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sexta-feira

HAIR


HAIR (Hair, 1979, United Artists, 121min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Michael Weller, peça musical de Gerome Ragni, James Rado. Fotografia: Richard Kratina, Miroslav Ondricek, Jean Talvin. Música: Galt MacDermot. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/George DeTita. Produção: Michael Butler, Lester Perksy. Elenco: John Savage, Treat Williams, Beverly D'Angelo, Annie Golden, Dorsey Wrigth. Estreia: 14/5/79

De sua estreia nos palcos off-Broadway, em outubro de 1967, até o lançamento de sua adaptação para o cinema, em maio de 1979, o musical "Hair" passou, de celebração da contracultura e do movimento hippie, a um espetáculo nostálgico que servia mais como lembrança de um período histórico relativamente recente do que como uma obra transgressora sobre um estilo de vida alternativo. Montado em diversos países, incluindo o Brasil, "Hair" até esteve na mira de Hollywood em seus primeiros anos em cartaz - George Lucas chegou a ser convidado para dirigir uma versão, mas preferiu dedicar-se a "Loucuras de verão" (1973) -, mas demorou até que realmente encontrasse um caminho para as telas. E quando o fez, desagradou profundamente seus autores, Gerome Ragni e James Rado. Com uma trama diferente do original, canções apresentadas fora da ordem estabelecida pela peça e personagens com personalidades alteradas pelo roteiro de Michael Weller, "Hair" ficou quase irreconhecível como filme - e isso que o diretor Milos Forman já sonhava com sua adaptação para o cinema desde os primeiros meses de sua exibição nos teatros.

Primeiro filme de Forman desde a chuva de Oscar para seu "Um estranho no ninho" (1975), "Hair" não chegou a ser um sucesso de bilheteria, mas agradou à crítica, a chegou a ser indicado ao Golden Globe de melhor comédia/musical. Forman, fã do original - que estava tentando montar em sua terra natal , Prag,  quando a Rússia invadiu a Tchecoslováquia - assumiu as rédeas do projeto com que sonhava desde que assistiu à montagem antes da Broadway, e fez o severo crítico Roger Ebert compará-lo favoravelmente ao clássico "Amor, sublime amor" (1960). Segundo Ebert, a versão do espetáculo conseguia ressuscitar os musicais da mesma forma que o filme de Jerome Robbins e Robert Wise. Boa parte da responsabilidade do entusiasmo da imprensa deve ser creditada à trilha sonora de Galt MacDermot, que inclui a antológica "Age of Aquarius", que abre o filme e imediatamente mergulha o espectador em um universo em que hippies e pacifistas convivem - nem sempre tranquilamente - com uma sociedade que envia seus filhos à guerra do Vietnã enquanto organizam jantares sofisticados e cheios de normas de etiqueta: não à toa, um dos momentos-chave do filme acontece em uma dessas reuniões, quando um dos protagonistas, George (Treat Williams) lidera uma invasão que choca os "cidadãos de bem" e seduz a elegante Sheila (Beverly D'Angelo) para seu grupo de manifestantes contra o sistema.

A trama de "Hair" - ao menos em sua versão cinematográfica - apresenta dois protagonistas de personalidades opostas que acabam por ter seus destinos misturados durante o efervescente período em que os EUA estão em um momento crítico de luta pelos direitos civis e no auge da famigerada guerra no Vietnã. Vindo de Oklahoma e alistado no exército está Claude Bukowski (John Savage). Liderando um grupo de hippies que transitam por Nova York está George Berger (Treat Williams). Aparentemente incompatíveis, os dois rapazes se tornam amigos e o ingênuo Claude conta com a ajuda dos novos companheiros para encontrar um meio de conquistar a - à primeira vista - inalcançável Sheila Franklin (Beverly D'Angelo), por quem se apaixonou ao vê-la cavalgando no Central Park. Nesse meio-tempo, o inocente rapaz do interior passa a comungar com os ideais do grupo de George, jovem que pregam a liberdade e a paz a qualquer custo. Quando ele finalmente sai da cidade e junta-se a seus colegas soldados, a diferença entre os dois grupos fica ainda mais explícita - e o discurso anti-guerra de seus novos amigos torna-se ainda mais certeira.

