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sexta-feira

O ENFERMEIRO DA NOITE


O ENFERMEIRO DA NOITE (The good nurse, 2022, FilmNation Entertainment/Netflix, 121min) Direção: Tobias Lindholm. Roteiro: Krysty Wilson-Cairns, livro de Charles Graeber. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: Adam Nielsen. Música: Biosphere. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Alyssa Winter. Produção executiva: Glen Basner, Ignacio de Medina, Jonathan Filley, Ari Handel, Josh Stern. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Michael Jackman. Elenco: Jessica Chastain, Eddie Redmayne, Noah Emmerich, Kim Dickens, Nnmandi Asomugha. Estreia: 11/9/2022 (Festival de Toronto)

Pode um filme falar sobre um serial killer que matou provavelmente centenas de pessoas contar sua história sem mostrar uma única gota de sangue? "O enfermeiro da noite", baseado na trajetória assassina de Charles Cullen - encerrada com sua prisão, em 2003 - prova que a resposta é positiva. Lançado no Festival de Toronto de 2022 cerca de um mês antes de estrear na Netflix, em outubro do mesmo ano, o primeiro longa-metragem em inglês do dinamarquês Tobias Lindholm foca na investigação policial que levou Cullen à cadeia, e é conduzido com sobriedade e discrição, evitando o sensacionalismo normalmente atrelado a produções do gênero. Com sua experiência na condução de dois episódios da série "Mindhunter", Lindholm se aproveita do talento de seu elenco e do roteiro conciso, baseado em um livro investigativo de Charles Graeber, para envolver o espectador em um drama claustrofóbico, cuja elegância visual não consegue disfarçar a tensão inerente a uma trama perturbadora.

O filme começa - logo depois de um prólogo que dá uma ideia do que está por vir - quando o jovem enfermeiro Charles Cullen (Eddie Redmayne) é contratado para trabalhar no turno da noite do Parkfield Memorial Hospital, localizado em Nova Jersey (estabelecimento fictício que substitui o verdadeiro Somerset Medical Center). Solícito, gentil e dedicado, não demora para que Charles se torne amigo da colega Amy Loughren (Jessica Chastain), que divide seu tempo entre o trabalho, os cuidados com as duas filhas pequenas e a luta para curar um problema cardíaco. A amizade entre os dois vai se aprofundando com o tempo, e Amy passa a contar com o novo colega em suas batalhas diárias. As coisas mudam, porém, quando pacientes sob a supervisão de Cullen, independentemente da idade e em condições razoáveis de saúde, começam a morrer inexplicavelmente. Desconfiada de que seu amigo pode estar por trás dos óbitos, a enfermeira resolve colaborar com a polícia, nas figuras de Tim Braun (Noah Emmerich) e Danny Baldwin (Nnmandi Asomugha).


 

Com uma história que praticamente implora por um tom sensacionalista, "O enfermeiro da noite" encontra, na direção de Tobias Lindholm, um viés mais intimista, que opta pelas crises pessoais de seus protagonistas, em detrimento às regras mais óbvias em um filme de suspense. Para isso, conta com a presença sempre potente de Jessica Chastain, em papel mais discreto do que aquele que lhe rendeu um Oscar, por "Os olhos de Tammy Faye": em um trabalho quase silencioso, que explora o olhar e o corpo mais do que longos diálogos, Chastain empresta à Amy Loughren atitudes estoicas e corajosas que despertam a imediata empatia do público, e bate de frente com mais um desempenho econômico e eficiente de Eddie Redmayne. Longe dos trejeitos que poderiam fazer de seu Charles Cullen um monstro clichê, o ator vencedor do Oscar por "A teoria de tudo" (2014) expressa a personalidade transtornada de Cullen através de sorrisos melífluos, atitudes gentis e a aparência de um homem absolutamente normal - como qualquer psicopata -, mas, de forma inteligente, nunca deixa de fazer com que seus gestos soem ameaçadores, o que fica claro em sua última conversa com Amy, uma sequência elaborada com precisão para deixar a plateia com a respiração suspensa. Além disso, somada às atuações exemplares de seus atores centrais, a fotografia acinzentada deixa no ar a sensação constante de pesadelo monocromático e sufocante, que dialoga com o desenvolvimento apropriadamente lento do filme de Lindholm.

