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quarta-feira

TRATAMENTO DE CHOQUE

 


TRATAMENTO DE CHOQUE (Anger management, 2003, Revolution Studios, 106min) Direção: Peter Segal. Roteiro: David Dorfman. Fotografia: Donald McAlpine. Montagem: Jeff Gourson. Música: Teddy Castellucci. Figurino: Ellen Lutter. Direção de arte/cenários: Alan Au/Brad Davis, Chris Spellman. Produção executiva: Allen Covert, Todd Garner, Tim Herlihy, John Jacobs, Adam Sandler. Produção: Barry Bernardi, Jack Giarraputo. Elenco: Jack Nicholson, Adam Sandler, Marisa Tomei, John Turturro, Woody Harrelson, John C. Reilly, Luis Guzman, Alen Covert, January Jones. Estreia: 11/4/2003

Um tem doze indicações ao Oscar e três estatuetas para chamar de suas. O outro é frequentemente criticado por seus méritos artísticos ainda que de vez em quando surpreenda ao trabalhar com cineastas de prestígio. Um deles é um ícone absoluto do cinema hollywoodiano desde o final dos anos 1960. O outro entrou no imaginário popular somente a partir da década de 1990. Um deles passeou por todos os gêneros possíveis - começando com os filmes de horror de Roger Corman - e fez personagens tão díspares quanto um lobisomem quanto um escritor com TOC. O outro especializou-se em tipos comuns e dividiu-se entre comédias (românticas ou debochadas). Ambos tiveram filmes com bilheterias expressivas e tem uma legião de fãs - nem sempre os mesmos, mas em número considerável. Por mais diferentes que possam ser e por mais incompatíveis que pareçam, Jack Nicholson e Adam Sandler acabaram por revelar uma insuspeita química em "Tratamento de choque", uma comédia inofensiva que explora o melhor de cada um de seus protagonistas e conquista justamente pelo inusitado encontro de gerações.

Sem medo de apostar em algumas piadas fora do politicamente correto - mas sem os exageros dos irmãos Farrelly - e brincando com a febre dos coachs que assolava os EUA (e posteriormente se espalhou pelo mundo), o roteiro de "Tratamento de choque" mescla, com sucesso na maior parte do tempo, um filme sobre parceiros de personalidades opostas (subgênero popularíssimo e querido pelo público em geral) e uma comédia romântica com todos os ingredientes já conhecidos. Depois de uma breve introdução em que oferece à plateia um flashback explicativo sobre o trauma do protagonista em demonstrar carinho em lugares públicos, o filme começa com o jovem Dave Buznik (Adam Sandler) embarcando em uma viagem de negócios. O que deveria ser um voo tranquilo, no entanto, torna-se o começo de um pesadelo quando um pequeno mal-entendido o leva a ser expulso do voo e condenado a uma série de sessões de terapia para tratar de sua suposta agressividade. O médico escolhido pela juíza é o renomado Buddy Rydell (Jack Nicholson) - justamente o homem cujo comportamento deu início ao transtorno na viagem - e o atônito Dave se vê obrigado a um tratamento intensivo que inclui 24 horas por dia a seu lado. Dono de um estilo heterodoxo de cuidar de seus pacientes, Rydell se intromete em todos os setores da vida do rapaz - o que parece mais atrapalhar do que ajudar em suas questões profissionais e amorosas. Nem mesmo sua namorada, Linda (Marisa Tomei), parece estar imune aos arroubos pouco normais do médico, famoso por realizar milagres mesmo com seus métodos excêntricos.

 

Buddy Rydell parece um personagem sob medida para Jack Nicholson, que oferece ao público tudo aquilo que faz dele um dos mais queridos atores de sua geração - olhares insanos, a risada debochada, a sensação de perigo constante e um charme à toda prova. Porém, Nicholson não foi a primeira opção para o papel, que aceitou a conselhos de Kathy Bates, colega de Adam Sandler em "O rei da água" (1998): o primeiro ator pensado para interpretar o tresloucado terapeuta foi o de Eddie Murphy, e até que o veterano ator de "Um estranho no ninho" (1975) entrasse em cena, nomes como os de Robert DeNiro, Dustin Hoffman, Bill Murray e Steve Martin chegaram a ser considerados pelos produtores, cientes de que era imprescindível um astro de peso para dividir a cena com Sandler. Sem apresentar grandes novidades a seu repertório como intérprete - coisa que provavelmente nem era algo esperado por seu fiel séquito de fãs -, Sandler surpreende apenas em apostar em uma bem-vinda sutileza que se contrapõe à atuação a um passo do exagero (proposital) de seu veterano parceiro de cena. Os dois combinam tão bem que o filme se dá ao luxo de contar com participações especiais de gente como John C. Reilly e Woody Harrelson sem sair do foco central, que é sua conflituosa (e quase perversa) relação. O único senão é explorar tão pouco o talento da ótima Marisa Tomei, que pouco tem a fazer como o interesse romântico do protagonista.

"Tratamento de choque" é uma daquelas comédias que cumpre exatamente o que promete - e até chega a surpreender com uma reviravolta final que justifica alguns excessos cometidos no meio do caminho. O encontro entre Nicholson e Sandler é certeiro, boa parte das piadas funciona e a direção de Peter Segal não tenta sobressair-se ao real destaque da produção, que é o encontro de seus atores centrais. Pode não ser o melhor filme de suas carreiras e nem um trabalho para entrar na história do cinema, mas é divertido o bastante para arrancar gargalhadas sinceras e mostrar que Jack Nicholson é um dos raros atores capazes de transformar qualquer roteiro, por mais banal que seja, em uma experiência satisfatória. Coisa de quem sabe!