 

Filme de abertura do Festival de Cannes 1979 - apresentado fora de competição -, "Hair" é um musical no sentido exato do termo. Seus números de música, com coreografias de Twyla Tharp, comentam a ação e empurram a trama adiante de forma orgânica, apesar da diferença da ordem em que eram apresentadas no original dos palcos. O roteiro de Michael Weller também enfatiza a divergência entre George e Claude ao transformar o segundo em um jovem do interior que entra na guerra como voluntário - e não o líder do grupo hippie que tenta evitar sua participação no conflito. A mudança na personalidade de Claude é, provavelmente, a mais inquietante do filme, e o que provocou a maior parte das críticas em relação à adaptação. É inegável, porém, que as artimanhas de Weller para conquistar a simpatia do público a seus personagens, funciona muito bem no filme. A transformação de Claude é crível, especialmente porque Milos Forman faz questão de retratar George e seus seguidores sob luzes bem mais simpáticas do que aquelas reservadas para os milionários que servem de vilões. Ok, é tudo um bocado maniqueísta, mas a ingenuidade da obra original também o era, e tal característica acaba por ser muito útil para a felicidade do produto final - mesmo que ele seja quase uma obra nova para quem assistiu à peça.

"Hair" é, ainda, o retrato de uma época cuja inocência caminhava lado a lado com a violência, e na qual a juventude ainda tinha ideais próprios para servir de munição para suas batalhas. A direção de Milos Forman - que, a julgar por "Um estranho no ninho", tinha sua dose de inconformismo - conduz a narrativa sem percalços e em determinados momentos chega a ser quase brilhante. O carisma dos dois atores centrais, Treat Williams e John Savage (que também estava no elenco de outro filme sobre o Vietnã, o premiado "O franco-atirador"), segura o interesse do espectador, e o final, dono de uma ironia comovente, fecha a história com chave de ouro. É de se imaginar, porém, como seria o filme se duas celebridades musicais tivessem sido aprovadas em seus testes: Madonna e Bruce Springsteen tentaram vagas no elenco e não há dúvidas de que suas presenças acrescentariam um motivo a mais para se conferir um dos musicais obrigatórios da história do cinema.

terça-feira

O MUNDO DE ANDY

O MUNDO DE ANDY (Man on the moon, 1999, Universal Pictures, 118min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karasewski. Fotografia: Anastas Michos. Montagem: Adam Boomme, Lynzee Klingman, Christopher Tellefsen. Música: REM. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria Nay. Produção executiva: Michael Hausman, George Shapiro, Howard West. Produção: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Elenco: Jim Carrey, Danny DeVito, Courtney Love, Paul Giamatti. Estreia: 22/12/99

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Comédia/Musical (Jim Carrey)
Vencedor do Urso de Prata de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim


O americano Andy Kaufman foi talvez o mais ousado comediante surgido nos EUA nos anos 80. Longe de ser apenas um humorista, ele ambicionava ser um homem da indústria de entretenimento, provocando a audiência e buscando incessantemente realizar tudo o que ainda não havia sido feito. Morto devido a um câncer, Kaufman foi homenageado pela banda R.E.M. - cujo vocalista Michael Stipe é seu fã declarado - com a canção "Man on the moon" e pelo cineasta tcheco Milos Forman com uma cinebiografia informal e criativa, batizada com o nome da bela obra de Stipe e no Brasil lançada com o péssimo título "O mundo de Andy", talvez para forçar a comparação com o filme anterior de seu astro Jim Carrey - "O show de Truman" - já que o protagonista era praticamente desconhecido do grande público tupiniquim (a não ser aos espectadores da série "Taxi", reprisada na TV a cabo).