Roteirista de filmes premiados, como "A caça" (2012) e "Druk: mais uma rodada" (2020), Lindholm faz sua estreia como diretor de longa-metragens em inglês com o pé direito. Ao renegar qualquer lugar-comum de filmes sobre psicopatas, o cineasta  afirma sua personalidade própria, que busca o envolvimento do espectador sem artifícios que não a objetividade. Sua decisão em focar a narrativa na relação entre Amy e Charles foge do padrão "mortes+investigação+confronto" para inserir, na receita,  um ritmo mais comum em dramas do que em filmes de suspense - o que pode desnortear os cinéfilos mais puristas, mas que acrescenta uma profundidade maior à sua obra. Por mais que em alguns momentos "O enfermeiro da noite" soe como um telefilme, sua seriedade em lidar com um tema complexo e polêmico merece aplausos - especialmente se, junto com ela, é possível testemunhar mais um trabalho admirável de Jessica Chastain, uma das melhores atrizes de sua geração, e Eddie Redmayne, em franca ascensão dentro da indústria hollywoodiana. 

 

segunda-feira

A GAROTA DINAMARQUESA


A GAROTA DINAMARQUESA (The Danish girl, 2015, Working Title Films/Focus Features, 119min) Direção: Tom Hooper. Roteiro: Lucinda Coxon, livro de David Ebershoff. Fotografia: Danny Cohen. Montagem: Melanie Ann Oliver. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Paco Delgado. Direção de arte/cenários: Eve Stewart/Michael Standish, Thierry Van Cappelen. Produção executiva: Liza Chasin, Ulf Israel, Kathy Morgan, Linda Reisman. Produção: Tim Bevan, Anne Harrison, Tom Hooper, Gail Mutrux. Elenco: Eddie Redmayne, Alicia Vikander, Ben Whishaw, Mathias Schonaerts, Amber Head. Estreia: 05/9/15 (Festival de Veneza)


4 indicações ao Oscar: Ator (Eddie Redmayne), Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander), Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Alicia Vikander) 

Praticamente um século antes que discussões a respeito de gênero se tornassem corriqueiras - e que a palavra "transsexual" passasse a fazer parte do vocabulário comum, um artista de Copenhague ousou desafiar as regras e buscar sua realização pessoal mesmo diante de uma sociedade para quem qualquer diferença era o mesmo que um crime. Mesmo não tendo sido a primeira pessoa transgênero da história - e tampouco a primeira a passar por uma cirurgia -, Einar Wegener foi um dos pioneiros na questão e inspirou o livro "The danish girl", de David Ebershoff, que contou, de forma ficcionalizada, sua trajetória rumo à transformação física. Ao alterar elementos cruciais da vida de sua protagonista, o autor contou com mais liberdade criativa - e foi seu livro, mais do que a história real, a inspiração para "A garota dinamarquesa", sua adaptação para o cinema, comandada por Tom Hooper - o mesmo cineasta injustamente premiado com o Oscar por "O discurso do rei" (2010) e que assassinou a versão musical de "Os miseráveis" (2012), que premiou Anne Hathaway como a melhor atriz coadjuvante do ano. Seu terceiro filme, porém, para alívio de todos, é bem superior a suas duas obras anteriores - e, em uma prova de que nem sempre a Academia é coerente, seu filme com menos indicações à estatueta dourada: concorreu a quatro, inclusive melhor ator (Eddie Redmayne), mas ficou de fora da lista dos candidatos a melhor filme.

