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quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

sábado

OS FANTASMAS CONTRA-ATACAM

OS FANTASMAS CONTRA-ATACAM (Scrooged, 1988, Paramount Pictures, 101min) Direção: Richard Donner. Roteiro: Mitch Glazer, Michael O'Donoghue, inspirado em romance de Charles Dickens. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Fredric Steinkamp, William Steinkamp. Música: Danny Elfman. Figurino: Wayne Finkelman. Direção de arte/cenários: J. Michael Riva/Linda DeScenna. Produção executiva: Steve Roth. Produção: Richard Donner, Art Linson. Elenco: Bill Murray, Karen Allen, John Forsythe, John Glover, Bobcat Goldthwait, Carol Kane, Robert Mitchum. Estreia: 17/11/88

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Publicada pela primeira vez em 1843, "Um conto de Natal", do inglês Charles Dickens, é uma das histórias mais conhecidas do mundo, e, consequentemente, teve inúmeras versões para o cinema e a televisão. Nenhuma, no entanto, atingiu o tom sardônico e mordaz de "Os fantasmas contra-atacam", uma inclemente adaptação dirigida por Richard Donner em 1988 que substituía a emoção do conto original pelo humor cruel e politicamente incorreto que coube como uma luva em seu protagonista, Bill Murray. Afastado das telas desde o fiasco de "O fio da navalha" (84) - um filme no qual investiu dinheiro e dedicação e que naufragou nas bilheterias - e seriamente tentado a abandonar a carreira, Murray resolveu voltar aos holofotes com um papel sob medida, e testando seu poder de fogo como protagonista absoluto. Em seu último sucesso, "Os caça-fantasmas" (84), ele havia dividido as atenções com um grupo de talentos que incluía Harold Ramis, Dan Aykroyd e Sigourney Weaver, mas como Frank Cross, a versão moderna e cômica do famigerado Scrooge, ele não apenas enfeitaria os créditos em primeiro lugar: ele carregaria o filme nas costas. E foi exatamente o que aconteceu.

Com liberdade para improvisar sobre o roteiro adaptado com extrema acidez por Mitch Glazer e Michael O'Donoghue, Murray entregou uma performance vitoriosa, repleta de todas as nuances que sempre o destacaram entre seus humoristas contemporâneos. Com poder para fazer alterações no script, foi ele quem solicitou aos autores a expansão da trama romântica em detrimento das cenas familiares e, mesmo que seu relacionamento com Richard Donner tenha sido um tanto quanto problemático durante as filmagens, é inegável que a personalidade do ator é que dá o gostinho especial que o filme tem em seu resultado final. O desafio de transformar um emocionante e amado clássico natalino em uma comédia desvairada acabou dando certo: "Os fantasmas contra-atacam" (um título no mínimo inadequado) tornou-se um das maiores bilheterias de 1988 e chegou a concorrer ao Oscar de maquiagem - e boa parte do mérito se deve ao casamento mais que perfeito entre ator e personagem.


Em uma jogada de mestre, o roteiro de "Os fantasmas contra-atacam" moderniza a trama de Charles Dickens e a situa no competitivo mundo dos bastidores da televisão. É lá que vive Frank Cross (Bill Murray), presidente de uma emissora que, na véspera de Natal, planeja transmitir uma adaptação da obra do escritor britânico. Egocêntrico, frio e incapaz de demonstrar qualquer tipo de sentimento mais nobre, Cross é capaz de demitir funcionários mesmo nas festas de final de ano, proibir a secretária de acompanhar o filho pequeno ao médico e dar apenas uma toalha corporativa ao único irmão - isso sem falar em maus-tratos aos animais e a absoluta falta de talento em lidar com as pessoas. Maltratando a quem passa por seu caminho, ele tem uma experiência redentora quando é visitado por três fantasmas, que irão lhe mostrar três Natais distintos que definiram sua vida. O primeiro (David Johansen) surge na forma de um taxista desbocado que o leva a revisitar sua infância infeliz. A segunda (Carol Kane), agressiva e violenta, lhe acompanha pelos preparativos para o Natal presente. E é somente quando ele percebe que, a menos que se transforme em uma boa pessoa, irá morrer solitário e triste, é que Cross resolve dar uma chance a um amor antigo, Claire (Karen Allen).

Visualmente criativo, com diálogos divertidos e um elenco que inclui veteranos em participações especiais (Roobert Mitchum, Lee Majors, Miles Davis, John Houseman), "Os fantasmas contra-atacam" é um antídoto contra a sacarose típica das produções natalinas que invadem os cinemas e a televisão no final de cada ano. Sem medo de ofender suscetibilidades, o roteiro, a direção e Bill Murray exploram cada ângulo da história de Dickens sob a perspectiva do humor mais radical possível para um filme de grande estúdio (no caso a Paramount Pictures) e o resultado é um festival de gargalhadas que jamais fere a obra original e a atualiza de forma inteligente e coerente com seu espírito. Um acerto dos grandes na carreira de Donner e Murray.

sexta-feira

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE

O GRANDE HOTEL BUDAPESTE (The Grand Budapest Hotel, 2014, Fox Searchlight Pictures/Indian Paintbrush, 99min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, estória de Wes Anderson, Hugo Guinness, inspirado em escritos de Stefan Zweig. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Barney Pilling. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Milena Canonero. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Anna Pinnock. Produção executiva: Molly Cooper, Christoph Fisser, Henning Molfenter, Charlie Woebcken. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Ralph Fiennes, F. Murray Abraham, Jude Law, Willem Dafoe, Adrien Brody, Jeff Goldblum, Saoirse Ronan, Mathieu Amalric, Harvey Keitel, Bill Murray, Edward Norton, Jason Schwartzman, Léa Seydoux, Tilda Swinton, Tom Wilkinson, Owen Wilson, Tony Revolori, Fisher Stevens, Bob Balaban. Estreia: 06/02/14 (Festival de Berlim)

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Wes Anderson), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor de 4 Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme (Comédia/Musical) 

