Mostrando postagens com marcador JULIA ROBERTS. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador JULIA ROBERTS. Mostrar todas as postagens

terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

segunda-feira

O PODER DO AMOR

 


O PODER DO AMOR (Something to talk about, 1995, Warner Bros, 106min) Direção: Lasse Hallstrom. Roteiro: Callie Khouri. Fotografia: Sven Kykvist. Montagem: Mia Goldman. Música: Graham Preskett, Hans Zimmer. Figurino: Aggie Guerard Rodgers. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Roberta J. Holinko. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Anthea Sylbert, Paula Weinstein. Elenco: Julia Roberts, Dennis Quaid, Robert Duvall, Kyra Sedgwick, Gena Rowlands, Brett Cullen. Estreia: 20/7/95

Nem sempre o encontro de talento, prestígio e popularidade resulta em um grande sucesso. "O poder do amor" é um exemplo claro dessa afirmação: mesmo com a união do celebrado diretor Lasse Hallstrom (então já indicado ao Oscar por "Minha vida de cachorro", de 1987), da roteirista Callie Khouri (oscarizada por "Thelma & Louise", de 1991) e da atriz Julia Roberts, o filme ficou muito aquém do esperado nas bilheterias e tampouco entusiasmou a crítica. Vendida como uma comédia romântica quando na verdade é um drama familiar quase sonolento, e lançado em um período de crise na carreira de Roberts - que vinha acumulando fracassos comerciais que ameaçavam seu status de grande estrela - a produção da Warner decepcionou tanto o estúdio (que esperava um estouro financeiro) quanto seus fãs, ansiosos por rever seu belo sorriso e seu carisma milionário, o que só voltaria a acontecer com "O casamento do meu melhor amigo", lançado dois anos mais tarde.

Além da direção burocrática de Hallstrom, "O poder do amor" sofre, basicamente, pela absoluta falta de humor de seu roteiro - uma surpresa quando se trata de Khouri - e por personagens que falham em despertar a simpatia do espectador. Até mesmo a protagonista, uma mulher traída e tentando refazer a vida, sofre com um desenvolvimento pouco interessante. Grace Bichon (interpretada no piloto automático por Julia Roberts) administra o haras de seu pai, Wyly King (Robert Duvall), e vive um casamento aparentemente perfeito com o sedutor Eddie (Dennis Quaid). Sua frágil felicidade sofre um baque, no entanto, quando ela descobre que seu marido tem um romance com uma colega de trabalho. Humilhada e ressentida, Grace vai morar com a irmã caçula, Emma Rae (Kyra Sedgwick) e, se recusando a qualquer contato com o ex-marido, passa a questionar o sistema de quase submissão a que as mulheres de sua família se sujeitam em relação aos homens que a cercam. Tal comportamento chega até sua mãe, Georgia (Gena Rowlands), que até então jamais havia percebido tal situação em seu relacionamento.

 

O roteiro de Callie Khouri, como não poderia ser diferente, oferece às personagens femininas um destaque maior do que aos homens da história. Isso não significa, no entanto, que elas sejam capazes de conquistar a plateia. Com diálogos frequentemente enfadonhos e que soam artificiais até mesmo recitados por atrizes do porte de Roberts, Rowlands e Sedgwick, a trama anda em círculos, dá espaço para histórias paralelas pouco atraentes - que envolvem o haras da família e um novo relacionamento pouco crível à protagonista - e sofre com uma indesculpável falta de charme. Nem mesmo os belos cenários, os imponentes cavalos e o elenco carismático são suficientes para disfarçar o ritmo claudicante imposto pela direção - uma surpresa, uma vez que o sueco Hallstrom tem enorme talento para sublinhar as características mais emocionais de seus filmes, como mostrou em "Regras da vida" (1999), que lhe rendeu uma segunda indicação ao Oscar. E se não bastasse o fato do desperdício de suas atrizes, o filme oferece oportunidades ainda menores a seus atores, relegados a segundo plano e com personagens quase patéticos - se tal opção é proposital para enfatizar a força das mulheres há formas menos simplórias de atingir seu objetivo do que fazer dos maridos da família King/Bichon dois babacas machistas e unidimensionais.

É uma pena que "O poder do amor" fique tão aquém das possibilidades de sua equipe de talentos. Seu marketing desastroso - certamente o público esperava uma comédia romântica leve e agradável e encontrou um pretensioso drama com ambições de emular o cinema europeu - foi apenas um dos culpados por fazer dele um dos trabalhos menos marcantes de Julia Roberts. Sem nenhuma cena marcante, uma trama pouco inventiva e uma narrativa cujo ritmo jamais permite o envolvimento do espectador, o filme só não é um desastre completo porque, apesar de tudo, seu elenco esforçado faz valer seus longos 106 minutos de duração - mesmo que a história seja esquecida pouco tempo depois do final da sessão.

sexta-feira

INGRESSO PARA O PARAÍSO

 


