A CHEGADA (Arrival, 2016, Sony Entertainment, 116min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Eric Heisserer, conto "Story of your life", de Ted Chiang. Fotografia: Bradford Young. Montagem: Joe Walker. Música: Jóhan Jóhansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Marie-Soleil Dénomné, Paul Hotte, André Valade. Produção executiva: Dan Cohen, Eric Heisserer, Karen Lunder, Tory Metzger, Milan Popelka, Stan Wlodkowski. Produção: Dan Levine, Shawn Levy, David Linde, Aaron Ryder. Elenco: Amy Adams, Jeremy Renner, Forest Whitaker, Michael Stuhlbarg, Mark O'Brien. Estreia: 01/9/16 (Festival de Veneza)
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Dennis Villeneuve), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Direção de Arte/Cenários, Edição de Som, Mixagem de Som
Vencedor do Oscar de Edição de Som
Quando um filme - seja de ficção científica, seja do gênero que for - permanece na memória e no coração do espectador muito depois de seus créditos finais, certamente ele é muito mais do que um simples filme. Produções que ultrapassam os limites da arte e suscitam reflexões acerca de temas como destino, finitude e livre arbítrio tendem a tornar-se clássicas já em seu nascimento - haja visto obras como "2001: uma odisseia no espaço" (68), de Stanley Kubrick, e "Blade Runner: o caçador de androides" (82), de Ridley Scott, que se mantém no imaginário popular há décadas justamente por inserir, em um gênero específico, um vasto material intelectual e sensorial que vai além do que é exposto na tela, exercitando tanto o coração quanto o cérebro da plateia. Não chega a ser uma surpresa, portanto, que "A chegada" possa facilmente entrar na seleta lista dos grandes filmes de ficção científica da história do cinema - e que certamente irá resistir à passagem dos anos: inteligente, sensível e tecnicamente impecável, a primeira incursão do canadense Denis Villeneuve no gênero é simplesmente uma obra-prima que confirma o cineasta como uma das vozes mais originais e criativas a surgirem nos últimos anos.
Desde que seu "Incêndios" (2010) encantou o mundo e concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro, Villeneuve passou a demonstrar, em sua filmografia, uma preocupação constante com a alma e a psicologia de seus personagens. Fossem eles baseados em livros consagrados ("O homem duplicado", baseado em José Saramago) ou dentro dos limites de filmes de gênero (o suspense "Os suspeitos" ou o policial "Sicário: terra de ninguém"), seus protagonistas viviam sempre no fio da navalha, torturados por questões pessoais que os empurravam à frente e mexiam com as engrenagens das tramas. Em "A chegada" não é diferente: com base no conto "Story of your life", de Ted Chiang, o roteiro de Eric Heisserer, apesar de se utilizar fartamente dos elementos da ficção científica, é escorado totalmente nas emoções muito humanas de sua personagem central, a linguista Louise Banks, interpretada com brilhantismo por Amy Adams. Por mais que os efeitos visuais originais e criativos imaginados pela equipe de Martine Bertrand e Patrice Vermette sejam empolgantes e fujam do lugar-comum, é o coração de Louise que sustenta a ação do filme, que preenche aos poucos os vácuos que o roteiro vai propositalmente deixando pelo caminho até o final avassalador e comovente. Genialmente concebido como uma espécie de quebra-cabeças cujas peças só vão fazer sentido quando a imagem estiver totalmente formada, o roteiro de "A chegada" é uma aula de narrativa - em que cada cena, cada linha de diálogo e cada silêncio é parte indispensável para o resultado final.
