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quinta-feira

HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN


HARRY POTTER E O PRISIONEIRO DE AZKABAN (Harry Potter and the prisoner of Azkaban, 2004, Warner Bros, 142min) Direção: Alfonso Cuarón. Roteiro: Steve Kloves, romance de J.K. Rowling. Fotografia: Michael Seresin. Montagem: Steven Weisberg. Música: John Williams. Figurino: Jany Temine. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Callum McDougall, Tanya Seghatchian. Produção: Chris Columbus, David Heyman, Mark Radcliffe. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Michael Gambon, Maggie Smith, Gary Oldman, Emma Thompson, Julie Walters, Alan Rickman, David Thewliss, Tom Felton, Richard Griffiths, Fiona Shaw, Julie Christie, Robbie Coltrane. Estreia: 23/5/2004

2 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Efeitos Visuais

Quando Chris Columbus voltou atrás em sua decisão de comandar todos os filmes da série "Harry Potter" - da qual ele já havia dirigido os dois primeiros - uma nova odisseia de bastidores começou. A Warner, afinal, tinha um investimento dos mais preciosos em mãos (os direitos de todos os sete livros da saga) para entregá-lo a qualquer um. Entre os candidatos a assumir as rédeas do terceiro capítulo da milionária obra da britânica J.K. Rowling, então, surgiram nomes tão díspares quanto M. Night Shyamalan e Marc Forster. O primeiro tinha no currículo o megasucesso "O sexto sentido" (1999), que havia lhe rendido indicações ao Oscar de filme, direção e roteiro; o outro havia sido responsável por "A última ceia" (2001), que deu à Hale Berry a estatueta de melhor atriz. A responsabilidade de estar à frente de um blockbuster dos mais esperados da temporada 2004, porém, não foi tão sedutora assim, e ambos declinaram do convite: Shyamalan para realizar "A vila" (2004), e Forster para assinar "Em busca da Terra do Nunca" (2004). Foi aí que entrou em cena o mexicano Guillermo Del Toro, cujo currículo até então (com filmes como "Mutação", de 1997, "A espinha do diabo", de 2001, e "Blade II: O caçador de vampiros", de 2002) pouco recomendava para uma produção cujo público-alvo era infanto-juvenil. Para surpresa de muitos, Del Toro recusou o convite para penetrar no mundo de Hogwarts, mas não sem antes recomendar um amigo: enquanto preferiu tocar adiante um projeto de estimação - a adaptação de "Hellboy", baseado nas HQs de Mike Mignola -, ele apontou para seu conterrâneo Alfonso Cuarón. Em um primeiro olhar, Cuarón não poderia estar mais distante de Harry Potter, com filmes como o sexy "E sua mãe também" - que havia lhe rendido uma indicação ao Oscar de roteiro original - no portfolio. No entanto, Cuarón também sabia ser sensível e apropriado aos espectadores juvenis, como mostrou em 1995, ao adaptar o clássico "A princesinha", de Frances Hodgson Burnett, com a dose certa de emoção e delicadeza.

Com Cuarón no comando - aprovado por Rowling, fã de seus trabalhos anteriores - e um orçamento de estimados 130 milhões de dólares, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" começava a dar os primeiros passos da série em direção à seriedade que os últimos capítulos apresentariam. Com um visual diferente dos dois primeiros filmes - cortesia da bela fotografia de Michael Seresin - e com sequências inteiras filmadas com câmeras em movimento, o terceiro filme da série apresenta também diferenças no figurino (especialmente os protagonistas) e um ritmo que equilibra cenas de ação, suspense e até comédia (como sempre acontece no começo do filme, Potter sofre nas mãos de seus tios e resolve a situação da melhor maneira que pode, com a ajuda de seus dons de bruxo, é claro). O roteiro, novamente adaptado por Steve Kloves, apresenta ao espectador novos elementos da saga, como o misterioso Sirius Black (interpretado com gosto por Gary Oldman), o padrinho do protagonista, que foge da prisão de Azkaban e, segundo a lenda, tem o objetivo de assassinar Harry, uma vez que é um dos mais fiéis seguidores do temido Voldemort (Ralph Fiennes). O que acontece, porém, é que Potter acaba descobrindo que o que sempre foi tido como verdade pode muito bem ser apenas parte dela. Com a ajuda de Hermione (Emma Watson) e Ron (Rupert Grint) - assim como também de alguns professores que conhecem a real história de Black -, o adolescente enfrenta o ano letivo mais perigoso de sua vida, visto até mesmo pelas previsões da professora Trelwaney (Emma Thompson, em papel pequeno que ela tira de letra).


