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sexta-feira

OS VINGADORES


OS VINGADORES (The Avengers, 2012, Marvel Studios/Paramount Pictures, 143min) Direção: Joss Whedon. Roteiro: Joss Whedon, estória de Joss Whedon, Zak Penn. Fotografia: Seamus McGarvey. Montagem: Jeffrey Ford, Lisa Lassek. Música: Alan Silvestri. Figurino: Alexandra Byrne. Direção de arte/cenários: James Chinlund/Victor J. Zolfo. Produção executiva: Victoria Alonso, Louis D'Esposito, Jon Favreau, Alan Fine, Jeremy Latcham, Stan Lee, Patricia Whichter. Produção: Kevin Feige. Elenco: Robert Downey Jr., Chris Evans, Mark Ruffalo, Chris Hemsworth, Scarlett Johansson, Jeremy Renner, Tom Hiddleston, Clark Gregg, Cobie Smulders, Stellan Skarsgaard, Samuel L. Jackson, Gwyneth Paltrow. Estreia: 04/5/2012

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais 

Primeiro filme da Marvel a ultrapassar a inacreditável marca de 1 bilhão de dólares nas bilheterias, "Os Vingadores" foi a coroação, sem espaço para dúvidas, de um projeto iniciado em 2008 com "Homem de ferro" - e que, por quatro anos, dominou o mercado do cinema comercial hollywoodiano. Com um orçamento estratosférico de estimados 220 milhões de dólares e um elenco repleto de indicados e vencedores do Oscar, o filme de Joss Whedon - diretor de episódios de séries de TV alçado à tela grande em uma prova de fogo - levou multidões às salas de exibição ao elevar à máxima potência uma receita com poucas chances de erro. Com um marketing agressivo que tornava impossível ignorar sua presença maciça e uma contagem regressiva que contava com outros cinco longas-metragens muito bem sucedidos financeiramente, a produção entregou a seu público-alvo exatamente o que ele esperava. Mas, para além disso, é um filme satisfatório ou apenas mais uma peça mercadológica esquecível e fugaz?

Logicamente quem vai ao cinema assistir a "Os Vingadores" não tem a menor intenção de testemunhar uma revolução narrativa ou estética, e vendo por esse prisma o filme de Joss Whedon é um sucesso: tudo que surge na tela é milimetricamente planejado para seguir a cartilha dos filmes de ação, estabelecendo com extrema clareza os dois opostos - bem e mal - e honrando seu orçamento em sequências espetaculares que renderam uma indicação ao Oscar de efeitos visuais. Sem precisar apresentar seus protagonistas - coisa que os cinco filmes anteriores já fizeram com êxito -, o roteiro, escrito pelo próprio diretor, utiliza boa parte de suas quase duas horas e meia para contar uma história (exagerada e inverossímil como se poderia esperar) através de explosões (pouco excitantes), lutas (bem coreografadas) e piadas (algumas inteligentes, outras apenas razoáveis). Com um elenco à vontade e entrosado, Whedon conduz uma sinfonia de destruição, onde a trama importa menos que o barulho, mas o faz com uma convicção tão plena que é difícil não se deixar envolver. Pode soar cansativo para aqueles menos entusiastas, porém alcança um patamar dos maiores dentro do gênero - principalmente em termos comerciais.

 


A trama de "Os Vingadores" tem ligação direta com as histórias dos primeiros filmes do universo criado pela Marvel, especialmente "Thor" (2011): o irmão do herdeiro do trono de Asgard, o invejoso Loki (Tom Hiddleston) chega à Terra e, com o objetivo de dominar o planeta, rouba o Tesseract - artefato alienígena de poder ilimitado - de dentro das instalações da S.H.I.E.L.D.. Com a ajuda do exército de uma raça conhecida como Chitauri, seu plano começa a incomodar Nick Fury (Samuel L. Jackson), o diretor da agência, que parte então para o ataque e reúne o maior grupo de super-heróis do mundo para evitar o pior. O encontro entre o Homem de Ferro (Robert Downey Jr.), o Capitão América (Chris Evans), o cientista Bruce Banner/Hulk (Mark Ruffalo), Thor (Chris Hemsworth), a Viúva Negra (Scarlett Johansson) - e depois o Arqueiro Verde (Jeremy Renner) - precisa de ajustes, mas, ao deixar de lado suas diferenças, formam um time que irá salvar a humanidade de uma ameaça devastadora.

Último capítulo da primeira fase do Universo Cinematográfico Marvel, "Os Vingadores" é um filme-pipoca assumido, sem nenhuma intenção a não ser oferecer o mais puro entretenimento a sua plateia, que o aprovou sem ressalvas. Justiça seja feita, tem qualidades notáveis, especialmente no que diz respeito a seu elenco: todos, sem exceção, parecem se divertir a valer com seus personagens, e muitos deles fogem de respeitáveis carreiras de prestígio para se entregarem à mais lúdica das brincadeiras. Plenamente satisfatório dentro de seus objetivos, é um nítido produto de marketing, mas que ao menos respeita seus fãs e tenta conquistar espectadores menos afeitos ao gênero. Lançado quando ainda não havia um certo desgaste em sua fórmula, jogou à estratosfera as expectativas para os filmes subsequentes - nem todos tão bem recebidos quanto ele.

UMA NOITE FORA DE SÉRIE

 


UMA NOITE FORA DE SÉRIE (Date night, 2010, 20th Century Fox, 88min) Direção: Shawn Levy. Roteiro: Josh Klausner.  Fotografia: Dean Semler. Montagem: Dean Zimmerman. Música: Christophe Beck. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: David Gropman/Jay Hart. Produção executiva: Joe Caraciollo Jr., Josh McLaglen. Produção: Shawn Levy. Elenco: Steve Carell, Tina Fey, Mark Wahlberg, Taraji P. Henson, Mark Ruffalo, Kristen Wiig, Common, James Franco, Mila Kunis, Jimmi Simpson. Estreia: 06/4/2010

A grosso modo, comédias produzidas por Hollywood se dividem entre bobagens calcadas em piadas grosseiras e ofensivas - como os filmes dos irmãos Farrelly - ou um humor sofisticado e frequentemente esnobados por plateias pouco afeita a raciocinar antes de rir - caso do cinema de Woody Allen, por exemplo. Raramente o público adulto tem a possibilidade de divertir-se sem ser tratado como mentalmente incapaz ou alguém necessitado de um vasto repertório cultural. Por isso, filmes como "Uma noite fora de série" surgem e, sem fazer muito alarde, conquistam o espectador. Com uma bilheteria internacional de mais de 150 milhões de dólares - que cobriu com folga seu orçamento -, o filme dirigido pelo experiente Shawn Levy (que já tinha no currículo o bem-sucedido "Uma noite no museu", de 2006, e sua continuação, de 2009) demonstrou-se o veículo perfeito para o encontro de dois dos mais populares nomes da comédia norte-americana da primeira década dos anos 2000, Steve Carell e Tina Fey. Carismáticos, donos de um timing perfeito para o humor e com uma química invejável, eles compensam as eventuais falhas de ritmo e enfatizam cada bom momento do roteiro - bobo, mas adequado a suas principais qualidades.

