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segunda-feira

VIAGENS ALUCINANTES

 


VIAGENS ALUCINANTES (Altered states, 1980, Warner Bros, 102min) Direção: Ken Russell. Roteiro: Paddy Chayefsky (como Sidney Aaron), romance de sua autoria. Fotografia: Jordan Cronenweth. Montagem: Eric Jenkins. Música: John Corigliano. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard McDonald/Thomas Roysden. Produção executiva: Daniel Melnick. Produção: Howard Gottfried. Elenco: William Hurt, Bob Balaban, Blair Brown, Charles Haid, Drew Barrymore. Estreia: 25/12/80

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Som

Só mesmo quem não conhecia a obra pregressa do cineasta britânico Ken Russell poderia esperar que seu primeiro filme em Hollywood poderia ser algo diferente de "Viagens alucinantes": baseado em romance de Paddy Chayefsky publicado em 1978, sua estreia no cinema norte-americano é um mergulho sem freios em experiências lisérgicas, obsessão e, surpreendentemente, uma história de amor - que muitos interpretaram com uma releitura do mito de Orfeu e Eurídice, uma atualização de Dr. Jekyll e Mr. Hyde ou até com intenções religiosas. O fato é que, independente de qualquer ponto de vista, o filme fracassou nas bilheterias - nenhum choque, haja visto seu tema e o nome de Russell nos créditos - e, com o tempo, tornou-se uma espécie de cult movie, valorizado pela presença de William Hurt (em seu primeiro trabalho no cinema) e pela coragem do cineasta em explorar, com um visual exuberante e incômodo, um assunto que nem as mais radicais produções de ficção científica ousaram.

O roteiro - adaptado pelo próprio Chayefsky, que renegou o resultado final apesar de sua fidelidade ao material original - não era exatamente do agrado de Ken Russell, que embarcou no projeto após a desistência de Arthur Penn. Segundo Russell, o script era pesado, pretensioso e rebuscado demais, e o trabalho entre os dois profissionais esteve longe do ideal durante as filmagens, a ponto de o roteirista ser banido do set e ter tentado a demissão do diretor. Quando Chayefsky preferiu desligar-se do projeto (e assinar o roteiro com o pseudônimo de Sidney Aaron), o filme parecia já estar condenado, e o péssimo resultado nas bilheterias ajudou a relegar Ken Russell (que, segundo dizem, passou boa parte da produção sob o efeito de álcool) a uma espécie de limbo na indústria hollywoodiana. A morte de Chayefsky - que ganhou um Oscar pelo roteiro de "Hospital" (1971) -, poucos meses da estreia (e do fracasso) de "Viagens alucinantes" também não colaborou para o histórico do filme, apesar dos elogios da revista Time, que o elegeu um dos dez melhores do ano, e das duas indicações (técnicas) ao Oscar.


 

A trama concebida por Chayefsky já é, em si, bastante ousada: seu protagonista é o cientista e professor de psicologia Edward Jessup (William Hurt), um profissional brilhante mas pouco afeito às convenções impostas pela Medicina tradicional. Ambicioso em suas pesquisas alucinógenas, ele resolve, à revelia de seus superiores, fazer de si mesmo uma cobaia no uso de drogas em uma câmara de isolamento. Logo no começo ele consegue atingir regiões profundas da mente. Anos depois, já separado da também cientista Emily (Blair Brown) - que não consegue lidar com a obsessão do marido -, Jessup tem contato com rituais sagrados no México e com a utilização de drogas xamânicas. Tal novidade faz com que suas novas experiências fiquem ainda mais intensas: a cada sessão o audacioso professor vai ainda mais longe em suas viagens, chegando a formas progressivamente mais primárias de vida. O que muitos consideravam então simples alucinações começa a assustar seus colegas e familiares.

Produzido pela Warner depois que a Columbia Pictures desistiu do projeto por seu custo acima do esperado, "Viagens alucinantes" é, provavelmente, um dos melhores trabalhos de Ken Russell, mais conhecido pelo musical "Tommy" (1975) e por suas cinebiografias dos compositores Liszt, Mahler e Tchaicovsky. Com seu visual exuberante - influenciado por Magritte e Salvador Dalí - e uma trama consistente e frequentemente aflitiva, seu filme não apenas demonstra uma maturidade temática, mas confirma seu talento na direção de atores, que seria confirmado em sua produção seguinte, "Crimes do coração" (1984), estrelado por Anthony Perkins e Kathleen Turner: com um desempenho brilhante de William Hurt, que deixa verossímeis as teorias mais intrincadas, Russell ainda encontra espaço para trabalhar com efeitos visuais impressionantes que, ao contrário de atrapalhar, servem à história com uma inteligência ímpar. Injustamente esquecido pelo grande público, "Viagens alucinantes" é uma pequena obra-prima da ficção científica - e merece ser redescoberto e alçado à sua condição de clássico do gênero.

terça-feira

O DESTINO MUDOU SUA VIDA

O DESTINO MUDOU SUA VIDA (Coal miner's daughter, 1980, Universal Pictures, 124min) Direção: Michael Apted. Roteiro: Tom Rickman, livro de Loretta Lynn, George Vecsey. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Arthur Schmidt. Figurino: Joe I. Tompkins. Direção de arte/cenários: John W. Corso/John M. Dwyer. Produção executiva: Bob Larson. Produção: Bernard Schwartz. Elenco: Sissy Spacek, Tommy Lee Jones, Beverly D'Angelo, Levon Helm, Phyllis Boyens. Estreia: 07/3/80

07 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Sissy Spacek), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Sissy Spacek)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Sissy Spacek) 

Para muita gente (especialmente no Brasil), o nome Loretta Lynn não significa muita coisa. Nos EUA, porém, a história é bem diferente: uma das cantoras mais reconhecidas e famosas do país, Lynn tem inúmeros prêmios nas prateleiras (incluindo o Grammy) e é, desde a década de 60, uma referência em música country e gospel. O tamanho de sua importância é tanto que em 1980 ela recebeu uma das maiores homenagens que podem ser feitas a um artista vivo: um filme contando sua vida, produzido por um grande estúdio (a Universal Pictures) e com visibilidade e prestígio o bastante para chegar até a temporada de premiações e sair dela com alguns troféus muito ambicionados. Indicado ao Oscar de melhor filme, "O destino mudou sua vida" deu à Sissy Spacek a estatueta dourada de melhor atriz - além de todos os outros prêmios do ano, das associações de críticos ao Golden Globe. A chuva de aplausos reconhece justamente o melhor do filme, baseado em uma autobiografia da cantora, escrita em parceria com George Vecsey: convencional e sem muito brilho narrativo, "O destino mudou sua vida" deve seu sucesso à Spacek, convincente em todas as fases da personagem e mostrando um surpreendente talento vocal.

Escolhida pessoalmente pela própria Loretta Lynn para interpretá-la nas telas, e batendo até mesmo Meryl Streep na disputa pelo papel, Sissy Spacek mostra, em "O destino mudou sua vida", uma outra faceta de seu talento. Indicada ao Grammy de melhor vocal feminina em música country, ela não hesita em soltar a voz nas apresentações de Lynn, assim como sua parceira de cena Beverly D'Angelo, que interpreta a cantora Patsy Cline, grande inspiração da protagonista e que se torna sua amiga íntima durante sua trajetória rumo ao sucesso. Em sua preparação para o papel, Spacek acompanhou Lynn em uma de suas turnês, e, mantendo-se no personagem mesmo quando não estava diante das câmeras, ela impressiona com uma caracterização impecável, em expressão corporal, sotaque e, mais importante que tudo, compreensão dos variados estados de espírito de sua personagem. De adolescente insegura e apaixonada à artista consagrada, a Loretta Lynn criada pela atriz conquista pela força e pela honestidade de sua arte - surgida de suas experiências pessoais e totalmente autodidata.


O acontecimento mais importante da vida de Loretta - antes da fama e do sucesso - foi o encontro com aquele que seria seu futuro marido, Oliver 'Moon' Lynn (Tommy Lee Jones). O ano era 1947 e, com apenas 13 anos de idade, a filha mais velha de um mineiro do Kentucky, se apaixona à primeira vista, apesar da objeção dos pais. O casamento quase imediato sofre com a inexperiência da garota e a falta de jeito do marido, mas uma gravidez logo os une definitivamente e eles se mudam para Washington. Alguns mais mais tarde e já mãe de quatro filhos, Loretta é uma competente dona-de-casa e tem sua vida transformada com um presente aparentemente inútil que ganha do marido: um violão. Apaixonada por música, ela aprende sozinha a tocar e, com o apoio de Moon, começa a apresentar-se em festas locais de música country. Entusiasmada, passa a compor as próprias canções e, ao lado do marido, vai em busca do sucesso, procurando gravadoras e shows para demonstrar seu trabalho. Começa aí uma trajetória de êxito e respeito que a levará a se tornar uma das mais conhecidas cantoras country de sua geração.