INGRESSO PARA O PARAÍSO (Ticket to paradise, 2022, Universal Pictures/Working Title Films, 104min) Direção: Ol Parker. Roteiro: Ol Parker, Daniel Pipski. Fotografia: Ole Bratt Birkeland. Montagem: Peter Lambert. Música: Lorne Balfe. Figurino: Lizzy Gardiner. Direção de arte/cenários: Owen Patterson/Nikki Barrett. Produção executiva: George Clooney, Jennifer Cornwell, Marisa Yeres Gill, Lisa Gillan, Amelia Granger, Grant Heslov, Rebecca Miller, Julia Roberts, Sarah-Jane Robinson, Nicholas Simpson, Sam Thompson. Produção: Deborah Balderstone, Tim Bevan, Eric Fellner, Sarah Harvey. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Kaitlyn Dever, Billie Lourd, Maxime Bouttier. Estreia: 08/9/2022

Poucas pessoas no mundo perderiam a chance de viajar a uma praia paradisíaca em companhia de um dos melhores amigos e ainda ganhar uma fortuna para isso. E dentre essas pessoas não se incluem Julia Roberts e George Clooney: dois dos maiores astros de Hollywood, ricos, bonitos, famosos e bem-sucedidos (além de amigos e parceiros profissionais), eles voltam a se encontrar na frente das câmeras (e atrás também, já que assinam como produtores executivos) na comédia romântica "Ingresso para o paraíso" uma bobagem simpática e fotogênica que pouco faz por suas carreiras. Longe de ser um desastre completo mas tampouco memorável, o filme de Ol Parker - cujo currículo ainda pequeno inclui "Mamma Mia! Lá vamos nós de novo" (2018) e outras produções menores - usa e abusa do carisma de seus protagonistas e das belas paisagens naturais da Austrália (posando de Bali) para contar uma história sem maiores novidades, mas que pode agradar aos menos exigentes e os cinéfilos que nao vivem sem um romance  fictício.

Previsível sucesso de bilheteria - mais de 160 milhões de dólares arrecadados no mercado internacional -, "Ingresso para o paraíso" foi disputado por várias plataformas de streaming ainda em sua fase de pré-produção: entusiasmadas com a reunião de Roberts e Clooney, todas elas desejavam a chance de adicionar mais um êxito em seu catálogo, mas, acertadamente, a Working Title Films preferiu um lançamento em salas de exibição, tentando uma retomada pós-Covid-19, e a distribuição nos cinemas ficou a cargo da Universal Pictures. Deu certo: atingindo em cheio seu público-alvo, o filme não decepcionou em termos comerciais, ainda que não tenha feito o barulho esperado junto às demais plateias. Justificável. Apesar de seus protagonistas exalarem o charme que lhes é característico e de uma ou outra boa piada, o trabalho de Parker soa como mais do mesmo - mas, no final das contas, isso não chega a ser novidade quando se trata de comédias românticas, que parece ter, entre suas regras de ouro, nunca mexer em time que está ganhando. Em outras palavras, "Ingresso para o paraíso" é um filme ideal para quem procura uma produção da qual se é possível adivinhar o final desde a primeira cena - ou até mesmo desde o cartaz.

 

Casados graças aos arroubos da juventude, David (George Clooney) e Georgia Cotton (Julia Roberts) ficaram juntos apenas cinco anos, tempo suficiente para descobrirem uma imensa incompatibilidade de gênios e porem no mundo uma única filha, Lily (Kaitlyn Denver). Adulta, Lily é a responsável por reunir seus pais em ocasiões especiais, como sua formatura - e por impedir que a animosidade do ex-casal atrapalhe qualquer evento em que se encontrem juntos. Depois de um período de férias antes de iniciar uma carreira de advogada, porém, Lily surpreende os pais ao anunciar que está perdidamente apaixonada e irá se casar. Se a notícia já seria um choque normalmente, os detalhes são ainda mais perturbadores: sua jovem e bela filha irá abandonar tudo para ficar em Bali com o marido nativo, Gede (Maxime Bouttier). Temerosos que a filha repita o maior erro de suas vidas, os ex-casados deixam de lado suas diferenças e partem para a Indonésia com o objetivo de impedir o casamento - mas a magia da beleza local resolve agir e fazê-los rever seus sentimentos.

Avesso a comédias românticas desde que fez "Um dia especial" (1996) - ao lado de Michelle Pfeiffer -, George Clooney voltou ao gênero com a certeza de que seu carisma (somado ao sorriso radiante de Julia Roberts) seria o suficiente para garantir um belo retorno. Acertou em termos. "Ingresso para o paraíso" insiste em piadas sobre diferenças culturais, desencontros amorosos, diálogos sarcásticos e um visual de tirar o fôlego, como forma de disfarçar a fragilidade de seu roteiro. Algumas vezes tais artifícios funcionam, principalmente pelo talento dos dois astros, mas frequentemente fica a impressão de que o elenco se divertiu mais fazendo o filme do que a plateia quando o assiste. Talvez um pouco longo demais - uma edição mais enxuta provavelmente deixaria o ritmo menos truncado e a trama menos repetitiva -, o filme de Ol Parker segura bem uma sessão da tarde em um dia chuvoso, mas dificilmente será lembrado como um destaque na carreira de seus atores - ambos em momentos da carreira em que não precisam mais provar nada a ninguém. Divertido mas sem o brilhantismo das melhores comédias do gênero, "Ingresso para o paraíso" é um filme para fãs e ocasionais cinéfilos românticos.

