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segunda-feira

OS PIRATAS DO ROCK

 


OS PIRATAS DO ROCK (The boat that rocked, 2009, Universal Pictures/Working Title Films/StudioCanal, 135min) Direção e roteiro: Richard Curtis. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Emma E. Hickox. Música: Hans Zimmer. Figurino: Joanna Johnston. Direção de arte/cenários: Mark Tildesley/Dominic Capon. Produção executiva: Liza Chasin, Richard Curtis, Debra Hayward. Produção: Hilary Bevan Jones, Tim Bevan, Eric Fellner. Elenco: Philip Seymour Hoffman, Bill Nighy, Rhys Ifans, Kenneth Branagh, Emma Thompson, Tom Sturridge, Jack Davenport, Nick Frost, Chris O'Dowd, Gemma Arterton, January Jones, Will Adamsdale. Estreia: 01/4/2009

O ano era 1966. O rock britânico dominava as paradas de sucesso, as vendagens e os corações de milhares de jovens, encantados com a aura de rebeldia e liberdade. Em um movimento oposto a esse, no entanto, o governo local tentava impedir o avanço do que considerava uma cultura "perigosa", com uma lei que restringia a execução de música popular na rádio oficial do país a apenas uma hora por dia. Inconformadas com tal arbitrariedade, várias emissoras piratas entravam nos lares ingleses com uma programação recheada de sucessos - sintonizadas a partir de navios ancorados fora dos limites da Inglaterra. Uma dessas emissoras era a Radio Caroline, cujo estilo anárquico, debochado e informal ficou na mente do diretor e roteirista Richard Curtis - que, décadas mais tarde, resolveu homenageá-la com "Os piratas do rock", uma divertida e calorosa comédia que emula, de forma fictícia, sua personalidade e dia-a-dia. Narrado em forma anedótica e pontuado por uma trilha sonora das mais empolgantes - além de um elenco perfeitamente escalado -, o filme pode não ter feito um sucesso avassalador (na verdade nem chegou a pagar seu custo de produção), mas é, como o normal na carreira de Curtis, o equivalente cinematográfico a um abraço carinhoso.

Conhecido principalmente pelo roteiro de "Quatro casamentos e um funeral" (1994) - que lhe rendeu uma merecida indicação ao Oscar e lhe abriu as portas para outras pérolas do gênero, como "Um lugar chamado Notting Hill" (1999) e "O diário de Bridget Jones" (2001) -, Curtis estreou na direção com o sublime "Simplesmente amor" (2003) e tornou-se um cineasta de poucos mas consistentes filmes. "Os piratas do rock" é apenas seu segundo longa, mas já enfatiza seu estilo delicado e generoso de contar histórias centradas em seres humanos, com todas as suas idiossincrasias e possíveis tendências ao ridículo - até mesmo quando o personagem central é um barco. Com uma galeria de tipos capazes de arrancar risadas (e talvez até algumas discretas lágrimas), "Os piratas do rock" aposta em uma trama sem um protagonista único, que espalha seu foco em uma série de acontecimentos que, juntos, formam um retrato dos mais festivos de uma das mais prolíficas eras do rock - vista por seus bastidores mais distantes.

 

O cenário estabelecido por Curtis para contar sua história é a Rock Radio, uma das várias emissoras piratas que desafiavam a lei britânica para agradar a uma legião de fiéis fãs. O filme começa quando o adolescente Carl (Tom Sturridge), expulso da escola pelo supremo ato de rebeldia de fumar maconha, chega ao QG da rádio para passar uns tempos ao lado do padrinho, Quentin (Bill Nighy), o dono do lugar. Assim que chega, Carl se torna parte da rotina doméstica - que inclui duas visitas mensais de um grupo de mulheres para a diversão dos funcionários - e amigo dos radialistas, todos donos de personalidades distintas que dividem o amor pelo rock e pelas liberdades individuais. Dentre todas as bizarras situações que ele testemunha, destaca-se a nem sempre sutil rivalidade entre o americano The Count (Philip Seymour Hoffman) - um dos mais famosos de seu país - e o maior DJ da Inglaterra, o arrogante Gavin (Rhys Ifans) - que retorna depois de um período dedicado a prazeres ilícitos. Mas como a felicidade de uns é sempre o suplício de quem não é feliz, a existência da Rock Radio passa a ser ameaçada por Alistair Dormandy (Kenneth Branagh), homem de confiança do Primeiro Ministro, que faz da missão de acabar com as transmissões piratas a prioridade de seus dias.

