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segunda-feira

JUSTIÇA PARA TODOS

JUSTIÇA PARA TODOS (... and justice for all, 1979, Columbia Pictures, 119min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Valerie Curtin, Barry Levinson. Fotografia: Victor J. Kemper. Montagem: John F. Burnett. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard MacDonald/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Joe Wizan. Produção: Norman Jewison, Patrick Palmer. Elenco: Al Pacino, Jack Warden, John Forsythe, Lee Strasberg, Jeffrey Tambor, Christine Lahti. Estreia: 15/9/79 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Original

Não havia, na Hollywood da década de 70, ator mais quente do que Al Pacino. Indicado quatro anos consecutivos ao Oscar - por "O poderoso chefão" (em que concorreu injustamente como coadjuvante), "Serpico", "O poderoso chefão - parte 2" (dessa vez como protagonista) e "Um dia de cão" - e respeitado como um dos maiores intérpretes de sua geração, ao lado de Robert De Niro, Pacino também tinha como característica buscar desafios cada vez maiores, em papéis que questionassem o status quo e o tradicional american way of life. Por isso, não foi surpresa para ninguém quando ele voltou a disputar a estatueta dourada na cerimônia de 1980, por uma atuação que se tornaria, anos mais tarde, uma das mais icônicas de sua carreira. Na pele de um advogado lutando contra a burocracia e o descaso da justiça norte-americana, Pacino entregou mais uma interpretação feroz e intensa, que encantou a crítica e o público mas esbarrou nos eleitores da Academia, que preferiram abraçar o minimalista desempenho de Dustin Hoffman em "Kramer vs Kramer" - papel do qual, por ironia do destino, o próprio Pacino declinou para trabalhar no filme de Jewison.

"Justiça para todos" - um título recheado de uma boa dose de sarcasmo que fica evidente no final amargo do filme - é quase uma crônica a respeito dos meandros da justiça americana, inspirada em visitas do casal de roteiristas a tribunais de júri em Baltimore e Los Angeles. O futuro cineasta Barry Levinson (vencedor do Oscar por "Rain Man") e sua então esposa Valerie Curtin (que também concorreram à estatueta dourada, assim como Pacino) criaram um roteiro que não se prende a uma única situação dramática, desenvolvendo, ao invés disso, uma série de acontecimentos que vão levando seu protagonista à mais completa desilusão com o sistema judicial de seu país. Logo em sua primeira cena, Arthur Kirkland é visto junto a presos comuns, na cela de uma delegacia, depois de passar a noite na cadeia por desacato ao juiz Henry Fleming (John Forsythe) - a personificação do lado mais corrupto e arrogante da lei. É nesse ambiente que Kirkland, que mantém seu idealismo intacto apesar de algumas experiências pouco saudáveis, conhece Ralph Agee (Robert Christian), uma travesti negra, acusada injustamente de tráfico de drogas e que acaba se tornando sua cliente. Cuidando também do caso do jovem Jeff McCullaugh (Thomas Waites) - condenado devido a uma série de enganos judiciais que o estão empurrando diretamente para a insanidade mental - Kirkland acaba se vendo obrigado a defender justamente seu maior desafeto quando o Juiz Fleming é acusado de estupro e agressão. Chantageado (tal aproximação pode salvar McCullaugh), Kirkland aceita, mesmo a contragosto, a tarefa de engolir seus princípios, mas nem de longe imagina o quão podre pode ser o meio em que transita.


Utilizando personagens secundários como forma de comentar a ação, o roteiro de "Justiça para todos" evita cair no dramalhão mesmo quando se vê obrigado a apelar para tragédias como forma de sublinhar sua contundência. Enquanto luta por seus clientes, Kirkland se vê enredado em um romance com Gail Packer (Christine Lahti) - advogada que faz parte de um comitê que investiga assuntos internos - e convive com outros membros de sua profissão, retratos ora cômicos ora dramáticos de seu círculo. No primeiro caso existe o Juiz Francis Rayford (Jack Warden) - que tem constantes pensamentos suicidas e não hesita em utilizar uma arma durante as sessões que preside; no segundo, o filme apresenta Jay Porter (Jeffrey Tambor, estreando em cinema), que sofre de um grave desequilíbrio emocional depois que um cliente que ajudou a absolver voltou a praticar crimes violentos. Nem sempre os alívios cômicos inseridos na narrativa funcionam - pelo contrário, soam muitas vezes deslocados e desnecessários - mas é inegável que o ritmo impresso pelos diálogos ágeis e pela edição inteligente envolvem o espectador sem grande dificuldade, em especial graças ao elenco impecável selecionado por Jewison, que apesar de manter o tom sóbrio na direção, não hesitou em definir seu filme, à época da estreia, como uma "grande comédia".

Não é difícil compreender o ponto de vista de Jewison. Ao enfatizar os absurdos e as situações surreais que ocorrem nos bastidores da Justiça e colocá-las lado a lado com suas consequências diretas nas vidas de réus, advogados e juízes, "Justiça para todos" se mostra, a cada minuto, como um panorama quase bizarro de uma sociedade em constante desequilíbrio de classe e raças. Único personagem com real percepção sobre o mundo que o cerca, Arthur Kirkland é uma espécie de anti-heroi, um homem perdido em um redemoinho de corrupção, burocracia e interesses escusos, tentando desesperadamente manter sua retidão moral mesmo quando tudo o empurra em direção contrária. Al Pacino oferece todo o seu talento para contar sua história, acertando o tom em qualquer direção que a trama siga e mostrando porque é um dos grandes atores de sua geração. Voltando a contracenar com seu mestre do Actor's Studio, o veterano Lee Strasberg (com quem havia trabalhado em "O poderoso chefão - parte II", aqui na pele de seu estimado avô), Pacino brinda o espectador com uma de suas mais poderosas interpretações, intensa e dotada da energia de que apenas os maiores são capazes. Uma obra indispensável para os fãs de cinema e de filmes de tribunal, "Justiça para todos" é atemporal.

sexta-feira

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

ENQUANTO VOCÊ DORMIA (While you were sleeping, 1995, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 103min) Direção: Jon Turteltaub. Roteiro: Daniel G. Sullivan, Fredric LeBow. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Bruce Green. Música: Randy Edelman. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Steve Barron, Arthur Sarkissian. Produção: Roger Birnbaum, Joe Roth. Elenco: Sandra Bullock, Bill Pullman, Peter Gallagher, Jack Warden, Peter Boyle, Glynis Johns, Micole Mercurio, Michael Rispoli, Ally Walker, Monica Keena. Estreia: 21/4/95

Em 1995 não havia jovem atriz mais quente em Hollywood do que Sandra Bullock. Vinda do inesperado sucesso de "Velocidade máxima", ela tornou-se a escolha de dez entre dez produtores para ficar com os papéis que previamente eram oferecidos à Julia Roberts, então em um momento delicado da carreira que só seria superado com o êxito comercial de "O casamento do meu melhor amigo", em 1997. Foi assim que Bullock - uma atriz não mais que mediana, mas carismática o suficiente para agradar tanto ao público masculino quanto ao feminino - segurou nas costas a polpuda bilheteria de "Enquanto você dormia", uma comédia romântica simples mas eficiente, e assumiu o posto de uma das atrizes mais bem pagas do cinema americano. E pensar que, na primeira versão do roteiro, seu personagem era masculino...