Quando começa, "A chegada" parece mais uma ficção científica convencional: doze naves espaciais de formato ovalado chegam à Terra, provocando pânico e desconfiança na população e nas lideranças mundiais. Em busca de comunicação com os visitantes, um coronel norte-americano, Weber (Forest Whitaker) recruta a linguista Louise Banks (Amy Adams), que já havia trabalhado para o governo em circunstâncias anteriores (e bem menos inusitadas). Louise se junta a um time de cientistas que inclui o matemático Ian Donnelly (Jeremy Renner) e centenas de pesquisadores espalhados pelo mundo. Conforme vai avançando em seus contatos com uma dupla de alienígenas - a quem eles batizam de Abbott e Costello - e aprendendo sua forma de comunicação, Louise passa a ter visões de sua vida e começa a questionar seu senso de realidade e até que ponto ela será capaz de controlar os limites de sua interação com os desconhecidos viajantes.
Contar qualquer detalhe a mais de "A chegada" é estragar a bela experiência que ele é. Descobrir as razões que trazem os alienígenas ao nosso planeta e de que forma seu contato com os humanos irá alterar o destino de Louise é uma das melhores e mais emocionantes surpresas de um filme que, apesar de ter em seu desfecho um de seus grandes trunfos, cresce a cada revisão. Cuidadosamente realizado - da fotografia suja de Bradford Young à música impactante de Jóhan Jóhansson - e dotado de uma inteligência rara em blockbusters (rendeu mais de 200 milhões de dólares nas bilheterias contra um orçamento relativamente baixo de 47 milhões), o filme de Villeneuve é uma viagem sensorial das mais empolgantes, que trata o espectador com respeito e jamais subestima sua capacidade intelectual. O que é injustificável é a ausência de Amy Adams entre as oito indicações ao Oscar recebidas pela produção - que incluíram melhor filme, diretor e roteiro adaptado: com uma atuação extraordinária que demonstra toda a extensão de seu talento dramático, Adams simplesmente carrega a plateia por uma trajetória emocional das mais enriquecedoras, capaz de prender a atenção do primeiro ao último minuto sem jamais cair no óbvio ou no previsível. Conduzido com elegância e segurança por um cineasta nitidamente apaixonado por sua história, "A chegada" é uma pequena obra-prima moderna - e que fez de Villeneuve o cineasta ideal para assinar a esperada continuação de "Blade Runner". Imperdível e inesquecível!
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SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM
SICÁRIO: TERRA DE NINGUÉM (Sicario, 2015, Black Label Media/Lionsgate, 121min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Taylor Sheridan. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Joe Walker. Música: Johann Johansson. Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Jan Pascale. Produção executiva: Erica Lee, Ellen H. Schwartz, John H. Starke. Produção: Basil Iwanyk, Thad Luckinbill, Trent Luckinbill, Molly Smith. Elenco: Emily Blunt, Benicio Del Toro, Josh Brolin, Victor Garber, Jon Bernthal, Daniel Kaluuya, Jeffrey Donovan. Estreia: 19/5/15 (Festival de Cannes)
3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som
O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.
O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.
Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.
Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!
3 indicações ao Oscar: Fotografia, Trilha Sonora Original, Edição de Som
O cineasta Denis Villeneuve surpreendeu muita gente quando, depois de ser indicado ao Oscar de melhor filme estrangeiro pelo devastador "Incêndios" (2011) e realizar dois filmes estrelados por Jake Gyllenhaal - o suspense "Os suspeitos" (2013) e o estranho "O homem duplicado" (2013), baseado no romance de José Saramago - decidiu dar sua contribuição à polêmica questão do tráfico de drogas entre EUA e México. Optando por uma narrativa seca e semi-documental, ele explora o roteiro do também ator Taylor Sheridan como mapa para um mundo violento e com regras próprias, sem espaço para sentimentalismos ou delicadezas. Fotografado em tons secos por Roger Deakins (que arrebatou uma indicação ao Oscar por seu trabalho) e editado com precisão cirúrgica, "Sicário: terra de ninguém" estreou no Festival de Cannes 2015 e não demorou em coletar elogios da crítica mundo afora. Mesmo com uma bilheteria tímida e o fracasso em conquistar estatuetas na temporada de premiações, Villeneuve marcou mais um gol em sua carreira ainda impecável, com um thriller impactante e relevante que prende o espectador na poltrona do início ao fim sem apelar para a violência gratuita.