Substituindo o falecido Richard Harris no crucial papel do professor Dumbledore, que foi oferecido também a Ian McKellen, Peter O'Toole e Christopher Lee, mantém em alto nível o elenco coadjuvante da série. Nomes como Maggie Smith, Alan Rickman, Fiona Shaw e Julie Walters continuam servindo de apoio a seus jovens colegas de cena, com generosidade ímpar. Conforme a trajetória de Harry Potter vai ficando cada vez menos infantil e se aproxima de momentos bastante tensos e violentos, a importância do corpo docente de Hogwarts se torna ainda mais importante e presente - e é admirável que a direção de Cuarón seja sensível ao ritmo da trama: o cineasta acelera quando precisa e mantém-se delicada ao examinar a relação de Potter com os personagens a seu lado. Daniel Radcliffe - assim como seus colegas mais próximos - mostra um amadurecimento tanto físico quanto artístico: não é um grande ator, mas é difícil imaginar outro intérprete para o jovem bruxo, um dos personagens mais populares da literatura e do cinema, um perfeito exemplo de entretenimento divertido e realizado com extremo cuidado e talento.

E "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" é justamente isso: entretenimento de primeira, capaz de agradar aos fãs dos livros e até mesmo àqueles que nunca abriram uma página sequer da saga de Rowling. Apesar de tratar - metaforicamente - com temas como depressão (representada pelos aterrorizantes dementadores), o filme de Cuarón se mantém no limite entre a fantasia e o terror, que ficaria a cada filme mais próximo dos protagonistas. Único filme da saga a não alcançar (por pouco) a marca de 800 milhões de dólares de bilheteria mundial, "Harry Potter e o prisioneiro de Azkaban" concorreu a dois Oscar (trilha sonora original e efeitos visuais) e provou que, a despeito das mudanças na cadeira de diretor, mantém uma coerência interna e uma qualidade à prova das grandes expectativas de seu público. Cuarón, que assumiu não ter lido nenhum dos livros quando convidado para comandar esse terceiro filme - e que levaria o Oscar de direção por "Gravidade" (2013) - mostrou-se uma escolha certeira, que manteve o alto nível da série e emprestou-lhe um prestígio que apenas colaborou para seu sucesso de crítica e público.

domingo

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA

HARRY POTTER E A CÂMARA SECRETA (Harry Potter and the chamber of secrets, 2002, Warner Bros, 161min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Peter Honess. Música: John Williams. Figurino: Lindy Hemming. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, David Barron, Chris Columbus, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Kenneth Branagh, Julie Walters, Alan Rickman, Robbie Coltrane, Jason Isaacs, Tom Felton. Estreia: 03/11/02

Quando "Harry Potter e a câmara secreta" estreou, no final de 2002, até mesmo o público que não acompanhava a saga do jovem bruxo em sua encarnação literária já conhecia seu universo mágico: graças à "Harry Potter e a pedra filosofal", o primeiro capítulo de uma coleção que prometia estender-se até um sétimo volume, o mundo inteiro estava tomado por uma febre que não atingia apenas seu público-alvo (o infantojuvenil), mas que havia se espalhado também entre aqueles adultos sem medo de entregar-se à fantasia. Com uma renda mundial de quase 980 milhões de dólares e elogiado pela maioria dos críticos, o filme de Chris Columbus - diretor também de "Esqueceram de mim" (1990) e "Uma babá quase perfeita" (1993) - estabeleceu as regras do jogo, apresentou seus personagens e confirmou o apelo comercial que há muito tempo as editoras já conheciam (e festejavam). Sem mexer em um time já ganhando, a Warner manteve a mesma equipe do primeiro filme para a realização do segundo e, para a surpresa de ninguém, voltou a cativar plateias ao redor do mundo - e mais uma vez chegou perto de um sucesso quase bilionário, com uma bilheteria de 88 milhões de dólares em seu fim-de-semana de estreia. 

Mais sombrio do que o primeiro filme - em uma transformação gradual da série, que vai ficando menos ingênua conforme a trama vai caminhando e os protagonistas vão de crianças a adolescentes, "Harry Potter e a câmara secreta" é o filme mais longo da série, a despeito do fato de o livro no qual ele é baseado é o segundo mais curto da saga, e começou a ser filmado apenas três dias após a estreia de "Harry Potter e a pedra filosofal". Tal pressa tinha motivo: não apenas o elenco infantil logo começaria a passar pela puberdade (a tragédia de qualquer produtor) como o ator Richard Harris, que vivia um personagem crucial nos filmes, Alvo Dumbledore - um dos professores mais importantes de Hogwarts e peça fundamental na trajetória do protagonista - estava com a saúde debilitada a ponto de ser quase afastado das filmagens; Harris morreu poucas semanas antes do lançamento do filme, e foi substituído, nas produções seguintes, por Michael Gambon. Com o elenco reforçado pela presença de Jason Isaacs e Kenneth Branagh, "Harry Potter e a câmara secreta" consegue uma façanha e tanto: mantém o alto nível de entretenimento do primeiro filme (se é que não o eleva) e agrada em cheio aos fãs dos livros.