Explica-se: quando o roteiro de "Enquanto você dormia" chegou às mãos dos executivos dos estúdios - aqueles mesmos engravatados que dão palpites infelizes e via de regra estragam boas ideias com sua obsessão por lucros - ele contava a história de um homem apaixonado que fingia ser noivo de uma mulher em coma. Como a premissa soava um tanto assustadora - em especial em tempos onde patrulhas ideológicas começavam a se espalhar pelos quatro cantos do mundo - a ideia para tirar o roteiro do papel foi inverter os gêneros. O resultado? Uma deliciosa história de amor pontuada por uma sucessão de mal-entendidos engraçados e leves que lotou as salas de cinema e, além de confirmar o status de Bullock como nova namoradinha da América, revelou os dotes de galã de Bill Pullman, um ator até então relegado a papéis pouco glamourosos e que, no ano seguinte, seria um dos astros do megasucesso "Independence day", de Roland Emmerich.


Seguindo a tradição das comédias românticas passadas nas festas de Natal, "Enquanto você dormia" começa mostrando a vida solitária e tediosa da tímida Lucy Moderatz (Sandra Bullock), que trabalha coletando os tíquetes da estação de trens de Chicago. Seus dias pacatos são preenchidos pela fantasia que nutre de viver uma história de amor com um dos passageiros frequentes, o calado Peter Callahan (Peter Gallagher), a quem vê todos os dias a caminho do trabalho. Às vésperas do Natal, acontece o impensado: Peter é assaltado e jogado nos trilhos do trem. Desesperada, Lucy acaba salvando-o de uma morte certa, mas não de um coma que o deixa inconsciente. Para piorar, por um mal-entendido, ela é confundida como noiva do rapaz, que mantém uma relação um tanto distante da família. Adotada carinhosamente por todos - um grupo de pessoas doces e engraçadas que veem na aproximação com ela uma forma de manter-se perto do filho - Lucy se vê envolvida em uma mentira que vai tomando maiores proporções conforme os dias avançam. Tudo se complica, porém, quando dois novos elementos se unem à trama: a verdadeira noiva de Peter, uma dondoca chamada Ashley Bacon (Ally Walker) e o irmão dele, Jack (Bill Pullman), que trabalha com o pai enquanto não tem coragem de criar o próprio negócio e se apaixona perdidamente pela futura cunhada - e é correspondido.

Recheado de bons momentos cômicos - cortesia do engraçadíssimo Michael Rispoli como Joe Jr., o vizinho apaixonado por Lucy - e realizado com simpatia e leveza, "Enquanto você dormia" mereceu o sucesso que fez. Escrito com sensibilidade e dirigido com mão leve por Jon Turteltaub é uma comédia romântica típica, com todos os ingredientes clássicos do gênero misturados com inteligência e estrelada por uma atriz perfeita para o papel - que, coincidência ou não, foi pensando anteriormente, para Julia Roberts.

terça-feira

MORTE SOBRE O NILO

MORTE SOBRE O NILO (Death on the Nile, 1978, EMI Films/Mersham Productions Ltd, 140min) Direção: John Guillermin. Roteiro: Anthony Shaffer, romance de Agatha Christie. Fotografia: Jack Cardiff. Montagem: Malcolm Cooke. Música: Nino Rota. Figurino: Anthony Powell. Direção de arte: Peter Murton. Produção: John Brabourne, Richard Goodwin. Elenco: Peter Ustinov, David Niven, Mia Farrow, Bette Davis, Maggie Smith, Simon MacCorckindale, Lois Chiles, Angela Lansbury, Olivia Hussey, Jane Birkin, Jon Finch, George Kennedy, Jack Warden. Estreia: 29/9/78

Vencedor do Oscar de Figurino

Poucas vezes os fãs da literatura policial de Agatha Christie puderam ver uma adaptação decente de seus romances para a tela de cinema. Aliás, não é preciso utilizar nem mesmo os cinco dedos de uma mão para contar quantos filmes baseados em sua obra valeram a pena. Primeiro, foi em 1956, com a obra-prima "Testemunha da acusação", dirigida por Billy Wilder e estrelada por Charles Laughton e Marlene Dietrich. Depois, em 1974, quando "Assassinato no Orient Express" chegou a dar um Oscar de coadjuvante para Ingrid Bergman. E por fim, em 1978, quando John Guillermin - co-diretor de "Inferno na torre" - assumiu o comando de "Morte sobre o Nilo" que marcou a primeira vez em que o grande ator Peter Ustinov vestiu a pele do detetive belga Hercule Poirot - outras cinco ocasiões vieram, sem o mesmo êxito em termos de crítica e público. Com uma produção bem cuidada, que resultou em um Oscar para o figurino de Anthony Powell, um roteiro bastante fiel à sua origem e um elenco de grandes atores, "Morte sobre o Nilo" é um filme policial à moda antiga que certamente não decepciona os leitores da Rainha do Crime.

Mesmo que Albert Finney tenha recebido calorosos elogios e uma indicação ao Oscar por sua composição como Poirot, Ustinov consegue sair-se ainda melhor na pele do famoso e egocêntrico detetive, equilibrando um senso de humor sutil com a seriedade que o papel pede em seus momentos mais sérios. E seriedade é o que não falta na trama criada por Agatha Christie, que se utiliza de uma paisagem exótica - os pontos turísticos do Egito e uma viagem de barco pelo caudaloso rio Nilo - para criar uma trama que aproveita todos os ingredientes de sua vasta literatura para prender a atenção do público desde suas primeiras cenas até a climática revelação do nome do criminoso, com todos os suspeitos reunidos na mesma sala para ouvir as conclusões do detetive mais famoso do universo do romance policial.