"Os piratas do rock" não é tão redondo ou brilhante como os outros filmes de Richard Curtis - demora a engrenar e em alguns momentos sofre de uma perda de ritmo -, mas apresenta, como em todos eles, um humor contagiante. É difícil não torcer por seus anti-heróis, assim como é quase impossível não se deixar envolver por sua amizade e por sua busca por liberdade e arte. Ilustrado por uma bela trilha sonora (por vezes ligeiramente anacrônica, mas sempre funcional) e impregnado por uma ingenuidade encantadora, é uma comédia que foge do riso fácil e prefere sorrisos emocionados a gargalhadas vazias. Em suma, é tudo que a obra de seu diretor/roteirista/produtor sempre ofereceu às plateias: humor inteligente e sensibilidade.

terça-feira

ACONTECEU EM WOODSTOCK

 


ACONTECEU EM WOODSTOCK (Taking Woodstock, 2009, Focus Features, 120min) Direção: Ang Lee. Roteiro: James Schamus, livro de Elliot Tiber, Tom Monte. Fotografia: Eric Gautier. Montagem: Tim Squyres. Música: Danny Elfman. Figurino: Joseph G. Aulisi. Direção de arte/cenários: David Gropman/Ellen Christiansen De Jonge. Produção executiva: Michael Hausman. Produção: Celia Costas, Ang Lee, James Schamus. Elenco: Demetri Martin, Emile Hirsch, Imelda Staunton, Henry Goodman, Jonathan Groff, Jeffrey Dean Morgan, Mamie Gummer, Eugene Levy, Dan Fogler, Andy Prosky, Skylar Astin, Paul Dano. Estreia: 16/5/2009 (Festival de Cannes)

As lendas e fatos a respeito do Festival de Woodstock todo mundo já conhece - seus números, seus artistas, seus imprevistos e principalmente seu legado à história da música e da cultura popular (sem falar nos desdobramentos sociais e políticos). O que, então, poderia haver de novo a ser explorado em um filme quarenta anos depois do evento? A resposta surgiu quando o diretor Ang Lee foi interpelado por Elliot Tiber durante a divulgação de seu "Desejo e perigo" (2007): autor de um livro sobre os bastidores da organização do festival, do qual foi parte crucial, Tiber ofereceu ao cineasta a chance de contar a história sob um novo ponto de vista - e com um viés mais humano, comum em sua obra. Com seus colaboradores de confiança (James Schamus no roteiro, Eric Gautier na direção de fotografia e Tim Squyres na edição), o já vencedor de um Oscar (por "O segredo de Brokeback Mountain") lançou, no Festival de Cannes de 2009 o esperado "Aconteceu em Woodstock". O resultado, porém, ficou aquém das expectativas - tanto em termos financeiros quanto artísticos - e acabou se tornando um dos trabalhos menos memoráveis de Lee, a despeito de suas notáveis qualidades

Elliot Tiber, o autor do livro que deu origem ao filme, é interpretado por Demetri Martin, comediante em seu primeiro trabalho no cinema - uma falta de experiência e carisma que atrapalha muito as possibilidades de conexão com o espectador. Em 1969, Tiber abandona uma carreira pouco feliz de design de interiores em Nova York e retorna para a pequena cidade de White Lake com o objetivo de ajudar seus pais (Henry Goodman e Imelda Staunton) a manter vivo seu pequeno e nada convidativo hotel. A missão é complicada, já que nenhum dos dois é exatamente competente nos negócios e nada no lugar chama a atenção dos turistas ocasionais. A salvação da lavoura surge, no entanto, quanto ele menos espera: ao saber que uma cidade vizinha voltou atrás ao permitir a realização de um festival de música para o público hippie, o jovem toma as rédeas da situação e, depois de fazer contato com os produtores, transforma seu pacato lugarejo no cenário de um dos mais importantes acontecimentos culturais da história. Para isso, porém, ele precisa lutar contra o preconceito local, os problemas logísticos que envolvem a realização de algo inesperadamente gigantesco e encarar sua própria sexualidade conflituosa.

