EU, TONYA (I, Tonya, 2017, AI-Film/ClubHouse Pictures, 120min) Direção: Craig Gillespie. Roteiro: Steven Rogers. Fotografia: Nicolas Karakatsanis. Montagem: Tatiana S. Riegel. Música: Peter Nashel. Figurino: Jennifer Johnson. Direção de arte/cenários: Jade Healy/Adam Willis. Produção executiva: Len Blavatnik, Zanne Devine, Aviv Giladi, Ben Giladi, Craig Gillespie, Toby Hill, Vince Holden, Rosanne Korenberg. Produção: Margot Robbie, Steven Rogers, Bryan Unkeless. Elenco: Margot Robbie, Sebastian Stan, Allison Janney, Julianne Nicholson. Estreia: 08/9/2017 (Festival de Toronto)
3 indicações ao Oscar: Atriz (Margot Robbie), Atriz Coadjuvante (Allison Janney), Montagem
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Allison Janney)
O início dos anos 1990 foi pródigo para os tabloides sensacionalistas norte-americanos. Primeiro Lorena Bobbitt arrancou o pênis do marido e jogou pela janela do carro, tornando-se um símbolo do feminismo e da luta contra a violência doméstica. Depois, os irmãos Menendez - filhos de um executivo do entretenimento - foram presos e julgados, acusados do assassinato dos pais, e revelaram um histórico de abusos sexuais, em um julgamento que parou o país. E por fim, o mundo do esporte também apresentava seu escândalo, quando a patinadora artística Nancy Kerrigan foi cruelmente atacada por um homem que, segundo apuraram as investigações, tinha ligações com o marido de sua maior rival, Tonya Harding. A história, que ilustrou páginas e mais páginas de jornais do mundo todo, tornou-se icônica e entrou para os anais do esporte, e parecia estranho que Hollywood tivesse demonstrado pouco interesse por uma trama com todos os ingredientes necessários para capturar a atenção do público. Mais de vinte anos se passaram até que "Eu, Tonya" - uma visão ácida, sarcástica e ainda assim emocionante - finalmente visse a luz dos refletores. Com um roteiro espertíssimo de Steven Rogers (considerado um dos melhores scripts não filmados de 2016) e a direção inspirada do australiano Craig Gillespie (do ótimo e sub-apreciado "A garota ideal", de 2007), o filme, produzido e estrelado por Margot Robbie, tornou-se uma das produções mais premiadas de sua temporada - e pode ser considerado uma das mais criativas cinebiografias já realizadas pelo cinema americano.
Sem desrespeitar sua protagonista, mas extraindo dela todas as suas possibilidades - tanto dramáticas quanto cômicas -, o filme de Gillespie assume a forma de um documentário informal, com os lances trágicos da história sendo mostrados ao público pelos olhos dos próprios personagens (às vezes sendo confirmados pela edição ágil e bem-humorada, às vezes sendo traídos pelas contradições mais óbvias). Buscando inspiração em programas policiais sensacionalistas como "Hard Copy" e ousando na forma de apresentar uma história já devidamente vasculhada e requentada diversas vezes em duas décadas, o roteiro não se furta a investir em um senso de humor macabro ao mesmo tempo em que tenta chegar ao fundo das razões que levaram ao trágico acontecimento. Surpreendendo a plateia ao não se deter no "incidente" em si e sim nas relações doentias de Tonya - com sua mãe amarga e super-protetora e com seu marido violento -, o filme é muito mais psicologicamente profundo do que seu verniz cômico deixa aparentar, e boa parte de seu êxito em transcender os rótulos vem dos brilhantes trabalhos de Robbie e Allison Janney - esta última premiada com praticamente todos os troféus do ano, incluindo o Golden Globe e o Oscar de atriz coadjuvante.
Um dos maiores méritos do roteiro de Steven Rogers é não fixar-se exclusivamente no caso Harding-Kerrigan, mas sim investigar, através da biografia de sua protagonista, os fatos que levaram a tal desfecho. De uma infância reprimida e controlada com mão de ferro por sua mãe, Lavona (Allison Janney em atuação impecável) até o casamento turbulento e agressivo com Jeff Gillooly (Sebastian Stan, muito bem aproveitado pela direção de Gillespie), o filme acompanha uma trajetória repleta de altos e baixos físicos e psicológicos, que forjaram a personalidade complexa de Tonya. Deixando de lado o glamour dos ringues de patinação e se concentrando no dia-a-dia pesado da atleta, o filme rompe com a estrutura convencional do "levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima" e se mostra uma produção ousada em retratar seus personagens sem condescendência ou julgamentos morais. É sintomático que Nancy Kerrigan mal apareça em cena - o roteiro é centrado justamente em Tonya e seu relacionamento com as duas pessoas mais próximas (e por coincidência mais tóxicas). Quando se assiste ao filme, é difícil não imaginar como Harding não sofreu destino ainda pior.
Com uma edição inteligente, que evita o tradicional e acentua o tom sarcástico do roteiro, "Eu, Tonya" também brilha em outros aspectos: a trilha sonora repleta de sucessos da época, a caracterização impecável e a direção segura de Gillespie, porém, não fazem sombra ao desempenho arrebatador de Margot Robbie no papel principal. Saltando de papéis coadjuvantes em filmes elogiados como "O lobo de Wall Street" (2013) para o estrelato em um trabalho difícil e exigente, a bela atriz surpreendeu crítica e público com uma interpretação nunca aquém de brilhante. Mesmo que efeitos visuais a substituam nas cenas em que Harding está no ringue, é Robbie quem dá consistência dramática e irônica à personagem, inserindo um toque de humanidade essencial a uma trama na qual ela poderia facilmente ser acusada de monstro insensível e frio. Desviando das armadilhas sentimentais e evitando o humor fácil, a atriz fez por merecer os elogios unânimes e a indicação ao Oscar - e deu um novo rumo a uma carreira que promete oferecer à plateia muitos outros trabalhos dignos de prêmios. "Eu, Tonya" é um feliz casamento entre um roteiro sagaz, uma direção inspirada, uma trama inacreditavelmente verdadeira e um elenco excepcional. Imperdível!
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A GAROTA NO TREM
A GAROTA NO TREM (The girl on the train, 2016, DreamWorks, 112min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Erin Cressida Wilson, romance de Paula Hawkins. Fotografia: Charlotte Bruus Christensen. Montagem: Andrew Buckland, Michael McCusker. Música: Danny Elfman. Figurino: Michelle Matland, Ann Roth. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Susan Bode Tyson. Produção executiva: Celia Costas. Produção: Jared LeBoff, Marc Plattt. Elenco: Emily Blunt, Justin Theroux, Haley Bennett, Rebecca Ferguson, Luke Evans, Lisa Kudrow, Édgar Ramirez, Laura Prepon, Allison Janney. Estreia: 20/9/16
Sucesso absoluto de vendas, com mais de 3 milhões de cópias vendidas somente nos EUA até julho de 2015, o romance "A garota no trem" não demorou para chamar a atenção da sempre carente de criatividade Hollywood. Não era para menos: além da popularidade do livro (que fatalmente levaria seus leitores às salas de cinema), a trama criada pela escritora inglesa Paula Hawkins servia perfeitamente a uma adaptação cinematográfica, com suas personagens complexas e surpreendentes e um final inesperado e imprevisível bem ao gosto do público médio. O resultado nas bilheterias não desanimou o estúdio responsável pelo projeto - a DreamWorks - e mais de 170 milhões de dólares foram arrecadados pelo mundo, um resultado bastante satisfatório quando se trata de um filme adulto, sem efeitos visuais elaborados ou grandes nomes no cartaz. Estrelado por uma fabulosa Emily Blunt - indicada ao BAFTA (o Oscar britânico) e ao prêmio do Sindicato de Atores - e dirigido com segurança por Tate Taylor (cujo "Histórias cruzadas" foi indicado ao Oscar de melhor filme em 2012), "A garota no trem" é uma adaptação fiel e inteligente, que explora as maiores qualidades de sua origem literária enquanto brinca com todas as possibilidades do cinema de gênero, prendendo a atenção até seus minutos finais sem deixar de lado o cuidado com as nuances dramáticas de seus personagens - todos repletos de mistérios, segredos e mentiras que vão se revelando aos poucos diante dos olhos do espectador.