Sem grandes acontecimentos dramáticos além da vida pessoal da protagonista, sacrificada em prol da carreira - e uma morte que o filme trata sem dar muita importância -, "O destino mudou sua vida" é uma produção correta, sem grandes escorregões mas igualmente sem muito brilho. Sissy Spacek realmente carrega o filme nas costas, com uma interpretação irretocável, mas a direção de Michael Apted (que depois levaria Sigourney Weaver e Jodie Foster à disputa pelo Oscar em "Nas montanhas dos gorilas", de 1988, e "Nell", de 1994, respectivamente) não consegue fazer milagres com um roteiro que, ao seguir a linha cronológica dos acontecimentos, serve apenas para retratar, sem muita inventividade, uma carreira linear e quase desinteressante - à parte o trabalho de Spacek, a história de Loretta não chega a entusiasmar àqueles que não conhecem sua música, e a edição tampouco ajuda (alguns minutos a menos não faria mal nenhum à trama). No final das contas, um filme honesto e bem realizado, mas que não justifica as sete indicações ao Oscar (incluindo melhor filme e roteiro adaptado). Vale por Sissy, uma grande atriz no papel de sua vida!

segunda-feira

COMO ELIMINAR SEU CHEFE

COMO ELIMINAR SEU CHEFE (Nine to five, 1980, 20th Century Fox, 109min) Direção: Colin Higgins. Roteiro: Colin Higgins, Patricia Resnick, estória de Patricia Resnick. Fotografia: Reynaldo Villalobos. Montagem: Pembroke J. Herring. Música: Charles Fox. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Dean Mitzner/Anne McCulley. Produção: Bruce Gilbert. Elenco: Jane Fonda, Lily Tomlin, Dolly Parton, Dabney Coleman, Sterling Hayden, Elizabeth Wilson, Henry Jones, Lawrence Pressman. Estreia: 19/12/80

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Nine to Five")

Depois de uma série de filmes densos, com temáticas relevantes, como "Julia" (77), "Amargo regresso" (78) - que lhe rendeu o segundo Oscar de melhor atriz - e "Síndrome da China" (79), não deixou de ser uma surpresa ver o nome de Jane Fonda encabeçando os créditos de uma comédia aparentemente tão despretensiosa quanto "Como eliminar seu chefe". Produzido pela companhia de Fonda e Bruce Gilbert, a IPC Films, o filme dirigido por Colin Higgins foi um inesperado sucesso de bilheteria - foi o segundo filme mais rentável do ano nos EUA e Canadá - e provou que, além de uma atriz de prestígio e consciência social, Fonda era também extremamente popular, ainda capaz (ao contrário do que diziam seus detratores à época) de levar público às salas de cinema. Mesmo que parte do êxito possa também ser creditada à presença da sensacional Lily Tomlin e da cantora country Dolly Parton (estreando como atriz), é inegável que boa parte do interesse das plateias vinha de sua participação - em papel atípico, mas nem tão distante como parecia de seus interesses políticos. Aparentemente uma comédia inofensiva, "Como eliminar seu chefe" mantém, em seu íntimo, uma óbvia alma feminista.

Desprovida de glamour e vaidade, Fonda interpreta Judy Bernly, uma mulher recém-divorciada que, sem nunca ter trabalhado fora, conquista um emprego de secretária em uma grande empresa de Nova York. Tão logo chega a seu local de trabalho, ansiosa e insegura, ela se depara com um mundo que parece funcionar com regras próprias, criadas pelo chefe, Franklin Hart Jr. (Dabney Coleman, em papel oferecido a Gregory Peck e Charlton Heston): machista, misógino, egocêntrico, hipócrita e mentiroso, ele domina o escritório de modo despótico e cruel, sem hesitar em humilhar e assediar todas as mulheres que trabalham com ele. Mesmo casado, insiste em tentar conquistar a ingênua Doralee (Dolly Parton) e trata a experiente Violet (Lily Tomlin) como escrava - além de ter roubado dela uma promoção há muito desejada. Depois de um expediente particularmente pesado (em que as três se descobrem mutuamente revoltadas com os desmandos do patrão), elas fantasiam sobre diferentes formas de livrar-se de seus domínios, aliviando sua tensão. Acontece, porém, que logo em seguida uma de suas fantasias dá a impressão de ter-se tornado realidade - e, julgando Hart morto, as colegas se unem para despistar a polícia e manter a rotina inabalada.


Apesar do primeiro terço um tanto bobo e quase pueril - com direito a citações à Branca de Neve e outros desenhos animados -, "Como eliminar seu chefe" vai se tornando, aos poucos, em uma envolvente comédia de erros, repleta de um humor que mescla crítica social, ironia e até pastelão. Dotadas de notável timing cômico, as três protagonistas carregam nas costas a responsabilidade de fazer uma comédia adulta sem apelar para a vulgaridade ou excesso de erudição. Com um roteiro que agrada tanto àqueles que procuram sequências de gargalhar como àqueles dispostos a um humor mais sofisticado, o filme de Colin Higgins acerta em apostar todas as suas fichas no talento de suas atrizes em conseguir arrancar risadas até mesmo em situações bizarras - todas as sequências no hospital, envolvendo o sequestro de um cadáver e sua posterior reposição, são absolutamente geniais, graças ao desempenho do elenco. Famoso pelo cultuado "Ensina-me a viver" (71), Higgins brinca novamente com temas sérios sem perder a leveza e a sensibilidade.

Por trás de sua aparência histriônica, "Como eliminar seu chefe" é um filme absolutamente importante em termos sociais. Quando de seu lançamento, no final de 1980, a discussão sobre os direitos femininos estava no auge - e filmes como "Norma Rae" e "Kramer vs Kramer", ambos de 1979 e ambos premiados com o Oscar, apontavam uma direção para a qual Hollywood estava disposta a olhar com atenção. Ao conectar o espírito de seu tempo com um gênero popular - e levantar conversas sobre o assunto sem parecer didático ou panfletário - o filme de Higgins é um triunfo: mesmo que no cômputo final é pouco provável que sua mensagem vá sobrepor-se à sua trama na lembrança do espectador, uma semente foi lançada, e mais uma vez Jane Fonda teve sua parcela de responsabilidade. Afinal, mesmo brincando ela sabia muito bem o que estava fazendo!

A RECRUTA BENJAMIN

A RECRUTA BENJAMIN (Private Benjamin, 1980, Warner Bros, 109min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Nancy Meyers, Charles Shyer, Henry, Harvey Miller. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Bill Conti. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Robert Boyle, Jeffrey Howard/Arthur J. Parker. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Nancy Meyers, Charles Shyer, Harvey Miller. Elenco: Goldie Hawn, Armand Assante, Harry Dean Stanton, Eileen Breenan, Albert Brooks, Craig T. Nelson, Robert Webber, Sam Wanamaker, Barbara Barrie, Mary Kay Place. Estreia: 07/10/80

3 indicações ao Oscar: Atriz (Goldie Hawn), Atriz Coadjuvante (Eileen Brennan), Roteiro Original

Em 1979, bem antes que as atrizes de Hollywood começassem a demonstrar seu descontentamento em relação à baixa quantidade de papéis femininos relevantes dentro da indústria - uma reclamação que vem de muito longe, mas nem sempre de forma assertiva - a jovem Goldie Hawn já havia percebido que o caminho mais efetivo para não depender exclusivamente dos grandes estúdios estava em produzir seus próprios filmes. Aos 34 anos e grávida de cinco meses de sua filha, Hawn, que já tinha em casa um Oscar de coadjuvante pelo filme "Flor de cacto" (69), resolveu assumir as rédeas de uma carreira já bem estabelecida e comprou a ideia da roteirista (e futura cineasta) Nancy Meyers para estrelar a comédia "A recruta Benjamin". Logo depois do nascimento de seu bebê (que se tornaria a atriz Kate Hudson) e passando por um processo de divórcio, ela já estava enfrentando um treinamento militar de seis semanas e supervisionando aquele que seria a sexta maior bilheteria de 1980 nos EUA e Canadá - e lhe daria uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor atriz. Leve, agradável e com um viés feminista que combinava perfeitamente com o momento de seu lançamento, "A recruta Benjamin" permanece um passatempo divertido, mas é difícil entender porque concorreu ao Oscar de roteiro original e ganhou o prêmio do Sindicato de Roteiristas na categoria comédia: apesar de simpático, ele jamais atinge todas as possibilidades que apresenta em seu primeiro (e promissor) ato.

O filme começa muito bem: a jovem e mimada Judy Benjamin (interpretada com graça e timing perfeito por Hawn), uma socialite judia, acaba de se casar - pela segunda vez - com o bem-sucedido advogado Yale Goodman (Albert Brooks em participação especial). Seus problemas normalmente se resumem a encontrar os objetos corretos para decorar sua casa ou combinar roupas para eventos sociais, mas sua felicidade dura pouco: em plena noite de núpcias, Yale morre de um ataque do coração (durante o ato sexual). Deprimida e desorientada, ela encontra um caminho na figura de um excêntrico desconhecido, o sargento Jim Ballard (Harry Dean Stanton), que a convence dos benefícios de integrar as Forças Armadas americanas. Sem saber exatamente onde está se enfiando, Judy parte de malas e bagagens para o treinamento militar e acaba se tornando desafeto da Capitã Doreen Lewis (Eileen Brennan, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que não suporta a futilidade da nova recruta. Sofrendo com a nova rotina, ela entra em conflito com outros superiores e, transferida para a Europa, se apaixona pelo francês Henri Trémont (Armand Assante), que pode vir a ser seu terceiro marido.


O grande problema de "A recruta Benjamin" é sua brusca queda de ritmo e interesse no ato final. O romance entre Judy e Henri soa deslocado em um filme que, a princípio, parece ser basicamente uma comédia ligeira, repleta de piadas físicas e do humor deliciosamente ingênuo de Goldie Hawn. Se até então o desenvolvimento da história já deixava para trás a chance de brincar com muito mais contundência com as dificuldades da protagonista em encarar um mundo completamente oposto ao que vivia, seu desvio de rota em direção à comédia romântica o deixa ainda menos consistente. A trama que mais prometia - a rixa entre Judy e a Capitã Lewis - acaba sendo esquecida e enfraquecida assim que o roteiro se transfere para a Europa, quando o treinamento de Benjamin (os momentos mais inspirados do filme) é substituído por um discurso feminista que, apesar de pertinente, se torna cansativo e superficial. Nem mesmo o talento de Goldie Hawn é capaz de contornar tal problema, mas felizmente seu sorriso desarma qualquer espectador.

