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segunda-feira

SEGREDOS DE UMA NOVELA


SEGREDOS DE UMA NOVELA (Soapdish, 1991, Paramount Pictures, 97min) Direção: Michael Hoffman. Roteiro: Robert Harling, estória de Robert Harling, Andrew Bergman. Fotografia: Ueli Steiger. Montagem: Garth Craven. Música: Alan Silvestri. Figurino: Nolan Miller. Direção de arte/cenários: Eugenio Zanetti/Lee Poli. Produção executiva: Herert Ross. Produção: Alan Greisman, Aaron Spelling. Elenco: Sally Field, Kevin Kline, Whoopi Goldberg, Elisabeth Shue, Robert Downey Jr,, Cathy Moriarty, Gary Marshall, Teri Hatcher, Kathy Namiji. Estreia: 31/5/91

Ao contrário do que acontece no Brasil, onde gozam de relativo prestígio junto ao público e à crítica, as telenovelas produzidas nos EUA não são exatamente um veículo nobre para atores. Normalmente apresentadas no horário vespertino, as novelas norte-americanas (ao contrário das séries, hoje alçadas a filé mignon das emissoras) frequentemente apelam para tramas rocambolescas e inverossímeis, anos e mais anos de duração e um tom que raramente escapa do dramalhão mais cafona. A julgar pela comédia "Segredos de uma novela", seus bastidores também não são nada tranquilos: exageros cômicos à parte, o filme de Michael Hoffman - que posteriormente assinaria o romântico "Um dia especial" (1996), o shakespereano "Sonho de uma noite de verão" (1999) e o subestimado "A última estação" (2009) - retrata o dia-a-dia da produção de uma dessas novelas tão populares quanto inacreditáveis de forma ao mesmo tempo debochada e carinhosa. Co-produzido por Aaron Spelling - ele mesmo vindo do mundo da televisão, onde produziu sucessos como "As panteras" e  "Barrados no baile" - e estrelado por um elenco de sonhos, "Segredos de uma novela" diverte enquanto dura, mas, assim como os produtos que critica, é provável que desapareça da memória do espectador tão logo acabe sua sessão.

Longe de querer ser a obra definitiva sobre o assunto - soa bem mais como uma descompromissada sessão da tarde do que um tratado a respeito de teledramaturgia popular -, o filme de Hoffman brinca com as percepções do público a respeito de astros, estrelas, roteiristas e produtores sem preocupar-se com a fidelidade absoluta - e acerta em cheio ao utilizar-se de metalinguagem como forma de enfatizar  os absurdos que circundam a criação de uma obra aberta. Ao criticar as reviravoltas que abundam nas produções televisivas, o roteiro também faz uso delas para efeito histriônico: na trama criada pelo dramaturgo Robert Harling e desenvolvida por ele e Andrew Bergman, há espaço para romances interrompidos, maternidades escondidas, traições e sexualidades duvidosas - tudo revelado ao vivo, diante de um público ávido por ser surpreendido a cada capítulo.

A protagonista do filme é Celeste Talbert (Sally Field,  estrela absoluta da telenovela "The sun also sets", no ar há anos com espantosos índices de audiência e prêmios acumulados pela crítica. Idolatrada pelos fãs, Talbert parece estar entrando em seu inferno astral: abandonada pelo marido, ela ainda precisa lidar com a velada perseguição do jovem produtor David Barnes (Robert Downey Jr.), que seduzido pela promessa de uma noite de amor com a ambiciosa Montana Moorehead (Cathy Moriarty), procura um jeito de aumentar seu papel na novela mesmo ameaçando sua coerência interna. Protegida pela roteirista principal, Rose Schwartz (Whoopi Goldberg), Talbert tenta não se deixar abater pela crise, mas vê as coisas se complicarem ainda mais quando, para seu desespero, seu antigo amante, Jeffrey Anderson (Kevin Kline), volta à cena como seu novo par romântico, o que traz à luz um passado traumático e um segredo que pode abalar sua popularidade. Não bastasse tudo isso, ela começa a sentir o peso da idade, principalmente quando sua sobrinha, Lori Craven (Elisabeth Shue), passa a disputar com ela, involuntariamente, o posto de atriz preferida pelas plateias, e ilustrar capas de revistas.