Mantendo no filme a estrutura do livro, composta por três diferentes pontos-de-vista e com idas e vindas no tempo para confundir o público com pistas que podem ou não levar à solução de um possível crime, "A garota no trem" envolve já desde as primeiras cenas, que mostram o desequilíbrio físico e mental de sua protagonista, Rachel Watson (Emily Blunt, caprichando na interpretação sem cair no exagero): abandonada pelo namorado, Tom (Justin Theroux), e sendo obrigada a ver sua felicidade com a nova mulher, Anna (Rebecca Ferguson) e seu bebê - que moram na casa que compraram juntos - a jovem passa os dias dedicada a dois atos pouco saudáveis. Primeiro, está cada vez mais entregue à bebida, entornando doses violentas de vodca que a fazem inclusive ter lapsos de memória. Em segundo, ela passa diariamente diante da casa de Tom - e é essa rotina aparentemente banal que irá mudar completamente o rumo de seus dias. Na casa ao lado da de Tom, mora um casal apaixonado e atraente, que representam para Rachel a vida que ela gostaria de ter. Obcecada pela jovem bela e loura, Rachel fica chocada quando, um dia, a vê aos beijos com outro homem - e logo em seguida fica sabendo que ela desapareceu misteriosamente. O bizarro sentimento de traição - afinal, como ela poderia ter estragado a vida tão perfeita que tinha apenas por um caso qualquer? - logo dá lugar à sensação de que, na noite do desaparecimento de Megan Hipwell (Haley Bennett), alguma coisa aconteceu também com ela. Só o que ela recorda é de ter tentando falar com a desaparecida - e de ter acordado na manhã seguinte machucada e sem lembranças completas. Com medo de ela mesma ter feito algo errado, Rachel inicia uma busca desesperada por seus momentos no dia do crime - e se envolve tanto com o marido de Megan, Scott (Luke Evans), quanto com seu psiquiatra, Kamal Abdic (Édgar Ramirez), com a intenção de encontrar a verdade.
Exatamente como no livro, "A garota no trem" dá voz às três mulheres que são a engrenagem da narrativa. Como um quebra-cabeças angustiante e tenso, Rachel, Megan e Anna fornecem peças que se completam e/ou contradizem, de acordo com o desenrolar da engenhosa trama de Hawkins, que mistura com destreza temas delicados como abuso doméstico, alcoolismo, obsessão e traumas emocionais em um atraente pacote visual - cortesia da bela fotografia que se utiliza de sombras e luzes difusas para recriar em imagens o opressivo universo de Rachel, em que a verdade e a imaginação se sobrepõem sem ordem e métrica. A edição ágil e urgente também colabora para a sensação de perigo constante que envolve os personagens, em um trabalho instigante que desorienta a plateia até o terço final, quando finalmente tudo se encaixa e a verdade vem à tona - não com a mesma força do livro, mas ainda assim potente o bastante para não decepcionar a quem ficou quase duas horas tentando descobrir se Rachel realmente matou a mulher que admirava (ou isso foi ato de algum dos homens que a rondam no presente e no passado). Um conjunto bem azeitado entre direção, roteiro, técnica e principalmente elenco - que, a princípio, seria bastante diferente do que chegou às telas.
Emily Blunt sempre foi a primeira escolha de Taylor - apesar de ter sido em Michelle Williams que a autora do livro pensava quando criou a personagem. O mesmo não pode ser dito do restante do elenco, todos importantíssimos para dar vida ao roteiro de Erin Cressida Wilson mas cujos atores participaram de uma intensa dança das cadeiras. Primeiro foi Chris Evans quem abandonou o projeto, culpa de sua participação no filme "Um laço de amor", e foi substituído por Justin Theroux, mais conhecido como o marido de Jennifer Aniston. Em seguida foi a vez de Jared Leto, que faria o papel de Scott, marido da mulher desaparecida e que, assim como Chris, teve problemas de agenda e abdicou do papel - deixando-o para Luke Evans, conhecido dos fãs de filmes de ação por seu trabalho nos capítulos 6 e 7 da série "Velozes e furiosos" e nos dois últimos filmes da trilogia "O Hobbit". Por fim, a atriz que viveria um dos mais cruciais da trama (o da complexa e misteriosa Megan Hipwell) acabou sendo a jovem Haley Bennett, revelada ao público como uma Britney Spears genérica na comédia "Letra e música" (2007) e que estava saindo das filmagens do remake de "Sete homens e um destino". Ficando com o papel que teve Margot Robbie e Kate Mara como possíveis donas, Bennett demonstra um talento insuspeito, oferecendo à sua personagem uma gama de emoções capaz de apavorar gente muito mais experiente. Quase uma antítese de Rachel Watson, sua Megan Hipwell vai sendo desvendada gradualmente à plateia - e no final ela acaba sendo a grande surpresa de um filme que, contrariando a lógica dos grandes estúdios, tem como protagonistas três mulheres comuns, dotadas apenas de sua força inerente e sua coragem. Nada mal para um filme-pipoca!
Sucesso absoluto de vendas, com mais de 3 milhões de cópias vendidas somente nos EUA até julho de 2015, o romance "A garota no trem" não demorou para chamar a atenção da sempre carente de criatividade Hollywood. Não era para menos: além da popularidade do livro (que fatalmente levaria seus leitores às salas de cinema), a trama criada pela escritora inglesa Paula Hawkins servia perfeitamente a uma adaptação cinematográfica, com suas personagens complexas e surpreendentes e um final inesperado e imprevisível bem ao gosto do público médio. O resultado nas bilheterias não desanimou o estúdio responsável pelo projeto - a DreamWorks - e mais de 170 milhões de dólares foram arrecadados pelo mundo, um resultado bastante satisfatório quando se trata de um filme adulto, sem efeitos visuais elaborados ou grandes nomes no cartaz. Estrelado por uma fabulosa Emily Blunt - indicada ao BAFTA (o Oscar britânico) e ao prêmio do Sindicato de Atores - e dirigido com segurança por Tate Taylor (cujo "Histórias cruzadas" foi indicado ao Oscar de melhor filme em 2012), "A garota no trem" é uma adaptação fiel e inteligente, que explora as maiores qualidades de sua origem literária enquanto brinca com todas as possibilidades do cinema de gênero, prendendo a atenção até seus minutos finais sem deixar de lado o cuidado com as nuances dramáticas de seus personagens - todos repletos de mistérios, segredos e mentiras que vão se revelando aos poucos diante dos olhos do espectador.
Mantendo no filme a estrutura do livro, composta por três diferentes pontos-de-vista e com idas e vindas no tempo para confundir o público com pistas que podem ou não levar à solução de um possível crime, "A garota no trem" envolve já desde as primeiras cenas, que mostram o desequilíbrio físico e mental de sua protagonista, Rachel Watson (Emily Blunt, caprichando na interpretação sem cair no exagero): abandonada pelo namorado, Tom (Justin Theroux), e sendo obrigada a ver sua felicidade com a nova mulher, Anna (Rebecca Ferguson) e seu bebê - que moram na casa que compraram juntos - a jovem passa os dias dedicada a dois atos pouco saudáveis. Primeiro, está cada vez mais entregue à bebida, entornando doses violentas de vodca que a fazem inclusive ter lapsos de memória. Em segundo, ela passa diariamente diante da casa de Tom - e é essa rotina aparentemente banal que irá mudar completamente o rumo de seus dias. Na casa ao lado da de Tom, mora um casal apaixonado e atraente, que representam para Rachel a vida que ela gostaria de ter. Obcecada pela jovem bela e loura, Rachel fica chocada quando, um dia, a vê aos beijos com outro homem - e logo em seguida fica sabendo que ela desapareceu misteriosamente. O bizarro sentimento de traição - afinal, como ela poderia ter estragado a vida tão perfeita que tinha apenas por um caso qualquer? - logo dá lugar à sensação de que, na noite do desaparecimento de Megan Hipwell (Haley Bennett), alguma coisa aconteceu também com ela. Só o que ela recorda é de ter tentando falar com a desaparecida - e de ter acordado na manhã seguinte machucada e sem lembranças completas. Com medo de ela mesma ter feito algo errado, Rachel inicia uma busca desesperada por seus momentos no dia do crime - e se envolve tanto com o marido de Megan, Scott (Luke Evans), quanto com seu psiquiatra, Kamal Abdic (Édgar Ramirez), com a intenção de encontrar a verdade.