A batalha para transformar "A garota dinamarquesa" em filme começou quando Nicole Kidman, uma atriz de grande prestígio e já bastante respeitada pela crítica e pela indústria, se apaixonou pelo roteiro. Disposta a produzir, estrelar e até dirigir o filme caso fosse necessário, Kidman pensava em viver a protagonista, com alguma outra grande estrela no papel de Gerda, a esposa de Einar - que, na versão romantizada da história, ficava a seu lado incondicionalmente. Durante o tempo em que o projeto esteve nas mãos de Kidman, atrizes de primeira linha se revezavam ao lado da estrela de "Moulin Rouge: o amor em vermelho" (2001): Charlize Theron, Gwyneth Paltrow, Uma Thurman, Marion Cottilard e Rachel Weisz estiveram, em maior ou menor grau, comprometidas com a produção. As dificuldades, no entanto, fizeram com que Kidman abrisse mão de seus planos, e o roteiro, que Hooper já havia lido em 2008, finalmente encontrou um caminho para as telas quando, em 2012, o cineasta ofereceu o papel principal para Eddie Redmayne, com quem trabalhava em "Os miseráveis". Redmayne, subitamente alçado à condição de astro graças a seu Oscar de melhor ator por seu desempenho como o físico Stephen Hawking em "A teoria de tudo" (2014), assumiu a protagonização do filme ao lado da ascendente Alicia Vikander. Juntos, eles são o corpo e a alma de "A garota dinamarquesa", dois atores cujo trabalho deixam os pequenos defeitos ainda menores.


A trama de "A garota dinamarquesa" se passa na década de 1920 e começa em Copenhagen, onde vive o casal de artistas Einar e Gerda Weigener. Buscando reconhecimento a seu trabalho, frequentam o mundo artístico da cidade enquanto lidam com a frustração de não conseguirem ter um filho. Einar ainda tem um certo sucesso entre os críticos, e, na tentativa de ajudar a esposa com seus retratos, aceita substituir sua modelo e posar para uma tela. Vestido de mulher, o jovem sente que seu espírito é, na verdade, feminino. Assumindo uma nova personalidade chamada Lili, ele conta com o apoio de Gerda para fazer a transição de gênero e buscar auxílio médico para tal, mesmo que tal condição ainda fosse nova até mesmo para a medicina - que em muitos casos julga tratar-se de um problema psicológico.  Nessa trajetória, o casal se muda para a França e conta também com a ajuda de Hans (Mathias Schonaerts), amigo de infância de Einar, e Henrik (Ben Whishaw), que sente uma grande atração por Lili. Parte do universo artístico da Dinamarca, Einar/Lili e Gerda ousam desafiar a sociedade e lutar por sua verdade.

O roteiro de Lucinda Coxon - assim como o livro no qual foi inspirado - alterou substancialmente a verdadeira história de Einar e Gerda, ocultando principalmente a homossexualidade de Gerda, que, segundo consta, preferia o lado feminino do marido e que, depois da anulação do casamento, afastou-se dele e passou a viver em Paris, assumindo sua condição de lésbica. O romance - e consequentemente o roteiro - também inventou os personagens Hans e Henrik, assim como simplificou o tratamento físico de Einar, cujo destino no filme é ligeiramente diferente da história original. Tais liberdades artísticas não prejudicam o resultado final - exceto, é claro, se o espectador esperar uma cinebiografia convencional. Tom Hooper - que deixou para trás outros cineastas de renome, como Neil Labute e Lasse Halstrom - acerta em deixar o trabalho mais árduo para seus atores, e possibilita tanto a Redmayne quanto Vikander (premiada com o Oscar de atriz coadjuvante ainda que seja tão protagonista quanto seu parceiro de cena) apresentarem interpretações sutis e emocionantes. Logicamente houve polêmica na escolha de Redmayne, um ator cisgênero, para o papel central, mas a equipe de produção, como uma espécie de redenção, contou, segundo Hooper, com 40 transgêneros, a maioria como extras. Mas, controvérsias à parte, "A garota dinamarquesa" é um filme que homenageia seu protagonista e sua batalha com um olhar sensível e sério, sem apelar para qualquer tipo de humor ou julgamento. Redmayne está perfeito - ainda melhor do que em "A teoria de tudo" - e Alicia Vikander justifica sua estatueta com uma atuação profundamente comovente. A direção de Hooper não atrapalha - como o fez em seus primeiros filmes - e a reconstituição de época é preciosa, refletindo nos cenários e figurinos (também indicados ao Oscar) tanto o espírito dos personagens quanto seu universo artístico. "A garota dinamarquesa" é um filme importante e, a despeito de sua opção em seguir as regras de Hollywood e deixar a sexualidade de lado, uma produção bastante corajosa.