 Dentre os filmes pouco convencionais selecionados pela Academia de Hollywood para concorrer ao principal Oscar de 2015 - "Birdman" e "Boyhood", por exemplo - nenhum é tão radicalmente a cara de seu autor quanto "O Grande Hotel Budapeste", escrito, dirigido e produzido por Wes Anderson, um dos cineastas menos afeitos a concessões comerciais que o cinema norte-americano gerou nos últimos quinze anos, desde que lançou o elogiado - e ignorado pelo público - "Três é demais", em 1998. Dono de um estilo facilmente reconhecível que equilibra com rara inteligência personagens excêntricos, histórias inusitadas e um visual milimetricamente planejado, Anderson faz parte de um time de poucos realizadores que tem uma marca própria dentro do cinema, como Tim Burton, Woody Allen e Pedro Almodovar. No entanto, ainda faltava a ele uma espécie de reconhecimento oficial por parte da indústria, que lhe desse o passaporte definitivo para a elite dos cineastas. Com as surpreendentes nove indicações conquistadas por seu novo filme (e a vitória em quatro categorias) tal passaporte já está carimbado. Só o fato de ter lutado de igual pra igual com produções bem menos criativas (e por conseguinte mais facilmente digeríveis pelos tradicionais e vestutos eleitores da Academia), "O Grande Hotel Budapeste" já pode ser considerado um campeão.

A trama - contada através de uma história dentro de uma história, em uma opção narrativa arriscada mas extremamente bem-sucedida - é aparentemente simples, mas repleta de bifurcações inusitadas e personagens surreais: quem começa a contá-la é um escritor consagrado (vivido por Tom Wilkinson na maturidade e Jude Law na juventude), que transmite ao público a história do misterioso Mr. Moustafa (F. Murray Abraham), dono do decadente Hotel Budapeste, localizado em um país fictício da Europa que teve seu auge no período entre-guerras. Solitário e discreto, Moustafa relembra, através de flashbacks, as reviravoltas que fizeram com que a imensa propriedade fosse parar em seu nome. Tais reviravoltas tem início quando ele, ainda jovem (e interpretado por Tony Revolori) consegue emprego como empregado do hotel, sob o comando do rígido e dedicado Gustave H. (Ralph Fiennes), que, além de ser o melhor concierge da região, não hesita em agradar as hóspedes de mais idade com noites regadas a champagne e sexo. Quando uma dessas visitantes frequentes, a milionária Céline Villeneuve Desgoffe und Taxis (Tilda Swinton irreconhecível sob pesada maquiagem vencedora do Oscar), morre aos 84 anos em sua mansão, ele resolve prestar suas últimas homenagens, atendendo a seu funeral. Para sua surpresa, porém, ele fica sabendo - junto com a ambiciosa família da falecida - que herdou um quadro de valor milionário, o que acaba lhe colocando em sérios apuros com a polícia: recusando-se a aceitar que a mãe tenha deixado tão valioso bem para um mero serviçal, o psicótico Dimitri (Adrien Brody) o acusa de assassinato e parte em sua captura, ao lado de seu violento capanga Jopling (Willem Dafoe). Quando eclode a II Guerra, cabe a Gustave provar sua inocência - contando, para isso, com o apoio de um clube secreto de concierges espalhados pelo mundo.


Dotado de um humor sofisticado que provoca mais sorrisos do que gargalhadas e de uma trama tão cheia de informações visuais que uma segunda sessão é mandatória, "O Grande Hotel Budapeste" é, tranquilamente, o melhor filme de Wes Anderson, refinando as características narrativas de "Os excêntricos Tenenbauns" e estilísticas de "Moonrise kingdom" e unindo-as em um espetáculo de qualidade estética ímpar. Único dos candidatos ao Oscar de fotografia a ser filmado em película - um feito digno de nota, especialmente quando se percebe a qualidade irretocável do meticuloso trabalho de Robert Yeoman - a obra de Anderson também é um triunfo de desenho de produção (também premiada pela Academia), tão impressionante com seus cenários grandiosos quanto a segurança do cineasta em equilibrar narrativas múltiplas sem perder o fio da meada ou confundir o espectador. Contando com um elenco acima de qualquer crítica - com destaque para Ralph Fiennes em raro registro cômico e Edward Norton em sua segunda parceria com o diretor, além da revelação Tony Revolori - o filme ainda se beneficia da inspirada trilha sonora (mais uma) de Alexandre Desplat, que comenta a ação como se fosse um personagem a mais e deu a ele uma merecida estatueta dourada. Ela é mais uma peça essencial em um dos mais empolgantes produtos cinematográficos dos últimos anos, um filme capaz de encantar qualquer fã da sétima arte e a prova cabal do talento de seu criador, até então escondido em pérolas de cinemateca - vulgo filmes amados por uma parcela de espectadores que não tem medo do diferente.

Ousado, criativo, original, inteligente. Faltam adjetivos para explicar porque "O Grande Hotel Budapeste" merece ser visto, revisto, trevisto e aplaudido todas as vezes. É um dos mais excitantes e inovadores produtos a sair de um lugar cada vez menos disposto a riscos como Hollywood. E além de tudo é uma comédia muito engraçada e excêntrica, que não precisa de um humor pastelão para arrancar risos. Precisa de mais motivos para ser genial?

terça-feira

MOONRISE KINGDOM

MOONRISE KINGDOM (Moonrise kingdom, 2012, Indian Paintbrush/American Empirical Pictures, 94min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Roman Coppola. Fotografia: Robert D. Yeoman. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Adam Stockhausen/Kris Moran. Produção executiva: Sam Hoffman, Mark Roybal. Produção: Wes Anderson, Jeremy Dawson, Steven Rales, Scott Rudin. Elenco: Jared Gilman, Kara Hayward, Bruce Willis, Edward Norton, Frances McDormand, Bill Murray, Tilda Swinton, Bob Balaban, Jason Schwartzman. Estreia: 16/5/12 (Festival de Cannes)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

O órfão Sam (Jared Gilman) foge do acampamento de escoteiros onde se sente deslocado e solitário e parte ao encontro da garota que ama, Suzy (Kara Hayward), uma menina negligenciada pelos pais advogados que administram a casa de forma rígida e pouco amorosa e a consideram uma criança-problema. Os dois pré-adolescentes - que enxergam um no outro o amor e a compreensão que tanto necessitam - resolvem refugiar-se no bosque, contando apenas com os truques aprendidos por Sam em seu período no escotismo e com o toca-discos e os livros fantasiosos de Suzy. Sua fuga, porém, abala os adultos que deveriam ser seus responsáveis, e uma busca aflita tem início, unindo os pais da jovem, o xerife local, o chefe dos escoteiros e até uma assistente social que precisa dar um rumo à vida do menino após a desistência de sua última família adotiva.