Com o talento de arrancar risadas sem precisar falar sequer uma linha de diálogo, Goldie Hawn é o corpo e a alma de "A recruta Benjamin". Não à toa, foi a principal responsável por sua realização, ciente de que tinha em mãos um veículo perfeito para seus dotes como humorista e atriz dramática. O Oscar - que perdeu para Sissy Spacek em "O destino mudou sua vida" - certamente seria um exagro absurdo, mas é seu imenso carisma que sustenta o filme, salvando-o de ser apenas uma sessão da tarde esquecível. Está longe de ser, como votou a revista Premiére, em 2006, "uma das 50 maiores comédias de todos os tempos", mas sai-se bem como um passatempo despretensioso - e até rendeu uma série de TV (sem Goldie), que ficou no ar entre 1981 e 1983, com direito a prêmios Emmy e Golden Globe. Definitivamente, um tiro certo na carreira da atriz.

PARCEIROS DA NOITE

PARCEIROS DA NOITE (Cruising, 1980, United Artists, 102min) Direção: William Friedkin. Roteiro: William Friedkin, romance de Gerald Walker. Fotografia: James Contner. Montagem: Bud Smith. Música: Jack Nitzsche. Figurino: Robert deMora. Direção de arte/cenários: Bruce Weintraub/Robert Drumheller. Produção: Jerry Weintraub. Elenco: Al Pacino, Paul Sorvino, Karen Allen, Richard Cox, Don Scardino, Jay Acovone, Joe Spinell, James Remar. Estreia: 08/02/80

Parece coisa de ficção, mas consta que é a mais pura verdade: em 1972, quando estava filmando "O exorcista" - que se tornaria um dos filmes de terror mais bem-sucedidos da história do cinema - o cineasta William Friedkin utilizou-se de um radiologista de verdade para uma cena em que a jovem protagonista, vivida por Linda Blair, passava por uma bateria de exames para diagnosticar seu problema (que, como todo mundo que assistiu ao filme sabe, era o demônio em pessoa). O assistente do tal radiologista, um rapaz chamado Paul Bateson, acabou preso, alguns anos depois, acusado de ter assassinado o amante, o crítico de cinema Addison Verrill. Em 1979, durante a fase de pesquisa para seu filme "Parceiros da noite" - baseado em um romance de Gerald Walker, por sua vez baseado no caso real de um serial killer que, no período 1962-1979, depois de fazer suas vítimas, frequentadores do submundo gay nova-iorquino, desovava partes de seus corpos em sacolas plásticas no Rio Hudson - o diretor resolveu conversar com Bateson, na tentativa de entender um pouco mais sobre a mentalidade de um criminoso como ele. O que Friedkin não poderia sequer imaginar é que Bateson - mais tarde condenado à prisão perpétua - sempre deu a entender, em seu período na prisão, de que ele era também o real assassino que deu origem ao livro de Walker. Por uma incrível coincidência, o vencedor do Oscar de melhor direção por "Operação França" (71) trabalhou, ainda que por um breve período de tempo, com o homem que seria a base para o mais polêmico e complicado trabalho de sua carreira.

Logo que o projeto de "Parceiros da noite" surgiu no horizonte chamou para si a fúria de todos os setores da sociedade norte-americana. Dos republicanos mais ferrenhos aos militantes mais ferozes do movimento LGBT, todo mundo parecia disposto a apedrejar o filme antes mesmo de sua estreia. A comunidade gay organizava piquetes para atrapalhar as filmagens, clamando contra o que considerava um retrato preconceituoso e tendencioso. Os grandes estúdios de Hollywood, por sua vez, recusavam financiar uma produção que obviamente causaria mais controvérsia do que bilheteria - filmes de temática gay invariavelmente fracassavam comercialmente em um país à beira de uma onda de conservadorismo que encontraria no vírus da AIDS (noticiado pela primeira vez um ano após sua estreia) um pretexto mais do que perfeito para sua ideologia. Entre idas e vindas, a ideia de traduzir para as telas o romance de Walker passou pelas mãos de diversos diretores - Brian De Palma (que apesar de interessado não conseguiu os direitos de produção e foi fazer "Vestida para matar"), o alternativo Paul Morrissey (que queria Jeff Bridges no papel principal) e até (pasmem!!) Steven Spielberg, já consagrado por "Tubarão" e "Contatos imediatos de terceiro grau", mas antes de "Caçadores da Arca Perdida" e "E.T.: o extra-terrestre", que só pulou fora por causa da alta de apoio dos estúdios - e, mesmo com Friedkin no comando, demorou a encontrar um protagonista de peso. O cineasta queria o então novato Richard Gere e chegou a convidar Robert De Niro e Roy Scheider para o elenco, mas foi Al Pacino, então em alta graças a sucessivas indicações ao Oscar, quem ficou com um dos papéis mais polêmicos de sua trajetória artística - e que precipitou uma pausa estratégica pouco tempo depois.


Fracasso de bilheteria e de crítica - chegou a ser indicado ao Framboesa de Ouro - e atacado sem piedade por todos os lados, "Parceiros da noite" é um filme que merece uma revisão. Se recusando a tornar mais palatável o universo sombrio e por vezes chocante de uma parte do submundo gay - no caso, os clubes sadomasoquistas - o roteiro de Friedkin mergulha o espectador em sequências sufocantes, quase claustrofóbicas, filmadas com uma aspereza quase documental (não à toa, seu diretor de fotografia, James Contner, pensou em apelar para o preto-e-branco). Pouco afeito a melindres desnecessários, Friedkin não poupa a plateia de cenas que retratam, com o máximo de realismo permitido a uma produção que se pretendia comercial, a rotina de frequentadores de bares homossexuais da Nova York do final da década de 70. Funcionando quase como um voyeur, o público penetra em salas escuras, onde o perigo pode estar em qualquer canto - algo assim como Richard Brooks fez com os bares de solteiros em "À procura de Mr. Goodbar" (77), em que Diane Keaton desafiava o perigo em encontros casuais com estranhos. Para isso, ele se utiliza do ponto de vista de seu protagonista, o policial Steve Burns, que se vê diante de um mundo novo (e ao mesmo tempo fascinante e grotesco) quando é escalado para caçar um serial killer que vem fazendo suas vítimas entre os frequentadores desses locais.

Escolhido para a missão por ter o tipo físico das vítimas, Burns aceita servir de isca para que a polícia de Nova York encontre o criminoso, e, para isso, passa a frequentar assiduamente bares e clubes noturnos voltados à prática específica de sadomasoquismo. Escondendo a missão até mesmo da namorada, Nancy (Karen Allen), ele se envolve gradualmente com a situação, testemunhando a forma como a própria polícia trata a comunidade homossexual e participando, sem querer, da vida de um novo vizinho, que sofre com os ciúmes do namorado violento. Abalado com o andamento das investigações, Burns inicia um lento processo de desconstrução de si mesmo - que acarreta até mesmo dúvidas a respeito de sua própria sexualidade. E é nesse tom dúbio de um protagonista complexo e multifacetado que William Friedkin mostra sua coragem: às vésperas de entrar em um período de extremo puritanismo, o público dos EUA realmente não tinha como abraçar um filme como "Parceiros da noite". Não apenas por sua violência, por mostrar uma sexualidade alternativa que repudiava o estereótipo ou por colocar um ator popular como Al Pacino no centro da narrativa, mas sim por ousar eleger como protagonista um policial que que destoa radicalmente do herói com que a plateia já estava acostumada no gênero. Embaralhando suas cartas com pistas falsas, mesnagens subliminares e um final em aberto que deixa qualquer um pensando por muito tempo após a sessão, Friedkin mostra que um filme policial não precisa necessariamente abrir mãos dos clichês para provocar e instigar. A estrutura do seu roteiro é simples - apresentação, desenvolvimento, desfecho - e não há maiores ousadias visuais. O que o eleva a um patamar acima de seus congêneres é a inteligência de buscar algo mais do que simplesmente apresentar um jogo de gato e rato: "Parceiros da noite" é desconfortável, tenso e, levando-se em consideração que já tem quase quatro décadas, um filme à frente de seu tempo. Pode parecer datado em alguns momentos, mas ainda é forte o bastante para resistir à passagem dos anos.

sexta-feira

GENTE COMO A GENTE

GENTE COMO A GENTE (Ordinary people, 1980, Paramount Pictures, 124min) Direção: Robert Redford. Roteiro: Alvin Sargent, romance de Judith Guest. Fotografia: John Bailey. Montagem: Jeff Kanew. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva, Phillip Bennett/William Fosser, Jerry Wunderlich. Produção: Ronald L. Schwary. Elenco: Donald Sutherland, Mary Tyler Moore, Timothy Hutton, Judd Hirsch, Elizabeth McGovern, M. Emmet Walsh. Estreia: 19/9/80

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Atriz (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Judd Hirsch), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 4 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Robert Redford), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Roteiro Adaptado
Vencedor de 5 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Robert Redford)), Atriz/Drama (Mary Tyler Moore), Ator Coadjuvante (Timothy Hutton), Revelação Masculina (Timothy Hutton) 

Em 1979, a Academia de Hollywood achou por bem oferecer suas mais valiosas estatuetas - melhor filme, direção, roteiro e ator - a um pequeno drama familiar chamado "Kramer vs Kramer", que também deu a uma então jovem Meryl Streep o prêmio de atriz coadjuvante. A preferência dos votantes por produções mais intimistas e voltadas para sentimentos comuns a uma parcela mais significativa da plateia se manteve no ano seguinte, quando a estreia do ator Robert Redford atrás das câmeras também saiu da cerimônia do Oscar carregado de homenagens. Passando por cima de obras superlativas, como "Touro indomável" (de Martin Scorsese) e "O homem elefante" (de David Lynch), o delicado "Gente como a gente" conquistou as láureas de melhor filme, diretor, roteiro adaptado (de um romance de Judith Guest) e ator coadjuvante (para o estreante Timothy Hutton, na época com apenas 20 anos de idade).