Carell - cuja trajetória no cinema já apresentava êxitos comerciais como "O virgem de 40 anos" (2005) e sucessos de crítica, como o oscarizado "Pequena Miss Sunshine" (2006) - é excepcional em papéis que exploram sua fisionomia apatetada e seu talento para o humor físico. Fey - roteirista celebrada de programas como "Saturday Night Live" e filmes como "Meninas malvadas" (2004), mas até então subaproveitada no cinema - é dona de uma rara perspicácia cômica, sempre pronta para uma tirada inteligente e sarcástica. Juntos, os dois deitam e rolam em uma história que explora cada um de seus talentos. Eles vivem Phil e Claire Foster, um típico casal de classe média americana cujas maiores preocupações são o trabalho, o lar e os filhos. Com profissões não exatamente glamorosas - ele vende seguros e ela é corretora de imóveis - e uma rotina entediante, eles tem medo de ver seu casamento sucumbir à rotina, e resolvem, em uma noite que prometia apenas um respiro em seu dia-a-dia, buscar algo excitante e divertido. Com um ousadia inesperada, eles mentem os nomes para ficarem com uma reserva em um restaurante da moda em Nova York e acabam sendo confundidos com um casal que está na mira de um misterioso criminoso chamado Joe Miletto. Os capangas de Miletto, acreditando que eles estão de posse de um pen drive com informações perigosas, saem em seu encalço, e resta aos dois uma desenfreada corrida pela noite - que envolve gente influente, o verdadeiro casal de quem roubaram o nome e até um antigo (e tentador) cliente de Claire.

 

Sem apresentar maiores novidades em seu roteiro - na verdade um palco para os talentos de seus protagonistas -, "Uma noite fora de série" acerta em cheio ao assumir os clichês do gênero e brincar com eles sem o menor pudor. Com diálogos espertos e situações absurdas que vão se acumulando de forma rocambolesca, a trama serve quase como apenas um pretexto para Carell e Fey desfilarem sua desenvoltura e talento em fazer rir em qualquer circunstância. Seja fugindo do cruel vilão (interpretado com gosto por Ray Liotta) ou encurralando o casal responsável por seus infortúnios (vividos por James Franco e Mila Kunis em participações especiais), a dupla é responsável por 90% da diversão - e tiram de letra o desafio de segurar noventa minutos de uma produção que equilibra com destreza humor físico e piadas verbais que lhes servem como uma luva. Mesmo que o elenco apresente coadjuvantes de luxo do porte de Mark Ruffalo, Taraji P. Henson e Mark Whalberg, são eles que dão o tom do espetáculo - e o fazem com maestria, comprovando seus cacifes como astros - alguns anos depois, Carell investiria também em sua carreira como ator dramático e seria indicado ao Oscar por "Foxcatcher: a história que chocou o mundo" (2014), enquanto Tina Fey se tornaria roteirista de séries e especiais de TV que lhe dariam espaço para a ironia e o sarcasmo que lhe são característicos.

Uma prova de que o humor não precisa abdicar de inteligência para atingir o grande público, "Uma noite fora de série" é um meio-termo entre o que se espera de uma comédia tipicamente hollywoodiana e um programa de televisão iconoclasta e debochado. Agrada justamente por não tentar revolucionar o gênero e respeitar as regras do jogo, ao mesmo tempo em que não se deixa nivelar por um humor apelativo e adolescente. Pode não ter mudado a história do cinema - e talvez até seja um tanto esquecível -, mas é um passatempo honesto, bem-humorado e inofensivo.

terça-feira

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS

SPOTLIGHT: SEGREDOS REVELADOS (Spotlight, 2015, Participant Media/First Look Media/Anonymous Content, 128min) Direção: Tom McCarthy. Roteiro: Tom McCarthy, Josh Singer. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: Tom McArdle. Música: Howard Shore. Figurino: Wendy Chuck. Direção de arte/cenários: Stephen H. Carter/Vanessa Knoll, Shane Vieau. Produção executiva: Michael Bederman, Bard Dorros, Jonathan King, Peter Lawson, Xavier Marchand, Pierre Omidyar, Tom Ortenberg, Josh Singer, Jeff Skoll. Produção: Blye Pagon Faust, Steve Golin, Nicole Rocklin, Michael Sugar. Elenco: Michael Keaton, Mark Ruffalo, Rachel McAdams, Liev Schreiber, John Slattery, Stanley Tucci, Billy Crudup, Brian D'Arcy James. Estreia: 03/9/15 (Festival de Veneza)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Tom McCarthy), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Atriz Coadjuvante (Rachel McAdams), Roteiro Original, Montagem
Vencedor de 2 Oscar: Melhor Filme, Roteiro Original

O jornalismo é uma das carreiras mais retratadas por Hollywood, e já inspirou clássicos absolutos, como "A montanha dos sete abutres" (51), de Billy Wilder, "Rede de intrigas" (76), de Sidney Lumet, e "Todos os homens do presidente" (76), de Alan J. Pakula. Não por acaso, esses três exemplos da relação entre o cinema e a imprensa foram algumas das inspirações do diretor Tom McCarthy na realização de seu "Spotlight: segredos revelados", um dos mais contundentes e sérios ataques já realizados pela sétima arte contra a instituição da Igreja católica. Uma das mais premiadas produções da temporada 2015 - incluindo o cobiçado Oscar de melhor filme - a obra de McCarthy (também um ator e com o delicado "O visitante", de 2008, no currículo) é um soco no estômago do espectador, contando uma história que vai ao âmago de um dos maiores escândalos religiosos do século XX, mas em momento algum apela para o sensacionalismo. Narrado em um acertado tom semi-documental que evita qualquer tipo de espetacularização da dor, é o sóbrio e seco retrato de uma investigação jornalística responsável e relevante, que ganhou o Pulitzer em 2003 e revelou, sem medo de represálias, um esquema de acobertamento de centenas de crimes de abuso sexual infantil cometidos por padres durante décadas - e que mostrou-se de dimensão internacional quando atingiu também diversos outros países, incluindo o Brasil.

Talvez o principal acerto do roteiro, escrito por Josh Singer e o próprio diretor, tenha sido o de ater-se fielmente aos fatos, resistindo à tentação de eleger um protagonista com ares de herói para buscar a adesão da plateia. Confiando na força de sua história, McCarthy se propõe unicamente a explorar os meandros da investigação liderada pelo veterano Walter Robinson (Michael Keaton em grande fase na carreira): apoiado e incentivado pelo novo editor, Mark Baron (Liev Schreiber), ele reúne seu grupo de repórteres para aprofundar o caso de uma série de estupros cometidos por padres e tratados com condescendência por bispos e cardeais na região de Boston. Dedicados e inteligentes, os jornalistas partem, então, em busca da verdade, mesmo que isso possa abalar uma instituição respeitada e secular. Sasha Pfeiffer (Rachel McAdams), por exemplo, frequenta a missa ao lado da avó e compreende as implicações da publicação da matéria. O eficiente Mike Rezendes (Mark Ruffalo) é incansável em sua batalha pelas informações do advogado Mitchell Garabedian (Stanley Tucci). E Matt Carroll (Brian D'Arcy James), pai de família, sente-se ameaçado pela presença de possíveis abusadores próximo a seus filhos pequenos.