segunda-feira

EXTRAORDINÁRIO

EXTRAORDINÁRIO (Wonder, 2017, Lionsgate, 113min) Direção: Stephen Chbosky. Roteiro: Stephen Chbosky, Steven Conrad, Jack Thorne, romance de R.J. Palacio. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Mark Livolsi. Música: Marcelo Zarvos. Figurino: Monique Prudhomme. Direção de arte/cenários: Kalina Ivanov/Shannon Gotlieb. Produção executiva: Michael Beugg, Qiuyun Long, R. J. Palacio, Jeff Skol, Alexander Young. Produção: David Hoberman, Todd Lieberman. Elenco: Julia Roberts, Owen Wilson, Jacob Tremblay, Mandy Patinkin, Izabela Vidovic, Noah Jupe, Daveed Diggs, Danielle Rose Russell, Sonia Braga. Estreia: 14/11/2017

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Em 2012, o escritor Steven Chbosky realizou um feito raro na indústria do cinema, ao roteirizar e dirigir a adaptação cinematográfica de seu livro "As vantagens de ser invisível", que mesmo não se tornando um fenômeno de bilheteria, agradou seu público-alvo (adolescentes e afins) e arrancou elogios da maioria esmagadora dos críticos. Sua incursão seguinte na cadeira de diretor surgiu cinco anos mais tarde, com outra adaptação literária - dessa vez de um best-seller de R.J. Palacio - e com uma dose ainda maior de emoção e uma estrela de primeira grandeza no elenco. Com Julia Roberts à frente do elenco que contava ainda com Owen Wilson e Jacob Tremblay (o excelente ator mirim de "O quarto de Jack", de 2015), "Extraordinário" chegou às telas cercado de expectativas e, como raramente acontece, correspondeu a todas elas: não apenas conquistou os críticos mais ranzinzas como arrecadou mais de 300 milhões de dólares ao redor do mundo. Certamente a presença de Roberts ajudou muito na carreira comercial do filme, mas o que realmente faz dele uma produção acima da média é o conjunto de acertos: da direção ao elenco, da trilha sonora ao roteiro - passando pela escolha acertadíssima do material -, tudo funciona como um relógio, e até mesmo quando a produção escorrega no clichê, tudo soa tão verdadeira que é difícil não se deixar envolver.

O caminho de "Extraordinário" em direção ao cinema começou quando a escritora R.J. Palacio, acompanhada do filho, viu uma criança que sofria de uma condição chamada Treacher Collins Syndrome, na qual alguns ossos e tecidos do rosto não se desenvolvem: o menino, que impressionou o filho de Palacio, era um dos poucos pacientes do mundo a apresentar os sintomas da doença, que acomete um a cada cinquenta mil bebês. Sensibilizada com a visão da vítima e a reação do próprio filho, Palacio resolveu criar um personagem assim, imaginando como seria o dia a dia de uma família confrontada com uma situação tão extrema. Livro publicado (no Brasil pela Intrínseca) e sucesso de vendas - figurando na lista dos mais vendidos do New York Times - era apenas questão de tempo até que Hollywood percebesse seu potencial. Sob o controle de Chbosky, contratado depois que a primeira opção (Paul King) preferiu comandar o infantil "Paddington 2", a adaptação encontrou seu diretor ideal: mantendo o tom leve do livro e sua narrativa em diversos pontos de vista, o roteirista/cineasta sublinhou as maiores qualidades da obra, evitou a lágrima fácil e injetou um senso de humor muito bem-vindo. Contando ainda com a ajuda do carisma de Julia Roberts e o talento impressionante do pequeno Jacob Tremblay, "Extraordinário" não tinha como dar errado.


É claro que um filme como "Extraordinário" não consegue escapar completamente das armadilhas do sentimentalismo, mas o trabalho de Chbosky é tão honesto, que qualquer escorregadela é facilmente perdoável, principalmente graças ao carisma e talento do pequeno Jacob Tremblay, que, mesmo sob pesada maquiagem (que levava uma hora e meia para ficar pronta, e concorreu ao Oscar da categoria) é capaz de conquistar o mais empedernido espectador. Assim como em "O quarto de Jack" - que deu à Brie Larson o Oscar de melhor atriz em 2016 -, Tremblay chama a responsabilidade para si e encara sem medo o desafio de interpretar um personagem que poderia facilmente cair no exagero. No filme, ele vive Auggie Pullman, um menino cuja doença rara o afasta do cotidiano das crianças comuns. Depois de alguns anos estudando em casa, ele é matriculado em uma escola normal para começar a quinta série - uma situação que deixa sua dedicada mãe, Isabel (Julia Roberts), e seu amoroso pai, Nate (Owen Wilson), apreensivos mas um tanto orgulhosos. Na escola, Auggie faz amizade com um dos colegas, Jack Will (o encantador Noah Jupe), mas demora a sentir-se parte do grupo. Enquanto isso, sua irmã, Via (Izabela Vidovic), sofre com o afastamento da melhor amiga, Miranda (Danielle Rose Russell) - que também tem uma boa dose de problemas familiares.