quarta-feira

O BOM PASTOR

O BOM PASTOR (The good shepherd, 2006, Universal Pictures, 167min) Direção: Robert De Niro. Roteiro: Eric Roth. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Tariq Anwar. Música: Bruce Fowler, Marcelo Zarvos. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jeannine Oppewall/Gretchen Rau, Leslie E. Rollins, Alyssa Winter. Produção executiva: Chris Brighan, Francis Ford Coppola, Howard Kaplan, Guy McElwaine, David Robinson. Produção: Robert De Niro, James G. Robinson, Jane Rosenthal. Elenco: Matt Damon, Angelina Jolie, Robert De Niro, Alec Baldwin, William Hurt, John Turturro, Tammy Blanchard, Billy Crudup, Joe Pesci, Lee Pace, Eddie Redmayne, Gabriel Macht, Michael Gambon, Timothy Hutton. Estreia: 11/12/06

Indicado ao Oscar de Direção de Arte/Cenários

"O bom pastor" é um filme caro. Caro e ambicioso. Ao retratar o surgimento da CIA, através dos olhos de um de seus primeiros agentes - e fazer isso com uma narrativa sofisticada, repleta de flashbacks e numerosos personagens em quase três horas de duração -, foi também um imenso risco comercial para a Universal Pictures, que herdou o projeto da Columbia e da MGM. Com um custo estimado em 90 milhões de dólares (uma fortuna para um filme sem efeitos visuais, cenas de ação ou um protagonista de fácil reconhecimento aos olhos do público médio), o segundo filme dirigido por Robert De Niro só chegou mesmo às telas graças ao empenho de seu diretor (que o tratava como projeto de estimação há pelo menos dez anos antes de sua estreia) e ao comprometimento de Matt Damon, jovem astro então com capacidade o bastante para tocar para frente qualquer produção graças ao sucesso dos dois primeiros filmes da série Bourne. Graças à tenacidade de ambos, o filme, cujo embrião surgiu em 1994 - quando o roteirista Eric Roth, em vias de ganhar um Oscar por "Forrest Gump: o contador de histórias", de Robert Zemeckis, apresentou a ideia à Francis Ford Coppola - finalmente viu a luz dos refletores no final de 2006, e quase como a crônica de uma morte anunciada, não fez barulho nas bilheterias.

Mas se o relativo fracasso comercial de "O bom pastor" não chegou a surpreender muita gente, o que mais chamou a atenção foi a esnobada que o filme levou da Academia: típico produto que disputa os principais Oscar, foi indicado apenas à estatueta de melhor direção de arte, que perdeu para "O labirinto do fauno", de Guillermo Del Toro. Não deixa de ser uma injustiça: da fotografia espetacular de Robert Richardson à trilha sonora discreta de Marcelo Zarvos, não há nada, em termos técnicos, que não seja impecável no resultado final. A reconstituição de época caprichada, a edição inteligente, o clima de suspense e paranoia criado pela direção e as interpretações no tom exato são flagrantes até mesmo ao espectador mais exigente. O problema é que, apesar disso tudo, o roteiro peca ao não oferecer, ao público, alguém com quem se identificar. O personagem principal, Edward Wilson, não permite qualquer empatia ou diálogo com a plateia - e essa frieza, que afastou Coppola da direção (mas não da produção executiva), acaba sendo o calcanhar de Aquiles da obra, um problema que nem o carisma de Matt Damon é capaz de superar.