Desviando a câmera sempre que o drama ameaça ultrapassar os limites do bom-gosto e da discrição, Tom McCarthy aproxima o espectador através mais do cérebro do que do coração - ainda que não evite que a emoção tome conta em alguns momentos realmente tocantes. A edição precisa de Tom McArdle serve como sinalizador de tal sutileza: apesar dos diálogos fortes, "Spotlight" prefere o foco mais humanista da questão, apontando seu olhar para os braços marcados pelas seringas que uma das vítimas apresenta sem alarde, ou para a tensão constante de outra, que transfere para a comida uma vida inteira de depressão e angústia. A câmera quase voyeur chega a surpreender personagem e público quando testemunha um dos acusados, um aparentemente inofensivo senhor religioso, assumindo seus crimes e afirmando, tranquilamente, que também já foi estuprado. O roteiro de "Spotlight" tenta não sublinhar o que já é suficientemente brutal, e essa honestidade é um de seus maiores acertos: não há aquela trilha sonora crescente quando uma revelação é feita, não há lágrimas rolando diante de lembranças doloridas, não há heroísmo individual. Tudo bem que algumas cenas parecem feitas para apresentação no Oscar (como um discurso de Rezendes pertinho do final), mas são pecados insignificantes diante da grandeza de "Spotlight" como cinema.

Criticado por alguns justamente por seu estilo quase minimalista de contar uma história tão bombástica, Tom McCarthy fez uma sucessão de escolhas brilhantes para seu filme. É discreto, é honesto e é sério, o que falta para muitos filmes que se pretendem relevantes. Tem um elenco coeso e homogêneo (vencedor do prêmio máximo do Sindicato de Atores). E jamais tenta chamar mais a atenção do que a história que conta: ao eleger sua trama como principal elemento em uma época em que grandes orçamentos e personagens já consagrados formam o menu básico da programação, o diretor/ator/roteirista já merece ser aplaudido, e sua indicação ao Oscar ao lado de Alejandro Gonzalez Iñarrítu (por seu belo mas exibicionista "O regresso") demonstra que, mesmo quando cai na armadilha do previsível, a Academia sabe reconhecer quando alguém tenta ser verdadeiro e original. Uma pena que, diante das estatuetas técnicas de "Mad Max: Estrada da Fúria", "Spotlight" tenha ficado com apenas dois prêmios (filme e roteiro). Merecia mais.

A GRANDE ILUSÃO

A GRANDE ILUSÃO (All the king's men, 2006, Columbia Pictures, 128min) Direçao: Steven Zaillian. Roteiro: Steven Zaillian, romance de Robert Penn Warren. Fotografia: Pawel Edelman. Montagem: Wayne Wahrman. Música: James Horner. Figurino: Marit Allen. Direção de arte/cenários: Patrizia Von Brandenstein/Patricia Schneider. Produção executiva: James Carville, Andy Grosch, Michael Hausman, Ryan Kavanaugh, Todd Phillips, Andreas Schmid, David Thwaites. Produção: Ken Lemberger, Mike Medavoy, Arnold W. Messer, Steven Zaillian. Elenco: Sean Penn, Jude Law, Kate Winslet, Anthony Hopkins, Mark Ruffalo, Patricia Clarkson, James Gandolfini, Jackie Earle Haley, Kathy Baker, Talia Balsam, Tom McCarthy. Estreia: 10/9/06 (Festival de Toronto)

O remake de "A grande ilusão", cujo original de 1949 ganhou os Oscar de melhor filme, ator (Broderick Crawford) e atriz coadjuvante (Mercedes McCambridge), serviu para reiterar duas verdades absolutas em Hollywood: primeiro, que política é um assunto que definitivamente não atrai as plateias americanas que frequentam as salas de cinema; segundo, que nem mesmo uma seleção de atores do primeiríssimo escalão é capaz de fazer mágica quando há o desinteresse do público. Com um elenco estrelado, repleto de astros vencedores e indicados ao Oscar, o filme de Steven Zaillian - ele mesmo ganhador da estatueta pelo roteiro de "A lista de Schindler" (93) - fracassou homericamente nas bilheterias e não obteve apoio nem mesmo da crítica especializada, que praticamente ignorou sua estreia - um ano depois, aliás, da data inicialmente prevista para seu lançamento. Mas o que é mais chocante nessa história toda é que o filme, apesar de violentamente rechaçado, está muito longe de ser ruim ou medíocre: é um trabalho bastante interessante, valorizado por seus intérpretes e com uma trama de grande relevância política, especialmente nos dias que seguem.

Baseado não no filme de Robert Rossen, mas mais especificamente no romance que lhe deu origem - escrito por Robert Penn Warren e inspirado na trajetória do político Huey Long, que foi governador da Louisiana - "A grande ilusão" tem como protagonista o populista Willie Stark (Sean Penn, em grande performance), que se torna governador do estado depois de desmascarar os conchavos de políticos mais experientes que queriam usá-lo como joguete. Incensado pela população carente, que vê nele uma sinceridade que inexiste em outros candidatos, Stark vê sua ascensão incomodar as camadas mais importantes da região, homens de grande poder financeiro que se sentem ameaçados com as promessas e obras do novo líder. Embriagado pelo poder - que o faz trair sucessivamente a esposa, tanto com jovens artistas quanto com sua auxiliar de campanha, Sadie Burke (Patricia Clarkson) - Stark entra na mira de seus inimigos, que iniciam uma campanha pedindo seu impeachment. Abusando de métodos pouco ortodoxos, ele então pede ajuda ao jornalista Jack Burden (Jude Law), que o acompanha desde seus primeiros dias de vida pública, a tentar descobrir algum podre no passado de seu principal rival, o juiz Irwin (Anthony Hopkins) - que vem a ser, por coincidência, padrinho do jovem. Não bastasse tanta confusão, Burden testemunha a forma como Stark se deixa envolver pelo lado sujo do poder, o que inclui seu melhor amigo de juventude, Adam Stanton (Mark Ruffalo) e a irmã deste, seu grande amor Anne (Kate Winslet).


Apesar da profusão de personagens importantes - defendidos por atores nunca aquém de brilhantes - e da trama com mais de um foco de interesse, "A grande ilusão" não incorre no erro tão comum de confundir o espectador, com idas e vindas desnecessárias: sempre que faz uso de flashback, o roteiro de Zaillian o faz com inteligência e parcimônia, servindo-se dele para iluminar detalhes a respeito de seus protagonistas e explicar ao público os caminhos que os levaram até determinado ponto da narrativa. Vista sob a ótica de Jack Burden - um Jude Law injustamente esquecido pelas cerimônias de premiação - e, portanto, com um certo distanciamento que vai sumindo aos poucos, a história de Willie Stark não prescinde de tramoias, ameaças, chantagens e violência, mas, ao situar a trama na década de 50 (décadas antes da mídia imediatista dos dias atuais), o diretor/roteirista de certa forma justifica os atos quase desprezíveis de seu personagem central. É perceptível que, apesar dos erros cometidos por Stark em sua ascensão, há uma certa dose de simpatia por ele - talvez devido à atuação cheia de garra de Sean Penn, talvez devido à maneira brutal com que ele é desprezado pelos poderosos. Essa ambiguidade, bem retratada por Zaillian é outro ponto forte do filme, que jamais aponta uma verdade absoluta sobre Stark, oferecendo à plateia algo a refletir mesmo depois do fim da sessão.