 

Fugindo da tentação de fazer do festival seu protagonista, Ang Lee segue mantendo-se fiel à sua marcante característica de priorizar os sentimentos humanos e, com eles, criar um amplo mosaico de personagens interessantes, como a travesti interpretada por Liev Schreiber (que assume o posto de segurança informal do evento), o jovem veterano do Vietnã vivido por Emile Hirsch e a idiossincrática mãe do protagonista (em um show particular de Imelda Staunton). Woodstock, na visão do cineasta, é apenas o pano de fundo (forte) para uma jornada de autodescobrimento, pincelada de momentos clássicos reproduzidos sutilmente pelo desenho de produção caprichado e pelo figurino, que dialogam com o tom onírico impresso pelo roteiro. A opção do filme em não mostrar absolutamente nenhum número musical - o que provavelmente é motivo de frustração para os fãs mais obcecados do festival - é surpreendente, mas condiz com o tom menos documental e mais emotivo da produção, que apesar disso falha em não aprofundar a contento todas as possibilidades que apresenta ao espectador. Tal problema impede que uma de suas maiores qualidades - o belo elenco - seja aproveitado em todo o seu potencial.

Quem começar uma sessão de "Aconteceu em Woodstock" com a intenção de ver Janis Joplin, Joe Cocker ou Jimi Hendrix certamente irá se decepcionar. O filme de Ang Lee é para um público que procura obras sobre pessoas em busca de si mesmas - mesmo que para isso seja preciso fazer parte de um evento de proporções gigantescas que mudou o mundo (ou ao menos a concepção de muita gente sobre ele). Pode não ser uma obra-prima como alguns dos melhores trabalhos do cineasta, mas é simpático e honesto o bastante para não fazer feio em uma filmografia marcada pela sensibilidade e pelo carinho por seus personagens.

sábado

A ÓRFÃ


A ÓRFÃ (Orphan, 2009, Warner Bros./Dark Castle Entertainment, 123min) Direção: Jaume Collet-Serra. Roteiro: David Leslie Johnson, estória de Alex Mace. Fotografia: Jeff Cutter. Montagem: Tim Alverson. Música: John Ottman. Figurino: Antoinette Messam. Direção de arte/cenários: Tom Meyer/Daniel Hamelin, Martine Giguère-Kazermichuk, David Laramy, Cal Loucks. Produção executiva: Don Carmody, Michael Ireland, Steve Richards. Produção: Jennifer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Susan Downey, Joel Silver. Elenco: Vera Farmiga, Peter Sarsgaard, Isabelle Fuhrman, CCH Pounder, Jimmy Bennet, Margo Martindale, Aryana Engineer. Estreia: 21/7/2009

Nada como uma boa polêmica para chamar a atenção para um filme, certo? Que o digam os produtores de "A órfã", suspense produzido por (entre outros) Leonardo DiCaprio e que estreou no verão norte-americano de 2009. Antes mesmo de seu lançamento, o filme dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra conseguiu provocar indignação junto a entidades responsáveis por adoções. O motivo? Uma linha de diálogo mostrada no trailer. "Deve ser difícil amar um filho adotivo como se ele fosse seu próprio...", dizia a protagonista infantil da história, escandalizando (com certa razão) os ativistas e funcionando como um marketing inesperado e muito eficiente. Tal linha foi excluída do trailer - mas não do filme - e acabou despertando a curiosidade de muita gente: não por acaso, rendeu quase 80 milhões de dólares ao redor do mundo (metade disso só nos EUA) e entrou no inconsciente coletivo de forma como poucas produções do gênero são capazes de fazer a longo prazo. A trajetória de Esther, a menina órfã que transforma o sonho da adoção em um pesadelo familiar, tornou-se um dos filmes de suspense mais populares de sua época - e a boa notícia é que, apesar de alguns pequenos tropeços, merece toda essa repercussão.

Dirigido pelo espanhol Jaume Collet-Serra - que posteriormente iniciou uma prolífica parceria com Liam Neeson em uma série de filmes de ação -, "A órfã" caiu no gosto popular por conseguir unir, em um único produto coeso, um filme de gênero, com todos os seus cânones, e um drama psicológico com desdobramentos sexuais surpreendentes para uma produção comercial. Seu tom adulto e a seriedade do roteiro - inspirado livremente em um caso real ocorrido na Ucrânia em 2010 – destoam da tendência de buscar plateias cada vez mais jovens (e, por conseguinte, menos exigentes e predispostas a banhos de sangue inconsequentes). Ao optar por uma trama quase elegante em seu desenvolvimento, Collet-Serra tenta fugir dos clichês – e consegue, em boa parte do tempo, principalmente por conta da direção segura, do roteiro que entrega os elementos aos poucos e do elenco acima de qualquer suspeita. Aclamados pela crítica e conhecidos do público, Vera Farmiga e Peter Sarsgaard oferecem ao resultado final um prestígio muito oportuno – e o fato de Leonardo DiCaprio ser um dos produtores não atrapalha em nada.

