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sábado

PASTORAL AMERICANA

PASTORAL AMERICANA (American pastoral, 2015, Lakeshore Entertainment, 108min) Direção: Ewan McGregor. Roteiro: John Romano, romance de Philip Roth. Fotografia: Martin Ruhe. Montagem: Melissa Kent. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Lindsay Ann McKay. Direção de arte/cenários: Daniel B. Clancy/Jason Shumaker, Julie Smith. Produção executiva: Qiuyun Long, Terry A. McKay, Eric Reid. Produção: Andre Lamal, Gary Lucchesi, Tom Rosenberg. Elenco: Ewan McGregor, Jennifer Connelly, Dakota Fanning, Peter Riegert, Rupert Evans, Uzo Aduba, Molly Parker, Samantha Mathis, David Strathairn. Estreia: 09/9/16 (Festival de Toronto)

Não deixa de ser estranho que o filme de estreia de Ewan McGregor na direção de longa-metragens seja algo tão denso quanto "Pastoral americana": revelado por Danny Boyle em produções celebradas principalmente por seu senso de humor inconoclasta, como "Cova rasa" e "Trainspotting: sem limites", McGregor jamais abandonou suas raízes independentes, mesmo quando se jogava sem medo em superproduções hollywoodianas, como a saga "Star Wars" ou o musical "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001), seus maiores sucessos comerciais. Mas sua escolha em contar uma história tão profundamente arraigada aos conflitos do american way of life, adaptada de um romance do consagrado Philip Roth, vencedor do Pulitzer em 1998, demonstra uma sensibilidade em relação ao âmago do núcleo tradicional da família americana que nem todo cineasta ianque consegue ter. Com uma narrativa clássica e discreta, McGregor tem a inteligência de não querer uma direção que se sobressaia à trama - e acaba entregando um potente drama, escorado em seus atores e em um roteiro que não trai o legado de Roth em sua investigação sobre a personalidade humana.

Na verdade, McGregor não era a primeira escolha para o filme - nem como diretor e nem como ator. Quando o projeto original foi cancelado, em 2004, o diretor escolhido era Philip Noyce, em um momento feliz de sua carreira, depois do sucesso de seu "O americano tranquilo" (2002), baseado no livro de Graham Greene, e que havia rendido uma indicação ao Oscar de melhor ator para Michael Caine. Nessa versão, o casal central da história seria um casal também da vida real, Paul Bettany e Jennifer Connelly, com Evan Rachel Wood no papel da filha rebelde (uma especialidade da atriz, revelada no excelente "Aos treze", de 2003). Anos haviam se passado no desenvolvimento da ideia de realizar o filme quando o cancelamento acabou, e somente uma década depois, ele voltaria a ser considerado - dessa vez já com McGregor como diretor e no papel principal masculino. Jennifer Connelly continuou no elenco mesmo sem o marido como colega de cena, e a talentosa Dakota Fanning foi chamada para viver sua problemática filha, Merry. Com um trio talentoso como esse - mais a música de Alexandre Desplat e a participação especial de David Straithairn - não tinha mesmo como dar errado. E, apesar do pouco caso com que foi recebido nas bilheterias e até mesmo por parte da crítica, não deu mesmo. "Pastoral americana" é um drama forte, visceral e relevante, que aponta para McGregor uma nova e surpreendente carreira.


De forma contundente e melancólica, "Pastoral americana" destrói a ilusão de uma família perfeita - quase como Sam Mendes fez em "Foi apenas um sonho" (2008), também baseado em um livro, escrito por Sam Yates. McGregor interpreta Seymour Levov, mais conhecido como Swede, um americano judeu que é o retrato do sucesso: atleta cobiçado na universidade, casou-se com a bela Dawn (Jennifer Connelly), uma rainha de beleza igualmente desejada, e, com a chegada da vida adulta, assumiu o comando da bem-sucedida fábrica de luvas criada pelo pai. Dono de uma bela casa em Nova Jersey, profissionalmente satisfeito, com uma esposa exemplar e uma bela e loura filha (cujo único problema é a gagueira), Swede parece só ter motivos para agradecer - até que sua adorável filha passa a tornar-se irreconhecível a seus olhos: politicamente afetada pelos problemas sociais ao seu redor, Merry simplesmente desaparece depois de ser acusada de plantar uma bomba em uma propriedade privada. Desnorteados, seus pais iniciam uma busca não apenas por seu paradeiro, mas também por uma forma de reencaixá-la em sua vida pacífica e, até então, quase banal. Dawn embarca em um processo de negação que a leva às raias da loucura, enquanto Swede tenta manter o equilíbrio emocional para não permitir o desmoronamento absoluto de seu universo perfeito.

McGregor acerta na direção de atores, o que não é pouca coisa quando se trata de um estreante. Ao mesmo tempo em que consegue manter-se discreto no papel de Swede - que é, ao mesmo tempo um observador do redemoinho à sua volta e um ativo participante da tragédia que o envolve -, o ator extrai de suas colegas de cena performances carregadas de sentimento e dor. Jennifer Connelly, linda como nunca, sai-se muito bem tanto na juventude quanto na maturidade, entregando alguns momentos de melancolia explícita de cortar o coração; e Dakota Fanning - revelada ainda criança em "Uma lição de amor" (2001), onde fazia a filha de Sean Penn - comprova que seu talento não era questão de sorte de principiante: no difícil papel da rebelde e problemática Merry, a jovem se encarrega de dar luz a ideias e princípios que batem de frente com o pensamento político médio dos EUA, e oferece um contraponto radical à lucidez cega de sua família. Os três estão sensacionais - e inundam o filme de sentimento, dor e amor incondicional. Um belíssimo trabalho de estreia de Ewan McGregor - e que seja o primeiro de muitos.

domingo

CAMINHOS VIOLENTOS

CAMINHOS VIOLENTOS (At close range, 1986, Hemdale, 111min) Direção: James Foley. Roteiro: Nicholas Kazan, estória de Nicholas Kazan, Elliott Lewitt. Fotografia: Juan Ruíz Anchia. Montagem: Howard Smith. Música: Patrick Leonard. Figurino: Hilary Rosenfeld. Direção de arte/cenários: Peter Jamison/R. Chris Westlund. Produção executiva: John Daly, Derek Gibson. Produção: Don Guest, Elliott Lewitt. Elenco: Christopher Walken, Sean Penn, Mary Stuart Masterson, Chris Penn, David Strathairn, Millie Perkins, Eileen Ryan, Kiefer Sutherland, Crispin Glover. Estreia: Fevereiro de 1986 (Festival de Berlim)

A parceria artística entre Madonna e Sean Penn - um dos casais mais explosivos e comentados da década de 80 - nunca foi exatamente auspiciosa. Seu único encontro nas telas foi no desastroso "Surpresa de Shangai" (86), um fracasso comercial e de crítica, e não fosse por manchetes frequentes expondo sua relação complicada - e algumas canções do álbum "True blue", lançado em 1984 - era bem possível que seu casamento tivesse passado à história sem maiores lembranças. Mas, justiça seja feita, se as carreiras de ambos entraram em curva ascendente depois do divórcio em 1989, ao menos uma colaboração entre os dois (ainda que indireta) pode ser creditada a seu favor: é de Madonna e seu parceiro musical de então, Patrick Leonard, a bela "Live to tell", tema musical de "Caminhos violentos", estrelado por Penn. Das primeiras imagens até os créditos finais, a melancólica canção pontua com firmeza uma história trágica e verdadeira, dirigida por James Foley - que também dirigiria a cantora em "Quem é essa garota?" (87) e em alguns videoclipes - e calcada visualmente nos filmes de rebeldia juvenil da década de 50. É um filme dramaticamente potente, escorado na atuação visceral do jovem ator e que confirma seu status de indisciplinado mais talentoso de sua geração.

Baseado em fatos reais, ocorridos no estado da Pensilvânia, "Caminhos violentos" é filmado por James Foley com uma clima crescente de claustrofobia e tensão, com uma fotografia crua e seca e uma edição direta e objetiva. Sem floreios estilísticos ou artifícios narrativos, o roteiro, escrito por Nicholas Kazan - filho de Elia, que dirigiu o ícone da rebeldia no cinema, James Dean, em seu filme de estreia, "Vidas amargas" (54) - opta pelo naturalismo, entregando ao espectador uma obra impactante e dolorosa, uma história pungente de amor e violência entre pai e filho, valorizada pelo embate de atuações entre Penn (então um jovem ator em começo de carreira) e Christopher Walken (já consagrado com um Oscar por "O franco-atirador", de 1978). Apesar de sua evidente entrega ao papel, Walken não foi, porém, a primeira escolha do diretor - quem o recusou foi ninguém menos que Robert DeNiro, que o considerou sombrio demais. Talvez DeNiro tivesse um pouco de razão (apesar de aceitar, pouco depois, viver o diabo em pessoa no impressionante "Coração satânico", de Alan Parker): o pai criminoso e cruel interpretado por Walken é, sem dúvida, um dos personagens mais intensos de uma carreira repleta deles, e sem dúvida, um de seus pontos altos.