segunda-feira

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME

TRÊS ANÚNCIOS PARA UM CRIME (Three billboards outside Ebbing, Missouri, 2017, Fox Searchligth Pictures/Film4, 155min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Jon Gregory. Música: Carter Burwell. Figurino: Melissa Toth. Direção de arte/cenários: Inbal Weinberg/Melissa Lombardo. Produção executiva: Daniel Battsek, Rose Garnett, David Kosse, Diarmuid McKeown, Bergen Swanson. Produção: Graham Broadbent, Pete Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Frances McDormand, Woody Harrelson, Sam Rockwell, Lucas Hedges, John Hawkes, Peter Dinklage, Abbie Cornish, Zeljko Ivanek, Caleb Landry Jones. Estreia: 04/9/17 (Festival de Veneza)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Woody Harrelson/Sam Rockwell), Roteiro Original, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Oscar: Atriz (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell)
Vencedor de 4 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Atriz/Drama (Frances McDormand), Ator Coadjuvante (Sam Rockwell), Roteiro 

A presença da atriz Frances McDormand, a ambientação no interior dos EUA, os diálogos certeiros e uma visão crítica a respeito das instituições e do american way of life dão a impressão errada de que "Três anúncios para um crime" é um filme dos irmãos Joel e Ethan Coen, especialistas em encontrar particularidades na mais trivial das histórias. Porém, um dos filmes mais premiados e elogiados da temporada 2017 é apenas o terceiro longa-metragem de um cineasta inglês, nascido em 1970 e que logo em sua estreia, a comédia policial "Na mira do chefe" (2008), já havia conquistado uma indicação ao Oscar de roteiro original. Diretor também do subestimado "Sete psicopatas e um shih tzu", um suspense cômico com tons de metalinguagem, lançado em 2012, Martin McDonagh se tornava, de uma hora para outra, em um queridinho da crítica e uma surpreendente revelação para o público, que deixou, pelo mundo afora, mais de 150 milhões de dólares nas caixas registradoras - um sucesso impressionante, especialmente quando se leva em consideração seu custo irrisório de estimados 15 milhões.

Desde sua estreia, no Festival de Veneza (de onde saiu com o prêmio de melhor roteiro), "Três anúncios para um crime" tornou-se um nome forte para a temporada de premiações, principalmente graças ao trabalho primoroso de Frances McDormand e a força dos coadjuvantes interpretados por Woody Harrelson e Sam Rockwell. Antes que chegasse ao Golden Globe e levasse três estatuetas melhor filme e atriz na categoria drama, e roteiro) e ao Oscar, com sete indicações e dois prêmios (atriz e ator coadjuvante para Rockwell), o filme de McDonagh já havia sido laureado por críticos de Boston, Chicago, Detroit, Las Vegas, Londres e Toronto - além das vitórias do Independent Spirit e no Sindicato de Atores (o SAG). Com uma lista notável de prêmios e elogios do mundo todo, não foi nenhuma surpresa quando ficou entre os finalistas para o Oscar - a surpresa foi McDonagh ter sido esnobado na categoria de melhor diretor, uma injustiça imperdoável. Orquestrando com inteligência e sensibilidade um espetáculo centrado em atores e diálogos, o jovem cineasta não apenas criou uma trama instigante e personagens complexos - com segurança ímpar, deu espaço ao brilho de seu elenco sem jamais deixar de lado o que mais se espera de um diretor de cinema: contar uma boa história.


Fugindo dos clichês e das obviedades, "Três anúncios para um crime" já conquista o espectador nas primeiras cenas: inconformada com a falta de empenho da polícia em resolver o estupro e assassinato de sua filha adolescente, Mildred Hayes (Frances McDormand, em um desempenho de cair o queixo), funcionária de uma loja de presentes da pequena cidade de Ebbing, no Missouri, resolve cutucar as autoridades com vara curta. Por um ano, ela aluga três outdoors vagos na entrada da cidade, questionando o andamento das investigações e afrontando principalmente o chefe de polícia do local, William Willoughby (Woody Harrelson). A jogada chama a atenção da imprensa e movimenta a cidade, que passa a dividir-se em quem apoia a desesperada mãe e aqueles que não aprovam seu ato. Entre estes últimos está outro policial, Dixon (Sam Rockwell), racista, preconceituoso e violento, que praticamente toma para si o desaforo e passa a atormentar a vida de Mildred. Enquanto isso, ela lida com o filho vivo, Robbie (Lucas Hedges), o ex-marido abusador, Charlie (John Hawkes), e sua relação de compaixão com Willoughby, que lhe revela estar morrendo de câncer. A esta salada de personagens (bem construídos e vívidos), juntam-se a mãe dominadora de Dixon, um anão interessado em Mildred (participação especial de Peter Dinklage, da série "Game of Thrones") e outros moradores de Ebbing, cada qual com suas próprias idiossincrasias.

Fosse uma série de televisão, "Três anúncios para um crime" teria muito o que explorar, devido ao talento de Martin McDonagh em dotar cada um de seus personagens com características interessantes e imprevisíveis. Como é apenas um filme (e dos bons), ele se dedica a seus protagonistas, lhes dando espaço o bastante para o brilho individual e coletivo. Não à toa, tanto Sam Rockwell quanto Woody Harrelson foram indicados ao Oscar de coadjuvante, e se Rockwell saiu-se vencedor, boa parte do mérito deve-se ao arco dramático de seu personagem, talvez o mais surpreendente da trama. Frances McDormand - para quem o papel de Mildred Hayes foi especificamente escrito - dá um show na pele da sofrida e corajosa mãe, inserindo em sua interpretação uma fina ironia e uma intensidade de que só as melhores atrizes são capazes. Até mesmo o final do filme, inconclusivo para uns, é um sopro de originalidade e ousadia, o que imediatamente impõe em McDonagh grandes expectativas em relação a seu futuro como roteirista e diretor. "Três anúncios" perdeu o Oscar de melhor filme para o igualmente excelente "A forma da água", mas certamente escreveu seu nome na lista das grandes produções de sua época - e o tempo apenas irá reiterar seu status de cult.

domingo

TUDO POR JUSTIÇA


TUDO PELA JUSTIÇA (Out of the furnace, 2013, Relativity Media/Scott Free Productions, 116min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Scott Cooper, Brad Ingelsby. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Dickon Hinchliffe. Figurino: Kurt and Bart. Direção de arte/cenários: Thérèse DePrez/Melissa Lombardo. Produção executiva: Riza Aziz, Robbie Brenner, Ron Burkle, Jason Colbeck, Joe Gatta, Joey MacFarland, Christian Mercuri, Tucker Tooley, Jeff Waxman, Brooklyn Weaver. Produção: Michael Costigan, Jeniffer Davisson Killoran, Leonardo DiCaprio, Ryan Kavanaugh, Ridley Scott. Elenco: Christian Bale, Woody Harrelson, Casey Affleck, Willem Dafoe, Forest Whitaker, Sam Shepard, Zoe Saldana. Estreia: 09/11/13