Logicamente, o filme de Zaillian não é perfeito, e sua demora em engrenar é um de seus pecados - a primeira sequência, que mostra Stark, Burden e seu segurança/capanga (Jackie Earle Haley) em direção à residência de um de seus inimigos mais confunde do que intriga. A transformação de Stark também é um tanto problemática, uma vez que não fica muito claro ao espectador em que momento de sua trajetória ele se deixou seduzir pelo poder fácil e por suas vantagens - e qual o destino de sua esposa, a princípio importantíssima em suas decisões e repentinamente desaparecida da narrativa. Mas são defeitos pequenos diante de um filme forte, interessante e realizado perceptivelmente com esmero e dedicação - Sean Penn e Mark Ruffalo, por exemplo, são atores politicamente engajados, o que deve ter contribuído consideravelmente em suas decisões de participar do projeto. Uma pena que não encontrou sua audiência: "A grande ilusão" é um filme que merece ser descoberto.

sexta-feira

THE NORMAL HEART

THE NORMAL HEART (The normal heart, 2014, HBO Films, 132min ) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Larry Kramer, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Adam Penn. Música: Cliff Martinez. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Andrew Basemann, Amanda Carroll. Produção executiva: Jason Blum, Dante Di Loreto, Dede Gardner, Ryan Murphy, Brad Pitt. Produção: Scott Ferguson, Alexis Martin Woodall. Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina, Jonathan Groff, Dennis O'Hare, BD Wong, Corey Stoll. Estreia: 25/5/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme Para a TV (Matt Bomer)

Em 2014, Matthew McConaughey e Jared Leto levaram os Oscar de melhor ator e ator coadjuvante respectivamente por seus elogiados desempenhos em "Clube de Compras Dallas", um filme no máximo razoável que, graças à força de suas interpretações chegou a concorrer à cobiçada estatueta de melhor filme. Se tivesse tido a sorte de ter sido produzido para o cinema e não para a televisão - através da HBO - a adaptação da premiada peça teatral de Larry Kramer "The normal heart" poderia ter tido um destino ainda mais feliz. Dirigido por Ryan Murphy - criador de várias séries televisivas de sucesso, como "Glee" e "American Horror Story" - o filme, que estreou nos EUA poucos meses depois da cerimônia que consagrou Leto e McConaughey, compartilha com o filme de Jean-Marc Vallé (que também ganhou o Oscar de maquiagem) o mesmo tema - o início da epidemia da AIDS, no princípio da década de 80 - mas acaba se revelando muito mais satisfatório, tanto em termos emocionais quanto informativos. Com um excelente elenco liderado por Mark Ruffalo e Julia Roberts (casada com o diretor de fotografia do filme, Danny Moder), "The normal heart" segue a tradição de grandes obras sobre o tema, como "E a vida continua", "Meu querido companheiro" e "Angels in America", mas vai além deles ao ser o primeiro a explicitar sem medo a sexualidade de seus personagens centrais.

Baseado em personagens e histórias reais - alterados para efeito de maior liberdade dramática pelo autor Larry Kramer - "The normal heart" não tem medo de deixar bem claro ao espectador que seus protagonistas são gays com vida sexual ativa e despreocupada, ao contrário de obras criticadas pela comunidade homossexual (como "Filadélfia") em que os personagens transmitem a impressão de viver em quase celibato. A trama se concentra principalmente em Ned Weeks (Mark Ruffalo), escritor abertamente gay que se torna um determinado ativista na busca por informações e tratamentos para a então iniciante epidemia da AIDS nos EUA. Ainda chamada de "câncer gay" por médicos desconhecedores de detalhes sobre suas formas de transmissão e metabolismo, a doença chama a atenção da infectologista Emma Brookner (Julia Roberts), que se une a Weeks na tentativa de formar uma equipe de cidadãos interessados em ajudar novos pacientes. Cada vez mais apavorado com o crescente número de vítimas - boa parte deles seus conhecidos - o escritor incorre na ira do governo ao acusá-lo de ignorar os números e impedir o controle da doença. A seu lado, fica seu incansável namorado, o jornalista Felix Turner (Matt Bomer), a estoica médica (que precisa mover-se em uma cadeira de rodas em consequência de uma poliomielite) e alguns poucos amigos que relevam seus métodos raivosos de atacar as autoridades. Nem mesmo seu irmão mais velho, o influente advogado Ben (Alfred Molina) escapa de suas violentas acusações - e tudo fica ainda pior quando Felix se revela portador do vírus.


Começando sua história em 1981 e atravessando uma década inteira de desesperadoras tentativas do protagonista em se fazer ouvir ou acreditar - nem mesmo a própria comunidade gay aceitava suas ideias "absurdas" de diminuir a promiscuidade para evitar o contágio nos primeiros estágios da epidemia - o roteiro de Larry Kramer se equilibra com sucesso entre os dramas pessoais de Ned e Felix (um romance verossímil e que não prescinde de algumas tórridas cenas de amor) e sua exaustiva trajetória em direção à atenção da população em relação a uma das maiores epidemias da história da humanidade. Com uma edição precisa e uma trilha sonora acertada - nunca acima do tom, mas sempre presente quando necessária - "The normal heart" mostra um Ryan Murphy surpreendentemente sóbrio na condução da trama, sem os exageros habituais de suas séries e sem a insegurança que era o maior pecado de "Comer, rezar, amar", sua estreia no cinema. As cenas dramáticas surgem na hora certa e sem excessos, apenas como ilustração dramática de todo o trágico cenário que o roteiro desenha através dos acontecimentos e dos diálogos inteligentes que não hesitam em apontar o dedo para o governo norte-americano e a hipocrisia e o conservadorismo assassino do período Reagan. Assustador e por vezes revoltante, o filme também se beneficia da garra de seus atores.

Se Julia Roberts surge como um chamariz para o grande público - desprovida de glamour e de seu largo sorriso - é o elenco masculino quem acaba por destacar-se, em especial Mark Ruffalo e Matt Bomer, ambos premiados por suas interpretações. Ruffalo foi eleito o melhor ator de televisão no Satelitte Awards e Bomer levou pra casa um Golden Globe de melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme televisivo, e fica difícil dizer qual dos dois está melhor em cena. Enquanto Ruffalo surpreende em uma atuação que equilibra fúria e delicadeza, Bomer se revela um ator de primeira linha ao dar vida a um homem que vê sua rotina radicalmente alterada por uma doença devastadora - sua transformação física é impressionante e, ao contrário do que acontece muitas vezes, trabalha a favor da profundidade de seu personagem, e não contra. É quase impossível segurar as lágrimas com seu desempenho - uma prova inconteste de sua imensa qualidade.