Brad Whitewood, o personagem de Walken, é o centro da trama de "Caminhos violentos": um pai ausente que, depois de anos sem dar notícias, volta ao convívio dos dois filhos, Brad Jr. e Tommy (Sean Penn e Chris Penn, irmãos também na vida real). Quem se deixa seduzir facilmente pela vida de pequenos crimes do pai é Brad Jr., um rapaz que divide seu tempo entre alguns serviços mecânicos, consumo de drogas leves e o namoro com a delicada Terry (Mary Stuart Masterson): frequentando a casa do pai e participando de alguns de seus roubos de tratores, ele passa a vislumbrar uma vida menos sacrificada que poderá lhe ajudar a planejar um futuro com a namorada. As coisas saem do controle, porém, quando o rapaz percebe que a vida bandida do pai não se resume apenas a furtos supostamente inocentes: testemunha de uma fria queima de arquivo, Brad Jr. tentará, então, afastar-se da rede de violência que ameaça não apenas a sua própria sobrevivência, mas também das pessoas que ama.

Fracasso de bilheteria nos EUA mas elogiado pelos críticos europeus, "Caminhos violentos" foge dos padrões comerciais do cinemão de Hollywood ao eleger como protagonistas dois personagens pouco heróicos e/ou simpáticos. Mesmo que Brad Jr. lute contra o destino trágico que parece lhe ser inevitável e para isso bata de frente com o próprio pai, ele tampouco é um exemplo de conduta, errando com mais frequência do que acertando e envolvendo pessoas inocentes em um mundo de sangue e brutalidade. É graças ao trabalho irretocável de Sean Penn que ele conquista a simpatia do espectador e conduz a narrativa até o final avassalador, em um clímax cujo poder está centrado basicamente na química entre os dois atores e na direção segura de Foley - que se utiliza de todos os elementos dramáticos de forma a emoldurar uma trama densa e pessimista. Um dos trabalhos fundamentais da trajetória de Sean Penn rumo ao estrelato, "Caminhos violentos" é também, com justiça, um de seus filmes preferidos da década de 80 - uma obra imperdível.

terça-feira

UM CRIME DE MESTRE

UM CRIME DE MESTRE (Fracture, 2007, New Line Cinema/Castle Rock Entertainment, 113min) Direção: Gregory Hoblit. Roteiro: Daniel Pyne, Glenn Gers, estória de Daniel Pyne. Fotografia: Kramer Morgenthau. Montagem: David Rosenbloom. Música: Jeff Dana, Mychael Danna. Figurino: Elisabetta Beraldo. Direção de arte/cenários: Paul Eads/Nancy Nye. Produção executiva: Toby Emmerich, Liz Glotzer, Hawk Koch. Produção: Charles Weinstock. Elenco: Anthony Hopkins, Ryan Gosling, David Strathairn, Rosamund Pike, Embeth Davidtz, Billy Burke, Fiona Shaw, Bob Gunton, Xander Berkeley, Zoe Kazan. Estreia: 11/4/07

Em seu filme de estreia, o cineasta Gregory Hoblit conquistou o público com uma instigante trama de tribunal que colocava frente a frente um advogado vaidoso e arrogante (Richard Gere) e um jovem sacristão acusado de matar violentamente um arcebispo. O filme era "As duas faces de um crime" e, além de ter dado a primeira chance no cinema a Edward Norton - que a aproveitou como poucos, chegando ao páreo do Oscar de coadjuvante - mostrou em Hoblit um cineasta correto e atencioso com os atores e o texto. Tais características são claras também em "Um crime de mestre", lançado mais de uma década depois e que, assim como em seu primeiro filme, junta em cena um ator veterano e um talento promissor, no caso, Anthony Hopkins - o eterno Hannibal Lecter - e Ryan Gosling, iniciando uma trajetória de bons papéis e filmes menos esquecíveis como "Cálculo mortal". E a menção ao mais famoso canibal do cinema não é casual: mesmo sendo um grande ator, é impossível não perceber em sua atuação como o milionário Ted Crawford traços bem nítidos do papel que lhe deu a estatueta da Academia.

O olhar frio, o calculismo e um certo tom de superioridade ao restante da humanidade são algumas  das similaridades entre Lecter e Crawford, um milionário do ramo da aviação que, ao descobrir o relacionamento extra-conjugal de sua esposa, Jennifer (Embeth Davidtz), planeja sua morte com requintes de artista: ao chegar em casa depois de um encontro com o amante, Jennifer é atingida com um tiro no rosto e é internada em coma. Acuado pela polícia dentro de sua mansão, Crawford confessa o crime e é preso imediatamente. O defensor público escalado para cuidar de seu caso é o ambicioso Willy Beachum (Ryan Gosling), jovem advogado em vias de dar um salto na carreira e tornar-se sócio de uma conceituada firma da qual faz parte a sedutora Nikki Gardner (Rosamund Pike) - com quem ele acaba se envolvendo romanticamente. Acontece que Beachum não está muito interessado no caso por considerá-lo perdido - o suspeito, afinal de contas, fez uma confissão à polícia e foi preso em flagrante. No entanto, uma surpresa na condução das preliminares do julgamento o faz mudar de ideia: defendendo a si mesmo diante do juiz, Crawford põe em dúvida a veracidade de sua confissão ao revelar, durante um depoimento, que o policial que o prendeu, Robert Nunnaly (Billy Burke), era o amante de sua mulher.


Por vezes o roteiro de "Um crime de mestre" exagera nas tecnicalidades do direito penal americano, mas nada que o público acostumado a uma constante dieta de filmes do gênero não consiga acompanhar sem dificuldade, principalmente porque Hoblit tem pleno domínio do ritmo de seu filme, impedindo qualquer queda no interesse pela trama. É lógico que o duelo de interpretações entre Gosling e Hopkins dá um molho especial à narrativa, fotografada com elegância e sofisticação em ângulos de câmera criativos e que enfatizam o tom de quebra-cabeças da história. E se Hopkins repete à exaustão os tiques que lhe deram fama, o jovem Gosling deita e rola com a oportunidade de contracenar com um dos monstros sagrados do cinema: ficando com o papel para o qual também foi testado Chris Evans - o futuro Capitão América das telas - ele entrega uma atuação visceral que lhe conduziu em seguida ao posto de uma das maiores promessas de Hollywood (não à toa, ele recebeu uma indicação ao Oscar de melhor ator por seu desempenho no independente "Half Nelson" às vésperas da estreia de "Um crime de mestre" nos EUA). Suas cenas com Hopkins - tensas e calcadas basicamente no talento dos atores - e com Rosamund Pike - banhadas em uma tensão sexual na dose certa - são, certamente, as melhores do filme.

"Um crime de mestre" não é um filme brilhante, mas tem qualidades o bastante para satisfazer o gosto dos fãs do gênero, com suas viradas, seus diálogos inteligentes e um final que, apesar de não atingir todo o seu potencial, é coerente e verossímil. Além do mais, nada é mais instigante do que testemunhar um duelo de interpretações entre dois ótimos atores de gerações diferentes. Um programa de nível para quem prefere utilizar o cérebro ao invés dos músculos.

domingo

FERIADOS EM FAMÍLIA

FERIADOS EM FAMÍLIA (Home for the holidays, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Paramount Pictures, 103min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: W. D. Richter, conto de Chris Radant. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Barbara Drake. Produção executiva: Stuart Kleinman. Produção: Jodie Foster, Peggy Rasjki. Elenco: Holly Hunter, Robert Downey Jr,. Anne Bancroft, Charles Durning, Dylan McDermott, Geraldine Chaplin, Steve Guttenberg, Cynthia Stevenson, David Straithairn, Claire Danes. Estreia: 03/11/95

Em sua segunda incursão como diretora, Jodie Foster não quis afastar-se muito da temática de sua estreia, o drama doméstico "Mentes que brilham". "Feriados em família", uma crônica agridoce sobre as difíceis porém indeléveis relações entre pais, filhos e irmãos mostra que a atriz/diretora/produtora amadureceu artisticamente ainda mais nos quatro anos que separam seus dois trabalhos, mas esbarra em uma certa frieza que contrasta com o calor humano demonstrado em seu primeiro filme. Equilibrando um senso de humor amargo com um elenco de grandes atores, ela constrói um retrato sem exageros de um núcleo familiar cuja união está nas diferenças e, apesar da irregularidade, comprova que sua transição para o lado de trás das câmeras não foi apenas um capricho vaidoso.

Baseado em um conto de Chris Radant, "Feriados em família" se passa no mais tradicional feriado norte-americano, o Dia de Ação de Graças, quando - ao menos segundo o cinema hollywoodiano - todas as diferenças acumuladas durante o ano todo são exorcizadas em volta da farta mesa de jantar. E para a protagonista Claudia Larson (Holly Hunter) a coisa não será nada fácil: além de encarar as eternas discussões familiares, ela está passando por uma das piores crises da sua vida. Não só perdeu o emprego e saiu dele trocando um inesperado beijo com seu sexagenário ex-patrão como acaba de receber da única filha, a adolescente Kitt (Claire Danes), a notícia de que ela está decidida a perder a virgindade com o namoradinho. Chegando na pequena cidade onde moram seus pais, ela precisa enfrentar a insistência da mãe, Adele (Anne Bancroft), de que se entenda com um amigo de infância apaixonado por ela, Russell (David Straithairn) e voltar a ser tratada como adolescente pelo pai, Henry (Charles Durning). Sua pressão só diminui com a chegada do irmão caçula, Tommy (Robert Downey Jr.), homossexual assumido que traz à tiracolo um amigo, Leo Fish (Dylan McDermot), por quem ela logicamente sente-se atraída.