A maior qualidade de "Extraordinário" - além de seu elenco impecável, que conta inclusive com uma simpática participação especial da brasileira Sonia Braga - é a forma com que o filme lida com as diversas situações envolvendo seus personagens, todos mais complexos do que parecem à primeira vista. É um alívio perceber que a irmã mais velha do protagonista não cai no lugar-comum de adolescente rebelde e revoltada - e, milagre dos milagres, é um porto seguro para o menino e não um motivo a mais para preocupações. Julia Roberts, generosamente, assume um papel quase de coadjuvante, e seu sorriso, como sempre, ilumina a tela. Focando sua atenção basicamente sobre Auggie e suas aventuras (e desventuras) escolares, "Extraordinário" é um filme para estampar sorrisos no público - e também algumas sinceras lágrimas. Fugindo do drama extremo - como o já clássico "Marcas do destino", estrelado por Cher em 1985 e vencedor do Oscar de maquiagem - e dotado de um otimismo inquebrantável, é daquelas produções que ficam marcadas no coração da plateia.

domingo

OLHOS DA JUSTIÇA

OLHOS DA JUSTIÇA (Secret in their eyes, 2015, IM Global, 111min) Direção: Billy Ray. Roteiro: Billy Ray, roteiro original de Juan José Campanella, Eduardo Sacheri, romance de Eduardo Sacheri. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Jim Page. Música: Emilio Kauderer. Figurino: Shay Cunliffe. Direção de arte/cenários: Nelson Coates/Andrea Joel. Produção executiva: Matt Berenson, Juan José Campanella, Stuart Ford, Russell Levine, Jeremiah Samuels, Robert Simonds, Lee Jea Woo, DEborah Zipser. Produção: Matt Jackson, Mark Johnson. Elenco: Chiwetel Ejiofor, Nicole Kidman, Julia Roberts, Michael Kelly, Dean Norris, Alfred Molina, Joe Cole. Estreia: 12/11/15 (Itália)

Ao menos dois motivos podem justificar o remake de uma produção estrangeira dentro dos moldes de Hollywood. Primeiro: por mais sucesso que o original possa fazer no mercado norte-americano, seu alcance ainda é muito limitado, principalmente pela barreira do idioma (não é segredo para ninguém a aversão do público médio a legendas). E segundo: poucos produtores conseguiriam resistir à ideia de ganhar uma bela grana ao copiar um êxito já comprovado - chancelado, preferencialmente, por nomes e rostos conhecidos da plateia. Isso explica "Olhos da justiça", refilmagem (bastante) livre do excepcional "O segredo dos seus olhos", vencedor do Oscar de melhor filme estrangeiro de 2009. Baseado em um romance de Eduardo Sacheri, o filme de Juan José Campanella derrotou produções badaladas, como "A fita branca", de Michael Haneke, e "O profeta", de Jacques Audiard, e se tornou um dos filmes mais elogiados da temporada, com uma mistura perfeita de romance, drama e policial, além de uma atuação quase mágica de Ricardo Darín. Sua releitura hollywoodiana, porém, não teve a mesma sorte: recebida com frieza pela crítica, também falhou em conquistar o público, e, apesar da presença de Julia Roberts e Nicole Kidman (dois chamarizes fortes), mal conseguiu arrecadar 20 milhões de dólares no mercado doméstico (EUA e Canadá). De uma certa forma esse resultado foi até previsível.


Sua bilheteria tímida (leia-se fracasso monumental, em linguagem de Hollywood) deixou claro para todo mundo que nem sempre grandes estrelas são garantia de sucesso, especialmente quando elas não estão a função de uma franquia que pode caminhar por si mesma (caso dos filmes de super-heróis) ou em busca de um Oscar, com uma campanha milionária de marketing na retaguarda. Bancado por uma companhia independente, a IM Global (depois que a Warner abandonou o projeto a meio caminho) e dirigido por Billy Ray (um cineasta competente mas sem grandes êxitos comerciais no currículo), "Olhos da justiça" talvez tenha confiado demais no interesse do público por uma história já consagrada e no poder de fogo de seu elenco. Mais um exemplo de como refilmagens não são exatamente o caminho das pedras para o sucesso financeiro (raras vezes a ideia dá certo, como no caso de "A gaiola das loucas", dirigida por Mike Nichols em 1996), o filme de Ray amargou uma esnobada geral - e no fim das contas nem merecia tamanho descaso. Visto como um filme independente (o que é especialmente difícil, principalmente para os fãs do original), "Os olhos da justiça" até tem suas qualidades e pode ser digerido facilmente pelo público que procura um drama policial. Visto sem expectativas irreais, é uma produção competente - mesmo que tenha momentos que lembrem mais telefilmes do que grande cinema.


A principal mudança na estrutura da trama - em relação ao filme argentino - é a alteração do gênero de um dos personagens principais (e sua relação com os demais protagonistas). Enquanto na produção de Campanella a vítima do crime brutal que dá início à ação era uma jovem recém-casada cuja morte transforma a busca pelo culpado uma obsessão do marido, na versão americana quem morre é uma adolescente que vem a ser filha de uma investigadora policial, especializada em contra-terrorismo - uma mudança que também serve para definir de forma decisiva o tempo e o local da primeira parte do enredo, saindo da Argentina da ditadura militar dos anos 70 para a Los Angeles pós-11/9. Jess Cobb, a policial que sofre a traumática perda, é vivida por uma Julia Roberts despida de qualquer glamour e escondendo seu famoso sorriso - o personagem, masculino no livro de Eduardo Sacheri, no roteiro de Campanella e até no primeiro tratamento de Billy Ray, foi reescrito especialmente para ela, que se sai bastante bem apesar de dividir o foco da narrativa com o drama romântico que se desenrola a seu lado - este sim, bem menos potente do que aquele apresentado pelo material original.

