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segunda-feira

ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO

 


ANTES QUE O DIABO SAIBA QUE VOCÊ ESTÁ MORTO (Before the devil knows you're dead, 2007,  Capitol Films/Funky Buddha Productions/Unity Productions, 117min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Kelly Masterson. Fotografia: Ron Fortunato. Montagem: Tom Swartwout. Música: Carter Burwell. Figurino: Tina Nigro. Direção de arte/cenários: Christopher Nowak/Diane Lederman. Produção executiva: Belle Avery, Jane Barclay, David Bergstein, J. J. Hoffman, Eli Klein, Hannah Leader, Jeffry Melnick, Sam Zaharis. Produção: Michael Cerenzie, William S. Gilmore, Brian Linse, Paul Parmar. Elenco: Phillip Seymour Hoffman, Ethan Hawke, Marisa Tomei, Albert Finney, Rosemary Harris, Amy Ryan, Michael Shannon. Estreia: 07/9/2007 (Deauville Festival of American Cinema)

No mínimo desde "12 homens e uma sentença" (1957) - passando por clássicos absolutos como "Serpico" (1973), "Um dia de cão" (1975) e "Rede de intrigas" (1976) -, o cineasta Sidney Lumet acostumou-se a entregar ao público produções que apresentavam personagens dúbios, falíveis e dispostos a correrem riscos em nomes de objetivos quase sempre suicidas. Depois de um longo período de obras menores e/ou sem repercussão popular e de crítica, ele voltou a seu tema preferido em "Antes que o diabo saiba que você está morto", uma poderosa mescla de filme policial e drama familiar que acabou por ser, sem que ele mesmo soubesse disso, seu canto do cisne. Dirigindo com precisão cirúrgica o trágico e surpreendente primeiro roteiro de Kelly Masterson, o veterano Lumet demonstra uma vitalidade rara para um artista octogenário, mantendo o espectador atento a cada reviravolta e cada nuance revelada por seus protagonistas. E é lógico que ajuda muito contar, no elenco, com atores brilhantes como Philip Seymour Hoffman, Ethan Hawke e Albert Finney - em uma de suas últimas aparições nas telas.

Com ecos de Shakespeare em sua trama - imprevisível e pessimista -, "Antes que o diabo saiba que você está morto" apresenta dois irmãos de personalidades opostas que se unem para cometer um crime aparentemente perfeito: o roubo a uma joalheria familiar em uma manhã de pouco movimento. Andy (Philip Seymour Hoffman) está em vias de ter descoberto o desfalque que deu na empresa onde trabalha, enquanto Hank (Ethan Hawke) vive sob a pressão de dever a pensão para a ex-mulher ao mesmo tempo em que se culpa por não conseguir ser o filho que seu pai, Charles (Albert Finney), sonhava ter. Com o fracasso do assalto - que acaba em duas mortes - a vida da família vira do avesso: chantageados pelo irmão de uma das vítimas (que sabe de sua responsabilidade na tragédia), Andy e Hank entram em um caminho de sangue, violência e traições, que envolve Gina (Marisa Tomei) - esposa de um e amante do outro - e o próprio patriarca.

 

Contada de forma não linear, recheada de idas e vindas no tempo que servem para oferecer ao público as peças que formam seu quebra-cabeças, a trama do filme de Lumet se utiliza de tal artifício não como muleta narrativa, mas como parte fundamental de sua estrutura. Conforme novas informações a respeito dos acontecimentos que levaram ao crime - e suas consequências - vão surgindo diante do espectador, mais potentes as camadas vão se revelando, reafirmando o tom fatalista da expressão irlandesa que empresta o nome à produção. As surpresas reservadas a cada capítulo - com uma edição primorosa, que explicita apenas o que é necessário no momento - tornam "Antes que o diabo saiba que você está morto" um drama policial que rompe com as tradicionais engrenagens do gênero, aprofundando as relações interpessoais até o limite da inevitável ruptura. Com três focos distintos - Andy, Hank e Charles - que se intercalam e se completam, o roteiro de Kelly Masterson empolga exatamente por sua capacidade de surpreender e por sua coragem em chegar a desdobramentos que a maioria das produções do gênero evita a todo custo. E não atrapalha em nada que Lumet possa contar com um elenco absolutamente impecável.