Criada por Robert Harling durante os bastidores das filmagens de "Flores de aço" - baseado em uma peça de sua autoria, e estrelado por Sally Field em 1989 -, a trama de "Segredos de uma novela" foi desenvolvida pelo próprio Harling e pelo roteirista/cineasta Andrew Bergman, que poucos anos depois cometeria o infame "Striptease" (1996), com Demi Moore. Brincando com os excessos dramáticos atrelados às produções televisivas (onde parece não haver limites para a falta de verossimilhança), eles não hesitam em forçar situações que, por um lado refletem o tom do gênero, e por outro fazem rir desse mesmo tom. Field, ela mesma um ícone da televisão norte-americana dos anos 1960, com "A noviça voadora" e figurinha fácil nas telinhas nas últimas décadas, com participações em "Plantão médico" e papel central em "Brothers and sisters", está precisa em seu timing cômico, e encontra em Kevin Kline o parceiro ideal: seu Jeffrey Anderson é o retrato perfeito do ator de teatro respeitado (mas sem sucesso popular) que encontra na teledramaturgia barata a forma de sobreviver de sua arte. A presença de Kline, um dos grandes e mais subestimados atores de Hollywood, não apenas valoriza o filme de Hoffman, mas acrescenta sabor aos bastidores em si - não fosse ele a interpretar Anderson o papel poderia ter ficado com Burt Reynolds, que, por coincidência ou não, é ex-namorado da própria Sally Field. Uma ironia que seria bem-vinda ao propósito da produção - mas que não aconteceu por receio do próprio Reynolds.

A energia caótica de "Segredos de uma novela" é um trunfo: reuniões de diretoria - com ideias absurdas jorrando de mentes mais interessadas em índices de audiência do que integridade artística -, intrigas rocambolescas, ressentimentos pouco disfarçados e a fogueira das vaidades queimando tudo à sua volta fazem da produção um entretenimento cujo teor narcisista é facilmente perdoável. Mesmo que o roteiro por vezes exagere na superficialidade - o que talvez seja uma crítica a mais à indústria - e não permita que parte do elenco tenha seu potencial explorado a contento - caso de Robert Downey Jr., Elisabeth Shue e até mesmo Whoopi Goldberg -, o saldo final é no mínimo agradável. Rindo do que acontece por trás das câmeras de um programa de televisão, o filme acaba, de certa forma, homenageando sua capacidade de reinvenção e perenidade junto ao público. A sensação de assistí-lo é, de certa forma, a mesma de tomar um café da tarde junto a seus personagens mais queridos - e suas idiossincrasias mais extraordinárias.

sexta-feira

CHRISTINE

CHRISTINE (Christine, 2016, BorderLine Films/Fresh Jade, 119min) Direção: Antonio Campos. Roteiro: Craig Shilowich. Fotografia: Joe Anderson. Montagem: Sofia Subercaseaux. Música: Danny Bensi, Saunder Juriaans. Figurino: Emma Potter. Direção de arte/cenários: Scott Kuzio/Jess Royal. Produção executiva: Sean Durkin, Robert Halmi Jr., Josh Mond, Jim Reeve. Produção: Melody C. Roscher, Craig Shilowich. Elenco: Rebecca Hall, Michael C. Hall, Tracy Letts, Maria Dizzia, J.Smith-Cameron, John Cullum, Tim Simmons. Estreia: 23/01/16 (Festival de Sundance)

O Festival de Sundance 2016 apresentou uma situação atípica: dois filmes que tiveram sua estreia por lá tratavam exatamente do mesmo assunto, ou melhor, da mesma personagem principal. Enquanto "Kate plays Christine", de Robert Greene optava por uma mistura de documentário e ficção, no entanto, o filme de Antonio Campos - filho do jornalista brasileiro Lucas Mendes e da produtora italiana Rose Ganguzza, que foi empresária de Pelé por um período de tempo - se concentra em dramatizar a trágica história da repórter televisiva Christine Chubbuck, uma mulher presa em uma profunda depressão e lutando continuamente contra suas frustrações pessoais. "Christine", estrelado por uma perturbadora Rebecca Hall - premiada como melhor atriz no Festival de Chicago e elogiada unanimemente pela crítica - é um retrato ao mesmo tempo fascinante e mórbido de uma pessoa no limite de suas forças, o que faz dele, por consequência, uma experiência um tanto desconfortável ao espectador que procura apenas por entretenimento. No entanto, é um trabalho forte e consistente, que revela em Campos um cineasta de grande futuro.

Interessado pela história da protagonista por também ter passado por episódios de severa depressão, Antonio Campos tem outra grande qualidade: é um diretor que nutre grande respeito por seu material humano, que acredita na força de sua personagem central e não a trata como mero elemento narrativo. Ainda que a verdadeira Christine Chubbuck não fosse tão perceptivelmente deprimida como mostrado no filme (uma pequena licença poética que em nada tira a força do resultado final, muito pelo contrário), a forma como o roteiro de Craig Shilowich vai gradualmente envolvendo a plateia em seu turbilhão emocional demonstra seu objetivo em criar uma empatia entre público e personagem - por mais que ela seja dotada de uma estranheza que dificulte tal conexão. É nesse ponto que entra o intenso desempenho de Rebecca Hall: em seu trabalho mais desafiador, a atriz entrega uma metódica interpretação, repleta de detalhes físicos que explicitam seu estado de espírito mesmo quando os diálogos que trava com colegas e a mãe dizem exatamente o oposto. Em sua pele, Christine desperta um misto de compaixão e desconforto. É uma performance impecável!