O tom sério de "Sicário" já fica claro em sua sequência de abertura, onde um grupo de agentes do FBI especializados em sequestros - e liderado pela corajosa Kate Macer (Emily Blunt) - invade uma casa no estado do Arizona e descobre dezenas de corpos escondidos nas paredes, em estado de decomposição. A missão acaba em tragédia, mas Macer chama a atenção de Matt Graver (Josh Brolin), que a convida a juntar-se a seu time na caça por Manuel Diaz (Bernardo P. Sacarino), líder de um cartel de tráfico de drogas - e dono da propriedade onde ela localizou os cadáveres. Com a promessa de colocar na cadeia o responsável pelos crimes, a jovem agente aceita o desafio de unir-se à equipe de Graver, que inclui o misterioso policial federal Alejandro (Benicio Del Toro), um mexicano calado e cujos métodos pouco ortodoxos irão chocar-se com seu rígido código de conduta. Conforme vai se envolvendo mais e mais com a incansável busca de seus colegas, porém, Macer descobre que está em um terreno minado, onde as leis são mutáveis e tudo que aprendeu em sua carreira até então pode ser posto de lado em situações consideradas extremas.
Depois de dois filmes contando com protagonistas masculinos, em "Sicário" Denis Villeneuve volta a investir na força da mulher, elegendo como personagem principal alguém com cujos valores morais e éticos a plateia pode facilmente se identificar. Kate Macer é uma agente do FBI, acostumada com a violência e a criminalidade, mas ainda mantém dentro de si uma rigorosa ordem moral que a impede de compactuar com as barbaridades que testemunha conforme vai avançando na chaga social que é o tráfico de drogas na fronteira EUA/México. Ao lado do colega Reggie (Daniel Kaluuya), ela começa a perder uma espécie de inocência que ainda lhe resta ao ser obrigada a compactuar com atitudes jamais pensadas e torna-se, ao mesmo tempo, caça e caçadora, virando alvo dos criminosos a que persegue e até mesmo de alguns colegas que veem nela uma ameaça à continuidade da operação. É aí que entra em cena o silencioso Alejandro, um homem com um passado dramático a ponto de deixar público e protagonista em constante dúvida sobre suas reais motivações. Fazendo alterações fundamentais no roteiro original de Taylor Sheridan - que explicitava as intenções do personagem logo de cara - o ator Benício Del Toro transforma Alejandro em um enigma até o terço final, criando um suspense que dá ao filme uma textura a mais e justifica sua indicação ao BAFTA de ator coadjuvante (assim como diversas outras homenagens dos críticos). Juntos em cena, Del Toro e Emily Blunt - que já haviam estrelado "O lobisomem" (2010) - são fascinantes e elevam "Sicário" a um nível bem acima do tradicional thriller: o filme de Villeneuve é, também, um poderoso drama sobre escolhas e a impotência diante de algo maior que a própria lei.
Um cineasta preocupado com a complexidade dos personagens que retrata, Denis Villeneuve encontra, em "Sicário", uma excelente plataforma para demonstrar suas qualidades como diretor. Não apenas apresenta um domínio técnico invejável - com fotografia, edição e desenho de som espetaculares - como também explora com inteligência o grande talento de seus atores. Como em seus trabalhos anteriores, Villeneuve oferece ao público um filme que fica na memória mesmo após os créditos finais, graças a um roteiro forte e um cuidadoso trabalho de direção e interpretação. É uma produção que tem muito mais a dizer do que simplesmente entreter o público por duas horas: é um belo exemplo de como fazer um filme de ação inteligente e cerebral mesmo sem tornar-se chato e enfadonho. Bravo, Villeneuve!
sábado
O HOMEM DUPLICADO
O HOMEM DUPLICADO (Enemy, 2013, Pathé International, 91min) Direção:
Dennis Villeneuve. Roteiro: Javier Gullón, romance de José Saramago.