Assim como seus personagens, Philip Seymour Hoffman e Ethan Hawke são atores de personalidades distintas, e o experiente cineasta explora com precisão tais diferenças, em cenas de crescente tensão que enfatizam suas qualidades como intérpretes e potencializam cada linha de diálogo. O veterano Albert Finney tampouco fica atrás, com ao menos duas sequências arrepiantes - uma delas encerrando de forma chocante o drama familiar estabelecido nos primeiros minutos. E em um elenco tão incrível, o único senão é o pouco aproveitamento de Rosemary Harris e Amy Ryan - partes femininas de um clã onde apenas Marisa Tomei tem reais chances de brilhar. Forte e coeso, o conjunto de atores (premiado por várias associações de críticos) é a tradução perfeita de um roteiro inteligente, uma direção energética e, o que é mais importante de tudo, uma história envolvente. Um adeus digno da grandeza de seu diretor.

quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

sábado

DO QUE AS MULHERES GOSTAM

DO QUE AS MULHERES GOSTAM (What women want, 2000, Paramount Pictures/Icon  Entertainment International, 127min) Direção: Nancy Meyers. Roteiro: Josh Goldsmith, Cathy Yuspa, estória de Josh Goldsmith, Cathy Yuspa, Diane Drake. Fotografia: Dean Cundey. Montagem: Thomas J. Nordberg, Stephen A. Rotter. Música: Alan Silvestri. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jon Hutman/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Carmen Finestra, Stephen McEveety, David McFadzean. Produção: Susan Cartsonis, Bruce Davey, Gina Matthews, Nancy Meyers, Matt Williams. Elenco: Mel Gibson, Helen Hunt, Alan Alda, Marisa Tomei, Judy Greer, Sarah Paulson, Bette Midler, Mark Feuerstein, Lisa Edelstein, Loretta Devine. Estreia: 13/12/2000

No ano 2000, poucos astros de Hollywood eram tão confiáveis, em termos de bilheteria, quanto Mel Gibson. Além de popular, ele também agradava à crítica, com desempenhos elogiados como sua interpretação em  "O preço de um resgate" (96) e os Oscar conquistados por seu "Coração valente", premiado pela Academia como o melhor filme de 1995. Seu apelo comercial era tão grande que até mesmo um filme previsível e apenas correto rendeu, só no mercado doméstico, mais de 180 milhões de dólares (colaborando para uma arrecadação total de pouco menos de 375 milhões. Tudo bem que sua parceira de cena era Helen Hunt, premiada com o Oscar de melhor atriz pouco tempo antes - por "Melhor é impossível", de 1997 -, mas foi seu carisma o principal responsável pelo êxito de "Do que as mulheres gostam", uma comédia romântica inofensiva e quase esquecível dirigida por Nancy Meyers - a mesma cineasta que se especializaria no gênero, mas com uma dose extra de inteligência e elegância.

Meyers, cuja única experiência havia sido o remake de "Operação Cupido", de 1998 - que ela havia co-dirigido pelo então marido Charles Shyer - foi contratada apenas para reescrever um roteiro concebido pela Touchstone para o estrelato de Tim Allen, um ator de grande sucesso nos EUA mas pouco celebrado internacionalmente. Com o roteiro pronto, ela chegou à conclusão de que ninguém seria melhor do que ela mesma para comandar - e pediu à Paramount, novo estúdio do projeto, para assinar também a direção e a co-produção. Pedido aceito e filme realizado, ficou claro para todos que, mesmo que outros pudessem ter sido o diretor, poucos falariam do assunto com tanta propriedade quanto Meyers. uma mulher bem-sucedida em um campo onde a grande maioria é formada por homens. Muitas das falas de sua protagonista feminina, Darcy Maguire, interpretada com correção por Helen Hunt, poderiam sair diretamente de suas memórias de sobrevivência no mercado de trabalho. Apesar disso, falta um pouco de consistência no resultado final de ""Do que as mulheres gostam": mesmo com algumas sequências bastante inspiradas e uma trilha sonora das melhores - que vão de Frank Sinatra a Alanis Morissette - o filme termina sem explorar todas as situações que apresenta no começo, e apela para um final feliz apressado e superficial, apesar de ter pouco mais de duas horas de duração.