Exatamente como no livro, "A garota no trem" dá voz às três mulheres que são a engrenagem da narrativa. Como um quebra-cabeças angustiante e tenso, Rachel, Megan e Anna fornecem peças que se completam e/ou contradizem, de acordo com o desenrolar da engenhosa trama de Hawkins, que mistura com destreza temas delicados como abuso doméstico, alcoolismo, obsessão e traumas emocionais em um atraente pacote visual - cortesia da bela fotografia que se utiliza de sombras e luzes difusas para recriar em imagens o opressivo universo de Rachel, em que a verdade e a imaginação se sobrepõem sem ordem e métrica. A edição ágil e urgente também colabora para a sensação de perigo constante que envolve os personagens, em um trabalho instigante que desorienta a plateia até o terço final, quando finalmente tudo se encaixa e a verdade vem à tona - não com a mesma força do livro, mas ainda assim potente o bastante para não decepcionar a quem ficou quase duas horas tentando descobrir se Rachel realmente matou a mulher que admirava (ou isso foi ato de algum dos homens que a rondam no presente e no passado). Um conjunto bem azeitado entre direção, roteiro, técnica e principalmente elenco - que, a princípio, seria bastante diferente do que chegou às telas.
Emily Blunt sempre foi a primeira escolha de Taylor - apesar de ter sido em Michelle Williams que a autora do livro pensava quando criou a personagem. O mesmo não pode ser dito do restante do elenco, todos importantíssimos para dar vida ao roteiro de Erin Cressida Wilson mas cujos atores participaram de uma intensa dança das cadeiras. Primeiro foi Chris Evans quem abandonou o projeto, culpa de sua participação no filme "Um laço de amor", e foi substituído por Justin Theroux, mais conhecido como o marido de Jennifer Aniston. Em seguida foi a vez de Jared Leto, que faria o papel de Scott, marido da mulher desaparecida e que, assim como Chris, teve problemas de agenda e abdicou do papel - deixando-o para Luke Evans, conhecido dos fãs de filmes de ação por seu trabalho nos capítulos 6 e 7 da série "Velozes e furiosos" e nos dois últimos filmes da trilogia "O Hobbit". Por fim, a atriz que viveria um dos mais cruciais da trama (o da complexa e misteriosa Megan Hipwell) acabou sendo a jovem Haley Bennett, revelada ao público como uma Britney Spears genérica na comédia "Letra e música" (2007) e que estava saindo das filmagens do remake de "Sete homens e um destino". Ficando com o papel que teve Margot Robbie e Kate Mara como possíveis donas, Bennett demonstra um talento insuspeito, oferecendo à sua personagem uma gama de emoções capaz de apavorar gente muito mais experiente. Quase uma antítese de Rachel Watson, sua Megan Hipwell vai sendo desvendada gradualmente à plateia - e no final ela acaba sendo a grande surpresa de um filme que, contrariando a lógica dos grandes estúdios, tem como protagonistas três mulheres comuns, dotadas apenas de sua força inerente e sua coragem. Nada mal para um filme-pipoca!
quinta-feira
HISTÓRIAS CRUZADAS
HISTÓRIAS CRUZADAS (The help, 2011, Dreamworks SKG/Reliance Entertainment, 146min) Direção: Tate Taylor. Roteiro: Tate Taylor, romance de Kathryn Stockett. Fotografia: Stephen Goldblatt. Montagem: Hughes Winborne. Música: Thomas Newman. Figurino: Sharen Davis. Direção de arte/cenários: Mark Ricker/Rena DeAngelo. Produção executiva: Mohamed Mubarak Al Mazrouei, Nate Berkus, Jennifer Blum, L. Dean Jones Jr., John Norris, Mark Radcliffe, Jeff Skoll, Tate Taylor. Produção: Michael Barnathan, Chris Columbus, Brunson Green. Elenco: Emma Stone, Viola Davis, Octavia Spencer, Bryce Dallas Howard, Jessica Chastain, Sissy Spacek, Allison Janney, Mary Steenburgen, Cicely Tyson. Estreia: 09/8/11
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Viola Davis), Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain, Octavia Spencer)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
É preciso ser honesto: somente a quase histeria em relação ao politicamente correto pode justificar todo o oba-oba em torno do drama "Histórias Cruzadas", adaptado do romance de Kathryn Stockett (publicado no Brasil pela editora Bertrand com o título "A resposta"). Apesar de seu elenco impecável, de alguns momentos realmente emocionantes (sempre proporcionados pela arrasadora Viola Davis) e do assunto sempre relevante (independente de época e geografia), o filme de Tate Taylor não consegue escapar da impressão de ser mais um filme-fórmula, esbarrando em clichês e, pior ainda, apelando para uma desnecessária escatologia que disfarça como humor, para cativar seu público. Sua calorosa receptividade, tanto em termos comerciais - mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - quanto críticos - cinco indicações ao Golden Globe e outras quatro para o Oscar, incluindo melhor filme - parece dizer muito mais sobre o sentimento de culpa da América sobre a forma com que os negros sempre foram tratados em sua história (e na do cinema em si) do que sobre suas qualidades cinematográficas. Mas então o filme é ruim? Não, claro que não. Mas também não é essa maravilha que tanto se alardeou por aí à época de seu lançamento.
A trama em si é, no mínimo, impactante: em plena efervescência na luta pelos direitos civis dos negros, nos anos 60, a recém-formada Skeeter (Emma Stone) retorna à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, com o objetivo de adquirir experiência como jornalista antes de aventurar-se pela imprensa nova-iorquina. Insatisfeita com a coluna de dicas domésticas no jornal local, ela percebe, esperta e revolucionária, que há, na atmosfera da cidade, a história que poderá alavancar sua carreira e ajudar na vida de dezenas de mulheres negras que, vítimas de uma segregação violenta e cruel, são obrigadas a manter-se caladas diante de injustiças diárias e de diversos tamanhos (desde a impossibilidade de usar o banheiro das casas onde trabalham e usar os mesmos talheres até o fato de criarem as mesmas crianças brancas que crescerão e lhes tratarão com o mesmo desrespeito). Com a ajuda da sofrida Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis, indicada ao Oscar de melhor atriz) e de outras domésticas que vão se juntando à sua narrativa mesmo correndo o risco de cadeia - nas leis do Estado do Mississipi qualquer tentativa de ir contra a segregação era crime passível de prisão - a jovem faz um painel triste e doloroso da situação, perpetuada por jovens como a insensível e detestável Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard).
Na verdade, é fácil para o público médio gostar de "Histórias Cruzadas". Suas personagens são carismáticas (ainda que em nenhum momento consigam esconder um maniqueísmo barato e quase preguiçoso em seu desenho) e seu tom leve é um alívio, em especial quando a história poderia tranquilamente descambar para o melodrama pesado. Porém, ao tentar não ser tão exagerado no dramalhão, Taylor incorre em um pecado bastante grave, dando um espaço maior do que deveria a um humor quase infantil. Em alguns momentos, histórias como a vingança de Minny Jackson (vivida pela ótima Octavia Spencer, vencedora do Golden Globe e do Oscar de coadjuvante) desviam a atenção da plateia para tramas bem mais interessantes, como a relativa à morte do filho de Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis) e a luta de Skeeter (Emma Stone) por sua liberdade de expressão e pensamento. Some-se a isso o fato de o filme ser mais longo do que precisava (146 minutos são um exagero, o que é culpa de sua tentativa de estender abranger várias tramas ao mesmo tempo), contar histórias paralelas desinteressantes (como o namoro de Skeeter com um jovem que não aceita sua liberdade de pensamento e a rivalidade entre duas socialites) e fica difícil se apaixonar por ele como tanta gente fez - especialmente com a ideia um tanto incômoda de eleger uma branca como a salvadora da pátria em um filme com tantas personagens negras fortes e interessantes.