Não bastasse tudo isso, a reunião familiar fica completa quando entra em cena Glady (Geraldine Chaplin) - que mantém escondido um segredo há décadas e não se importa em revelá-lo à hora da refeição - e a terceira filha de Adele e Henry, a reprimida Joanne (Cynthia Stevenson), que se orgulha de ter uma família sólida ao lado do marido Walter (Steve Guttenberg) e mantém uma relação de desprezo com a vida sexual do irmão. A noite torna-se cada vez mais tumultuada quando as diferenças passam a ser resolvidas da pior maneira possível - o que inclui até um inesperado banho de recheio de peru. Nesse meio tempo, Claudia não consegue evitar a aproximação com Leo - a quem julga ser o novo parceiro do irmão, que também tem uma revelação a fazer a todos no final do feriado.

Ao contrário do que fez em "Mentes que brilham", Jodie Foster não busca a emoção da plateia com "Feriados em família". Sua opção pelo humor - sutil, quase imperceptível em sua discrição - mostra um distanciamento bastante saudável em relação às complicadas teias familiares descritas no roteiro, que vai tornando-se mais interessante à medida em que a trama realmente começa a mostrar seus desdobramentos e os personagens vão se despindo de suas cascas e mostrando suas dores e delícias. São nesses momentos, em que a individualidade de cada um vem à tona, que o filme mostra a que veio e Foster deixa claro seu maior talento como cineasta: dirigir atores. Sendo um drama centrado em personagens - mais do que em acontecimentos - "Feriados em família" depende quase que exclusivamente do elenco e sua escolha não poderia ter sido mais feliz: não há um único elo fraco entre todos os atores que, cada um à sua maneira, transmite toda a gama de sentimentos necessários para manter aceso o interesse da plateia.

Holly Hunter e Anne Bancroft - ambas premiadas com o Oscar por trabalhos anteriores e atrizes consagradas - roubam a cena sem precisar muito esforço, enquanto Robert Downey Jr. (que fez o filme inteiro à base de heroína, para tristeza de Foster) comprova que sempre foi um ator de imenso talento, felizmente reconhecido e recuperado a tempo de tornar-se popular. E não deixa de ser delicioso ver em cena uma atriz como Geraldine Chaplin, perfeita em seu timing de tia maluca que é bem menos demente do que todos pensavam. É ela, junto com todos os atores que transformam a sensação de assistir-se a "Feriados em família" em uma noite de (bom) teatro.

sábado

ECLIPSE TOTAL

ECLIPSE TOTAL (Dolores Claiborne, 1995, Warner Bros, 132min ) Direção: Taylor Hackford. Roteiro: Tony Gilroy, romance de Stephen King. Fotografia: Gabriel Beristain. Montagem: Mark Warner. Música: Danny Elfman. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Steve Shewchuck. Produção: Taylor Hackford, Charles Mulvehill. Elenco: Kathy Bates, Jennifer Jason Leigh, Christopher Plummer, David Straithairn, John C. Reilly, Eric Bogosian, Ellen Muth, Bob Gunton. Estreia: 24/3/95

Em 1990, durante uma visita às filmagens de "Louca obsessão", adaptação de uma obra sua dirigida por Rob Reiner, o escritor Stephen King ficou impressionado com a atriz principal escolhida pelo cineasta, a até então desconhecida Kathy Bates - que em seguida impressionaria também o mundo inteiro e a Academia de Hollywood com seu desempenho irretocável. O tamanho da admiração de King pelo trabalho de Bates ficou claro quando o autor inspirou-se nela para escrever um novo romance, ao qual deu o nome de "Dolores Claiborne" - e cujos direitos foram imediatamente comprados pela Warner por 1,5 milhão de dólares. Com a escolha óbvia de Bates para o papel central, o filme chegou às telas no primeiro trimestre de 1995 sob a direção de Taylor Hackford e, apesar de não ter feito barulho nas bilheterias, é uma produção digna de figurar ao lado de outras grandes adaptações da obra de King que fogem de seu gênero habitual - um panteão rarefeito onde também estão "Conta comigo" (86) e "Um sonho de liberdade" (94). Com um perfeito equilíbrio entre o suspense e o drama familiar, "Eclipse total" - um título nacional surpreendentemente adequado - é uma pequena pérola muitas vezes esquecida pelo público que consome avidamente qualquer produto que leve a assinatura do escritor.

Hackford - ainda pouco conhecido, apesar de "O sol da meia-noite" e "Paixões violentas", dois relativos sucessos de bilheteria e crítica - demonstra total segurança desde a instigante abertura, que mostra a protagonista sendo flagrada em vias de assassinar a idosa milionária de quem vem cuidando há vinte anos. A pequena cidade do Maine onde se passa essa impressionante cena inicial dá lugar, então, à barulhenta e cosmopolita Nova York, onde a jovem jornalista Selena St. George (Jennifer Jason Leigh) - que está tentando convencer seu editor e ex-amante a dar-lhe a chance de cobrir uma grande reportagem - recebe um fax avisando que sua mãe está presa, acusada de assassinato. Logicamente sua mãe é a Dolores Claiborne do título original (interpretada magistralmente por Kathy Bates), e Selena, que não a visita há mais de duas décadas, parte para o interior com o objetivo de ajudá-la. Neurótica e complicada, a jovem encontra em sua mãe uma mulher amargurada e seca que nega terminantemente a culpa pela morte de sua patroa, a irascível Vera Donovan (Judy Parfitt), mesmo depois de ter sido pega em uma situação absolutamente comprometedora.


A relação entre mãe e filha não é das melhores - e tal situação data da misteriosa morte de Joe St. George (David Straithairn), acontecida durante um eclipse do sol há muitos anos. Acusada na época - por Selena e pelo detetive de polícia local, John Mackey (Christopher Plummer) - de ter sido a responsável pela morte do marido (alcólatra, violento e abusivo), Dolores saiu incólume da investigação, mas vê-se novamente sob a lente de Mackey, que ainda não acredita na sua inocência. Enquanto esperam pela data do inquérito, Dolores e Selena são obrigadas, então, a uma convivência forçada que acaba trazendo à tona momentos dolorosos do passado, que acabam por explicar toda a névoa que cobre as duas mortes relacionadas à batalhadora empregada doméstica e os problemas psicológicos de sua jovem e perturbada filha.

Não há dúvidas de que a história de King é intrigante e prende a atenção do início ao fim - e contém personagens fascinantes e bem construídos, melhorados ainda pelo roteiro de Tony Gilroy, que depois se tornaria cineasta - é dele o premiado "Conduta de risco", de 2007. Mas é a direção certeira de Taylor Hackford que faz com que o filme atinja níveis expressivos de qualidade dramática. Elegante e sutil, ele consegue amenizar a violência da trama original sem trair suas origens literárias e, para isso, conta com uma equipe primorosa - que inclui Danny Elfman na trilha sonora - e atores espetaculares. Se Kathy Bates comanda o show com seu arsenal inesgotável de nuances (Dolores consegue ser subserviente, furiosa, triste, misteriosa e seca sempre que o roteiro precisa), seus colegas de cena não ficam a dever. Tudo bem que Jennifer Jason Leigh até escorrega no lugar-comum, com sua Selena está sempre de preto, fumando compulsivamente, mas uma história de Stephen King sem clichê ainda não existe e o restante do elenco compensa lindamente esse pecadilho: David Straithairn cria um Joe St. George asqueroso em suas falhas e crimes, Christopher Plummer explora com sabedoria o caráter obcecado de seu John Mackey e Judy Parfitt... Bem, na pele da patroa/amiga/vítima de Dolores, a atriz dá um banho de interpretação, duelando de igual para igual com Bates, em cenas inesquecíveis.

Menos conhecido do que merece, "Eclipse total" é um belíssimo filme, que comprova a sensibilidade de Stephen King em falar sobre pessoas mesmo quando elas não tem poderes paranormais ou estão acossadas por demônios e alienígenas. Merece ser descoberto por suas várias e fabulosas qualidades.

quarta-feira

O RIO SELVAGEM

O RIO SELVAGEM (The river wild, 1994, Universal Pictures, 108min ) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Denis O'Neill. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: David Brenner, Joe Hutsching. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Bill Kenney/Rick T. Gentz. Produção executiva: Ray Hartwick, Ilona Herzberg. Produção: David Foster, Lawrence Turman. Elenco: Meryl Streep, Kevin Bacon, David Straithairn, John C. Reilly, Joseph Mazzello, Benjamin Bratt. Estreia: 30/9/94

Em 1994 Meryl Streep já tinha dois Oscar em casa, já era considerada a melhor atriz de sua geração e servia de modelo para toda e qualquer jovem intérprete que surgia no cinema americano. Mas, em sua vitoriosa carreira, repleta de dramas dilacerantes e até comédias de humor negro, faltava um gênero que poucos conseguiam relacionar a ela: o filme de ação. Talvez para riscar esse item da lista, talvez porque quisesse divertir-se um pouco ou talvez porque realmente tenha gostado do roteiro, o fato é que "O rio selvagem" tornou-se conhecido como o filme em que a grande dama do cinema americano deixou as lágrimas de lado e partiu para a ignorância. O resultado não foi dos melhores: a crítica praticamente ignorou e o público não se demonstrou mais entusiasmado com a ideia de vê-la distante dos papéis que lhe deram fama e prestígio.