Damon, aliás, está muito bem no papel central, em uma interpretação que ele afirma ter se inspirado no trabalho de Gene Hackman em "A conversação" (74), coincidentemente do mesmo Coppola a quem o filme foi oferecido em primeira mão. Como bom agente secreto, o Edward Wilson criado por Damon é lacônico, distante e aparentemente inexpressivo - enquanto seu interior é um tumultuado caos. É Damon quem dá o tom de todos à sua volta, evitando qualquer passo fora do minimalismo sublinhado pelas sombras da fotografia de Richardson, que evoca com sucesso os filmes noir dos anos 40 e 50 para enfatizar a construção dramática da história contada. Com duas linhas narrativas paralelas, "O bom pastor" começa às vésperas da crise na Baía dos Porcos, em 1961, quando o governo de John Kennedy estava no auge de seu conflito com Cuba e Fidel Castro. Enquanto o roteiro mostra as tentativas de Wilson em cooperar na resolução dos problemas políticos e fugir das suspeitas de que pode ser um traidor (descobrindo o nome do verdadeiro agente duplo), flashbacks dão conta de mostrar a forma como ele chegou a seu destino, retratando desde seus dias juvenis como parte de uma fraternidade universitária que lhe forneceu contatos e atalhos para chegar a Washington, até seu casamento com Clover Russell (Angelina Jolie) - uma relação marcada pela distância que seu trabalho impunha - e o relacionamento com o único filho, Edward Jr. (Eddie Redmayne), que resolve seguir os passos do pai e também entrar na CIA, apesar de ter testemunhado toda a sua trajetória marcada pela solidão.

Bem diferente do primeiro filme dirigido por De Niro - o despretensioso "Desafio no Bronx" (94), com ecos autobiográficos -, "O bom pastor" mostra que o cineasta sabe muito bem o que faz quando se trata de dirigir atores (e são muitos, todos conhecidos do grande público, às vezes em papéis bem pequenos, mas sempre muito importantes). Falta, porém, a experiência necessária para enxugar a trama e lhe injetar um dinamismo que lhe faria muito bem. Além de necessitar de certo conhecimento da história dos EUA, o espectador ainda é soterrado de informações, nomes e datas que, mais do que empurrar a trama adiante, apenas a tornam confusa demais para quem procura entretenimento. Quando finalmente o ritmo entra nos eixos, nos vinte minutos finais, já é tarde para empolgar àqueles que não são fãs incondicionais de histórias de espionagem - ainda que talvez suas inúmeras outras qualidades possam minimizar seus pequenos defeitos. No final das contas, é um filme adulto, complexo, de narrativa elegante e alguns bons momentos de tensão. Não é tão bom quanto poderia ser, mas pode ser que, com o passar do tempo, se torne um clássico a ser descoberto.

domingo

SETE DIAS COM MARILYN

SETE DIAS COM MARILYN (My week with Marilyn, 2011, The Weinstein Company, 99min) Direção: Simon Curtis. Roteiro: Adrian Hodges, livros "My week with Marilyn" e "The prince, the showgirl and me" de Colin Clark. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Adam Recht. Música: Conrad Pope. Figurino: Jill Taylor. Direção de arte/cenários: Donal Woods/Judy Farr. Produção executiva: Kelly Carmichael, Simon Curtis, Christine Langan, Jamie Laurenson, Ivan Mactaggart, Bob Weinstein. Produção: David Parfitt, Harvey Weinstein. Elenco: Michelle Williams, Kenneth Branagh, Eddie Redmayne, Judi Dench, Julia Ormond, Dominic Cooper, Emma Watson, Dougray Scott, Toby Jones. Estreia: 09/10/11 (Festival de Nova York)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Michelle Williams), Ator Coadjuvante (Kenneth Branagh)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz em Comédia/Musical (Michelle Williams)

