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quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

PRESENTE DE GREGO

PRESENTE DE GREGO (Baby boom, 1987, United Artists, 110min) Direção: Charles Shyer. Roteiro: Nancy Meyers, Charles Shyer. Fotografia: William A. Fraker. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Bill Conti. Figurino: Susan Becker. Direção de arte/cenários: Jeffrey Howard/Lisa Fischer. Produção: Nancy Meyers. Elenco: Diane Keaton, Sam Shepard, Harold Ramis, James Spader, Pat Hingle, Sam Wanamaker. Estreia: 17/9/87 (Festival de Toronto)

A década de 80 viu surgir, no cinemão hollywoodiano, um período que, refletindo o austero governo Reagan, virava suas câmeras para a celebração dos "tradicionais valores americanos" - e que, com o recrudescimento da AIDS, tentava reafirmar os benefícios do núcleo familiar. Foi nesse nicho que até filmes de suspense como "Atração fatal" (87) encontravam um jeito de salientar o conservadorismo do público, identificado com o pensamento puritano da indústria e lotando as salas de cinema. Nada mais normal, portanto, considerando-se essa peculiaridade do mercado, que comédias censura livre para consumo geral se tornassem sucesso de bilheteria - especialmente se estreladas por crianças (de preferência de colo). Foi assim que "Três homens e um bebê" - estrelado por Tom Selleck, Ted Danson e Steve Guttenberg e refilmagem de um êxito francês - e este "Presente de grego" caíram como uma luva no gosto popular. Com uma trama simples (quase simplória), uma atriz de carisma no papel principal e um adorável bebê como atrativo extra, o filme do diretor Charles Shyer - na época casado com a roteirista/produtora Nancy Meyers, com quem assinaria ainda a refilmagem de "Operação Cupido" (98) - chegou a concorrer a dois Golden Globes (melhor filme e melhor atriz, ambas na subcategoria comédia/musical) e esteve perto de dar à Diane Keaton o prêmio de melhor atriz do ano pela National Society of Film Critics. Um exagero, diga-se de passagem, mas que comprova seu prestígio junto à crítica.

Sem precisar de muito esforço para convencer a plateia - e mantendo seu estilo ímpar e naturalista de interpretação -, Keaton dá vida à J.C. Wyatt, uma executiva de Nova York, obcecada por trabalho e que mal arruma tempo para transar com o namorado/marido, Steven Buchner (Harold Ramis), também pouco afeito a romance e sentimentos mundanos, como paternidade e responsabilidade familiar. Às vésperas de uma sonhada e muito batalhada promoção, porém, Wyatt se vê diante de uma inesperada herança de parentes distantes: a pequena Elizabeth, um bebê lindo, adorável, saudável e que não dá a mínima para as pretensões de sua nova mãe em focar-se unicamente na carreira profissional. Depois de tentar entregar a menina para adoção e perder o namorado, Wyatt acaba por perceber que a maternidade não combina com seus planos - demitida, ela se muda para um chalé em Vermont e resolve levar uma vida completamente oposta à que tinha em mente. Depois de reformar sua casa, vira mãe em tempo integral, inicia um flerte com o veterinário Jeff Cooper (Sam Shepard) e entra, quase sem querer, na indústria de alimentos caseiros para bebês - o que a levará de volta a suas velhas questões no mercado de trabalho.


Nitidamente dividido em duas partes desiguais e irregulares, "Presente de grego" parece, a princípio, um filme que aplaude o talento feminino em desdobrar-se em inúmeros papéis - e um retrato do novo perfil da mulher no final do século XX. A primeira metade - em que a protagonista corta um dobrado para compreender as necessidades de sua nova filha - é divertida, agradável e simpática ao extremo, principalmente devido ao carisma de Diane Keaton e à fotogenia das pequenas Kristina e Michelle Kennedy (que se dividiam no papel da pequena Elizabeth). Mesmo que o humor não seja exatamente criativo ou inovador, é delicioso, simples e encantador. Basta que a trama mude de rumo, no entanto, para que tudo se transforme, tanto em ritmo quanto em intenções. Se até então o roteiro focava sua atenção na desastrosa tentativa de Wyatt em descobrir seu até então desconhecido instinto materno - com cenas engraçadas e leves na medida certa -, sua mudança de endereço desvia também os caminhos de sua trajetória. Como em todo bom filme familiar que se preze, a outrora fria e mecânica executiva descobre os prazeres da vida simples, inicia um novo negócio... e, para completar o novo ciclo, encontra um homem (afinal, a família tradicional precisa imperar, certo?).

