas para quem quiser ver, nas listas dos atores e atrizes premiados com o prêmio máximo da Academia em suas várias décadas de existência. Mas se em muitas vezes a política fala mais alto do que o merecimento não foi o que ocorreu quando Charlize Theron faturou sua estatueta dourada, pelo filme “Monster, desejo assassino”. Na pele de uma prostituta condenada à morte pelos assassinatos de vários clientes, a bela sul-africana dá um banho de interpretação, botando no bolso qualquer veterana e calando a boca daqueles que diziam que ela era apenas um rostinho bonito.
     
Bonitinho, em se tratando de Theron, é eufemismo. Dona de um dos rostos mais lindos da Hollywood atual, a jovem que estreou nas telas como a esposa de Keanu Reeves em “Advogado do diabo” fez o que manda o figurino quando ganhou seu papel em “Monster”: deixou a vaidade de lado, engordou, submeteu-se a horas de maquiagem, usou lentes de contato pretas e mais do que isso, incorporou a personagem com uma garra e uma vontade que por si só já justificariam sua premiação. No entanto, ela fez mais. Quando Theron entra em cena no filme de Patty Jenkins, qualquer fã de cinema imediatamente esquece de sua beleza estonteante, sendo conquistado por seu trabalho avassalador.



“Monster, desejo assassino” é uma história real, ocorrida nos EUA no início dos anos 90. Charlize Theron dá vida a Aileen Wuornos, uma prostituta que, cansada da vida de miséria e violência que sempre viveu vê na jovem Selby (uma impecável Christina Ricci) uma nova esperança de felicidade. Juntas, as duas iniciam um relacionamento que começa a demonstrar sinais de cansaço quando o dinheiro passa a ficar raro. Voltando à prostituição, Aileen acaba sendo violentada por um cliente e acaba matando-o. Aos poucos, ela começa a matar todos os seus clientes, sempre roubando seus carros e dinheiro. A princípio fazendo vista grossa aos atos de Aileen, Selby passa a demonstrar medo de ser presa como cúmplice, o que destrói a relação entre elas e joga Aileen na cadeia.
     
Mais do que simplesmente a narração dos crimes de Aileen Wuormos – que colaborou com a realização do filme cedendo seus diários inéditos -, a obra de Patty Jenkins também é o retrato de uma mulher cuja vida sempre esteve por um fio, seja em termos de violência, dinheiro ou sexo. A história de amor de Aileen e Selby é que acaba sendo o fio condutor da trama, permitindo a Theron demonstrar o alcance de seu talento e a Christina Ricci abandonar de vez a imagem de adolescente rebelde que sempre fez sua fama para embarcar em um papel complexo, forte e denso. Muitas vezes cru e sem apelar para cenas demasiadamente emotivas, “Monster” não poupa seu público: é chocante, triste, cruel e em vários momentos de partir o coração. Mas é também o palco para um grande trabalho de caracterização de Charlize Theron, uma linda mulher transformada em excelente atriz.

IGUAL A TUDO NA VIDA

IGUAL A TUDO NA VIDA (Anything else, 2003, Dreamworks SKG, 108min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: Alisa Lepselter. Figurino: Laura Jean Shannon. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Regina Graves. Produção executiva: Benny Medina, Jack Rollins, Stephen Tenenbaum. Produção: Letty Aronson. Elenco: Woody Allen, Jason Biggs, Christina Ricci, Danny DeVito, Stockard Channing, Jimmy Fallon, Adrian Grenier. Estreia: 16/9/03

Woody Allen pode ser acusado de tudo, menos de ser desatento às novas gerações de atores que frequentam as telas de cinema. Um belo exemplo dessa afirmação é "Igual a tudo na vida", uma comédia romântica deliciosa e bastante engraçada na qual ele cede o espaço de protagonista ao até então limitado Jason Biggs, reservando para si um papel de simples coadjuvante - ainda que, no entanto, ele seja o dono das melhores e mais divertidas linhas de diálogo de um filme repleto de tiradas irresistíveis.

Biggs, mais conhecido por seu papel como protagonista do popular mas apelativo "American pie" teve a chance de sua carreira como Jerry, um jovem comediante que está com o relacionamento em crise (ecos dos antigos papéis de Allen?). Sua namorada é a aspirante a atriz Amanda (vivida por uma excelente Christina Ricci), bela e desequilibrada e que não consegue mais ter prazer sexual com o namorado. Pressionado por seu agente (Danny De Vito vivendo ele mesmo novamente, mas sempre bem) para encontrar o caminho certo para o sucesso, Jerry ainda precisa lidar com a visita da sogra (Stockard Channing roubando a cena), que resolve se mudar de mala e piano para seu minúsculo apartamento, com a intenção de pedir-lhe que a ajude a voltar aos palcos em um show musical. Desesperado com todas essas situações quase calamitosas à sua volta, o rapaz ainda ouve os conselhos de um roteirista mais experiente, David Gobel (o próprio Allen), que tem uma visão toda própria do mundo em que vive.     
 