No filme de Campanella, o romance entre os protagonistas interpretados por Ricardo Darín e Soledad Villamil é intenso, repleto de silêncios, olhares e uma química palpável, que conduz a trama com a mesma força do enredo policial. Em "Olhos da justiça" a mágica não se repete. Por mais talentosos que sejam, Nicole Kidman (substituindo Gwyneth Paltrow) e Chiwetel Ejiofor não conseguem reproduzir a tensão sexual entre seus personagens. Enquanto Kidman interpreta a promotora Claire Sloane, que se divide entre a carreira e sentimentos mais pessoais (a atração que sente pelo colega, o desejo de quebrar as regras para vingar a amiga), Ejiofor faz o possível para dar consistência a um personagem que o próprio roteiro não desenvolve a contento - o dedicado Ray Kasten, que passa dez anos preso a duas obsessões: encontrar o assassino da filha de Jess e conquistar o amor de Claire, por quem se apaixonou à primeira vista e a quem jamais esqueceu. As duas tramas paralelas (o romance e o policial) caminham juntas em uma edição repleta de flashbacks pouco inventivos e atuações em registro quase automático: com exceção de alguns momentos inspirados de Julia Roberts, o filme não chega a empolgar (e até a famosa sequência em um estádio de futebol, aqui devidamente alterado para beisebol, é muito mais intensa no filme original, ainda que Ray faça esforço para criar a tensão necessária). Um filme apenas mediano, "Olhos da justiça" se beneficia do elenco (ainda que não em dias excelentes), uma trama forte (ainda que diluída por mudanças um tanto desnecessárias e um final diferente) e pela produção bem cuidada. Serve como entretenimento, mas não passará ao status de cult de seu material original.

sábado

TRÊS MULHERES, TRÊS AMORES

TRÊS MULHERES, TRÊS AMORES (Mystic Pizza, 1988, The Samuel Goldwyn Company, 104min) Direção: Donald Petrie. Roteiro: Amy Jones, Perry Howze, Randy Howze, Alfred Uhry, estória de Amy Jones. Fotografia: Timothy Suhrstedt. Montagem: Don Brochu, Marion Rothman. Música: David McHugh. Figurino: Jennifer Von Meyerhauser. Direção de arte/cenários: David Chapman/Clay Griffith. Produção executiva: Samuel Goldwyn Jr.. Produção: Mark Levinson, Scott Rosenfelt. Elenco: Annabeth Gish, Julia Roberts, Lily Taylor, Vincent D'Onofrio, Conchata Ferrell, William R. Moses, Adam Storke, Matt Damon. Estreia: 21/10/88

Kat está em vias de iniciar a faculdade em Yale, mas aceita um trabalho extra de babá - até que não consegue controlar seus sentimentos e se envolve em uma relação destinada ao fracasso; sua irmã, Daisy, sensual e extrovertida, inicia um namoro com um rapaz de classe social superior à sua, surda aos avisos de que seu final não tem como ser feliz; e Jojo, que acabou de abandonar o noivo no altar, tenta reconquistá-lo a despeito de seu medo de compromissos e de sua libido à flor da pele serem problemas a superar para que a relação vingue. As três jovens trabalham como garçonetes em uma pizzaria de uma pequena cidade de Connecticut chamada Mystic e, além de lutarem por sua felicidade, são as protagonistas de um adorável pequeno filme chamado "Três mulheres, três amores", primeiro longa-metragem do cineasta Donald Petrie e responsável pelos primeiros papéis de destaque de um trio de atrizes que iria se destacar na década de 90 - sem falar que uma delas iria se tornar um dos maiores nomes do cinema americano do final do século XX: lançado no final de 1988, foi um dos filmes que chamaram a atenção do público e da crítica para uma bela e sorridente candidata a estrela: Julia Roberts.

Às vésperas de ser indicada pela primeira vez ao Oscar - como coadjuvante de "Flores de aço" (89) - e conhecer o estrelato absoluto com "Uma linda mulher" (90) - que lhe colocou novamente no páreo por uma estatueta que só viria uma década mais tarde -, Roberts já demonstrava, em "Três mulheres, três amores", o carisma e o talento que o público estava em vias de celebrar. Mérito também dos produtores, que a testaram para o papel da doidivanas Jojo mas resolveram acertadamente escalá-la para viver a voluptuosa Daisy, uma personagem capaz de explorar todas as facetas de sua capacidade dramática, e deixar Jojo nas mãos de Lily Taylor, também dando seus primeiros passos no cinema e se encaminhando para ser uma das queridinhas do cenário independente. Seu desempenho é repleto de uma jovialidade e de uma energia quase palpáveis, especialmente quando ao lado de Vincent D'Onofrio, que, na pele de seu atônito noivo católico, Bill - que não entende a fixação da noiva em sexo e seu medo de compromissos: juntos, Taylor e D'Onofrio proporcionam ao filme o toque de humor apropriado, que equilibra a determinação de Daisy e o romantismo de Kat - a personagem mais centrada e, justamente por isso, a mais surpreendente das três protagonistas.