A trama, improvável mas divertida, é mais um capítulo da série de guerras dos sexos que Hollywood sempre promoveu nas telas, com resultados os mais diversos - de Katharine Hepburn/Cary Grant a Meg Ryan/Tom Hanks, passando pelos icônicos Doris Day/Rock Hudson. Gibson vive Nick Marshall, um publicitário mulherengo e pouco sensível às necessidades das mulheres à sua volta - ex-esposa, filha adolescente, colegas de trabalho e eventuais amantes. Talentoso mas famoso por seu machismo, ele acaba perdendo a promoção que buscava para a igualmente competente Darcy McGuire, responsável por ser a responsável por conquistar o mercado feminino. Desgostoso com a situação, Nick se embebeda em seu apartamento e, enquanto tenta sentir o que as mulheres passam com seus rituais de beleza - o que inclui depilação por cera quente -, sofre um acidente doméstico e acorda com um dom inesperado: ouvir o pensamento de todas as mulheres à sua volta. A princípio totalmente desesperado com a novidade, ele descobre, em uma visita a uma terapeuta (interpretação não creditada da sempre ótima Bette Midler), que, em vez de uma maldição, sua nova condição pode ser uma bênção. Com esse novo olhar sobre o fato, Nick resolve utilizá-lo para roubar as ideias de Darcy e recuperar suas chances de promoção. Porém, como em toda boa comédia romântica, ele se apaixona pela nova colega, que, por sua vez, está encantada com a "sensibilidade feminina" de quem ela considerava desprezível pela forma com que tratava o "sexo frágil".

Meyers consegue fazer rir em boa parte do filme, principalmente quando mostra Nick tentando tirar vantagem de seus novos poderes - suas cenas com Marisa Tomei são engraçadíssimas, tanto no esperado encontro entre os dois quanto na revelação de seu "segredo". Os momentos de Nick antes do acidente são igualmente divertidos, apesar da canastrice de Gibson, e sua química com Marisa solta faíscas - o que não acontece com sua dupla com Helen Hunt, uma boa atriz mas dona de um papel que não se presta a maiores voos. Quando brinca e não se leva a sério, o filme de Meyers conquista sem esforço, mas o mesmo não acontece quando decide ser romântico: quando Nick e Darcy começam a se acertar, o bom humor da primeira parte fica de lado e quase assume, inclusive, uma subtrama dramática que aproxima o publicitário de uma jovem estagiária (interpretada por Judy Greer, uma atriz ainda subaproveitada em Hollywood). No final do jogo, pode-se dizer que "Do que as mulheres gostam"  ganha mais do que perde, mas o resultado - que tinha tudo para ser uma goleada - é uma vitória apertada, sem o brilho que jogadores como Gibson e Hunt poderiam apresentar. É divertido, mas poderia ter sido muito melhor.

quinta-feira

A GRANDE APOSTA

A GRANDE APOSTA (The big short, 2015, Plan B Entertainment/Regency Enterprises, 130min) Direção: Adam McKay. Roteiro: Adam McKay, Charles Randolph, livro de Michael Lewis. Fotografia: Barry Ackroyd. Montagem: Hank Corwin. Música: Nicholas Britell. Figurino: Susan Matheson. Direção de arte/cenários: Clayton Hartley/Linda Sutton-Doll. Produção executiva: Kevin Messick, Louise Rosner-Meyer. Produção: Dede Gardner, Jeremy Kleiner, Arnon Milchan, Brad Pitt. Elenco: Ryan Gosling, Steve Carrell, Christian Bale, Brad Pitt, Marisa Tomei, Tracy Letts, Rafe Spall, Melissa Leo, Finn Wittrock. Estreia: 12/11/15

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Adam McKay), Ator Coadjuvante (Christian Bale), Roteiro Adaptado, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Adaptado 

Subprime. Trenchs. Bolha imobiliária. Termos como esses, comuns a quem lida com o mercado financeiro mas totalmente desconhecidos de 95% da população mundial, são frequentemente mencionados em "A grande aposta", vencedor do Oscar de melhor roteiro adaptado de 2015, batendo nomes fortes, como "Perdido em Marte", de Ridley Scott, e "Carol", de Todd Haynes. Dirigido pelo mesmo Adam McKay de "O Âncora" (2005) e "Tudo por um furo" (2013), e estrelado por astros do porte de Brad Pitt, Christian Bale, Ryan Gosling e Steve Carrell, o filme, baseado em uma história real, caiu nas graças da crítica e chegou a concorrer a outras quatro estatuetas, entre elas melhor filme e direção. Tanto sucesso (inclusive de bilheteria, já que ultrapassou os 70 milhões de dólares no mercado doméstico) não deixa de ser estranho e surpreendente: apesar do elenco milionário e das tentativas de familiarizar a plateia com seu palavreado técnico através de inserções cômicas e didáticas, "A grande aposta" não deixa de ser um filme muito complexo para os não-iniciados (e até para aqueles mais ou menos interessados no assunto). Como cinema é muito bom (bem editado, ágil, inteligente, com ótimos atores e uma direção precisa), mas falha em sua principal missão: se fazer compreender completamente.