É uma pena que "Presente de grego" não mantenha o mesmo pique e a mesma despretensão de sua primeira metade. O tom leve de sessão da tarde logo dá espaço para uma trama quadrada em excesso, que parece insistir no fato de que é imprescindível a uma mulher a presença masculina - sem a qual qualquer sucesso (familiar, profissional) sempre estará incompleto. O romance entre Wyatt e o veterinário (interpretado no piloto automático por Sam Shepard) não é tão interessante quanto o relacionamento da executiva com a pequena Elizabeth (que mesmo sem ter consciência disso, causa um terremoto na vida da mãe adotiva). Quando estão juntas em cena, mãe e filha são doces e emocionantes - quando separadas pelo roteiro fazem o filme se parecer com dezenas de outros similares. É um entretenimento competente, atraente e leve, mas com sérios problemas de ritmo - e, apesar da novidade (uma mulher confrontada com uma maternidade inesperada, ao invés de homens desavisados), perde a oportunidade de ser feminista como poderia - e deveria - ser.

domingo

AMOR SEM FIM

AMOR SEM FIM (Endless love, 1981, Polygram Filmed Entertainment, 116min) Direção: Franco Zefirelli. Roteiro: Judith Rascoe, romance de Scott Spencer. Fotografia: David Watkin. Montagem: Michael J. Sheridan. Música: Jonathan Tunick. Figurino: Kristi Zea. Direção de arte/cenários: Ed Wittstein/Alan Hicks. Produção executiva: Keith Barish. Produção: Dyson Lovell. Elenco: Brooke Shields, Martin Hewitt, Shirley Knight, James Spader, Beatrice Straight, Don Murray, Richard Kiley, Tom Cruise. Estreia: 17/7/81

Indicado ao Oscar de Melhor Canção ("Endless love")

Por motivos bem diferentes entre si, tanto a veterana Shirley Knight quanto Teri Shields, mãe da atriz Brooke Shields, não queriam que a estrela juvenil de "A lagoa azul" (80) fosse escalada para o papel principal de "Amor sem fim", a ser dirigido pelo italiano Franco Zefirelli. Teri temia - com carradas de razão - de que a filha acabasse sendo apenas um enfeite em um filme cujo roteiro era praticamente inexistente. E Knight, com sua experiência, julgava - também sem estar muito errada - que a bela adolescente não tinha talento suficiente para o papel. Para Knight, qualquer outra jovem atriz seria uma melhor opção - e, para facilitar a vida do cineasta, sugeriu uma lista de nomes que incluía Rosanna Arquette, Bo Derek, Linda Blair, Carrie Fisher, Jodie Foster, Melanie Griffith, Jennifer Jason Leigh, Michelle Pfeiffer e Debra Winger. Nenhuma delas, no entanto, conseguiu convencer Zefirelli a mudar de ideia - e Knight ainda teve o desprazer de ser indicada ao Framboesa de Ouro de pior atriz coadjuvante do ano (fazendo companhia, por extrema ironia, tanto à Brooke quanto ao diretor e ao galã do filme, Martin Hewitt).

Baseado em um livro de Scott Spencer, "Amor sem fim" é o típico filme que ganhou notoriedade pelos motivos errados. Em primeiro lugar, há a beleza plácida e incontestável de Brooke Shields, um dos mais lindos rostos já descobertos por Hollywood. Em segundo, há a canção-tema, interpretada por Lionel Richie e Diana Ross, indicada ao Golden Globe e ao Oscar e campeã de vendas e execução nas rádios à época de seu lançamento. Afora isso, é um romance de plástico, com uma trama frouxa e inverossímil e uma dupla central de atores que, à parte sua fotogenia, não consegue sustentar um roteiro de telenovela mexicana dirigido sem brilho e sem inspiração por um cineasta que, pouco mais de uma década antes, havia tornado Shakespeare popular à juventude cinéfila com uma versão delicada e comovente de "Romeu e Julieta" (68). Amor proibido, portanto, não lhe era um terreno desconhecido  - o que deixa a decepção ainda maior e mais imperdoável: "Amor sem fim" é simplesmente ruim, capaz de conquistar corações adolescentes pouco exigentes mas impossível de agradar racionalmente a quem procura um filme de verdade.


A história - rala e pouco crível - já começa mostrando o namoro de David Axelrod (Martin Hewitt, estreando no cinema em papel para o qual até mesmo Tom Hanks foi testado) e Jade Butterfield (Brooke Shields): ele tem 17 anos e ela tem 15, mas a família aparentemente liberal da menina não se importa muito que eles já estejam fazendo sexo (ao menos sua mãe, que gosta de David mais do que uma sogra deveria gostar). De uma hora para outra, no entanto, o pai da garota, Hugh (Don Murray), um médico nem tão moderno assim, decide que é hora de afastá-los, porque as noites de amor entre os dois estão prejudicando os estudos de sua bela filha. Revoltado com o fato - e com a possibilidade de Jade não estar mais apaixonada por ele -, David faz o que qualquer um faria (???) e incendeia, por acidente, a casa da família. Condenado a dois anos em uma instituição psiquiátrica, ele não deixa de pensar na namorada (ou ex) e, assim que tem a oportunidade de sair da prisão, resolve que é hora de reconquistar o seu amor - nem que para isso tenha que usar de meios banais, como seduzir a ex-sogra.