Sensível e responsável, Kat resolve se dividir entre o emprego de garçonete na pizzaria e um trabalho de babá para a filha pequena do arquiteto Tim (William R. Moses), cuja esposa está viajando a trabalho. Enquanto aguarda o momento de embarcar para a universidade, ela começa a passar tempo demais com a menina e, por consequência, com seu pai, o que a leva a um romance inesperado e pouco recomendável - especialmente para alguém tão romântica e responsável. Nem mesmo sua irmã, Daisy, é tão inconsequente: apesar de namorar um rapaz rico, Charlie (Adam Storke), Daisy jamais se permite ser magoada ou inferiorizada, e usa de sua personalidade forte para impor seu ponto de vista mesmo que isso arrisque seu relacionamento. Juntas, as três se completam e dão força umas às outras - uma espécie de família abençoada pela dona do restaurante, Leona (Conchata Ferrell), cujo ingrediente secreto de seu molho unanimemente elogiado ela insiste em manter apenas para si.

Leve e despretensioso, "Três mulheres, três amores" (que quase ganhou uma sequência nos anos 90) se tornou o cartão de visitas de Donald Petrie, um diretor que especializou-se em comédias e episódios de séries de televisão até que, em 2000, tirou a sorte grande com "Miss Simpatia", um enorme sucesso de bilheteria estrelado por Sandra Bullock - e que redefiniu os rumos de sua carreira, levando-o para a seara das comédias românticas ("Como perder um homem em dez dias", de 2003, também surpreendeu positivamente). Já em seu primeiro filme, ele demonstra um bom senso de ritmo, de carinho pelos personagens e, ainda mais importante, a capacidade de criar identificação entre público e a história a ser contada. Pode parecer pouco, mas quando os créditos finais sobem e a plateia se despede das três moçoilas que lhe fizeram companhia nos últimos 100 minutos, pode-se perceber que nem todo cineasta consegue causar tanta simpatia e leveza. Uma ótima sessão da tarde adulta!

domingo

O MAIOR AMOR DO MUNDO

O MAIOR AMOR DO MUNDO (Mother's Day, 2016, Open Road Films, 118min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Anya Kochoff Romano, Matt Walker, Tom Hines, estória de Lily Hollander, Matt Walker, Tom Hines, Garry Marshall. Fotografia: Charles Minsky. Montagem: Bruce Green, Robert Malina. Música: John Debney. Figurino: Marilyn Vance, Beverly Woods. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Bob Kensinger. Produção executiva: William Bindley, Deborah E. Chausse, Leon Corcos, Mark Fasano, Kevin Frakes, Howard Gilden, Fred Grimm, Bill Heavener, Matthew Hooper, Tedd Johnson, Scott Lipsky, Danny Mandel, Rodger May, Ankur Rugta, Jared D. Underwood. Produção: Brandt Andersen, Howard Burd, Daniel Diamond, Mark DiSalle, Mike Karz, Wayne Rice. Elenco: Jennifer Aniston, Kate Hudson, Julia Roberts, Timothy Olyphant, Jason Sudeikis, Margo Martindale, Shay Mitchell, Hector Elizondo, Aasiv Mandvi. Estreia: 13/4/16

Parecia uma fórmula imbatível de sucesso: escolher uma data comemorativa como tema, escalar um elenco de astros conhecidos do grande público, lançar no feriadoc correspondente e correr pro abraço. Foi assim com "Idas e vindas do amor" (sobre o Dia dos Namorados) e com "Noite de ano-novo" (autoexplicativo). Porém, mesmo as fórmulas aparentemente infalíveis podem desgastar-se: se os dois primeiros filmes fizeram sucesso nas bilheterias mundiais (216 milhões e 142 milhões respectivamente), o terceiro capítulo da série do diretor Garry Marshall decepcionou em todos os quesitos, tanto em termos de crítica (o que já havia acontecido com os anteriores, aliás) quanto financeiros, rendendo menos de 50 milhões de dólares no total. Último filme de Marshall - que de certa forma revelou Julia Roberts ao mundo, em "Uma linda mulher" (90) e morreu poucos meses depois da estreia, "O maior amor do mundo" padece de um roteiro simplista e personagens sem muito carisma ou profundidade, que serve unicamente como passatempo rápido e facilmente esquecível.