A vítima da vez é a bela, milionária e fria Linnet Ridgeway (Lois Chiles em papel recusado por Cybill Sheperd), recentemente casada com o sedutor Simon Doyle (Simon MacCorkindale, da extinta telessérie "Manimal"), que ela roubou de sua amiga pobre Jacqueline De Bellefort (Mia Farrow). Em plena lua-de-mel e perseguida por sua antiga companheira, ela embarca com o marido em uma viagem pelo Egito e se vê cercada de potenciais inimigos, que incluem uma escritora de livros baratos que foi processada por ela (Angela Lansbury), o advogado que cuida de suas finanças (George Kennedy), uma dama-de-companhia que a acusa de ser filha do homem que roubou o dinheiro de sua família (Maggie Smith), um médico que a culpa por um processo por imperícia (Jack Warden) e até uma ambiciosa e impulsiva ladra de joias (Bette Davis). Junto a outros suspeitos que desejam a morte de Linnet, porém, está no barco o detetive belga Hercule Poirot (Ustinov), que se unirá a um coronel inglês (David Niven) para desvendar o crime - que logo se multiplicará em três conforme a viagem vai prosseguindo.

A maior qualidade de "Morte sobre o Nilo", além de sua trama bem urdida e intrigante, é a elegância com que John Guillermin conduz a história, a despeito da violência inerente à narrativa policial. A impecável reconstituição de época e o elenco à prova de qualquer crítica servem à perfeição para o desfile de tipos excêntricos criados por Agatha Christie e retratados com respeito e seriedade pelo cineasta, que contrabalança todo o sangue da história (mostrado com parcimônia, nas horas exatas) com o senso crítico de humor que caracteriza a obra da escritora inglesa - e para o qual contribui a atuação perspicaz de Peter Ustinov e a classe de sempre de Bette Davis e Maggie Smith, roubando as cenas como patroa e dama-de-companhia. Mesmo que o filme chegue a quase duas horas e meia de duração em nenhum momento o ritmo fica cansativo, mostrando o talento de Guillermin em dosar com inteligência o suspense policial com o estudo irônico de seus personagens. Uma enorme bola dentro quando se fala em adaptações de Christie para o cinema.

segunda-feira

TIROS NA BROADWAY

TIROS NA BROADWAY (Bullets over Broadway, 1994, Miramax Films/Sweetland Films, 98min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Douglas McGrath. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode, Amy Marshall. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: John Cusack, Dianne Wiest, Chazz Palminteri, Rob Reiner, Jennifer Tilly, Mary-Louise Parker, Jim Broadbent, Tracey Ulman, Joe Viterelli, Jack Warden, Harvey Fierstein. Estreia: 01/10/94

7 indicações ao Oscar: Diretor (Woody Allen), Roteiro Original, Ator Coadjuvante (Chazz Palminteri), Atriz Coadjuvante (Jennifer Tilly/Dianne Wiest), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Dianne Wiest)

Poucas vezes um filme de Woody Allen teve uma acolhida tão generosa por parte da Academia quanto "Tiros na Broadway". Indicada a sete Oscar, a divertida comédia passada nos bastidores do teatro dos anos 20 conquista pelo humor inteligente e sarcástico, pela reconstituição de época caprichada e, como é de costume na obra do cineasta nova-iorquino, pelo elenco impecável. Não foi à toa que três de seus atores foram indicados a um estatueta e Dianne Wiest tenha arrebatado a sua segunda - a primeira, por outro filme de Allen, "Hannah e suas irmãs", ela recebeu em 1986. Na pele de Helen Sinclair, uma diva dos palcos com tendências alcóolicas e egocêntricas, Wiest só não rouba a cena porque, a seu lado, estão os surpreendentes Chazz Palminteri (dramaturgo até então desconhecido pelos fãs de cinema) e Jennifer Tilly (que deixou pra trás trabalhos esquecíveis como "A fuga", com Alec Baldwin e Kim Basinger graças a seu desempenho hilariante).

Liderando o elenco de peso está John Cusack, que interpreta David Shayne, um jovem dramaturgo que, a despeito da qualidade de seu texto, acumula fracasso em cima de fracasso. Sua grande chance acontece quando sua última peça, "O deus dos nossos pais" encontra um patrocinador inesperado, o mafioso (Joe Viterelli), cuja única exigência é que sua amante, Olive Neal (Jennifer Tilly), tenha um papel de destaque. A princípio irredutível em vender sua arte, David acaba convencido por seu empresário Nick Valenti (Jack Warden) a aceitar a ideia, principalmente porque, com o financiamento, poderá contar com a presença de Helen Sinclair (Wiest), uma atriz de primeira grandeza. Porém, a presença histérica da péssima Olive é a apenas o primeiro problema na trajetória do espetáculo: quando os ensaios começam, os atores passam a questionar o texto e as ideias do dramaturgo, e o segurança de Olive, o agressivo Cheech (Chazz Palminteri) começa a dar suas próprias ideias para mudar o desenrolar da trama.


Afiado como nunca - e dividindo os créditos do roteiro com Douglas McGrath, em um acontecimento raríssimo em sua carreira - Allen não dá ao espectador tempo para recuperar-se de um diálogo sensacional para presenteá-lo imediatamente com outro. Enquanto Wiest desfila seu festival de ironias pela tela - e lega um clássico "Don't speak!" para a posteridade - os demais atores deitam e rolam com personagens bem delineados e de importância para o desenvolvimento da comédia proposta. Jim Broadbent, por exemplo, antes do Oscar de coadjuvante por "Iris", vive um ator que engorda a olhos vistos durante o processo de ensaios e acaba sendo responsável por uma crise nas coxias quando se envolve romanticamente com quem não devia - erro que o próprio David também comete quando se apaixona por Helen mesmo já tendo um relacionamento sério.

Divertido, inteligente e irônico na medida certa, "Tiros na Broadway" comprova as qualidades de Woody Allen como cineasta e roteirista popular - contrariando sua fama de hermético. As piadas, mesmo que sejam muito mais interessantes a um público que conheça os bastidores do teatro, são de um sarcasmo a toda prova e o desfecho - coerente e imprevisível - faz jus a todo o alvoroço que o filme provocou e suas indicações aos Oscar de direção e roteiro original. Um Allen dos melhores!

quinta-feira

A UM PASSO DA ETERNIDADE

A UM PASSO DA ETERNIDADE (From here to eternity, 1953, Columbia Pictures, 118min) Direção: Fred Zinnemann. Roteiro: Daniel Taradash, romance de James Jones. Fotografia: Burnett Guffey. Montagem: William Lyon. Música: George Duning. Figurino: Jean Louis. Direção de arte/cenários: Cary Odell/Frank Tuttle. Produção: Buddy Adler. Elenco: Burt Lancaster, Deborah Kerr, Montgomery Clift, Donna Reed, Frank Sinatra, Ernest Borgnine, Jack Warden, Philip Ober. Estreia: 05/8/53

