ASSIM ESTAVA ESCRITO (The bad and the beautiful, 1952, MGM Pictures, 118min) Direção: Vincente Minnelli. Roteiro: Charles Schnee, estória de George Bradshaw. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Conrad A. Nerving. Música: David Raskin. Direção de arte/cenários: Edward Carfagno, Cedric Gibbons/F. Keogh Gleason, Edwin B. Willis. Produção: John Houseman. Elenco: Kirk Douglas, Lana Turner, Walter Pidgeon, Dick Powell, Barry Sullivan, Gloria Grahame. Estreia: 25/12/52
6 indicações ao Oscar: Ator (Kirk Douglas), Atriz Coadjuvante (Gloria Grahame), Roteiro, Fotografia em preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco, Figurino em preto-e-branco
Vencedor de 5 Oscar: Atriz Coadjuvante (Gloria Grahame), Roteiro, Fotografia em
preto-e-branco, Direção de Arte/Cenários em preto-e-branco, Figurino em
preto-e-branco
Assim como "A malvada" havia feito dois anos antes com os bastidores do mundo do teatro e proporcionado à Bette Davis um de seus mais icônicos papéis, "Assim estava escrito" fez o mesmo a respeito dos meandros do cinema norte-americano da era dos grandes estúdios, com seus produtores acima do bem e do mal, astros e estrelas lutando por um lugar ao sol e egos frequentemente se esbarrando em sets de filmagens, escritórios luxuosos, recepções e cerimônias de premiação. Levemente inspirado na figura do poderoso David O. Selznick (que deu ao mundo, entre outros, o adorado "E o vento levou") e dirigido por Vincente Minelli, o filme, que contém ainda referências a gente como Orson Welles, Raymond Chandler, Hitchcock e Diana Barrymore, entre outros, tornou-se um sucesso tanto de crítica quanto de público - e, com cinco Oscar no currículo, entrou para a história como o recordista de estatuetas a não ser indicado na categoria principal. É bem provável que seu tom crítico tenha assustado parte da Academia (que premiou "O maior espetáculo da Terra" como o melhor do ano), mas o fato é que seu roteiro (este sim devidamente oscarizado) se mantém atual e potente até os dias de hoje, quando a fogueira das vaidades hollywoodiana ainda queima com a mesma velocidade e voracidade de seis décadas atrás.
A maior sacada do roteiro de Charles Schnee é jamais apresentar seu protagonista a não ser através do ponto de vista de alguns de seus maiores desafetos. É a partir deles - todos com razões o bastante para detestá-lo - que sua personalidade vai tomando forma diante do espectador, que vai formando, aos poucos, um quebra-cabeça cuja resolução mostra um homem ambicioso, cruel e egocêntrico, mas com um talento incomum e uma capacidade única de manipular todos à sua volta. Interpretado com gosto por um Kirk Douglas no auge do carisma, o produtor Jonathan Shields é um anti-heroi no sentido mais perfeito do termo: por mais elegante, charmoso e sedutor que seja, seus objetivos nunca são nobres ou altruístas, e as pessoas que o cercam servem apenas como degraus para sua ascensão ao poder. Filho de um produtor que morreu na miséria, ele é obstinado em fugir do mesmo destino, mesmo que, para isso, precise passar por cima de outras pessoas e sentimentos. Amor, amizade e lealdade são conceitos abstratos para ele - desde que ele ganhe dinheiro, prêmios e bajulação, isso é o que lhe importa e é isso que poderá ser o seu fim. Afinal de contas, em qualquer lugar, toda ação tem uma reação, e é assim que a trama tem começo.
A primeira sequência do filme já dá uma pequena amostra do que virá: o cineasta Fred Amiel(Barry Sullivan), a atriz Georgia Lorrison (Lana Turner) e o escritor/roteirista James Lee (Dick Powell) recebem ligações internacionais, de Paris, do produtor Jonathan Shields, ansioso em falar-lhes a respeito de um novo filme, que pode dar um novo impulso à sua carreira. Nenhum dos seus três antigos colaboradores sequer cogita a ideia de ouvir sua proposta, e são reunidos, então, no escritório de Harry Pebbel (Walter Pidgeon), chefe de estúdio que tenta convencê-los a, ao menos, saber do que se trata o contato do ex-poderoso produtor. É então que todos passam em revista suas experiências com Shields, repletas de traições, mentiras e humilhações. Fred, por exemplo, começou a carreira junto com ele, em produções B de terror - e na primeira oportunidade de adquirir prestígio, foi traído. Georgia, com problemas de alcoolismo, recebe sua ajuda para abandonar sua trajetória de figurante para tornar-se uma estrela, mas é humilhada e abandonada por ele justamente quando parecia estar no rumo certo. E James, a seu pedido, penetra no mundo do cinema e acaba por ver sua esposa, Rosemary (Gloria Grahame, vencedora do Oscar de coadjuvante), envolvida por outro homem graças a armações de Shields. As histórias se unem em um mesmo retrato do protagonista - um retrato pouco agradável, sem dúvida, mas fascinante do ponto de vista do espectador.