 

Farmiga e Sarsgaard vivem Kate e John Coleman, um casal jovem que vive o luto de ter perdido um bebê recém-nascido. Mesmo com outros dois filhos – o pré-adolescente Daniel e a pequena Max, que tem problemas de audição -, os entristecidos pais decidem aumentar a família e enterrar sua dor. A escolhida dos dois é Esther (Isabelle Fuhrmann), uma menina de nove anos educadíssima e gentil, que encanta John com seus modos nobres e inteligência. O que deveria ser um período de felicidade, porém, esbarra em uma série de problemas inesperados: aos poucos, Esther começa a demonstrar uma personalidade arredia e manipulativa – especialmente com as outras crianças – e, percebendo a instabilidade do casamento de seus novos pais, inicia uma perigosa batalha de nervos que a coloca em rota de colisão com Kate, que tenta recuperar-se de uma séria questão com o álcool.

Qualquer coisa que se saiba além da premissa inicial de “A órfã” pode ser prejudicial à sensação de descobrir a virada do roteiro – capaz de surpreender àqueles que tiverem a sorte de escapar dos spoilers. A mudança de rumo que surge no ato final – e deixa os atos anteriores de Esther quase previsíveis – é o grande trunfo do filme, mas seria injusto creditar apenas a ela o sucesso do resultado final. Orquestrado com delicadeza e grande senso de timing e estética, “A órfã” é um filme que resiste inclusive à uma revisão, graças principalmente ao brilhantismo de Collet-Serra em levar a sério a história que conta e evitar a tentação dos sustos fáceis. Mesmo que derrape em alguns lugares-comuns no meio do caminho, ele consegue fazer de uma produção que poderia ser apenas mais um exemplar raso de um gênero pouco afeito a experimentos uma pequena e marcante pérola.

domingo

JULIE & JULIA

JULIE & JULIA (Julie & Julia, 2009, Columbia Pictures, 118min) Direção: Nora Ephron. Roteiro: Nora Ephron, livros de Julie Powell e Julia Child e Alex Prud'homme. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Richard Marks. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Donald J. Lee Jr., Scott Rudin, Dana Stevens. Produção: Nora Ephron, Laurence Mark, Amy Robinson, Eric Steel. Elenco: Meryl Streep, Amy Adams, Stanley Tucci, Chris Messina, Kelly Lynch, Frances Sternhagen, Linda Emond. Estreia: 30/7/09

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Meryl Streep)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Meryl Streep) 

Primeiro foram livros e peças de teatro. Depois, ideias vinham de notícias de jornal e de biografias de celebridades e/ou políticos. Mais adiante, histórias em quadrinhos (adultos ou não). Hollywood nunca pode se queixar da falta de material original para suas adaptações - fossem elas bem-sucedidas ou não, fieis à origem ou não. Mas, com o advento da Internet um novo manancial de ideias apareceu no horizonte de roteiristas e produtores: parcialmente inspirado em um blog (devidamente transformado em livro e publicado de acordo com a tradição),"Julie & Julia" também inovou ao utilizar-se de um livro de receitas (dos mais prestigiados e populares, mas ainda assim de receitas) como parte de sua trama. Adaptados pela veterana Nora Ephron, os livros de Julie Powell e Julia Child chegaram às telas e conquistaram público e crítica: com mais de 100 milhões de dólares arrecadados pelo mundo e premiado com o Golden Globe de melhor atriz em comédia/musical de 2009, "Julie & Julia" é uma deliciosa história de amor à gastronomia... ou, sendo ainda mais correto: são duas histórias de amor à gastronomia!

Amparada por uma inspiradíssima Meryl Streep (que arrebatou sua 16ª indicação ao Oscar por seu papel) e por uma então ainda promissora Amy Adams (que já havia concorrido à estatueta de coadjuvante justamente por um filme ao lado de Streep, "Dúvida", de 2008), Nora Ephron exercita seu habitual senso de humor e sofisticação ao narrar duas histórias paralelas que, mesmo separadas por meio século, se conectam através da paixão pela culinária e por detalhes que, enfatizados sutilmente pela edição, as tornam muito mais próximas do que poderiam supor. Obviamente mirando em um público-alvo mais adulto do que a maioria das comédias hollywoodianas, o roteiro de Ephron
evita piadas fáceis e até mesmo escapa da polêmica que seria revelar as atividades de Julia Child para o governo norte-americano - depois do lançamento do livro, mas antes das filmagens, já se sabia que a famosa autora havia servido de informante durante seu período na França, mas tal fato é apenas mencionado de passagem em um curto diálogo. Tais complicações políticas não interessam à trama engendrada pela diretora/roteirista, que prefere focar sua atenção no crescimento pessoal de suas protagonistas oferecido por sua entrega à cozinha - que surgem como válvula de escape e se tornam parte indissociável de suas vidas pessoais.