"Harry Potter e a câmara secreta" começa com um tom leve, mas não demora a mergulhar aos poucos em uma tensa jornada: ainda na casa de seus tios, Potter é visitado por um atrapalhado elfo doméstico, Dobby (voz de Tony Jones), que não apenas coloca o bruxinho em péssimos lençóis, graças a suas interferências em outros membros da família. Sua aparição, no entanto, tem motivos bastante sinistros: segundo ele, coisas horríveis estão para acontecer em Hogwarts, e Potter deve evitar voltar à escola. É claro que seus avisos de nada adiantam: Potter retorna para mais um ano letivo, assim como seus melhores amigos, Ron e Hermione, e logo de cara percebe que os conselhos que não seguiu estavam mais do que certos. Vozes vindas das paredes, escritos de sangue com mensagens enigmáticas e alunos sendo petrificados sem motivo aparente levam Harry a uma investigação que revela muito mais do que ele esperava e remete à uma misteriosa câmara secreta, cujo histórico é ligado à presença malévola de Voldemort, que controla (não se sabe como) o lendário quarto da escola.

Assim como em "Harry Potter e a pedra filosofal", o segundo filme dirigido por Columbus ainda mostra seus protagonistas aprendendo a lidar com seus novos dons e lutando contra o mal, seja ele na forma de um apavorante guardião da câmara secreta, na pele do maquiavélico Draco Malfoy (Tom Felton) ou na figura pouco amistosa de Voldemort - além das dúbias ações do professor Severo Snape (Alan Rickman). A primeira metade do filme é dedicada a ilustrar os acontecimentos funestos que ameaçam fechar a escola, e sua segunda parte hipnotiza o espectador com revelações surpreendentes e constrói um clímax dos mais interessantes. Kenneth Branagh - substituindo Hugh Grant, que não pode participar do filme por problemas de agenda - é a melhor e mais acertada aquisição neste segundo capítulo, interpretando um falastrão e vaidoso Gilderoy Lockhart, professor que mostra sua real personalidade quando é chamado a desafiar o mal vindo do tétrico cômodo. É ele quem equilibra o tom entre a comédia (especialidade de Ron) e a tragédia (cortesia de Voldemort em si). O elenco juvenil se mostra mais à vontade nas peles dos protagonistas, e os veteranos do grupo (Harris, Maggie Smith, Julie Walters, Alan Rickman) aproveitam cada minuto em cena para provar que, mesmo em um filme direcionado a uma plateia menos madura, são capazes de roubar a cena - coisa que os efeitos visuais, discretos mas eficientíssimos, ajuda a ressaltar. Tão bom quanto o primeiro capítulo da saga, "Harry Potter e a câmara secreta" é, também, o último da série dirigido por Chris Columbus - um cineasta acostumado com o sucesso e com o diálogo com a audiência mais jovem. Columbus deu o pontapé inicial a um universo que se tornaria, a cada filme, mais e mais escuro e surpreendente.

quarta-feira

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL

HARRY POTTER E A PEDRA FILOSOFAL (Harry Potter and the sorcere's stone, 2001, Warner Bros, 152min) Direção: Chris Columbus. Roteiro: Steve Kloves, romance de J. K. Rowling. Fotografia: John Seale. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: John Williams. Figurino: Juddiana Makovsky. Direção de arte/cenários: Stuart Craig/Stephenie McMillan. Produção executiva: Michael Barnathan, Chris Columbus, Duncan Henderson, Mark Radcliffe. Produção: David Heyman. Elenco: Daniel Radcliffe, Emma Watson, Rupert Grint, Richard Harris, Maggie Smith, Alan Rickman, Ian Hart, Julie Walters, John Hurt, Robbie Coltrane, Fiona Shaw, Richard Griffiths, Harry Melling. Estreia: 04/11/2001

3 indicações ao Oscar: Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários

Não tinha como dar errado: o primeiro volume de um fenômeno editorial que só crescia a cada livro lançado, um cineasta acostumado a lidar com potenciais blockbusters e todo o capricho que um generoso orçamento de cerca de 125 milhões de dólares pode comprar. Além disso, um marketing poderoso, uma pré-produção que enchia de expectativas os fãs mais ardorosos, e um elenco que reunia jovens iniciantes com veteranos acima de qualquer suspeita. "Harry Potter e a pedra filosofal" não era apenas mais um filme, era um evento de enormes proporções e uma aposta certeira da Warner para bater de frente com outro fenômeno literário que também chegava às telas de cinema: o ambicioso "O Senhor dos Anéis". Mesmo com um público-alvo mais jovem do que aquele dos filmes de Peter Jackson que começavam sua trajetória nas salas de exibição, a comparação entre as duas produções não era completamente equivocada: ambos os filmes davam o pontapé inicial em séries que tanto poderiam passar à história como imensos sucessos ou avassaladores fracassos. Para o bem de todos e felicidade geral dos estúdios, porém, os leitores fiéis - e os neófitos curiosos - correram para os cinemas, e os críticos, normalmente bem avessos à superproduções, aplaudiram de pé e ficaram ansiosos pelo próximo capítulo.