Talvez seja exagero afirmar que é preciso um conhecimento prévio de economia para melhor aproveitar todos os detalhes de "A grande aposta", mas é fato que inúmeros de seus diálogos são repletos de jargões e conceitos simplesmente complicados demais para o padrão médio do público. A trama - dividida em vários núcleos cuja intersecção é justamente a grande crise imobiliária de 2005, que arruinou milhares de americanos e causou uma onda de demissões, falências e prisões - apresenta personagens pouco simpáticos, quase todos francamente amorais e/ou meramente gananciosos, o que dificulta ainda mais sua conexão com o público, por mais que sejam interpretados por grandes atores. Quem sai-se melhor nesse quesito é Steve Carrell, que consegue imprimir um pouco de humanidade a seu Mark Baum, um homem torturado pelas lembranças do irmão suicida e por um casamento em frangalhos com a compreensiva Cynthia (Marisa Tomei). Afora ele, os personagens falham em se comunicar com a emoção da plateia, desfilando pela tela desesperados por dinheiro e tentando lucrar com a desgraça alheia. É difícil encontrar um ponto de conexão com qualquer um deles, o que, somado à relativa complexidade da trama, torna o espetáculo ainda mais árduo para o público que procura apenas um entretenimento leve. Por mais que o esforço da produção em se fazer entender seja louvável, o filme de Adam McKay esbarra na própria natureza de seu tema, hermético desde sempre.



Christian Bale chegou a ser indicado ao Oscar de ator coadjuvante - e é seu personagem quem dá o pontapé inicial na história: Michael Burry é um excêntrico investidor, dono de um olho de vidro e modos esquisitos que, analisando o mercado, percebe que em alguns anos a bolha imobiliária que sobrevive de hipotecas da população norte-americana irá estourar, causando uma crise sem precedentes na economia. Esperto, ele resolve apostar nessa certeza e compra milhares de dólares em títulos - e acaba chamando a atenção de outros ambiciosos especialistas no setor, entre eles o próprio Mark Baum, que entra por acaso no negócio depois de um telefonema por engano e leva seus sócios e colegas de trabalho com ele na aventura. É também buscando a fortuna rápida que dois jovens empresários, Charlie Geller (John Magaro) e Jamie Shipley (Finn Wittrock), embarcam na arriscada tentativa de vencer contra o mercado - e tudo é visto à distância (mas não muita) pelo experiente Jared Vennett (Ryan Gosling), que é uma espécie de narrador, que tenta dar luz a todas as tramoias e complicações do roteiro.

Baseado em um livro do mesmo Michael Lewis de "O homem que mudou o jogo" - em que Brad Pitt tentava vencer como gerente de um time de futebol americano baseado exclusivamente em cálculos matemáticos - e dotado de um ritmo empolgante que quase disfarça o fato de ser tão complicado, "A grande aposta" se ressente basicamente de tratar de um assunto tão radicalmente distante do público médio. Não há nada de errado em sua estrutura ou sua costura cinematográfica, tudo funciona como um relógio, desde as atuações inspiradas até a direção precisa e a edição exata. O que atrapalha é unicamente seu tema, por mais que o roteiro oscarizado tente traduzir em imagens e exemplos mundanos todo o festival de jargões e complexidades de seu universo. Quem quiser arriscar-se a uma sessão mesmo sabendo de antemão que deixará passar muitos detalhes tem muito com o que se divertir, mas não deixa de ser um tanto chato passar mais de duas horas batalhando arduamente com o cérebro quando o objetivo é se divertir. Não é um filme ruim, apenas bastante complicado.

terça-feira

DESCOMPENSADA

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, Apatow Productions, 125min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Amy Schumer. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: William Kerr, Paul Zucker. Música: Jon Brion. Figurino: Jessica Albertson, Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Debra Schutt. Produção executiva: David Householter. Produção: Judd Apatow, Barry Mendel. Elenco: Amy Schumer, Bill Hader, Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson, Lebron James, Marisa Tomei, Daniel Radcliffe. Estreia: 17/7/15