Se fosse uma comédia - ou até mesmo um filme de suspense -, "Amor sem fim" poderia ser um filme no mínimo razoável. Mas Franco Zefirelli, sem a menor sutileza, resolveu apresentá-lo como um romance adolescente, quase pueril (apesar da nudez dos atores centrais) e totalmente desprovido de lógica. A separação do casal por imposição dos pais, por exemplo, soa descabida, assim como a relação entre David e Ann (Shirley Knight) - por mais que desde o início dê para perceber o interesse dela pelo rapaz, sua aproximação é nitidamente um artifício para criar uma aura de tensão que nem é trabalhada com eficiência pelo roteiro, que ainda encontra um jeito de acrescentar uma morte ao molho de tragédias da história e encerra sua narrativa de forma anticlimática e morna. Sobra então encantar-se com Brooke Shields (que além disso some de cena por boa parte do segundo ato) e tentar entender porque Hollywood resolveu fazer um remake em 2014 - que não tinha nem Shields e nem a música de Lionel Richie.

Em tempo: tentem encontrar Tom Cruise em uma única e crucial cena. Talvez seja outro motivo para encarar uma sessão.

quinta-feira

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE

SEXO, MENTIRAS E VIDEOTAPE (Sex, lies and videotape, 1989, Outlaw Productions, 100min) Direção e roteiro: Steven Soderbergh. Fotografia: Walt Lloyd. Montagem: Steven Soderbergh. Música: Cliff Martinez. Direção de arte/cenários: Joanne Schmidt/Victoria Spader. Produção executiva: Morgan Mason, Nancy Tenenbaum, Nick Wechsler. Produção: John Hardy, Robert Newmyer. Elenco: James Spader, Andie MacDowell, Peter Gallagher, Laura San Giacomo, Ron Vawter. Estreia: 20/01/89 (Festival de Sundance)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Festival de Cannes: Melhor Diretor (Steven Soderbergh), Ator (James Spader)

Quando ganhou a Palma de Ouro de Melhor Diretor no Festival de Cannes 1989, o cineasta Steven Soderbergh tinha apenas 26 anos de idade e, de cara, tornou-se o vencedor mais jovem da categoria na história do prêmio. Mais impressionante ainda: escrito em oito dias, filmado em trinta e com um custo estimado de pouco mais de um milhão de dólares, seu filme "Sexo, mentiras e videotape" ainda saiu da Riviera Francesa com o prêmio de melhor ator (James Spader) e revolucionou o modo como os espectadores encaravam os filmes independentes. Não foi um sucesso de bilheteria, mas mostrou que, além dos espetáculos pirotécnicos de que Hollywood é pródiga, existia vida inteligente no cinema norte-americano. Sem efeitos especiais, astros milionários e campanhas de marketing massivas, tornou-se queridinho da crítica e do público, concorreu ao Oscar de roteiro original e impôs um dilema dos grandes a seu criador: tido como gênio já em seu filme de estreia, o que poderia Soderbergh fazer em seguida? A resposta veio dois anos depois com o pretensioso "Kafka" - estrelado por Jeremy Irons - mas demorou quase uma década até que a promessa de seu filme de estreia se cumprisse, com o sucesso de "Irresistível paixão" (98) e o Oscar de melhor direção por "Traffic" (2000), que ele disputou consigo mesmo por "Erin Brockovich: uma mulher de talento".

Mas até que se visse vítima do próprio sucesso repentino, Soderbergh colheu elogios rasgados com seu primeiro filme, que também conquistou prêmios importantes no Festival de Sundance (onde foi lançado, meses antes de Cannes), pelos críticos de Los Angeles e na cerimônia dos Independent Spirit Awards (o Oscar para filmes independentes, de onde saiu com quatro estatuetas, incluindo filme e diretor). Seu êxito em conquistar de forma tão ampla a boa vontade dos críticos e a simpatia dos espectadores dispostos a fugir dos blockbusters não é difícil de entender: inteligente, profundo e dotado de grande compreensão da natureza humana, "Sexo, mentiras e videotape" estreou no momento certo e refletia, como poucos filmes de então, o espírito de sua época, aprisionada pela hipocrisia que vinha à reboque do governo Reagan, recém encerrado. Falando abertamente sobre sexo em diálogos francos e diretos e com personagens tão falíveis quanto ambíguos, seu roteiro nadava contra a corrente do cinema americano dos anos 80, centrado basicamente no visual e na edição histérica: com movimentos de câmera suaves e eficientes, Soderbergh consegue extrair o máximo tanto da palavra quanto da imagem, fugindo da verborragia excessiva e evitando com maestria a tentação de fazer malabarismos estéticos. Usando a câmera como parte integrante da narrativa - dentro da história e fora dela, como instrumento para enfatizar a sensação de sufocamento - o filme mergulha o espectador em um jogo perigoso, onde traições, meias-verdades e luxúria estão em vias de implodir relacionamentos pouco saudáveis.