Em 2009, Scott Cooper dirigiu "Coração louco", que finalmente deu o esperado e merecido Oscar de melhor ator a Jeff Bridges. Com o prestígio em alta, ele foi procurado por ninguém menos que Ridley Scott e Leonardo DiCaprio, que lhe ofereceram o roteiro de um filme que eles queriam produzir - depois de pensarem por um tempo em assumir como diretor e astro, respectivamente. Cooper adorou a história, escrita por Brad Ingelsby, mas achou que poderia fazer alguns ajustes para melhorá-la, incluindo nela alguns elementos de sua própria experiência de vida. Com o ator Christian Bale em mente para o papel principal, ele transformou "The Low Dweller" em "Out of the furnace" e, para sua surpresa, o Batman mais aplaudido do cinema se mostrou muito interessado no projeto. Em Hollywood, porém, agendas são um problema, e Bale, mesmo encantado com a possibilidade de protagonizar o novo filme de Cooper, tinha inúmeros compromissos profissionais a cumprir. Cooper não queria fazer o filme sem seu astro, e somente em abril de 2012 as filmagens começaram - e o que parecia o capricho de um cineasta em começo de carreira mostrou-se um tiro certeiro: na pele de Russell Baze, o trágico protagonista de "Tudo pela justiça", Bale mais uma vez demonstra um talento incomparável e justifica a espera de seu diretor. Uma pena, porém, que pouca gente testemunhou tal revelação.

Lançado sem alardes no final de 2013, em plena temporada de estreias que sonhavam com os tapetes vermelhos das cerimônias de premiação, "Tudo por justiça" passou em brancas nuvens, tantos pelas salas de exibição - que ficavam lotadas com "Frozen" e "Jogos vorazes: em chamas" - quanto pelos eleitores da Academia (que preferiram homenagear Bale por um produto mais vendável e mais festivo, o esquecível "Trapaça"). A falta do devido estardalhaço em relação à sua estreia, porém, é injustificável: não apenas o filme de Cooper é um drama familiar violento e profundamente tocante como é um dos melhores trabalhos de direção de atores do ano, com personagens construídos com extremo cuidado e interpretados por atores em grandes momentos de inspiração. Um mergulho na forma de fazer cinema à moda antiga, "Tudo por justiça" relembra os suspenses cerebrais que fizeram a fama de Robert DeNiro e Al Pacino nos anos 70 - nada de tramas rocambolescas ou efeitos visuais estonteantes, apenas pessoas reais (ainda que douradas pelo verniz da arte) tentando encontrar uma forma de respirar e sobreviver a algo tão difícil quanto a vida. Não foi à toa que Cooper desistiu de usar a trilha sonora composta por Eddie Vedder, considerada potente demais: o que interessa ao jovem diretor são seus personagens e seus dramas, com o mínimo de interferência externa.


O protagonista da história é Russell Baze (Bale, brilhante em seu minimalismo), um homem honesto e batalhador que vive sua vida em função de trabalhar na fábrica de aço de sua pequena cidade do interior, cuidar do pai inválido e doente, namorar a bela Lena (Zoe Saldana) e tentar impedir que seu irmão caçula, Rodney (Casey Affleck), se deixe levar pelo desânimo depois de uma temporada no Iraque. Um exemplo de caráter, Russell tem sua vida virada de cabeça para baixo depois de um trágico acidente de carro, que o leva para a cadeia. Anos mais tarde, voltando ao convívio de todos, ele vê que nada mais é como antes: seu pai morreu, Lena casou-se com o xerife da cidade (Forest Whitaker) e seu irmão está envolvido em um violento submundo de brigas de rua - um universo cruel que o põe em rota de colisão com o psicótico Harlan DeGroat (Woody Harrelson). Quando Rodney desaparece e a justiça parece não se importar com o caso, Russell toma conta da situação e parte para a revanche - mesmo que isso vá contra todos os seus princípios.

Scott Cooper não tem pressa em contar sua história - sua opção em acentuar o drama em detrimento da ação pode não agradar aos fãs de filmes policiais, mas é um grande acerto em termos dramáticos. Ao oferecer ao público personagens verossímeis e repleto de nuances, seu roteiro percorre caminhos menos óbvios do que se poderia esperar de uma produção hollywoodiana. Não que a trama seja ousada ou surpreendente, mas a maneira como o diretor a conduz (com ritmo próprio, sem sobressaltos e com uma violência relativamente moderada) não deixa de ser corajosa. Até mesmo seu desfecho - anticlimático de certa forma, coerente de outra - vai de encontro às regras comerciais do cinema norte-americano. Esse apreço de Cooper pelo desenvolvimento dos personagens e as consequências de seus atos é o maior mérito de seu filme, principalmente porque permite ao elenco - em especial Bale e Woody Harrelson - momentos fascinantes. Se Casey Affleck nem sempre convence no papel do irmão rebelde (Channing Tatum, Max Irons, Garret Hedlund e Taylor Kitsch foram considerados para o papel antes da decisão final, tomada em conjunto por diretor e astro), o restante dos atores dispensa comentários - a não ser que se lastime o pouco tempo em cena de Whitaker e do sempre competente Willem Dafoe. "Tudo pela justiça" pode não ter tido o sucesso que merecia, mas é um filme a ser descoberto e apreciado não pelo que se espera dele (um policial violento), mas sim pelo que ele é (um drama familiar devastador). Um belo programa!