Fotografia: Nicolas Bolduc. Montagem: Matthew Hannam. Música: Danny
Bensi, Saunder Jurriaans. Figurino: Renée April. Direção de
arte/cenários: Patrice Vermette/Jim Lambie. Produção executiva: François
Ivernel, Victor Loewy, Cameron McCracken, Mark Slone. Produção: Miguel
A. Faura, Niv Fichman. Elenco: Jake Gyllenhaal, Mélanie Laurent, Sarah
Gadon, Isabella Rossellini. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)
Adam é um jovem professor universitário que vive em Toronto e leva uma rotina pacata, que inclui visitas à sua dedicada mãe e encontros ocasionais com uma bela mulher com quem evita maiores intimidades. Um dia, assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho, ele reconhece em um dos figurantes um homem idêntico a si mesmo. Movido por uma curiosidade implacável, ele descobre o nome do tal ator - Anthony Claire - e, depois de confirmar sua impressionante semelhança física com ele, parte em sua busca para encontrá-lo face a face. Quando tal encontro acontece, uma série de situações imprevistas une os dois rapazes (de personalidades opostas) e passa a invadir suas vidas íntimas.
À primeira vista, "O homem duplicado" é apenas mais um filme de suspense repleto de clichês, a despeito de ser baseado em um romance do premiado escritor português José Saramago. Mas basta prestar atenção nos créditos para se perceber que ele é bem mais do que isso. Na direção está o canadense Denis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro com o devastador "Incêndios", e o elenco conta com a experiente Isabella Rossellini e o mais que conhecido Jake Gyllenhaal se dividindo nos papéis centrais. Herdando o desafio recusado por Javier Bardem (que não se achava adequado) e Christian Bale (impedido de fazer o filme por falta de tempo na agenda), Gyllenhaal acaba se mostrando mais do que capaz de enfrentar um roteiro que se liberta das amarras do gênero apresentando um conjunto de metáforas e símbolos de fazer qualquer fã de David Lynch vibrar a cada cena.
Desde a primeira cena, em um bizarro cenário que retrata um misterioso clube que remete imediatamente aos delírios visuais que Lynch imprimiu em obras singulares como "Veludo azul" e "Cidade dos sonhos", o filme de Villeneuve - finalizado antes do bem mais comercial "Os suspeitos", mas lançado posteriormente - já dá mostras ao espectador que não irá seguir o caminho tradicional das narrativas hollywoodianas. Construindo o suspense aos poucos e oferecendo econômicas pistas sobre o que realmente está acontecendo, o roteiro de Javier Gullón conduz a plateia a um angustiante jogo de espelhos, enfatizado pela extraordinária fotografia, que se equilibra com maestria entre os ensolarados exteriores e os opressivos e claustrofóbicos ambientes fechados - uma dualidade que casa perfeitamente com a ideia central da trama, que versa sobre extremos e dicotomias a todo momento. E logicamente, encerrar seu filme com um final alegórico apenas confirma sua vocação para cult: não foi à toa que "O homem duplicado" pouca atenção chamou nas bilheterias e passou praticamente em branco até mesmo pelas cerimônias de premiação, onde foi solenemente ignorado apesar de suas evidentes qualidades artísticas.
Tipo de filme do qual pouco se pode falar sob pena de estragar a diversão alheia, "O homem duplicado" é um prato cheio para o espectador que procura mais do que simples entretenimento. Inteligente, sutil, bem dirigido e bem interpretado - Isabella Rossellini ilumina a tela no papel da mãe do protagonista - o filme de Villeneuve, um cineasta elegante e incapaz de obviedades, é para ser assistido, discutido e aplaudido. Em um dos melhores trabalhos de uma carreira jovem mas já solidificada, Jake Gyllenhaal é apenas a principal razão para se conhecer um dos melhores e mais subestimados filmes de 2013 - nem que seja para ficar com a cabeça repleta de nós quando acabar a sessão.