Mas afinal qual é a história contada no filme? Para quem não conhece o desfecho da trajetória de Christine o melhor é não saber de muitos detalhes - o final é chocante e até hoje desperta muita controvérsia, com teorias de conspiração surgindo a cada momento. O que se pode adiantar sem prejuízo é que o roteiro acompanha a busca da repórter televisiva Christine Chubbuck, que, na segunda metade dos anos 70, luta para ser reconhecida por seus colegas e superiores de uma pequena emissora de uma cidade do interior. Depois de ter passado por uma severa crise depressiva, Christine vive uma relação tumultuada com a mãe, Peg (J. Smith-Cameron) - uma mulher que tenta aproximar-se da filha mas nem sempre é bem-sucedida - e, ao contrário do que se poderia supor de alguém que é voluntária em um hospital infantil com um teatro de fantoches, esconde uma vontade quase mórbida de ascender profissionalmente e levar uma vida normal. Uma série de problemas se acumulam em seus dias e nem mesmo a proximidade com o colega George (Michael C. Hall, da série "Dexter") parece ser capaz de afastá-la da tristeza. Frustrada tanto na vida pessoal como na profissional, ela leva ao pé da letra o conselho de seu chefe Michael (Tracy Letts) e decide correr atrás de uma notícia que seja impactante e diferente do que o público está acostumado a ver na televisão.

Com uma leve crítica à morbidez do telespectador e do sadismo das emissoras de televisão, "Christine" é um filme difícil, principalmente por não aliviar a barra no retrato da doença de sua protagonista com momentos de humor. Não há leveza no tratamento que é dado à história, o que é coerente com o tom escolhido pelo diretor e essa coragem fica evidente inclusive no ritmo, que substitui a agilidade de uma edição picotada por um estilo minimalista de narração. Não há grandes cenas de catarse - com a possível exceção de seu clímax - nem tampouco explicações fáceis ou excessivamente didáticas. Ao não subestimar sua audiência e confiar em seu material, Antonio Campos criou um filme discreto mas com potência o bastante para ficar na cabeça do público por um bom tempo. Uma bela surpresa que merece ser descoberta e compartilhada - e que deixa a vontade irresistível de correr ao Google para saber mais sobre a protagonista. Missão cumprida!

quinta-feira

O ABUTRE

O ABUTRE (Nightcrawler, 2014, Bold Films/Sierra-Affinity, 117min) Direção e roteiro: Dan Gilroy. Fotografia: Robert Elswitt. Montagem: John Gilroy. Música: James Newton Howard. Figurino: Amy Westcott. Direção de arte/cenários: Kevin Kavanaugh/Meg Everist. Produção executiva: Betsy Danbury, Gary Michael Walters. Produção: Jennifer Fox, Tony Gilroy, Jake Gyllenhaal, David Lancaster, Michel Litvak. Elenco: Jake Gyllenhaal, Rene Russo, Bill Paxton, Riz Ahmed. Estreia: 05/9/14 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Em 1976, o cineasta Sidney Lumet lançou um dos mais contundentes ataques ao sensacionalismo da mídia, o já clássico "Rede de intrigas", que deu o Oscar de melhor atriz à Faye Dunaway e de melhor ator (póstumo) a Peter Finch. Quase quatro décadas depois, as coisas não mudaram muito (se é que não pioraram ainda mais) no universo do jornalismo, e o roteirista Dan Gilroy - de "O legado Bourne" - fez sua estreia na direção com mais um ataque feroz contra os urubus do quarto poder. Escorado em uma atuação impressionante de Jake Gyllenhaal, o suspense "O abutre" é um soco na boca do estômago da plateia, colocando-a como testemunha e cúmplice de seu protagonista, um dos mais psicóticos personagens surgidos nas telas de Hollywood em muito tempo.

Assustadoramente magro e visualmente chocante, Gyllenhaal - injustamente esquecido pela Academia que preferiu Bradley Cooper e a soporífera patriotada de "Sniper americano" - interpreta Louis Bloom, um jovem que descobre, meio por acaso, uma forma de ganhar dinheiro explorando a desgraça alheia: vender imagens de acidentes de carro, tiroteios, assassinatos e outros tipos de violência às emissoras de televisão que as veiculam diariamente, como parte de uma dieta sombria e grotesca. Comprando uma câmera amadora e contratando a preço de banana um assistente que não tem onde cair morto - o ingênuo Rick (Riz Ahmed) - Bloom passa a disputar a primazia das desgraças com um veterano das ruas, o também ambicioso Joe Loder (Bill Paxton), e torna-se, com o tempo, fornecedor quase oficial de uma pequena emissora da cidade, cuja diretora de telejornalismo, Nina (Rene Russo), tem uma elástica noção de ética. Quando percebe que pode ganhar ainda mais dinheiro manipulando as cenas dos crimes para torná-las mais atraentes para o telespectador, o rapaz não hesita em ultrapassar todos os limites, chegando até mesmo a esconder informações da polícia para aumentar seu poder de negociação junto à imprensa.