Em termos puramente cinematográficos, talvez realmente tenha sido um exagero da Academia optar pelo filme de Redford em detrimento das obras-primas de Scorsese e Lynch, mas não é difícil compreender suas razões, principalmente se for levada em conta a tendência da época em dar mais atenção a sentimentos discretos do que a grandes explosões de violência e dor. No final dos anos 70, os eleitores da Academia pareciam mais dispostos a abraçar famílias desfeitas do que grandes espetáculos - em uma espécie de surpreendente introspecção que não duraria por muitos anos, uma vez que já em 1982, com "Gandhi", de Richard Attenborough, eles voltaram a prestigiar gigantescas produções. E a obra de Guest, um romance devastador sobre a dor da perda, a incapacidade de lidar com o vazio existencial e o esfacelamento de um núcleo familiar aparentemente perfeito, serviu como uma luva para tais preferências conservadoras do Oscar. O resultado - nada surpreendente depois da chuva de Golden Globes (cinco no total, incluindo um prêmio de revelação masculina para Hutton, que também saiu como melhor coadjuvante) - espelhou também a escolha do National Board of Review e a Associação de Críticos de Nova York. Como se pode ver, não apenas a Academia se deixou seduzir pela sensibilidade de Redford em abordar temas tão difíceis.


"Gente como a gente" lança seu olhar curioso para dentro do lar da família Jarrett - ou o que sobrou dela após a morte do filho mais velho, Buck, em um acidente de barco. Desde o trágico acontecimento, seu irmão caçula, Conrad (Timothy Hutton), não se cansa de sentir-se culpado, o que o levou até mesmo a uma tentativa de suicídio. Já em casa depois de uma temporada em um hospital psiquiátrico, ele tenta retomar a rotina escolar e de treinos na equipe de natação, mas esbarra na frieza da própria mãe, Beth (Mary Tyler Moore), que tinha preferência pelo filho morto e demonstra desprezo e apatia pelo rapaz. Seu sofrimento em relação a isso é amenizado em parte pelas atenções do pai, Calvin (Donald Sutherland) - também aterrorizado pelos acontecimentos - e por seu novo terapeuta, Berger (Judd Hirsch, indicado ao Oscar de ator coadjuvante), que luta para fazê-lo compreender melhor o mundo a seu redor e perceber as coisas como elas realmente são. É graças a ele que o jovem Conrad se sente capaz de iniciar um tímido relacionamento com Jeannine (Elizabeth McGovern) mesmo quando não se sente totalmente apto a isso. Apesar de tudo, porém, é a falta de comunicação com Beth que o devasta - a ponto de ter a certeza absoluta de que não é amado por ela.

Dirigindo seu primeiro filme com ritmo europeu - lento, discreto, delicado - e evitando ao máximo o sentimentalismo barato que poderia vir com uma trama tão repleta de sofrimento, Robert Redford mostrou-se um cineasta interessado em questões relevantes e sinceras. Sua carreira posterior, no comando de uma série de filmes politicamente responsáveis e pungentes, demonstra seu cuidado em narrar histórias onde o maior interesse reside nos personagens e em seus fantasmas interiores. Surge daí seu talento em extrair de seus atores performances memoráveis. Usando sua experiência como ator para melhor orientar seu elenco, Redford consegue a façanha de criar personagens repletos de nuances e complexos a ponto de evitar o que mais se teme em filmes do gênero: o maniqueísmo. Beth, se aparenta uma frieza quase desprezível em relação ao filho mais jovem, tem seus momentos de dor, escondidos sob uma carapaça que nem mesmo a doçura do rapaz consegue romper. Calvin está no meio de um fogo cruzado, entre a mulher por quem se apaixonou e o filho que tenta ajudar (mas quem fará isso por ele?). E Conrad, sentindo-se culpado pela morte do irmão e pela decepção que causou à mãe, vê na autodestruição o caminho mais correto a seguir. São todos personagens fortes e verossímeis, tratados com respeito pelo roteiro de Alvin Sargent, também premiado com o Oscar. Pode não ser um filme espetacular ou que fez o cinema avançar como técnica, mas "Gente como a gente" tem qualidades redentoras e, assistido com o coração aberto, é emocionante e inesquecível.

sábado

VESTIDA PARA MATAR

VESTIDA PARA MATAR (Dressed to kill, 1980, Filmways Pictures/Cinema 77 Films, 105min) Direção e roteiro: Brian De Palma. Fotografia: Ralf D. Bode. Montagem: Jerry Greenberg. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gary Jones, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Gary Weist/Gary Brink. Produção: George Litto. Elenco: Michael Caine, Angie Dickinson, Nancy Allen, Keith Gordon, Dennis Franz. Estreia: 25/7/80

Se o cineasta Brian De Palma ficou conhecido por ser o mais fiel discípulo de Alfred Hitchcock, boa parcela de responsabilidade por tal afirmação se deve a "Vestida para matar", um de seus mais radicais exercícios de estilo, dono de algumas das sequências mais empolgantes do início da década de 80. Violento, tenso e tecnicamente brilhante, o filme é uma antologia de momentos de cinema em forma pura, que dispensa diálogos desnecessários para jogar o espectador em uma trama labiríntica e doentia, que bebe da fonte do mestre do suspense tanto de forma discreta (o clima, a obsessão pela sexualidade reprimida) como de maneira nítida (com citações quase óbvias de "Um corpo que cai", "Janela indiscreta" e principalmente "Psicose"). Entretanto, mesmo com todas essas homenagens, De Palma consegue o que parecia impossível, imprimindo a seu trabalho uma personalidade que o separa de meros imitadores, com ousadias quase impensáveis para um filme com pretensões comerciais.

As ousadias de De Palma já começam a dar as caras na cena inicial, que apresenta aquela que, assim como Janet Leigh em "Psicose" (60), parece ser a protagonista: Kate Miller (Angie Dickinson) aparece em nudez frontal (dublada por outra atriz), tomando banho sensualmente, até ser atacada por trás por um desconhecido, enquanto seu marido se barbeia calmamente a poucos metros. Logo o público descobre que tudo não passa de um sonho, mas em poucos minutos tudo está estabelecido, desde o tom que substitui rapidamente o sonho pelo pesadelo até a personalidade insatisfeita de Kate, cujo segundo casamento não lhe faz feliz sexualmente. Logo ela está fazendo suas queixas a seu terapeuta, o dr. Robert Elliott (Michael Caine), que lhe confessa sentir uma forte atração por ela - atração esta impedida de tornar-se realidade por sua condição de médico e homem casado. É aí que De Palma dá a primeira mostra de sua eficiência: em uma longa sequência de vinte minutos quase sem nenhum diálogo, Kate visita um museu, acompanha com o olhar outros frequentadores, flerta com um desconhecido e posteriormente parte atrás dele, em enlouquecidos travellings que conduzem o público para dentro da angústia da protagonista. Mais adiante, ainda em silêncio, eles embarcam em uma tórrida cena de sexo dentro de um táxi, que tem continuidade no ato pós-sexual, quando ela descobre um segredo atordoante sobre seu romance ocasional. Dentro do elevador, ao deixar o prédio, ela dá ao espectador o choque que Hitchcock inaugurou e que funciona mais uma vez às mil maravilhas: é violentamente assassinada por uma mulher loira que a ataca com uma navalha.


A partir desse primeiro susto, o filme segue adiante em sua narrativa, acompanhando as investigações do assassinato, testemunhado por Liz Blake (Nancy Allen, esposa do diretor à época das filmagens), uma garota de programa que se torna a suspeita preferida do detetive Marino (Dennis Franz). Contando com a ajuda do filho de Kate, o jovem nerd Peter (Keith Gordon, hoje um cineasta que dirigiu o ótimo "Amor maior que a vida" (00)), Liz tenta descobrir quem é a assassina, mas logo descobre que está correndo sério risco de ser a próxima vítima. Vem então mais uma sequência digna de aplausos: perseguida pela misteriosa criminosa (que veste uma capa preta e sinistros óculos escuros mesmo à noite), a jovem prostituta encontra refúgio no metrô, mas encontra não apenas uma nova ameaça em um grupo de homens que insinuam querer estuprá-la mas também em um policial que desconfia de sua história. Durante vários minutos a respiração do público fica em suspenso, à espera de um novo susto. Palmas para a direção, a edição e a trilha sonora quase clássica de Pino Donaggio.