Fosse escrito e dirigido por um cineasta mais afeito às convenções das comédias românticas adolescentes, "Moonrise kingdom" fatalmente contaria sua história de forma convencional, sentimental e com um senso de humor óbvio e pasteurizado. No entanto, sob o comando de Wes Anderson, o resultado é completamente o oposto. Dono de uma obra no mínimo excêntrica - que inclui os elogiados "Três é demais" e "Os excêntricos Tenenbaums" - o cineasta americano usa e abusa de todas as características singulares que fazem de sua filmografia um estranho no ninho na indústria hollywoodiana (personagens bizarros, humor singular e uma narrativa com ênfase no visual extravagante) para transformar um singelo conto de amor juvenil em um filme que nada contra a corrente do gênero. Mesmo que tenha surgido das memórias afetivas de seu diretor - que divide o roteiro com Roman Coppola, filho de Francis e irmão de Sofia - "Moonrise kingdom" não se deixa dominar pela nostalgia e pela melancolia: é um produto típico de seu autor, capaz de encantar a quem busca um cinema menos comum ou aborrecer o espectador mais tradicional.


Situando sua trama na década de 60 - o que possibilita um espetáculo à parte no desenho de produção e figurinos - Wes Anderson foge habilmente do lugar-comum das histórias de amor por não apostar todas as suas fichas no romance entre os inábeis mas bem-intencionados Sam e Suzy. Dividindo o foco narrativo em duas frentes, ele equilibra a delicadeza de uma nascente história de amor com o humor sutil e inteligente que surge da busca frequentemente equivocada dos adultos por seu pátrio poder - mesmo que ele não venha necessariamente dos pais. Ao tratar os adolescentes como heróis da história e relegar os mais velhos a uma situação de quase absoluta insensatez, o roteiro indicado ao Oscar - perdeu para "Django livre", de Quentin Tarantino - oferece à audiência uma saudável reversão de expectativas que encontra em seu brilhante elenco um invejável respaldo artístico. Ao colaborador habitual do cineasta, Bill Murray (que interpreta o pai de Suzy), juntam-se Frances McDormand (como a mãe da garota, uma mulher que comanda a casa através de um megafone), Edward Norton (no papel do incompetente chefe dos escoteiros), Bruce Willis (como o bem-intencionado xerife que tem um caso com a mãe da jovem desaparecida) e Tilda Swinton (no papel pequeno mas crucial da assistente social que chega ao cenário para aumentar a confusão).

Filme que abriu o Festival de Cannes 2012, "Moonrise kingdom" é um perfeito exemplar da cinematografia de Wes Anderson, que logo em seguida finalmente seria consagrado com o fantástico "O Grand Hotel Budapeste". Longe de ser hermético ou visualmente excitante apenas por sê-lo, é um filme agradável, plasticamente ousado e leve como convém a uma comédia romântica. Mas é, também, inteligente e adorável. Peca em não aprofundar adequadamente seus personagens, mas é um detalhe de pouca relevância diante de outras qualidades tão óbvias.

sexta-feira

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS

OS EXCÊNTRICOS TENENBAUMS (The royal Tenenbaums, 2001, Touchstone Pictures, 110min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Robert Yeoman. Montagem: Dylan Tichenor. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco. Produção executiva: Rudd Simmons, Owen Wilson. Produção: Wes Anderson, Barry Mendel, Scott Rudin. Elenco: Gene Hackman, Anjelica Huston, Gwyneth Paltrow, Ben Stiller, Owen Wilson, Luke Wilson, Bill Murray, Danny Glover, Seymour Cassel, Alec Baldwin. Estreia: 05/10/01 (Festival de Nova York)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Gene Hackman) 

Era uma vez uma família de pequenos gênios que, não conseguindo lidar com o tamanho de seus talentos, cresceu à sombra de seus precoces feitos, levando uma vida adulta triste e frustrada até que seu pai, de quem viveram afastados por décadas, reaparece alegando uma doença terminal e uma vontade férrea de reconciliação. Essa trama, um tanto banal a princípio, é a base para um dos filmes mais estranhos, criativos e surpreendentemente comoventes de 2001 - apesar de ser, a rigor, uma comédia: dirigido por Wes Anderson e co-escrito por ele e o ator Owen Wilson, "Os excêntricos Tenenbaums" aprimora o estilo de seu diretor - depois do pouco conhecido "Pura adrenalina" e do cultuado "Três é demais" - ao contar a história desses bizarros personagens incapazes de lidar com sua decadência de forma divertida e emocionante, com toques discretos de melancolia e cinismo. Contando com um elenco formado por atores premiados com o Oscar - Gene Hackman, Anjelica Huston e Gwyneth Paltrow - e colaboradores habituais - Owen Wilson, seu irmão Luke, Bill Murray - Anderson criou um espetáculo de estilo personalíssimo, capaz até mesmo de chamar a atenção da Academia de Hollywood, que lhe deu a oportunidade de concorrer ao Oscar de melhor roteiro original - que perdeu para "Assassinato em Gosford Park". Essa mesma Academia, que ignorou o desempenho exemplar de Gene Hackman como o patriarca Royal Tenenbaum, mais de uma década depois se encantaria com "O Grande Hotel Budapeste", obra da maturidade do cineasta -  mas os fãs já conheciam esse talento há muito tempo.