Fã de personagens à margem da sociedade - como o rebelde vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho" e o excêntrico milionário da pornografia interpretado por Woody Harrelson em "O povo contra Larry Flynt" - Forman encontrou na personalidade complexa de Andy Kaufman o material perfeito para mais um grande filme. Graças a um inspirado roteiro da dupla Larry Alexander e Scott Karaszewski (também responsáveis pelo ótimo texto de "Larry Flynt" e da homenagem de Tim Burton ao pior cineasta da história, em "Ed Wood"), Forman consegue apresentar seu protagonista e suas criações sem apressar ou retardar nada, com um invejável ritmo e com um delicioso senso de humor, reflexo das ironias ora escrachadas ora sutis de seu homenageado, que frequentemente ultrapassava as barreiras do bom gosto com suas brincadeiras, e com isso conquistou tanto fãs quanto detratores - a ponto de ser expulso do programa "Saturday Night Live" por opção da plateia - e que encontra em Jim Carrey o intérprete ideal.



Depois de provar, com "O show de Truman", que sabia atuar a sério, Carrey, antes visto apenas como um ator de comédias físicas e descerebradas, mostra, em "O mundo de Andy", que não só é capaz de dar dimensões variadas a seus personagens como também consegue transformar-se visualmente e dedicar-se com paixão a projetos tão pouco comerciais (sua escolha para o papel, inclusive, tem a ver com negócios, uma vez que o próprio estúdio optou por ele em detrimento de Edward Norton, planejando uma bilheteria milionária que nunca aconteceu). O trabalho irretocável de Jim - não apenas como Kaufman mas também como suas criações, como o cantor de cassinos Tony Clifton e o mecânico estrangeiro Latka, entre outros menos cotados - consegue até mesmo sobressair-se sobre a delicada atuação de Danny De Vito (também produtor do filme) como o empresário do comediante e sobre a midiática presença da cantora Courtney Love, em seu segundo trabalho com o diretor.

Contado de forma episódica e criativa, “O mundo de Andy” é imprevisível desde sua primeira cena, com os créditos de encerramento logo no início do filme. A cinebiografia do ator que chegou a ser excluído do popular “Saturday night live” - a pedido do público que não agüentava mais suas brincadeiras de mau-gosto – usa das convenções de um filme de seu gênero para conquistar a audiência e apresentar o “maldito” a platéias que, do contrário, não teriam acesso a seu tipo especial de fazer humor. É um trabalho inteligente cujo brilhantismo a bilheteria medíocre nos EUA apenas reitera. Afinal de contas, quantos filmes realmente bons fazem sucesso sem explosões e nudez gratuita?

quinta-feira

O POVO CONTRA LARRY FLYNT

O POVO CONTRA LARRY FLYNT (The People vs. Larry Flynt, 1996, Columbia Pictures, 129min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski. Fotografia: Phillippe Rousselot. Montagem: Christopher Tellefsen. Música: Thomas Newman. Figurino: Arianne Philipps, Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Maria A. Nay, Amy Wells. Produção: Michael Hausman, Oliver Stone, Janet Yang. Elenco: Woody Harrelson, Edward Norton, James Cromwell, Courtney Love, Brett Harrelson, Crispin Glover. Estreia: 25/12/96


2 indicações ao Oscar: Diretor (Milos Forman), Ator (Woody Harrelson)
Vencedor de Melhor Diretor (Milos Forman) no Festival de Berlim
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Diretor (Milos Forman), Roteiro

Apesar de ter seu nome no título o verdadeiro protagonista de "O povo contra Larry Flynt" não é o editor da "Hustler", uma das revistas pornográficas mais populares dos EUA. Quem realmente é a personagem principal do filme do tcheco Milos Forman é uma entidade abstrata chamada "liberdade de expressão". É esse conceito, tão valorizado mas tão seriamente ameaçado até mesmo nas mais liberais democracias, o verdadeiro astro do filme que deu a Woody Harrelson sua primeira indicação ao Oscar. É o direito a essa tal liberdade, garantida na Constituição americana, o santo graal perseguido por Larry Flynt e seu advogado, o jovem Alan Isaacman. E é justamente por lutar por esse direito sagrado a todos que o filme do diretor de "Um estranho no ninho" conquista até mesmo a mais conservadora das plateias.