Um desses relacionamentos é o do casal Ann e John Mullany. Ela - interpretada por Andie MacDowell, que ficou com o papel oferecido a Elizabeth McGovern e Brooke Shields e levou pra casa o prêmio de melhor atriz pelos críticos de Los Angeles - é uma dona de casa introvertida, calada e aparentemente frígida, que se utiliza de terapia para tentar lidar com um casamento frio e sem amor. Ele (vivido por Peter Gallagher) é um advogado ambicioso e egoísta, que não apenas trata a esposa com quase desdém como também tem um caso com a própria irmã dela, Cynthia (Laura San Giacomo), uma garçonete expansiva e sensual, que não hesita em usar o corpo e o charme para conquistar o que quer. O triângulo amoroso secreto torna-se explosivo com a chegada de Graham (James Spader), antigo colega de John, um homem quieto e misterioso que não demora em atrair a atenção de Ann - que vê nele alguém em quem pode confiar seus segredos - e de Cynthia - que chega até ele depois de descobrir sua maior particularidade: impotente, o rapaz se satisfaz sexualmente assistindo às fitas de vídeo que gravou com mulheres contando suas intimidades para a câmera. O que deveria ser apenas uma espécie de hobby para Graham acaba se tornando o pivô de uma revolução na vida de todos, especialmente na de Ann, que se percebe no centro de um furacão pessoal que a levará a repensar toda sua vida sentimental.

Arrancando interpretações fascinantes do seu quarteto de atores - todos em total imersão em seus papéis - e manipulando com inteligência os desvios da trama, Steven Soderbergh aposta no minimalismo como forma de enfatizar o que realmente importa em seu roteiro: os personagens. Do lar quase asséptico de Ann à frugalidade da casa de Graham - quase desprovida de móveis - e passando pelo apartamento modernoso de Cynthia, tudo é milimetricamente planejado para transmitir, sem esforço, as características fundamentais de cada um, o que cada um carrega em sua personalidade para empurrar a trama adiante. Sem pressa de contar sua história, Soderbergh filma longos e esclarecedores diálogos com uma câmera discreta, que só se faz notar em momentos cruciais - especificamente quando os personagens são acuados pelas verdades incômodas que subitamente se tornam explícitas. Sem precisar apelar para discursos moralistas ou cenas catárticas, o roteiro do diretor (que perdeu o Oscar para o belo "Sociedade dos poetas mortos") é admirável também por falar muito até mesmo em silêncio: ao optar em não subestimar a inteligência do público, "Sexo, mentiras e videotape" mostra que é possível dialogar com o espectador sem tratá-lo como criança. É um filme adulto, elegante e que resiste ao tempo justamente por fugir do óbvio ao tratar de assuntos quase sempre tratados com superficialidade e/ou deboche pelo cinemão americano. Uma bela estreia de um cineasta de carreira irregular mas ocasionalmente fascinante.

sexta-feira

DÍVIDA DE HONRA

DÍVIDA DE HONRA (The homesman, 2014, ) Direção: Tommy Lee Jones. Roteiro: Tommy Lee Jones, Kieran Fitzgerald, Wesley A. Oliver, romance de Glendon Swarthout. Fotografia: Rodrigo Prieto. Montagem: Roberto Silvi. Música: Marco Beltrami. Figurino: Lahly Poore-Ericson. Direção de arte/cenários: Merideth Boswell/Wendy Ozols-Barnes. Produção executiva: G. Hughes Abell, Deborah Dobson Bach, Michael Fitzgerald, Tommy Lee Jones, Richard Romero. Produção: Luc Besson, Peter Brant, Brian Kennedy. Elenco: Tommy Lee Jones, Hilary Swank, Miranda Otto, John Litghow, James Spader, Grace Gummer, Meryl Streep, Hailee Steinfeld, William Fichtner, Sonja Richter, Tim Blake Nelson. Estreia: 18/5/14 (Festival de Cannes)