A história da família Tenenbaum é narrada pela voz de Alec Baldwin, que dá o tom exato entre fábula e comédia de costumes à sua estranha trajetória. Quando crianças, os três filhos de Royal e Etheline Tenenbaum (Gene Hackman e Anjelica Huston) demonstram talentos incomuns para sua idade, transformando-se rapidamente em pequenas celebridades: o mais velho, Chas, desenvolve habilidades incomuns para as finanças e a química; a filha adotiva, Margot, escreve peças de teatro aplaudidíssimas; e o caçula Richie chama a atenção como prodigioso jogador de tênis. A separação de seus pais, porém, abala suas estruturas emocionais e intelectuais e os joga em uma espécie de arremedo deles mesmos. Vinte e dois anos depois da separação, os três irmãos vivem prostrados diante de suas vidas medíocres: Chas (Ben Stiller) acaba de perder a esposa e tenta cuidar sozinho dos dois filhos pequenos, versões em miniatura de si mesmo. Margot (Gwyneth Paltrow) deixou o teatro de lado e vive em depressão ao lado do marido, o brilhante psiquiatra Raleigh St. Clair (Bill Murray), com idade para ser seu pai. E Richie (Luke Wilson), depois de abandonar a carreira durante uma crise emocional em uma partida, saiu em viagem pelo mundo em um barco de pesca. Quando seu pai retorna à mansão onde todos foram criados, dizendo estar sofrendo de um câncer terminal - às vésperas do casamento de Etheline com o contador Henry Sherman (Danny Glover) - a família se vê obrigada a encarar os fantasmas do passado para finalmente conseguir olhar para a frente.

A trama soa como um dramalhão dos mais carregados no açúcar, mas Anderson não é um diretor dado a sentimentalismos baratos, e aplica em seu roteiro toda a criatividade visual que se tornaria sua marca registrada. A mansão da família, que serve como principal cenário, por exemplo, é de uma sofisticação visual impressionante, refletindo em cada detalhe todos os paradoxos temporais e psicológicos da trama, repleta de camadas e piadas escondidas (como o fato de todos os irmãos terem sido inspirados em personalidades reais, como o tenista Bjorn Borg, a cantora alemã Nico e no escritor Cormac McCarthy). A história de amor proibido entre Richie e sua irmã adotiva Margot dá o toque romântico ao roteiro, que ainda encontra espaço para explorar os dramas de Eli Cash (Owen Wilson), vizinho da família que se torna famoso como romancista especialista em desmistificar heróis americanos - e cujo maior sonho era ser um Tenenbaum. Fugindo do piegas até mesmo nos embates dramáticos entre pai e filhos, o filme de Anderson é conduzido como um delicado acerto de contas banhado em uma ironia rara e inteligente que transpira até mesmo nos figurinos irreverentes - os três irmãos, por exemplo, usam, mesmo na fase adulta, o mesmo estilo de roupas que usavam na infância.

E se o roteiro e a direção de "Os excêntricos Tenenbaums" são um show de sutileza e minimalismo, o mesmo pode ser dito a respeito do extraordinário elenco reunido por Wes Anderson. Gene Hackman levou o Golden Globe de melhor ator em comédia ou musical por seu trabalho como Royal Tenenbaum - no qual ele inspirou-se na própria relação distante com os filhos - e Anjelica Huston mais uma vez mostra que não é preciso lágrimas em profusão para emocionar. E os três irmãos gênios - Ben Stiller, Gwyneth Paltrow e Luke Wilson - estão no tom perfeito, entrando com presteza no jogo do cineasta, dono de um estilo tão peculiar que muitas vezes pode soar artificial. No entanto, quem se deixa cativar por sua exuberância não tem do que reclamar. A família Tenenbaum é, sem dúvida, o exemplo perfeito do seu cinema que a tantos encanta.

TRÊS É DEMAIS

TRÊS É DEMAIS (Rushmore, 1998, Touchstone Pictures, 121min) Direção: Wes Anderson. Roteiro: Wes Anderson, Owen Wilson. Fotografia: Rober Yeoman. Montagem: David Moritz. Música: Mark Mothersbaugh. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Alexandra Reynolds-Wasco. Produção executiva: Wes Anderson, Owen Wilson. Produção: Barry Mandel, Paul Schif. Elenco: Jason Schwartzman, Bill Murray, Olivia Williams, Seymour Cassell, Brian Cox, Mason Gamble, Sara Tanaka, Stephen McCole, Connie Nielsen, Luke Wilson. Estreia: 17/9/98 (Festival de Toronto)

Antes de tornar-se um dos cineastas norte-americanos mais louvados de sua geração, com produções cujos estilos visual e narrativo inconfundíveis fizeram a alegria da crítica e de uma legião de fãs fiéis, Wes Anderson passou um tempo restrito a um pequeno nicho de admiradores que descobriram, muito antes daqueles que fizeram de "O Grande Hotel Budapeste" um sucesso, sua maneira particular e inteligente de ver o mundo, sempre com uma dose única de ironia e carinho. Se hoje em dia seu primeiro trabalho, "Pura adrenalina" (96) é artigo raro e difícil de encontrar, seu segundo filme, "Três é demais" assumiu uma espécie de marco inicial de uma carreira de rara integridade em Hollywood. Mesmo vendida erroneamente como uma comédia romântica - talvez o maior motivo de seu fracasso comercial - a primeira colaboração entre Anderson e o ator Bill Murray (dentre muitas) escapa facilmente da classificação, mostrando logo de cara que não é fácil rotular uma obra do diretor.

Se é que é possível encaixar "Três é demais" em algum gênero, pode-se dizer que ele é uma comédia cínica, amarga e melancólica sobre a solidão e desajuste social. Jason Schwartzman (filho da atriz Talia Shire) tem uma estreia extraordinária como Max Fischer, um jovem bolsista da prestigiada escola preparatória Rushmore que, a despeito de sua extensa lista de atividades extra-curriculares, é um aluno medíocre e pouco respeitado - tanto pelos colegas quanto pelo diretor, Mr. Guggenheim (Brian Cox). Filho de um barbeiro (que ele divulga ser um neurocirurgião), Max é, no fundo, um rapaz de 15 anos que vive isolado em seu mundo particular, escrevendo peças de teatro e inventando maneiras de sobressair no universo escolar. Dois acontecimentos, porém, sacodem seu mundinho tedioso. Primeiro ele conhece e inicia uma estranha amizade com Herman Blume (o sensacional Bill Murray), um industrial milionário cujos filhos gêmeos estudam em Rushmore. Depois, se apaixona perdidamente por uma das professoras da escola, a tímida Rosemary Cross (Olivia Williams), que perdeu o marido e, apesar da diferença de idade entre eles, torna-se confidente do rapaz. As vidas dos três acabam se cruzando quando Blume - que vive um casamento frio e adúltero - também se apaixona por Rosemary e é correspondido, despertando em Max um até então desconhecido sentimento de vingança.