A trajetória de "Harry Potter e a pedra filosofal" para passar das páginas escritas pela britânica J. K. Rowling para os cinemas do mundo inteiro já começou com uma batalha campal para que o estúdio chegasse ao nome mais apropriado para sentar na cadeira de diretor. Rowling sugeriu o nome do excêntrico Terry Gilliam - e provavelmente por seu histórico irregular o cineasta foi dispensado pela Warner. A princípio, o estúdio pensava em transformar os livros em um filme de animação - uma providência que evitaria os problemas que poderiam ter com o elenco infantil, que fatalmente cresceriam durante a produção dos (então) sete livros. Steven Spielberg até demonstrou interesse na primeira fase de negociações, mas acabou recusando o trabalho por, segundo boatos de bastidores, considerá-lo "fácil demais" - o que não deixa de ser verdade, haja visto seu vasto currículo de filmes-evento. A saída de Spielberg do projeto o levou novamente à estaca zero, e sua sugestão para a empreitada, M. Night Shyamalan, tampouco teve sucesso nas negociações. Nomes de vários estilos começaram a pipocar na imprensa especializada como sendo de prováveis diretores do primeiro filme - dos mais sérios (Jonathan Demme, Alan Parker, Peter Weir) aos mais apropriados para desenvolver um universo mais divertido e mais próximo à obra literária (Ivan Reitman, Rob Reiner, Brad Silberling). Quem acabou levando a melhor, no entanto, foi um diretor já acostumado com sucessos de bilheteria infantojuvenis: Chris Columbus, o homem por trás de "Esqueceram de mim" (90) e "Uma babá quase perfeita" (92) se apaixonou pelos livros de Rowling através de sua filha, e insistiu tanto com os executivos da Warner que acabou ganhando o trabalho - não apenas para o primeiro filme, mas também para o segundo.


Mas se encontrar um diretor que agradasse à escritora e respeitasse o desejo do estúdio de uma produção comercialmente viável foi difícil, o pior ainda estava por vir: o elenco. Rowling exigia que os atores escolhidos para o filme fossem britânicos, o que logo de cara excluía alguns fãs do livro que sonhavam em fazer parte do espetáculo, como Robin Williams, Rosie O'Donnell. Rowling em pessoa escolheu Alan Rickman (Severo Snape), Maggie Smith (McGonnagal) e Robbie Coltrane (Hagrid) para papéis fundamentais na trama, e o irlandês Richard Harris (única exceção permitida pela escritora) para viver o sábio Albus Dombledore, mas a grande questão no momento era uma só: quem irá interpretar os fiéis amigos do protagonista e, principalmente, quem emprestaria seu rosto a Harry Potter pela próxima década? Chris Columbus tinha uma ideia bastante clara a esse respeito, e sempre que perguntado sobre o assunto pelos executivos da Warner, mostrava cenas de uma adaptação televisiva de Charles Dickens, "David Copperfield" (1999) e apontava para o jovem Daniel Radcliffe como o intérprete ideal. Foram mais de 5000 testes até que finalmente a diretora de elenco do filme conseguiu o que o diretor mais desejava: convencer os pais do rapaz para que aprovassem sua participação no projeto. Para interpretar seus dois leais companheiros foram escolhidos Rupert Grint (Ronnie Weasley) e Emma Watson (Hermione Granger). No papel do rival de Potter na escola Howgrats de bruxaria, o escolhido foi Tom Felton, que havia feito o teste para viver Harry. E o resto é de conhecimento internacional.