A culpa, no entanto, não é nem do público, nem da crítica e tampouco de Meryl, que está boa como sempre, exercitando seu conhecido perfeccionismo ao realizar quase todas as cenas perigosas solicitadas. O problema de "O rio selvagem" é sua demora em engrenar, seu ritmo claudicante. O roteiro de Denis O'Neil leva mais de uma hora para expor a situação central - e que irá deflagrar a ação - e depois parece não se esforçar em surpreender ou cativar o espectador, recheando sua história com clichês. Não seria problema se a intenção do filme fosse analisar a crise de um casamento ampliada por uma situação extrema ou simplesmente levar o público a uma montanha-russa ao estilo "Risco total", protagonizado por Sylvester Stallone em 1992. Acontece que a primeira opção não é verdadeira e não parece que a segunda também o seja: o drama familiar da personagem de Streep é quase oco (um desperdício de atores, já que seu marido é vivido pelo ótimo David Straithairn) e a adrenalina que poderia equilibrar a balança a favor do filme é rala, apesar de contar com cenas de grande competência técnica e de contar com um vilão convincente interpretado pelo sempre assustador Kevin Bacon.


Bacon e Streep, aliás, foram indicados ao Golden Globe por seus desempenhos - uma prova a mais do prestígio da atriz junto à critica, já que, além de mostrar-se capaz de atuar até mesmo em produções com nítidas intenções comerciais puras e simples, ela não chega a estar brilhante como normalmente está. No filme, ela interpreta Gail Hartman, uma dona-de-casa que abandonou a profissão de guia turística especializada nas correntezas do Rio Colorado para viver ao lado da família. Saudosa da antiga rotina, ela volta e meia retorna a águas perigosas, que conhece como ninguém. Para comemorar o aniversário do filho mais velho, Roarke (Joseph Mazzello, o menino do filme "Jurassic Park, parque dos dinossauros", de 1993), ela resolve acampar com ele e o marido, Tom (David Straithairn), com quem está em crise. A aventura torna-se extremamente perigosa, porém, quando eles esbarram em Wade (Kevin Bacon), um simpático turista que se revela, logo depois, o líder de um grupo de bandidos que precisa de ajuda para atravessar a fronteira do Canadá. Para isso, ele conta com o conhecimento de Gail.

"O rio selvagem" está longe de ser um filme ruim: tem muita gente boa envolvida para chegar a isso. Mas é apenas mais um filme de ação comum, sem maiores qualidades que o destaquem dos demais (a não ser, claro, a presença nada óbvia de Meryl Streep em seu elenco). Seu diretor, Curtis Hanson, faz um trabalho correto, assim com o fez em "A mão que balança o berço" (93), seu filme anterior, mas nada que fizesse antever o milagre realizado em 1997, quando lançou o sublime "Los Angeles, cidade proibida", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar. Aqui, amarrado a um roteiro sem maiores novidades ou possibilidades, ele está burocrático e apático, assinando uma produção que pode até divertir, mas não deixa marcas no espectador.

terça-feira

BOB ROBERTS

BOB ROBERTS (Bob Roberts, 1992, Miramax Films, 102min) Direção e roteiro: Tim Robbins. Fotografia: Jean Lépine. Montagem: Lisa Zeno Churgin. Música: David Robbins. Figurino: Bridget Kelly. Direção de arte/cenários: Richard Hoover/Brian Kasch. Produção executiva: Tim Bevan, Ronna B. Wallace, Paul Webster. Produção: Forrest Murray. Elenco: Tim Robbins, Giancarlo Esposito, Alan Rickman, Ray Wise, Gore Vidal, David Straithairn. Estreia: 04/9/92

Imagine um Bolsonaro sem a cara de insano e dotado de carisma. Imagine também que, antes de candidatar-se a qualquer cargo político, ele tenha iniciado uma carreira de cantor, espalhando suas ideias neofascistas e ridiculamente racistas pelas emissoras de rádio e televisão a ponto de conquistar um público apaixonado (se bem que essa parte do público bovino aplaudindo barbaridades nem é preciso imaginar). E por fim, imagine que ele estivesse envolvido em escândalos relacionados a tráfico de drogas e manobras sujas para denegrir a honra de seu adversário direto. Pois é exatamente assim que é Bob Roberts, personagem criado por Tim Robbins para sua estreia na direção. Republicano arraigado, cantor folk de canções que defendem a pena de morte e o extermínio de moradores de rua entre outras barbaridades, demagogo e ídolo de uma parcela da sociedade americana tão podre quanto ele, Roberts é candidato ao Senado e, disputando voto a voto com Brickley Paiste (o escritor Gore Vidal), não hesita em apelar para os mais golpes baixos para alavancar sua campanha. Interpretado na medida certa de ironia pelo próprio Tim Robbins - que concorreu ao Golden Globe por seu desempenho - o venal político é a prova cabal de que não é só no Brasil que o povo tem os representantes que merece. As situações absurdas mostradas no filme seriam cômicas se não fossem trágicas. Mas divertem e fazem massagem no cérebro, o que pode ser dito de pouquíssimos filmes americanos.

Robbins, que foi comparado a Orson Welles por sua estreia - por ter dirigido, escrito e produzido o filme, além de interpretar o papel-título, cantar e compor as canções da trilha sonora ao lado do irmão David - fez de seu primeiro trabalho uma espécie de "O jogador" da política (com a diferença de ter alcançado menos sucesso comercial e ser superior ao filme de Robert Altman que ele coincidentemente estrelou). Não apenas escancara o lado sujo dos bastidores políticos - ainda que pouca gente tenha se surpreendido com tal podridão - como conta com um numeroso elenco de astros convidados em pequenas pontas. Até mesmo como forma de posicionar-se diante das atrocidades do governo Bush (o pai, não o filho igualmente boçal) estão em cena, em papéis diminutos, Susan Sarandon (esposa de Robbins à época), Peter Gallagher, Helen Hunt, James Spader, Fred Ward e John Cusack, além de um estreante Jack Black e, em papéis mais importantes, Alan Rickman e David Straithairn. Juntos, eles compõem um painel divertido e por vezes assustador do tamanho das mentiras e manipulações de que são capazes os homens e mulheres que almejam chegar ao poder nos EUA. Narrada em estilo semi-documental (o filme em si é um documentário que está sendo feito sobre a carreira e a ascensão de Roberts), é uma estreia genial de um ator que sempre esteve abertamente ligado à causas políticas (e por isso mesmo sempre comprou brigas, juntamente com Sarandon, principalmente com os produtores do Oscar, que os baniram da cerimônia por anos depois que eles se manifestaram, ao vivo, contra a política do governo em barrar haitianos portadores do vírus HIV).


Utilizando-se da ironia como ferramenta central de seu roteiro, Robbins leva o público a acompanhar a meteórica ascensão de Bob Roberts de cantor pouco conhecido a ídolo de uma geração de eleitores que compartilham, como ele, de ideias dramaticamente contra a democracia. Roberts renega o legado dos anos 60 e dos jovens que lutavam contra a Guerra do Vietnã, prega a utilização de um orçamento ainda maior para a segurança do país em detrimento de ajudar aos mais necessitados (parasitas, segundo ele, que tiram o lugar de trabalhadores mais dispostos) e é abertamente racista. Suas ideias são transmitidas em suas músicas e videoclipes (todos eles realizados de maneira séria mas decididamente hilariantes em sua crítica), além de discursos inflamados e entrevistas que invariavelmente acabam com a fúria dos apresentadores - é especialmente divertida a sequência em que ele vai participar de um programa ao estilo "Saturday night live" e pé francamente hostilizado pelo elenco. Sua máscara, no entanto, não engana a um homem em especial: o repórter independente Bugs Raplin (Giancarlo Esposito, irreconhecível e excepcional), que tem como principal objetivo de vida mostrar ao público quem é de verdade o almofadinha que, por trás de um homem preocupado com o bem-estar das crianças, esconde alguém capaz de usar dinheiro de casas populares para traficar drogas.