Pouco compreendido tanto pela crítica quanto pelo público, "Igual a tudo na vida" é um dos trabalhos mais característicos do diretor nova-iorquino. Com diálogos hilariantes - especialmente aqueles entre Christina Ricci e Jason Biggs e deste com Allen - e insights divertidíssimos e inteligentes sobre a vida e o amor, o roteiro é dos mais equilibrados do cineasta, fugindo do estigma de diretor hermético e elitista. Ao centrar-se em poucas personagens, ele consegue ser sucinto e dar uma visão humana e delicada das relações amorosas, sem, no entanto, deixar de fazer rir nas horas certas.

Mas, apesar do texto engraçadíssimo, é mais uma vez na escalação do elenco que Allen surpreende. Se Jason Biggs não brilha como poderia, ao menos não compromete - e depois voltou a ser ator de um papel só. E Christina Ricci simplesmente rouba descaradamente todas as cenas em que aparece. Tudo bem que sua personagem é rica e dona de frases perfeitas, mas é a atuação da ex-menina prodígio que eleva Amanda a um patamar acima de mais uma garota neurotica, transformando-a em uma cativante e humana personagem que seduz a todos à sua volta. Uma atriz brilhante em um papel sob medida, que bem merecia ter sido lembrada pelo Oscar.

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA

A LENDA DO CAVALEIRO SEM CABEÇA (Sleepy hollow, 1999, Paramount Pictures, 105min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Andrew Kevin Walker, história de Kevin Yagher, Andrew Kevin Walker, romance de Washington Irving. Fotografia: Emmanuel Lubezki. Montagem: Chris Lebenzon, Joel Negron. Música: Danny Elfman. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Rick Heinrichs/Peter Young. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Larry Franco. Produção: Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Johnny Depp, Christina Ricci, Christopher Walken, Miranda Richardson, Casper Van Dien, Michael Gambon, Jeffrey Jones, Lisa Marie, Christopher Lee. Estreia: 19/11/99

3 indicações ao Oscar: Fotografia, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Direção de Arte/Cenários

Um conto gótico de terror, estrelado por um detetive exótico, coadjuvado por bruxas e que contata com um vilão sem cabeça só poderia mesmo ser contado por Tim Burton. Em “A lenda do cavaleiro sem cabeça”, o cineasta buscou em uma história clássica americana a inspiração para mais um trabalho autoral, visualmente arrebatador. Dessa vez, porém, ele não conseguiu atingir a força de suas duas obras-primas “Edward Mãos de Tesoura” (1990) e “Ed Wood” (1994), sintomaticamente estreladas pelo mesmo Johnny Depp que aqui completa sua terceira colaboração com Burton.

Dessa vez Depp não interpreta um ser com tesouras no lugar das mãos nem mesmo um cineasta sem talento mas apaixonado por sua arte. Na história escrita no século XIX por Irving Washington e roteirizada por Andrew Kevin Walker (autor de “Seven”) ele vive Ichabod Crane, um detetive de métodos exóticos e passado traumático que é enviado de Nova York para uma cidadezinha do interior chamada Sleepy Hollow para investigar uma série de violentos crimes, onde as vítimas são decapitadas. Chegando no local, Crane logo fica sabendo que todos no vilarejo sabem que o culpado pelas mortes é um temido Cavaleiro Sem Cabeça, que quer vingar seu trágico fim. Sua investigação, no entanto, o leva a crer que os poderosos da cidade sabem bem mais do que revelam e ele então passa a correr sério risco de vida, enquanto se encanta com a doce Katrina (Christina Ricci), que também parece esconder segredos.



O visual de “A lenda do cavaleiro sem cabeça” é espetacular. Não há um ângulo sequer fotografado por Emmanuel Lubezki que não pareça uma pintura. A direção de arte (premiada com o Oscar da categoria) é impecável e algumas cenas são sublimes, apesar da violência. Apesar de tudo, falta ao filme um coração. Talvez por não ser uma história própria, onde poderia aproveitar sua criatividade a toda prova, Burton parece tímido, com medo de envolver-se emocionalmente na trama contada, o que fez muita diferença em seus trabalhos anteriores com Depp, aqui mais uma vez em sua persona cool, ainda que com os mesmos maneirismos de sempre e a eterna mania de parecer diferente e acrescentar um humor duvidoso à sua atuação, o que dilui consideravelmente a tensão da história.