13 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Ator (Montgomery Clift, Burt Lancaster), Atriz (Deborah Kerr), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro, Fotografia em P&B, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em preto-e-branco, Som
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra), Atriz Coadjuvante (Donna Reed), Roteiro, Fotografia em P&B, Montagem, Som
Vencedor de 2 Golden Globes Diretor (Fred Zinnemann), Ator Coadjuvante (Frank Sinatra)

Reza a lenda - e todo mundo a conhece - que Frank Sinatra conseguiu o papel do soldado Angelo Maggio em "A um passo da eternidade" graças a suas conexões com a Máfia, fato recriado pelo escritor Mario Puzo em seu romance "O poderoso chefão" (e posteriormente por Francis Ford Coppola na adaptação do livro para o cinema). Passando por um período difícil de sua carreira, Sinatra não só ficou com o papel como teve seu desempenho premiado com um Oscar de coadjuvante e viu sua popularidade retomada, mas a lenda, apesar de bem mais saborosa, é apenas lenda: a verdadeira razão pela escolha do ator para o filme se chamava Ava Gardner, sua então esposa, que, trabalhando em um filme da Columbia, convenceu o chefe do estúdio, Harry Cohn, a dar o emprego a seu marido - afinal de contas, era um ótimo negócio, uma vez que Sinatra aceitaria trabalhar até de graça no filme de Fred Zinnemann.

Recém saído dos sets do western "Matar ou morrer" - que lhe daria uma indicação ao Oscar - o austríaco Zinnemann já tinha experiência com filmes de guerra, sendo "Espíritos indômitos", de 1950 o mais bem-sucedido, quando foi chamado para comandar a adaptação para as telas do polêmico romance de James Jones, que retratava de forma pouco simpática o exército americano, além de tocar em temas-tabu, como o adultério. A princípio relutante - afinal, a época era pouco propícia a provocações políticas graças ao famigerado senador McCarthy - Zinnemann acabou aceitando a tarefa, que acabou lhe rendendo a estatueta da Academia - uma das oito que o filme acabou abocanhando, igualando o recorde de "...E o vento levou". Mais lembrado pela cena em que Burt Lancaster e Deborah Kerr se beijam apaixonadamente na beira da praia, "A um passo da eternidade", porém, é bem mais que isso, mostrando ao público um interessante panorama de dramas particulares de um grupo de militares americanos às vésperas do ataque a Pearl Harbor, em dezembro de 1941.


Se existe um protagonista em "A um passo da eternidade" é o soldado Prewitt, interpretado com a competência habitual por Montgomery Clift. Boxeador que abandonou os ringues depois de uma experiência traumática, Prewitt se recusa a fazer parte do time dos seus colegas, o que acaba suscitando fortes represálias por parte de seus superiores. Sentindo-se isolado, ele faz amizade com Maggio (Frank Sinatra), que, por sua vez, sofre com a implicância de um beligerante sargento (Ernest Borgnine). Seus problemas só encontram anestesia quando ele está ao lado de Alma (Donna Reed, Oscar de atriz coadjuvante), que trabalha no clube noturno frequentado pelos soldados. Enquanto isso, o discreto sargento Milton Warden (Burt Lancaster) sente-se fortemente atraído por Karen (Deborah Kerr), esposa do capitão superior a ele, a ponto de envolver-se em um relacionamento altamente passional com ela. As vidas de todos sofrerão um duro golpe quando os EUA se veem forçados à entrar na guerra, com o ataque japonês à sua base.

Fotografado em preto-e-branco por opção do próprio cineasta - que também recusou qualquer formato de filme que não o tradicional - "A um passo da eternidade" tem em seus personagens e em suas interrelações seu maior mérito. Ainda que o ataque à Pearl Harbor seja o grande clímax do filme, Zinnemann não permite que se torne o ponto principal da obra - mesmo porque a sequência é relativamente rápida e acontece bem no final da projeção. Seu interesse, assim como o era no romance de Jones, é o impacto da guerra nas vidas dos americanos alocados no Havaí, sejam eles militares ou civis. É por isso que, mais do que técnica, a emoção é o principal ingrediente de sua obra-prima: o que fica na memória são os diálogos tristes entre Lancaster e Kerr - cujo trabalho abriu-lhe novas portas em Hollywood, uma vez que demonstrou um sex-appeal até então oculto - e a trágica história da amizade entre Sinatra e Clift (que ajudou o cantor em sua atuação, conquistando um amigo para toda a vida).

É inegável que "A um passo da eternidade" não tem, hoje em dia, a mesma força corajosa que tinha em sua estreia, apesar da "limpeza" feita na trama de James Jones. Mas ainda é um filme poderoso, realizado com imenso talento e um elenco acima de qualquer suspeita, capaz de encantar aos fãs de bom cinema.

terça-feira

PODEROSA AFRODITE

PODEROSA AFRODITE (Mighty Aphrodite, 1995, Miramax Films/Magnolia Pictures/Sweetland Films, 95min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Susan Bode. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Helena Bonham-Carter, Mira Sorvino, Peter Weller, Michael Rapaport, F. Murray Abraham, Olympia Dukakis, Jack Warden, Paul Giamatti. Estreia: 27/10/95


2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Mira Sorvino)

Por mais paradoxal que seja essa afirmação, o escândalo envolvendo o nome de Woody Allen no início dos anos 90 - quando trocou a parceira amorosa e profissional Mia Farrow pela adolescente Sun-Yi Previn, filha adotiva dela - fez dele um cineasta mais leve. Filmes como "Misterioso assassinato em Manhattan" e "Tiros na Broadway" devolveram ao público o diretor bem-humorado de obras-primas como "Noivo neurótico, noiva nervosa" e "Zelig", em contraponto ao baixo-astral e pessimismo de "Crimes e pecados" e "Setembro", que por melhores que sejam, deixavam um gosto agridoce ao final da sessão. Essa fase 'de bem com a vida' de Allen encontra em "Poderosa Afrodite" seu auge. Otimista e alegre - sem nunca perder, no entanto, o olhar irônico do cineasta - o filme deu a Mira Sorvino o Oscar de atriz coadjuvante e agradou gregos e troianos. E sem trocadilho, é justamente um coro de tragédia grega que comenta e narra a curiosa história de Lenny Weintraub e sua busca pela mãe biológica de seu filho adotivo.