Até mesmo Oliver Stone, chegado que é em uma polêmica, declinou da ideia de dirigir "O povo contra Larry Flynt", preferindo manter-se no menos ostensivo papel de produtor. O explosivo material, escrito pela mesma dupla que deu a Tim Burton o belo roteiro de "Ed Wood", provocou controvérsia antes mesmo de estrear, tendo seu cartaz banido e severamente criticado: no criativo poster, o protagonista tinha o corpo em formato de Jesus crucificado, mas no corpo de uma mulher. Substituído por uma outra propaganda mais comportada, foi apenas o princípio de uma gritaria dos setores conservadores da pudica América do Norte, que não aceitavam de bom grado a ideia de ter um pornógrafo como herói de um filme. Escandalizados ou não, o fato é que os detratores de Larry Flynt não conseguiram ofuscar o brilho do resultado final. Dirigido com uma ironia deliciosa e interpretado por um excelente Woody Harrelson, "O povo contra Larry Flynt" é um dos melhores filmes de 1996 - e poderia muito bem ter ficado com uma vaga entre os indicados ao Oscar principal, já que tanto Harrelson quanto Milos Forman conseguiram ficar entre os finalistas em suas respectivas categorias.

"O povo contra Larry Flynt" começa mostrando a origem do império do protagonista, desde suas ambições infantis até a criação de um boletim (repleto de fotos de mulheres nuas) a ser distribuído aos frequentadores de seu bar de striptease chamado Hustler. Aos poucos, sentindo-se traído pela sutileza e pela delicadeza das fotos de sua rival "Playboy" transforma seu boletim em uma revista mensal, com um grande diferencial: nas páginas da "Hustler" os leitores não encontrariam matérias de interesse geral e sim uma boa e velha pornografia explícita. Chocando a ala conservadora dos EUA, Flynt torna-se figurinha fácil nos tribunais, acusado de incitar a pornografia e principalmente processado por difamação e danos morais pelo respeitável Reverendo Jerry Falwell (Richard Paul), vítima de uma de suas piadas de incrível mau-gosto. Quem o defende em seus julgamentos é seu jovem advogado, Alan Isaacman (Edward Norton), recém-formado e que, apesar de ter aversão às publicações do cliente, jamais deixa de estar ao seu lado.



O ritmo é uma das maiores qualidades em "O povo contra Larry Flynt". Mesmo quando o filme corre o risco de tornar-se repetitivo devido às idas e vindas do protagonista aos tribunais, o roteiro jamais cai na armadilha de deixar-se levar pelos fatos históricos puros e simples, além de presentear o público com um humor cruel extremamente engraçado. O Larry Flynt criado por Scott Alexander e Larry Karazsewski é um anti-herói absoluto, escória da sociedade, mas dotado de uma personalidade e um carisma inegáveis, além de um senso de humor irresistível. Nem mesmo depois de ficar paraplégico devido a um atentado contra sua vida - um evento nunca devidamente esclarecido - ele deixou-se levar pelo negativismo e a depressão, praticamente usando suas limitações como uma medalha de honra. Sua defesa ferrenha pela liberdade de expressão é também a defesa de um direito inalienável de qualquer cidadão. Como ele mesmo declara em determinado momento, "se a Primeira Emenda pode proteger a um lixo como eu, poderá proteger a todos vocês." É fascinante seu discurso quando compara a pornografia com a guerra e a violência e deixa na cabeça de todos a pergunta que jamais quer calar: o que é mais ofensivo, um corpo feminino ou uma criança morta???