A primeira incursão de Tommy Lee Jones atrás das câmeras aconteceu em 2005, com o seco e agreste faroeste "Três enterros", e o ator, vencedor do Oscar de coadjuvante por "O fugitivo" (93), mostrou-se um cineasta atento e sensível às necessidades de um gênero em constante mutação. Porém, demorou quase uma década - e outras duas indicações à estatueta da Academia, por "No vale das sombras" (07) e "Lincoln" (12) - para que Jones retornasse à cadeira de diretor, sintomaticamente com outro faroeste. No entanto, apesar de "Dívida de honra" compartilhar do mesmo universo de sua estreia, seu segundo filme tem um viés menos violento e mais contemplativo, reflexo de um fato raro no gênero: o olhar feminino não apenas como testemunha distante, mas sim como parte ativa do desenrolar da trama.  Baseado em um romance de Glendon Swarthout, "Dívida de honra" tem como um de seus protagonistas a determinada e solitária Mary Bee Cuddy, interpretada com a dedicação habitual de Hilary Swank em um papel que lhe rendeu os maiores elogios de sua carreira desde o Oscar por "Menina de ouro" (04).

Quem procura um faroeste como aqueles que fizeram a glória de John Ford, Sérgio Leone e Clint Eastwood certamente irá se decepcionar com "Dívida de honra", dono de um ritmo e de uma trama que dispensa tiroteios, sacrifícios heróicos e duelos ao sol - ainda que a fotografia extraordinária de Rodrigo Prieto faça sua parte de encantar o espectador.  A trama começa no Nebraska da segunda metade do século XIX, quando a independente e corajosa Mary Bee - solteirona que vê todas as suas tentativas de mudar de status fracassarem sistematicamente - aceita o desafio de levar três mulheres da região que mergulharam na loucura até Iowa, onde poderão ter um tratamento adequado. Assumindo uma missão que deveria ser masculina, ela se vê de uma hora para outra no meio dos descampados do oeste. No meio do caminho, ela dá de cara com George Briggs (Tommy Lee Jones), em vias de morrer enforcado por inimigos. Por ter salvo sua vida, ela propõe a Briggs que a acompanhe em sua viagem, como forma de protegê-la e às suas conterrâneas. Ele aceita a proposta - com o incentivo de um pagamento - e aos poucos surge uma espécie de amizade entre eles, dificultada pelo desejo ainda vívido de Mary Bee de casar-se.


Ao incutir na trama central de seu filme um olhar feminista, Tommy Lee Jones surpreende positivamente não apenas por dar voz a um gênero normalmente relegado a segundo plano na vasta filmografia sobre o Velho Oeste, mas também por abrir um leque de possibilidades dramáticas que tornam seu filme imprevisível. Assim como Katharine Hepburn e Humphrey Bogart se apaixonaram em "Uma aventura na África" - mesmo sendo a personagem de Hepburn uma religiosa renitente - também Mary Bee pode convencer o seco e mau-humorado George Briggs a vê-la não apenas como a fonte de um pagamento mas também como uma mulher, disposta a aceitá-lo como marido. Apesar de não ser o foco da narrativa, tal questão paira grandiosa sobre os personagens a cada momento, até que uma reviravolta muda a percepção da plateia, os planos de um dos dois e o desfecho da história - que conta com as participações mais do que especiais de Hailee Steinfeld (indicada ao Oscar de coadjuvante por outro western, "Bravura indômita", de 2010) e Meryl Streep, em um papel pequeno que lhe dá oportunidade de contracenar com a filha Grace Gummer, que vive uma das três mulheres desequilibradas conduzidas pela carroça de Mary Bee.

Um faroeste atípico mas realizado com alma e extremo talento na frente e atrás das câmeras, "Dívida de honra" consegue o feito de ser ainda melhor que o filme anterior de Lee Jones, "Três enterros", que tinha roteiro de Guillermo Arriaga (dos primeiros filmes de Alejandro Iñárritu) e um tom mais trágico e violento. Contemplativo e dotado de uma melancolia quase palpável, é um projeto maduro e sério, com a marca de seu diretor, um dos mais respeitados atores de sua geração e mais uma interpretação digna de nota de sua estrela, Hilary Swank. São os dois os grandes responsáveis pela qualidade inegável da obra. Para os fãs e os não-fãs do gênero é um grande programa.

domingo

SECRETÁRIA

SECRETÁRIA (Secretary, 2002, LionsGate Films/Double A Films, 104min) Direção: Steven Shainberg. Roteiro: Erin Cressida Wilson, adaptação de Erin Cressida Wilson, Steven Shainberg, estória de Mary Gaitskill. Fotografia: Steven Fierberg. Montagem: Pam Wise. Música: Angelo Badalamenti. Figurino: Marjorie Bowers. Direção de arte/cenários: Amy Danger/Michael Baker, Michael Murray. Produção executiva: Jamie Beardsley, Joel Posner, P.J. Posner, Michael Roban. Produção: Andrew Fierberg, Amy Hobby, Steven Shainberg. Elenco: James Spader, Maggie Gylenhaal, Lesley Ann Warren, Jeremy Davies, Amy Locane. Estreia: 11/01/02 (Festival de Sundance)