Tendo como um dos produtores executivos o ator Brad Pitt, e contando ainda no elenco com rostos conhecidos do público cativo da televisão, como Jim Parsons (de "Big Bang Theory"), Jonathan Groff (de "Looking"), Taylor Kitsch (da segunda temporada de "True detective") e Dennis O'Hare (de "American Horror Story"), "The normal heart" é um dos melhores filmes de 2014 - e pouco importa que não tenha sido feito diretamente para o cinema. No final das contas, isso é o que menos irá contar para todos que se permitirem um pouco de emoção real e honesta.

quarta-feira

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO

FOXCATCHER: UMA HISTÓRIA QUE CHOCOU O MUNDO (Foxcatcher, 2014, Annapurna Pictures/Media Rights Capital, 134min) Direção: Bennet Miller. Roteiro: Dan Futterman, E. Max Frye. Fotografia: Greig Fraser. Montagem: Jay Cassidy, Stuart Levy, Conor O'Neil. Música: Ron Simonsen. Figurino: Kasia Walicka-Maimone. Direção de arte/cenários: Jess Gonchor/Kathy Lucas. Produção executiva: Mark Bakshi, Chelsea Barnard, Michael Coleman, John P. Giura, Tom Heller, Ron Schmidt. Produção: Anthony Bregman, Megan Ellison, Jon Kilik, Bennett Miller. Elenco: Steve Carrell, Mark Ruffalo, Channing Tatum, Vanessa Redgrave, Siena Miller, Anthony Michael Hall. Estreia: 19/5/14 (Festival de Cannes)

5 indicações ao Oscar: Diretor (Bennett Miller), Ator (Steve Carrell), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original, Maquiagem
Vencedor da Palma de Ouro no Festival de Cannes (Bennett Miller)

Se existe um caminho para conquistar o coração dos eleitores da Academia, esse caminho deve ser do conhecimento do diretor Bennett Miller. Desde que lançou seu primeiro longa - a cinebiografia "Capote", que contava com a brilhante atuação de Philip Seymour Hoffman como o famoso autor de "À sangue frio" - o cineasta nova-iorquino viu seus três filmes conquistarem importantes indicações ao Oscar: o primeiro e "O homem que mudou o jogo" - estrelado por Brad Pitt e Jonah Hill - chegaram mesmo a concorrer à estatueta de melhor filme, apesar da qualidade apenas razoável do segundo. Seu novo trabalho (e novamente uma história verdadeira) é "Foxcatcher, uma história que chocou o mundo", que, apesar de não ter alcançado a glória de ser indicado na categoria de de melhor filme, chegou ao páreo de direção, ator (um irreconhecível Steve Carrell), ator coadjuvante (Mark Ruffalo) e roteiro original. Tido como um dos favoritos às estatuetas desde que estreou no Festival de Cannes, em maio passado, o filme foi aos poucos perdendo fôlego e, se conseguiu atravessar a cobiçada linha que separa as especulações da realidade é porque conta com um invejável conjunto de atores, todos eles em momento de grande inspiração: no cômputo geral, "Foxcacther" está muito longe de ser o filme memorável que poderia ser.

O subtítulo nacional - "Uma história que chocou o mundo" - já é um exagero desproporcional, uma vez que, antes da estreia mundial, pouca gente sabia a respeito da tragédia que deu origem ao roteiro (ao menos fora dos EUA, onde os personagens eram relativamente famosos), mas não é a pior coisa do filme de Miller, que sofre de uma direção distante e impessoal que lhe dá um equivocado tom de semi-documentário - uma opção discutível que acaba por afastar o envolvimento emocional do espectador com uma história já recheada de personagens ambíguos e frios. Mesmo que em certos momentos crie algumas cenas de inegável impacto visual - que acentuam o viés melancólico e denso da trama - o cineasta incorre no erro de evitar qualquer mudança no ritmo quase letárgico de sua narração, dando a todos os acontecimentos mostrados a mesma importância dramática. O que poderia ser inteligente - ir montando aos poucos um quebra-cabeças de peças aparentemente desconexas - acaba por se mostrar apenas aborrecido quando se percebe, ao final, que todos aqueles momentos silenciosos e repetitivos não ajudaram em nada a entender o principal: o que levou o milionário John Du Pont a tomar a drástica atitude que inspirou o subtítulo em português.


Não saber muito a respeito da trama ajuda a manter o clima de suspense que, de certa forma, é um dos trunfos de "Foxcatcher" - mesmo que não se conheça a história fica claro desde o princípio que algo pouco positivo irá resultar da aproximação dos personagens, principalmente porque, reconheçamos, a trilha sonora e a edição soturna dão dicas a esse respeito. Tudo começa quando o jovem Mark Schultz (Channing Tatum), lutador olímpico que vive de treinos e palestras motivacionais a estudantes enfadados, é convidado a visitar a mansão do milionário John Du Pont (Steve Carrell sem o menor tique cômico), que vive isolado em uma gigantesca propriedade e tem como sonho criar uma vitoriosa equipe norte-americana de lutadores. Ele mesmo um treinador e lutador diletante, Du Pont convence o jovem a juntar-se a outros atletas, dando-lhe um lugar para morar, comida, boas condições de treino e um pagamento generoso. A única pedra em seu caminho é Dave (Mark Ruffalo), irmão mais velho e antigo técnico de Mark, com quem mantém uma forte relação de carinho familiar. A união entre os dois passa a despertar um misto de inveja e admiração no multi-milionário - que não tem o melhor dos relacionamentos com a mãe (Vanessa Redgrave) e leva uma vida solitária - que resolve, então, chamar Dave para juntar-se a eles em seu projeto.

Contando sua história sem pressa e muitas vezes abusando da paciência do público, Bennett Miller tem como maior trunfo sua trinca de atores centrais. Enquanto Mark Ruffalo já é reconhecido por seu talento dramático graças a uma série de bons filmes - que incluem a comédia dramática "Minhas mães e meu pai", que lhe deram sua primeira indicação ao Oscar, em 2011 - a plateia é pega de surpresa principalmente pelo trabalho de Steve Carrell e Channing Tatum. Tatum, mais conhecido por exibir o físico privilegiado em dramas românticos como "Querido John" e comédias bobas como "Anjos da lei", ainda não é um grande ator, mas seu esforço em crescer artisticamente é visível na construção corporal de seu personagem, que foge do estereótipo do galã sedutor com seu andar pesado, seu olhar perdido e sua forma quase anestesiada de falar. E Steve Carrell mereceu, com todo o louvor, sua indicação à estatueta de melhor ator, apresentando um desenvolvimento exemplar de personagem: mesmo que pouco se explique a respeito de sua natureza no roteiro, ele consegue, através do olhar vazio e das expressões faciais destituídas de qualquer emoção, arrepiar e emocionar na medida certa. Em nenhum momento somos lembrados que, por trás da competente maquiagem e da voz monocórdia, existe o genial ator cômico do seriado "The Office" e da refilmagem de "Agente 86". Ponto para ele.

No fim das contas, "Foxcatcher" é um trabalho apenas ok de um diretor que caiu inexplicavelmente nas graças da Academia - e dos jurados do Festival de Cannes, que lhe deram a Palma de Ouro da categoria. A intenção do cineasta em retratar o mundo da luta como uma espécie de culto - um mundo à parte, isolado e cheio de regras - cai no vazio diante de um roteiro que deixa mais à imaginação do público do que deveria e o final anti-climático perde a oportunidade de chocar ou surpreender para parecer apenas mais um acontecimento banal como um treino ou uma corrida matinal. Nem mesmo as possibilidades homoeróticas da história são levantadas, tornando tudo apenas um exercício sonolento e quase arrogante. Ainda bem que tem seus atores.