"Vestida para matar" não é, no entanto, apenas uma colagem de grandes sequências de suspense. É uma história inteligente e corajosa, que dá a Michael Caine um de seus papéis mais marcantes - que ele herdou, pasmem, de Sean Connery, que só não o interpretou por estar preso a outros compromissos profissionais. O final, surpreendente e psicologicamente coerente, também é inspirado em Hitchcock, mas de uma maneira que não soa requentado ou simplesmente imitado. De Palma, também autor do roteiro, dá a seu público um espetáculo de imagens e sons sem deixar de oferecer também uma trama consistente e que em momento algum subestima sua inteligência. Um dos melhores filmes de suspense de sua época, que ainda hoje funciona extraordinariamente bem.

sexta-feira

O HOMEM ELEFANTE

O HOMEM ELEFANTE (The elephant man, 1980, Brooksfilms, 124min) Direção: David Lynch. Roteiro: Christopher De Vore, Eric Bergren, David Lynch, livros "The elephant man and other reminiscences", de Frederick Treves e "The elephant man: a study in human dignity", de Ashley Montagu. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: Anne V. Coates. Música: John Morris. Figurino: Patricia Norris. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Bob Cartwright. Produção executiva: Stuart Cornfeld. Produção: Jonathan Sanger. Elenco: John Hurt, Anthony Hopkins, Anne Bancroft, John Gielgud, Wendy Hiller, Freddie Jones, Hannah Gordon. Estreia: 03/10/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (David Lynch), Ator (John Hurt), Roteiro Adaptado, Fotografia, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Quem conhece os trabalhos mais célebres de Mel Brooks - como as amalucadas comédias "O jovem Frankenstein" (74) e "Banzé no Oeste" (74) - talvez fique estarrecido ao final de uma sessão de "O homem elefante". O humor característico do diretor inexiste completamente na recriação cinematográfica da história de Joseph Carey Merrick, jovem inglês que, devido a deformidades de nascença, foi tratado como aberração de circo na Londres do século XIX, até ser resgatado do sofrimento por um médico interessado em sua doença. Ao produzir o segundo filme do diretor David Lynch - depois do cultuado mas pouco visto "Eraserhead" (77) - Brooks chegou a tirar seus nomes dos créditos, temeroso de que o público julgasse que a trama seguisse seu estilo cômico. O resultado é um fenomenal e arrebatador drama de época capaz de emocionar sem, no entanto, apelar para o sentimentalismo barato.

Filmado em deslumbrante preto-e-branco pelo veterano Freddie Francis - retornando ao cinema depois de 16 anos afastado - "O homem elefante" tem seu roteiro inspirado principalmente nas memórias do Dr. Frederick Treves (um Anthony Hopkins uma década antes do triunfo de "O silêncio dos inocentes"), o responsável por tirar Merrick de um destino cruel como atração de um show de aberrações e levá-lo para um hospital público de Londres dirigido pelo rígido mas sensível  Dr. Carr Gomm (John Gielgud). Apesar disso - e de também ter contado com outros escritos a respeito do protagonista - o script não se furta a fazer alterações na história real, para fins dramáticos. Isso não diminui, no entanto, sua força excepcional como arte cinematográfica, que mostra o talento que David Lynch amadureceria posteriormente a ponto de ganhar uma Palma de Ouro em Cannes por "Coração selvagem", em 1990. Trabalhando pela primeira vez em um filme com pretensões comerciais (apesar do tema e do enfoque), Lynch viu sua obra concorrer merecidamente a oito Oscar. Infelizmente, a Academia preferiu a versão suburbana do drama familiar de "Gente como a gente", de Robert Redford - e se for levado em consideração que outro concorrente na principal categoria era "Touro indomável", de Martin Scorsese, percebe-se que erros no resultado final do Oscar não são novidade.


Trabalhando debaixo de uma maquiagem pesadíssima que demandava de sete a horas para aplicar - e que causou polêmica por não ter sido indicada ao Oscar, que ainda não tinha uma categoria fixa para a categoria - o ator John Hurt fez de seu desafio uma grande chance para brilhar. Como uma espécie de monstro de Frankenstein - um ser que esconde um enorme coração sob um visual aterrorizante - seu John Merrick (o nome real já estava modificado nos escritos do dr. Trevers) conquista o espectador sem fazer esforços, vítima que é de constantes crueldades, seja de seu "dono" Bytes (Freddie Jones), do público que paga para testemunhar suas deformidades ou do funcionário canalha do hospital (Michael Elphick) que faz excursões da boemia londrina a seu quarto com o objetivo de ganhar trocados (e de quebra humilhá-lo). O que mais emociona o público, porém, não é tanto seu sofrimento, mas sim seus momentos de felicidade. É difícil conter as lágrimas, por exemplo, na cena em que Merrick acompanha a atriz (Anne Bancroft) em um trecho de "Romeu e Julieta" ou quando ele encontra a esposa de Trevers pela primeira vez - "Desculpe, mas eu não estou acostumado com tanta gentileza vinda de mulheres tão bonitas." Também é arrepiante a sequência que mostra o primeiro encontro entre Merrick e seu futuro médico (e amigo): a lágrima solitária de Anthony Hopkins ao encarar algo jamais visto em sua profissão diz mais do que páginas e páginas de diálogos.

"O homem elefante" é uma pequena obra-prima. Visualmente deslumbrante, interpretada com sentimento e dirigida com inteligência, a história de John Merrick (ou Joseph, se for considerado seu real nome) é daquelas de apertar o coração e ficar na memória por um bom tempo. Mais do que isso, Lynch apresenta em seu trabalho um otimismo inesperado, mostrando como a bondade de poucas pessoas pode representar muito mais na vida de alguém do que a maldade de várias. A delicadeza ímpar de suas sequências finais comprova a afirmação, transformando o que poderia ser um desfecho catártico em uma poesia visual e delicada. Para quem duvida que Lynch é mais do que um cineasta esquisito, nada melhor do que "O homem elefante" para comprovar o contrário.

quarta-feira

PEPI, LUCI, BOM E OUTRAS GAROTAS DE MONTÃO

PEPI, LUCI, BOM E OUTRAS GAROTAS DE MONTÃO (Pepi, Luci, Bom y otras chicas del montón, 1980, Figaro Films, 82min) Direção e roteiro: Pedro Almodovar. Fotografia: Paco Femenia. Montagem: José Salcedo. Figurino: Manuela Camacho. Produção executiva: Félix Rotaeta. Produção: Pepón Coromina, Pastora Delgado, Ester Rambal. Elenco: Carmen Maura, Eva Siva, Alaska, Félix Rotaeta, Cecilia Roth, Julieta Serrano. Estreia: 27/10/80

Antes de tornar-se o cineasta espanhol mais respeitado de seu tempo, já tendo conquistado, até agora, dois Oscar - filme estrangeiro por "Tudo sobre minha mãe" e roteiro original por "Fale com ela" - Pedro Almodovar construiu uma carreira admirável na Madrid underground. Trabalhando como diretor de filmes em super-oito nos momentos de folga de uma companhia telefônica, ele também dividia seu tempo escrevendo quadrinhos e fotonovelas cômicas e obscenas. Não demorou muito, visto esse currículo que apontava claramente para seu talento de contador de histórias, para que ele finalmente chegasse ao cinema propriamente dito. Seu primeiro filme - feito com a ajuda de amigos, entre os quais a protagonista Carmen Maura - reflete claramente a época em que foi realizado e ao mesmo tempo define o estilo que faria dele um nome reconhecível no mundo inteiro.

"Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão" é um filme para fãs de Almodovar em particular e de trashs bem-humorados em geral. Filmado no período de dois anos, nos dias de folgas dos atores e técnicos, é uma comédia transgressora em quase todos os níveis: o visual é sujo e desprovido de glamour, o humor é corrosivo e obsceno, os atores são quase todos amadores, existe erros de enquadramento e os personagens são mais estereótipos do que seres humanos. Mesmo assim, é divertido e tosco na medida exata para tornar-se cult. Narrado de forma quase convencional - apesar da trama bizarra e dos cartões explicativos que imediatamente traem a origem fotonovelesca de seu criador - o primeiro filme de Almodovar não se presta a análises psicológicas ou estéticas: é simplesmente a forma de expressão mais apropriada a um narrador em ebulição.


Pepi (Carmen Maura) é uma jovem que mora sozinho em um subúrbio de Madri, sendo sustentada pelos pais. Ela tenciona ganhar dinheiro vendendo sua virginidade, mas acaba sendo estuprada pelo policial (Felix Rotaeta) que mora no prédio em frente ao seu. Em busca de vingança, ela pede a um grupo de músicos underground de seu círculo que o espanquem, mas quem acaba sendo vítima da revanche é seu irmão gêmeo. Frustrada em suas intenções, Pepi aproxima-se da mulher do policial, Luci (Eva Siva), uma mulher reprimida e infeliz no casamento que acaba se apaixonando por Bom (Alaska), vocalista do grupo musical que espancou seu cunhado. A relação entre Luci e Bom vai adiante, para desgosto do policial, que não desiste da intenção de reconquistar a esposa. Enquanto isso, as três amigas divertem-se na noite madrilenha, frequentando as mais estranhas festas e convivendo com tipos dos mais esquisitos - como a mulher barbada casada com um homossexual enrustido e os criadores de um concurso de ereções.

O universo de Pedro Almodovar é retratado com precisão em "Pepi, Luci, Bom". O mundo noturno underground de Madri é o pano de fundo para uma história sobre a liberdade, o desejo e a amizade feminina - temas que serão tratados com mais delicadeza e profundidade na sua obra posterior. Mesmo que seu final seja um tanto agridoce - e a forma com que a liberdade de uma personagem é praticamente inaceitável para outras seja alheia aos dogmas posteriores de sua filmografia - ele reitera, como poucos, a maneira distorcida do cineasta em criar personagens que fogem ao padrão comercial. Mesmo que esteja muito distante da excelência de seus filmes mais refinados, seu primeiro trabalho é o pontapé inicial de uma obra única e indispensável.

domingo

TOURO INDOMÁVEL


TOURO INDOMÁVEL (Raging bull, 1980, United Artists, 129min) Direção: Martin Scorsese. Roteiro: Paul Schrader, Mardik Martin, baseado no livro de Jake LaMotta, com Joseph Carter e Peter Savage. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Thelma Schoonmaker. Figurino: John Boxer, Richard Bruno. Direção de arte/cenários: Phil Abramson, Fred Weiler. Casting: Cis Corman. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Robert DeNiro, Joe Pesci, Cathy Moriarty, Frank Vincent. Estreia: 19/12/80

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Martin Scorsese), Ator (Robert DeNiro), Ator Coadjuvante (Joe Pesci), Atriz Coadjuvante (Cathy Moriarty), Fotografia, Montagem, Som
Vencedor de 2 Oscar: Ator (Robert DeNiro), Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Robert DeNiro)


O cineasta Martin Scorsese declarou em várias entrevistas que não entende absolutamente nada sobre boxe. A julgar por “Touro indomável”, sua cinebiografia do lutador peso-médio Jake La Motta, isso não faz a menor diferença. Se tivesse sido dirigido por um expert no esporte, o filme dificilmente seria tão bom. E se tivesse outro diretor no comando provavelmente não teria Robert De Niro como protagonista. E é aí que está a grande diferença entre um filme sobre esporte e uma obra-prima sobre a auto-destruição que Scorsese entregou ao público.