O próprio Allen interpreta o protagonista, depois de uma pausa em que foi substituído por John Cusack em "Tiros na Broadway". Lenny Weintraub é um comentarista esportivo que vive um casamento estável e amoroso com a marchand Amanda (Helena Bonham-Carter). Sua família se completa quando eles adotam Max, que, na infância, demonstra uma inteligência ímpar. Curioso a respeito das origens do filho, Lenny chega até sua mãe verdadeira, a bela Linda Ash (Mira Sorvino), uma ex-atriz de filmes pornô que ganha a vida como prostituta. Apesar de sexy e atraente, Linda é bastante limitada intelectualmente, o que não impede que uma atração surja entre ela e Lenny, que passa por uma crise em seu relacionamento. Para não cair na tentação, o jornalista resolve então bancar o cupido e arrumar um marido para Linda e tirá-la da vida fácil. O escolhido é o boxeador Kevin (Michael Rapaport), também pouco dotado de inteligência.



Assim como acontece nos melhores filmes do cineasta, "Poderosa Afrodite" é uma crítica ácida e sarcástica sobre as relações humanas. Sem a sofisticação de "Hannah e suas irmãs", por exemplo, é uma comédia que pode ser considerada romântica, ainda que esteja a anos luz de todas as características que regem o gênero. Pra começo de conversa, o romance entre Lenny e Linda não pode jamais ser chamado de uma história de amor, ao menos no sentido convencional do termo. O que acontece entre os dois é um belo golpe do destino - tema recorrente da obra do diretor - narrado por um genial coro de tragédia grega (o oráculo, por sua vez, assume a forma de um mendigo cego vivido por Jack Warden). Como acontece frequentemente nos filmes de Allen, um ciclo é fechado quando os créditos finais iniciam - e aqui isso acontece deliciosamente com a canção "When you smile". No mínimo, otimista!

E mais uma vez Woody Allen cercou-se de atores geniais. Helena-Bonham Carter sai do século XIX - cenário da vasta maioria de sua filmografia - para encarnar uma Amanda moderna, ciosa dos deveres de mãe, mas preocupada com os rumos de sua carreira e casamento (principalmente quando se envolve com outro homem, vivido pelo Robocop em pessoa, Peter Weller). Michael Rapaport é encantador como Kevin, alternando uma ingenuidade ululante com uma masculinidade latente. E Mira Sorvino rouba todas as cenas em que aparece com a genial construção de sua Linda Ash. Aproveitando cada hilária linha de diálogo oferecida por Allen, a filha do ator Paul Sorvino - que foi mais uma vítima da temível "síndrome do Oscar" - deita e rola com uma personagem que lhe cabe como uma luva. A voz estridente, o jeito de andar e até o visual de Linda foram ideias da atriz, acatadas com entusiasmo por Allen, que, assim, reafirma seu status de grande diretor de coadjuvantes.

"Poderosa Afrodite" é um dos filmes mais alto-astral da carreira de Woody Allen, e isso fica patente no humor que escorre de cada cena, de cada personagem, de cada situação. Allen estava feliz e fez sua plateia sorrir alegremente. Como diz a canção dos créditos finais, "quando você sorri, o mundo todo sorri com você...."

segunda-feira

SETEMBRO


SETEMBRO (September, 1987, 82min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo Di Palma. Montagem: Susan E. Morse. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/George DeTitta Jr. Casting: Juliet Taylor. Produção executiva: Charles H. Joffe, Jack Rollins. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Denholm Elliott, Mia Farrow, Dianne Wiest, Jack Warden, Sam Waterston, Elaine Stritch. Estreia: 18/12/87

É inegável que, como diretor e roteirista de comédias sofisticadas e inteligentes, Woody Allen é imbatível. No entanto, seu lado mais sombrio, profundo e melancólico muitas vezes agrada a crítica mas afugenta a audiência. Foi assim com "Interiores", de 1978 e o mesmo repetiu-se com "Setembro", feito quase uma década depois. Filmado quase como uma peça de teatro - sem muitos closes e com muitos planos longos - o 18º longa da carreira de Allen é um de seus menos louvados. Injustamente!

A trama de "Setembro" se passa em uma casa de praia em Vermont, no final de verão particularmente desgastante emocionalmente para a frágil Lane (Mia Farrow), que, recém-saída de uma profunda crise nervosa se apaixona pelo escritor Peter (Sam Waterston), que alugou a casa para escrever seu novo livro. Assediado pela mãe de Lane, a ex-modelo Diane (Elaine Stritch) - cujo passado conta com uma tragédia que abalou a vida da filha - para que escreva sua biografia, Peter se encanta com Stephanie (Dianne Wiest), a melhor amiga de Lane, uma mulher casada e romanticamente confusa. Enquanto tenta lidar com sua problemática relação com a mãe e tenta conquistar o amor de Peter, Lane desperta a paixão de um vizinho mais velho, Howard (Denholm Elliott).

A ciranda amorosa-romântica criada por Allen até pode lembrar alguns de seus filmes anteriores, mais notadamente "Hannah e suas irmãs", também estrelado por Farrow e Wiest. Mas em "Setembro" o senso de humor do cineasta é deixado de lado, o que colabora para o clima quase claustrofóbico imposto pela sóbria fotografia de Carlo Di Palma. As personagens, aqui, não relaxam frequentando museus ou visitando o Central Park. Na opressiva trama escrita por Allen na casa de verão de sua então mulher Mia Farrow, viver é complicado, tomar decisões é sacrificante, encarar a realidade é difícil. Lane tem que conviver com um trauma do passado, que praticamente destruiu sua vida, e a impede de ter uma relação saudável com sua mãe, que, em contrapartida, não deixa que nenhum problema a atinja com a devida força. Stephanie luta contra o desejo por Peter, porque não quer magoar Lane nem destruiur seu próprio casamento. E Howard, apaixonado por Lane, deseja arrancá-la da tristeza e da prostação emocional, mas esbarra na fragilidade da própria moça.

Woody Allen filmou "Setembro" duas vezes por achar a primeira versão insatisfatória. Substituiu Maureen O'Sullivan (mãe de Farrow na vida real) por Elaine Stricht (que entregou uma performance bastante distinta de sua personagem), Charles Durning por Denholm Elliot e Sam Shepard por Sam Waterston (sendo que Shepard já substituía Christopher Walken). Ainda achando que o filme não estava à altura do que imaginava, pensou em refilmar uma terceira versão. Ainda bem que não o fez!