Assim como Eve Harrington - a antagonista de "A malvada", interpretada por Anne Baxter -, Jontahan Shields é um personagem francamente detestável, mas ao mesmo tempo é absolutamente irresistível dramaticamente. Kirk Douglas teve a sorte de ficar com o personagem depois da desistência de Clark Gable, e entrega uma de suas melhores atuações, equilibrada perfeitamente entre o charme e a arrogância. Lana Turner, assim como Douglas, está no melhor momento de sua carreira, e é surpreendente que tenha sido apenas Gloria Grahame a vencedora do Oscar - com menos de dez minutos em cena, ela não se destaca tanto assim, especialmente em comparação com os colegas de elenco. Em todo caso, o roteiro premiado de Charles Schnee é uma obra de arte, revelando sem medo vários lados obscuros da indústria hollywoodiana - ironicamente, no mesmo ano, "Cantando na chuva" também lançava um olhar sobre o mesmo tema, mas de forma bem mais carinhosa e romântica. Assim como na trama de Schnee - em que até mesmo a crueldade tem seu discreto charme -, o mundo do cinema igualmente pode ser visto por mais de um ângulo. E o ângulo mostrado por "Assim estava escrito" é sombrio, cínico e mordaz, com um desfecho brilhante. Sensacional!
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segunda-feira
sábado
SPARTACUS
SPARTACUS (Spartacus, 1960, Universal Pictures, 197min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Dalton Trumbo, romance de Howard Fast. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Robert Lawrence. Música: Alex North. Figurino: Valles. Direção de arte/cenários: Alexander Golitzen/Russell A. Gausman, Julia Heron. Produção: Edward Lewis. Elenco: Kirk Douglas, Laurence Olivier, Jean Simmons, Charles Laughton, Peter Ustinov, John Gavin, Nina Foch, Tony Curtis, John Ireland. Estreia: 06/10/60
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.
A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.
De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.
A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!
6 indicações ao Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor de 4 Oscar: Ator Coadjuvante (Peter Ustinov), Fotografia em Cores, Figurino em Cores, Direção de Arte/Cenários em Cores
Vencedor do Golden Globe de Melhor Filme/Drama
Quando o diretor inglês Stanley Kubrick foi chamado para substituir Anthony Mann no comando do épico "Spartacus", em 1960, ele ainda não havia realizado aquele filme que lhe consagraria e marcaria para sempre seu estilo detalhista ao ponto da obsessão: a ficção científica existencial "2001: uma odisseia no espaço", que só estrearia em 1962. Isso explica porque a história do escravo que se rebela contra o Império Romano quase um século antes de Cristo tem bem menos a ver com sua obra posterior e bem mais com os questionamentos políticos de um roteiro assinado pelo ex-renegado de Hollywood Dalton Trumbo - acusado de colaborar com os comunistas perseguidos pelo governo americano, Trumbo finalmente pode ver nome estampado nos créditos de um filme sem submeter-se a artimanhas intelectuais como a que quase lhe impediu de ganhar o Oscar pela comédia "A princesa e o plebeu". Aproveitando-se da trama criada pelo escritor Howard Fast em seu livro homônimo - por sua vez inspirado em uma história real - Trumbo explorou-lhe ao máximo as nuances políticas, para desgosto do próprio Kubrick, que não concordava com tal viés, e de alguns nomes de Hollywood que não viam com bons olhos a volta do roteirista à atividade normal - caso do ator John Wayne e da colunista Hedda Hopper, que começaram uma campanha contra o filme mesmo antes de sua estreia, com a alegação de que ele era "propaganda marxista". Um problema a mais para seu astro, Kirk Douglas, que via sua tentativa de mostrar à indústria que poderia realizar um épico à altura de "Ben-hur" (59) - papel que ele havia disputado com fervor - mostrar-se bem mais complicada do que parecera em um primeiro olhar.