quinta-feira

QUASE 18

QUASE 18 (The edge of seventeen, 2016, Gracie Films/STC Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Kelly Fremon Craig. Fotografia: Doug Emmett. Montagem: Tracey Wadmore-Smith. Música: Atli Orvarsson. Figurino: Carla Hetland. Direção de arte/cenários: William Arnold/Ide Foyle. Produção executiva: Oren Aviv, Pete Corral, Brendan Ferguson, Adam Fogelson, Cathy Schulman, Robert Simonds, Donald Tang, Lisa Walder, Zhongjun Wang, Zhonglei Wang, Jerry Ye. Produção: Julie Ansell, James L. Brooks, Kelly Fremon Craig. Elenco: Hailee Steinfeld, Woody Harrelson, Haley Lu Richardson, Kyra Sedgwick, Blake Jenner, Hayden Szeto. Estreia: 16/9/16 (Festival de Toronto)

Se tivesse sido lançada nos anos 80, a comédia adolescente "Quase 18" poderia facilmente ser confundida com uma produção de John Hughes, e sua protagonista interpretada por Molly Ringwald. Ícones do gênero em sua época graças a filmes como "Clube dos cinco", "A garota de rosa-shocking" e "Gatinhas e gatões", Hughes e Ringwald conquistaram legiões de fãs por terem conseguido o quase impossível: falar com uma plateia jovem e ávida por representatividade em um período repleto de heróis de ação brutamontes e efeitos visuais espetaculares. Com roteiros simples e diretos, que dialogavam sem frescura com seu público-alvo, seus filmes atravessaram gerações e tornaram-se tanto documentos de um momento específico no tempo quanto fontes de referência inesgotáveis. Foi assim que Will Gluck utilizou-se de seus elementos primordiais para criar o delicioso "A mentira" (2010) e é assim que a jovem Kelly Fremon Craig chegou a encantar a crítica e o público com sua estreia na direção: "Quase 18" tem John Hughes em seu DNA, e mantém o frescor e a inteligência de seus melhores trabalhos - além de contar com uma inspiradíssima Hailee Steinfeld no papel central.

Nadine, a atormentada protagonista de "Quase 18", parece ter sido escrito especialmente para Steinfeld, tamanha a sintonia entre personagem e atriz. Indicada ao Oscar de coadjuvante já em seu primeiro papel no cinema, no western "Bravura indômita", de 2010, a jovem Steinfeld demonstra no filme de Fremon Craig que seu talento vai muito além de sorte de principiante: carismática e expressiva, ela explora todas as nuances que o papel exige, a ponto de oferecer um lado humano e simpático até mesmo a suas atitudes mais egoístas e pouco razoáveis. Com um roteiro realista e sem condescendências escrito pela própria diretora, o filme foge das armadilhas de menosprezar os problemas de sua protagonista, fazendo com que o público consiga compreender o tamanho de cada um deles através de sua perspectiva - talvez exagerada, mas de acordo com sua idade e sua visão de mundo. Justamente por não fazer de Nadine uma adolescente exemplar e repleta de virtudes, mas sim uma pessoa mais próxima da realidade, o filme conquista, diverte e faz pensar - sem nunca deixar de lado sua aura de divertimento juvenil.


Nadine, a protagonista, é uma adolescente de dezessete anos que nunca sentiu o gostinho de ser a mais popular da escola ou ter muitos amigos. Quieta e desiludida, ela observa o próprio irmão, Darian (Blake Jenner), assumir o posto de preferido da mãe, Mona (Kyra Sedgwick), e destacar-se em todas as atividades a que se propõe, enquanto passa os dias reclamando da sorte ao lado da única amiga, Krista (Haley Lu Richardson). O que já era ruim torna-se ainda pior quando Krista resolve se apaixonar por Darian, deixando Nadine furiosa e sentindo-se a mais traída das criaturas. Só quem a entende é um colega nerd, Erwin (Hayden Szeto) - que ela não percebe ser apaixonado por ela - e um paciente professor, Mr. Bruner (Woody Harrelson), em quem ela descarrega toda a sua raiva e agressividade. Tentando sobreviver à adolescência, a menina ainda precisa lidar com a paixão que sente por um dos rapazes mais populares da escola, que mal sabe de sua existência, e a saudade do pai, que morreu quando ela ainda era uma criança.

Sem jamais cair na caricatura ou qualquer tipo de excesso, Hailee Steinfeld concorreu ao Globo de Ouro de melhor atriz em comédia ou musical, mas perdeu para Emma Stone, favorita absoluta por seu desempenho em "La La Land: cantando estações". Sua lembrança entre os indicados mostra, no entanto, que é difícil resistir a seu encanto juvenil e sua sinceridade contagiante. Logo na primeira cena, quando entra na sala do professor avisando que irá cometer suicídio, Nadine conquista a plateia com seu jeito exagerado e dramático de encarar a vida e as situações pelas quais passa, e durante os próximos 100 minutos, o público se deixa docilmente conduzir por seu universo de desespero e angústia - tudo mostrado com o bom-humor e o respeito que se poderia esperar de uma discípula de John Hughes como é o caso da diretora/roteirista. Sucesso moderado de bilheteria (rendeu o dobro do orçamento de 9 milhões de dólares, mas não chegou a causar barulho nas caixas registradoras da produtora), "Quase 18" é um filme pequeno, que nada contra a maré de superproduções caras e megalomaníacas e pode encontrar sua audiência em quem procura entretenimento menos ambiciosos. Merece ser descoberto como um legítimo representante de um gênero sempre querido e inteligente.

terça-feira

JOGOS VORAZES - EM CHAMAS

JOGOS VORAZES: EM CHAMAS (The Hunger Games: Catching Fire, 2013, LionsGate, 146min) Direção: Francis Lawrence. Roteiro: Simon Beaufoy, Michael deBruyn, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Jo Willems. Montagem: Alan Edward Bell. Música: James Newton Howard. Figurino: Trish Summerville. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Suzanne Collins, Joseph Drake, Michael Paseornek, Louise Rosner, Ali Shearmur. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Hemsworth, Philip Seymour Hoffman, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Elizabeth Banks, Stanley Tucci, Lenny Kravitz, JeffreY Wright, Amanda Plummer, Jena Malone, Toby Jones, Lynn Cohen. Estreia: 18/11/13

Já está virando meio tradição dentro da indústria hollywoodiana: talvez por não precisar apresentar seus personagens e poder partir direto pra ação, talvez porque seus criadores sabem que a exigência do público aumenta ou talvez porque existe uma maior familiaridade com o material, os segundos capítulos da maioria das franquias cinematográficas contemporâneas conseguem ser melhores que o original. Foi assim com o "Homem-aranha 2" de Sam Raimi, com o "Batman, o cavaleiro das trevas", de Christopher Nolan e com "X-Men 2", de Bryan Singer. E foi assim também com "Jogos vorazes, em chamas", continuação do mega bem-sucedido filme de 2012 , baseado na trilogia escrita por Suzanne Collins. Agora sob a batuta de Francis Lawrence - cujo currículo inclui o interessante "Constantine" e a adaptação de "Eu sou a lenda" com Will Smith - a história de Katniss Everdeen em sua luta pela sobrevivência em um jogo de vida ou morte cada vez mais violento (e com intenções sociopolíticas nada justas) e empolgante.