"Setembro" tem diálogos belíssimos, interpretações intensas e uma melancolia deslumbrante. Não é para ser assistido em momentos de crise emocional, mas é um trabalho fascinante de um diretor extremamente inteligente e talentoso.

sábado

MUITO ALÉM DO JARDIM


MUITO ALÉM DO JARDIM (Being there, 1979, United Artists, 130min) Direção: Hal Ashby. Roteiro: Jerzy Kosinski, romance de sua autoria. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Don Zimmerman. Música: Johnny Mandel. Figurino: May Routh. Direção de arte/cenários: James Schoppe/Robert Benton. Casting: Lynn Stalmaster. Produção executiva: Jack Schwartzman. Produção: Andrew Braunsberg. Elenco: Peter Sellers, Shirley MacLaine, Melvyn Douglas, Jack Warden, Richard Dysart. Estreia: 19/12/79

2 indicações ao Oscar: Ator (Peter Sellers), Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Melvyn Douglas)
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator/Comédia ou Musical (Peter Sellers), Coadjuvante (Melvyn Douglas)


Considerado por muitos como um dos maiores gênios do humor no cinema, o inglês Peter Sellers passava por uma fase difícil de sua carreira nos anos 70. Depois de muito sucesso com a série de filmes da "Pantera cor-de-rosa" (iniciada em 1964 e retomada com sucesso em 1975, 76 e 78) ele demorou anos para convencer um estúdio a realizar um de seus projetos de estimação, a adaptação para o cinema do romance "Being there", de Jerzy Kosinski. Foi apenas com sua ressurreição comercial (com o filme "A vingança da pantera cor-de-rosa") que ele finalmente conseguiu tirar do papel a melancólica e quase surreal história de um jardineiro tido como gênio. Elogiado unaninemente pela crítica, o filme do autoral Hal Ashby acabou tornando-se um dos últimos trabalhos do genial ator, que morreu menos de um ano depois da estreia do filme nos cinemas americanos. Seu canto do cisne lhe deu uma última e merecida indicação ao Oscar de melhor ator.

Em uma inspirada e cuidadosa atuação, Sellers vive, em "Muito além do jardim" , uma das personagens mais sensíveis de sua carreira. Chance é um jardineiro quase obtuso, um homem que vive cercado de suas plantas e de seu aparelho de televisão, as duas paixões de sua vida. Chance não sabe ler, nem escrever nem manter uma conversa mais articulada, além de não ter nenhum registro oficial e não tem a menor noção de uma existência fora da mansão onde foi criado. Quando seu patrão morre, ele se vê, inesperadamente, frente a um universo absolutamente novo e com o qual não tem a menor noção de como lidar. Por obra do acaso, ele é atropelado pela limousine de Eve Rand (Shirley MacLaine), a esposa de um industrial milionário que está às portas da morte. Levado para o casarão onde o casal mora, servido por inúmeros empregados, ele conquista a todos com seu jeito calado e discreto. Suas frases - todas tiradas de programas de TV - e até mesmo seu silêncio constrangido são tidos como geniais tanto por Eve e seu marido Benjamin (Melvyn Douglas) quanto pelo próprio presidente dos EUA (Jack Warden), amigo da família. Aos poucos, Chance começa a influenciar a todos a sua volta, inclusive despertando a paixão de uma carente Eve.


"Muito além do jardim" é uma espécie de precursor de "Forrest Gump", uma vez que assim como no filme de Robert Zemeckis, o protagonista é um homem de QI abaixo do normal que consegue atingir um nível de sucesso inesperado. Ao contrário da obra estrelada por Tom Hanks, no entanto, o humor do filme de Ashby é muito menos óbvio, menos popular, digamos assim. Ao optar por um estilo mais sóbrio de fazer comédia, o roteiro escrito pelo mesmo autor do romance que o originou, Jerzy Kosinski, foge das gargalhadas e percorre um caminho mais denso e crítico. Simbólico ao extremo, é um trabalho tão rico em possibilidades de compreensão que dificilmente estaria em uma lista das maiores bilheterias da história. Quem se dispuser a assistí-lo, no entanto, pode ter uma grata surpresa.

Não é preciso dizer que o ritmo imposto por Ashby à sua narrativa é menos ágil do que se espera de uma comédia. Devagar e sem impor ao público uma edição veloz, ele dá a exata noção do comportamento de seu protagonista, um homem preso a um mundo particular, com seus próprios interesses e que é totalmente alheio ao que se passa a seu redor. Ironia é a palavra que melhor define o humor de "Muito além do jardim", que critica de forma não muito velada a mediocridade americana (e por que não mundial?) quando o assunto é escolher seus gurus e/ou ídolos. Buscando inspiração em "O idiota", de Dostoievsky, o filme final de Peter Sellers é uma espécie de alerta contra o conformismo, mas realizado de forma elegante e altamente simbólica.

"Muito além do jardim" não é um filme que seja citado corriqueiramente nas listas dos melhores, nem da crítica (que o elogiou muito em seu lançamento) e tampouco do público, que praticamente o relegou a um quase esquecimento. Mas tem uma inteligência e uma sutilezas raras, além de ser um belo testamento legado por um dos grandes atores de sua geração.

domingo

O CAMPEÃO


O CAMPEÃO (The champ, 1979, MGM Pictures, 121min) Direção: Franco Zeffirelli. Roteiro: Walter Newman, história de Frances Marion. Fotografia: Fred J. Koenekamp. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Dave Grusin. Figurino: Theoni V. Aldridge. Direção de arte/cenários: Herman A. Blumenthal/James W. Payne, Rick Simpson. Casting: Joyce Robinson, Sam Christensen. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Jon Voight, Faye Dunaway, Rick Schroder, Jack Warden, Arthur Hill. Estreia: 04/4/79

Indicado ao Oscar de Trilha Sonora Original
Vencedor do Golden Globe de Nova Estrela do Ano/Masculino - Rick Schroder


O pesadelo de toda criança. Talvez essa seja a melhor definição para "O campeão", arranca-lágrimas dirigido por Franco Zefirelli e lançado nos EUA no início de 1979. Realizado com o objetivo claro de levar a platéia às lágrimas, o dramalhão orquestrado pelo cineasta italiano não apenas o faz com maestria - especialmente em suas derradeiras cenas - mas também comprova a teoria de que um final emocionalmente poderoso é capaz de derrubar qualquer mínimo senso estético e/ou racional. Ficar incólume ao desfecho de "O campeão" é tarefa inglória!

Escrito sem temer nenhum clichê, o roteiro de Walter Newman não tem a menor preocupação em ser original ou fugir dos lugares-comuns que infestam o gênero drama familiar. No entanto, talvez seja justamente essa sua falta de ambição artística que o faça funcionar no nível emocional que pretende. Jon Voight (em vias de ganhar um Oscar por "Amargo regresso") vive Billy Flynn, um boxeador precocemente aposentado que ganha a vida cuidando de cavalos em um haras frequentado pela alta sociedade. Beberrão, irresponsável e auto-destrutivo, ele cria o filho pequeno TJ (Ricky Schroder) desde que foi abandonado pela mulher, Annie (Faye Dunaway), uma estilista de moda que depois da separação casou-se novamente e leva uma vida confortável e luxuosa. Apaixonado pelo pai, por quem nutre uma adoração incondicional, o menino tem sua vida transformada quando se reencontra com a mãe, a quem julgava morta. Temendo que a vida milionária oferecida por Annie a seu filho lhes afaste, Billy resolve voltar a lutar, mesmo sabendo dos perigos a que está exposto devido a sua idade, falta de treino e às sequelas de um ferimento antigo. Vencer a luta, para ele, é uma forma de ganhar dinheiro e o respeito definitivo de TJ, mesmo que o garoto não precise de nada disso para amá-lo devotamente.