Aliás, a opção de Burton em fugir da seriedade é que de certa forma estraga o prazer que se poderia tirar de "A lenda do cavaleiro sem cabeça". Se tivesse escolhido seguir um caminho mais dark, certamente o diretor faria jus à beleza plástica de sua obra, dando um toque de classe e sobriedade a um gênero que anda sempre perigosamente na corda bamba entre o grotesco e o patético. Nem mesmo a resolução do caso - quando os culpados são finalmente revelados e punidos - empolga dramaticamente, apesar de contar com um elenco de peso, onde destacam-se Miranda Richardson, Jeffrey Jones e um assustador Christopher Walken, que nem precisa falar para impressionar. A impressão que fica ao final da sessão é que algo muito importante ficou faltando. Não resta a menor dúvida de que Tim Burton é um cineasta de enorme talento e energia, mas “A lenda do cavaleiro sem cabeça” tem visual de mais pra história de menos.

sexta-feira

TEMPESTADE DE GELO

TEMPESTADE DE GELO (The ice storm, 1997, Fox Searchlights Pictures, 112min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, romance de Rick Moody. Fotografia: Frederick Elmes. Montagem: Tim Squyres. Música: Mychael Danna. Figurino: Carol Oditz. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção: Ted Hope, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Kevin Kline, Joan Allen, Sigourney Weaver, Tobey Maguire, Christina Ricci, Elijah Wood, Adam Hann-Byrd, Jamey Sheridan, Henry Czerny, Allison Janey, Katie Holmes. Estreia: 27/9/97

Vencedor de Melhor Roteiro no Festival de Cannes

Em 1995, o taiwanês Ang Lee surpreendeu a crítica ao fazer de "Razão e sensibilidade" a melhor adaptação para o cinema de um livro da escritora absolutamente inglesa Jane Austen. Em "Tempestade de gelo", seu projeto seguinte, ele continua a missão de penetrar em culturas diferentes da sua: é difícil acreditar em um filme tão tipicamente americano quanto sua brilhante visão do romance de Rick Moody. Mergulhando sem medo no âmago de duas famílias do interior do país em plena efervescência cultural e sexual dos anos 70, Lee entrega ao público um estudo delicado e cortante sobre as relações familiares. É triste e melancólico, mas é também mais uma obra-prima com sua assinatura.

É véspera do dia de Ação de Graças de 1973. O escândalo Watergate está no auge e os costumes sexuais e comportamentais estão em ebulição, mesmo em uma pequena cidade do interior de Connecticut chama Nova Canaan. É para lá que Paul Hood (Tobey Maguire) está retornando, para passar o feriado com a família. Seus pais, Ben (Kevin Kline) e Elena (Joan Allen) estão passando por uma crise no casamento, agravada pelo tédio e pelo caso secreto dele com Janey Carver (Sigourney Weaver), uma amiga do casal. A irmã de Paul, Wendy (Christina Ricci), por sua vez, experimenta o início de sua sexualidade brincando com os dois filhos de Janey, o tímido Mikey (Elijah Wood) e o desajeitado Sandy (Adam Hann-Byrd). Apesar da proximidade física, porém, existe um enorme distanciamento emocional entre todos eles.

A frieza nas relações interpessoais que Rick Moody criou em seu livro - e que foi retratada com perfeição pelo roteiro de James Schamus - encontra na inteligência e na sutileza de Ang Lee seu diretor ideal. Pródigo em dar tintas leves e discretas a dramas particulares, Lee conta a história das famílias Hood e Carver sem pressa, dando atenção a pequenos detalhes, como olhares tristes, suspiros disfarçados e atos desesperados. Os silêncios entre Elena e Ben dizem muito mais sobre os escombros de seu casamento do que as escapadas sexuais que ele dá com Jayne, uma mulher insatisfeita com a própria vida e que vê no seu caso extra-conjugal uma forma de escapar da monotonia. Jayne mal presta atenção nos filhos, que por sua vez não são capazes nem ao menos de perceber que seu pai saiu em viagem. Wendy é uma jovem um tanto desajustada, com forte visão política mas que é incapaz de lidar saudavelmente com seus instintos. E Paul, como alguém à parte de seu núcleo familiar, busca seu lugar no mundo sem sequer desconfiar do caos que reina em sua casa.



O gelo é uma imagem recorrente no filme de Lee. Volta e meia cubos de gelo invadem a tela, seja nas cozinhas suburbanas das personagens, no formato da casa de Jayne e principalmente na tempestade que dá nome ao filme e que origina uma tragédia que transforma definitivamente a vida de todos. A falta de calor humano entre maridos e mulheres e entre pais e filhos é o ponto central de "Tempestade de gelo", mas sua maior qualidade é justamente evitar cenas lacrimosas ou diálogos clichês. Como já dito, os silêncios na mesa dos Hood ou no relacionamento entre os Carver são mais eloquentes do que catarses emocionais repletas de choro e gritos. E é brilhante, dentro desse universo de coisas não ditas, a cena em que Ben carrega a filha Wendy nos braços, depois de flagrá-la em uma situação comprometedora com Mikey. Mesmo sem muitas falas, Kevin Kline e Christina Ricci transmitem toda a vastidão de sentimentos que a cena exige. Emocionar-se é mandatório!