Conforme dito acima, "Em chamas" tem a vantagem de não precisar perder tempo explicando sua trama e apresentando seus personagens - e para isso é crucial que a audiência já tenha assistido ao primeiro capítulo. Quando o filme começa, com eventos que acontecem um ano após o término do filme original, Katniss (Jennifer Lawrence, tornada queridinha de Hollywood pelo Oscar de melhor atriz conquistado por "O lado bom da vida") e seu parceiro Peeta Mellark (Josh Hutcherson), vencedores da 74ª edição dos jogos do título, começam uma turnê por todos os distritos, como forma de aproximar-se da população e dar credibilidade ao governo. Porém, ao perceber a desilusão do povo em relação os problemas sociais que os cercam, o casal (forjado para vencer os jogos) passa a questionar a liderança do Presidente Snow (Donald Sutherland). Temendo uma revolução liderada por Katniss, o presidente cria uma nova regra, que obriga todos os vencedores prévios a lutar novamente - sua intenção é acabar com a vida da jovem, impedindo assim que ela se torne a voz de um levante popular.



Acrescentando à série rostos conhecidos - Amanda Plummer, Jeffrey Wright, Jena Malone como novos competidores e Philip Seymour Hoffman como o novo diretor do torneio - "Em chamas" é mais violento do que seu primeiro capítulo, já apontando a direção que os dois últimos filmes tomarão: cada vez mais acossado, o vilão vivido por Donald Sutherland não hesita em transformar seu governo em uma carnificina e os jogos em uma série de armadilhas cruéis e traiçoeiras. Enquanto aprofunda também a relação entre Katniss e Peeta, o roteiro embaralha as cartas de forma a confundir a plateia até os minutos finais: em um golpe de mestre, a trama cerca a protagonista de aliados e inimigos sem deixar claro nem a ela nem ao público quem é quem - e qual é a sua real missão para acabar com os desmandos de um governo exponencialmente mais sádico. Para isso cresce a importância de Haymitch Abernathy (Woody Harrelson), que deixa de ser apenas um mentor bêbado para mostrar sua verdadeira face em relação à revolução - enquanto outros personagens transitam entre o bem e o mal aguardando a oportunidade de tomar um partido definitivo.

Sob a forma de um filme de ação direcionado ao público infanto-juvenil - o que explica a violência apenas moderada considerando as possibilidades da trama - Lawrence aproveita a história de Suzanne Collins para, exatamente como aconteceu no primeiro, discutir temas de relevância, como desigualdade social, fascismo e manipulação por parte da mídia. Logicamente, por tratar-se de uma produção cujo público-alvo não estar exatamente disposto a querelas políticas, o subtema é tratado apenas superficialmente (ainda que seja bastante claro para qualquer pessoa minimamente esclarecida), como pano de fundo para uma obra que oferece exatamente aquilo que sua plateia deseja: cenas de ação bem realizadas, um triângulo amoroso eficiente, personagens cativantes (interpretados por atores de qualidade inquestionável, como Philip Seymour Hoffman e Jeffrey Right) e um ritmo incapaz de cansar, apesar dos longos 146 minutos de projeção. Somadas a um criativo visual - refletido no figurino irreverente de Trish Summerville - e um roteiro redondinho - co-escrito por Simon Beaufoy, vencedor do Oscar por "Quem quer ser um milionário?" - essas qualidades fazem com que o único problema do filme seja justamente ter que esperar até o próximo capítulo - que, segundo mais uma nova tradição imposta pela busca por lucros, será dividido em dois filmes.

segunda-feira

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU

SETE PSICOPATAS E UM SHIH TZU (Seven psychopaths, 2012, CBS Films/Film4, 110min) Direção e roteiro: Martin McDonagh. Fotografia: Ben Davis. Montagem: Lisa Gunning. Música: Carter Burwell. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: David Wasco/Lisa Reynolds-Wasco. Produção executiva: Tessa Ross. Produção: Graham Broadbent, Peter Czernin, Martin McDonagh. Elenco: Colin Farrell, Sam Rockwell, Woody Harrelson, Christopher Walken, Abbie Cornish, Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Gabourey Sidibe, Zeljko Ivanek, Tom Waits, Brendan Sexton III, Olga Kurylenko. Estreia: 07/9/12 (Festival de Toronto)

A primeira cena remete aos filmes de Quentin Tarantino: uma dupla de matadores de aluguel joga conversa fora enquanto espera a chegada de sua próxima vítima - um bate-papo que vai do gângster Dillinger a "O poderoso chefão". Repentina e violentamente, a sequência termina com uma inesperada reviravolta, que pega tanto os personagens quanto o público de surpresa. Mas que o espectador não se deixe enganar: apesar de ser mais um cineasta/roteirista influenciado pela lufada de ar fresco que Tarantino deixou entrar no cinema policial americano na segunda metade dos anos 90, Martin McDonagh tem identidade própria, conforme mostrado em "Na mira do chefe" - uma comédia independente que encantou a crítica em 2008 e chegou a ser indicada ao Oscar de roteiro original. Repetindo sua parceria com o ator Colin Farrell, ele faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" um filme ainda melhor que sua estreia, repleto de um humor negro que ameniza de forma inteligente sua extrema violência e um uso brilhante de meta-linguagem que o aproxima do genial "Adaptação", de Spike Jonze.