"Bob Roberts" é um rasgo de sarcasmo e mordacidade na bem-comportada comédia americana. Politicamente ousado e sem medo de tocar em feridas bem abertas no imaginário ianque - tais como a guerra inventada por George Bush e a manipulação da opinião pública através da mídia - o filme de Tim Robbins também é cruel por expor uma juventude desinformada e manobrável, capaz dos atos mais insanos para defender seus pontos de vista tortuosos. Mesmo que o roteiro trate os eleitores de Roberts como um bando de idiotas (como o são aqueles que assinam embaixo dos absurdos da bancada evangélica da nossa câmara de deputados e do já citado Bolsonaro), isso não transforma a obra em um produto maniqueísta: não interessa ao diretor discutir o que não deve ser discutido. Bob Roberts - o candidato - é um câncer no sistema político. "Bob Roberts" - o filme - é uma das comédias mais inteligentes da década de 90.

segunda-feira

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL

UMA EQUIPE MUITO ESPECIAL (A league of their own, 1992, Columbia Pictures, 128min) Direção: Penny Marshall. Roteiro: Lowell Ganz, Babaloo Mandel, estória de Kim Wilson, Kelly Kandaele. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Adam Bernardi, George Bowers. Música: Hans Zimmer. Figurino: Cynthia Flynt. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Penny Marshall. Produção: Elliot Abbot, Robert Greenhut. Elenco: Tom Hanks, Geena Davis, Lori Petty, Madonna, Rosie O'Donnell, Bill Pullman, David Straithairn, Jon Lovitz, Garry Marshall. Estreia: 01/7/92

No auge da II Guerra, enquanto a maioria dos homens americanos estavam defendendo o país nas trincheiras inimigas, restava às mulheres manter os EUA, até mesmo em funções até então consideradas masculinas. E se nessa época havia fazendeiras, caminhoneiras e empresárias, por que não jogadoras de baseball? Um dos esportes mais amados pelo público ianque, ele estava em sérias dificuldades com o êxodo de seus mais populares jogadores, que estavam jogando por suas vidas nas mais distantes plagas. Com medo de perder as generosas bilheterias que o jogo lhes proporcionava, os empresários tiveram então uma ideia brilhante: criar uma liga feminina de baseball, com o objetivo de manter acesa a chama até o retorno dos (esperava-se) vencedores soldados. Assim começa "Uma equipe muito especial", a divertida comédia que Penny Marshall - diretora dos sucessos "Quero ser grande" (88) e "Tempo de despertar" (90) - fez alcançar mais de 100 milhões de dólares de arrecadação somente no mercado doméstico no verão de 1992. Sucesso de público e crítica, o filme cria uma história de ficção em cima de uma situação verídica (a criação de tal liga) que até então era desconhecida da maior parte dos americanos e faz rir e emociona com um roteiro enxuto escrito pela dupla mais quente da época, Baballo Mandel e Lowell Ganz.

A trama criada pelos roteiristas começa em 1943, no Oregon, quando o descobridor de talentos Ernie Capadino (Jon Lovitz) propõe à talentosa Dotti Hinson (Geena Davis em momento especialíssimo da carreira, acumulando sucesso atrás de sucesso) que o acompanhe para um teste em Chicago: se aprovada, ela entraria em um time de baseball profissional com um salário tentador (ao menos para uma fazendeira cujos dias se resumem a ordenhar vacas, cuidar da casa, esperar que o marido retorne da guerra e ocasionalmente jogar com um grupo de amigas). Dottie a princípio recusa o convite, mas acaba aceitando a proposta, desde que possa levar junto sua irmã caçula, Kit (Lori Petty), com quem mantém uma relação carinhosa porém de certa rivalidade. Em pouco tempo, ambas estão escaladas para serem treinadas por Jimmy Dugan (Tom Hanks, divertidíssimo), que, de uma lenda do esporte acabou por tornar-se um pária por seu vício em álcool. Juntamente com outras mulheres igualmente talentosas, elas encaram o machismo do mundo esportivo - antes de jogadoras elas são tratadas como fêmeas, que precisam saber comportar-se socialmente e manter-se atraentes fisicamente - e iniciam uma bem-sucedida carreira.


O fio condutor da história de "Uma equipe muito especial" - a amizade e a competitividade entre Dotti e Kit - é apenas desculpa para Penny Marshall divertir o público com piadas sutis e ácidas sobre o comportamento feminino da década de 40 e o universo machista e ganancioso do baseball. Enquanto Dotti está vivenciando apenas uma fase de sua vida, que ela pretende que volte aos eixos quando seu marido (Bill Pullman) retornar do conflito, suas colegas tem no jogo e no campeonato o centro de suas existências. É somente ao lado das demais jogadoras que Doris Murphy (Rosie O'Donnell) sente-se enturmada, que a desbocada e liberal Mae Mordabito (Madonna) pode ser quem ela realmente é, que a feiosa Marla (Megan Cavanagh) sente-se valorizada (mesmo que nos documentários sobre o time ela seja sempre filmada de longe para não atrapalhar a ideia de que todas as atletas da liga são bonitas e sensuais). Essa espécie de família que é criada a partir da união entre todas elas é o que dá ao filme seu sabor especial, mesclando momentos de humor com cenas quase comoventes - em especial quando uma das jogadoras recebe a triste notícia da morte de seu marido. Buscando um humor simples e familiar, ela atinge o espectador aos poucos, até mesmo aquele que entende de baseball tanto quanto de física quântica.

"Uma equipe muito especial" talvez seja apenas mais um filme de esportes americanos feito para americanos, mas é impossível negar as qualidades que o fazem conquistar também o público internacional. O timing cômico do roteiro é invejável (todas as cenas com o filho obeso de uma das jogadoras é sensacional), a direção é convencional mas eficaz, a trilha sonora de Hans Zimmer cumpre sua função com louvor (e tem direito até a uma canção feita especialmente por Madonna, "This used to be my playground", que concorreu ao Golden Globe) e o elenco está em dias inspirados. Tom Hanks engordou para o papel e construiu um Jimmy Dugan irascível e ao mesmo encantador; Geena Davis pegou o papel de Debra Winger dias antes do início das filmagens e tornou-se exímia jogadora; e até Madonna sai-se bem como a sexy Mae Topa Tudo (o que dá origem a uma ótima piada). No final das contas, é uma comédia acima da média, capaz de arrancar sorrisos até do mais exigente espectador.

domingo

SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM

SILKWOOD, O RETRATO DE UMA CORAGEM (Silkwood, 1983, ABC Motion Picture, 131min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Nora Ephron, Alice Arlen. Fotografia: Miroslav Ondricek. Montagem: Sam O'Steen. Música: Georges Delerue. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandestein/Richard James. Produção executiva: Larry Cano, Buzz Hirsch. Produção: Michael Hausman, Mike Nichols. Elenco: Meryl Streep, Kurt Russell, Cher, Craig T. Nelson, Ron Silver, Diana Scarwid, David Strathairn, Fred Ward, Bruce McGill, Will Patton Estreia: 14/12/83

5 indicações ao Oscar: Diretor (Mike Nichols), Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Cher), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Coadjuvante (Cher) 

Ao contrário do que acontece no Brasil, nos EUA o negócio dos sindicatos profissionais é coisa bastante séria, a ponto de nomes como Jimmy Hoffa - presidente do sindicato dos caminhoneiros - e Norma Rae - nome fictício de uma moradora do sul do país que tornou-se líder sindicalista da indústria têxtil - tenham servido de inspiração para filmes estrelados por gente graúda (Jack Nicholson no primeiro e Sally Field, no papel que lhe deu seu primeiro Oscar, no segundo). Nos anos 80, quando a paranoia nuclear estava no ar, ameaçando a população com uma tragédia invisível - e que deu origem a uma espécie de ciclo que inclui o polêmico "Síndrome da China" (79), estrelado por Michael Douglas e Jane Fonda- o cineasta Mike Nichols resolveu juntar os dois temas em um mesmo filme, baseado em um história real ocorrida meros nove anos antes. "Silkwood, o retrato de uma coragem", estrelado por Meryl Streep - e que foi o primeiro roteiro da futuramente célebre Nora Ephron a chegar às telas - concorreu a cinco Oscar, incluindo diretor e atriz (a quinta indicação de Streep, já então duplamente premiada com a estatueta), mas teve o azar de concorrer com o furacão "Laços de ternura" e saiu da festa com as mãos abanando. Isso não diminiu sua importância, sua qualidade e, melhor ainda, sua força como denúncia e drama.

Quem torce o nariz para filmes sobre coisas como sindicatos, no entanto, não precisa se preocupar. O roteiro de Ephron - co-escrito com Alice Arlen e também indicado ao Oscar - não se detém apenas na trajetória de sua protagonista Karen Silkwood rumo à conscientização política e social, mas abre bastante espaço também para seus dramas pessoais, que incluem um casamento falido, a distância que mantém dos três filhos e os relacionamentos com o colega de trabalho Drew (um jovem Kurt Russell) - com quem mantém um romance - e a amiga Dolly (a cantora Cher, começando a ser respeitada como atriz em papel que lhe rendeu um Golden Globe de coadjuvante), além de dar ênfase especial à sua luta para denunciar a maneira torpe com que a indústria de processamento de plutônio de sua cidade natal, Oklahoma, escondia de seus funcionários o enorme perigo de contaminação que eles corriam manipulando o material. Equilibrando essas duas pontas - a familiar e a profissional - é que o roteiro se torna especial, desviando-se do caminho fácil do sensacionalismo e conquistando o espectador pelo desenho de seus personagens.