Woody Harrelson tem, aqui, um dos ápices de sua carreira desigual. Elevando à máxima potência a promessa com que acenava desde seu Mickey Knox de "Assassinos por natureza", ele transcende sua personagem, transformando-se em Larry Flynt de forma arrebatadora. Ao acrescentar ao papel sua própria personalidade anárquica e controversa, Harrelson mereceu a indicação ao Oscar e não teria sido injusta sua vitória. Ele está tão bem que consegue ofuscar até mesmo ao ótimo Edward Norton, que não tem muito o que fazer como Isaacman a não ser pontuar com correção o show do colega de cena. Em compensação, não dá para acreditar em todos os prêmios arrebatados por Courtney Love. A roqueira - viúva de Kurt Cobain e então líder da banda Hole - recebeu elogios rasgados da crítica e chegou a vencer disputas importantes, como dos críticos de Nova York e Boston por sua atuação como Althea, a esposa e musa de Flynt, que morreu de AIDS depois de ter se viciado em morfina. Péssima e sem nenhum carisma, Love tem a seu favor apenas o visual bagaceiro que combina com a personagem, mas está longe de ser uma atriz de respeito. Não é exagero afirmar que seu trabalho é o único ponto fraco do filme...

As discussões suscitadas por "O povo contra Larry Flynt" são legítimas e relevantes, o que faz do filme de Milos Forman politicamente indispensável. Mas, acima de tudo, seu trabalho é cinema da mais alta qualidade. Forman está nitidamente à vontade contando a trajetória de Flynt, ecoando a busca de liberdade de seu mais famoso protagonista - o falso desequilibrado mental vivido por Jack Nicholson em "Um estranho no ninho". Fascinado por personagens que fogem do convencional, Forman mais uma vez brinda seu público com uma obra cuja importância ressonará por muito tempo. Cinema e política andando juntos sem panfletarismo barato! Genial!

AMADEUS


AMADEUS (Amadeus, 1984, The Saul Zaentz Company, 160min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Peter Shaffer, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Michael Chandler, Nena Danevic. Figurino: Theodor Pistek. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Karel Cerny. Produção executiva: Michael Hausman, Bertil Ohlsson. Produção: Saul Zaentz. Elenco: Tom Hulce, F. Murray Abraham, Elizabeth Berridge, Simon Callow, Jeffrey Jones, Cynthia Nixon. Estreia: 06/9/84

11 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (F. Murray Abraham, Tom Hulce), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte, Som, Maquiagem
Vencedor de 8 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (F. Murray Abraham), Roteiro Adaptado, Figurino, Direção de Arte, Som, Maquiagem
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (F. Murray Abraham), Roteiro


"Obra-prima" não é um adjetivo que foi criado para ser usado levianamente. Mas não existe definição melhor para o que o tcheco Milos Forman conseguiu fazer com "Amadeus", sua adaptação da peça teatral de Peter Schaffer que foi o merecidíssimo vencedor de 8 Oscar em 1984. Poucas vezes o cinema conseguiu unir com tanta qualidade sucesso de crítica e comercial falando de um assunto teoricamente hermético: música clássica. E talvez a chave de seu êxito seja justamente o fato de que, apesar de falar de música clássica sim, ele centra-se principalmente na relação entre o genial compositor austríaco Wolfgang Amadeus Mozart e seu arqui-rival, o italiano Salieri. Ao focar sua atenção em tão ricos personagens, Forman e cia se dão ao luxo de utilizar a obra inigualável do músico apenas como pano de fundo - um senhor pano de fundo, que ilustra com maestria a fogueira de vaidades retratada no roteiro.

"Amadeus" é narrado em flashback através da voz de Salieri, que, envelhecido e internado em um hospital psiquiátrico depois de uma tentativa de suicídio, conta a um padre sua relação de admiração/inveja com Mozart. Considerando que o músico austríaco foi escolhido por Deus como seu instrumento na Terra a despeito de seus modos vulgares e da dissipação de sua vida pessoal, ele utiliza de sarcasmo e amargura para mostrar a forma como Mozart tornou-se o compositor mais respeitado e popular de sua época. Surpreendentemente, ele assume inclusive uma parcela de responsabilidade em sua morte.