Os fãs de comédias românticas conhecem exatamente as engrenagens que as movem, e a julgar pela longevidade do gênero - um dos mais populares do cinema - não se importam muito com os clichês que as cercam. Por isso não deixa de ser saudável que um filme como "Descompensada" tenha feito tanto sucesso de bilheteria, alcançando uma marca superior a 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico: mesmo subvertendo muitas das regras básicas ditadas pela indústria quando se trata de histórias de amor tradicionais, o filme escrito e estrelado por Amy Schumer é, no fundo, mais um exemplar do estilo, mas distorce seus elementos de forma tão debochada e contemporânea que soa como uma lufada de ar fresco em um universo bastante engessado. A começar pela presença de Schumer, cujo visual "gente como a gente" já a distancia das princesas bem vestidas e de corpo escultural que protagonizam tais histórias, o divertido filme dirigido por Judd Apatow - considerado o mestre das comédias adultas realizadas em Hollywood desde o sucesso de "O virgem de 40 anos", lançado em 2005 - foge dos estereótipos e aposta na reversão de papéis para conquistar o público. O resultado? Até mesmo a plateia masculina, normalmente avessa a comédias românticas, acaba se deixando seduzir pelo humor cáustico e no limite do chulo oferecido pelo roteiro.

Longe de ser a donzela desprotegida, frágil e romântica que se poderia esperar, a protagonista de "Descompensada" - sintomaticamente batizada de Amy, como a roteirista e atriz principal - é uma jornalista adepta de baladas, bebedeiras e sexo casual que não passa os dias esperando o príncipe encantado e nem acredita muito nessa história toda de "e foram felizes para sempre". Ao contrário da irmã caçula, Kim (Brie Larson, Oscar de melhor atriz por "O quarto de Jack"), Amy levou muito a sério o discurso de seu pai para justificar as traições à sua mãe e não vê muitas vantagens na monogamia e na fidelidade. Tudo começa a mudar quando ela é escalada por sua arrogante chefe, Dianna (Tilda Swinton, surpreendente), para uma série de entrevistas com um jovem médico chamado Aaron Conners (Bill Hader), conhecido como cirurgião de celebridades esportivas. Logo de cara Amy vai pra cama com o entrevistado, mas, ao contrário do que poderia esperar, a relação aos poucos vai se tornando mais séria, para seu desespero e surpresa. O problema é que Amy não sabe comportar-se em uma relação duradoura, e quando Aaron assume estar apaixonado tudo que ela consegue fazer é trocar os pés pelas mãos.


Fazendo piada a respeito de qualquer assunto sem medo de soar politicamente incorreto, o roteiro de "Descompensada" é uma sucessão de bobagens extremamente divertidas, que mesclam o típico humor "vergonha alheia" com momentos bastante inteligentes, com diálogos repletos de referências culturais, com direito até a participações especiais de Daniel Radcliffe e Marisa Tomei - em um filme dentro do filme - e Matthew Broderick e Martin Short como eles mesmos (uma prova do poder de fogo de Appatow em Hollywood). O que mais chama a atenção no filme, no entanto, é sua coragem em ter uma protagonista tão fora dos padrões de beleza e comportamento ditados por Hollywood através dos anos. Com um linguajar de corar cantores de funk e atitudes de fazer muitas moderninhas de plantão se roer de inveja, Amy dificilmente pode ser considerada uma heroína convencional, mas o carisma de Schumer (em um papel que é a sua cara) é o bastante para que a plateia fique do seu lado mesmo quando ela comete uma série de erros que podem comprometer sua felicidade. Suas cenas com a irmã e o enteado dela (um moleque nerd que mais a apavora do que qualquer outra coisa) são hilariantes, e sua química com Bill Hader é inegavelmente perfeita. Hader - que já havia demonstrado ser um ótimo parceiro de cena quando interpretou o irmão gay de Kristen Wiig em "Irmãos Desastre" (2014) - se confirma como um ator versátil e dono de uma simpatia contagiante, a perfeita definição de cara normal, com quem o espectador pode facilmente se conectar. Juntos, eles formam o mais improvável dos casais - e por isso mesmo parecem tão reais.