Logicamente "Histórias cruzadas" tem muitas qualidades, sendo o elenco a principal delas. Emma Stone é uma delícia de se ver, assim como Viola Davis e Octavia Spencer, e Bryce Dallas Howard, surpreendente como a jovem vilã Hilly Holbrook, mesmo que o roteiro lhe obrigue a ser uma personagem unidimensional. No entanto, a festejada Jessica Chastain, normalmente certeira, sai um pouco do tom com sua perua Celia Foote, talvez culpa da direção sem sutilezas de Taylor que aposta em um registro acima para proporcionar o tal "humor" que tanto mina as forças do filme como um todo - mesmo assim Chastain foi indicada ao Oscar de coadjuvante, provavelmente mais uma homenagem à sua versatilidade do que a seu trabalho específico aqui. E, justiça seja feita, a produção é delicada e eficaz, em especial a trilha sonora de Thomas Newman, que pontua cada cena com discrição, e a fotografia ensolarada de Stephen Goldblatt, que contrasta com a violência psicológica sofrida por suas protagonistas.
Resumindo, "Histórias cruzadas" é um bom filme, ideal para emocionar àqueles que gostam do gênero. Mas está a anos-luz da intensidade e da crueza de "A cor púrpura", por exemplo. Emociona, mas não marca.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Viola Davis), Atriz Coadjuvante (Jessica Chastain, Octavia Spencer)
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
Vencedor do Golden Globe de Atriz Coadjuvante (Octavia Spencer)
É preciso ser honesto: somente a quase histeria em relação ao politicamente correto pode justificar todo o oba-oba em torno do drama "Histórias Cruzadas", adaptado do romance de Kathryn Stockett (publicado no Brasil pela editora Bertrand com o título "A resposta"). Apesar de seu elenco impecável, de alguns momentos realmente emocionantes (sempre proporcionados pela arrasadora Viola Davis) e do assunto sempre relevante (independente de época e geografia), o filme de Tate Taylor não consegue escapar da impressão de ser mais um filme-fórmula, esbarrando em clichês e, pior ainda, apelando para uma desnecessária escatologia que disfarça como humor, para cativar seu público. Sua calorosa receptividade, tanto em termos comerciais - mais de 170 milhões de dólares arrecadados somente nos EUA - quanto críticos - cinco indicações ao Golden Globe e outras quatro para o Oscar, incluindo melhor filme - parece dizer muito mais sobre o sentimento de culpa da América sobre a forma com que os negros sempre foram tratados em sua história (e na do cinema em si) do que sobre suas qualidades cinematográficas. Mas então o filme é ruim? Não, claro que não. Mas também não é essa maravilha que tanto se alardeou por aí à época de seu lançamento.
A trama em si é, no mínimo, impactante: em plena efervescência na luta pelos direitos civis dos negros, nos anos 60, a recém-formada Skeeter (Emma Stone) retorna à sua cidade natal, Jackson, no Mississipi, com o objetivo de adquirir experiência como jornalista antes de aventurar-se pela imprensa nova-iorquina. Insatisfeita com a coluna de dicas domésticas no jornal local, ela percebe, esperta e revolucionária, que há, na atmosfera da cidade, a história que poderá alavancar sua carreira e ajudar na vida de dezenas de mulheres negras que, vítimas de uma segregação violenta e cruel, são obrigadas a manter-se caladas diante de injustiças diárias e de diversos tamanhos (desde a impossibilidade de usar o banheiro das casas onde trabalham e usar os mesmos talheres até o fato de criarem as mesmas crianças brancas que crescerão e lhes tratarão com o mesmo desrespeito). Com a ajuda da sofrida Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis, indicada ao Oscar de melhor atriz) e de outras domésticas que vão se juntando à sua narrativa mesmo correndo o risco de cadeia - nas leis do Estado do Mississipi qualquer tentativa de ir contra a segregação era crime passível de prisão - a jovem faz um painel triste e doloroso da situação, perpetuada por jovens como a insensível e detestável Hilly Holbrook (Bryce Dallas Howard).
Na verdade, é fácil para o público médio gostar de "Histórias Cruzadas". Suas personagens são carismáticas (ainda que em nenhum momento consigam esconder um maniqueísmo barato e quase preguiçoso em seu desenho) e seu tom leve é um alívio, em especial quando a história poderia tranquilamente descambar para o melodrama pesado. Porém, ao tentar não ser tão exagerado no dramalhão, Taylor incorre em um pecado bastante grave, dando um espaço maior do que deveria a um humor quase infantil. Em alguns momentos, histórias como a vingança de Minny Jackson (vivida pela ótima Octavia Spencer, vencedora do Golden Globe e do Oscar de coadjuvante) desviam a atenção da plateia para tramas bem mais interessantes, como a relativa à morte do filho de Aibileen Clark (a sempre sensacional Viola Davis) e a luta de Skeeter (Emma Stone) por sua liberdade de expressão e pensamento. Some-se a isso o fato de o filme ser mais longo do que precisava (146 minutos são um exagero, o que é culpa de sua tentativa de estender abranger várias tramas ao mesmo tempo), contar histórias paralelas desinteressantes (como o namoro de Skeeter com um jovem que não aceita sua liberdade de pensamento e a rivalidade entre duas socialites) e fica difícil se apaixonar por ele como tanta gente fez - especialmente com a ideia um tanto incômoda de eleger uma branca como a salvadora da pátria em um filme com tantas personagens negras fortes e interessantes.
Logicamente "Histórias cruzadas" tem muitas qualidades, sendo o elenco a principal delas. Emma Stone é uma delícia de se ver, assim como Viola Davis e Octavia Spencer, e Bryce Dallas Howard, surpreendente como a jovem vilã Hilly Holbrook, mesmo que o roteiro lhe obrigue a ser uma personagem unidimensional. No entanto, a festejada Jessica Chastain, normalmente certeira, sai um pouco do tom com sua perua Celia Foote, talvez culpa da direção sem sutilezas de Taylor que aposta em um registro acima para proporcionar o tal "humor" que tanto mina as forças do filme como um todo - mesmo assim Chastain foi indicada ao Oscar de coadjuvante, provavelmente mais uma homenagem à sua versatilidade do que a seu trabalho específico aqui. E, justiça seja feita, a produção é delicada e eficaz, em especial a trilha sonora de Thomas Newman, que pontua cada cena com discrição, e a fotografia ensolarada de Stephen Goldblatt, que contrasta com a violência psicológica sofrida por suas protagonistas.
Resumindo, "Histórias cruzadas" é um bom filme, ideal para emocionar àqueles que gostam do gênero. Mas está a anos-luz da intensidade e da crueza de "A cor púrpura", por exemplo. Emociona, mas não marca.
segunda-feira
JUNO
JUNO (Juno, 2007, Fox Searchlight Pictures/Mandate Pictures,
96min) Direção: Jason Reitman. Roteiro: Diablo Cody. Fotografia: Eric
Steelberg. Montagem: Dana E. Glauberman. Música: Mateo Messina.
Figurino: Monique Prudhomme. Direção de arte/cenários: Steve
Saklad/Shane Vieau. Produção executiva: Joe Drake, Daniel Dubiecki,
Nathan Kahane. Produção: Lianne Halfon, John Malkovich, Mason Novick,
Russell Smith. Elenco: Ellen Page, Michael Cera, Jason Bateman, Jennifer
Garner, Allison Janney, J.K. Simmons, Olivia Thirlby, Rainn Wilson.