Se fosse necessário escolher apenas uma das inúmeras qualidades do filme de Forman - e é inegável que ele tem uma quantidade considerável delas - provavelmente a grande vitória seria da atuação de F. Murray Abraham como Salieri. Apesar de defender um papel ingrato e tratado com certo maniqueísmo pelo roteiro (que se dedica a retratá-lo como invejoso e sem o talento que o verdadeiro compositor possuía), Abraham se agiganta a tal ponto de relegar a personagem-título a um quase segundo plano. Na verdade, os reais protagonistas de "Amadeus" são Salieri e seus sentimentos negativos, que impulsionam a narrativa do dramaturgo Peter Shaffer em direção a mais do que simplesmente uma cinebiografia. "Amadeus" é, além de uma sublime história de genialidade, o retrato, em cores vibrantes (e até mesmo em um noir extraordinário), de uma época e uma sociedade.

Fotografado com maestria e utilizando-se apenas de luz natural, é um filme visualmente deslumbrante, capaz de deixar de queixo caído até o mais indiferente espectador. As sequências que apresentam as óperas de Mozart, por exemplo, são exuberantes, viscerais e emocionantes, saindo do espectro limitatório a que sua música erroneamente é imposto. Milos Forman fez questão de filmar "Don Giovanni", por exemplo, no mesmo palco onde a ópera estreou, e esses detalhes acabam sendo a alma de "Amadeus" - só para constar: todos os estudiosos de música afirmam que todos os movimentos musicais apresentados no filme são exatos e sincronizados, um toque de perfeccionismo que, não apenas respeitoso com o público, é um toque de gênio a mais, oportunizando à audiência um espetáculo completo e verdadeiro. Um espetáculo, diga-se de passagem, que encontra em seus dois intérpretes centrais a base para seu impressionante êxito.

Se Murray Abraham hipnotiza com sua atuação impecável, Tom Hulce entrega uma interpretação irreverente e moderna de Mozart, retratado no filme como um homem dono de uma quase imaturidade e de um prazer de viver além de qualquer sucesso e fama. Apesar de não encontrar eco nas descrições do compositor feitas por historiadores, a gargalhada insana do protagonista acabou se tornando a marca registrada do filme, o ponto pelo qual ele é mais frequentemente lembrado. No entanto, os fãs de bom cinema e boa música jamais conseguirão esquecer a majestade de "Amadeus", que merece, mais do que qualquer filme que se pretenda erudito, a classificação de obra-prima!

terça-feira

UM ESTRANHO NO NINHO


UM ESTRANHO NO NINHO (One flew over the cuckoo's nest, 1975, United Artists, 133min) Direção: Milos Forman. Roteiro: Lawrence Hauben, Bo Goldman, baseado no romance de Ken Kesey e na adaptação da peça por Dale Wasserman. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Sheldon Kahn, Lynzee Klingman. Música: Jack Nitzsche. Casting: Jane Feinberg, Mike Fenton. Produção: Michael Douglas, Saul Zaentz. Elenco: Jack Nicholson, Louise Fletcher, Brad Dourif, Christopher Lloyd, Danny de Vito, Will Sampson. Estreia: 19/11/75

9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Ator Coadjuvante (Brad Dourif), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Milos Forman), Ator (Jack Nicholson), Atriz (Louise Fletcher), Roteiro Adaptado
Vencedor de 6 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Milos Forman), Ator/Drama (Jack Nicholson), Atriz/Drama (Louise Fletcher), Roteiro, Melhor Estreia/Masculino (Brad Dourif)


Em um dos períodos mais prolíficos de Hollywood em apresentar anti-heróis como protagonistas de seus filmes, surgiu, em 1975, mais um louvável exemplo disposto a fazer parte de seu histórico. Protagonista de um dos mais festejados dramas da época, Randle P. McMurphy foi um dos responsáveis, assim como “O iluminado”, feito cinco anos depois, de forjar a persona outsider de Jack Nicholson, com a qual ele já flertava no mínimo desde “Easy Rider”, de 1969. Dirigido pelo tcheco Milos Forman, "Um estranho no ninho", a adaptação do romance de Ken Kesey conseguiu a proeza de ser um dos pouquíssimos filmes (três, até agora) a arrebatar os cinco principais Oscar - filme, diretor, ator, atriz e roteiro. Assim como das outras duas vezes - uma antes e uma depois - todos os prêmios foram amplamente merecidos.