Jake La Motta é um personagem real. Criado no Bronx, assim como Scorsese e o astro De Niro, ele viveu seu auge nos ringues no final dos anos 40 e início dos 50, até começar um processo de auto-destruição que o levou a ser preso por sedução de uma menor de idade e acabar seus dias de glória como comediante em bares de segunda classe. A sua história interessou Robert De Niro, que levou seis anos para convencer Scorsese a filmar sua trajetória. A espera valeu a pena. Poucas vezes foi vista na tela uma obra tão visceral, cruel e energética como “Touro indomável”.


Na pele de La Motta, De Niro desaparece. O que se vê em cena não é um ator no auge de seu domínio técnico e emocional, que engordou mais de vinte quilos para ilustrar a decadência física de seu personagem. O que se vê é um homem emocionalmente frágil e inseguro, capaz de espancar o próprio irmão (Joe Pesci, impressionante) e a mulher (a estreante Cathy Moriarty, indicada ao Oscar) por duvidar de sua fidelidade e entregar uma luta para depois chorar inconsolável ao perceber seu erro. Ao sumir sob a pele de La Motta o ator preferido do cineasta Scorsese dá uma aula de interpretação, premiada merecidamente com o Oscar.

Quem também ganhou o Oscar foi a edição, perfeita, de Thelma Schoonmaker. Ágil quando necessária, quase contemplativa em outros momentos, a montagem de Schoonmaker ajuda o cineasta a contar sua história, utilizando para isso a fotografia em preto-e-branco nunca aquém de espetacular do veterano Michael Chapman, que perdeu injustamente a estatueta. Nas mãos de Schoonmaker e Chapman, o sangue jorra dos corpos dos lutadores de forma poética, mas ainda de uma violência cruel. Somada à fotografia e à edição, a direção de Scorsese beira o sublime. Nenhuma cena é desnecessária, nenhum ângulo é por acaso, nenhum diálogo é jogado sem uma função específica, mesmo quando improvisado por seus atores. Ao comparar um homem em crise com sua auto-estima a um animal enjaulado, em uma das cenas finais de seu filme, Scorsese mostra que não é preciso saber sobre boxe para se contar uma história universal de perda, insegurança e violência, principalmente quando esta é parte intregrante de uma complexa personalidade. Uma obra-prima inigualável e um dos, senão o melhor, filmes do diretor.

sábado

EM ALGUM LUGAR DO PASSADO


EM ALGUM LUGAR DO PASSADO (Somewhere in time, 1980, Universal Pictures, 103min) Direção: Jeannot Szwarc. Roteiro: Richard Matheson, romance "Bid time return", de sua autoria. Fotografia: Isidore Mankofsky. Montagem: Jeff Gourson. Música: John Barry. Figurino: Jean-Pierre Dorleac. Direção de arte/cenários: Seymour Klate/Mary Ann Biddle. Casting: Jennifer Shull. Produção: Stephen Deutsch. Elenco: Christopher Reeve, Jane Seymour, Christopher Plummer, Teresa Wright, Bill Erwin, Susan French, William H. Macy. Estreia: 03/10/80

Indicado ao Oscar de Figurino

Tentando provar que não era ator de um personagem só – e no caso um personagem marcante como o Superman – Christopher Reeve embarcou em "Em algum lugar do passado", um projeto romântico baseado em um livro de Richard Matheson, mais conhecido como autor de livros de ficção científica como o best-seller “Eu sou a lenda”. Talvez devido a seu carisma e à atmosfera emotiva do filme, Reeve se deu bem. “Em algum lugar do passado” não foi um grande sucesso de bilheteria, mas emocionou - e continua a emocionar - milhares de pessoas pelo mundo, depois de descoberto com o advento do vídeo-cassete.

A história começa em 1972 quando o dramaturgo Richard Collier (vivido com sensibilidade por um Reeve frágil e passional), começando a colher os louros de seu talento, recebe a visita misteriosa de uma senhora de idade que lhe presenteia com um relógio de bolso e pronuncia a inesperada frase: “Volte pra mim”. Oito anos depois, Collier, em crise de criatividade e saindo de um relacionamento, resolve dar um tempo do agito de sua vida profissional e se hospeda em um hotel antigo e tradicional que, no passado, teve até mesmo um teatro, onde se apresentou, em 1912, a lendária Elise McKenna (a bela Jane Seymour). Encantado com a fotografia da atriz, Collier começa a investigar a vida e a carreira de McKenna e reconhece em uma foto da atriz pouco antes da sua morte como a senhora que lhe deu o relógio. Intrigado com a possibilidade de viagens no tempo defendidas por um antigo professor, Collier faz uma regressão ao passado com a intenção de encontrá-la. Uma vez no passado, os dois se apaixonam, mas têm que enfrentar a possessividade do empresário de McKenna, o autoritário William Robinson (Christopher Plummer) e o fato de que estão separados por quase um século.


A atmosfera criada pela fotografia delicada e a trilha sonora comovente é o maior trunfo de "Em algum lugar do passado". Mesmo que trilhe caminhos difíceis em seu roteiro (que beira a inverossimilhança em inúmeros momentos), o roteiro escrito pelo próprio autor do romance nunca trata o espectador como desprovido de inteligência. A paixão avassaladora entre os protagonistas, por exemplo, é tão centrada na química entre seus atores centrais e na crença de sua veracidade que não resta à audiência senão entregar-se de olhos fechados a ela. E o amor não é assim mesmo, afinal de contas?

Não há nada em “Em algum lugar do passado” que surpreenda ou seja inédito em termos de romance, talvez com exceção do tema “viagem no tempo”. Mesmo assim, o clima nostálgico, acentuado pela belíssima peça musical de Rachmanioff prende a atenção e leva a um final inesperado. Ainda que tenha alguns furos no roteiro, comuns em obras com temática semelhante, o filme de Jeannot Szwarc entrega a seu público exatamente o que promete e pode arrancar algumas lágrimas dos mais sensíveis. E Christopher Reeve demonstra que tinha talento suficiente para não ficar preso ao mesmo papel pelo resto da sua carreira. O que mais se pode pedir de um filme romântico?

sexta-feira

MEMÓRIAS


MEMÓRIAS (Stardust memories, 1980, United Artists, 89min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Santo Loquasto. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Steven Jordan. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Charlotte Rampling, Jessica Harper, Marie-Christine Barrault, Tony Roberts. Estreia: 26/9/80

Há quem ache que a filmografia de Woody Allen é hermética. Até mesmo suas comédias mais populares e simples esbarram nessa crítica infundada de seus detratores, que não veem em sua obra concessões ao comercial (o que, diga-se de passagem, faz com que seu trabalho sempre esteja patamares acima do convencional). Mas quem acha que coisas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" são de difícil assimilação (talvez por sua inteligência e seu sarcasmo) deve ficar com o cérebro inchado ao assistir "Memórias", que, assim como "Interiores" não deixa espaço para simplificações banais. Talvez seja, sim, um tanto hermético. Mas, mais do que isso, é engraçadíssimo.

Decepcionado com artigos escritos sobre ele na imprensa e com a apática recepção da Academia de Hollywood a seu primeiro filme "sério", o drama "Interiores", Allen escreveu um roteiro ácido e crítico sobre a relação entre cineastas e jornalistas, bem como seu problemático relacionamento com o público. Ainda que o diretor negue veemente as origens autobriográficas de seu filme, é impossível não perceber nele algumas de suas mais marcantes características. E são justamente essas pequenas piadas internas que fazem de "Memórias" um dos filmes mais interessantes de Allen - não coincidentemente um de seus preferidos.

Em "Memórias", Allen interpreta Sandy Bates, um cineasta famoso por suas comédias de sucesso que recebe com surpresa a péssima recepção a seu primeiro trabalho dramático. Convidado para participar de uma espécie de retrospectiva de sua carreira em um festival de cinema, ele aproveita a oportunidade para refletir sobre seu legado artístico e sobre sua vida pessoal, seja nas lembranças de sua infância ou dos fracassados relacionamentos amorosos, principalmente com uma atriz psicologicamente desequilibrada, Dorrie (Charlotte Hampling). Perseguido por fãs, ele mal tem tempo para dedicar a sua nova namorada, a francesa Isobel (Marie-Christine Barrault), que acaba de deixar o marido por ele.


"Memórias" impressiona desde sua primeira sequência, claramente inspirada em "Fellini 8 1/2": em um opressivo preto-e-branco, um homem (vivido também por Allen) tenta desesperadamente sair de um trem em movimento, sendo impedido por um grupo de pessoas com feições bizarras e excêntricas (no trem ao lado, acenando para ele está uma jovem Sharon Stone estreando no cinema). A partir dessa cena - que é bem possível que tenha sido a responsável pela disseminação de que a obra do cineasta é "difícil" - Allen joga com uma espécie de metalinguagem ao mesmo tempo irônica e melancólica. É impossível não rir com alguns dos diálogos mais inspirados de sua carreira, assim como é bem pouco producente tentar evitar as comparações com a realidade vivida por ele e outros artistas que tentam sair do lugar-comum. É sintomático, inclusive, que o filme se encerre com comentários das personagens a respeito do "filme dentro do filme". Allen brinca com coisa séria, e os fãs agradecem.