Adam é um jovem professor universitário que vive em Toronto e leva uma rotina pacata, que inclui visitas à sua dedicada mãe e encontros ocasionais com uma bela mulher com quem evita maiores intimidades. Um dia, assistindo a um filme recomendado por um colega de trabalho, ele reconhece em um dos figurantes um homem idêntico a si mesmo. Movido por uma curiosidade implacável, ele descobre o nome do tal ator - Anthony Claire - e, depois de confirmar sua impressionante semelhança física com ele, parte em sua busca para encontrá-lo face a face. Quando tal encontro acontece, uma série de situações imprevistas une os dois rapazes (de personalidades opostas) e passa a invadir suas vidas íntimas.
À primeira vista, "O homem duplicado" é apenas mais um filme de suspense repleto de clichês, a despeito de ser baseado em um romance do premiado escritor português José Saramago. Mas basta prestar atenção nos créditos para se perceber que ele é bem mais do que isso. Na direção está o canadense Denis Villeneuve, que concorreu ao Oscar de filme estrangeiro com o devastador "Incêndios", e o elenco conta com a experiente Isabella Rossellini e o mais que conhecido Jake Gyllenhaal se dividindo nos papéis centrais. Herdando o desafio recusado por Javier Bardem (que não se achava adequado) e Christian Bale (impedido de fazer o filme por falta de tempo na agenda), Gyllenhaal acaba se mostrando mais do que capaz de enfrentar um roteiro que se liberta das amarras do gênero apresentando um conjunto de metáforas e símbolos de fazer qualquer fã de David Lynch vibrar a cada cena.
Desde a primeira cena, em um bizarro cenário que retrata um misterioso clube que remete imediatamente aos delírios visuais que Lynch imprimiu em obras singulares como "Veludo azul" e "Cidade dos sonhos", o filme de Villeneuve - finalizado antes do bem mais comercial "Os suspeitos", mas lançado posteriormente - já dá mostras ao espectador que não irá seguir o caminho tradicional das narrativas hollywoodianas. Construindo o suspense aos poucos e oferecendo econômicas pistas sobre o que realmente está acontecendo, o roteiro de Javier Gullón conduz a plateia a um angustiante jogo de espelhos, enfatizado pela extraordinária fotografia, que se equilibra com maestria entre os ensolarados exteriores e os opressivos e claustrofóbicos ambientes fechados - uma dualidade que casa perfeitamente com a ideia central da trama, que versa sobre extremos e dicotomias a todo momento. E logicamente, encerrar seu filme com um final alegórico apenas confirma sua vocação para cult: não foi à toa que "O homem duplicado" pouca atenção chamou nas bilheterias e passou praticamente em branco até mesmo pelas cerimônias de premiação, onde foi solenemente ignorado apesar de suas evidentes qualidades artísticas.
Tipo de filme do qual pouco se pode falar sob pena de estragar a diversão alheia, "O homem duplicado" é um prato cheio para o espectador que procura mais do que simples entretenimento. Inteligente, sutil, bem dirigido e bem interpretado - Isabella Rossellini ilumina a tela no papel da mãe do protagonista - o filme de Villeneuve, um cineasta elegante e incapaz de obviedades, é para ser assistido, discutido e aplaudido. Em um dos melhores trabalhos de uma carreira jovem mas já solidificada, Jake Gyllenhaal é apenas a principal razão para se conhecer um dos melhores e mais subestimados filmes de 2013 - nem que seja para ficar com a cabeça repleta de nós quando acabar a sessão.
OS SUSPEITOS
OS SUSPEITOS (Prisoners, 2013, Alcon Entertainment, 153min)
Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Aaron Guizowski. Fotografia: Roger
A. Deakins. Montagem: Joel Cox, Gary Roach. Música: Jóhan Jóhansson.
Figurino: Renée April. Direção de arte/cenários: Patrice Vermette/Frank
Galline. Produção executiva: Stephen Levinson, Edward L. McDonnell,
Robyn Meisinger, John H. Starke, Mark Wahlberg. Produção: Kira Davis,
Broderick Johnson, Adam Kolbrenner, Andrew A. Kosove. Elenco: Hugh
Jackman, Jake Gyllenhaal, Paul Dano, Melissa Leo, Terrence Howard, Maria
Bello, Viola Davis. Estreia: 30/8/13 (Festival de Telluride)
Indicado ao Oscar de Fotografia
Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.