As fãs de histórias de amor mais convencionais talvez se incomodem com o tanto de subversão de "Descompensada", que não hesita em quebrar todos os paradigmas da comédia romântica. Porém, aquelas que se despirem de preconceitos e estiverem dispostas a rir de si mesmas podem ter uma bela surpresa: poucas vezes um filme do gênero conseguiu ser tão abusado, ousado e sem papas na língua. Amy Schumer não tem medo de servir de material para suas próprias piadas e, ao contrário do que normalmente acontece, os coadjuvantes são tratados com inteligência e sensibilidade - desde o pai irascível da protagonista até seus colegas de trabalho (em especial a chefe vivida por Tilda Swinton e o estagiário interpretado por Ezra Miller, seu filho no drama "Precisamos falar sobre o Kevin", de 2011): são personagens secundários, sim, mas com importância o bastante para determinar alguns rumos da narrativa e fazer rir ao mesmo tempo - a cena em que Amy vai pra casa do colega adolescente e descobre que ele tem preferências sexuais um tanto exóticas é, sem dúvida, candidata à antológica.

Ainda é cedo para dizer se Amy Schumer - atriz com a mesma verme cômica de Tina Fey, Amy Pohler e Kristen Wiig - irá firmar-se no universo do humor hollywoodiano ou se é apenas fogo de palha. Indicada ao Golden Globe ela já foi - assim como seu filme. Aprovada pelo público idem. Resta ficar de olho e descobrir se fará as escolhas certas para manter-se no jogo ou se irá ser relegada a um injusto esquecimento. Até lá, é deliciar-se com as desventuras amorosas e sexuais de seu encantador alter-ego.

O AMOR É ESTRANHO

O AMOR É ESTRANHO (Love is strange, 2014, Parts and Labor, 94min) Direção: Ira Sachs. Roteiro: Ira Sachs, Mauricio Zacharias. Fotografia: Christos Voudouris. Montagem: Affonso Gonçalves, Michael Taylor. Figurino: Arjhun Basin. Direção de arte/cenários: Amy Williams/Kendall Anderson. Produção executiva: Ali Betil, Mayank Bhatter, Abraham Brown, Marcy Feller, Gabby Hanna, Christos V. Konstantakapoulos, Jim Lande, Sophie Mas, Elika Portnoy, Blythe Robertson, Lourenço Sant'Anna, Jim Stephens, Rodrigo Teixeira, L.A. Teodosio. Produção: Lucas Joaquin, Lars Knudsen, Ira Sachs, Jayne Baron Sherman, Jay Van Hoy. Elenco: Alfred Molina, John Lithgow, Marisa Tomei, Darren Burrows, Charlie Tahan, Cheynne Jackson, Christina Kirk, Manny Perez, Eric Tabach. Estreia: 18/01/14 (Festival de Sundance)

Com os direitos dos homossexuais a cada dia mais garantidos nos EUA, um pequeno fenômeno começou a tomar conta da dramaturgia norte-americana: filmes e seriados que voltam seu olhar para a terceira idade, uma parcela da população gay normalmente relegada a notas de rodapé do gênero. Na televisão, "Transparent" mostra a reação de uma família quando o patriarca assume seu lado crossdresser (homens que se vestem de mulher sem necessariamente sentir-se atraídos por outros homens) e "Grace & Frankie" (com Jane Fonda e Lily Tomlin) conta a história de duas mulheres de setenta anos que precisam lidar com o fato de seus maridos serem amantes há anos. No cinema, um belo exemplo da vertente é "O amor é estranho", uma produção independente que estreou no Festival de Sundance de 2014 e conquistou elogios calorosos da crítica apesar de ter passado quase em brancas nuvens nos cinemas ianques quando estreou pra valer, no segundo semestre. Lembrado por premiações relativamente importantes - o Independent Spirit Awards o indicou em quatro categorias e o Satellite Awards em duas - o filme de Ira Sachs merece ser descoberto por inúmeras razões, mas a principal delas é, sem dúvida, a escolha certeira dos protagonistas.