Assim como no filme estrelado por Nicolas Cage em 2002, o personagem de Colin Farrell, Marty Faranan, é um estressado e angustiado roteirista que sofre a pressão de sentir-se incapaz de escrever uma linha sequer de seu próximo trabalho, do qual tem certeza apenas do título, "Sete psicopatas". Com a intenção um tanto esdrúxula de contar uma história sobre serial killers que evite a violência excessiva e ofereça à plateia uma sensação de paz e otimismo, ele se vê a cada dia mais entregue à bebida - "culpa de sua herança irlandesa!", dispara seu melhor amigo, o ator desempregado Billy Bickle (Sam Rockwell, excelente), que divide com o neurótico protagonista de "Taxi driver" bem mais do que o sobrenome. Sócio do excêntrico Hans Kieslowski (Christopher Walken) no rentável "negócio" de empréstimo de cães - eles roubam os animais e depois os devolvem nobremente aos donos, embolsando as recompensas - Bickle deseja ser colaborador de Marty em seu roteiro, e para isso não se intimida em colocar um anúncio em uma revista chamando psicopatas à sua casa para que contem suas histórias. Não bastasse tal insanidade, os dois amigos passam a ser perseguidos por Charlie Costello (Woody Harrelson), um mafioso impiedoso que descobre que seu amado cãozinho shih tzu, Bonny, está em suas mãos. Aflito e incapaz de pensar em uma forma de sair da confusão, Marty acaba por empreender uma fuga surreal - que pode, afinal, lhe dar as ideias necessárias para a conclusão de sua trama.


Brincando com a linguagem e desconstruindo sem cerimônia as regras pré-estabelecidas de como construir uma história com início, meio e fim bem definidos e claros, Martin McDonagh faz de seu "Sete psicopatas e um shih tzu" uma deliciosa mistura de comédia e policial, muitas vezes borrando propositalmente suas linhas divisórias. Apresentando seus personagens como seres falíveis e por vezes contraditórios - caso do mafioso durão apaixonado por seu "cachorro gay", como define Billy - ele foge dos clichês do gênero, apostando mais no bizarro de cada um do que em suas características mais realistas. Essa lente distorcida oferece à plateia a possibilidade de embarcar em uma jornada cujo final não é possível prever desde seus primeiros momentos, como acontece na maioria da produção em massa da indústria hollywoodiana. Se aceitar as regras propostas pelo cineasta - ou seja, esquecer todas aquelas a que está acostumado por uma exposição sistemática a filmes quase iguais - o espectador tem grandes chances de se surpreender rindo em um instante e roendo as unhas em outro, principalmente na primeira metade, quando os psicopatas são apresentados em sequências dignas de figurar em antologias. Quem duvida basta prestar atenção à história do psicopata religioso (interpretado por Harry Dean Stanton): é de grudar os olhos na tela.

E se não bastasse um roteiro tão criativo - que muda de tom em sua metade final apenas para enfatizar seu rompimento com qualquer regra arbitrária - "Sete psicopatas e um shih tzu" ainda se beneficia (e muito) de um elenco em dias inspiradíssimos. Colin Farrell mostra mais uma vez que é um dos melhores atores subestimados de sua geração, apresentando um timing cômico ainda poucas vezes explorado e que comprova sua versatilidade. Woody Harrelson, Sam Rockwell e Christopher Walken, como de costume, roubam para si seus personagens, imprimindo a eles suas personalidades fortes e as participações especiais (Michael Pitt, Harry Dean Stanton, Tom Waits, Gabourey Sidibe) transformam uma divertida brincadeira em um filme com aura de cult, a ser descoberto e valorizado com o passar do tempo. Poucos filmes merecem uma segunda chance tanto quanto ele!

quinta-feira

JOGOS VORAZES



JOGOS VORAZES (The hunger games, 2012, LionsGate, 142min) Direção: Gary Ross. Roteiro: Gary Ross, Suzanne Collins, Billy Ray, romance de Suzanne Collins. Fotografia: Tom Stern. Montagem: Christopher S. Capp, Stephen Mirrione, Juliette Wellfling. Música: James Newton Howard. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Philip Messina/Larry Dias. Produção executiva: Robin Bissell, Suzanne Collins, Louise Rasner-Meyer. Produção: Nina Jacobson, Jon Kilik. Elenco: Jennifer Lawrence, Josh Hutcherson, Liam Heinsworth, Donald Sutherland, Woody Harrelson, Stanley Tucci, Elizabeth Banks, Wes Bentley. Estreia: 12/3/12

Com o final da série "Harry Potter" e a iminente chegada do último capítulo da saga "Crepúsculo" - dividido em dois filmes para aproveitar até a última gota das aventuras vampiras estreladas pelos tenebrosos Kristen Stewart e Robert Pattinson - os estúdios de Hollywood estavam desesperadamente ansiosos por uma nova possibilidade de franquia infanto-juvenil. Pois os executivos não demoraram a poder dormir tranquilos: com mais de 150 milhões de dólares arrecadados em seu fim-de-semana de estreia, o filme "Jogos vorazes", adaptado de uma trilogia escrita por Suzanne Collins já foi considerado um enorme sucesso logo de cara - e suas continuações só encheram ainda mais os cofres dos produtores.. A melhor notícia, porém, é que o filme é muito bom. Apesar de ter como público-alvo uma plateia adolescente (idade dos protagonistas), é capaz de agradar aos adultos dispostos a um bom entretenimento por acrescentar à receita ingredientes que nunca estiveram presentes nos filmes de Bella e Edward: inteligência, talento e discussões bem mais sérias do que se poderia esperar de um passatempo hollywoodiano.