Como uma espécie de Travis Bickle - personagem de Robert De Niro em "Touro indomável" - Louis Bloom é um lobo solitário e perigoso, um misantropo doentio fruto de seu próprio tempo: enquanto Bickle era um veterano da guerra do Vietnã, Bloom é vítima de uma sociedade desesperada pelo êxito e pela vitória, conforme ele deixa claro em seus discursos constantes copiados de manuais de sucesso profissional. Levando uma vida patética e tediosa, ele encontra em sua nova "carreira" não apenas um jeito de ganhar dinheiro, mas de ser notado, respeitado e amado - nem que seja através de chantagem. Seus métodos pouco ortodoxos - pra não dizer tão criminosos quanto os atos que registra com sua câmera - o levam em direção a um precipício do qual ele parece não ter medo, e que fica cada vez mais atrelado à sua necessidade patológica de fama e atenção. Suas armas não são visíveis e é aí que o roteiro de Gilroy (indicado ao Oscar) mostra sua força: aparentemente um simples peão, Louis Bloom é a representação clara e inequívoca de uma imprensa crescentemente cruel e desumana, um monstro incapaz de esconder sua própria face e disposto a sacrificar o que for preciso para atingir seus objetivos egocêntricos. Em um período onde a mídia mais uma vez dita a ordem das coisas em nível mundial, "O abutre" é um filme obrigatório.

E se por seu teor político-social o filme de Dan Gilroy - irmão de Tony, o diretor de "Conduta de risco" - é nada menos que essencial, como cinema também não é nada desprezível. Filmado basicamente à noite (o que enfatiza seu tom sombrio e sublinha o suspense crescente da trama), o trágico e violento conto do cineasta leva o espectador a uma excursão angustiante pelo lado pouco glamouroso de Los Angeles e dos bastidores da televisão - mostrados sob uma luz realista e pouco lisonjeira e valorizados pela bela atuação de Rene Russo (esposa do diretor e em um de seus melhores trabalhos) e pela revelação do jovem Riz Ahmed, que pontuam com perfeição o show de Jake Gyllenhaal, em uma interpretação antológica e fascinante que transforma cada cena em um espetáculo à parte. "O abutre", com seu senso de realidade e inteligência, é um dos melhores filmes da temporada 2014, infelizmente não devidamente reconhecido como tal pelas cerimônias de premiação.

quarta-feira

FROST/NIXON

FROST/NIXON (Frost/Nixon, 2008, Universal Pictures/Imagine Entertainment, 122min) Direção: Ron Howard. Roteiro: Peter Morgan, peça teatral homônima do mesmo autor. Fotografia: Salvatore Totino. Montagem: Dan Hanley, Mike Hill, Robert Komatsu. Música: Hans Zimmer. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Michael Corenblith/Susan Benjamin. Produção executiva: David Bernardi, Matthew Byan Shaw, Liza Chasin, Todd Hallowell, Debra Hayward, Karen Kehela Sherwood, Peter Morgan. Produção: Tim Bevan, Eric Fellner, Brian Grazer, Ron Howard. Elenco: Frank Langella, Michal Sheen, Kevin Bacon, Sam Rockwell, Matthew Macfadyen, Toby Jones, Andy Milder. Estreia: 15/10/08 (Festival de Londres)

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Ron Howard), Ator (Frank Langella), Roteiro Adaptado, Montagem

Talvez o mais polêmico dentre todos os presidentes norte-americanos, Richard Nixon acabou por tornar-se também um dos personagens mais fascinantes da política mundial, com sua personalidade ambígua e sua história repleta de lances melodramáticos e controversos - mesmo quando não aparece em cena, ele é o centro das atenções, como é o caso de "Todos os homens do presidente" (76), que Alan J. Pakula dirigiu baseado no livro dos jornalistas Carl Bernstein e Bob Woodward, que investigaram o famigerado caso Watergate, que o empurrou à renúncia. Protagonista do ambicioso "Nixon" (95), de Oliver Stone - no qual foi interpretado por um brilhante Anthony Hopkins, indicado ao Oscar por seu desempenho - o homem que comandou os EUA em um dos períodos mais críticos de sua história serviu de inspiração também para o dramaturgo Peter Morgan, que em 2007 estreou na Broadway a elogiadíssima "Frost/Nixon", a recriação dramática de uma série de entrevistas concedidas pelo ex-presidente ao repórter britânico David Frost em 1977 - e que se tornaram momentos clássicos da televisão mundial. O sucesso do espetáculo teatral logo chamou a atenção da indústria cinematográfica e inúmeros diretores relevantes - Martin Scorsese, Sam Mendes, Mike Nichols, George Clooney - se dispuseram a comandar sua adaptação para as telas, até que Ron Howard ganhou a disputa, com a garantia de ter nos papéis centrais os dois atores que davam vida aos protagonistas nos palcos, Frank Langella e Michael Sheen. Se o resultado nas bilheterias não foi dos mais empolgantes - culpa talvez da natural aversão da plateia a temas políticos - o mesmo não pode ser dito da receptividade da crítica, unânime em apontar o filme como um dos melhores da temporada 2008, opinião compartilhada pelos membros da Academia de Hollywood, que o colocaram no páreo para cinco importantes Oscar, inclusive melhor filme, direção e ator (Langella).