Construindo um roteiro caprichado, onde cada ação desperta uma reação inesperada mas crível, Wes Anderson desenvolve um trio de protagonistas dotados de personalidade e sensibilidade. Mesmo que Max Fischer seja pouco agradável com sua excentricidade por vezes enervante é difícil não simpatizar com seus dramas adultos em uma alma adolescente. Tal como a personagem de Reese Witherspoon em "Eleição", de Alexander Payne, Max tem como prioridade na vida ser alguém que ultrapasse a mediocridade que o cerca, mesmo que para isso abandone toda e qualquer ambição social e sentimental - o que muda com a chegada de Rosemary em sua vida e com sua amizade com Blume, que lhe trata com a admiração que não pode dar aos filhos pouco brilhantes. A entrada de Max na vida adulta através da decepção amorosa também é uma ideia primorosa, desenvolvida com fino humor e o senso estético que se tornaria uma das marcas registradas do diretor. Equilibrando seu roteiro com diálogos inteligentes e imagens milimetricamente calculadas, Anderson conduz o espectador a um mundo próprio, onde crianças são capazes de revanches cruéis, milionários de meia-idade disputam mulheres com adolescentes nerds e o final feliz não é exatamente cor-de-rosa ou otimista. Tendo como intérpretes atores do naipe do jovem Schwartzaman e do veterano Bill Murray, ele faz um gol de placa logo no início da carreira.

Em uma das maiores atuações de sua carreira - e injustamente esquecida pelo Oscar - Bill Murray está a um passo da perfeição na criação de seu Herman Blume, um homem cansado e desiludido que vê sua vida ganhar um novo ânimo quando se apaixona por uma mulher mais nova e tem a chance de ajudar na formação do caráter de um rapaz cuja alma - apesar de ser mais madura do que o normal - ainda é de um adolescente desajustado e infeliz. O triângulo amoroso formado pelos dois e pela professora vivida por Olivia Williams (talvez o único elo fraco de toda a corrente) não é dos mais românticos mostrados pelo cinema americano nos anos 90, mas é, com certeza, um dos mais interessantes e realistas, enfatizados pela criatividade e pelo talento de seu criador. Um belo filme a ser redescoberto e valorizado por seu humor sutil e delicadeza no trato das relações humanas.

segunda-feira

FEITIÇO DO TEMPO

FEITIÇO DO TEMPO (Groundhog day, 1993, Columbia Pictures, 103min) Direção: Harold Ramis. Roteiro: Harold Ramis, Danny Rubin, estória de Danny Rubin. Fotografia: John Bailey. Montagem: Pembroke J. Harring. Música: George Fenton. Figurino: Jennifer Butler. Direção de arte/cenários: David Nichols/Lisa Fischer. Produção executiva: C.O. Erickson. Produção: Trevor Albert, Harold Ramis. Elenco: Bill Murray, Andie MacDowell, Chris Elliott, Stephen Tobolowski, Michael Shannon. Estreia: 12/02/93

Imagine a situação: você passa um dia inteiro em uma cidade do interior, fazendo um trabalho que detesta, pega uma nevasca que o impede de ir embora e, no dia seguinte, ao acordar, percebe que o dia está prestes a repetir-se. Pra piorar ainda mais, o problema se estende por dias e dias e não parece dar sinal de que vai acabar em algum momento, ou seja, você está indefinidamente preso a um dos mais entediantes dias de sua vida. Pois é exatamente por isso que passa Phil Connors, o protagonista de "Feitiço do tempo", uma das mais divertidas e inteligentes comédias dos anos 90. Porém, interpretado pelo sempre genial Bill Murray, o protagonista do filme de Harold Ramis (também ator, mais conhecido por ter vivido um dos colegas de Murray no clássico oitentista "Os caça-fantasmas") não se faz de rogado e, espertamente, resolve utilizar o eterno dèja-vu a seu favor. Quem se diverte - e muito - é o público.

Acostumado a fazer rir sem precisar se esforçar muito, Murray deita e rola na pele de Connors, um arrogante e misantropo repórter que apresenta a previsão do tempo de um telejornal de Pittsburgh e que vai, a contragosto, pela quarta vez, cobrir uma festividade folclórica da pequena Punxsutawney, localizada na Pensilvânia. Lá ocorre, todo ano, o Dia da Marmota, quando o animalzinho prevê, de acordo com as lendas locais, a duração do inverno. Dotado de absoluto desdém pela cidade, pela festa e pelas lendas, Phil só quer acabar logo sua tarefa e ir embora, mas uma tempestade de neve o impede de retornar pra casa. Quando amanhece, uma surpresa: o mesmo dia o aguarda, com todos os detalhes se repetindo. Seu estranhamento inicial dá lugar ao desespero, no entanto, quando ele vê que o que parecia um pesadelo é uma bizarra realidade e que todos os dias são sempre o mesmo. Sabendo que ninguém mais nota a kafkiana situação, ele resolve então aproveitá-la em benefício próprio e parte para a conquista de sua nova produtora, Rita (Andie MacDowell).


De posse de um roteiro nunca aquém de genial - co-escrito por ele e Danny Rubin - Harold Ramis criou um pequeno clássico dos anos noventa, uma comédia romântica que enfatiza muito mais o humor do que o romance. Se a base da trama são as tentativas de Phil em seduzir Rita - que até então nunca havia lhe percebido senão como colega de trabalho - o caminho para o desfecho do romance é pavimentado com piadas sensacionais geradas apenas pela premissa central: assim, Phil se utiliza das informações que consegue em um dia para se dar bem no seguinte, comete suicidio várias vezes por saber que sempre irá acordar em sua cama ouvindo o despertador tocando Cher e aprende coisas tais como fazer escultura no gelo e tocar piano com maestria. Além disso, é claro, se torna um ser humano melhor, com se poderia esperar de um filme vindo de Hollywood (por mais cínico que ele seja em âmago). O que é bom em "Feitiço do tempo" é que, mesmo com o óbvio final feliz, não existe nele a obsessão do politicamente correto que estragou boa parte do humor do cinema norte-americano a partir justamente da década de 90.