Em "Um estranho no ninho", Nicholson tem uma das mais eficazes interpretações de sua carreira na pele de McMurphy, um malandro que, em 1963, condenado por estupro, consegue enrolar as autoridades e, fazendo-se passar por doente mental, vai parar em um hospital controlado com mão-de-ferro pela rígida enfermeira-chefe Ratched (Louise Fletcher). Sentindo-se aprisionado, ele passa a influenciar os demais pacientes do hospital, principalmente um jovem tímido e suicida Billy (Brad Dourif) e um índio calado e misterioso (Will Sampson). Suas atitudes, rebeldes e inconseqüentes, acabam por colocá-lo em rota de colisão com Ratched, o que os leva a uma guerra sem tréguas e com mais vítimas do que se poderia pressupor.


O romance de Ken Kesey já havia dado origem a uma peça de teatro estrelada por Kirk Douglas, que comprou os direitos de adaptação para o cinema. Achando-se velho demais para o papel principal, ele passou os direitos para seu filho Michael, que acabou ganhando um Oscar como produtor. O autor do livro detestou o resultado final da versão cinematográfica de sua obra - que, entre outras mudanças, era narrada através do ponto de vista do índio vivido por Will Sampson - e recusou-se a assistí-la até o fim. Sua recusa, apesar de compreensível tendo em vista seus sentimentos em relação à sua obra, apenas privou-o de assistir a um filme que não trai a essência de sua origem, expandindo-a de maneira delicada e nunca menos do que brilhante.

Dirigido com firmeza e uma certa ironia pelo sempre competente Milos Forman, “Um estranho no ninho” de certa forma, encaixa-se com perfeição, ao contrário de seu título, no período em que foi realizado. Herdeira da contra-cultura que dominava os EUA nos anos 70, a história retratada no filme contrapõe heróis (McMurphy, mesmo que não seja exatamente um exemplo de conduta e caráter) e vilões (Ratched, que, apesar de ter a seu lado a retitude moral, representa o poder estabelecido, por si só um vilão em uma época marcada, entre outras coisas, pela guerra do Vietnã) e embaralha suas personalidades, jogado longe o maniqueísmo que poderia facilmente surgir. A inteligência do roteiro e da direção em passar ao largo de situações fáceis encontra eco na atuação do elenco, impecável de um extremo a outro.
Se Jack Nicholson pontua o filme com brilhantismo, justificando seu primeiro Oscar de melhor ator, seus coadjuvantes também são exemplares. Brad Dourif e um jovem Christopher Lloyd fazem sua estreia com louvor – o primeiro chegou a ser indicado ao Oscar -, ao lado de atores mais experientes (e isso inclui um Danny de Vito ainda em início de carreira).

Mas quem consegue duelar com Nicholson sem que seja preciso utilizar-se de muitas palavras para isso é Louise Fletcher. Sua enfermeira Ratched, impassível, insensível e incapaz de sentimentos como compaixão é o contraponto ideal para a energia quase destruidora de McMurphy. Fletcher ficou com um dos papéis mais disputados da temporada e demonstra a cada cena que mereceu ser escolhida; seu olhar gélido e sua expressão inatingível são assustadores, motivos que a levaram a ganhar o Oscar de melhor atriz, mesmo que sua personagem apareça relativamente pouco, em comparação com a quase totalidade de cenas com Nicholson, o verdadeiro protagonista. Responsabilizar a fragilidade das interpretações femininas do ano de 1975 como a razão por sua vitória - como foi feito na época - é tirar dela os méritos inegáveis de uma atuação inesquecível e forte a ponto de não se intimidar frente a uma das mais marcantes performances do grande Jack.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...