Via de regra, cinebiografias tropeçam nas próprias ambições e esbarram na maior das dificuldades do gênero: contar em cerca de duas horas a vida inteira de alguém cuja existência justifique um filme. Tal dificuldade resulta em produções frequentemente superficiais que preferem passar ao largo de momentos cruciais na trajetória de seus protagonistas como forma de resumir, em uma duração palatável ao gosto do público médio, um arco de existência que vai do nascimento à morte. Às vezes, nem mesmo uma minissérie de TV seria capaz de dar conta da quantidade de informações e acontecimentos – e filmes como “Gandhi” e “Chaplin”, ambos, não por coincidência, de Richard Attenborough, acabam por ficar aquém do que poderiam. Como forma de sanar um pouco esse problema de superficialidade, o cinema americano encontrou uma saída inteligente que acabou virando tendência: escolher determinado momento na vida/carreira dos biografados e concentrar seu foco em períodos de tempo muito mais compactos. Tal opção funcionou muito bem em “Capote”, de Bennett Miller – que deu o Oscar de melhor ator a Philip Seymour Hoffman e concorreu nas categorias de filme, diretor e roteiro adaptado – e “Steve Jobs” – que apesar de ter dividido a crítica, deu a Michael Fassbender e Kate Winslet chances de concorrer à estatueta e à Aaron Sorkin o Golden Globe de melhor roteiro. Não deu tão certo assim em “Hitchcock”, de Sacha Gervasi, que atolou-se em uma direção medíocre. E resultou apenas morna em “Sete dias com Marilyn”.
Baseado em um livro escrito por Colin Clark – diretor de documentários que registrou em diários sua relação fugaz com Marilyn Monroe, a maior estrela de Hollywood nos anos 50 – o filme de Simon Curtis acerta em não tentar contar em seus 90 minutos de duração toda a existência conflituosa e recheada de complexos dramas psicológicos da atriz, mas não consegue, infelizmente, ultrapassar a superfície de uma das mais fascinantes personagens que o cinema americano já forjou – e que existia de verdade, sem que houvesse a necessidade de acrescentar à sua vida nenhum tipo de dramas. Apenas passando por cima da razão das carências emocionais de Marilyn e tocando com uma rapidez quase tímida momentos de extrema importância à vida futura da estrela (o aborto espontâneo sofrido no período de tempo retratado pelo roteiro), o filme de Curtis funciona como entretenimento leve, mas falha em ser uma homenagem a um dos maiores ícones do cinema americano às vésperas do 50º aniversário de sua morte.
O filme se passa em 1956, quando Marilyn já era a atriz mais famosa e desejada de Hollywood e chega à Inglaterra para estrelar a comédia romântica “O príncipe encantado”, convidada especialmente pelo astro do filme, Laurence Olivier, disposto a conquistar uma nova geração de espectadores que não se deixavam impressionar por seu currículo shakespereano. O problema é que Marilyn não chega sozinha à pequena cidade onde o filme será rodado: com ela, junto com uma dúzia de problemas de autoestima e insegurança, está o marido Arthur Miller – autor de clássicos do teatro americano - e sua instrutora de interpretação, Paula Strassberg, esposa do infame Lee Strassberg, criador do Actor’s Studio. Dependente quase total da opinião de Paula e dos remédios para dormir, Monroe não demora a desafiar a paciência de toda a equipe, incluindo Olivier, que não parece estar disposto a tolerar os atrasos constantes e a falta de compromisso da estrela. Apenas a veterana Sybil (Judi Dench) e o terceiro assistente de direção do filme, Colin (Eddie Redmayne) dão apoio incondicional à bela atriz – e ela acaba se encantando com o rapaz, para surpresa e desespero de todos.