MESMO SE NADA DER CERTO

MESMO SE NADA DER CERTO (Begin again, 2013, Exclusive Media Group/Sycamore Pictures, 104min) Direção e roteiro: John Carney. Fotografia: Yaron Orbach. Montagem: Andrew Marcus. Música: Gregg Alexander. Figurino: Arjun Bhasin. Direção de arte/cenários: Chad Keith/Kris Moran. Produção executiva: Guy East, Sam Hoffman, Ben Nearn, Tom Rice, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Molly Smith. Produção: Judd Appatow, Tobin Armsbrust, Anthony Bregman. Elenco: Mark Ruffalo, Keira Knightley, Adam Levine, James Corden, Hailee Steinfeld, Catherine Keener, Cee Lo Green. Estreia: 07/9/13 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Lost stars")

Em 2007, o cineasta John Carney conquistou o mundo com a história de um amor platônico regado à música folk e estrelado por ilustres desconhecidos: "Apenas uma vez" tornou-se cult, ganhou o Oscar de melhor canção e mostrou que nem só de grandes produções hollywoodianas vive o cinema romântico. Seis anos depois, com um orçamento um pouco mais generoso - e um elenco formado por indicados ao Oscar bem conhecidos do grande público - Carney mostrou que seu sucesso não foi apenas sorte de principiante. "Mesmo se nada der certo" é um delicioso drama romântico musical, recheado de belas canções, momentos encantadores, diálogos certeiros e personagens cativantes, capazes de deixar qualquer espectador com um enorme sorriso nos lábios ao final da sessão. E para isso não é preciso nem mesmo um único beijo na boca entre os protagonistas.

A primeira - e fascinante - cena do filme mostra a jovem inglesa Gretta (Keira Knightley) sendo praticamente obrigada a subir ao palco de um bar com música ao vivo de Nova York para mostrar uma canção de sua autoria. Quem se empolga com sua apresentação, apesar da tristeza inerente que vem da música, é Dan (Mark Ruffalo), sócio de uma gravadora independente que imediatamente propõe a ela um contrato de exclusividade. Acontece que as coisas não são exatamente como parecem, como logo ficará claro. Dan acaba de ser demitido da própria empresa, está separado da mulher, Miriam (Catherine Keener), e vive um relacionamento distante com a filha adolescente, Violet (Hailee Steinfeld). Gretta está em vias de embarcar de volta à Inglaterra, de onde saiu ao lado do namorado, Dave (Adam Levine, vocalista da banda pop Maroon 5) apenas para ser tratada como mera assistente durante a gravação de seu álbum - e pior ainda, ser trocada por outra mulher. Ambos se sentindo no pior momento de suas vidas, eles tem a ideia de gravar um disco ao ar livre, pelas ruas de Nova York, como forma de dar a volta por cima. Surge, então, uma amizade profunda, baseada na admiração e empatia.


Os acertos são muitos em "Mesmo se nada der certo": mesmo com o mísero orçamento de cerca de oito milhões de dólares - o que não paga nem a divulgação de certos blockbusters - John Carney conseguiu fazer um filme que em momento algum parece barato ou feito às pressas. A química entre Mark Ruffalo (sempre ótimo em papéis de perdedor) e Keira Knightley (em papel que quase foi parar nas mãos da cantora Adele) é excelente, e a atriz consegue até mesmo disfarçar sua tendência em fazer caras e bocas. Adam Levine sai-se muito bem no papel de Dave, ainda que não pareça que lhe tenha sido um grande desafio viver nas telas um personagem que pode muito bem ter semelhanças com sua rotina real (e a ele cabe a interpretação da bela "Lost stars", indicada ao Oscar de melhor canção). E os coadjuvantes de luxo - Catherine Keener, Hailee Steinfeld e até o colega de Levine na bancada do "The Voice" americano, Cee Lo Green - oferecem um ingrediente a mais em uma receita deliciosa.

É brilhante, por exemplo, a sequência em que Dan e Gretta caminham pelas ruas de Nova York ouvindo música pelo fone de ouvido e compartilhando seu gosto um com o outro - é uma das cenas mais românticas dos últimos anos mesmo que eles mal se toquem durante todo o tempo. E todas as cenas que mostram a gravação do álbum de Gretta pela cidade é de uma delicadeza ímpar, que mostra o extremo bom-gosto do cineasta e sua capacidade de transformar o mais simples metal em ouro puro. Essa alquimia rara é sua maior qualidade como diretor e roteirista - e a paixão que demonstra por seus personagens e pela música transcende a tela até chegar ao público, que, sem escolha, se deixa seduzir alegremente por suas histórias de recomeços e novas chances. Um filme encantador!

sexta-feira

TERAPIA DO SEXO

TERAPIA DO SEXO (Thanks for sharing, 2012, Class 5 Films/Olympus Pictures, 112min) Direção: Stuart Blumberg. Roteiro: Stuart Blumberg, Matt Winston. Fotografia: Yaron Orbach. Montagem: Anne McCabe. Música: Christopher Lennertz. Figurino: Peggy Schnitzer. Direção de arte/cenários: Beth Mickle/Lisa K. Nilsson. Produção executiva: Edward Norton. Produção: Miranda de Pencier, David Koplan, William Migliore, Leslie Urdang, Dean Vanech. Elenco: Mark Ruffalo, Gwyneth Paltrow, Tim Robbins, Josh Gad, Joely Richardson, Alecia Moore (Pink), Patrick Fugit, Carol Kane, Emily Meade. Estreia: 08/9/12 (Festival de Toronto)

Uma pista para se descobrir o que se pode esperar da comédia dramática "Terapia do sexo" é o nome de seu diretor e corroteirista Stuart Blumberg. Indicado ao Oscar de roteiro original por "Minhas mães e meu pai" - que escreveu com a diretora do filme, Lisa Cholodenko - Blumberg parece ter com seus personagens um carinho e um respeito que torna quase impossível à plateia ser-lhes indiferente. Ao construir sua trama em torno de três viciados em sexo em estágios diferentes do problema, ele não apenas fala de um assunto ainda pouco explorado no cinema como humaniza os protagonistas, aproximando cada um deles, com seus erros e acertos, de qualquer espectador. Esse cuidado é que faz toda a diferença: seu filme de estreia pode não ser uma obra-prima, mas é agradável, despretensioso e, o que não é nada desprezível, conta com um elenco acima de qualquer suspeita.

Mark Ruffalo - que concorreu ao Oscar de coadjuvante por "Minhas mães e meu pai" - é, de certa forma, o centro da história. Ele interpreta Adam, um viciado em sexo que comemora o quinto aniversário de sobriedade mantendo absoluto controle sobre as tentações que o cercam (não assiste televisão, não tem acesso à Internet e ainda frequenta as reuniões de seu grupo de apoio). Seu padrinho é Mike (Tim Robbins), que superou os vícios em sexo e álcool mas não consegue manter uma relação saudável com o filho Danny (Patrick Fugit), que se afastou da família por causa das drogas e retorna afirmando estar limpo há oito meses. Ao contrário dos dois, porém, o jovem Neil (Josh Gad) ainda está nos primeiros passos do tratamento: médico que tem sua carreira prejudicada por seu vício, ele tem dificuldades de abandonar sua rotina de masturbação compulsiva e assédios no metrô. Seguindo esses três personagens, a trama acompanha também suas vitórias e derrotas pessoais, sem esquecer de outras personagens que lhes servem de apoio.