Ela é uma jovem recém-saída de uma instituição para doentes mentais, para onde foi enviada por seu gosto excêntrico pela automutilação. Ele é um advogado sério e misterioso que esconde sua impulsiva tendência à dominar e humilhar suas funcionárias até o limite. Quando eles se encontram - ela se oferece para preencher a vaga de secretária em seu escritório - tudo parece se encaixar. Mas até onde uma história de amor entre duas pessoas tão fora do padrão imposto pela sociedade pode ir? E até onde eles mesmos estão dispostos a chegar em sua bizarra relação? Essas são as questões levantadas pela comédia "Secretária", que deu à Maggie Gyllenhaal uma merecida indicação ao Golden Globe - e antes que alguém se assuste com a classificação do filme de Steven Shainberg como "comédia",  vale dizer que, apesar do tema um tanto pesado, o clima passa longe dos psicologismos kafkianos de um David Lynch ou até mesmo da densidade de "Uma professora de piano", do austríaco Michael Haneke - cuja protagonista vivida por Isabelle Huppert também se torturava com seus desejos masoquistas. Modificando alguns detalhes de um conto de Mary Gaitskill, o filme de Shainberg trata de tudo com leveza e respeito, a ponto de fazer a plateia simpatizar e torcer por sua protagonista.

Muito por causa do talento e da naturalidade de Maggie Gyllenhaal - irmã de Jake e futura esposa do ator Peter Sarsgaard - em encarar sequências que em mãos menos hábeis poderiam soar grotescas, a personagem principal de "Secretária" se desvia com facilidade do caricatural, criando vida própria através de pequenos detalhes que a aproximam do espectador e despertam nele uma empatia essencial para o sucesso do filme. Com seu rosto apropriado para transmitir todos os tipos de sentimentos , Maggie empresta seriedade e delicadeza ao filme mesmo quando ele ameaça escorregar para a vulgaridade - e para isso conta com a direção segura e a excelente química com James Spader, que volta a flertar com a sexualidade alternativa depois de sua explosão como o videomaker impotente de "sexo, mentiras e videotape", que lançou o cineasta Steven Soderbergh em 1988. Juntos, ele e Gylenhaal formam uma das duplas românticas mais extravagantes do cinema independente americano de seu tempo.


Quando o filme começa, Lee Holloway (Maggie Gylenhaal) está saindo da instituição psiquiátrica onde foi internada pelos pais depois de um acidente quase fatal com sua excêntrica mania de se automutilar. Ao contrário da irmã que acaba de se casar, ela preocupa os pais por seu jeito retraído de ser, que esconde um grave problema de autoestima que nem mesmo a corte de um antigo amigo da família, Peter (Jeremy Davis) parece diminuir. Em busca de um emprego para ajudar em sua recuperação, Lee encontra no jornal o anúncio de um vaga para secretária e não demora em encantar seu possível patrão, o advogado E. Edward Grey (James Spader), que a contrata deixando claro que o trabalho é exaustivo, que eles não usam computadores e ele é muito exigente. A jovem, cujas habilidades sociais são praticamente nulas, logo se acostuma com o jeito meio grosseiro do novo chefe, que constantemente a humilha por suas roupas inapropriadas ou por seus erros primários em datilografia. Porém, quando Grey passa a perceber que seus modos dominadores estão atraindo Lee, começa entre eles um jogo de submissão a princípio discreto mas logo muito explícito. Em pouco tempo a secretária está apaixonada pelo patrão - e ele tampouco está indiferente à nova funcionária.

Nem todo mundo vai considerar "Secretária" uma comédia engraçadíssima, e provavelmente nem é essa a intenção de seus realizadores, que em momento algum forçam piadas ou diálogos óbvios. O humor do filme vem da situação surreal que envolve os dois protagonistas, que transferem suas posições hierárquicas profissionais para o campo sentimental num piscar de olhos - e sem medir as consequências de seus atos. Sem desrespeitar a condição psicológica de Lee ou fazer brincadeiras com ela, Shainberg trata sua história como um conto de amor entre pessoas que ousam viver seus desejos e prazeres mesmo que eles pareçam doentios aos olhos alheios. A felicidade com que Lee se entrega às propostas bizarras de Grey - cujo nome foi "emprestado" para o protagonista de "50 tons de cinza" - salva sua vida, apesar dos pesares e o fato de Shainberg dar um final feliz ao casal torna leve o que poderia ser um estudo aborrecido sobre um assunto ainda tabu no cinema americano comercial - ao menos nunca foi tratado com a devida seriedade por ele. Uma comédia romântica atípica feita para quem busca ousadia na sétima arte.