Mike Nichols, um cineasta acostumado a apontar suas lentes para personagens complexos e arrancar de seus atores desempenhos nunca aquém de fabulosos, conta a história de Karen Silkwood em seu próprio ritmo, convidando aos poucos a audiência a estabelecer intimidade com sua protagonista, uma mulher comum, com um casamento fracassado no currículo, um relacionamento amoroso que é motivo de falatório entre seus colegas de trabalho e uma amizade com uma lésbica que é apaixonada por ela. Sua vida dá uma guinada quando ela é acusada de contaminar seu local de trabalho (uma usina de tratamento de plutônio) para conseguir um fim-de-semana de folga, o que desencadeia uma onda inesperada de contaminação que atinge uma funcionária mais idosa e a ela própria. Com a ajuda de um sindicato - de quem se torna líder, para desgosto de seu namorado - ela parte para o ataque, com planos de denunciar o caso. Sua nova atitude, porém, causa polêmica entre seus companheiros de trabalho, que sabem que o fechamento da indústria também os levaria ao desemprego.

"Silkwood" é um drama com a cara de sua época: engajado, relevante e realizado com paixão. Se Meryl Streep dispensa qualquer comentário com mais uma interpretação impecável, seus coadjuvantes merecem igual respeito. Kurt Russell injeta personalidade a um personagem que poderia ficar em um melancólico segundo plano em mãos menos competentes - a cena em que ele percebe que está perdendo Karen para a militância e quiçá para o líder sindical vivido por Ron Silver é um exemplo da discrição eficaz de seu desempenho. E Cher, até então conhecida como cantora, sai-se muito bem como Dolly, a amiga homossexual da protagonista, que é responsável por um dos momentos mais ternos do filme. Em pouco tempo, ela se tornaria uma atriz respeitada, a ponto de levar um Oscar pela comédia romântica "Feitiço da lua" e aqui, ela mostra que sua persona excêntrica em nada atrapalha seu talento dramático. Ela é um motivo a mais para se assistir a "Silkwood", que, além dela, apresenta uma verdadeira e revoltante história real. Merece uma conferida.

quarta-feira

O ULTIMATO BOURNE

O ULTIMATO BOURNE (The Bourne ultimatum, 2007, Universal Pictures, 115min) Direção: Paul Greengrass. Roteiro: Tony Gilroy, Scott Z. Burns, George Nolfi. Fotografia: Oliver Wood. Montagem: Christopher Rouse. Música: John Powell. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Peter Wenham/Tina Jones. Produção executiva: Doug Liman, Henry Morrison, Jeffrey M. Weiner. Produção: Patrick Crowley, Frank Marshall, Paul L. Sandberg. Elenco: Matt Damon, Joan Allen, David Straithairn, Julia Stiles, Paddy Considine, Albert Finney, Scott Glenn, Daniel Bruhl. Estreia: 25/7/07

Vencedor de 3 Oscar: Montagem, Edição de Som, Mixagem de Som

Caso raro dentro da indústria dos filmes de ação hollywoodianos, a trilogia Bourne, inspirada na série de livros do escritor Robert Ludlum conseguiu uma façanha e tanto: não apenas manteve o interesse do público por seus três filmes (interesse que inclusive aumentava a cada lançamento) como superou toda e qualquer expectativa em termos de qualidade narrativa e técnica. Um exemplo perfeito dessa afirmação é "O ultimato Bourne", seu capítulo final, que não apenas rendeu mais de 220 milhões de dólares nas bilheterias americanas como agradou em cheio à crítica, à audiência e até mesmo à Academia, que lhe ofereceu em troca 3 estatuetas do Oscar, que sublinharam suas qualidades técnicas impressionantes. Se os dois primeiros filmes já eram sensacionais, o terceiro é absolutamente impecável.

Dessa vez, o agente secreto Jason Bourne (interpretado a cada filme com mais intensidade por um Matt Damon que nunca esquece, mesmo em momentos de quebradeira, que é um ator sério e talentoso) é tirado de seu anonimato graças às investigações do repórter investigativo inglês Simon Ross (Paddy Considine), que tenta trazer à tona os segredos de uma operação secreta da CIA, o Projeto Blackbriar - que vem a ser um passo à frente da antiga missão de Bourne, a Operação Treadstone. A busca de Ross pela verdade coincide com uma falsa acusação de traição contra Bourne, que, na tentativa de provar sua inocência e descobrir a verdade sobre seu passado (que continua vindo em lembranças intermitentes), conta com a ajuda inesperada de Pam Landy (Joan Allen), diretora da agência, que deseja manter a integridade do órgão de segurança.


Equilibrando cenas de tensão constante - em especial uma perseguição de tirar o fôlego sobre telhados e a tentativa de Bourne em salvar a vida de Simon Ross em meio à multidão que frequenta as estações de Londres - com momentos dramáticos importantes para o desfecho da trilogia (como o encontro com o irmão de Marie (Franka Potente), "O ultimato Bourne" atinge sua excelência por atingir a perfeita mistura entre um roteiro inteligente, atuações seguras de um elenco de feras (Damon, Joan Allen, David Straithairn) e uma técnica invejável. A edição espetacular de Christopher Rouse - premiada com um Oscar justíssimo - não dá folga ao espectador, praticamente jogando-o no meio das eletrizantes sequências de luta, coreografadas de forma a impressionar a audiência sem precisar de efeitos especiais mirabolantes. Seu realismo é um ponto mais do que positivo, por destacar o tom seco e direto da direção de Paul Greengrass - que usa e abusa de câmeras na mão e de sua experiência em filmes de estilo semi-documental para criar uma atmosfera claustrofóbica e tensa mesmo em espaços vastos e planos abertos.

No final das contas, "O ultimato Bourne" encerra com chave de ouro uma série cinematográfica que devolveu ao público o prazer de acompanhar uma boa história recheada de cenas extraordinárias de ação sem que seja preciso abdicar do cérebro. E Jason Bourne, é, com toda certeza, um dos mais fascinantes personagens do cinema de ação vindo de Hollywood. Vai deixar saudades.

sábado

UM BEIJO ROUBADO


UM BEIJO ROUBADO (My blueberry nights, 2007, Block 2 Pictures, 95min) Direção: Kar Wai Wong. Roteiro: Kar Wai Wong, Lawrence Block, história de Kar Wai Wong. Fotografia: Darius Khondji. Montagem: William Chang. Música: Ry Cooder. Figurino: William Chang, Sharon Globerson. Direção de arte/cenários: William Chang/Judy Rhee. Produção executiva: Ye-cheng Chan. Produção: Jacky PangYee Wah, Kar Wai Wong. Elenco: Jude Law, Norah Jones, Natalie Portman, Rachel Weisz, David Straithairn. Elenco: 16/5/07 (Festival de Cannes)

Queridinho dos festivais de cinema graças a filmes como "Felizes juntos" e "Amor à flor da pele", realizados em sua China natal, Kar Wai Wong não teve a mesma sorte com sua primeira produção em língua inglesa. Filme de abertura do Festival de Cannes de 2007, "Um beijo roubado" dividiu a crítica, que não encontrou nele a profundidade dramática de suas obras anteriores. Lindamente fotografado pelo iraniano Darius Khondji e musicado com capricho pelo cubano Ry Cooder, a história da bela e delicada Elizabeth (a cantora Norah Jones estreando como atriz) em busca de autocrescimento esbarra no problema comum a filmes em formato episódico: o desequilíbrio na qualidade de suas subtramas.

Mesmo contando com o escritor Lawrence Block como co-roteirista ao lado do diretor, "Um beijo roubado" ressente-se basicamente de uma estrutura mais sólida, que sustente a fragilidade dramática de sua protagonista. Interpretada com correção mas sem brilho por Norah Jones, a romântica Elizabeth serve apenas como testemunha de duas histórias de qualidades distintas, enquanto sua própria trama amorosa com o charmoso Jeremy (Jude Law, quase coadjuvante), dono de um café que é apaixonado por ela desde uma noite em que beijou-a durante o sono, carece de força e alma. Não se pode culpar Jones pelo relativo fracasso em despertar a atenção da plateia em seu segmento, uma vez que o próprio roteiro peca pela superficialidade, mas é de se pensar se uma atriz mais energética e carismática não ajudaria...


Quando o filme de Wong começa, a doce Elizabeth está indo embora de Nova York para curar seu coração partido - o que não impede que deixe atrás de si a paixão de Jeremy, com quem manteve uma única conversa que o deixou encantado. Em Memphis, ela trabalha arduamente para sobreviver. Como garçonete, ela trava conhecimento com um casal cujo relacionamento foi destruído pelo ciúmes: Arnie (David Straithairn) é um ex-policial que não consegue superar o fim de seu casamento com a bela Sue Lynne (Rachel Weisz) e se entrega a porres homéricos diante dos frequentadores do bar onde Elizabeth trabalha. Em Nevada, um tempo depois, ela conhece Leslie (Natalie Portman), uma jovem jogadora que lhe pede ajuda para pagar suas dívidas e acompanhá-la em uma viagem de carro até seu pai, doente.

O maior problema em "Um beijo roubado" é que as tramas paralelas são muito mais interessantes do que a trajetória de sua protagonista, que nunca chega a mostrar uma personalidade forte o bastante para chamar a atenção da audiência. A Elizabeth de Norah Jones (ou provavelmente a Elizabeth do roteiro de Wong e Block) é quase apática diante das situações que lhe são apresentadas, deixando que o foco do filme seja constantemente alterado - e nem sempre para dramas consistentes. A trama que envolve o casal disfuncional vivido por David Strathairn e Rachel Weisz é fabulosa, contando com atuações caprichadas dos atores, em especial Strathairn, dando a medida exata entre a fúria e a paixão. A história que tem Natalie Portman como protagonista, porém, deixa a desejar exatamente por não contar a passionalidade da narrativa anterior, com um registro quase frio do cineasta. Nem mesmo o talento superlativo de Portman consegue disfarçar a falta do que contar.