Engraçado sem ser histérico e romântico sem ser piegas, "Feitiço do tempo" é, também, a comprovação das imensas qualidades de Bill Murray como ator. Transformando seu Phil Connors de um homem egoísta e antipático em um personagem querido pela plateia e por Rita (que descobre um novo homem por debaixo das inúmeras camadas de sarcasmo e arrogância), ele é o corpo e a alma do filme de Ramis, insuperável tanto em termos de humor físico quanto nos momentos de maior sutileza. Sorte de todos (do filme, do público e do diretor) que o papel não ficou com Chevy Chase, Steve Martin e John Travolta. A despeito do talento de todos, Bill Murray nasceu para viver o desagradável Phil Connors. E o resultado final comprova essa afirmação.

quarta-feira

NOSSO QUERIDO BOB

NOSSO QUERIDO BOB (What about Bob?, 1991, Touchstone Pictures, 99min ) Direção: Frank Oz. Roteiro: Tom Schulman. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: Anne V. Coates. Música: Miles Goodman. Figurino: Bernie Pollack. Direção de arte/cenários: Les Dilley/Anne Kuljian. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Bill Murray, Richard Dreyfuss, Julie Hagerty, Charlie Korsmo, Kathryn Erbe, Tom Aldredge, Susan Willis. Estreia: 15/5/91

Um homem com sérios problemas psicológicos, incapaz de tomar a mais simples das decisões e abandonado até pelo próprio analista, começa um tratamento com um novo psiquiatra, reconhecido nacionalmente e autor de um livro em vias de tornar-se um best-seller. Quando toma conhecimento que o médico está saindo de férias, ele resolve perseguí-lo até sua casa de campo, utilizando-se de mentiras e artifícios nem sempre honestos para descobrí-lo e sua família. Sua intenção é uma só: obrigar-lhe a manter o tratamento a qualquer custo. Essa sinopse, lida a frio, pode servir a um belo suspense (lembra até o apavorante "Cabo do medo", de Martin Scorsese) ou a um drama comovente. Estrelado por Bill Murray na pele do dependente e psicótico paciente, porém, não chega a ser surpresa que "Nosso querido Bob" seja uma comédia. E, dirigida por um especialista do gênero, Frank Oz, uma das boas. Sucesso de bilheteria (rendeu mais de 60 milhões somente no mercado doméstico), marcou um período de grande popularidade para Murray nos EUA - que chegaria ao auge com o mega êxito de "Feitiço do tempo", em 1993.

Um dos grandes golpes de mestre do filme foi a escalação de Richard Dreyfuss para viver o ególatra Leo Marvin, o psiquiatra arrogante que tem sua vida virada pelo avesso pelo carente Bob Wiley, em uma brilhante atuação de Bill Murray. Ficando com o papel que esteve entre Patrick Stewart e Woody Allen, Dreyfuss faz uso de sua persona de ator sério - ainda que seu ápice, o Oscar por "A garota do adeus" (77), tenha sido por um papel cômico - para contrabalançar os exageros histriônicos de Murray. Tão engraçados quanto os surtos de Bob são as tentativas de Marvin de manter a integridade de sua família de comercial de margarina enquanto o mundo à sua volta praticamente desmorona. Rejeitado até mesmo pelos vizinhos - em especial um casal idoso que tinha esperanças de comprar a propriedade adquirida por ele - Marvin é o protótipo do analista judeu com olhos apenas para o próprio umbigo, e o ator tira de letra a missão, com um timing cômico equivalente ao de Murray, que, como era de se esperar, rouba cada cena como o irritante Bob.


Aliás, o trabalho de Murray como Bob é tão conectado à persona do ator que fica difícil de acreditar que a primeira escolha para o papel era Robin Williams, que saiu fora do projeto por estar terminando as filmagens de "O pescador de ilusões", que lhe renderia uma justa indicação ao Oscar: cada movimento de Murray parece ao mesmo tempo milimetricamente calculado e orgânico, mesmo quando não é o centro da cena. Seu talento valoriza cada diálogo do roteirista Tom Schulman - oscarizado pelo belo "Sociedade dos poetas mortos" (89) - que, por sua vez, não deixa pedra sobre pedra em sua crítica mordaz aos excessos da terapia. O livro de Leo Marvin, "Baby steps", por exemplo, é um deboche claríssimo às dezenas de obras de autoajuda que desde então são o flagelo da literatura médica séria e o próprio médico é uma sátira aos psiquiatras que se acham acima de todo e qualquer mortal. O contraste entre a seriedade de Richard Dreyfuss e o eterno ar aparvalhado de Bill Murray é a pedra fundamental do sucesso da comédia de Oz.

Mesmo que não tenha mudado a história do cinema e não seja um favorito na lista de qualquer cinéfilo, "Nosso querido Bob" tem a seu favor o deboche inteligente do roteiro, o elenco escalado com perfeição, a direção segura de Frank Oz e o senso de oportunidade impecável. Para quem quer rir sem compromisso, é o programa ideal - até mesmo porque as possibilidades de identificação (com o médico ou com o paciente) são bastante grandes.

terça-feira

NÃO TENHO TROCO

NÃO TENHO TROCO (Quick change, 1990, Devoted Pictures, 89min) Direção: Howard Franklin, Bill Murray. Roteiro: Howard Franklin, romance de Jay Cronley. Fotografia: Michael Chapman. Montagem: Alan Heim. Música: Randy Edelman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: David Gropman/Susan Bode. Produção executiva: Frederic Golchan. Produção: Robert Greenhut, Bill Murray. Elenco: Bill Murray, Geena Davis, Randy Quaid, Jason Robards, Tony Shalhoub. Estreia: 13/7/90

Uma dose de "Um dia de cão" (75), de Sidney Lumet. Pitadas da comédia juvenil "Uma noite de aventuras" (87), de Chris Columbus. E muito da paranoia bizarra de "Depois de horas" (85), de Martin Scorsese. Assim pode ser definida a comédia "Não tenho troco", estreia - e até hoje única experiência - do ator Bill Murray como diretor. Trabalhando em conjunto com o também cineasta Howard Franklin com base em um livro de Jay Cronley que já havia sido adaptado para o cinema em 1985 com Jean-Paul Belmondo e Kim Catrall nos papéis centrais, Murray demonstrou que, além de um ator superlativo e frequentemente subestimado ao ser limitado ao nicho do humor, é também capaz de destacar-se por trás das câmeras. Dotado de um ritmo invejável e de piadas inteligentes, "Não tenho troco" é um passatempo dos mais agradáveis, que tem no humor despretensioso a sua maior qualidade.