Dirigido por Gary Ross - que dirigiu o encantador "A vida em preto-e-branco" e o correto mas superestimado "Seabiscuit, alma de herói" - "Jogos vorazes" tem a seu favor uma heroína carismática (interpretada pela ótima Jennifer Lawrence, já então indicada ao Oscar por "Inverno da alma" e prestes a ser premiada por "O lado bom da vida"), um assunto momentoso (a febre dos reality shows + a violência) e uma história interessante o bastante para manter a plateia atenta durante toda a sua longa duração (mais de 140 minutos que passam rapidamente diante dos olhos do público). Ainda que demore a realmente começar - o que só acontece pela metade da projeção - o faz de maneira a apresentar devidamente suas personagens centrais e coadjuvantes (uma coleção de tipos bizarros vividos por gente do calibre de Donald Sutherland, Stanley Tucci e Woody Harrelson) antes da pancadaria. E para aqueles pais que se preocupam com o excesso de violência dos livros, um aviso: está tudo muito bem dosado no roteiro, sem exagero de nenhuma espécie - a Lionsgate não seria irresponsável de arriscar uma classificação etária que prejudicasse sua bilheteria, afinal de contas...


Para quem não sabe, "Jogos vorazes" se passa em um futuro distópico onde não existe mais a América do Norte e sim uma grande nação dividida em distritos. Como castigo pela rebelião ocorrida décadas antes - e que resultou em uma guerra - cada um de 12 distritos deve, anualmente, ceder um casal de adolescentes para participar de um reality show com o mesmo nome do filme: nesse jogo, eles não lutam por dinheiro ou glória, e sim pelas próprias vidas, sendo assistidas fielmente por milhares de espectadores. Na edição de número 74 dos famigerados jogos, a adolescente Katniss Everdeen (Lawrence) entra como voluntária, para impedir a irmã caçula de participar da caçada humana. A seu lado entra o jovem Peeta Mellark (Josh Hutcherson, de "Minhas mães e meu pai"), apaixonado por ela mas sem esperanças de ser correspondido. Conforme o jogo avança, porém, os dois percebem que forjar um romance pode ajudá-los a chegar ao final da disputa.

Qualquer semelhança com os Big Brothers da vida não é apenas casual. A crítica feroz que os livros de Collins fazem ao gênero não é disfarçada no filme de Ross, apesar do relativo senso de humor com que o tema é tratado em alguns momentos (em especial quando está em cena o sempre competente Stanley Tucci no papel de um Pedro Bial mais exótico e menos chato). Filmado em ângulos ousados para um produto que poderia facilmente ser tratado apenas como tal e com uma escolha de elenco acima de qualquer crítica (Woody Harrelson novamente rouba as cenas em que parece), "Jogos vorazes" mereceu todo o sucesso que fez. O roteiro se equilibra bem entre a ação, o romance e o drama, conduzindo tudo para um final devidamente climático e uma porta escancarada para os capítulos seguintes. Quem leu os livros sabe o que esperar.

terça-feira

AMIZADE COLORIDA

AMIZADE COLORIDA (Friends with benefits, 2011, Screen Gems/Castle Rock Entertainment, 109min) Direção: Will Gluck. Roteiro: Keith Merryman, David A. Newman, Will Gluck, estória de Harley Peyton, Keith Merryman, David A. Newman. Fotografia: Michael Grady. Montagem: Tia Nolan. Figurino: Renee Ehrlich Kalfus. Direção de arte/cenários: Marcia Hinds/Cindy Coburn, Alyssa Winter. Produção executiva: Glenn S. Gainor. Produção: Liz Glotzer, Will Gluck, Martin Shafer, Janet Zucker, Jerry Zucker. Elenco: Justin Timberlake, Mila Kunis, Woody Harrelson, Patricia Clarkson, Richard Jenkins, Jenna Elfman, Bryan Greenberg, Nolan Gould, Andy Samberg. Estreia: 18/7/11

Talvez reflexo inconsciente das relações modernas, filmes sobre casais que elegem o sexo como base para seu relacionamento - sem que exista nenhum outro tipo de vínculo sentimental - e depois se apaixonam pipocaram nas telas de cinema como nunca em 2011, com qualidades variadas. Houve o ótimo "Amor e outras drogas", com Jake Gylenhaal e Anne Hathaway e houve o tenebroso "Sexo sem compromisso", com Natalie Portman e Ashton Kutcher. No meio do caminho entre os dois fica "Amizade colorida", o divertido e sexy filme estrelado por Justin Timberlake e Mila Kunis e dirigido por Will Gluck, cujos créditos anteriores incluem o pouco visto, mas muito engraçado, "A mentira" - cuja estrela, Emma Stone, aparece aqui em uma pequena participação especial como a namorada que dá o fora no protagonista na primeira cena.

No filme de Gluck, a bela Kunis interpreta Jamie, uma caça-talentos de Nova York que convence o jovem diretor de arte Dylan (vivido com surpreendente timing cômico por Timberlake) a sair de Los Angeles e mudar-se para a Grande Maçã, para trabalhar para a revista GQ. Ambos saídos de relacionamentos fracassados, Jamie e Dylan tornam-se amigos e, bonitos, inteligentes e sexies, resolvem iniciar uma relação de sexo sem compromisso. Logicamente as coisas não andam da maneira com que eles pretendem (mas seguem à risca as comédias românticas que Jamie adora): eles se apaixonam um pelo outro, ainda que a princípio não o percebam e renegam o sentimento enquanto podem, mesmo quando as evidências estão bem diante de seus olhos. Quem irá ajudá-los a esclarecer as coisas são pessoas tão díspares quanto a mãe promíscua de Jamie (vivida por Patricia Clarkson, sempre ótima em personagens liberais), o editor de esportes homossexual da GC (Woody Harrelson, sem levar-se a sério, como de hábito) e o pai de Dylan, um homem abandonado pela esposa e que sofre de Alzheimer (Richard Jenkins).


Logicamente o roteiro de "Amizade colorida" é repleto de clichês (e é o tipo de filme cujo final se adivinha só de olhar-se o cartaz). Mas a grande sacada - e que o diferencia de bombas como "Sexo sem compromisso" - são alguns diálogos realmente engraçados, os coadjuvantes afiados e que não servem apenas para fazer piada (Clarkson e Richard Jenkins, ambos de "A sete palmos" estão ótimos) e a química sensacional entre seus protagonistas. Kunis, que já se atracou com Natalie Portman em "Cisne negro", já provou que não tem pudores e Timberlake mostra-se extremamente à vontade em cenas pra lá de provocantes que mixam com equilíbrio invejável uma sensualidade discreta e um bom-humor muito bem-vindo. Mesmo quando não estão na cama, Kunis e Timberlake convencem o público que estão apaixonados (mesmo que não o saibam) e conseguem o que qualquer dupla romântica sonha em filmes como este: uma torcida por seu final feliz. E Will Gluck sabe, como poucos cineastas recentes, brincar com as referências pop do espectador e utilizá-las a seu favor.