Dois atores geniais e subestimados, Alfred Molina e John Lithgow são os principais nomes do elenco escalado por Sachs. O primeiro interpreta George Garea, um professor de música adorado pelos alunos e admirado pela comunidade acadêmica. Lithgow vive Ben Hull, um pintor talentoso mas pouco valorizado pelo mercado nova-iorquino. Os dois vivem juntos e apaixonadamente há quase quarenta anos e finalmente decidem se casar, amparados pelos novos ares libeirais que lhes permite a oficialização do relacionamento. A felicidade, porém, dura pouco. George é demitido da escola católica onde lecionava (culpa dos rígidos princípios morais da instituição) e, sem conseguir manter o apartamento onde moravam, os dois são obrigados a viver separadamente até que a situação se ajeite. George vai morar com um casal de amigos policiais, Ted (Cheynne Jackson) e Roberto (Manny Perez), e Ben passa a dividir o quarto com o adolescente rebelde Joey (Charlie Tahan), filho de seu sobrinho Elliott (Darren Burrows) e da escritora Kate (Marisa Tomei). Mesmo com a boa-vontade dos anfitriões, porém, eles não conseguem deixar de sentir falta de sua antiga vida, especialmente quando Ben passa a desconfiar que sua presença na casa do sobrinho pode estar causando uma crise em seu casamento.


Emocionante sem ser piegas e com senso de humor sem apelar para piadas previsíveis ou bobas, o roteiro de "O amor é estranho" conquista o espectador por ser o mais perto possível da realidade. Seus personagens centrais não são galãs assépticos tampouco símbolos sexuais desejáveis. As pessoas que os rodeiam não são vilões cruéis nem exemplos de bondade e altruísmo. Seus problemas são verossímeis - aluguel excessivo, preconceito, idade avançada - e seus momentos de felicidade soam extremamente genuínos, como se fossem de pessoas da família. Os diálogos são frescos, diretos, de uma simplicidade comovente e inteligente. E a forma como Sachs - que tem no currículo outro filme de temática gay, chamado "Deixe a luze acesa", de 2012, mais pesado e menos simpático - conduz sua narrativa tem uma suavidade que cativa a audiência e permite que ela chegue às cenas finais torcendo por um final feliz mais que merecido. Em cenas românticas nunca exageradas ou caricatas, Lithgow e Molina vivem momentos especialíssimos na carreira, construindo personagens que poderiam facilmente cair na armadilha do exagero de forma sutil e discreta. Juntos, eles formam um casal contra o qual é impossível não torcer.

Um drama romântico leve, sensível e repleto de boas intenções, "O amor é estranho" brinda o espectador com uma história que emociona e faz refletir, que faz questionar a forma como a vida é vivida e a importância de cada momento. É um trabalho simples e eficiente, capaz de arrancar lágrimas e sorrisos com a mesma facilidade. Merece ser descoberto.

quarta-feira

TUDO PELO PODER

TUDO PELO PODER (The ides of March, 2011, Cross Creek Pictures, 101min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov, Beau Willimon, peça teatral "Farragut North", de Beau Willimon. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Sharon Seymour/Maggie Martin. Produção executiva: Leonardo DiCaprio, Guy East, Barbara A. Hall, Jennifer Kiloran, Stephen Pevner, Nigel Sinclair, Todd Thompson, Nina Wolarsky. Produção: George Clooney, Grant Heslov, Brian Oliver. Elenco: Ryan Gosling, George Clooney, Evan Rachel Wood, Paul Giamatti, Philip Seymour Hoffman. Estreia: 31/8/11 (Festival de Veneza)