Filmado na Inglaterra e na Escócia entre setembro de 2000 e março de 2001, "Harry Potter e a pedra filosofal" acabou se tornando um capítulo de estreia dos mais empolgantes. Somado ao senso de ritmo e humor de Columbus, o roteiro de Steve Kloves acertou em cheio ao introduzir sua trama e seus personagens de maneira fluida e sem pressa: com 152 minutos de duração, o filme mantém o espectador atento dos primeiros (e cômicos) momentos até seu clímax - um jogo de xadrez sinistro onde o mal começa a mostrar a que veio, fato que irá se aprofundar nos demais filmes (e livros), que vão se tornando gradualmente sombrios. A química entre o elenco de novatos e veteranos é impecável e o visual foi lembrado pela Academia com uma indicação aos Oscar de direção de arte e figurino - a trilha sonora, do onipresente John Williams também foi indicada. Aplaudido pela crítica e pelos fãs mais exigentes, "Harry Potter e a pedra filosofal" arrecadou quase 1 bilhão de dólares pelo mundo - foi a maior bilheteria do ano - e abriu as portas para os demais filmes da série, cada vez menos infantil e mais empolgante. Uma produção infanto-juvenil que ultrapassa sua definição mais óbvia e conquista também a plateia mais velha, o filme de  Chris Columbus é um entretenimento dos mais bem-sucedidos, e se não foi levado tão a sério quanto seu rival direto - "O Senhor dos Anéis: A Sociedade do Anel" - ao menos se mantém fresco e agradável mesmo depois de quase vinte anos. Um clássico instantâneo!

domingo

A MULHER DE PRETO

A MULHER DE PRETO (The woman in black, 2012, Hammer Films/Cross Creek Pictures, 95min) Direção: James Watkins. Roteiro: Jane Goldman, romance de Susan Hill. Fotografia: Tim Maurice-Jones. Montagem: Jon Harris. Música: Marco Beltrami. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Niamh Coulter. Produção executiva: Tobin Armbrust, Neil Dunn, Guy East, Roy Lee, Xavier Marchand, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Richard Jackson, Simon Oakes, Brian Oliver. Elenco: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Shaun Dooley, Mary Stockley. Estreia: 03/02/12

Vultos assustadores. Ruídos inesperados. Mansões abandonadas. Brinquedos que funcionam sozinhos. Trágicas e inexplicáveis mortes de crianças. E uma atmosfera arrepiante. Com esses elementos tão caros aos clássicos filmes de terror, "A mulher de preto" chegou aos cinemas como uma bela homenagem às antigas produções inglesas da produtora Hammer (não por acaso uma das responsáveis por seu lançamento). Primeiro filme do ator Daniel Radcliffe depois do fim de seu compromisso com a série "Harry Potter", a adaptação do romance de Susan Hill - que já havia dado origem a um telefilme de 1989 - tem todos os ingredientes necessários para uma experiência inesquecível, mas acaba esbarrando justamente na sua falta de ousadia em fugir do óbvio e dos clichês. É uma produção que segue à risca todas as regras há muito estabelecidas - e consagradas junto aos fãs do gênero -, mas que carece de um sabor a mais, que o faça ultrapassar a média. Mesmo assim, não deixa de ser um entretenimento de extrema qualidade técnica e, o que é mais importante, que se leva a sério.

Nadando contra a corrente do cinema de terror contemporâneo, que não resiste a apelar para a autoironia ou a piadas sem graça, "A mulher de preto" convida a plateia em visitar um universo que fez a glória de estúdios como a própria Hammer e a Universal. Com um cuidadoso trabalho de reconstituição de época e ambientação - para o que colaboram muito a fotografia acinzentada de Tim Maurice-Jones e a trilha sonora caprichada de Marco Beltrami -, o segundo longa do diretor James Watkins tem a elegância de um horror vitoriano somado com a sofisticação de um orçamento relativamente generoso de 17 milhões de dólares (muito bem recompensado com uma renda mundial de mais de 125 milhões, em grande parte graças à presença de Radcliffe no elenco). Milimetricamente calculado para impressionar o espectador com seu visual e fisgá-lo com sustos nas horas certas - além de jamais descuidar da trama e mantê-la coerente dentro de seu contexto - o filme dificilmente irá decepcionar aos admiradores de histórias de fantasmas, por respeitar suas regras e tratá-las com inteligência e sobriedade.


Um talvez jovem demais Daniel Radcliffe vive o personagem principal, o advogado Arthur Kipps, traumatizado pela morte precoce da esposa no parto de seu único filho. Escalado por seu patrão para realizar um trabalho fora de Londres, ele vai, a contragosto, até o pequeno vilarejo de Cryphon Grifford para cuidar da papelada referente ao inventário de uma cliente recém falecida. Logo que chega no lugar, o rapaz percebe que há algo de estranho, uma vez que todos os moradores parecem desgostar profundamente da mansão da morta, chamada Eel Marsh. Nem mesmo os receptivos anfitriões de Arthur, Sam e Elizabeth Daily (Ciarán Hinds e Janet McTeer), demonstram entusiasmo por sua visita - perturbados pela morte trágica do único filho, ainda criança, eles sabem mais do que aparentam a respeito de perturbadoras visões que o advogado passa a ter dentro da vasta e escura propriedade onde começa a trabalhar. Quebrando com frequência o silêncio e a aparente calma do local, uma mulher de preto misteriosa e fantasmagórica leva Kipps a investigar mais a fundo a história da cidade, o que o leva a descobrir uma lenda aterrorizante que envolve a morte de uma série de crianças - que não parece dar sinal de querer parar.