quinta-feira

LOUCOS DE PAIXÃO

LOUCOS DE PAIXÃO (White palace, 1990, Universal Pictures, 103min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ted Tally, Alvin Sargent, romance de Glenn Savan. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Carol Littleton. Música: George Fenton. Figurino: Lisa Jensen. Direção de arte/cenários: Jeannine C. Oppewall/Lisa Fischer. Produção executiva: Sydney Pollack. Produção: Griffin Dunne, Amy Robinson, Mark Rosenberg. Elenco: Susan Sarandon, James Spacer, Jason Alexander, Kathy Bates, Eilleen Breenan, Maria Pitillo, Jeremy Piven. Estreia: 19/10/90

A trama não é das mais surpreendentes ou criativas: jovem viúvo rico e judeu se apaixona por uma mulher mais velha, experiente e de classe social inferior e o romance entre os dois esbarra nas dificuldades inerentes a esse tipo de relacionamento. Por que, então, "Loucos de paixão", baseado no livro de Glenn Savan, soa tão especial ao público? Será por causa do roteiro enxuto de Ted Tally - que veria seu "O silêncio dos inocentes" sair com um Oscar no ano seguinte? - e Alvin Sargent - veterano vencedor de duas estatuetas, por "Julia" (77) e "Gente como a gente" (80) - que se mantém acima do melodrama barato, circundando-o com uma atmosfera de verossimilhança extremamente bem-vinda?  Ou será sua dupla de atores centrais, Susan Sarandon e James Spader, cujos talentos conseguem fazer poesia até dos diálogos mais banais? Talvez seja a reunião de todos os ingredientes, mas o fato é que o filme de Luis Mandoki é um dos dramas românticos mais interessantes de seu tempo, mesmo que não tenha tido o reconhecimento devido nas cerimônias de premiação.

Susan Sarandon, em vias de tornar-se uma das atrizes mais queridas, requisitadas e premiadas atrizes de sua geração - bônus por seu desempenho excepcional em "Thelma & Louise" (91) - vive Nora Baker, uma garçonete de 43 anos de idade que tem no passado a trágica morte do filho. Uma noite, depois do confronto com um cliente que chega à lanchonete onde ela trabalha reclamando do atendimento, ela o reencontra em um bar, bêbado e pouco disposto a conversa. O rapaz, Max Baron (James Spader em papel que quase ficou com Robert Downey Jr.), tem 27 anos, também tem um histórico de perdas - sua mulher morreu em um acidente de carro há pouco tempo - e acaba indo com ela para sua casa. O choque de gerações, de culturas e até mesmo de modos de viver - ele é inflexivelmente rígido a padrões de higiene, por exemplo, e ela mora em um lugar pouco asseado e sem maiores preocupações quanto a isso - não o impede de dormir com ela, depois de um longo período sabático. Aos poucos, apesar das diferenças, os dois se apaixonam, mas ele não sente-se à vontade em apresentar a simples e desbocada Nora à sua família e seus amigos.


A história de "Loucos de paixão" não tem medo dos clichês, conforme pode-se perceber. No entanto, o roteiro ritmado disfarça a escassez de surpresas, especialmente quando põe em cena seus dois protagonistas. Desde o primeiro diálogo no bar - quando Nora descaradamente flerta com o atônito Max - até o final modificado depois de exibições-teste que não o aprovaram, a forma como Sarandon e Spader dominam seus personagens encanta e seduz o público sem fazer muita força. Sarandon não se intimida com a sexualidade ululante de Nora, se entregando sem pudor a cenas bastante apimentadas e Spader, com seu rosto angelical - que já havia sido explorado a contento por Steven Soderbergh em seu "sexo, mentiras e videotape" (89) - transmite com segurança toda a vastidão emocional que Max precisa esconder por trás de uma vida de aparências e boa educação. O encontro dos dois mundos - regido ainda pela irmã mais velha de Nora, a vidente interpretada por Eileen Breenan - é o melhor do filme, uma história de amor adulta feita para adultos.