Julie Powell (Amy Adams dando um banho de carisma) é uma jovem aspirante a escritora que passa seus dias em um frustrante e monótono emprego burocrático que a deprime - a despeito de sua relação apaixonada com o marido, Eric (Chris Messina). Como forma de fixar um objetivo que possa arrancar-lhe do marasmo, ela desafia a si mesma a cozinhar, por um ano inteiro, todas as receitas do primeiro e mais famoso livro da escritora Julia Child - e registrar suas tentativas em um blog, que não demora a tornar-se um fenômeno de popularidade. Durante o processo, Julie começa a tornar-se obcecada pela história de Child (Meryl Streep), uma americana que, casada com o diplomata Paul Child (Stanley Tucci), transforma sua estada em Paris, a partir de 1949, em uma maneira de traduzir para suas conterrâneas as sofisticadas receitas francesas que aprendeu na tradicional Cordon Bleu. Dedicada e talentosa, ela acaba por publicar seu livro de receitas, apresentar programas de culinária na TV e se transformar em um nome conhecido internacionalmente - e, décadas depois, inspirar Julie a encontrar um sentido para sua vida. O segredo de Ephron em seu roteiro é fazer com que suas duas personagens centrais passem pelas mesmas dificuldades, mas logicamente de acordo com sua época e contextos histórico e social. Esse artifício de utilizá-las como espelho uma da outra funciona muito bem, especialmente porque a química entre Adams e Streep é perfeita: mesmo que elas jamais contracenem, existe uma sensação de unidade entre as duas que é palpável, graças à direção leve e aos desempenhos acima da média de ambas - amparadas também por seus excelentes colegas de cena Stanley Tucci e Chris Messina.

Como é normal no cinema de Nora Ephron, não há nada de espetacular ou catártico em "Julie & Julia". Seu roteiro fluido e por vezes surpreendentemente emocionante segue sem sustos por um caminho que pode até parecer previsível, mas que encanta justamente por oferecer ao público o conforto da simplicidade. Streep (que conta com a ajuda de ângulos especiais para dar a impressão de ser do real tamanho da gigantesca Julia Child) mais uma vez é maior que o filme, ainda que sua personagem pareça caricatural com seu jeito de falar e se movimentar. A maior surpresa, porém, é a segurança de Amy Adams em não se deixar intimidar pela presença da celebrada atriz e fazer de sua Julie Powell uma personagem interessante e repleta de nuances a ponto de quase roubar a cena. Se Streep foi indicada ao Oscar, Adams ficou de fora da seleção da Academia injustamente: é seu olhar cheio de esperança, otimismo e às vezes desespero que fazem do filme de Nora Ephron a delícia que é - e sua dupla com Chris Messina é simplesmente adorável. Que venham novas colaborações!

quarta-feira

UM HOMEM SÉRIO

UM HOMEM SÉRIO (A serious man, 2009, Focus Features, 106min)  Direção e roteiro: Ethan Coen, Joel Coen. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Roderick Jaynes. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Zophres. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Nancy Haigh. Produção executiva: Tim Bevan, Eric Fellner, Robert Graf. Produção: Ethan Coen, Joel Coen. Elenco: Michael Stuhlbarg, Richard Kind, Fred Melamed, Sari Lennick, Aaron Wolff, Jessica McManus, David Kang, Amy Landecker, Simon Helberg. Estreia: 12/9/09 (Festival de Toronto)


2 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

A princípio, "Um homem sério" pode parecer o mais simples dentre os filmes dos irmãos Coen: é barato (custou cerca de míseros sete milhões de dólares), não tem grandes astros em seu elenco (ao contrário de seu antecessor, "Queime depois de ler", de 2008, e seu filme seguinte, "Bravura indômita", de 2010), e sua temática é explicitamente restrita: como nunca antes em sua brilhante filmografia, Joel e Ethan assumem sem medo sua origem judaica e mergulham seu protagonista em um pesadelo kafkiano que flerta com filosofia, religião e um humor intelectual dos mais inspirados.A aparente simplicidade do filme, porém, esconde um trabalho de inteligência acima da média - e se o público não comprou sua ideia, a crítica foi bastante generosa, e até a Academia rendeu-se à sua ousadia, lhe indicando a duas importantes categorias do Oscar: melhor filme e roteiro original. Perdeu ambas as estatuetas para "Guerra ao terror" - mas demonstrou que, de vez em quando, há espaço para a criatividade no tedioso universo dos filmes "oscarizáveis".