Murray brilha como sempre no papel principal desde a sequência de abertura, em que, vestido de palhaço - com direito a balões e tudo - atravessa Nova York de metrô até chegar a um banco prestes a encerrar suas atividades diárias. Logo que entra no local, ele anuncia um assalto, trancafia os clientes em um cofre e passa a negociar a libertação dos reféns com o chefe da polícia, o ambicioso Ratzinger (Jason Robards, comprando a brincadeira com extrema simpatia). Não demora muito, porém, para que o público perceba, antes de qualquer autoridade policial, que o plano do palhaço é bem mais simples do que exigir tratores e helicópteros. Enquanto todos tentam desesperadamente cumprir tudo que lhes é pedido, o assaltante, que se chama Grimm, já saiu do prédio com o dinheiro escondido nas roupas - nas suas e nas de dois cúmplices que estavam disfarçados de reféns: sua namorada Phyllis (Geena Davis) e seu melhor amigo, o inconsequente Loomis (Randy Quaid). E é justamente Loomis que, por acidente, atrapalha o plano perfeito do trio que se vê, a partir de então, em rota de fuga, tentando alcançar o aeroporto para sair do país.


As tentativas de Grimm, Phyllis e Loomis de fugir da polícia em uma Nova York noturna, cheia de personagens amalucados e uma sensação de perigo (amenizada pelo tom cômico do roteiro) preenche os dois terços finais do filme de Murray e Franklin. Povoada por personagens à beira do surreal - como um taxista estrangeiro incapaz de compreender a mais simples das ordens, interpretado por um então novato Tony Shalhoub - e de situações de deixar qualquer cidadão à beira do desespero, a trajetória do trio ainda é dificultada pelos problemas românticos entre Grimm e Phyllis, cujo relacionamento enfrenta (ainda que unilateralmente) uma encruzilhada que terá o poder de definir de vez seu desfecho. Enquanto isso, resta ao público divertir-se com suas confusões, torcer por seu sucesso e, de quebra, acompanhar algumas sequências que equilibram com maestria um senso de humor negro com um elenco em dias inspirados (em especial Geena Davis, que acumulava com graça um sucesso atrás do outro).

Pouco lembrado dentro da filmografia de Murray e Geena Davis, "Não tenho troco" é uma grata surpresa para quem procura comédias realmente engraçadas e um ótimo programa para quem deseja relembrar como Hollywood preferiu trocar o humor sutil pelas grosserias adolescentes que se tornariam quase uma praga na década seguinte. É ligeiro, é sem contra-indicações e deixa qualquer um sorrindo à toa.

domingo

ENCONTROS E DESENCONTROS

ENCONTROS E DESENCONTROS (Lost in translation, 2003, Focus Features, 104min) Direção e roteiro: Sofia Coppola. Fotografia: Lance Acord. Montagem: Sarah Flack. Música: Kevin Shields. Figurino: Nancy Steiner. Direção de arte/cenários: K.K. Barrett, Anne Ross/Mayumi Tomita. Produção executiva: Francis Ford Coppola, Fred Roos. Produção: Sofia Coppola, Ross Katz. Elenco: Bill Murray, Scarlett Johansson, Giovanni Ribisi, Anna Faris. Estreia: 29/8/03 (Festival de Telluride)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sofia Coppola), Ator (Bill Murray), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme Comédia/Musical, Ator Comédia/Musical (Bill Murray), Roteiro

Filmes sobre pessoas solitárias que se encontram em determinado momento de suas vidas e passam por transformações são moeda corrente dentro dos clichês dramáticos hollywoodianos. Por que então um filme pequeno, discreto e tão sutil quanto “Encontros e desencontros” causou tanto auê entre a crítica e o público de bom gosto? A resposta mais óbvia poderia acusar a nobreza do sangue de sua diretora – Sofia Coppola é filha do veterano Francis Ford, aqui atuando como produtor executivo. Mas o fato é que nem mesmo o prestígio do velho e bom Coppola seria capaz de sobrepujar-se à delicadeza, inteligência e humor melancólico do segundo filme de sua filha. Ao falar da natureza inerentemente solitária dos seres humanos e de que como pessoas tão diferentes podem cruzar nossas vidas e fazê-las menos comuns, a pequena obra-prima de Sofia comove, faz rir e de quebra apresenta um trabalho de atuação irrepreensível de Bill Murray, merecidamente indicado ao Oscar de Melhor Ator.


Murray abandona – pero no mucho – a persona de palhaço que forjou em quase toda a sua carreira no papel de Bob Harris, um ator decadente e em crise de meia-idade que vai ao Japão para gravar um comercial de whisky. Sozinho e incapaz de lidar com as diferenças culturais do país do sol nascente, ele entra em uma fase de isolamento total até que conhece, no hotel onde está hospedado, a jovem Charlotte (Scarlett Johansson), mulher de John (Giovanni Ribisi), um fotógrafo profissional que dedica-se mais ao trabalho que ao casamento. Recém-formada em Filosofia, Charlotte sente-se abandonada em Tóquio e logo ela e Bob iniciam uma amizade baseada unicamente no fato de serem dois seres humanos totalmente fora de seus universos particulares. Conhecendo a noite da cidade eles passam também a conhecer um ao outro e surge um relacionamento forte e honesto entre eles.



Dificilmente “Encontros e desencontros” pode ser considerado um drama romântico, uma vez que o relacionamento entre Bob e Charlotte passa longe do romantismo barato e recheado de lugares-comuns dos filmes do gênero. O amor que surge entre eles não é um amor que necessite de consumação física – mesmo quando passam a noite juntos, eles apenas dormem, comprovando a intimidade entre eles acima de qualquer noite tórrida de sexo. O amor que sentem um pelo outro é um amor entre duas pessoas conectadas por algo mais do que simplesmente carne. Talvez por isso, por essa delicadeza de sentimentos, o filme de Sofia tenha incomodado tanta gente e encantado outro tanto. Não há diálogos forçados no roteiro premiado com o Oscar, ainda que muitos deles sejam engraçados. E é aí que entra em cena outra qualidade do filme.