Com a adaptação escrita pelo próprio Morgan, que também foi indicado à estatueta dourada, "Frost/Nixon" pode até ser de interesse um tanto limitado - é difícil imaginar o mesmo público que lota os cinemas para ver coisas como "Transformers" pagando ingresso para assistir a um duelo verbal sobre política - mas é absolutamente fascinante, tanto em termos narrativos quanto históricos. Dotado de um ritmo ágil e de diálogos saborosos que dão a seus atores a chance de explorar as diversas nuances de seus personagens - além de um inusitado senso de humor que o afasta do tom shakespereano do filme de Stone, por exemplo - o roteiro de Morgan acerta principalmente ao deixar claro ao espectador as motivações egoístas de cada um dos lados da questão antes de colocá-los frente a frente: dessa forma, nem Frost é um heroi da mídia disposto a apresentar a verdade ao povo americano (ele tem interesses financeiros no projeto, ainda que sofra com a angústia de não conseguir financiamento para ele) nem Nixon é um injustiçado pelos opositores políticos ou ingênuo (o que fica claro na última das sessões de entrevistas, em um momento genial de texto, direção e interpretação). Ao negar a seu texto qualquer traço maniqueísta, Morgan transforma o que poderia ser em um exercício aborrecido, verborrágico e parcial em um interessantíssimo estudo de personagens - mesmo que um deles tenha sido o homem mais poderoso do mundo por um determinado período de tempo.


Quando o filme começa, Richard Nixon já está fora da esfera do poder, em um silêncio ensurdecedor que priva os eleitores americanos da verdade a respeito do caso Watergate - quando políticos republicanos foram desmascarados ao espionar a sede do partido democrata no prédio que dá nome à situação. Sabendo que uma declaração sua pode lhe trazer o prestígio e o respeito que sua carreira como repórter de celebridades não lhe dá, o jornalista inglês David Frost (Michael Sheen, sensacional) tem a ideia de propor-lhe uma série de entrevistas exclusivas para serem transmitidas na televisão americana. A chance de reconquistar a admiração de seus eleitores - e um generoso pagamento de 600 mil dólares - convence o político a aceitar a proposta, mesmo que com uma série de exigências. Pondo em risco seu patrimônio pessoal correndo sério risco com o investimento, Frost insiste na ideia e marca os encontros para o início de 1977. O que ele pensava ser uma missão fácil se mostra, porém, um desafio jamais experimentado em sua carreira até então repleta de futilidade e superficialidade.

"Frost/Nixon" é um filme de muitas qualidades. Além do roteiro conciso de Peter Morgan e da direção segura de Ron Howard, o elenco está em dias inspirados, tanto os atores centrais quanto os coadjuvantes - uma lista que inclui Kevin Bacon, Rebecca Hall, Sam Rockwell e Oliver Platt. Hipnotizante, inteligente e realizado com seriedade rara, é uma pequena pérola que, mesmo tendo quase sido esquecida com o passar dos anos, merece ser redescoberto.

sexta-feira

ROMANCE

ROMANCE (Romance, 2008, Globo Filmes/Natasha Filmes, 105min) Direção: Guel Arraes. Roteiro: Guel Arraes, Jorge Furtado. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Gustavo Giani. Música: Caetano Veloso. Figurino: Cao Albuquerque. Direção de arte: Marlise Storchi. Produção executiva: Diogo Dahl. Produção: Paula Lavigne. Elenco: Wagner Moura, Letícia Sabatella, Andréa Beltrão, Vladimir Brichta, José Wilker, Marco Nanini, Bruno Garcia. Estreia: 14/11/08

Um dos diretores mais respeitados do Brasil, com sucessos acumulados na TV ("A comédia da vida privada", "TV Pirata") e no cinema ("O Auto da Compadecida", "Lisbela e o prisioneiro"), Guel Arraes sempre pautou sua carreira cinematográfica voltando o olhar para o nordeste brasileiro e suas lendas e costumes. Em seu quarto longa-metragem, porém, ele resolveu mudar o tom de seus trabalhos anteriores e falar de amor. Com um registro bem mais próximo de sua experiência na televisão do que em seus bem-sucedidos trabalhos regionais mostrados na telona, ele lançou, em 2008, a comédia romântica "Romance", que escreveu em parceria com o também cineasta Jorge Furtado. Ao contrário do que se poderia esperar, porém, o filme não alcançou o êxito merecido, ficando relegado a um segundo plano na carreira do diretor. Injustiça que fica evidente quando se percebe a inteligência do roteiro, a delicadeza das interpretações do elenco excepcional e a fina ironia que permeia a história de amor entre dois atores que veem suas vidas transformadas pelo sucesso profissional.