 Tentando deixar para trás a imagem do doce bruxinho Harry Potter, que tanto foi uma bênção quanto um problema para sua carreira, tamanho o impacto nela, Daniel Radcliffe mostra-se um ator esforçado, mesmo que seu personagem talvez exigisse alguém com mais idade e mais peso dramático. Para sua sorte, ele é amparado pelos trabalhos delicados dos veteranos Ciarán Hinds e Janet McTeer - ela, em especial, apesar de poucas cenas, dá um show a cada aparição, na pele de uma mulher traumatizada pela perda trágica do filho. O clímax do filme - em que Kipps tenta resolver de vez a questão da personagem-título - carece de um pouco de força, mas o desfecho da trama (que deve contrariar alguns espectadores e empolgar outros) não deixa de ser corajoso, ainda que deixe aberta uma porta para a desnecessária continuação, lançada em 2014 sem seu astro principal como chamariz de bilheteria. No fim das contas, "A mulher de preto" é um filme de terror à moda antiga, bem realizado, honesto e elegante - mas que não se torna inesquecível exatamente por não buscar novidades dentro de um gênero já há muito necessitado de sangue novo. Um bom passatempo e a prova de que Daniel Radcliffe ainda pode oferecer muito.

terça-feira

DESCOMPENSADA

DESCOMPENSADA (Trainwreck, 2015, Apatow Productions, 125min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Amy Schumer. Fotografia: Jody Lee Lipes. Montagem: William Kerr, Paul Zucker. Música: Jon Brion. Figurino: Jessica Albertson, Leesa Evans. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Debra Schutt. Produção executiva: David Householter. Produção: Judd Apatow, Barry Mendel. Elenco: Amy Schumer, Bill Hader, Tilda Swinton, Ezra Miller, Brie Larson, Lebron James, Marisa Tomei, Daniel Radcliffe. Estreia: 17/7/15

Os fãs de comédias românticas conhecem exatamente as engrenagens que as movem, e a julgar pela longevidade do gênero - um dos mais populares do cinema - não se importam muito com os clichês que as cercam. Por isso não deixa de ser saudável que um filme como "Descompensada" tenha feito tanto sucesso de bilheteria, alcançando uma marca superior a 100 milhões de dólares somente no mercado doméstico: mesmo subvertendo muitas das regras básicas ditadas pela indústria quando se trata de histórias de amor tradicionais, o filme escrito e estrelado por Amy Schumer é, no fundo, mais um exemplar do estilo, mas distorce seus elementos de forma tão debochada e contemporânea que soa como uma lufada de ar fresco em um universo bastante engessado. A começar pela presença de Schumer, cujo visual "gente como a gente" já a distancia das princesas bem vestidas e de corpo escultural que protagonizam tais histórias, o divertido filme dirigido por Judd Apatow - considerado o mestre das comédias adultas realizadas em Hollywood desde o sucesso de "O virgem de 40 anos", lançado em 2005 - foge dos estereótipos e aposta na reversão de papéis para conquistar o público. O resultado? Até mesmo a plateia masculina, normalmente avessa a comédias românticas, acaba se deixando seduzir pelo humor cáustico e no limite do chulo oferecido pelo roteiro.

Longe de ser a donzela desprotegida, frágil e romântica que se poderia esperar, a protagonista de "Descompensada" - sintomaticamente batizada de Amy, como a roteirista e atriz principal - é uma jornalista adepta de baladas, bebedeiras e sexo casual que não passa os dias esperando o príncipe encantado e nem acredita muito nessa história toda de "e foram felizes para sempre". Ao contrário da irmã caçula, Kim (Brie Larson, Oscar de melhor atriz por "O quarto de Jack"), Amy levou muito a sério o discurso de seu pai para justificar as traições à sua mãe e não vê muitas vantagens na monogamia e na fidelidade. Tudo começa a mudar quando ela é escalada por sua arrogante chefe, Dianna (Tilda Swinton, surpreendente), para uma série de entrevistas com um jovem médico chamado Aaron Conners (Bill Hader), conhecido como cirurgião de celebridades esportivas. Logo de cara Amy vai pra cama com o entrevistado, mas, ao contrário do que poderia esperar, a relação aos poucos vai se tornando mais séria, para seu desespero e surpresa. O problema é que Amy não sabe comportar-se em uma relação duradoura, e quando Aaron assume estar apaixonado tudo que ela consegue fazer é trocar os pés pelas mãos.