Michelle Williams concorreu ao Oscar por seu desempenho na pele de Marilyn. Mereceu. Apesar de não ser exatamente parecida com o mito, Williams injeta tanta personalidade e sensibilidade a seu trabalho que o espectador não demora a comprar a ideia de que está realmente diante da mulher que sacudiu o mundo em filmes como “O pecado mora ao lado” e “Quanto mais quente melhor” – realizado logo em seguida e considerado o melhor trabalho de sua carreira. Mesclando momentos de candura e timidez com outros em que transmite o vulcão de sensualidade que fez de Monroe o mais duradouro símbolo sexual da história, Williams explora com inteligência tudo que o roteiro lhe oferece, tratando sua personagem com respeito e coerência, jamais caindo na armadilha de fazer dela uma vítima ou retratá-la como a loira burra, imagem que a estereotipou até sua trágica morte, em agosto de 1962. Sua interpretação é de uma sutileza comovente – com apenas um olhar, Williams fala mais do que outras estrelinhas que Hollywood insiste em empurrar para a plateia em longos discursos.
Mas se Michelle Williams dá um espetáculo com seu desempenho, seu elenco coadjuvante não fica atrás. Em um toque de mestre, o diretor Simon Curtis escalou Kenneth Branagh – irlandês que tornou-se famoso no cinema como uma espécie de representante oficial de Shakespeare nos anos 90, com filmes como “Henry V”, “Muito barulho por nada” e “Hamlet” – para interpretar Laurence Olivier – britânico que, nas décadas de 40 e 50, fazia o mesmo, a ponto de ganhar um Oscar por “Hamlet”. Esse sutil toque metalinguístico – Olivier chega a citar o bardo em uma sequência perto do final do filme – é um rasgo de inteligência que quase torna perdoável escalar a insossa Julia Ormond para viver a espetacular Vivien Leigh: mesmo que fosse mais velha que Marilyn, Leigh ainda era linda e elegante em 1956, coisa que Ormond apenas sonha em ser. Se na vida real era questionável alguém apaixonar-se por Monroe tendo Leigh em casa, no filme tal opção torna-se muito mais compreensível – se era essa a intenção do diretor, palmas a ele. Caso contrário, foi um tiro no pé. Diante de Ormond nem é preciso muito para que Michelle Williams brilhe e justifique o carisma imortal de Marilyn.
Quanto ao roteiro, “Sete dias com Marilyn” fica apenas na média. Não aprofunda as relações entre a atriz e Colin (Eddie Redmayne antes de ficar famoso e ganhar o Oscar por “A teoria de tudo”) nem dá foco ao que poderia ser um delicioso retrato dos bastidores de uma filmagem. Toda vez que o filme se concentra na fúria de Olivier em ter que aturar os atrasos e inconstâncias de Marilyn, o filme de Curtis cresce e se torna interessante. Quando se desvia para o romance hesitante entre Monroe e Clark – um personagem mal escrito e interpretado com apatia por Redmayne – cai no lugar-comum que acaba por transformá-lo em um filme apenas razoável. Serve como curiosidade e para admirar o trabalho de Michelle Williams e Kenneth Branagh – ambos, aliás, merecidos candidatos à estatueta da Academia.

terça-feira

A OUTRA





A OUTRA (The other Boleyn girl, 2008, Columbia Pictures/Focus Features, 115min) Direção: Justin Chadwick. Roteiro: Peter Morgan, romance de Phillippa Gregory. Fotografia: Kieran McGuigan. Montagem: Paul Knight, Carol Littleton. Música: Paul Cantelon. Figurino: Sandy Powell. Direção de arte/cenários: John-Paul Kelly/Sara Wan. Produção executiva: Scott Rudin, David M. Thompson. Produção: Alison Owen. Elenco: Natalie Portman, Eric Bana, Scarlett Johansson, Kristin Scott-Thomas, Jim Sturgess, David Morrissey, Benedict Cumberbatch, Eddie Redmayne, Juno Temple. Estreia: 15/02/08 (Festival de Berlim)