"Loucos de paixão" não foi um estouro de bilheteria, nem tampouco é muito lembrado dentro da vitoriosa carreira de Susan Sarandon. Mas é uma bela história, narrada com competência e elegância, dentro de um roteiro enxuto e realista. Em uma época em que muitos filmes preferiam o exagero à discrição, ousou ser minimalista e sutil em suas emoções. Por causa disso, é uma pequena pérola a ser redescoberta.

quarta-feira

A GAROTA DE ROSA-SHOCKING

A GAROTA DE ROSA-SHOCKING (Pretty in pink, 1986, Paramount Pictures, 96min) Direção e roteiro: John Hughes. Fotografia: Tak Fujimoto. Montagem: Richard Marks. Música: Michael Gore. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: John W. Corso/Jennifer Polito, Bruce Weintraub. Produção executiva: Michael Chinich, John Hughes. Produção: Lauren Shuler. Elenco: Molly Ringwald, Andrew McCarthy, Jon Cryer, Harry Dean Stanton, James Spader, Annie Potts. Estreia: 28/02/86

Musa absoluta do diretor John Hughes e da vasta maioria dos adolescentes frequentadores das salas de cinema e das videolocadoras dos anos 80, a ruiva Molly Ringwald considera "A garota de rosa-shocking", sua terceira colaboração com Hughes - depois de "Gatinhas e gatões" (84) e "Clube dos cinco" (85) - como a sua preferida. Antes de romper profissionalmente com o cineasta ao recusar um papel em seu "Alguém muito especial" (87), Ringwald era a cara de sua geração, algo assim como o James Dean feminino dos anos 80 - sem sua rebeldia e o carisma imortal, no entanto. Suas personagens, sempre estudantes do colegial lidando com problemas típicos de sua idade, refletiam nas telas as angústias de seu tempo, rodeadas por pôsteres de bandas, vestidas com figurinos inacreditavelmente cafonas sob o ponto de vista atual e sonorizadas por nomes icônicos como The Smiths, Eccho & The Bunnymen, New Order e OMD. E esse seu trabalho com o diretor-símbolo do gênero não foge à regra, mostrando definitivamente que em time que está ganhando não se mexe: "A garota de rosa-shocking" mais uma vez usa e abusa dos clichês das comédias românticas adolescentes sem ao menos ter vergonha disso. E justamente por isso funciona mais uma vez.

Agora Ringwald interpreta Andie Walsh, uma jovem pobre que vive sozinha com o pai desempregado (Harry Dean Stanton dando credibilidade ao projeto) e trabalha em uma loja de discos ao lado da amiga mais velha, Iona (Annie Potts). Inteligente e criativa a ponto de criar suas próprias roupas - e ser prodigamente ridicularizada por isso pela ala das patricinhas de sua escola - Andie não é exatamente a mais popular das garotas, mas isso não impede que Blane (Andrew McCarthy), o rapaz dos seus sonhos, a convide para sair. O surpreendente convite deixa Andie nas nuvens, mas acaba sendo uma enorme decepção para Duckie (Jon Cryer, da série "Two and half men"), seu melhor amigo, que é apaixonado por ela desde a infância mas tem medo de declarar-se. A relação entre Andie e Blane, porém, irá esbarrar em outros empecilhos: além de Duckie não estar nem um pouco feliz com a história e de Steff (James Spader), amigo de Blane, não poupar esforços para destruir o romance nascente, eles precisam lidar com suas diferenças sociais e inseguranças.


O roteiro de "A garota de rosa-shocking" talvez seja o mais fraco dentre os clássicos de John Hughes, o que não acaba de jeito nenhum com o prazer de assistí-lo (ou revisitá-lo, vez ou outra). A inocência característica da obra do diretor permanece uma delícia, diante de tantas comédias contemporâneas que insistem na escatologia e na baixaria para conquistar o espectador. O romantismo, que pode soar datado mas permanece terno e íntegro, ainda é um dos seus pontos altos, estabelecendo como base da trama um triângulo amoroso que causou polêmica já em seu lançamento: o final que chegou aos cinemas é diferente daquele imaginado por Hughes, que não foi bem aceito nas exibições-teste e substituido mesmo contra a sua vontade - e que o levou a lançar "Alguém muito especial" (aquele filme que Ringwald não topou fazer) no ano seguinte. Especula-se que, caso o elenco escolhido tivesse sido diferente (Robert Downey Jr. fez teste para viver Duckie e Charlie Sheen para interpretar Blane), essa situação poderia ter sido invertida, mas o fato é que, como está, o filme marcou uma geração e é difícil imaginar um final diferente, quer se concorde com ele ou não.

Tendo moldado, junto com outros filmes similares, toda uma geração de cinéfilos adolescentes que ainda não eram obrigados a uma dieta de filmes de super-heróis, "A garota de rosa-shocking" ficou na mente de seu público-alvo graças a algumas cenas inesquecíveis, como o encontro entre Andie e Blane no baile do final (ao som da clássica "If you leave", da banda OMD) e à interpretação sempre na medida certa de Molly Ringwald - que infelizmente não teve a mesma sorte na carreira de atriz adulta. Pode não ser um grande filme, não ter ganho Oscar e não fazer parte da lista das obras que mudaram a sétima arte, mas tem lugar garantido no coração dos fãs, que não se emocionaram à toa com as confusões sentimentais de sua adorável protagonista.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...