Sentindo-se confiante em recomeçar sua vida, Adam conhece e se apaixona por Phoebe (Gwyneth Paltrow), sobrevivente de um câncer de mama que dedica seus dias à alimentação saudável e aos treinos para um triatlo. Mike conta com a compreensão incondicional de Katie (Joely Richardson), a esposa que o perdoou pelos erros do passado e tenta lidar com sua dificuldade de expressar afeto pelo único filho. E Neil encontra em outra paciente do grupo de apoio, Dede (a cantora Pink, creditada como Alecia Moore), uma relação calcada na amizade e no companheirismo que ajuda a ambos a superar seus problemas e descobrir uma nova forma de viver com eles. Todas essas relações - familiares, amorosas, de amizade - mostram que é a ajuda dos outros que faz de cada um uma pessoa melhor. E é esse otimismo outro ponto positivo de "Terapia do sexo".

Optando por fugir da densidade psicológica de "Shame" - dirigido por Steve McQueen, estrelado por Michael Fassbender e que também tinha o vício em sexo como tema central - Stuart Blumberg tempera seu filme com pitadas de humor (em especial na relação entre Josh Gad e Pink), referências à cultura popular contemporânea e um visual claro e ensolarado que contrasta com o peso que o drama de seus personagens exige. O elenco acerta o tom proposto pelo diretor - nem um dramalhão sofrido nem uma comédia rasgada - e tira de letra todas as nuances dos protagonistas, que, como afirmado anteriormente, soam como pessoas reais, com todas as idiossincrasias a que tem direito. Não é um grande filme - nem tem pretensões quanto a isso - mas é um entretenimento honesto e bem realizado, que demonstra o talento de Blumberg em contar histórias sobre gente como a gente. Que venham as próximas!

terça-feira

EM CARNE VIVA

EM CARNE VIVA (In the cut, 2003, Pathe Productions, 119min) Direção: Jane Campion. Roteiro: Jane Campion, Susanna Moore, romance de Susanna Moore, colaboração de Stavros Kazantzidis. Fotografia: Dion Beebe. Montagem: Alexandre De Franchesci. Música: Hilmar Orn Hilmarsson. Figurino: Beatrix Aruna Pasztor. Direção de arte/cenários: David Brisbin/Andrew Baseman. Produção executiva: Effie T. Brown, François Ivernel. Produção: Nicole Kidman, Laurie Parker. Elenco: Meg Ryan, Mark Ruffalo, Jennifer Jason-Leigh. Estreia: 09/9/03 (Festival de Toronto)

Dentre as características da filmografia da cineasta australiana Jane Campion, duas se destacam nitidamente: o ritmo pouco ágil e a naturalidade com que ela encara a nudez e o sexo. Foi assim, por exemplo, em seu filme mais famoso, o multi-premiado "O piano", em que Holly Hunter e Harvey Keitel se envolviam em um romance nos confins da Nova Zelândia no começo do século XX. Tais características se repetem em "Carne viva", em que ela mergulha em um gênero inédito em sua carreira (o policial) e volta a explorar a sexualidade humana, dessa vez sob o véu de uma história recheada de violência e tensão. Baseada em um romance de Susanna Moore que desejava filmar desde seu lançamento em 1996, Campion mesclou o drama psicológico, o romance erótico e o suspense policial do livro em um filme que, apesar das expectativas, é frustrante nas três frentes: não é profundo o bastante em seu estudo sobre a psique humana, não intriga o suficiente em termos de mistério e só não chega a ser totalmente indiferente no erotismo por explorar, em cenas bastante ousadas, um lado ainda totalmente desconhecido de uma das atrizes mais populares dos anos 90, Meg Ryan.

Em um momento crítico de sua trajetória artística - depois do fracasso de bilheteria de "Prova de vida" e do fim do casamento com Dennis Quaid, resultado de um escandaloso romance com seu parceiro de cena Russell Crowe - Ryan aceitou o papel central de "Em carne viva" como uma forma de mostrar que, além de ser a rainha das comédias românticas da década anterior, também era uma atriz capaz de aventurar-se por gêneros e enredos mais sombrios. Ficando com a protagonização que seria de Nicole Kidman - que pulou fora por motivos pessoais relacionados a seu divórcio com Tom Cruise mas manteve-se no cargo de produtora - a estrela de "Harry & Sally, feitos um para o outro" assumiu a responsabilidade de romper com a imagem pudica e romântica com que cimentou seu sucesso e, apesar do fracasso financeiro do filme, mostrou fôlego para uma fase mais madura na carreira - fase essa que, infelizmente, não vingou, graças a sucessivos fiascos comerciais.


No filme de Campion, Ryan interpreta Frannie Avery, uma professora de literatura que, com o objetivo de escrever um livro sobre as gírias dos guetos nova-iorquinos, frequenta sem medo bairros, bares e boates pouco recomendáveis para a segurança. Solteira e atraente, ela acaba se envolvendo na investigação de um violento assassinato cometido em sua vizinhança (mais um em um série de homicídios semelhantes) e conhece o detetive encarregado do caso, Giovanni Malloy (Mark Ruffalo) - que desconfia que um aluno seu possa ser o culpado. Incentivada por sua meio-irmã Pauline (Jennifer Jason Leigh), Frannie inicia um intenso caso sexual com o policial, separado da esposa e pai de dois filhos pequenos cujo parceiro é tão violento quanto os criminosos que prende pelas ruas. Porém, apesar de estar extremamente atraída por Malloy, a professora não consegue entregar-se totalmente ao romance por desconfiar que ele seja o responsável pelas mortes: em um de seus passeios pelos bares barra-pesada que frequenta, ela viu a vítima fazendo sexo oral em seu provável assassino, que tem uma tatuagem idêntica à do investigador.

A busca pela identidade do assassino é o que menos importa no roteiro, co-escrito pela diretora e pela autora do livro que deu origem ao filme, servindo apenas como pano de fundo para um inventário superficial de paranoias, traumas e neuroses modernas que nem de longe desperta maior interesse em um público acostumado a consumir tudo isso em produções menos pedantes e enfadonhas. Em sua tentativa de cercar o filme de uma atmosfera sombria e claustrofóbica, a cineasta acaba pesando a mão em um suspense vazio, esquecendo de dar profundidade e clareza a seus personagens, que parecem jogados na trama, tendo como finalidade apenas servir como elementos gráficos de suas bem cuidadas cenas, que, justiça seja feita, são plasticamente interessantíssimas - em especial as tórridas cenas de sexo entre Meg Ryan e Mark Ruffalo, em um de seus primeiros papéis principais e já mostrando talento e desinibição de sobra. Fotografadas com bom gosto e enfatizando a naturalidade do ato, tais cenas acabam por se tornar a maior qualidade do filme, que de resto é apenas mais um policial mediano e pretensioso. Tem quem goste, mas para os demais é apenas chato e metido a profundo.

quarta-feira

MINHAS MÃES E MEU PAI

MINHAS MÃES E MEU PAI (The kids are all right, 2010, Focus Features, 106min) Direção: Lisa Cholodenko. Roteiro: Lisa Cholodenko, Stuart Blumberg. Fotografia: Igor Jadue-Lillo. Montagem: Jeffrey M. Werner. Música: Carter Burwell. Figurino: Mary Claire Hannan. Direção de arte/cenários: Julie Berghoff/David Cook. Produção executiva: J. Todd Harris, Neil Katz, Riva Marker, Anne O'Shea, Andrew Sawyer, Steven Saxton, Christy Cashman, Ron Stein. Produção: Gary Gilbert, Jordan Horowitz, Celine Rattray, Daniela Taplin Lundberg. Elenco: Julianne Moore, Annette Bening, Mark Ruffalo, Mia Wasikowska, Josh Hutcherson. Estreia: 25/01/10 (Festival de Sundance)