Os dramas relacionados à vida e governo do Rei Henrique VIII sempre interessaram ao cinema. Filmes como "Os amores de Henrique VIII" (1933) - que deu o Oscar de melhor ator a Charles Laughton - e "O homem que não vendeu sua alma" (1966) - estrelado por Robert Shaw e Paul Scofield e vencedor do prêmio máximo da Academia - trataram do assunto com seriedade e cuidado. Porém, nem sempre a veracidade histórica é o suficiente para agradar ao grande público, que prefere uma versão mais romanceada dos fatos. Ao menos é o que devem pensar os produtores da série de TV "The Tudors" e do filme "A outra" - homônimo de um drama de Woody Allen lançado em 1988 - baseado em romance de Phillippa Gregory. Enquanto no seriado o rei é interpretado pelo magérrimo (e um tanto andrógino) Jonathan Rhys-Meyers, no filme de Justin Chadwick (estreando como cineasta) ele é vivido pelo másculo e viril Eric Bana. Basta uma rápida olhada em qualquer imagem do monarca para perceber que nenhum dos dois atores chega perto da verdade, ao menos em termos físicos. Mas esse é apenas o menor dos problemas.

O romance de Gregory - parte de uma série de livros a respeito da dinastia Tudor - é um calhamaço que detalha com precisão os costumes da época em que se passa, transmitindo ao leitor uma visão bem nítida das situações vividas. O roteiro de Peter Morgan - também autor do script de "A rainha" - não tem muito esse cuidado, preferindo dedicar-se ao aspecto romanesco da trama, que trata do triângulo amoroso formado entre Henrique e as duas irmãs Bolena, Mary (Scarlett Johansson) e Ana (Natalie Portman), que, como todos sabem, acabou por dar-lhe uma filha, Elizabeth, que governou o país por muitos anos (e deu origem a dois filmes estrelados por Cate Blanchett). A opção por tratar a história como uma novela global dá certo do ponto de vista dramático - o elenco é acima de críticas - mas não empolga como cinema.


A falta de ousadia da direção de Chadwick compromete o resultado final de "A outra", tornando-o um filme pálido, principalmente levadas em conta as possibilidades imensas da história contada. Ainda assim, seu elenco - em especial Natalie Portman - é razão suficiente para elevá-lo acima da média. Portman, com seu jeito angelical escondendo objetivos nada nobres, rouba o filme, engolindo todos à sua volta - com a possível exceção da sempre ótima Kristin Scott-Thomas no papel de sua mãe. A bela Natalie esmaga a apática Scarlett Johansson sem fazer muita força, sendo beneficiada por uma personagem bem mais interessante, ainda que provida de escolhas nada éticas. É ela quem move o filme, que peca também por um ritmo claudicante e por um final anticlimático.

Para quem não sabe, a história é a seguinte: o casamento do rei Henrique VIII (Eric Bana fazendo o possível com uma personagem mal escrita) com Catarina de Aragão (Ana Torrent) está por um fio, devido à incapacidade da rainha de lhe dar um filho homem. Maquiavélico, o duque de Norfolk (David Morrissey), homem de confiança do rei, tem a ideia de apresentar ao monarca sua sobrinha Ana Bolena (Portman). Depois de tentar sem sucesso seduzí-lo, Ana vê sua irmã Mary (Scarlett Johansson) tornar-se sua amante. Uma gravidez de risco põe Mary de cama, e Anna tem novamente uma chance de provar-se mais digna de subir ao trono de rainha - nem que para isso precise tirar Catarina e sua irmã do caminho.

A história é realmente muito forte e interessante, mas acaba diluída por um roteiro condescendente e fraco, que só é valorizado pelo elenco, pela produção caprichada e por Natalie Portman, sempre uma atriz muito maior do que suas personagens.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...