Aliás, o elenco de "Tempestade de gelo" é dos melhores que Hollywood pode oferecer. Kevin Kline e Joan Allen estão fabulosos como um casal cuja falta de emoção os empurra em direção ao afastamento gradual. Sigourney Weaver, linda e sexy, tem sua melhor atuação como uma enfastiada esposa de classe média que busca em aventuras sexuais um motivo para passar seus dias iguais. E Christina Ricci demonstra que seu talento não ficou restrito às comédias que fez na infância, construindo uma Wendy que lida com sua sexualidade nascente de forma quieta mas agressiva. Somadas à fotografia - também gélida, de Frederick Elmes - e à trilha sonora poderosa de Mychael Danna, as interpretações do elenco elevam "Tempestade de gelo" a um patamar muito acima do corriqueiro. É um filme americano, que atinge a essência das famílias americanas e dos problemas americanos... mas tem cara e qualidade de cinema europeu. Simplesmente ignorado pelo Oscar e outras premiações menos conhecidas, é um filme extraordinariamente forte e emocionante, que merece ser descoberto e louvado.

terça-feira

MINHA MÃE É UMA SEREIA

MINHA MÃE É UMA SEREIA (Mermaids, 1990, MGM Pictures, 110min) Direção: Richard Benjamin. Roteiro: June Roberts. Fotografia: Howard Atherton. Montagem: Jacqueline Cambas. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Hilton Rosemarin. Casting: Margery Simkin. Produção: Lauren Lloyd, Wallis Nicita, Patrick Palmer. Elenco: Cher, Winona Ryder, Bob Hoskins, Christina Ricci, Michael Schoeffling. Estreia: 14/12/90

No final da década de 80, Cher era uma das atrizes mais poderosas da indústria, graças a seu Oscar por "Feitiço da lua", um prêmio que lhe deu um invejável respeito entre seus colegas. Uma das maiores provas de seu poder está em "Minha mãe é uma sereia" - além de ser a protagonista do filme, ela foi a responsável pela substituição do primeiro diretor escolhido - Frank Oz por Richard Benjamin - e pela escalação da então queridinha de Hollywood, Winona Ryder no lugar da promissora Emily Lloyd. A razão alegada por Cher até fazia sentido - ela achava que Winona, por ser morena, era mais verossímil como sua filha do que a loira Lloyd - mas o fato é que, graças a suas escolhas artísticas, "Minha mãe é uma sereia" acabou se transformando em uma deliciosa e simpática comédia dramática. Não muda a vida de ninguém, mas diverte na medida certa.


A trama de "Minha mãe é uma sereia" se passa em 1963, quando a excêntrica Sra. Flax (vivida com gosto por Cher) chega a uma pacata cidade do interior dos EUA acompanhada das duas filhas, a tímida Charlotte (Winona Ryder) e a pequena Kate (Christina Ricci). Solteira e independente, a jovem senhora muda de cidade toda vez que vê um relacionamento falir, o que atrapalha ainda mais a adolescência complexa de Charlotte, que, apesar da origem judaica, sonha em tornar-se freira. Sua fascinação por histórias de santos é deixada de lado, no entanto, quando ela conhece o jovem Joe (Michael Schoeffling), que trabalha na igreja da cidade e que se apaixona por ela. Seu titubeante romance acontece concomitantemente com a nascente relação entre sua mãe e Lou Landsky (Bob Hoskins), dono de uma loja de sapatos.



"Minha mãe é uma sereia" não tem uma história mirabolante ou grandes lances dramáticos. O roteiro de June Roberts se concentra em retratar o clima ainda ingênuo da América pré-assassinato de Kennedy através da relação entre uma mãe à frente de seu tempo e suas filhas tentando descobrir seu lugar no mundo - e nas relações interpessoais. É interessante notar o equilíbrio entre as personalidades de Charlotte (extremamente madura em alguns aspectos e pateticamente ingênua em outros, a ponto de achar-se grávida depois de um simples beijo) e sua mãe (que foge dos relacionamentos que julga fadados ao fracasso, mas tem uma relação de extremo carinho com a família). O contraponto entre a exuberante Cher e o simpático Bob Hoskins funciona à perfeição, assim como a química perfeita entre a atriz/cantora com Winona Ryder e uma adorável Christina Ricci.
 
Contando com uma trilha sonora cuidadosamente escolhida - na qual até mesmo uma divertida canção de Cher tem espaço - e um clima de sessão da tarde, "Minha mãe é uma sereia" consegue agradar sem fazer muito esforço, principalmente devido ao carisma de suas protagonistas.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...