Pedro (Wagner Moura em tom romântico a anos-luz de distância do Capitão Nascimento de "Tropa de elite") é um ator e diretor de teatro idealista, que acredita na superioridade do palco em relação à televisão. Durante os ensaios de sua nova peça, uma montagem de "Tristão & Isolda", ele se apaixona por sua colega de cena, Ana (Letícia Sabatella, excelente em todas as fases de sua personagem), que não tem as mesmas regras rígidas em relação à sua profissão. O romance idílico entre eles entra em crise quando Ana aceita fazer uma novela, traindo os ideais do namorado. Separados, eles seguem suas carreiras mas voltam a se encontrar quando ela sugere que ele seja o diretor de um especial de fim de ano da emissora onde ela trabalha. Mantendo-se fiel ao que acredita, Pedro aceita o trabalho, mas resolve criar uma versão de "Tristão & Isolda" no sertão nordestino, para desespero do executivo Danilo (José Wilker). Durante as filmagens, Ana e Pedro voltam a se aproximar, mas encontram dificuldades em retomar o romance graças a Orlando (Vladimir Brichta) - ator coadjuvante que se apaixona por ela - e Fernanda (Andréa Beltrão), assistente de Ana responsável pela escolha de Orlando para o elenco.


Mergulhando nos bastidores do mundo do teatro e da televisão, Guel Arraes mostra com desenvoltura o funcionamento de dois universos tão semelhantes quanto distantes. Através do idealismo de Pedro, o roteiro discute as dificuldades que o teatro tem de manter-se puro e independente do apelo da televisão - capaz de transformar uma atriz em estrela sem ao menos saber de seu real talento. Pela ótica de Ana, é possível perceber o preconceito nada velado em relação aos artistas que buscam o reconhecimento e o sucesso financeiro e profissional dividindo sua carreira entre o palco e os sets de gravação. Apesar de claramente demonstrar mais simpatia pelo modo ético de Pedro, o cineasta jamais impõe uma verdade universal, preferindo apostar na inteligência do público, que, em meio a isso, se diverte com alguns diálogos impagáveis - em especial quando entra em cena o ator/estrela Rodolfo (Marco Nanini, mais uma vez sensacional) - e algumas passagens lindamente românticas, que apresenta uma química perfeita entre Wagner Moura (cada vez melhor ator) e Letícia Sabatella (deslumbrante e com ótimo timing). Não bastasse tudo isso, os roteiristas ainda encontraram um jeito de contar sua história de forma a citar outros clássicos do teatro - como "Cyrano de Bergerac" - sem que o artifício soe um truque barato ou demonstração estéril de eruditismo.

Engraçado, sutil e exalando paixão, "Romance" peca apenas por parecer demais com um especial de televisão, armadilha da qual Guel sempre conseguiu escapar em seus trabalhos anteriores. Afora isso, é uma delícia de se assistir, repleto de momentos de grande inspiração e dono de um final criativo e capaz de estampar um sorriso no rosto da plateia. Os detratores não souberam entender e os que perderam sempre tem a chance de reparar o erro.

quarta-feira

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA

O SHOW DE TRUMAN, O SHOW DA VIDA (The Truman Show, 1998, Paramount Pictures, 103min) Direção: Peter Weir. Roteiro: Andrew Niccol. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: William Anderson, Lee Smith. Música: Burkhard Dallwitz. Figurino: Marilyn Matthews. Direção de arte/cenários: Dennis Gassner/Nancy Haigh. Produção executiva: Lynn Pleshette. Produção: Edward S. Feldman, Andrew Niccol, Scott Rudin, Adam Schroeder. Elenco: Jim Carrey, Ed Harris, Laura Linney, Noah Emmerich, Natasha McLeone, Peter Krause. Estreia: 05/6/98

3 indicações ao Oscar: Diretor (Peter Weir), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Roteiro Original
Vencedor de 3 Golden Globes: Ator/Drama (Jim Carrey), Ator Coadjuvante (Ed Harris), Trilha Sonora Original

Um dos mais populares astros de Hollywood da década de 90, o canadense Jim Carrey lotou salas de exibição com "Ace Ventura", "Débi & Lóide" e "O Máskara" - filmes divertidos, mas um tanto vulgares e bastante longe do que se convém chamar de bom cinema. Adorado pelo público e execrado pela crítica, ele logo fez o que faz todo ator disposto a transformar sua imagem: mudou de gênero. Seu primeiro passo nessa direção, a comédia de humor negro "O pentelho", foi impiedosamente ignorado nas bilheterias. Sua segunda tentativa, porém, acertou em cheio. "O show de Truman, o show da vida" não só demonstrou que Carrey poderia atingir níveis dramáticos mais altos do que demonstrava como também é um dos filmes essenciais dos anos 90, graças à sua oportuna crítica à mídia.