Estreia: 01/9/07 (Festival de Telluride)
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jason Reitman), Atriz (Ellen Page), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Na cerimônia do Oscar 2008, uma adolescente de 16 anos, articulada e irônica, grávida por acidente e decidida a ceder seu bebê a um casal sem filhos, atropelou, na concorrência à estatueta de roteiro original, um drama cerebral sobre um faz-tudo de uma firma de advogados, a história de um casal de irmãos disfuncionais lidando com a morte do pai, o romance entre um rapaz tímido e sua boneca de silicone e as aventuras de um ratinho que sonhava ser chef de cozinha. "Juno", escrito pela ex-stripper Diablo Cody e dirigido por Jason Reitman - do ácido "Obrigado por fumar" - acabou por tornar-se, desde sua estreia em setembro de 2007, o filme de maior bilheteria até então da independente Fox Searchlight Pictures, com uma renda acima de 100 milhões de dólares. Sarcástica e inteligente, a produção de Reitman conquistou público, crítica e a Academia de Hollywood, que, além do prêmio de roteiro, indicou-o também nas categorias de filme, direção e atriz - a encantadora Ellen Page, que já havia demonstrado do que era capaz com o embate com Patrick Wilson em "Menina má.com".
Juno McGuff, a protagonista interpretada por Page, é uma adolescente atípica - apesar das críticas da época louvarem o seu jeito "moderno" de comunicar-se: esperta, quase independente e senhora de si, ela se surpreende com a notícia de estar esperando um filho de um namorado hesitante, seu colega de banda e atleta amador Paulie Bleeker (Michael Cera), mas, ao invés de experimentar a sensação de drama e desamparo esperados, mostra-se de um extremo pragmatismo. Com o apoio de Leah (Olivia Thirlby), sua melhor amiga, ela comunica o fato ao pai e à madrasta - J.K. Simmons e Allison Janney - já com a solução do problema em mãos: não apenas já fez a cabeça quanto à doar o bebê assim que ele nascer como sabe até mesmo quais serão os felizardos receptores da mercadoria. O problema é que, por mais ansiosa que esteja em tornar-se mãe, a dona-de-casa Vanessa Loring (Jennifer Garner) não gosta nem um pouco da aproximação entre a jovem gestante e seu marido, o compositor de jingles comerciais Mark (Jason Bateman) - que sufoca, com o casamento, o sonho de ter uma carreira de roqueiro.
Rejeitando violentamente o sentimentalismo e o piegas, o roteiro de "Juno" tem, dentre seus méritos, o dom de tornar leve e desprovido de tensão todos os possíveis dramas inerentes a uma trama que, sob um ponto de vista mais sério, poderia descambar para o dramalhão didático e moralista. Dona de um talento especial para diálogos cortantes e que soam extremamente naturais mesmo quando ultrapassa os limites do convencional - a protagonista frequentemente parece muito mais madura e adulta do que seus parceiros de mais idade - Diablo Cody faz uso de uma situação banal para construir uma história que abrange os mais diversos tipos de amor, sem que para isso precise apelar para o exagero de açúcar. Ao eleger como personagem central uma adolescente não exatamente dada a gestos expansivos de carinho, Cody sinaliza com clareza seu ponto de vista a respeito das relações humanas, mas não deixa, por isso, de mostrar-se sensível e terna quando mostra a forma com que Juno se relaciona com seu pai, sua madrasta, a melhor amiga e até o suposto namorado (que trata com delicadeza e um tipo de amor ainda desconhecido por ambos). Até mesmo a forma casual com que a gravidez de Juno é tratada pela família - quase com descaso - destaca o filme do previsível e do corriqueiro. Pode não parecer muito real, mas é refrescante.
Um tanto superestimado à época de seu lançamento - quando foi tratado como uma espécie de salvador da comédia americana - "Juno" é um filme delicioso e agradável, mas jamais uma obra-prima incontestável e revolucionária como muitos quiseram fazer crer. Ellen Page realmente está fantástica no papel-título, emprestando a ele uma juventude e uma personalidade que tornam a doce rebelde Juno inesquecível - sua indicação ao Oscar foi justa, uma vez que é ela a sustentação do filme em si - mas o elenco coadjuvante também tem sua parcela de responsabilidade em dar consistência a uma trama tão simples que, não fosse o roteiro ágil, a direção segura e os atores competentes, poderia transformar-se rapidamente em mais um daqueles fenômenos sazonais que volta e meia surgem no cinema para desaparecerem no ar tão logo surja uma nova temporada. "Juno" ficou, e isso diz muito sobre sua qualidade.
4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Jason Reitman), Atriz (Ellen Page), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Na cerimônia do Oscar 2008, uma adolescente de 16 anos, articulada e irônica, grávida por acidente e decidida a ceder seu bebê a um casal sem filhos, atropelou, na concorrência à estatueta de roteiro original, um drama cerebral sobre um faz-tudo de uma firma de advogados, a história de um casal de irmãos disfuncionais lidando com a morte do pai, o romance entre um rapaz tímido e sua boneca de silicone e as aventuras de um ratinho que sonhava ser chef de cozinha. "Juno", escrito pela ex-stripper Diablo Cody e dirigido por Jason Reitman - do ácido "Obrigado por fumar" - acabou por tornar-se, desde sua estreia em setembro de 2007, o filme de maior bilheteria até então da independente Fox Searchlight Pictures, com uma renda acima de 100 milhões de dólares. Sarcástica e inteligente, a produção de Reitman conquistou público, crítica e a Academia de Hollywood, que, além do prêmio de roteiro, indicou-o também nas categorias de filme, direção e atriz - a encantadora Ellen Page, que já havia demonstrado do que era capaz com o embate com Patrick Wilson em "Menina má.com".
Juno McGuff, a protagonista interpretada por Page, é uma adolescente atípica - apesar das críticas da época louvarem o seu jeito "moderno" de comunicar-se: esperta, quase independente e senhora de si, ela se surpreende com a notícia de estar esperando um filho de um namorado hesitante, seu colega de banda e atleta amador Paulie Bleeker (Michael Cera), mas, ao invés de experimentar a sensação de drama e desamparo esperados, mostra-se de um extremo pragmatismo. Com o apoio de Leah (Olivia Thirlby), sua melhor amiga, ela comunica o fato ao pai e à madrasta - J.K. Simmons e Allison Janney - já com a solução do problema em mãos: não apenas já fez a cabeça quanto à doar o bebê assim que ele nascer como sabe até mesmo quais serão os felizardos receptores da mercadoria. O problema é que, por mais ansiosa que esteja em tornar-se mãe, a dona-de-casa Vanessa Loring (Jennifer Garner) não gosta nem um pouco da aproximação entre a jovem gestante e seu marido, o compositor de jingles comerciais Mark (Jason Bateman) - que sufoca, com o casamento, o sonho de ter uma carreira de roqueiro.
Rejeitando violentamente o sentimentalismo e o piegas, o roteiro de "Juno" tem, dentre seus méritos, o dom de tornar leve e desprovido de tensão todos os possíveis dramas inerentes a uma trama que, sob um ponto de vista mais sério, poderia descambar para o dramalhão didático e moralista. Dona de um talento especial para diálogos cortantes e que soam extremamente naturais mesmo quando ultrapassa os limites do convencional - a protagonista frequentemente parece muito mais madura e adulta do que seus parceiros de mais idade - Diablo Cody faz uso de uma situação banal para construir uma história que abrange os mais diversos tipos de amor, sem que para isso precise apelar para o exagero de açúcar. Ao eleger como personagem central uma adolescente não exatamente dada a gestos expansivos de carinho, Cody sinaliza com clareza seu ponto de vista a respeito das relações humanas, mas não deixa, por isso, de mostrar-se sensível e terna quando mostra a forma com que Juno se relaciona com seu pai, sua madrasta, a melhor amiga e até o suposto namorado (que trata com delicadeza e um tipo de amor ainda desconhecido por ambos). Até mesmo a forma casual com que a gravidez de Juno é tratada pela família - quase com descaso - destaca o filme do previsível e do corriqueiro. Pode não parecer muito real, mas é refrescante.