E a trama dita principal, então? Apesar de alguns diálogos inspirados - "Como se diz adeus a alguém que não se pode viver sem?" - e do charme da ambientação, da trilha sonora e da dupla de atores, não há como negar que falta alguma coisa na história de amor entre Jeremy e Elizabeth. E é justamente esse vazio, esse vácuo em sua relação que enfraquece o filme como um todo. Falta emoção, falta aquela sensação de amor desesperado dos filmes anteriores de Wong. Talvez tenha sido justamente a intenção, mas um pouco de calor não faria mal. Ainda assim, merece ser assistido e pode encantar aos mais sensíveis.

BOA NOITE E BOA SORTE

BOA NOITE, E BOA SORTE (Good night, and good luck, 2005, Warner Independent Pictures, 93min) Direção: George Clooney. Roteiro: George Clooney, Grant Heslov. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Jim Papoulis. Figurino: Louise Frogley. Direção de arte/cenários: Jim Bissell/Jan Mascale. Produção executiva: Marc Butan, Ben Cosgrove, Mark Cuban, Jennifer Fox, Chris Salvaterra, Jeff Skoll, Steven Soderbergh, Todd Wagner. Produção: Grant Heslov. Elenco: David Strathairn, George Clooney, Robert Downey Jr., Patricia Clarkson, Jeff Daniels, Frank Langella, Ray Wise, Tate Donovan. Estreia: 23/9/05

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (George Clooney), Ator (David Strathairn), Roteiro Original, Fotografia, Direção de arte/cenários

Ser um dos mais populares atores de Hollywood tem suas vantagens e George Clooney sabe disso muito bem. Depois de ter conseguido sair incólume até mesmo do estrago geral causado pelo fracasso monumental de "Batman & Robin " o ex-galã de "Plantão médico" estreou na direção com o elogiado "Confissões de uma mente perigosa" , deu gordas bilheterias à Warner Bros com seus divertidos filmes como Danny Ocean e quando todo mundo achava que ele estava confortável em seu título de astro eis que ele resolve inovar novamente. Com o custo de apenas 7 milhões de dólares - o que não paga nem um terço de seu salário habitual - ele realizou uma pequena obra-prima que revelou suas preocupações políticas e sociais. Baseado em uma história real - e lançado em preto-e-branco - "Boa noite, e boa sorte" conquistou a crítica, o público (arrecadou uma bilheteria de mais de 30 milhões) e a Academia, conquistando seis indicações ao Oscar, incluindo filme, diretor, ator e roteiro original.

Assim como fez em seu primeiro filme como diretor - que contava a história do produtor de TV e agente da CIA Chuck Barris, mesmo que de forma anárquica - em "Boa noite, e boa sorte" Clooney optou por narrar uma história real, que não apenas mostra os bastidores da TV americana dos anos 50 como também lança luz sobre um dos períodos mais negros da política ianque: o macarthismo - quando o senador Joseph McCarthy comandou uma verdadeira caça às bruxas contra o comunismo ou uma simples suspeita relacionada a ele. O protagonista dessa vez é Edward R. Morrow (David Strathairn), apresentador de um dos programas jornalísticos mais populares da CBS que, em 1953 - no auge da histeria liderada pelo senador - resolve tomar partido contra ele, contando com o apoio de seu produtor, Fred Friendly (vivido pelo próprio ator/diretor). Mesmo sabendo que estão lutando contra uma causa perigosa que pode lhes custar os empregos e a liberdade, os dois batem de frente com McCarthy, com o objetivo de mostrar à população o enorme manancial de erros e ilegalidades que o político utiliza em sua cruzada.



Lançado em um período em que o governo americano não estava exatamente em seus melhores dias - com a rejeição aos desmandos de George W. Bush - "Boa noite, e boa sorte" recupera, em sua atmosfera e em seu roteiro enxuto e contundente, a importância de filmes engajados e de temática política (ainda que, felizmente, nunca tenha a intenção de soar didático ou panfletário). Inspirado em sua figura paterna (que era âncora de um telejornal da CBS), Clooney construiu um filme que vai se montando aos poucos, delicadamente, para dar à audiência uma visão ampla e fidedigna dos acontecimentos. A bela fotografia de Robert Elswit (indicada merecidamente ao Oscar) compõe o clima da obra, assim como a impecável reconstituição de época e os números de jazz simetricamente espalhados pela projeção. Dono também de um roteiro que confia na inteligência do seu público, o filme conta ainda com um elenco absolutamente excepcional, em que cada ator - por menos tempo que apareça em cena - colabora intensamente para o resultado final.

Além do próprio George Clooney em papel coadjuvante, "Boa noite, e boa sorte" apresenta em seus créditos nomes consagrados como Robert Downey Jr., Jeff Daniels, Frank Langella e Patricia Clarkson, além de uma interpretação espetacular de David Strathairn no papel de Edward R. Morrow. Sutil, econômico e no controle absoluto de seu desempenho, o vilão de "Los Angeles, cidade proibida" dá um show em sua primeira real oportunidade como protagonista - desde que não se contem seus trabalhos com o independente John Sayles, praticamente desconhecidos pelo grande público. Sua interpretação só não foi premiada com o Oscar porque esbarrou justamente em Philip Seymour Hoffman com seu desempenho espírita em "Capote" - e demonstra que mesmo sendo apenas uma atuação, ainda consegue ser mais crível do que as imagens do senador McCarthy: vários espectadores reclamaram que "o ator" que intrepretava o político era muito canastrão, ignorando se tratar de imagens de arquivo. E viva a arte!

terça-feira

LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA



LOS ANGELES, CIDADE PROIBIDA (L.A. Confidential, 1997, Regency Enterprises/Warner Bros, 138min) Direção: Curtis Hanson. Roteiro: Curtis Hanson, Brian Helgeland, romance de James Ellroy. Fotografia: Dante Spinotti. Montagem: Peter Honess. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Jay R. Hart. Produção executiva: Dan Kolsrud, David L. Wolper. Produção: Curtis Hanson, Arnon Milchan. Elenco: Russell Crowe, Guy Pearce, Kevin Spacey, James Cromwell, Kim Basinger, Danny DeVito, David Strathairn, Ron Rifkin, Simon Baker, Matt McCoy, Paul Guilfoyle. Estreia: 19/9/97


9 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Curtis Hanson), Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original/Drama, Direção de arte/cenários, Som
Vencedor de 2 Oscar: Atriz Coadjuvante (Kim Basinger), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Kim Basinger)

Até 1997 Curtis Hanson não parecia ser mais do que um cineasta-padrão de Hollywood, entregando filmes bastante competentes mas nunca geniais, como "Uma janela suspeita", "A mão que balança o berço" e "O rio selvagem". Por isso, quando "Los Angeles, cidade proibida" foi lançado todo mundo na capital do cinema - e mais os críticos e os fãs de bom cinema - ficou de queixo caído. Emulando com propriedade o estilo noir dos filmes policiais dos anos 40, Hanson assinou um filme extraordinariamente bom, capaz de competir de igual pra igual com os maiores clássicos do gênero. Premiado como melhor filme por praticamente todas as associações de críticos americanos, "Los Angeles" só não levou o Oscar e o Golden Globe por ter esbarrado em um iceberg gigantesco chamado "Titanic". Mas até mesmo os admiradores da mega-produção de James Cameron são obrigados a concordar que, em termos de narrativa e inteligência "Los Angeles" ganha de goleada.

Baseado em um extenso romance de James Ellroy publicado em 1990, o impecável roteiro de Hanson e Brian Helgeland consegue o feito raro de melhorar a história do escritor, tornando-a mais concisa e com menos tramas paralelas que não acrescentavam muito ao enredo central. Enquanto no livro a ação acontecia dentro de um espaço de tempo bastante vasto - quase uma década - o filme concentra tudo em cerca de um ano e opera algumas mudanças cruciais em alguns protagonistas, o que de forma alguma macula a escrita de Ellroy, um escritor cujo estilo seco tem fãs ardorosos - e cujo "Dália negra" foi posteriormente adaptado por Brian DePalma sem nem um terço do charme e do sucesso de "Los Angeles". Especializado em tramas policiais passadas na terra do cinema, Ellroy usa histórias reais como material de inspiração e pano de fundo para tramas que falam sobre corrupção, assassinatos e sexo. Fez isso com maestria em "Los Angeles, cidade proibida", cuja profusão de personagens e acontecimentos é resumida brilhantemente em forma de roteiro.