O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.
Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.
Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.
Indicado ao Oscar de Fotografia
Realizar um filme de gênero é sempre um desafio para um grande diretor: é preciso jogar com os elementos clássicos de forma inteligente, de maneira a prender a atenção de um público mal-acostumado com os clichês e ainda assim imprimir uma marca que o distingua de dezenas de outros lançamentos. Para sorte dos cinéfilos, vários mestres conseguiram esse feito: Pedro Almodovar fez isso magistralmente em "Má educação". David Fincher também, em "Zodíaco". Scorsese idem, em "A época da inocência" e Woody Allen em "Match point, ponto final". A lista, agora, tem um novo nome: Denis Villeneuve, o canadense do sublime "Incêndios", indicado ao Oscar de filme estrangeiro em 2011. Seu "Os suspeitos" foge da simples definição de filme policial para transformar-se, em suas mãos, em um sério e claustrofóbico estudo sobre a culpa, a justiça pelas próprias mãos e o sentimento de perda.
O título original - "Prisoners" - pra variar tem muito mais camadas do que a tradução preguiçosa escolhida pela distribuidora, que já havia batizado outro grande filme, dirigido por Bryan Singer em 1995 e que deu o primeiro Oscar a Kevin Spacey. No filme de Villeneuve, os protagonistas são realmente prisioneiros, cada um a seu modo, das consequências do desaparecimento de duas meninas no feriado de Ação de Graças em Boston. O pai de uma delas, Keller Dover (Hugh Jackman) parte em uma busca obsessiva por seu paradeiro, que ele julga ser de conhecimento de Alex Jones (Paul Dano), um rapaz com problemas mentais visto nas redondezas do rapto. O policial Locki (Jake Gyllenhaal), encarregado do caso, sente-se em dívida de honra com o desesperado pai, especialmente quando o principal suspeito é liberado apesar de sua promessa de mantê-lo sob vigilância. E, logicamente, as duas famílias também estão aprisionadas à dúvida sobre a vida ou morte de suas crianças.
Os desdobramentos da trama, criada pelo roteirista Aaron Guzikowski, não valem a pena ser mencionados, sob pena de estragar a diversão - se é que "diversão" é o adjetivo adequado a um filme que mantém a tensão da plateia à flor da pele. No pleno domínio de seu trabalho como cineasta, Villeneuve constroi um suspense crescente, espalhando pistas sobre a resolução do caso (quase simplista, mas coerente) pelas cenas, dirigidas com economia de movimentos de câmera e atenção redobrada aos detalhes. A fotografia úmida e noir do mestre Roger Deakins colabora para o tom sombrio da narrativa, que não dá espaço para momentos desnecessários (e o faz com tanta competência que as duas horas e meia passam sem que se perceba). O roteiro segue o padrão que todos conhecem - o crime, a investigação, as pistas falsas, o clímax, o desenlace - mas o faz com uma propriedade ímpar, que faz com que tudo soe como novidade aos olhos da plateia, principalmente por dar uma importância rara às consequências dramáticas dos atos de seus personagens.
Ao contrário da maioria dos filmes policiais, onde os personagens existem somente para empurrar a história, em "Os suspeitos" é a história que empurra os personagens. Interessa a Villeneuve, cineasta com um olho cuidadoso para as mazelas do ser humano, mais a violência psicológica que se passa no subterrâneo da mente de Dover, Jones e Locki do que a violência física que porventura possa estar ocorrendo no cativeiro das meninas sequestradas. É a forma com que o pai angustiado e o policial dedicado lidam com o caso que eleva o filme a um patamar acima de seus congêneres, e para tal conta com um elenco brilhante, liderado por Hugh Jackman na melhor atuação de sua carreira - muito superior à sua interpretação indicada ao Oscar pelo modorrento "Os miseráveis" - e Jake Gyllenhaal, que constrói seu Locki com uma expressão corporal sutil e eficaz. O cada vez melhor Paul Dano e a oscarizada Melissa Leo também tem interpretações de destaque, em papéis que exploram a contento suas melhores qualidades.