Um tanto superestimado à época de seu lançamento - quando foi tratado como uma espécie de salvador da comédia americana - "Juno" é um filme delicioso e agradável, mas jamais uma obra-prima incontestável e revolucionária como muitos quiseram fazer crer. Ellen Page realmente está fantástica no papel-título, emprestando a ele uma juventude e uma personalidade que tornam a doce rebelde Juno inesquecível - sua indicação ao Oscar foi justa, uma vez que é ela a sustentação do filme em si - mas o elenco coadjuvante também tem sua parcela de responsabilidade em dar consistência a uma trama tão simples que, não fosse o roteiro ágil, a direção segura e os atores competentes, poderia transformar-se rapidamente em mais um daqueles fenômenos sazonais que volta e meia surgem no cinema para desaparecerem no ar tão logo surja uma nova temporada. "Juno" ficou, e isso diz muito sobre sua qualidade.
terça-feira
SEGREDOS DO PODER
SEGREDOS
DO PODER (Primary colors, 1998, Award Entertainment/BBC Films, 143min)
Direção: Mike Nichols. Roteiro: Elaine May, livro de autor anônimo.
Fotografia: Michael Ballahaus. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Ry
Cooder. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Bo Welch/Cheryl
Carasik. Produção executiva: Jonathan D. Krane, Neil Machlis. Produção:
Mike Nichols. Elenco: John Travolta, Emma Thompson, Billy Bob Thornton,
Kathy Bates, Adrian Lester, Larry Hagman, Maura Tierney, Diane Ladd,
Paul Guilfoyle, Allison Janney, Rob Reiner. Estreia: 20/3/98
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Kathy Bates), Roteiro Adaptado
As semelhanças entre Bill Clinton e o fictício governador sulista Jack Stanton, personagem central do livro "Primary Colors" - de um autor anônimo que posteriormente revelou-se como Joe Klein, jornalista da revista Time - eram tão notórias e óbvias que, dizem as más línguas, Tom Hanks declinou do convite feito pelo cineasta Mike Nichols de interpretá-lo na sua versão para as telas por ser amigo do então presidente. Os temores de Hanks, porém, se mostraram infundados depois do lançamento do filme: não só Clinton tornou-se fã do resultado final como o retrato do protagonista é bem menos negativo do que se poderia imaginar quando se trata de um filme que vasculha os bastidores - quase sempre abarrotado de lama e cinismo - de uma campanha eleitoral. Talvez devido ao roteiro banhado em sarcasmo da ótima Elaine May e talvez pela direção firme do experiente Nichols, "Segredos do poder" escapa do ranço panfletário frequentemente aborrecido do gênero e revela à plateia um jogo de interesses, mentiras, ataques e contra-ataques empolgante, com direito a um elenco impecável e uma produção sofisticada que se dá ao luxo de ter entre seus atores duas vencedoras do Oscar, Emma Thompson e Kathy Bates - sendo que Bates quase arrebatou uma segunda estatueta por seu desempenho como Libby Holden, valente colaboradora de Stanton em seu caminho rumo à Casa Branca.
Como normalmente ocorre em tramas semelhantes, toda a ação chega ao espectador através dos olhos do ingênuo e idealista Henry Burton (Adrian Lester), neto de uma lenda pela luta pelos direitos civis que enxerga no governador - vivido com gosto por John Travolta - um homem capaz de se comprometer com causas populistas e relevantes e que aceita entrar em sua equipe de campanha. No decorrer do processo de conquista de votos, porém, Burton começa a notar detalhes nada dignificantes a respeito de seu novo chefe, como sua tendência ao adultério - sempre relevado tristemente por sua ambiciosa esposa, Susan (Emma Thompson, perfeita com sotaque americano) - e a confusões inerentes a esse traço de sua personalidade, como testes de paternidade e chantagens feitas por amantes ocasionais. O carisma de Stanton, no entanto, é mais forte do que suas escapadas sexuais, e o rapaz - cobrado por seus antigos companheiros de ativismo - vai se deixando levar pelo fascinante jogo que se desdobra à sua frente. As coisas ficam complicadas mesmo quando o principal rival de Stanton sofre um ataque cardíaco quase fatal e é substituído na campanha por outro carismático político, Fred Picker (Larry Hagman, o eterno J.R. da série "Dallas"), que retorna aos palanques anos depois de ter-se retirado da vida pública e se transforma em uma séria ameaça aos planos do galante governador.
Veterano em arrancar interpretações excepcionais dos atores com quem trabalha, Mike Nichols não faz diferente em "Segredos do poder": um dos maiores destaques do filme é o elenco, recheado de astros reconhecidos do grande público vivendo personagens que fogem do maniqueísmo habitual do cinemão hollywoodiano e portanto, são um desafio considerável a quem deseja conquistar uma plateia mal-acostumada com os simplismos rotineiros. John Travolta, por exemplo, apesar de não deixar de ser ele mesmo em nenhum momento, constroi um Jack Stanton encantador, mesmo que a audiência saiba de suas canalhices e suas demagogias. Emma Thompson brilha em uma Hilary Clinton mais pobre, uma mulher forte e determinada capaz de passar por cima do próprio orgulho por uma causa que considera mais importante: a vitória nas urnas. E Kathy Bates quase rouba a cena como Libby Holden, uma idealista e honesta partidária que vê seus princípios postos em xeque quando fica frente a frente com a verdade nua e crua dos bastidores sujos de seu meio - sua personagem certamente é a mais forte da história, oferecendo ao desfecho um senso ético e mordaz que transforma a fábula roteirizada por Elaine May - uma humorista experiente que preenche de sarcasmo e humor fino um drama que seria cômico se não fosse trágico.
Longe de ser um drama didático e aborrecido sobre os meandros da política norte-americana, "Segredos do poder" é um filme sobre a hipocrisia generalizada, sobre a podridão escondida nos bastidores do poder, sobre ideologias sendo esmagadas pelas circunstâncias. Em 2011, George Clooney lançou um filme ainda mais contundente sobre o assunto, "Tudo pelo poder", estrelado por ele mesmo e Ryan Gosling, mas este pequeno tratado de Mike Nichols ainda se mantém como uma das mais interessantes obras a respeito do pantanoso mundo político.
2 indicações ao Oscar: Atriz Coadjuvante (Kathy Bates), Roteiro Adaptado
As semelhanças entre Bill Clinton e o fictício governador sulista Jack Stanton, personagem central do livro "Primary Colors" - de um autor anônimo que posteriormente revelou-se como Joe Klein, jornalista da revista Time - eram tão notórias e óbvias que, dizem as más línguas, Tom Hanks declinou do convite feito pelo cineasta Mike Nichols de interpretá-lo na sua versão para as telas por ser amigo do então presidente. Os temores de Hanks, porém, se mostraram infundados depois do lançamento do filme: não só Clinton tornou-se fã do resultado final como o retrato do protagonista é bem menos negativo do que se poderia imaginar quando se trata de um filme que vasculha os bastidores - quase sempre abarrotado de lama e cinismo - de uma campanha eleitoral. Talvez devido ao roteiro banhado em sarcasmo da ótima Elaine May e talvez pela direção firme do experiente Nichols, "Segredos do poder" escapa do ranço panfletário frequentemente aborrecido do gênero e revela à plateia um jogo de interesses, mentiras, ataques e contra-ataques empolgante, com direito a um elenco impecável e uma produção sofisticada que se dá ao luxo de ter entre seus atores duas vencedoras do Oscar, Emma Thompson e Kathy Bates - sendo que Bates quase arrebatou uma segunda estatueta por seu desempenho como Libby Holden, valente colaboradora de Stanton em seu caminho rumo à Casa Branca.
Como normalmente ocorre em tramas semelhantes, toda a ação chega ao espectador através dos olhos do ingênuo e idealista Henry Burton (Adrian Lester), neto de uma lenda pela luta pelos direitos civis que enxerga no governador - vivido com gosto por John Travolta - um homem capaz de se comprometer com causas populistas e relevantes e que aceita entrar em sua equipe de campanha. No decorrer do processo de conquista de votos, porém, Burton começa a notar detalhes nada dignificantes a respeito de seu novo chefe, como sua tendência ao adultério - sempre relevado tristemente por sua ambiciosa esposa, Susan (Emma Thompson, perfeita com sotaque americano) - e a confusões inerentes a esse traço de sua personalidade, como testes de paternidade e chantagens feitas por amantes ocasionais. O carisma de Stanton, no entanto, é mais forte do que suas escapadas sexuais, e o rapaz - cobrado por seus antigos companheiros de ativismo - vai se deixando levar pelo fascinante jogo que se desdobra à sua frente. As coisas ficam complicadas mesmo quando o principal rival de Stanton sofre um ataque cardíaco quase fatal e é substituído na campanha por outro carismático político, Fred Picker (Larry Hagman, o eterno J.R. da série "Dallas"), que retorna aos palanques anos depois de ter-se retirado da vida pública e se transforma em uma séria ameaça aos planos do galante governador.