Tudo começa no dezembro de 1953. Considerados como a melhor força policial do país, os homens liderados pelo Capitão Dudley Smith (James Cromwell) passam por uma paradoxal situação, uma vez que o crime organizado cujo líder Mickey Cohen (Paul Guilfoley) manda e desmanda na região. Na mesma época em que o gângster é violentamente assassinado, uma chacina movimenta a cidade e mobiliza a imprensa e os detetives. Chamado de "O massacre de Nite Owl", a chacina que vitimou os clientes de uma lanchonete - inclusive um ex-detetive dispensado pouco antes - acaba sendo o primeiro caso importante de Ed Exley (Guy Pearce), um jovem e ambicioso tenente-detetive que vive à sombra do talento do pai. Comandando a investigação do crime - mesmo sendo desprezado por todos os colegas por ter sido o delator em um incidente no Natal - ele torna-se herói ao salvar uma jovem mexicana vítima de abuso sexual. No entanto, logo ele descobre que as coisas não são exatamente como parecem e que policiais corruptos podem estar envolvidos em uma grande rede de mentiras e violência. Para isso, ele precisa unir-se a outros dois detetives bastante diferentes de si mesmo: Bud White (Russell Crowe), um brucutu agressivo que se dedica a proteger mulheres vítimas de agressão doméstica e Jack Vincennes (Kevin Spacey), um vaidoso investigador que complementa seus ganhos como consultor de um programa de TV e ajuda o repórter sensacionalista Sid Hudgens (Danny De Vito) com suas reportagens na revista "Hush Hush", especializada em escândalos dentro da comunidade hollywoodiana. Juntos, Exley, Vincennes e White vão desbaratar uma complicada teia de intrigas que inclui uma rede de prostituição comandada por Pierce Patchett (David Strathairn), da qual faz parte a bela Lynn Bracken (Kim Basinger), que se envolve romanticamente com Bud White.


É difícil resumir a complexa trama de "Los Angeles, cidade proibida", tamanha é sua profusão de detalhes, personagens e situações. Organizar tudo de forma palatável a uma plateia tão mal-acostumada a historinhas mal costuradas é um mérito inquestionável do roteiro, que não deixa nenhum furo em seu caminho. Tudo que é dito e mostrado por Hanson é de extrema importância para o desenrolar da história, mesmo que a princípio pareça apenas uma forma de apresentar as personagens, todas elas construídas exemplarmente, diga-se de passagem (ainda que tenham passado por pequenas alterações do livro para a tela). O cuidado que Hanson tem com a reconstituição de época também tem com suas personagens e isso fica claro quando, na reta final, todas as cartas são embaralhadas e o público se deixa surpreender com revelações totalmente críveis ainda que inesperadas. A complexidade de personagens como Bud White - que repudia a violência contra a mulher e acaba sendo forçado a ela - e Ed Exley - que se vê obrigado a tomar atitudes que jamais tomaria nos primeiros minutos - encontra intérpretes ideais em um elenco que não poderia ser melhor.

Se foi Kim Basinger quem levou o Oscar de coadjuvante - por uma atuação correta mas nada mais do que isso - são seus colegas de elenco quem deveriam ter sido premiados. Kevin Spacey mais uma vez mostra seu imenso talento para a sutileza construindo um Jack Vincennes que equilibra cinismo com amargura na medida certa - a cena em que ele e Exley encontram Lana Turner em um bar é hilária. James Cromwell como o Capitão Dudley Smith, figura crucial na trama, mostra-se perfeitamente à vontade com as viradas de sua personagem. Guy Pearce - que ficou com o papel mesmo contra a vontade dos produtores, que não queriam um australiano no papel do americaníssimo Ed Exley - apaga a imagem de sua drag-queen de "Priscilla, a rainha do deserto", entregando um desempenho ideal. Mas é Russell Crowe quem rouba todas as cenas das quais participa. O ator neozelandês tornou-se queridinho de Hollywood depois de seu trabalho irretocável como Bud White, um policial truculento com um lado doce raramente revelado. Os olhos cheios de fúria de Crowe e sua interpretação avassaladora são o início de uma carreira meteórica que o levaria a concorrer a 3 Oscar consecutivos - e levar um por seu trabalho menos brilhante como ator, em "Gladiador".

Quaisquer elogios que se faça a "Los Angeles, cidade proibida" são poucos, tamanha sua força e brilhantismo em todos os quesitos. Impecável em qualquer nível - e encharcado de uma violência e uma sensualidade ímpares mas nunca vulgares - a obra-prima de Curtis Hanson é um daqueles filmes que só surgem uma vez a cada década. E que, como acontece com os clássicos, melhora a cada revisão. E quem precisa de uma chuva de Oscar quando se é tão perfeito?

sexta-feira

A FIRMA


A FIRMA (The firm, 1993, Paramount Pictures, 154min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: David Rabe, Robert Towne, David Rayfiel, romance de John Grisham. Fotografia: John Seale. Montagem: Fredric Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Richard Macdonald/Casey Hallenbeck. Produção executiva: Lindsay Doran, Michael Hausman. Produção: John Davis, Sydney Pollack, Scott Rudin. Elenco: Tom Cruise, Jeanne Tripplehorne, Gene Hackman, Hal Holbrook, Ed Harris, Holly Hunter, Gary Busey, David Strathairn, Tobin Bell. Estreia: 30/6/93

2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Holly Hunter), Trilha Sonora Original

No início da década de 90, nenhum nome era mais quente dentro da literatura americana fast-food do que John Grisham. Advogado de formação, ele frequentava as listas dos mais vendidos com seus livros que versavam, basicamente, sobre os meandros da lei, sempre protagonizados por seus colegas de profissão, invariavelmente idealistas e heróicos. Escritas com uma prosa fluente e com um ritmo invejável, suas obras imploravam por adaptações cinematográficas e não demorou muito para que logo ele se tornasse mania entre os produtores de Hollywood. Quem saiu na frente foi Sydney Pollack, com a adaptação de "A firma", seu primeiro romance. Como era esperado, a bilheteria não decepcionou: com os nomes de Grisham e do astro Tom Cruise enfeitando o cartaz, o filme rendeu quase 160 milhões de dólares no mercado americano, comprovando o poder de Cruise, no auge de sua popularidade.

É impossível negar que, mesmo sendo Grisham um escritor extremamente popular junto ao público ianque - e por que não, internacional - foi o nome de Tom Cruise o maior responsável pelo enorme sucesso de "A firma". Em uma fase dourada de sua carreira, o ator emendava um êxito comercial atrás do outro e teve a sorte de encontrar uma personagem adequada à sua persona. Coincidentemente ou não, foi seu segundo papel de advogado consecutivo, depois do igualmente bem-sucedido "Questão de honra" e, mais uma vez, não compromete o resultado final, apresentando um trabalho correto, ainda que longe de brilhante.



Cruise interpreta Mitch McDeere, um jovem advogado recém-formado e ambicioso que recebe a proposta irrecusável de uma firma tradicional da cidade de Memphis. Deslumbrado com as inúmeras possibilidades que o emprego lhe proporcionará, ele se muda com a esposa, a professora primária Abby (a fraca Jeanne Trippelhorne) para uma casa de sonhos, com um carrão na garagem e um salário muito maior do que esperava, além do apoio dos colegas de trabalho, que logo lhe deixam bem claras algumas regras da tal firma. Conservadora, ela "apóia" casamentos estáveis e famílias numerosas, além de exigir também uma reputação ilibada de seus empregados. Por esse motivo, Mitch esconde que tem um irmão presidiário, Ray (David Strathairn) e tenta manter reserva a respeito de sua vida pessoal. As coisas começam a ficar estranhas, porém, quando dois associados da empresa morrem em um acidente de barco e o misterioso Wayne Terrance (Ed Harris) passa a assediá-lo: agente do FBI, ele revela a Mitch que a firma tem ligações com a Máfia. Cabe ao jovem decidir, então, se aceita ajudar a polícia a condenar seus colegas de trabalho.

Capaz de transitar entre diversos gêneros - ele assinou o romântico "Nosso amor de ontem", a comédia "Tootsie" e o épico oscarizado "Entre dois amores", apenas para citar os mais conhecidos - Sydney Pollack fez de "A firma" um filme elegante, um suspense à moda antiga, que caminha em seu próprio ritmo sem jamais aborrecer o espectador - ao menos aquele que prefere uma história bem contada do que correrias desvairadas. As personagens coadjuvantes criadas por Grisham encontram, no elenco escolhido por Pollack (que tem um talento óbvio para tal), representações perfeitas, incluindo aí um desaparecido Gary Busey. Gene Hackman, por exemplo, encontra o tom exato entre o poder e a solidão de seu Avery Tolar, o mentor do protagonista dentro da firma, e Holly Hunter recebeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - no mesmo ano em que foi premiada na categoria principal, por "O piano" - por seu trabalho impecável como Tammy, uma secretária vulgar mas bastante esperta que ajuda McDeere em sua luta: suas cenas somadas não chegam a seis minutos de projeção, mas ela é, sem dúvida, o maior destaque feminino do filme, uma vez que Jeanne Tripplehorn, na pele de Abby McDeere, mostra toda sua fragilidade como atriz.

O ritmo de "A firma", definitivamente, não é dos mais alucinantes. Em alguns momentos, chega a ser bastante lento, uma característica de seu diretor. Mas jamais deixa que a história que conta seja pouco interessante, ou previsível. É, como dito antes, um filme elegante, realizado com um cuidado e interpretado por um elenco de atores populares e talentosos. Um entretenimento acima da média e inteligente como poucos que prezam por sua bilheteria. Um bom começo para as adaptações de John Grisham.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...