Fazendo piada a respeito de qualquer assunto sem medo de soar politicamente incorreto, o roteiro de "Descompensada" é uma sucessão de bobagens extremamente divertidas, que mesclam o típico humor "vergonha alheia" com momentos bastante inteligentes, com diálogos repletos de referências culturais, com direito até a participações especiais de Daniel Radcliffe e Marisa Tomei - em um filme dentro do filme - e Matthew Broderick e Martin Short como eles mesmos (uma prova do poder de fogo de Appatow em Hollywood). O que mais chama a atenção no filme, no entanto, é sua coragem em ter uma protagonista tão fora dos padrões de beleza e comportamento ditados por Hollywood através dos anos. Com um linguajar de corar cantores de funk e atitudes de fazer muitas moderninhas de plantão se roer de inveja, Amy dificilmente pode ser considerada uma heroína convencional, mas o carisma de Schumer (em um papel que é a sua cara) é o bastante para que a plateia fique do seu lado mesmo quando ela comete uma série de erros que podem comprometer sua felicidade. Suas cenas com a irmã e o enteado dela (um moleque nerd que mais a apavora do que qualquer outra coisa) são hilariantes, e sua química com Bill Hader é inegavelmente perfeita. Hader - que já havia demonstrado ser um ótimo parceiro de cena quando interpretou o irmão gay de Kristen Wiig em "Irmãos Desastre" (2014) - se confirma como um ator versátil e dono de uma simpatia contagiante, a perfeita definição de cara normal, com quem o espectador pode facilmente se conectar. Juntos, eles formam o mais improvável dos casais - e por isso mesmo parecem tão reais.

As fãs de histórias de amor mais convencionais talvez se incomodem com o tanto de subversão de "Descompensada", que não hesita em quebrar todos os paradigmas da comédia romântica. Porém, aquelas que se despirem de preconceitos e estiverem dispostas a rir de si mesmas podem ter uma bela surpresa: poucas vezes um filme do gênero conseguiu ser tão abusado, ousado e sem papas na língua. Amy Schumer não tem medo de servir de material para suas próprias piadas e, ao contrário do que normalmente acontece, os coadjuvantes são tratados com inteligência e sensibilidade - desde o pai irascível da protagonista até seus colegas de trabalho (em especial a chefe vivida por Tilda Swinton e o estagiário interpretado por Ezra Miller, seu filho no drama "Precisamos falar sobre o Kevin", de 2011): são personagens secundários, sim, mas com importância o bastante para determinar alguns rumos da narrativa e fazer rir ao mesmo tempo - a cena em que Amy vai pra casa do colega adolescente e descobre que ele tem preferências sexuais um tanto exóticas é, sem dúvida, candidata à antológica.

Ainda é cedo para dizer se Amy Schumer - atriz com a mesma verme cômica de Tina Fey, Amy Pohler e Kristen Wiig - irá firmar-se no universo do humor hollywoodiano ou se é apenas fogo de palha. Indicada ao Golden Globe ela já foi - assim como seu filme. Aprovada pelo público idem. Resta ficar de olho e descobrir se fará as escolhas certas para manter-se no jogo ou se irá ser relegada a um injusto esquecimento. Até lá, é deliciar-se com as desventuras amorosas e sexuais de seu encantador alter-ego.

sexta-feira

VERSOS DE UM CRIME

VERSOS DE UM CRIME (Kill your darlings, 2013, Killer Films/Benaroya Pictures, 104min) Direção: John Krokidas. Roteiro: John Krokidas, Austin Bunn, estória de Austin Bunn. Fotografia: Reed Morano. Montagem: Brian A. Kates. Música: Nico Muhly. Figurino: Christopher Peterson. Direção de arte/cenários: Stephen Carter/Sarah E. McMillan. Produção executiva: Jared Ian Goldman, Joe Jenckes, Pamela Koffler, Randy Manis, Stefan Sonnenfeld. Produção: Michael Benaroya, Rose Ganguzza, John Krokidas, Christine Vachon. Elenco: Daniel Radcliffe, Dane DeHaan, Michael C. Hall, Ben Foster, Jack Huston, Jennifer Jason Leigh, Elizabeth Olsen, John Cullum, David Cross. Estreia: 18/01/13 (Festival de Sundance)