Claramente felliniano (assim como "Interiores" era obviamente bergmaniano), "Memórias" tem uma fotografia inspirada de Gordon Willis (já habituado ao trabalho de Allen), que sufoca, brinca e encanta na medida certa. A química entre Allen e Charlotte Hampling funciona às mil maravilhas, proporcionando aos dois algumas das cenas mais bonitas do filme (e, segundo reza a lenda, a personagem de Hampling foi inspirada na primeira mulher do diretor, Louise Lasser). Ao equilibrar um humor dos mais inteligentes a uma crítica feroz ao "sistema", "Memórias" atinge um nível de qualidade ímpar na obra de Allen, ainda que seja um de seus filmes menos famosos.

Apesar de não ser tão premiado quanto "Noivo neurótico..." ou tão querido pelo público quanto "Manhattan", "Memórias" merece figurar entre os melhores filmes de Woody Allen, principalmente devido a suas entrelinhas nem tão disfarçadas assim. Coisa de gênio!

quinta-feira

A LAGOA AZUL


A LAGOA AZUL (The blue lagoon, 1980, Columbia Pictures, 104min) Direção e produção: Randal Kleiser. Roteiro: Douglas Day Stewart, romance de Henry De Vere Stacpoole. Fotografia: Nestor Almendros. Montagem: Robert Gordon. Música: Basil Poledouris. Figurino: Jean-Pierre Dorléac. Direção de arte: Jon Dowding. Casting: Vic Ramos. Elenco: Brooke Shields, Christopher Atkins, Leo McKern. Estreia: 05/7/80

Indicado ao Oscar de Fotografia


Existem filmes que, a despeito de seus óbvios defeitos, conquistam uma espécie de lugar de honra no coração do espectador por motivos os mais diversos. E certamente não é por suas qualidades artísticas (ou a falta delas) que "A lagoa azul" sobrevive firme e forte na memória do público. Baseado em um romance pouco famoso de Henry De Vere Stacpoole (ele mesmo um ilustre desconhecido), o filme de Randal Kleiser (de "Grease") é uma história sobre amor, inocência e amizade repleta de clichês e inverossimilhanças, mas que conquista por sua extrema ingenuidade e fotogenia. Pode até não ter conteúdo, mas é muito bonito de se ver.

Durante uma viagem de navio em direção a San Francisco, um naufrágio acontece, obrigando duas crianças e um velho marinheiro a atracarem em uma paradisíaca ilha deserta. Depois que o homem mais velho morre ao tentar desbravar o outro lado da ilha, o pequeno casal se vê obrigado a aprender a sobreviver sozinho. Pescando, caçando e construindo suas próprias moradas, logo eles passam a considerar-se em casa. Anos depois, ao atingir a adolescência, no entanto, as coisas começam a mudar. Percebendo as alterações em seus corpos, o jovem Richard (Christopher Atkins) e a bela Emmeline (Brooke Shields) passam a sentir-se atraídos um pelo outro, mesmo que não tenham a menor noção de como agir. Guiados apenas por seus instintos, eles iniciam uma terna história de amor.


Logo que começou a produção de "A lagoa azul" Kleiser tinha a intenção de fazer o filme todo com seus atores nus. Sua decisão foi mudada quando, devido a essa exigência, duas atrizes quase contratadas - Diane Lane e Jennifer Jason Leigh - pularam fora. A partir daí, até que Brooke Shields (no auge da beleza juvenil e vindo da polêmica de "Pretty baby", de Louis Malle) assinasse para viver a doce e bela Emmeline praticamente toda e qualquer atriz da idade apropriada foi testada e/ou convidada para o papel. Exagero? Segue a lista para provar a afirmação: Kelly Preston, Linda Blair, Tatum O'Neal, Jodie Foster, Kim Basinger, Ellen Barkin, Jamie Lee Curtis, Bridget Fonda, Melanie Griffith, Anjelica Huston (!!!), Mariel Hemingway, Sarah Jessica Parker (Carrie Bradshaw em pessoa), Michelle Pfeiffer, Sean Young, Daryl Hannah, Rosanna Arquette, Carrie Fisher, Debra Winger, Kathleen Turner, Isabelle Adjani e Amy Irving. A julgar pela variedade de tipos físicos, idades e personalidades das atrizes consideradas é de se admirar que houvesse um roteiro escrito antes das filmagens começarem.

Roteiro, aliás, é quase luxo no filme de Kleiser. Não há complexidade psicológica em suas personagens, nem momentos dramáticos de maior substância. O romance entre os protagonistas (e quase únicas personagens), ao invés de ser um estudo sobre o dominio dos instintos sobre a razão, é apenas uma história de amor bobinha entre um rapaz de belo corpo e uma moça linda mas um tanto insossa. Fica difícil imaginar como seria o resultado final se Sean Penn tivesse ficado com o papel central masculino. Apesar de menos atraente que Christopher Atkins, Penn tem um talento e uma personalidade que provavelmente elevariam o filme a alguns patamares acima do corriqueiro. Mas aí já é elocubrar em cima de possibilidades, assim como o seria tentar visualizar Richard Gere, Sylvester Stallone ou John Belushi vestidos de tanguinha em um cenário paradisíaco.

Filmado nas Ilhas Fiji, "A lagoa azul" conta com uma fotografia caprichada de Nestor Almendros, merecidamente indicada ao Oscar e que deslumbra qualquer espectador. É bem possivel que seja a maior qualidade artística do filme, que normalmente se perde em suas intenções de emocionar. Não é à toa que, mesmo falando sobre sexo (ainda que de forma sensível e delicada) formou uma geração inteira que o assistiu nas constantes reprises vespertinas na televisão. O casal formado por Christopher Atkins e Brooke Shields será sempre lembrado por seu público, mesmo que seu trabalho esteja muito aquém do que pode ser considerado bom cinema.

quarta-feira

APERTEM OS CINTOS... O PILOTO SUMIU


APERTEM OS CINTOS, O PILOTO SUMIU... (Airplane, 1980, Paramount Pictures, 88 min) Direção e roteiro: Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. Fotografia: Joseph Biroc. Montagem: Patrick Kennedy. Música: Elmer Bernstein. Figurino: Rosanna Norton. Direção de arte/cenários: Ward Preston/Anne D. McCulley. Casting: Joel Thurm. Produção executiva: Jim Abrahams, David Zucker, Jerry Zucker. Produção: Jon Davidson, Howard W. Koch. Elenco: Robert Hays, Julie Hagerty, Leslie Nielsen, Lloyd Bridges, Robert Stack, Peter Grave, Kareem Abdul-Jabbar. Estreia: 02/7/80

Se hoje existem filmes como a série "Todo mundo em pânico" isso se deve - pro bem ou pro mal - graças a um trio de diretores que, no início dos anos 80 quebrou todas as regras pré-estabelecidas de como se fazer uma comédia. Ao contrário do humor sofisticado de Woody Allen, por exemplo, as piadas de quase mau-gosto de "Apertem os cintos, o piloto sumiu" abriram a porta para uma nova estética no gênero. E nem mesmo os mais exigentes podem negar que, deixando de lado exigências intelectuais, o filme de Jerry Zucker, John Abrahams e David Zucker (mais conhecidos como o trio ZAZ) é um dos mais engraçados produtos hollywoodianos de sua época ou de qualquer outra.

Inspirado nos inúmeros filmes-desastre lançados no final da década de 70, "Apertem os cintos..." utiliza um roteiro do escritor Arthur Hailey como base para a destruição sistemática de todos e quaisquer clichês que abundam no gênero. Tudo começa quando o jovem Ted Striker (Robert Hays em um papel em que até David Letterman foi testado) embarca em um avião com o objetivo de discutir a relação com a ex-namorada Elaine (Julie Hagerty), comissária de bordo. Traumatizado com sua experiência na guerra, ele se vê obrigado a assumir a pilotagem do avião quando a tripulação fica seriamente doente.


Com esse fiapo de história, o trio de diretores mais insano que se tem notícia usa e abusa do nonsense, das piadas de duplo-sentido e das mais bobas e absurdas piadas. Ao contar com atores até então considerados dramáticos, como Lloyd Bridges, Leslie Nielsen e Robert Stack (que até indicado ao Oscar havia sido nos anos 50), os cineastas construiram um clima sério para então demolí-lo sem dó nem piedade. Tudo que se vê nas tragédias cinematográficas está retratado em "Apertem os cintos...", mas da maneira menos convencional possível: a menina que precisa de um transplante de coração, a família certinha, os oficiais rancorosos, o médico prestativo... Nas mãos dos roteiristas, tudo vira motivo de piada, sem importar-se com o politicamente correto (o comandante, por exemplo, dá claros sinais de pedofilia). Na pele do protagonista Ted Striker, Hays tem a cara apatetada necessária para conviver com os absurdos que acontecem à sua volta sem perceber que está em uma comédia (mais ou menos como aconteceria com Leslie Nielsen na trilogia "Corra que a polícia vem aí", alguns anos depois). Sua química com Julie Hagerty é, certamente, um dos motivos do sucesso do filme, que gerou uma continuação inferior mas ainda assim com bons momentos.