Dirigido pelo sempre competente australiano Peter Weir, "O show de Truman" estreou na hora certa, em que plateias do mundo inteiro se rendiam aos infames reality shows, elevando o nível de voyeurismo da população a níveis jamais imaginados - talvez apenas por George Orwell no clássico "1984". Escrito por Andrew Niccol, que depois assumiria a direção da distópica ficção científica "Gattaca", o filme de Weir se encaixa em diversas classificações. Tanto pode ser uma comédia sarcástica, ou um drama existencial ou até mesmo um suspense dramático, dependendo do ponto de vista do espectador e da maneira com que ele percebe o mundo ao seu redor. Essa inteligência é que justifica sua indicação ao Oscar de roteiro original: poucas vezes o cinema americano foi tão original e irônico a respeito do modo de vida do país e de sua cultura média.



No filme de Weir (que merecidamente recebeu sua indicação ao Oscar de direção), "O show de Truman" é um programa de TV extremamente popular, no ar há mais de 30 anos, que acompanha, desde o nascimento, a vida de seu protagonista, Truman Burbanks (Jim Carrey em uma atuação surpreendente, que equilibra seu costumeiro humor físico com uma melancolia nunca antes vista). Truman vive uma rotina sem sobressaltos, em um emprego burocrático e com uma vida familiar discreta e tranquila ao lado da esposa Meryl, na verdade, uma atriz contratada para o papel (Laura Linney, ótima). Apesar de julgar-se um felizardo, porém, ele nunca esquece seu primeiro amor (Natasha McLeone), que lhe foi abruptamente afastada do caminho em sua juventude. Um belo dia, chegando ao trabalho, Truman escapa por pouco de ser atingido por um holofote e, a partir daí, acontecimentos bizarros o levam a desconfiar que algo muito estranho está lhe acontecendo. Nem mesmo os conselhos de seu melhor amigo, Marlon  (Noah Emmerich) o impedem de tentar, então, sair de sua pacata Seaheaven. Quando as coisas ameaçam sair do controle, o criador do programa, o misterioso Christof (Ed Harris) resolve interferir diretamente no desenvolvimento do show.

O roteiro de Niccol é um primor de ritmo e bom-humor, sem nunca apelar para risadas fáceis. Ele critica tudo aquilo que faz da TV americana - e mundial - algo viciante. Merchandisings explícitos, interferências financeiras dos produtores e manipulação da opinião pública são massacradas impiedosamente, sem que, no entanto, transmita uma imagem agressiva. De certa forma, tudo é tratado com carinho pelo autor e pelo diretor, que envolvem a plateia (do show e do filme) em uma trama tão absurda que chega a soar verdadeira. E para isso, é claro, contam com trabalhos acima da média de todos os envolvidos. Laura Linney quase rouba a cena como a esposa de Truman (em especial quando ele começa a ter a certeza absoluta de que sua paranoia não é assim tão paranoia...) Ed Harris concorreu ao Oscar de coadjuvante depois de ficar com o papel que era de Dennis Hopper (e era o favorito da noite até que James Coburn lhe roubasse a estatueta) por seu poderoso trabalho como o silencioso Christof. E Jim Carrey finalmente conquistou a crítica em um trabalho complicado que tirou de letra (não foi à toa que abocanhou um Golden Globe e desapontou os fãs sendo deixado de lado nas indicações da Academia).

"O show de Truman" é um filme com a cara de sua época, com preocupações éticas e estéticas absolutamente pertinentes. Somado a isso suas qualidades extraordinárias em termos de entretenimento (é divertido e emocionante), é uma obra obrigatória de um dos diretores mais íntegros da indústria de Hollywood.

terça-feira

TOOTSIE


TOOTSIE (Tootsie, 1982, Columbia Pictures, 116min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: Murray Schisgal, Larry Gelbart, história de Don McGuire e Larry Gelbart. Fotografia: Owen Roizman. Montagem: Fredrick Steinkamp, William Steinkamp. Música: Dave Grusin. Figurino: Ruth Morley. Direção de arte/cenários: Peter Larkin/Tom Tonery. Casting: Toni Howard, Lynn Stalmaster. Produção executiva: Charles Evans. Produção: Sydney Pollack, Dick Richards. Elenco: Dustin Hoffman, Jessica Lange, Dabney Coleman, Teri Garr, Charles Durning, Sydney Pollack, Bill Murray, Geena Davis. Estreia: 17/12/82