Menos ambicioso do que os filmes anteriores do estilo, e com um elenco de estrelas mais enxuto, "O maior amor do mundo" se fixa em apenas cinco núcleos, que se cruzam ocasionalmente e tem, como pano de fundo, o amor materno. Julia Roberts, amiga do diretor, está pouco confortável como Miranda Collins, uma escritora famosa que é conhecida por apresentar um programa de televisão onde vende joias ao telespectador. Quem deseja ser contratada por ela como designer é Sandy (Jennifer Aniston), que está passando pela complicada situação de lidar com o novo casamento do ex-marido, Henry (Timothy Olyphant), e ver seus filhos conquistados pela madrasta. Nesse meio-tempo, ela conhece o viúvo Bradley (Jason Sudeikis), que perdeu a esposa há pouco tempo e tenta compreender o universo de suas duas filhas, uma delas em plena adolescência. Já as duas irmãs Jesse (Kate Hudson) e Gabi (Sarah Chalke) tentam esconder de seus pais (preconceituosos) seus relacionamentos amorosos: a primeira com um médico indiano e a segunda com uma mulher, com quem tem um filho. E finalizando a ciranda de relações está o casal formado pelo comediante inglês Zack (Jack Whitehall) e sua amada Kristin (Britt Robertson), que tem um bebê juntos mas não conseguem se casar por causa de uma situação mal resolvida no passado da jovem.


Mesmo com um número relativamente baixo de tramas paralelas, o roteiro de "O maior amor do mundo" consegue ser superficial em todas. Julia Roberts talvez seja o maior talento desperdiçado dentre todo o elenco, com uma personagem tão rasa e inverossímil que chega a parecer proposital - além de não oferecer à atriz a chance de mostrar sua beleza. Jennifer Aniston ainda consegue extrair um pouco mais de sua Sandy, que se envolve em duas das histórias contadas, mas mesmo assim pouco faz para deixar de lado os trejeitos de sua personagem mais famosa, a Rachel Green da série "Friends" - sorte que seu carisma é inabalável. Margo Martindale quase rouba a cena como a mãe preconceituosa de Kate Hudson, mas lhe é dado tão pouco tempo em cena que seu enredo - talvez o mais interessante de todos - acaba perdido em meio a algumas piadas sem graça e tentativas nem sempre felizes de emocionar o público. A sorte é que Marshall - um veterano com larga experiência - sabe como transformar seus filmes em produtos agradáveis mesmo quando pouco profundos e não deixa que a sessão se torne um pesadelo.

A receita de "O maior amor do mundo" é fácil: um visual bonito, com atores atraentes, uma trilha sonora pop com alguns sucessos do momento, personagens com problemas facilmente identificáveis (mas não pesados a ponto de afastar o público) e alguns momentos de humor e drama, dosados para conquistar tanto os fãs de comédia quanto aqueles que gostam de chorar diante da tela. Todos os ingredientes estão presentes no filme, mas o resultado é apenas razoável, sem nada que o diferencie de dezenas de outros produtos lançados semanalmente nos cinemas. Talvez agrade mais a quem for mãe - ou a quem se conecte especificamente com alguma das tramas - mas no final é simplesmente uma sessão da tarde pouco memorável. Uma pena que Marshall tenha se despedido do cinema com um filme tão banal e vazio!

sábado

JOGO DO DINHEIRO

JOGO DO DINHEIRO (Money monster, 2016, TriStar Pictures, 98min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: Jamie Linden, Alan DiFiore, Jim Kouf, estória de Alan DiFiore, Jim Kouf. Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Matt Chesse. Música: Dominic Lewis. Figurino: Susan Lydall. Direção de arte/cenários: Kevin Thompson/Lydia Marks. Produção executiva: Tim Crane, Kerry Orent, Regina K. Scully, Ben Waisbren. Produção: Lara Alameddine, George Clooney, Daniel Dubiecki, Grant Heslov. Elenco: George Clooney, Julia Roberts, Jack O'Connell, Dominic West, Caitriona Balfe, Giancarlo Esposito, Christopher Denham. Estreia: 12/5/16

Atriz consagrada com dois Oscar e cineasta bissexta, Jodie Foster gosta de retratar, em ambas as funções, personagens em situações-limite, à beira (ou durante) um ataque de nervos. Foi assim com a mãe solteira, vivida por ela mesma, que tentava lidar com a pressão de ter um filho superdotado, em "Mentes que brilham" (1991), com a recém desempregada (Holly Hunter) que se reencontrava com todas os problemas de seu clã, em "Feriados em família" (1995), e com o pai de família (Mel Gibson) que luta contra a depressão ao iniciar uma inusitada amizade com um bicho de pelúcia, em "Um novo despertar" (2011). E é assim também com o personagem central de seu quarto longa-metragem, "Jogo do dinheiro": em estado de absoluto desespero (por razões plenamente compreensíveis), o jovem Kyle Budwell é o mais novo membro da galeria de angustiados protagonistas da filmografia de Foster. Interpretado com energia e dedicação por Jack O'Connell, ator revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), Kyle é, certamente, o mais trágico dentre todos, e também o mais crítico: com base em um roteiro sem medo de remexer em uma das maiores feridas americanas (a especulação financeira responsável pela imensa crise econômica enfrentada pelo país). Uma interessante mistura entre "Wall Street: poder e cobiça" (1987) e "Rede de intrigas" (1976), "Jogo do dinheiro" não alcançou muita repercussão nos EUA (talvez seja inteligente e adulto demais para isso), mas merece ser descoberto - se não é o melhor filme da diretora, ao menos é bastante superior à média e apresenta um elenco que dispensa comentários.