"Apertem os cintos, o piloto sumiu" é o tipo de filme que precisa ser visto várias vezes. Não que tenha complexidades psicológicas que demandem atenção redobrada, mas apresenta tanta besteira junto que é difícil captá-las em uma única sessão. E além do mais, é diversão garantida para uma tarde modorrenta de quarta-feira.

terça-feira

O ILUMINADO


O ILUMINADO (The shining, 1980, Warner Bros, 143min) Direção e produção: Stanley Kubrick. Roteiro: Stanley Kubrick, Diane Johnson, romance de Stephen King. Fotografia: John Alcott. Montagem: Ray Lovejoy. Música: Wendy Carlos, Rachel Elkind. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Roy Walker/Les Tomkins. Casting: James Liggat. Produção executiva: Jan Harlan. Elenco: Jack Nicholson, Shelley Duvall, Danny Lloyd, Scatman Crothers, Philip Stone. Estreia: 23/5/80

Stanley Kubrick era definitivamente um sujeito estranho! Interessado em adaptar para o cinema o romance "O iluminado", de Stephen King, ele aproximou-se do escritor de forma bastante bizarra; telefonou para ele certa manhã, cedíssimo, e, depois de identificar-se, começou a conversar sobre histórias de fantasmas e vida após a morte. Tempos depois, ainda envolvido com a feitura do filme, ele mantinha a rotina de ligar para King, vez ou outra, para fazer-lhe perguntas do tipo: "Você acredita em Deus?"

Apesar do contato direto que tinha com o autor de clássicos da literatura de terror como "Carrie,a estranha" e "Cujo", o cineasta inglês não hesitou em afastá-lo de sua versão da apavorante história do escritor Jack Torrance e seus fantasmas. Considerando que o roteiro era fiel demais ao livro - que o desgostava por ser extremamente preso ao gênero terror - ele contratou a mestra em estudos góticos Diane Johnson para reescrevê-lo. King não gostou nada da ideia e quase duas décadas depois foi o autor do roteiro de uma minissérie feita para a TV, onde pode expressar sua própria visão da obra. Entre suas principais reclamações estava a mudança radical na personalidade de Wendy Torrance, a esposa do protagonista; enquanto no livro ela era descrita como uma mulher bela e com a aparência de nunca ter passado dificuldades na vida (e aí se encaixaria Jessica Lange, proposta por Jack Nicholson), na versão cinematográfica o papel ficou com Shelley Duvall, que encarnou uma apavorada e frágil dona-de-casa tendo que lidar com a loucura do marido sem a menor preparação para isso. Os elogios de Nicholson a sua atuação, no entanto, não a impediram de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz do ano. Como se vê, a unanimidade passou longe desse trabalho do autor de "2001, uma odisséia no espaço".

"O iluminado" começa quando o aspirante a escritor Jack Torrance (Jack Nicholson em um dos papéis mais importantes de sua carreira) aceita o emprego de zelador de inverno do Overlook Hotel, hotel de luxo que fica totalmente vazio fora da temporada de férias. Com a intenção de concentrar-se em seu livro, ele se muda com a esposa, Wendy (Shelley Duvall) e o filho pequeno Danny (Danny Lloyd) para a imensa propriedade, isolada da civilização exceto por contatos através de rádio. Enquanto os dias passam, Wendy e o pequeno Danny sentem que Jack começa a afastar-se deles. A princípio julgando que tudo é apenas culpa de um bloqueio criativo, ela não percebe que até mesmo o menino anda passando por maus momentos: dotado de um dom que o faz ser chamado de "iluminado", ele tem visões aterradoras de duas meninas gêmeas que foram assassinadas pelo próprio pai a golpes de machado. Aos poucos, Torrance também começa a demonstrar um comportamento assustador, que o leva a querer matar a mulher e o filho.

Apesar das tentativas de Kubrick em evitar que sua obra ficasse rotulada como "filme de terror" é impossível negar que o resultado final não deixa dúvidas quanto ao seu gênero. Dono de cenas de arrepiar até mesmo os mais escolados fãs do estilo, "O iluminado" tem a seu favor o talento e o senso estético apurado de seu diretor. Em mãos menos criativas, a história de Jack Torrance cairia facilmente na vala comum dos sustos fáceis e matança generalizada (apesar de todo o clima angustiante que vai crescendo no decorrer do filme, apenas uma morte aparece frente aos olhos do espectador...) Comandada pelo perfeccionista Kubrick, no entanto, tudo muda de figura, a começar pela escalação do elenco.

Jack Nicholson, na pele do protagonista encontrou um dos papéis pelos quais ficaria marcado para sempre. Frequentemente exagerado em sua composição - o que é adequado à visão do cineasta -, o ator (na época já oscarizado por "Um estranho no ninho") ficou com o papel depois que o diretor descartou Jon Voight (escolhido por King, mas rejeitado por ser "normal" demais), Robert DeNiro (considerado "psicótico de menos" apesar de sua performance em "Taxi driver") e Robin Williams ("psicótico demais" por sua atuação na série de TV "Mork & Mindy"). Esgotado pela obsessão do diretor em atingir a perfeição - alguns takes foram repetidos nada menos que 148 vezes - o ator nem lia o roteiro do filme a não ser pouco antes das filmagens, já que mudanças eram feitas constantemente. Previsto para durar 17 semanas, o cronograma inicial logo foi deixado de lado: as filmagens duraram quase um ano, o que atrasou o início da produção de filmes como "Reds" e "Caçadores da arca perdida", que teriam cenas filmadas no mesmo estúdio. E isso sem falar em algumas dores de cabeça menores.

Danny Lloyd, que vive o iluminado do título, por exemplo, não tinha idade suficiente nem mesmo para assistir ao que estava fazendo (imaginando-se fazendo um drama, Lloyd só conferiu o filme pronto aos 17 anos de idade, mais de uma década depois). Harry Dean Stanton, que viveria o garçom que conversa com o protagonista, foi substituído porque não conseguiu terminar de fazer "Alien" a tempo. E a mania de perfeição de Kubrick chegou ao extremo de confeccionar, página por página, o "livro" escrito por Torrance em uma das cenas climáticas.

Recebido com duras críticas à época de seu lançamento, "O iluminado" hoje é uma referência quando se fala em filmes de terror (apesar das negativas de seu diretor em classificá-lo dessa maneira). É difícil manter-se totalmente apático ao clima imposto pela direção rígida, pela edição detalhada, pela música assombrosa e principalmente pelo que é muito mais sugerido do que mostrado. Stanley Kubrick pode até não ser o gênio que apregoam aos quatro ventos, mas seu domínio da técnica de contar uma história é de admirar consideravelmente.

domingo

FAMA


FAMA (Fame, 1980, MGM Pictures, 134min) Direção: Alan Parker. Roteiro: Christopher Gore. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Gerry Hambling. Música: Michael Gore. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Geoffrey Kirland/George DeTitta. Casting: Howard Feuer, Jeremy Ritzer. Produção: David De Silva, Alan Marshall. Elenco: Irene Cara, Eddie Barth, Lee Curreri, Laura Dean, Antonia Franceschi, Paul McCrane. Estreia: 16/5/80

6 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original, Canção ("Fame", "Out here on my own"), Som
Vencedor de 2 Oscar: Trilha Sonora Original, Canção ("Fame")
Vencedor do Golden Globe de Melhor Canção ("Fame")


A High School for the Performing Arts, em Nova York, é uma das mais prestigiadas escolas de arte dos EUA. E é também o cenário desse musical energético, forte e empolgante do diretor inglês Alan Parker, que aqui deixa de lado o tom depressivo de seu bem-sucedido “Expresso da meia-noite” para embarcar no sonho de um punhado de jovens em busca da fama do título.

O roteiro, escrito por Christopher Gore, cujo irmão Michael compôs a dançante trilha sonora, que inclui a vencedora do Oscar “Fame”, concentra-se em meia dúzia de estudantes, que, a despeito de seu talento, enfrentam sérios problemas pessoais no caminho rumo ao estrelato. A ambiciosa cantora Coco (Irene Cara, que canta a música-tema do filme) sonha em ver seu nome nas marquises, mas acaba descobrindo da pior maneira possível que não é somente uma bela voz que basta para se ter sucesso; o jovem Montgomery (Paul McCrane) quer ser ator, mas tem primeiro que aceitar sua homossexualidade, descoberta quando se apaixonou pelo tearapeuta; a judia Doris (Maureen Teefy) precisa superar sua quase dependência da mãe superprotetora, o que começa a acontecer quando se envolve com o aspirante a humorista Ralph (Barry Miller), que tenta esconder sua origem paupérrima sob uma constante chuva de piadas. Para finalizar o grupo de estudantes está a milionária que sonha em ser bailarina (Laura Dean) e se apaixona por um dançarino negro, o rebelde Leroy (Gene Anthony Ray) e o descendente de italianos Bruno Martelli (Lee Curreri), que luta para ser músico mesmo sendo fã de sintetizadores musicais.


Mesmo sem conseguir fugir de alguns clichês, o filme de Parker tem a seu favor a edição ágil de Gerry Hambling, seu habitual colaborador, que divide a ação em tempos quase iguais a seus sonhadores personagens, defendidos por atores amadores. Se por um lado o filme ganha por isso, com um frescor e um realismo raros, perde pela inexperiência de seus intérpretes, nem todos com o carisma e/ou a competência necessários para acompanhar as idas e vindas do roteiro. Sorte que Alan Parker é um diretor de primeira grandeza, que tira leite de pedra em muitos momentos.

Mesmo quando o clima pesa, no terço final da obra, o diretor consegue driblar a lágrima fácil, mantendo sua câmera tão distante quanto uma observadora passiva dos dramas que se desenrolam a sua frente. Até mesmo os números musicais fogem do marasmo, imprimindo ao filme uma marca bastante interessante: longe de ser um musical enfadonho, com personagens cantando 90% do tempo, “Fama” é um filho bastardo do gênero, utilizando as ótimas canções de Michael Gore como comentários da ação e não parte integrante dela.

Ainda que se estenda um pouco demais em seu final, “Fama” é o filme certo na hora certa e provavelmente é um dos musicais essenciais de seu tempo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...