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Sydney Pollack), Ator (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Teri Garr, Jessica Lange), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Canção ("It might be you"), Som
Vencedor do Oscar de Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Comédia ou Musical, Ator/Comédia ou Musical (Dustin Hoffman), Atriz Coadjuvante (Jessica Lange)


De um lado, uma história sobre um tenista que desiste da operação de mudança de sexo, contentando-se em vestir-se de mulher. Do outro, a história de um ator desempregado que encontra trabalho como atriz em uma telenovela. No meio disso tudo, a ideia do ator Dustin Hoffman de interpretar ao mesmo tempo um homem e uma mulher, vinda da época em que filmava "Kramer X Kramer". Dessa mistura de ideias surgiu uma das comédias mais brilhantes da década de 80, que misturava humor de vaudeville, romance, sátira ao feminismo e uma feroz crítica à futilidade do mundo teatral: "Tootsie", dirigida por Sydney Pollack e que recebeu generosas 10 indicações ao Oscar em 1982.

Hoffman, em mais uma brilhante interpretação, vive Michael Dorsey, um ator tão talentoso quanto genioso que atravessa um difícil período de dois anos sem trabalho. Insatisfeito com o emprego de garçom, ele sonha em produzir uma peça escrita por seu colega de apartamento, Jeff Slater (Bill Murray), mas não encontra quem queira lhe oferecer uma chance nos palcos, nem mesmo com a ajuda de seu agente (o diretor Sydney Pollack, com um segundo contra-cheque como ator). Ao acompanhar a amiga Sandy (Teri Garr) a uma audição, que vai escolher a atriz para participar de uma telenovela vespertina, ele tem ideia de vestir-se de mulher e tentar o papel. Com o nome de Dorothy Michaels, ele não apenas é contratado como torna-se um ícone dos novos direitos femininos ao enfrentar o domínio masculino no programa. Seu sucesso começa a incomodá-lo quando ele passa a ser assediado por Lesley (Charles Durning), o pai de sua colega de elenco, Julie Nichols (Jessica Lange), por quem ele se apaixona.


O quiproquó criado pelo roteiro indicado ao Oscar é de uma delícia shakespereana. Assim como em "A comédia dos erros", Michael/Dorothy se vê enredado em uma confusão que se complica a cada cena. Ao tentar aproximar-se de Julie, ele se afasta de Sandy, que tem por ele intenções bem pouco profissionais, e encara a rejeição ao ser confundida com uma lésbica. Não consegue sair do elenco da novela graças a seu êxito impressionante e um contrato milionário. E não consegue desvencilhar-se de Lesley sem revelar a ele sua verdadeira identidade. Inteligente, sarcástico e de um bom-humor contagiante, o script se aproveita do verdadeiro show de Hoffman, que pinta e borda em um papel que lhe proporciona todas as chances de mostrar - mais uma vez - seu imenso talento.

O trabalho de composição de Hoffman, aliás, é digno de figurar em qualquer antologia de grandes atuações do cinema. Não apenas o genial figurino de Ruth Morley e a maquiagem sutil mas eficaz, mas todo o conjunto criado pelo ator é impressionante. O tom da voz de Dorothy Michaels (para a qual Hoffman contou com o auxílio de Meryl Streep), seu sotaque, seu modo de andar fazem parte de um contexto que empurra o espectador em direção ao universo quase surreal proposto por Pollack. E o ator - que perdeu o Oscar para Ben Kingsley em "Gandhi" - tem a sorte suprema de contar com um elenco coadjuvante igualmente de se tirar o chapéu.

Em cena em "Tootsie", Dustin Hoffman é cercado por atores em dias inspirados, que pontuam com precisão seu espetáculo particular. Bill Murray - que improvisou todas as suas falas -, Charles Durning e Sydney Pollack estão em alguns de seus melhores momentos e Teri Garr demonstra um timing cômico irrepreensível. Jessica Lange, na pele da doce Julie Nichols teve ainda mais sorte e levou o Oscar de atriz coadjuvante no mesmo ano em que concorria também na categoria principal pelo filme "Frances". Donos de uma química perfeita, eles formam uma equipe vitoriosa que transformam o delicioso texto em uma delirante comédia romântica.

Aliás, é preciso dar grande crédito ao roteiro de "Tootsie". O seu perfeito equilíbrio entre piadas relacionadas ao mundo artístico e seu tom delicado de contar uma história de amor cativa a audiência sem apelar para risadas fáceis e nem mesmo para o piegas. É bastante sintomático, inclusive, que não haja, durante suas quase duas horas de duração, nenhum beijo entre seus protagonistas, o que não impede de forma alguma a credibilidade de seus sentimentos.

No fim das contas "Tootsie" continua se mantendo como uma das mais admiráveis comédias realizadas em Hollywood, capaz de encantar o público de hoje com a mesma sutileza de quase trinta anos atrás.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...