Tudo bem que "Amizade colorida" não vai mudar a vida de ninguém, nem tampouco consegue escapar da queda de ritmo em sua segunda metade, quando o humor picante e desbocado da primeira fase dá lugar ao drama e a um romantismo convencional. Mas é tão charmoso, despretensioso e bem-humorado (outro destaque é sua maneira de tratar a rivalidade entre Los Angeles e Nova York, com seus hábitos muito diferentes) que é impossível não se deixar cativar. Uma grata surpresa que mostra que Will Gluck é um nome a se memorizar.

sábado

VIRADA NO JOGO

VIRADA NO JOGO (Game change, 2012, HBO Films, 118min) Direção: Jay Roach. Roteiro: Danny Strong, livro de Mark Halperin, John Heilemann. Fotografia: Jim Denault. Montagem: Lucia Zucchetti. Música: Theodore Shapiro. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Tiffany A. Zappulla. Produção executiva: Gary Goetzman, Tom Hanks, Jay Roach. Produção: Amy Sayres. Elenco: Julianne Moore, Ed Harris, Woody Harrelson, Peter MacNicol, Jamey Sheridan, Sarah Paulson, Ron Livingston. Estreia: 28/02/12

Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Minissérie, Atriz Filme/Minissérie (Julianne Moore), Ator Coadjuvante Filme/Minissérie (Ed Harris)

Em 2008, a campanha pela presidência dos EUA – vencida por Barak Obama – apresentou ao mundo inteiro uma personalidade quase folclórica que, até então, era conhecida basicamente pelos eleitores do Alasca, seu estado de origem: a governadora Sarah Palin, conservadora, religiosa fervorosa, mãe de cinco filhos (um deles com Síndrome de Down e a mais velha grávida na adolescência), firme em suas opiniões e eleita graças principalmente a questões ecológicas. Escolhida pelos assessores do republicano John McCain para ser sua candidata à vice-presidente – como forma de conquistar eleitores ainda não convencidos por sua política – Palin era tida como a arma secreta contra a popularidade de Obama, mas acabou se tornando motivo de escárnio e choque com seu desconhecimento quase total de política externa e outros assuntos tão importantes quanto, que quase anulavam seu carisma. Uma personagem inacreditável – que virou até mesmo alvo impiedoso do programa de humor “Saturday Night Live”, onde era interpretada pela comediante Tina Fey – Palin é a protagonista de “Virada no jogo”, brilhante produção da HBO que escrutina com detalhes sua trajetória em uma das mais acirradas disputas pela Casa Branca na história dos EUA.
 Comandado por Jay Roach – que já havia flertado com os bastidores da política no subestimado “Os candidatos”, com Will Ferrell – e com Tom Hanks entre seus produtores executivos, “Virada no jogo” é baseado no livro de Mark Halperin e John Heilemann e conta com um roteiro sagaz e de ritmo certeiro, que equilibra com precisão cirúrgica tanto os meandros das campanhas eleitorais americanas (e por que não brasileiras?) quanto sua importância na vida de pessoas que dependem delas para atingir o sucesso profissional. O centro da trama é Steve Schmidt, interpretado com sutileza rara por Woody Harrelson: estrategista político conceituado, ele é chamado pelo Senador John McCain (Ed Harris em atuação premiada) para encontrar e treinar a pessoa certa para fazer companhia a ele na chapa que irá disputar a presidência americana. Sentindo-se desafiado, ele e seus assessores chegam ao nome de Palin e resolvem apostar em seu carisma junto à parcela feminina dos eleitores. O problema é que a governadora não é tão cordata quanto poderia parecer e transforma-se em um problema dos grandes quando, ao perceber seu poder de persuasão junto ao público, resolve assumir as rédeas de sua transformação de mulher simples em política profissional.



Amparada por uma direção discreta e um roteiro inteligente – escrito por Mark Strong – Julianne Moore dá um show à parte na pele de Sarah Palin. Merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz dramática em filmes para a TV, ela simplesmente se transforma na polêmica governadora, tanto fisicamente quanto em suas essências – pessoal e pública. Intercalando momentos de puro constrangimento (quando é capaz de dizer atrocidades em rede nacional, por pura ignorância) com outros que suscitam até mesmo uma certa pena, Moore rouba o filme para si de forma escandalosa. Mesmo com uma personagem não exatamente simpática em mãos, ela conquista o público da mesma forma com que Palin cativava seus eleitores – pelo carisma e pela pureza. Sem julgar a personagem, Moore faz dela uma mulher comum jogada no olho do furacão sem estar preparada para tal (apesar de achar-se capaz de assumir a bronca), e sua fragilidade emocional acaba por seduzir a plateia: mesmo quando ri das bobagens proclamadas por Sarah Palin, o público não deixa de sentir uma espécie de piedade. Por escapar da tentação de fazer da protagonista motivo de piada, tanto Roach na direção quanto Moore na construção da personagem marcam um gol de placa: “Virada no jogo” é brilhante tanto como drama político quanto comédia de bastidores – mas jamais aposta no humor barato ou grosseiro (uma surpresa, já que estamos falando do mesmo diretor dos três filmes estrelados pelo espião Austin Powers, que são tudo menos sutis).
Com um elenco coadjuvante que não faz feio diante dos shows de Julianne Moore, Ed Harris e Woody Harrelson, “Virada no jogo” é o típico filme que expande seu círculo de interesse para atingir um público mais amplo especialmente graças à união de seus talentos. Não é preciso ser americano ou entender as matizes de sua política para se deixar envolver pela trama (que nem precisou ser inventada): basta gostar de se deixar envolver por uma história bem contada, com atores brilhantes e um roteiro que respeita a inteligência do espectador. Foi feito para a televisão, mas é muito melhor do que muito produto cinematográfico que chega às salas de exibição.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...