Analisado pelo viés puramente racional, "O campeão" jamais poderia ser chamado de um grande filme. Lançado na mesma época em que Hollywood apresentava cineastas ousados como Francis Ford Copolla e Martin Scorsese e era bombardeado com obras fortes e autorais como "Taxi driver" e "Apocalypse now", o singelo e piegas conto familiar de Zefirelli soou como um retrocesso estilístico, que buscava, antes da excelência artística, o sucesso comercial e a emoção fácil. No entanto, é difícil convencer disso as milhares de pessoas que se comoveram com o filme através de suas constantes reprises na TV durante os anos 80, em especial as crianças, que viam, nas cores um tanto exageradas da fotografia de Fred Koenekamp, seus maiores temores tornarem-se realidade, ainda que na vida trágica do pequeno TJ. Vivido por um excelente Ricky Schroder, a subserviente e compreensiva personagem deixou em uma geração inteira de espectadores de cinema a marca de um dos finais mais tristes que o cinema pode oferecer, ainda que bem longe das sutilezas que seriam bem-vindas.

Pode-se falar bastante mal de "O campeão", e argumentos para tais críticas não faltariam. Mas, com os olhos inchados de chorar e o coração apertado fica difícil de pensar...

quinta-feira

TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE


TODOS OS HOMENS DO PRESIDENTE (All the president's men, 1976, Warner Bros, 138min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: William Goldman, baseado no livro de Bob Woodward e Carl Bernstein. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Robert L. Wolfe. Música: David Shire. Direção de arte/cenários: George Jenkins/George Gaines. Casting: Alan Shayne. Produção: Walter Coblenz. Elenco: Dustin Hoffman, Robert Redford, Jack Warden, Martin Balsam, Jason Robards, Hal Holbrook, Ned Beatty, Jane Alexander, Stephen Collins, Meredith Baxter. Estreia: 09/4/76

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Alan J. Pakula), Ator Coadjuvante (Jason Robards), Atriz Coadjuvante (Jane Alexander), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de arte, Som
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Jason Robards), Roteiro Adaptado, Direção de Arte, Som


Enquanto no Brasil normalmente escândalos no governo acabam em pizza - e em reeleições alguns poucos anos depois - nos EUA as coisas não são assim tão fáceis para quem está no poder, vide a crise instaurada por um simples caso extra-conjugal de Bill Clinton quando ele estava na Casa Branca. Tida como o quarto poder, a imprensa é responsável por balançar as estruturas do poder, e o maior exemplo disso provavelmente é o caso Watergate, que, revelado por dois jornalistas do Washington Post, resultou na renúncia do presidente Richard Nixon em 9 de agosto de 1974. Contada com detalhes no extenso livro "Todos os homens do presidente", escrito pelos repórteres Carl Bernstein e Bob Woodward, uma das investigações mais famosas da história do jornalismo moderno foi parar nas telas de cinema já em 1976, quando o caso ainda estava fresquinho na memória do público. Resultado? Um sucesso enorme de bilheteria e crítica, além de 8 indicações ao Oscar (sendo que 4 converteram-se em estatuetas). Nada mal para um filme que, apesar da presença fulgurante do então astro do momento Robert Redford, foge do padrão filme-pipoca que começava a mandar nas salas de exibição desde que o tubarão de Steven Spielberg surgiu, no verão de 1975.

Dirigido por Alan J. Pakula - que ficou com a direção depois que o inglês John Schlesinger declinou do convite por acreditar que tratava-se de uma história que deveria ser contada por um americano - o filme, roteirizado por William Goldman (que ganhou o Oscar por isso) começa em 17 de junho de 1972, quando um arrombamento na Sede do Partido Democrata americano, localizado no edifício Watergate chama a atenção do jornalista Bob Woodward (Robert Redford), que, recém-contratado pelo Washington Post, tenta mostrar serviço, mesmo que não entenda nada de política. Contando com a ajuda do colega Carl Bernstein (Dustin Hoffman), mais experiente na área e nos meandros do serviço, ele passa a correr atrás de pistas deixadas por atitudes estranhas dos criminosos, que parecem estar ligados à Casa Branca. Quando um misterioso informante, apelidado de Garganta Profunda (Hal Holbrook) confirma suas suspeitas, os dois rapazes tem que não apenas provar sua teoria - que culpa pessoas do mais alto escalão do governo americano - mas convencer seus superiores no jornal (Jack Warden, Martin Balsam e o premiado com o Oscar de coadjuvante Jason Robards) a publicar o que poderá ser a reportagem mais incendiária da história política do país.


O mais fascinante em "Todos os homens do presidente" é a forma com que o roteiro de Goldman e a direção de Pakula se desenrola frente aos olhos privilegiados da plateia. O público acompanha cada passo dos protagonistas do filme, suas altas expectativas, suas frustrações e seus insights de maneira a torcer por eles como se fossem heróis de um filme de ação, ainda que não façam muito mais do que ficar ao telefone ou interrogando dezenas de pessoas possivelmente ligadas à investigação. Não é à toa que ainda hoje o filme seja recomendado em todas as faculdades de Jornalismo, uma vez que detalha admiravelmente a jornada de dois profissionais idealistas em busca da verdade, mesmo que ela possa lhes ser prejudicial. Para isso colabora também a escolha de seus dois atores centrais: Robert Redford assumiu o papel de Woodward para garantir o financiamento do filme - além do fato de ter sido ele o responsável pela compra dos direitos do livro - e Dustin Hoffman entregou ao filme a credibilidade artística necessária à atenção da crítica.

Ainda que seja um filme bastante complexo para não-americanos - a enormidade de nomes, cargos e responsabilidades citadas no roteiro chega a confundir em certas passagens - "Todos os homens do presidente" tem momentos de puro cinema político, no melhor estilo do cineasta grego Costa-Gavras. A música de David Shire aparece nas horas certas, sem atrapalhar o andamento da narrativa, apenas sublinhando a tensão de algumas cenas e a edição confere um tom semi-documental ao resultado final - e ainda que o filme seja um tanto longo demais, é inegável que o roteiro conseguiu enxugar todas as informações necessárias ao máximo possível para que a trama seja compreendida pela audiência sem que prejuízo de suas ambições comerciais.