Veterano em arrancar interpretações excepcionais dos atores com quem trabalha, Mike Nichols não faz diferente em "Segredos do poder": um dos maiores destaques do filme é o elenco, recheado de astros reconhecidos do grande público vivendo personagens que fogem do maniqueísmo habitual do cinemão hollywoodiano e portanto, são um desafio considerável a quem deseja conquistar uma plateia mal-acostumada com os simplismos rotineiros. John Travolta, por exemplo, apesar de não deixar de ser ele mesmo em nenhum momento, constroi um Jack Stanton encantador, mesmo que a audiência saiba de suas canalhices e suas demagogias. Emma Thompson brilha em uma Hilary Clinton mais pobre, uma mulher forte e determinada capaz de passar por cima do próprio orgulho por uma causa que considera mais importante: a vitória nas urnas. E Kathy Bates quase rouba a cena como Libby Holden, uma idealista e honesta partidária que vê seus princípios postos em xeque quando fica frente a frente com a verdade nua e crua dos bastidores sujos de seu meio - sua personagem certamente é a mais forte da história, oferecendo ao desfecho um senso ético e mordaz que transforma a fábula roteirizada por Elaine May - uma humorista experiente que preenche de sarcasmo e humor fino um drama que seria cômico se não fosse trágico.
Longe de ser um drama didático e aborrecido sobre os meandros da política norte-americana, "Segredos do poder" é um filme sobre a hipocrisia generalizada, sobre a podridão escondida nos bastidores do poder, sobre ideologias sendo esmagadas pelas circunstâncias. Em 2011, George Clooney lançou um filme ainda mais contundente sobre o assunto, "Tudo pelo poder", estrelado por ele mesmo e Ryan Gosling, mas este pequeno tratado de Mike Nichols ainda se mantém como uma das mais interessantes obras a respeito do pantanoso mundo político.
quarta-feira
BELEZA AMERICANA
BELEZA AMERICANA (American beauty, 1999, DreamWorks SKG, 122min) Direção: Sam Mendes. Roteiro: Alan Ball. Fotografia: Conrad L. Hall. Montagem: Tariq Anwar, Christopher Greenbury. Música: Thomas Newman. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Naomi Shohan/Jan K. Bergstrom. Produção: Bruce Cohen, Dan Jinks. Elenco: Kevin Spacey, Annette Bening, Thora Birch, Chris Cooper, Wes Bentley, Mena Suvari, Peter Gallagher, Allison Janney, Scott Bakula. Estreia: 01/10/99
8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Atriz (Annette Bening), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sam Mendes), Ator (Kevin Spacey), Roteiro Original, Fotografia
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Diretor (Sam Mendes), Roteiro
No final dos anos 90, desmascarar a aparente normalidade do “american way of life” estava sendo uma obsessão do cinema. Todd Solondz criou “Felicidade” e depois o inglês Sam Mendes deu a sua visão do distorcido núcleo familiar ianque em "Beleza americana", que logo que estreou caiu nas graças da crítica e surpreendentemente do público, que ficou extasiado com sua visão menos crua e mais lúdica, mas extremamente contundente e realista (ainda que revestida de uma plasticidade que a torna mais poética). Vencedor de cinco Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e fotografia), “Beleza americana” mereceu todo o auê com que foi recebido. Investiga, através do olhar irônico e até carinhoso do roteirista Alan Ball, a transformação de uma típica família suburbana, à primeira vista perfeita, mas que, como manda a campanha publicitária, vista de perto não é assim tão normal. Caetano Veloso assinaria embaixo.
Kevin Spacey, em uma atuação irretocável que lhe rendeu um segundo e merecido Oscar, vive Lester Durnham, um homem cuja vida é dar pena. Executivo de uma empresa que não lhe dá a menor possibilidade de um futuro auspicioso, com uma vida sexual letárgica cujo único momento de prazer é a masturbação matinal debaixo do chuveiro e tendo como ideia de diversão um festival de filmes de James Bond na televisão, Lester tem o vislumbre de uma vida mais completa e feliz quando conhece Angela Hayes (Mena Suvari), a amiga gostosona da filha adolescente, a complicada e quase desleixada Jane (Thora Birch). Com os hormônios a mil, Lester resolve dar um jeito na vida: deixa o emprego, passa a fazer exercícios físicos e, em um último lampejo de regresso à juventude, volta a fumar maconha. Quem não gosta nada dessa nova vida do marido é Caroline (Annette Bening), sua obcecada esposa. Corretora imobiliária, Caroline tenta manter seu casamento de aparências, sua família como um porta-retrato feliz e seu visual impecável e caprichado. Sofrendo com a falta de ambição do marido, ela inicia um romance extra-conjugal com seu rival profissional (Peter Gallagher) e nem percebe o romance da filha com o jovem vizinho Ricky (Wes Bentley), que faz bicos como garçom e nas horas vagas ganha dinheiro traficando drogas às escondidas de seu pai, um rígido militar aposentado (vivido por um extraordinário Chris Cooper).

Uma das maiores qualidades do roteiro de Ball (que o produtor Steven Spielberg mandou filmar sem mexer em uma linha) é o fato de que suas personagens são absolutamente humanos, reais e palpáveis - uma característica dos textos de Ball, criador da magnífica série "A sete palmos". Surpreendentes em suas atitudes, elas nunca fazem o que se espera delas, o que leva o público a surpresas constantes no desenrolar criativo da trama, que leva a um desfecho inesquecível e clássico de nascença - afinal, como não se emocionar com um filme que acaba com os quatro rapazes de Liverpool entoando a bela "Because"??
Oriundo dos palcos ingleses - onde dirigiu Nicole Kidman, por exemplo - Sam Mendes nitidamente tem um senso estético apuradíssimo, capaz de, com a ajuda do veterano diretor de fotografia Conrad Hall, dirigir cenas de visual belíssimo, além de contar com a trilha sonora marcante de Thomas Newman e com diálogos cortantes, bem-humorados e melancólicos. Os diálogos, aliás, são a alma do filme, recitados por um elenco sem um elo fraco sequer. Se apenas Spacey - capaz de transmutar-se em questão de segundos de quarentão excitado a pai zeloso sem dizer uma única palavra - levou o Oscar foi porque o ano realmente estava muito forte (e Deus nos proteja de pensar que a primeira opção para o papel era Chevy Chase (??!!)). Annette Bening está sensacional como a patética e sem esperança de salvação Caroline, o até então subaproveitado Chris Cooper tem uma atuação assustadora e antológica - quem duvida que espere a reveladora cena na garagem de Lester - e os adolescentes Thora Birch, Wes Bentley e Mena Suvari dão aulas de como comportar-se à altura de seus experientes colegas de cena. Tudo isso, logicamente, envolto em uma acurada percepção da alma humana, com todos os seus deslizes e grandezas.
Irônico, perturbador e extremamente comovente, "Beleza americana" é um dos filmes obrigatórios do final do século XX e um dos essenciais da história do cinema.
sexta-feira
10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ
10 COISAS QUE EU ODEIO EM VOCÊ (10 things I hate about you, 1999, Touchstone Pictures, 97min) Direção: Gil Junger. Roteiro: Karen McCullah Lutz, Kirsten Smith, peça teatral "A megera domada", de William Shakespeare. Fotografia: Mark Irwin. Montagem: O. Nicholas Brown. Música: Richard Gibbs. Figurino: Kimberly A. Tillman. Direção de arte/cenários: Carol Winstead Wood/Charles Graffeo. Produção executiva: Jeffrey Chernov, Seth Jaret. Produção: Andrew Lazar. Elenco: Heath Ledger, Julia Stiles, Joseph Gordon-Levitt, Larisa Oleynik, David Krumholtz, Andrew Keegan, Allison Janney. Estreia: 31/3/99
A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.