A deserção de Anthony Mann da cadeira de diretor não foi o único problema da pré-produção. Ainda antes de Mann entrar no projeto outros cineastas já haviam declinado do convite de Douglas. Enquanto Joseph L. Mankiewicz e David Lean simplesmente recusaram a proposta, Laurence Olivier preferiu não misturar duas funções - ele já estava escalado como o grande vilão da história, Marcus Crassus. Mann, no entanto, não permaneceu muito tempo ligado ao filme: apesar de já ter filmado algumas cenas iniciais, logo foi afastado por Douglas, que percebeu nele uma afabilidade excessiva que prejudicava sua forma de lidar com o elenco repleto de grandes atores (e seus respectivos egos). A contratação de Stanley Kubrick, no entanto, acabou por revelar-se não uma solução, mas um problema a mais a ser driblado: dono de uma personalidade forte, o inglês bateu de frente com o diretor de fotografia Russell Metty - que reclamava constantemente das interferências do cineasta em seu trabalho e chegou até a pedir para ter seu nome retirado dos créditos, antes de ser premiado com o Oscar - e com Dalton Trumbo, de quem discordava a respeito da personalidade do protagonista, que considerava puro e sem defeitos demais para ser real. Somados a isso, havia a falta de afinidade entre Laurence Olivier e Charles Laughton - conhecidos desafetos - e os ataques de estrelismo de Laughton, que ameaçava constantemente processar os produtores, já preocupados com o medo da Universal com o teor considerado "subversivo" da história sob o olhar de Trumbo.
De certa forma, os temores da Universal tinham certo fundamento: desafiando o poderoso senador Joseph McCarthy ao recusar-se a delatar colegas com ligações comunistas e impedido de trabalhar em Hollywood por mais de uma década, Dalton Trumbo aproveitou a chance de ouro oferecida por Kirk Douglas para não apenas fazer um retorno triunfal - que coincidiu também com seu trabalho em "Exodus", de Otto Preminger - mas também para fazê-lo com um filme cujo tema combinava perfeitamente com sua ideologia. Porém, enquanto Kirk Douglas via a luta de Spartacus como uma metáfora para a fuga dos judeus do Egito, Trumbo via a ação como um símbolo da Guerra Fria. Não chegou a ser uma questão problemática: de qualquer modo que se veja "Spartacus", o filme de Kubrick é um poderoso drama de ação, repleto de cenas de grande impacto visual e personagens construídos com esmero, que servem facilmente a qualquer leitura ideológica que contraponha opressores e oprimidos.
A história é simples e direta: Spartacus (interpretado com vigor por Kirk Douglas) é um escravo rebelde, que não se conforma com o tratamento que recebe de seus senhores, na Roma pré-era cristã. Quando é vendido e passa a treinar para ser um gladiador, ele se apaixona por outra cativa, Varínia (Jean Simmons, em papel oferecido à Ingrid Bergman e para o qual Kubrick queria Audrey Hepburn) e, depois de matar um dos treinadores, começa a liderar um exército de amotinados que desafia o poder romano - em especial o cruel Marcus Crassus (Laurence Olivier). Perseguido e cada vez mais idolatrado pelos companheiros, ele se torna uma lenda, enquanto não se cansa de bradar contra as injustiças e os desmandos do governo. Indicado a seis Oscar - e premiado em quatro categorias, inclusive ator coadjuvante para Peter Ustinov como o diretor da escola de gladiadores - "Spartacus" fez grande sucesso de bilheteria, mas acabou rejeitado por Stanley Kubrick, famoso posteriormente pelo controle total sobre seus filmes. Em 1991, ocasião em que foi restaurado digitalmente, teve cenas cortadas à época de seu lançamento finalmente incorporadas à metragem original (Laurence Olivier foi dublado por Anthony Hopkins, uma vez que a trilha sonora havia sido perdida), dando novas nuances à relação entre Crassus e seu escravo Antoninus (Tony Curtis), eliminada então por seu teor homoerótico, uma subtrama que enriquece ainda mais o belo trabalho conjunto de Douglas, Kubrick e Trumbo. Um épico legítimo e inquestionável!
sexta-feira
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES
A MONTANHA DOS SETE ABUTRES (Ace in the hole/The big Carnival, 1951, Paramount Pictures, 111min) Direção: Billy Wilder. Roteiro: Billy Wilder, Lesser Samuels, Walter Newman. Fotografia: Charles B. Lang Jr.. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Hugo Friedhofer. Figurino: Edith Head. Direção de arte/cenários: Earl Hedrick, Hal Pereira/Sam Comer, Ray Moyer. Produção: Billy Wilder. Elenco: Kirk Douglas, Jan Sterling, Bob Arthur, Porter Hall, Frank Cady, Richard Benedict, Ray Teal. Estreia: 14/6/61.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.
Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.
Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.
É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.
Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Billy Wilder não era um homem acostumado a meias-palavras, meias-imagens e dubiedades. Quando quis mostrar o lado cínico de Hollywood, ele fez "Crepúsculo dos deuses" (1950). O mesmo quando fez um retrato realista do alcoolismo em "Farrapo humano" (1945), das mazelas que se escondiam sob um prédio de escritórios em "Se meu apartamento falasse" (1960) e das escapadas extraconjugais (ainda que apenas imaginadas) em "O pecado mora ao lado" (1955). Seja com contundência ou com seu humor amargo e irônico (quase cínico), o cineasta austríaco consagrou-se em Hollywood com seu peculiar ponto de vista que, a despeito dos muitos prêmios e dos frequentes sucessos de bilheteria, normalmente despertavam polêmica ou, no mínimo, um olhar mais cuidadoso dos censores e dos membros mais suscetíveis da sociedade norte-americana. E um de seus mais incisivos petardos, o controverso "A montanha dos sete abutres" foi, talvez, um dos alvos mais destacados alvos dessa suspeita sensibilidade ianque.
Baseada em fatos reais - o que levou o diretor/roteirista ao banco dos réus em um processo de plágio que acabou perdendo - "A montanha dos sete abutres" foi um grande fracasso de bilheteria e crítica à época de seu lançamento, em grande parte talvez pela dureza de sua trama, a falta total de humanidade de seus personagens e pelo fato de, de certa forma, acusar o próprio espectador de compactuar indiretamente com os fatos narrados, através da apatia e da sede insaciável por sensacionalismo (o que mantém o filme atualíssimo ainda hoje, mesmo depois de seis décadas). Enquanto em seus filmes anteriores Wilder sempre arrumava um espaço para um certo senso de humor (ainda que distorcido por sua visão quase pessimista do mundo), neste seu ataque à irresponsabilidade da mídia ele deixa de lado qualquer brincadeira, enfatizando o lado egoísta e interesseiro de seus personagens com lente de aumento.
Kirk Douglas - em sua única colaboração com Wilder - está inspiradíssimo na pele de Chuck Tatum, um inescrupuloso e cínico jornalista que tenta recomeçar sua carreira em um pequeno jornal do interior dos EUA depois de ser demitido de seu emprego em Nova York (de onde saiu graças à sua paixão pela bebida, pela mentira e pelas mulheres, em especial a do chefe). Depois de um ano sentindo-se preso à absoluta falta de perspectivas de uma melhora na carreira - haja visto que nada de excitante acontece à sua volta - ele vê sua grande chance na figura de um desconhecido, um minerador chamado Leo Minosa (Richard Benedict), preso devido a um deslizamento de terra em uma caverna localizada em um lugar apropriadamente chamado A Montanha dos Sete Abutres. Sentindo o cheiro de uma grande matéria no ar, Tatum não hesita em utilizar-se de todos os artifícios pouco éticos de sua personalidade para retardar o resgate. Sua intenção - que acaba sendo compartilhada pelos ambiciosos moradores locais - é uma só: transformar o calvário do rapaz em manchete nacional. Adiando cada vez mais a salvação de Leo, o jornalista conta com a ajuda do xerife da cidade, com os comerciantes (que se veem lucrando quando o local torna-se ponto turístico) e até com a cínica esposa do trabalhador, a fria Lorraine (Jan Sterling), que acaba se envolvendo com o repórter.
É lógico que uma história como essa não pode terminar bem, e Wilder aproveita a contundência da trama para que ela fale por si mesma. Enquanto Leo Minosa pena em sua tortura particular - sem movimentos, com pouca comida, pouca água e pouco ar - e confia em Tatum como sua única salvação, a pequena localidade que o conhece desde sempre lucra como nunca, chegando a cobrar ingressos para um simples vislumbre do local do acidente (e o fato do rapaz ainda estar preso lá dentro pouco importa aos ávidos frequentadores de parques de diversão que enxergam na tragédia apenas um acontecimento pitoresco). A Lorraine Minosa de Jan Sterling é ainda mais cruel, quase aproveitando a situação do marido para dar o fora de seu inferno particular - um casamento insosso. É dela a frase mais marcante do filme (e que, segundo consta, veio da imaginação da sra. Wilder, Audrey Young): "Eu não me ajoelho para rezar. Rasga as minhas meias." O tom ácido da frase permeia todo o roteiro e todas as imagens de "A montanha dos sete abutres", secas, diretas, sem poesia ou beleza que disfarcem a maldade inerente aos seres humanos que retrata. É Billy Wilder sendo Billy Wilder, ou seja, cinema de primeira qualidade a serviço de uma trama que incomoda pela verdade.
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