"Todos os homens do presidente" é um filme bastante interessante e importante, principalmente para quem gosta de histórias reais contadas com cuidado e atenção. Nâo é adrenalina pura, mas ainda se mantém como um dos mais influentes do seu gênero.

sábado

DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA


DOZE HOMENS E UMA SENTENÇA (Twelve angry men, 1957, United Artists, 96min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Reginald Rose. Fotografia: Boris Kaufman. Montagem: Carl Lerner. Música: Kenyon Hopkins. Produção: Reginald Rose, Henry Fonda. Elenco: Henry Fonda, Lee J. Cobb, Jack Warden, Ed Begley, Martin Balsam, John Fiedler, E.G. Marshall, Edward Binns, Joseph Sweeney, George Voskovec, Robert Webber, Jack Klugman. Estreia: 13/4/57

3 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sidney Lumet), Roteiro Adaptado

Um rapaz de origem latina é acusado de assassinar o próprio pai com um golpe de canivete. Sem um álibi concreto e tendo duas testemunhas do crime (um vizinho idoso do andar de baixo e uma mulher de meia-idade que assistiu ao homicídio pela sua janela), sua sorte parece não ser das melhores. Com o julgamento encerrado, basta apenas as deliberações do júri para que a justiça seja feita (ou não). Então, uma dúzia de cidadãos de idades, classes sociais e situações financeiras distintas são fechados em uma sala para dar o veredicto. Fim da história, sim? Não, absolutamente não. É justamente nesse ponto onde a maioria esmagadora dos filmes de tribunal acaba é que começa "Doze homens e uma sentença", de Sidney Lumet.

Escrito por Reginald Rose (co-produtor do filme, ao lado do ator Henry Fonda), "Doze homens" não foi um sucesso de público, apesar dos rasgados elogios da crítica e das três importantes indicações ao Oscar que conquistou: filme, diretor e roteiro. Não é difícil entender, uma vez que não é exatamente o tipo de produto que plateias ávidas por ação e astros de primeira grandeza costumam consumir. É um filme com uma inteligência bem acima da média, um elenco escolhido pelo talento e não pelo poder de fogo nas bilheterias, um ritmo teatral (mas nunca enfadonho como podem pensar os avessos ao estilo) e principalmente um filme que dá importância aos diálogos mais do que a movimentos de câmera e afins. É uma prova inconteste da força de uma boa escalação de elenco para elevar um filme à categoria de uma obra-prima.

Quando "Doze homens e uma sentença" começa, o julgamento em si já acabou. O público não tem acesso a quase nenhuma imagem do tribunal (exceção feita à bancada dos jurados e ao rosto angustiado do réu). É apenas quando os doze homens do título sentam à volta de uma mesa para discutir o caso é que o roteiro de Rose agarra a plateia pelo cérebro e não larga mais. O caso, aparentemente fácil de ser julgado passa a ser um desafio aos membros do júri quando, na primeira votação, o jurado de número 8 (Henry Fonda) afirma não ter certeza absoluta da culpa do réu. Contestado pelos outros colegas, ele explica, então, suas dúvidas em relação ao caso. Aos poucos sua retórica passa a contaminar outros parceiros de missão, que, mesmo a princípio certos da culpabilidade do rapaz acusado do crime, começam a questionar suas certezas, para desespero do jurado número 3 (Lee J. Cobb), que não entende como eles podem ter mudado de ideia a respeito de algo que, para ele, é tão cristalino.


O grande diferencial de "Doze homens e uma sentença" são seus diálogos. Fortes, contundentes e realistas, as falas criadas por Reginald Rose são mais do que suficientes para apresentar à audiência tudo que é necessário, sem buscar subterfúgios que o cinema tranquilamente poderia proporcionar. O grau de competência dos diálogos é tão alto que em nenhum momento o público assiste ao julgamento, mas ao final dos 96 minutos de projeção, a impressão que se tem é que ele foi visto com detalhes. E o que é mais importante: apenas o que é importante é mencionado. Em um corriqueiro filme de tribunal, isso ficaria a cargo do editor. Aqui, Carl Lerner tem pouco (mas importante) trabalho.

A importância do trabalho do editor Carl Lerner em "Doze homens e uma sentença" pode parecer pequena, uma vez que aparentemente não é preciso esforço para montar um filme sem maiores cortes. No entanto, é justamente ele quem, ao lado do diretor Sidney Lumet (que viria ainda a comandar pelo menos outro grande filme, "Um dia de cão", em 1975), dá ao filme a cara de cinema que ele tem. Inteligentemente, Lumet e Lerner optaram por uma edição tranquila, suave, delicada, que dá a cada detalhe do roteiro a importância que ele tem. Em teatro é difícil, por exemplo, concentrar-se em um único ator sem perder todo o restante do quadro. Aqui, o diretor e seu editor resolvem esse problema com facilidade e parcimônia, dando a cada ator seu momento certo de brilhar.

E que brilho! Há de se louvar o responsável pelo casting de "Doze homens..." Mesmo que de certa forma Henry Fonda seja uma espécie de protagonista (afinal, é ele quem dá o pontapé inicial no conflito retratado), seus colegas de elenco não ficam para trás em termos de desempenho. Lee J. Cobb como o truculento e quase irascível jurado número 3 (o que tem mais dificuldade em se deixar convencer pelas dúvidas dos colegas) rouba a cena sem nenhuma vergonha e a outra dezena de atores é de tirar o chapéu. Generoso, o texto de Reginald Rose (refilmado para a TV americana em 1997, com Jack Lemmon no lugar de Fonda) dá espaço para todos demonstrarem seu talento, mesmo que - e isso é outra jogada de mestre - suas vidas, ao menos para o espectador, possa ser resumida apenas às horas em que eles estão na sala de jurados. Durante a duração do filme - e da discussão entre as personagens - o mundo fora do tribunal é vislumbrado apenas pelo calor, pela chuva e pelo jogo de baseball que uma das personagens anseia em assistir. Eles estão ali para definir a vida ou a morte de um rapaz e apesar de nem todos terem a mesma consciência da importãncia do fato, o que acontece no mundo exterior não tem mais a mesma urgência. O fato de seus nomes não serem sequer mencionados (com exceção de dois deles, na cena final) apenas reitera sua condição de anônimos.

"Doze homens e uma sentença" é obrigatório. Para fãs de cinema, para estudantes de Direito, para todos que sentem prazer em assistir a uma boa história, contada por gente que entende do riscado. Imperdível!

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...