O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.

O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.
Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.
A primeira vez em que o ator australiano Heath Ledger chamou a atenção dos frequentadores de cinema foi na pele de Patrick Verona, o rebelde com cara de mau de "10 coisas que eu odeio em você", uma despretensiosa comédia romântica inspirada em "A megera domada", de Shakespeare. Antes mesmo de encantar a plateia com seu Ennis Del Mar de "O segredo de Brokeback Mountain", chocar o mundo com sua morte precoce ou ser um dos raros atores a levar um Oscar póstumo - por sua brilhante atuação em "Batman, o Cavaleiro das Trevas", ele já demonstrava que, por trás de um adolescente enfurecido, havia um ator de alto gabarito. Não é por morbidez de espécie alguma, mas é Ledger a principal atração do filme de Gil Junger, que, no saldo final, não vai muito além das comédias juvenis que volta e meia fabricam novos (e efêmeros) ídolos.
O jovem Cameron James (Joseph Gordon-Levitt, uma década antes de ser reconhecido por "(500) dias com ela") chega à Escola Pádua e logo de cara se apaixona pela bela e quase fútil Bianca Stratford (Larisa Oleynik). Seus planos de conquistá-la caem por terra, no entanto, quando seu cicerone na escola, Michael (David Krumholtz) deixa bem claro que ela é um amor impossível. Além de cobiçada por metade dos colegas, ela é a irmã caçula da detestada Kat (Julia Stiles), uma garota mal-humorada e briguenta que desperta raiva e desprezo de todos. Ao saber que Bianca só poderá sair com rapazes quando sua irmã também o fizer, Cameron tem a brilhante ideia de contratar alguém para o sacrifício. O escolhido é Patrick Verona (Heath Ledger), que, segundo lendas que o desenham como praticamente um marginal, é a pessoa mais apropriada para lidar com a jovem megera. Precisando de dinheiro, Patrick aceita a proposta e passa a assediar Kat, que logo cede a seus encantos grosseiros. Quando eles se descobrem apaixonados, porém, a farsa ameaça vir à tona.
O que diferencia "10 coisas que eu odeio em você" de seus congêneres é a boa vontade do roteiro em homenagear a obra de William Shakespeare (sempre uma homenagem justa). A base da trama é, logicamente, "A megera domada", mas encontra-se ecos de "Romeu e Julieta", "Hamlet" e alguns sonetos, além de referências ao local de nascimento do bardo, através do sobrenome - Stratford - da protagonista. Também é bastante divertido o romance entre Mandella (Susan May Pratt), a melhor amiga de Kat, com o atrapalhado Michael (David Krumholtz), que utiliza da paixão da menina pelo dramaturgo inglês para seduzí-la. Ao contrário de muitas comédias para adolescentes, no filme de Junger os coadjuvantes também tem função importante na narrativa, não servindo apenas de escada para piadas sem graça. Aqui, o humor é um nível acima do corriqueiro, ainda que isso não signifique que seja brilhante ou imperdível - e em alguns momentos emperra na nulidade dramática de sua atriz central.
Enquanto Heath Ledger - que bateu Ashton Kutscher e Josh Hartnett na disputa pelo papel principal - seduz a audiência com seu rude Patrick Verona, sua companheira de cena nunca ultrapassa o comum. Julia Stiles não é particularmente bonita nem tampouco é boa atriz. Seu desempenho chega a atrapalhar o resultado final do filme, que fica capenga em algumas cenas cruciais - em especial no clímax que justifica o título. Ao lado de gente talentosa como Ledger e Gordon-Levitt, a jovem que seria figurinha carimbada nas comédias românticas do final dos anos 90 mostra toda as suas deficiências. Porém, se for levado em consideração que analisar talento dramático é a última coisa que o público-alvo do filme pretende, "10 coisas que eu odeio em você" funciona muito bem. É um dos melhores produtos direcionados ao público jovem de sua época.
A RAZÃO DO MEU AFETO
A RAZÃO DO MEU AFETO (The object of my affection, 1998, 20th Century Fox, 111min) Direção: Nicholas Hytner. Roteiro: Stephen McCauley, romance de Wendy Wasserstein. Fotografia: Oliver Stapleton. Montagem: Tariq Anwar. Música: George Fenton. Figurino: John A. Dunn. Direção de arte/cenários: Jane Musky/Susan Bode. Produção: Laurence Mark. Elenco: Jennifer Aniston, Paul Rudd, Nigel Hawthorne, Steve Zahn, Allison Janney, Alan Alda, Tim Daly, John Pankow, Amo Gulinello. Estreia: 17/4/98
De todo o elenco da bem-sucedida série de TV "Friends", quem tentou com mais afinco uma carreira cinematográfica foi Jennifer Aniston. Mesmo que seu trabalho na série ainda seja seu ponto mais alto, não se pode reclamar de "A razão do meu afeto", uma delicada comédia romântica, dirigida pelo prestigiado Nicholas Hytner de "As bruxas de Salem", que tem sua premissa central em uma relação sui-generis entre uma jovem heterossexual e seu melhor amigo gay.
Tentando - e em vários momentos até conseguindo - afastar-se dos maneirismos de Rachel Green, sua personagem mais conhecida, Aniston vive Nina Borowski, uma assistente social que vive no Brooklyn, namora por inércia um advogado mais velho (John Pankow) e que tem que lidar com os ataques de esnobismo da irmã bem-sucedida, casada com um famoso editor (um casal vivido com propriedade e bom-humor por Allison Janney e Alan Alda). Em um dos jantares promovidos para uní-la com um dos amigos do casal, ele conhece George (Paul Rudd), um professor do primário cujo relacionamento com Joley(Tim Daly), um médico metido a sedutor, acaba de terminar. Sensibilizada com a situação do jovem, ela o convida para dividir seu apartamento. Os dois iniciam uma bela amizade e quando ela se descobre grávida, decide romper o namoro e chama o rapaz para ajudá-la na criação do bebê. A estranha família está formada, mas quando George se envolve com Paul (Amo Guilinello), um aspirante a ator, o delicado equilíbrio se desfaz e ela descobre que está apaixonada por ele.
Um dos maiores méritos de "A razão do meu afeto" é o retrato sem estereótipos da comunidade gay. Ainda que certos clichês insistam em aparecer - o crítico de teatro, homossexual da terceira idade vivido com maestria por Nigel Hawthorne consegue escapar das armadilhas com admirável competência - eles são tratados com naturalidade, respeito e um bom humor contagiante. A própria relação entre os protagonistas - que caminha no fio da navalha em cada cena - é mostrada sem apelar para a vulgaridade e/ou complacência, encontrando em seus atores as encarnações perfeitas. Paul Rudd está encantador como o doce e romântico George, justificando a paixão que desperta em Nina, e o veterano Hawhtorne (indicado ao Oscar por "As loucuras do Rei George", também assinado por Nicholas Hytner) por pouco não rouba o filme para si (além de ser o dono das falas mais consistentes do roteiro, baseado em romance de Wendy Wasserstein). Ao lado deles, Jennifer Aniston demonstra uma segurança poucas vezes vista em seus trabalhos para o cinema.
Ao fugir também do obrigatório final feliz - ao menos do clássico final feliz das tradicionais comédias românticas - o filme de Hytner demonstra uma maturidade que falta a dezenas de outros produtos que tentam ser modernos ao tratar de um assunto tão carente de bons filmes. No final das contas, "A razão do meu afeto" é um perfeito exemplo do gênero, com um belo par central, diálogos inteligentes mas nunca intelectualizados e uma deliciosa trilha sonora, que inclui uma delicada regravação de Sting para a clássica "You were meant for me", conhecida graças à "Cantando na chuva". É um filme que merece ser descoberto por uma plateia maior do que os nichos LGBT e fãs de "Friends".
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