4 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Atriz (Annette Bening), Ator Coadjuvante (Mark Ruffalo), Roteiro Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme (Comédia/Musical), Atriz Comédia/Musical (Annette Bening)

Levando-se em consideração o quão conservadora e fechada a ousadias em relação a sexo (especialmente entre iguais) a Academia de Hollywood pode ser – principal razão pela qual preferiram premiar o hipócrita “Crash: no limite” ao invés do infinitamente superior “O segredo de Brokeback Mountain” na cerimônia de 2006 – não deixou de ser uma (boa) surpresa a inclusão da comédia dramática “Minhas mães e meu pai” na lista dos indicados a melhor filme de 2010. A história de um casal de lésbicas que encontra o homem que doou o esperma para a concepção de seus filhos adolescentes e vê sua família entrar em curto-circuito não é exatamente o tipo de produção que os rígidos membros eleitores costumam homenagear – vale lembrar, por exemplo, que neste mesmo ano eles encheram de láureas o tenebroso “O discurso do rei” mesmo com os bem mais criativos “A origem”, “Cisne negro” e “A rede social” no páreo – mas entrou na lista final em quatro categorias importantes (filme, atriz, ator coadjuvante e roteiro original). Não ganhou nada, como se poderia esperar, mas deu ao filme de Lisa Cholodenko uma visibilidade merecida e que, a julgar pela (ainda) impermeabilidade do mercado quando se fala de homossexualidade de forma séria e adulta, ficaria restrita ao mercado GLBT.
Sem transformar seu roteiro – em parceria com Stuart Blumberg, que posteriormente estrearia como diretor com o simpático “Terapia do sexo” – em palanque, Cholodenko acerta em cheio a rechear sua história com momentos de humor e dar a seus personagens uma complexidade rara no cinema americano, dotando-os de qualidades e defeitos na exata medida. É difícil não acreditar em todos os atos que eles cometem, por mais absurdos que a princípio possam parecer, principalmente porque, além do roteiro exemplar, a diretora ainda teve o mérito de juntar um elenco impecável, sem elos fracos e que transmite com exatidão o tom realista proposto pela trama sem nunca cair na armadilha do dramalhão ou da comédia de erros. Um filme basicamente calcado no equilíbrio entre todas as partes de sua equação, “Minhas mães e meu pai” é capaz de conquistar até ao mais renitente conservador.
A médica Nic (Annette Bening, indicada ao Oscar de melhor atriz) e a paisagista Jules (Julianne Moore, injustamente esquecida pela Academia) vivem um casamento pleno e feliz há mais de duas décadas. A harmonia de seu relacionamento – baseado nas diferenças essenciais entre as duas – se reflete em seu casal de filhos, Joni (Mia Wasikowska) e Laser (Josh Hutcherson), dois adolescentes centrados e de mente aberta concebidos através de inseminação artificial. Aos 18 anos de idade e em vias de viajar para a universidade, Joni cede aos pedidos do curioso irmão caçula e resolve entrar em contato com o banco de sêmen que permitiu a gravidez de suas mães e descobre a identidade de seu “pai”. Para sua surpresa, Paul (Mark Ruffalo, que perdeu o Oscar de coadjuvante para Christian Bale em “O vencedor”), o dono de um restaurante de comida orgânica, mostra-se uma pessoa afável, inteligente e comunicativa, que acaba por conquistar a amizade dos dois irmãos. Porém, quem não gosta nada da ideia de ver os filhos se aproximando do que considera uma ameaça à paz de sua família é Nic, uma mulher controladora e acostumada a ditar as regras de sua casa. Mas nem mesmo ela consegue impedir que não apenas os meninos se tornem amigos de Paul: contratada por ele para cuidar da paisagem de um terreno de sua propriedade, Jules acaba sucumbindo a seu charme e pondo em risco seu casamento até então inabalável.




Ao contrário de muitos filmes de temática homossexual que se utilizam de um elemento externo para abalar as convicções de algum dos protagonistas, “Minhas mães e meu pai” não se aproveita de Paul para tal propósito. Sua chegada ao universo anteriormente pacífico e estruturado da família de Nic não tem intenções dramáticas de questionar a sexualidade de Jules, e sim sua situação como alguém que se viu, aos poucos, sendo deixada de lado como mulher e indivíduo. De forma passiva, Jules viu Nic tomar conta de todo o lado prático da família, obrigando os filhos a normas de comportamento social quase sufocantes e pegando para si o papel de provedora (o que em um mundo heteronormativo corresponderia ao papel masculino). A chegada intempestiva e inesperada de Paul lhe oferece não apenas a confiança em sua capacidade criativa e profissional como também volta a lhe despertar o instinto sexual que a rotina doméstica havia tolhido. Não é uma questão de homo ou heterossexualidade: é uma questão de humanidade, e o roteiro faz questão de tratar a infidelidade de Jules com a devida naturalidade. A questão não é o gênero, e sim a lealdade ou falta dela, a busca pela felicidade, a insegurança e a insatisfação com a realidade. Jules é tanto vítima quanto algoz, assim como a personalidade avassaladora de Nic também o é. E Paul, no meio delas, é apenas o catalisador de uma discussão há muito tentando vir à tona.
O que é melhor em “Minhas mães e meu pai” é a absoluta naturalidade com que seus temas são tratados. O roteiro não pisa em ovos ao falar de homossexualidade, famílias modernas, infidelidade, sexo ou uso de drogas. Cholodenko e Blumberg conseguem criar um universo saudável onde tudo isso convive tranquilamente com uma rotina absolutamente corriqueira. Solar, bem-humorado e desprovido de julgamentos morais, o filme aproxima público e personagens sem apelar para piadas rasteiras ou momentos sentimentaloides, ainda que faça rir em algumas sequências e possa emocionar em outras. E não é difícil perceber que boa parte desse sucesso se deve ao elenco irretocável escolhido pela diretora. Annette Bening tem o papel mais complicado, menos simpático e consequentemente menos propenso a conquistar a simpatia da plateia, mas desincumbe-se com maestria do desafio. Julianne Moore foge com destreza das tentações de fazer uma Jules frágil em excesso e mais uma vez mostra porque é uma das grandes atrizes de sua geração, conquistando a cumplicidade do público sem fazer esforço. Mark Ruffalo – conquistando sua primeira indicação ao Oscar – exercita novamente sua persona agradável e alto-astral, justificando o furacão que provoca na família e Josh Hutcherson demonstra que pode vir a ser um grande ator em um futuro próximo. Até mesmo a normalmente apática e inexpressiva Mia Wasikowska está bem, o que confirma a qualidade da direção de atores de Cholodenko.
Engraçado, leve, sério e desprovido de neuras, “Minhas mães e meu pai” é um dos melhores filmes de temática gay a surgir na primeira década do século XXI. Sem fazer propaganda ou levantar bandeiras, trata seus personagens com o carinho e o respeito que merecem, e oferecem ao público um desenho acurado e sentimental – mas nunca açucarado em excesso – de um novo formato familiar, cheio de idiossincrasias e conflitos, mas ainda mais repleto de amor e compreensão. Um belo filme, sem contra-indicações.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...