Os diálogos repletos de frescor e simplicidade escritos por Sofia Coppola soam verdadeiros e não como frases de efeito. Recitados por Johansson e um Bill Murray inspiradíssimo, eles são como música para ouvidos tão mal acostumados a cenas escritas com petulância e má-vontade. E nem mesmo as sequências cômicas parecem exageradas ou descartáveis, permitindo a Murray que ria de si mesmo com a melancolia que seu personagem exige. Uma melancolia, aliás, que perpassa todo o filme, que ainda permite ao espectador uma visão ampla de um país que mistura com precisão a tecnologia e a modernidade com o orgulho às tradições mais ancestrais.
  
Uma pérola delicada e sutil, “Encontros e desencontros” ainda tem a coragem de encerrar sua história com um misterioso adeus entre seus protagonistas ao som da bela “Just like honey”, da banda Jesus & Mary Chain. A frase que Bob Harris sussurra ao ouvido de sua querida Charlotte pode não ser ouvida pelo público, mas fica ressoando por um bom tempo depois do final da obra-prima de Sofia Coppola.

terça-feira

GAROTAS SELVAGENS

GAROTAS SELVAGENS (Wild things, 1998, Mandalay Entertainment, 108min) Direção: John McNaught. Roteiro: Stephen Peters. Fotografia: Jeffrey L. Kimball. Montagem: Elena Maganini. Música: George S. Clinton. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Edward T. McAvoy/Bill Cimino. Produção executiva: Kevin Bacon. Produção: Steven A. Jones, Rodney Liber. Elenco: Matt Dillon, Kevin Bacon, Neve Campbell, Denise Richards, Bill Murray, Theresa Russell, Robert Wagner. Estreia: 20/3/98

"Garotas selvagens" é tão exageradamente cafona e e absurdo que a única maneira de assistí-lo e gostar é deixando de lado todo e qualquer senso crítico. Propositalmente over e excessivo, o filme produzido por Kevin Bacon foi vendido como um suspense, mas no fundo é uma comédia rasgada, repleta de reviravoltas inacreditáveis e um erotismo à la revista Playboy que, com certeza, é capaz de agradar à ala masculina da plateia. Para isso, o diretor John McNaught (outrora respeitado por seu filme de estreia, o violento "Henry, retrato de um assassino") foi feliz em escalar Denise Richards, a perfeita encarnação da Barbie sexy e descerebrada, para um dos papéis centrais. Ao lado da sempre péssima Neve Campbell, ela protagoniza cenas bastante quentes, o que talvez justifique o adjetivo "selvagens" do titulo.

Em sua primeira metade, "Garotas selvagens" tem a aparência de uma telenovela de baixa qualidade. Tanto seus diálogos quanto as atuações são canhestras, tudo envolvido em um cenário perceptivelmente exagerado e/ou cafona (sem a exaltação que diretores como Almodovar fazem do kitsch). Matt Dillon, exercitando sem pudor nenhum sua canastrice, vive Sam Lombardo, o conselheiro escolar de uma escola do sul da Flórida (em um papel recusado por Robert Downey Jr.). Admirado pelos colegas e pelos alunos, o rapaz tem sua vida transformada em um pesadelo quando uma estudante, a milionária Kelly Van Ryan (Denise Richards) o acusa de estupro. Para complicar a situação, outra aluna, a rebelde sem causa Suzie Toller (Neve Campbell) também o denuncia pelo mesmo motivo. Sentindo-se condenado mesmo antes do julgamento (a família de Kelly é praticamente a dona da cidade e sua mãe já passou pela cama do professor), Lombardo conta com o apoio do advogado Ken Bowden (Bill Murray, hilariante como sempre) e do investigador de polícia Ray Duquette (Kevin Bacon), que não parece acreditar muito nas acusações.


Depois da primeira reviravolta do roteiro, "Garotas selvagens" descamba para um samba do crioulo doido. A partir daí, nada é o que parece, ninguém é tão confiável (ou tão mau-caráter) e a impressão que se tem é que o elenco está se divertindo mais do que o público. O que parecia um melodrama transforma-se em um jogo de erotismo e violência, onde tudo pode acontecer. Vítimas transmutam-se em agressores. Agressores posam de vítimas. E resta a Duquette e sua parceira Gloria (Daphne Rubin-Vega) separar o joio do trigo e chegar a uma verdade absoluta. Que talvez não exista.

É justamente o fato de evitar o maniqueísmo que ajuda e ao mesmo tempo atrapalha "Garotas selvagens". Ao mostrar que ninguém é exatamente bom ou ruim o tempo todo, tanto o roteirista Stephen Peters quanto o diretor McNaughton tiram o prazer da audiência de assistir-se a um filme onde se está plenamente claro para quem se deve torcer. Por outro lado, a trama torna-se imprevisível, o que também é uma qualidade rara no cinemão americano (mesmo que essa imprevisibilidade esbarre muitas vezes no nonsense). Depois da terceira reviravolta, fica evidente que tudo não passa de uma grande brincadeira (mesmo porque levar Denise Richards, Matt Dillon e Neve Campbell a sério é difícil...), mas a questão que fica é se o público está disposto a participar dela ou não. Se sim, pode deixar o senso de realidade descansando e se divertir. Se não, é capaz de terminar o filme com um amargo gosto de decepção....

Enfim, "Garotas selvagens" é tão ruim que chega a ser bom. Melhor acreditar nas intenções de McNaughton do que considerá-lo um embuste.

sexta-feira

ED WOOD

ED WOOD (Ed Wood, 1994, Touchstone Pictures, 127min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski, livro "Nightmare of ecstasy", de Rudolph Grey. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Lehmann. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, George "The Animal" Steele, Vincent D'Onofrio. Estreia: 28/9/94

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)

Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.

Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).




Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.

Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.

"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.

terça-feira

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.


O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...