Com todo o respeito que se pode ter com a obra de autores como Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William Burroughs, o filme de John Krokidas que conta um período crucial na sua formação vai acabar entrando para a história como "o filme em que Harry Potter fez cenas de sexo gay". Realmente, Daniel Radcliffe deixou para trás o estigma de ator de um personagem só - e um personagem extremamente marcante para toda uma geração - para mergulhar sem medo em um papel difícil e ousado (além da tal cena com outro homem, ele passa o filme todo fumando compulsivamente e usando drogas), mas "Versos de um crime" é bem mais do que apenas o veículo para a maturidade profissional de um jovem ator. Baseado em uma trágica história real acontecida nas raízes do movimento beat - de onde saíram os nomes seminais de Ginsberg, Burroughs e Kerouac - o filme de Krokidas é um bom retrato de um momento único na literatura americana moderna, e o respeito que tem pela trama e por seus personagens pode ser refletido em sua pífia bilheteria: mesmo com o chamariz do nome de Radcliffe nos créditos, a obra mal passou de um milhão de dólares de arrecadação no mercado doméstico. Sinal de que, mais do que simplesmente capitalizar em cima do nome do ator, Krokidas preferiu a integridade do seu trabalho. Só por isso já merece uma espiada.

A trama começa em 1944, quando o jovem Allen Ginsberg (Daniel Radcliffe, muito bem no papel) é aceito na Universidade de Columbia, para desespero de sua mãe bipolar (Jennifer Jason Leigh) e orgulho de seu pai, o poeta Louis Ginsberg (David Cross). Assim que chega a seu novo universo, o tímido e desajeitado aspirante a escritor entra em rota de colisão com a ortodoxia do ensino e encontra no rebelde Lucien Carr (Dane DeHaan) o companheiro ideal para um novo tipo de vida social, regada a drogas, bebida e boemia. Nesse ambiente, ele conhece também o estranho William Burroughs (Ben Foster, sempre ótimo), de família nobre e ideais estéticos revolucionários e o entusiasmado Jack Kerouac (Jack Huston), que mesmo casado, frequenta o mesmo circuito dos estudantes. Para seu desgosto, porém, ele também fica conhecendo o misterioso David Kammerer (Michael C. Hall), que mantém uma relação dúbia com Carr há alguns anos. Fascinado pelo colega, Ginsberg aos poucos se envolvendo cada vez mais em suas ideais de por em prática uma nova escola literária, até que seus sentimentos começam a atrapalhar os planos - e Kammerer passa a se tornar uma ameaça ao grupo.


Passado no período anterior à publicação das obras mais famosas do grupo de protagonistas, "Versos de um crime" é mais feliz no retrato da geração beatnik do que o esperado "On the road", que Walter Salles lançou em 2012 e foi praticamente ignorado por crítica e público. Ao contrário da produção de Salles, o filme de John Krokidas vai mais fundo em todos os aspectos particulares do universo dos escritores/personagens, desde o consumo de drogas até a sexualidade dúbia que envolve Ginsberg, Carr e Kammerer (mostrado no filme sob uma luz complexa que dá oportunidade a Michael C. Hall de criar um personagem fascinante e monstruoso ao mesmo tempo). Sem medo de enfrentar temas espinhosos, o roteiro passeia sem julgamentos morais por mesas do Harlem, festas particulares regadas a excessos de todo tipo, desafios constantes à seriedade do academicismo da universidade e até pelos polêmicos métodos de inspiração dos autores. Sem deixar-se encantar em exagero por seus personagens, Krokidas (em seu primeiro longa-metragem) os trata com respeito, mas nunca com reverência em demasia, revelando seus defeitos da mesma forma com que mostra seus inúmeros defeitos. O roteiro pode até demorar a chegar onde realmente quer - o crime de que fala o título nacional só acontece mesmo no terço final da narrativa - mas até lá ele permite ao espectador algo raro no cinema contemporâneo: conhecer o que se passa dentro de cada um dos protagonistas.

Mesmo que não aproveite o bastante o talento enorme de Ben Foster como William Burroughs e o trate como coadjuvante de luxo, "Versos de um crime" também tem a seu favor a escalação corajosa de elenco. Daniel Radcliffe sai-se muito bem no papel central, mostrando que existe vida pós-Harry Potter, e seu parceiro de cena, Dane DeHaan, é perfeito para o tipo de personagens torturados. A química entre os dois é perfeita e sempre que estão juntos o filme cresce exponencialmente - coisa que não acontece quando o foco da narrativa cai na amizade entre Carr e Jack Kerouac, um desvio de atenção que quase prejudica o filme justamente quando ele está se encaminhando para seu trágico desenlace. Nem mesmo a doce presença de Elizabeth Olsen como a esposa de Kerouac ameniza a sensação de um precioso tempo desperdiçado quando se tem uma história mais importante a ser contada. Tal pecado, porém, não consegue estragar uma das estreias mais interessantes dos últimos anos na cadeira de direção. Com ou sem Harry Potter, "Versos de um crime" tem mais qualidades que defeitos e merece uma segunda chance junto a seu público-alvo.

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