Forte, intenso e digno de figurar entre os indicados ao próximo Oscar - o que infelizmente não deve ocorrer, haja visto sua ausência nas listas divulgadas até o momento - "Os suspeitos" é uma estreia alvissareira do diretor Dennis Villeneuve em Hollywood. Que se mantenha assim.
quinta-feira
INCÊNDIOS
INCÊNDIOS (Incendies, 2010, TS Productions, 139min) Direção: Denis Villeneuve. Roteiro: Denis Villeneuve, peça teatral de Wadji Mouawad. Fotografia: André Turpin. Montagem: Monique Dartonne. Música: Grégoire Hetzel. Figurino: Sophie Lefebvre. Direção de arte/cenários: André-Line Beauparlant/Rana Aboot, Marie-Soleil Dénomme, Amin Charif El Masri, Philippe Lord. Produção: Luc Déry, Kim McCraw. Elenco: Lubna Azabal, Mélissa Désormeaux-Poulin, Maxim Gaudette, Remy Girard. Estreia: 04/9/10 (Festival de Cinema de Namur)
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, o canadense "Incêndios" é provavelmente um dos mais impactantes dramas lançados nos últimos anos. Narrado com a força de uma tragédia grega (dando ao destino o poder das maiores ironias), o longa do cineasta Denis Villeneuve - também autor do roteiro, adaptado da peça teatral de Wajdi Mouawad montada no Brasil com Marieta Severo no papel central - consegue ser, ao mesmo tempo, emocionante, surpreendente e, mais do que tudo, chocante como poucos filmes de nossa época tão dada ao cinismo. Ao misturar em uma única história elementos políticos inquietantes e um drama familiar poderoso, a trama de Mouawad não tem medo de avançar em temas ousados e um desfecho aterrador que dificilmente seria visto em um filme do mainstream hollywoodiano.
A protagonista de "Incêndios" é Nawal Marwan - em uma atuação visceral da belga Lubna Azabal. Quando o filme começa, no Canadá, ela está morta, mas é seu último desejo, deixado em testamento e testemunhado por seu chefe e amigo Jean Lebel (Rémy Girard) que dá a partida na trama. Discreta e introvertida, Nawal surpreende seu casal de filhos gêmeos com um pedido incomum: eles tem que localizar seu irmão mais velho e seu pai (que julgavam morto) e entregar a eles dois envelopes lacrados. Enquanto Simon (Maxim Gaudette) considera tudo um delírio da mãe, Jeanne (Mélissa Désourmeax-Poulin) resolve acatar a última ordem da mãe, partindo então para o Oriente Médio, onde ela foi criada. As coisas, porém, não serão fáceis: como Jeanne acaba descobrindo, o nome de sua mãe não é exatamente bem-quisto e a história de sua família tem origens muito mais complexas e tristes do que ela ou seu irmão poderiam supor.
A adaptação do diretor também é digna de elogios. O roteiro mantém os momentos de impacto da peça teatral, expandindo-os de maneira a tornar quase impossível ao espectador imaginar o que estava realmente no palco e o que foi criado para o filme. Além de fazer alterações necessárias - a maneira como Marwal descobre o paradeiro de seu primeiro filho, por exemplo, é bem mais forte no filme do que na peça - Villeneuve dá à sua protagonista mais presença em cena. No texto de Mouawad, as lembranças que trazem a personagem ao centro da trama são bem mais vividas por Jeanne, sua filha, do que por ela mesma. Na versão cinematográfica a condução da trama fica nas mãos mais que competentes de Lubna Azanal, capaz de transformações físicas impressionantes e uma variedade de nuances de interpretação invejável.