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado
Filmes sobre política, via de regra, são veneno de bilheteria. Mais afeitas a efeitos visuais, heróis mascarados e comédias óbvias de humor rasteiro, as plateias geralmente ignoram produções que tentam falar de assuntos mais sérios. Mesmo assim, tem gente que insiste. George Clooney é um integrante contumaz desse grupo de inconformados. Com o prestígio e o sucesso acumulado por anos de serviço à comunidade hollywoodiana – que perdoou até mesmo o fiasco que foi “Batman & Robin” (97) – Clooney conseguiu levar seu segundo longa-metragem atrás das câmeras, “Boa noite, e boa sorte” (05), às indicações ao Oscar de filme e diretor, sem falar em outras produções de notável teor sócio-político que, sem sua presença, provavelmente nem teriam visto a luz dos projetores – desde a comédia de guerra “Três reis” (00) até o altamente combustível “Syriana” (05), que lhe rendeu a estatueta de ator coadjuvante. Por isso, não é de surpreender que: a) ele tenha voltado ao tema político em seu quarto filme, e b) tal filme, “Tudo pelo poder”, tenha naufragado solenemente nas bilheterias americanas a despeito de seu nome e do grande elenco que o acompanha. Não deixa de ser uma injustiça: baseado na peça de teatro “Farraguth North”, escrita por Beau Willimon – que também co-assina o roteiro, ao lado de Clooney e de seu habitual colaborador e produtor Grant Heslov – “Tudo pelo poder” é um filmaço sobre os bastidores da luta partidária e as desilusões que inevitavelmente vem à reboque de sua podridão.
Em um ano particularmente espetacular em sua carreira, o canadense Ryan Gosling supera toda e qualquer expectativa na pele de Stephen Meyers, um jovem idealista que faz parte do comitê de campanha de Mike Morris (George Clooney em pessoa), pré-candidato do Partido Democrata à Presidência dos EUA. Morris, já aprovado como governador, é uma figura carismática, intensa e cuja plataforma eleitoral abarca os direitos civis, a ecologia e a pretensão de encerrar a sequência de guerras em que o país se viu envolvido. É também bem casado com uma mulher respeitável (Jennifer Ehle) e, mesmo não escondendo de ninguém seu ateísmo (um potencial problema em uma nação bastante religiosa), vê suas chances de ganhar a eleição aumentarem a cada dia. Convivendo diretamente com o chefe de campanha de Morris, o experiente Paul Zara (Philip Seymour Hoffman), Stephen vai tomando consciência de todos os meandros do mundo político, especialmente quando relacionados ao jogo sujo proporcionado pelo rival direto de Zara, o pouco confiável Tom Duffy (Paul Giamatti), que lhe acena com a possibilidade de mudar de time e passar a fazer parte da equipe rival. Trabalhando incansavelmente, Stephen encontra tempo para iniciar um romance com a estagiária Molly Stearns (Evan-Rachel Wood), despistar a onipresente repórter Ida Horowicz (Marisa Tomei) e descobrir, da pior forma possível, que até mesmo os mais impolutos ídolos tem pés de barro.


Sabendo da força da trama criada por Willimon – direta, simples, sem afetações e perigosamente realista – Clooney abriu mão de virtuosismos técnicos para concentrar seu foco no caminho de seu protagonista rumo à desilusão total e a consequente transformação de seu caráter diante do inesperado. O herói da história, Stephen Meyers – que Ryan Gosling vive com uma intensidade que se reflete em cada olhar, em cada expressão de angústia e desespero – serve como alter-ego do espectador, saltando de choque em choque em direção a trevas que ele jamais imaginou existir. Gosling executa com perfeição a transição de um jovem inocente e leal a uma raposa capaz dos atos mais baixos, como chantagem e mentira. É mérito do roteiro, inclusive, fazer com que essa transformação não soe repentina demais ou inverossímil: o público entende os motivos de Meyers. O público se solidariza com ele. E, para surpresa geral, o público aceita e aplaude quando a inocência se perde para sempre. No meio dos lobos, envolvido por conspirações subterrâneas, só o que resta a Meyers é tentar sobreviver da maneira mais eficiente – nem que para isso tenha que sacrificar a própria alma.
Esse pessimismo (realismo? cinismo?) do roteiro – que concorreu ao Oscar - não pode ser mais atual. Diante de uma política internacional que desrespeita até mesmo os mais óbvios conceitos de dignidade pessoal, a história de “Tudo pelo poder” soa não como um aviso, mas como um comentário ácido e perspicaz. Como forma de universalizar a trama, o roteiro foge da armadilha de tentar explicar a política americana, preferindo jogar seu foco nas relações humanas por trás dos palanques, um leque de relações tão ou mais revoltante. Para isso, conta com um elenco de coadjuvantes de ouro: Philip Seymour Hoffman dá olé em cada cena, Marisa Tomei nunca esteve tão bem, Paul Giamatti transmite com precisão o tom mefistofélico de seu personagem e Evan Rachel Wood está na medida certa de pureza e sedução. Mas o show é, sem dúvida, de Ryan Gosling. No mesmo ano em que criou o misterioso dublê envolvido com um perigoso grupo de criminosos no excepcional “Drive”, ele sustenta com firmeza de veterano um tratado doloroso sobre o desencanto. Merecia, no mínimo, uma lembrança da Academia. Mas seria esperar demais de um grupo tão conservador e arraigado a valores que o próprio filme faz questão de espatifar.

OS AGENTES DO DESTINO

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