A trama de "Um homem sério" se passa em 1967, em um subúrbio de Minneapolis, e tem como protagonista Larry Gopnick, um professor de física judeu e ciente de suas obrigações e deveres morais e éticos. Sua vida em família é razoavelmente comum, dividida entre as brigas com a filha, Sarah (Jessica McManus), adolescente que sonha em fazer uma cirurgia plástica no nariz, a relação distante com Danny (Aaron Wolff), o filho prestes a realizar seu bar-mitzvah e que passa os dias chapado de maconha e os cuidados com o irmão, Arthur (Richard Kind), mentalmente perturbado depois de um acidente que o fez perder a memória. Sua rotina começa a virar do avesso quando sua esposa, Judith (Sari Lennick), anuncia que está apaixonada por outro homem - e pede a ele que saia de casa para que eles possam se divorciar dentro dos ritos judaicos. A partir daí, Larry entra em um turbilhão de problemas, que vão desde uma chantagem feita pelo pai de um aluno em vias de ser reprovado, cartas anônimas escritas para a diretoria de sua escola lhe difamando, conflitos com o vizinho a respeito dos limites de suas propriedades e a crise financeira oriunda da separação. Desesperado e sem alternativas óbvias, Larry passa a questionar sua fé e busca ajuda com rabinos e estudiosos - que, ele acredita, irão fazê-lo compreender a amplitude de sua situação.


Criado a partir de uma ideia isolada - Danny chapado em seu bar-mitzvah e sua conversa com um rabino logo em seguida - e desenvolvido de forma a preencher as lacunas que poderiam cercá-la, "Um homem sério" é brilhante em diversas camadas. Como comédia religiosa é um achado - especialmente junto ao público judeu, normalmente restrito aos filmes de Woody Allen, cada vez menos dedicado ao tema. Como comédia em geral, é hilariante - o protagonista, interpretado com brilhantismo por Michael Stuhlbarg, é uma vítima involuntária de um destino (Deus/acaso) nitidamente sádico e o tom surreal do mundo que o rodeia só encontra paralelos em outros filmes dos irmãos Coen - como "O grande Lebowski" (2000) ou "Arizona nunca mais" (87). Como discussão filosófica, é surpreendentemente acessível à plateia - ainda que muitas referências possam passar incólumes ao espectador médio, levanta questões interessantes (e o que é melhor, evita dar respostas). Como cinema, é genial. Desde a fotografia de Roger Deakins até a reconstituição de época (um meio-termo entre o realismo e a fantasia criativa que é marca dos cineastas), tudo funciona como um relógio, seja no panorama geral seja nos detalhes - e a opção dos Coen em buscar um elenco de atores desconhecidos apenas reafirma sua intenção de dar mais importância à trama do que a qualquer marketing milionário (uma diferença crucial em tempos onde a criatividade normalmente sucumbe a números e cifras): é impossível pensar em outro protagonista que não Stuhlbarg, por exemplo - seu Larry Gopnick é um dos melhores personagens já inventados pelos roteiristas, e seu desempenho nunca está abaixo de exemplar.

Como uma espécie de Jó - personagem bíblico testado por Deus através de uma série de desgraças financeiras e familiares -, Larry Gopnick tenta manter a sanidade mental diante de uma avassaladora sucessão de acontecimentos que se equilibram entre o bizarro e o dramático. A resiliência do protagonista frente à implosão da família, às incertezas profissionais e às dúvidas teológicas é retratada com delicadeza e inteligência - impõe um distanciamento da plateia em relação à trama, mas ao mesmo tempo a convida a um olhar de empatia e compaixão com o personagem. Da primeira sequência - que dá uma pequena mostra do que espera o público nas horas seguintes, ao contar uma história sem solução aparente - até a cena final - a ameaça da natureza frente ao drama pessoal que se desenrola até então -, tudo em "Um homem sério" funciona à perfeição. Com o tempo, será devidamente reconhecido como um dos melhores filmes dos irmãos Coen - uma referência nada desprezível diante da filmografia frequentemente genial dos realizadores. Uma pérola que poucos descobriram - mas que devem descobrir e se deleitar.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...