Utilizando de maneira inteligente o batido recurso do flashback, "Incêndios" tem em sua narrativa seca e quase documental seu maior trunfo. Fugindo do sentimentalismo barato, Villeneuve confia em sua história o suficiente para deixar que ela, forte por si só, seja o centro da atenção, sem apelar para artifícios que desviem o foco do mistério que vai se desvendando aos poucos diante dos olhos incrédulos do espectador, testemunha de uma saga de violência física e psicológica capaz de deixar rastros indeléveis no corpo e na alma. Seu final, devastador, parece dizer que a guerra, ainda que mutile os seres humanos de todas as maneiras possíveis, não é capaz de apagar um espírito. É uma afirmação que poucos filmes conseguem fazer sem soar piegas!
Indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro
Indicado ao Oscar 2011 de Melhor Filme Estrangeiro, o canadense "Incêndios" é provavelmente um dos mais impactantes dramas lançados nos últimos anos. Narrado com a força de uma tragédia grega (dando ao destino o poder das maiores ironias), o longa do cineasta Denis Villeneuve - também autor do roteiro, adaptado da peça teatral de Wajdi Mouawad montada no Brasil com Marieta Severo no papel central - consegue ser, ao mesmo tempo, emocionante, surpreendente e, mais do que tudo, chocante como poucos filmes de nossa época tão dada ao cinismo. Ao misturar em uma única história elementos políticos inquietantes e um drama familiar poderoso, a trama de Mouawad não tem medo de avançar em temas ousados e um desfecho aterrador que dificilmente seria visto em um filme do mainstream hollywoodiano.
A protagonista de "Incêndios" é Nawal Marwan - em uma atuação visceral da belga Lubna Azabal. Quando o filme começa, no Canadá, ela está morta, mas é seu último desejo, deixado em testamento e testemunhado por seu chefe e amigo Jean Lebel (Rémy Girard) que dá a partida na trama. Discreta e introvertida, Nawal surpreende seu casal de filhos gêmeos com um pedido incomum: eles tem que localizar seu irmão mais velho e seu pai (que julgavam morto) e entregar a eles dois envelopes lacrados. Enquanto Simon (Maxim Gaudette) considera tudo um delírio da mãe, Jeanne (Mélissa Désourmeax-Poulin) resolve acatar a última ordem da mãe, partindo então para o Oriente Médio, onde ela foi criada. As coisas, porém, não serão fáceis: como Jeanne acaba descobrindo, o nome de sua mãe não é exatamente bem-quisto e a história de sua família tem origens muito mais complexas e tristes do que ela ou seu irmão poderiam supor.
A adaptação do diretor também é digna de elogios. O roteiro mantém os momentos de impacto da peça teatral, expandindo-os de maneira a tornar quase impossível ao espectador imaginar o que estava realmente no palco e o que foi criado para o filme. Além de fazer alterações necessárias - a maneira como Marwal descobre o paradeiro de seu primeiro filho, por exemplo, é bem mais forte no filme do que na peça - Villeneuve dá à sua protagonista mais presença em cena. No texto de Mouawad, as lembranças que trazem a personagem ao centro da trama são bem mais vividas por Jeanne, sua filha, do que por ela mesma. Na versão cinematográfica a condução da trama fica nas mãos mais que competentes de Lubna Azanal, capaz de transformações físicas impressionantes e uma variedade de nuances de interpretação invejável.
Utilizando de maneira inteligente o batido recurso do flashback, "Incêndios" tem em sua narrativa seca e quase documental seu maior trunfo. Fugindo do sentimentalismo barato, Villeneuve confia em sua história o suficiente para deixar que ela, forte por si só, seja o centro da atenção, sem apelar para artifícios que desviem o foco do mistério que vai se desvendando aos poucos diante dos olhos incrédulos do espectador, testemunha de uma saga de violência física e psicológica capaz de deixar rastros indeléveis no corpo e na alma. Seu final, devastador, parece dizer que a guerra, ainda que mutile os seres humanos de todas as maneiras possíveis, não é capaz de apagar um espírito. É uma afirmação que poucos filmes conseguem fazer sem soar piegas!
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