George Clooney - um dos produtores do filme, o que o confirma como um astro de cinema com uma agenda política atuante e questionadora - surge em cena como Lee Gates, o exibicionista e um tanto arrogante consultor financeiro que apresenta um programa de televisão chamado "Money Monster", no qual comenta os altos e baixos da bolsa de valores e aconselha os telespectadores a respeito de investimentos em ações. Uma de suas dicas, no entanto, acaba por surpreender até mesmo aos mais experientes analistas do mercado, e uma empresa aparentemente sólida, perde milhões e milhões de dólares de uma hora para outra. O que parecia apenas uma situação comum em um meio tão instável, porém, acaba com consequências imprevisíveis: durante a apresentação de um programa ao vivo, o cenário é invadido por Kyle Budwell (Jack O'Connell), um zelador que perdeu todo o dinheiro que tinha ao seguir a orientação de Gates e exige, em rede nacional, que sua história seja contada e que os reais motivos da queda das ações seja explicado. Enquanto o prédio é evacuado - além de uma arma de mão o rapaz também obriga Gates a vestir um colete acoplado a uma bomba - a diretora do programa, Patty Fenn (Julia Roberts), tenta ganhar tempo e encontrar uma maneira de convencer Kyle a desistir de seus planos. Com ajuda externa, ela tenta descobrir a verdade por trás da empresa de Walt Camby (Dominic West) - que parece ter muito mais a esconder do que aparentava a princípio.


Ao tentar equilibrar a tensão da relação entre Kyle e Gates - claustrofóbica, opressiva e muitas vezes perigosa - com a investigação comandada por Patty através da cabine de onde mantém o programa no ar, o roteiro não chega a encontrar um meio-termo ideal, mantendo um ritmo irregular que nem mesmo o carisma de seus atores é capaz de esconder. Competente em arrancar atuações memoráveis de seus atores e experiente em lidar com intrigas de bastidores - um dos episódios da segunda temporada de "House of Cards" tem a sua assinatura -, Jodie Foster imprime um tom de urgência e relevância à trama, mas nem sempre consegue conexão com o espectador. Talvez o tema e os personagens pouco simpáticos sejam os maiores responsáveis, mas é somente no terço final do filme, quando finalmente os três protagonistas parecem estar no mesmo time - e lutando contra as injustiças e a corrupção do sistema financeiro - é que "Jogo do dinheiro" deslancha. Gradualmente aumentando a pressão sobre Kyle e revelando ao público que por trás de sua ingenuidade há também um esquema de interesses escusos e putrefatos, Foster vai aos poucos ganhando terreno para um final explosivo - alterado a seu próprio pedido e talvez menos climático do que o desfecho original, mais cínico e irônico.

Mesmo sem traduzir o roteiro, considerado como um dos melhores inéditos de 2014, em um filme capaz de mudar a percepção da audiência sobre o assunto tratado - e nem mesmo transformá-lo em uma produção de grande impacto, Jodie Foster consegue sair de sua zona de conforto como diretora, deixando de lado os dramas familiares para explorar um terreno mais pantanoso. Demonstra segurança - em especial na direção de atores, provavelmente herança de seus trabalhos com gente do naipe de Scorsese, Jonathan Demme e Robert Zemeckis - e evita, felizmente, estragar a tensão crescente com piadinhas infundadas ou inapropriadas. "Jogo do dinheiro" é um filme sério - o que não significa chato ou pedante - e adulto, realizado para aquele tipo de audiência que procura outras opções além de super-heróis e efeitos especiais mirabolantes. Fala de pessoas e de como atos trazem consequências - previsíveis ou não, passíveis ou não de conserto. É um filme quase amargo, mas com um sabor de verdade, o que muito falta no cinema norte-americano atual. Pode tornar-se um clássico ou um filme injustiçado de uma diretora muito inteligente: só o tempo dirá.

sexta-feira

THE NORMAL HEART

THE NORMAL HEART (The normal heart, 2014, HBO Films, 132min ) Direção: Ryan Murphy. Roteiro: Larry Kramer, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Danny Moder. Montagem: Adam Penn. Música: Cliff Martinez. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Shane Valentino/Andrew Basemann, Amanda Carroll. Produção executiva: Jason Blum, Dante Di Loreto, Dede Gardner, Ryan Murphy, Brad Pitt. Produção: Scott Ferguson, Alexis Martin Woodall. Elenco: Mark Ruffalo, Julia Roberts, Matt Bomer, Taylor Kitsch, Jim Parsons, Alfred Molina, Jonathan Groff, Dennis O'Hare, BD Wong, Corey Stoll. Estreia: 25/5/14

Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator Coadjuvante em Minissérie ou Filme Para a TV (Matt Bomer)

Em 2014, Matthew McConaughey e Jared Leto levaram os Oscar de melhor ator e ator coadjuvante respectivamente por seus elogiados desempenhos em "Clube de Compras Dallas", um filme no máximo razoável que, graças à força de suas interpretações chegou a concorrer à cobiçada estatueta de melhor filme. Se tivesse tido a sorte de ter sido produzido para o cinema e não para a televisão - através da HBO - a adaptação da premiada peça teatral de Larry Kramer "The normal heart" poderia ter tido um destino ainda mais feliz. Dirigido por Ryan Murphy - criador de várias séries televisivas de sucesso, como "Glee" e "American Horror Story" - o filme, que estreou nos EUA poucos meses depois da cerimônia que consagrou Leto e McConaughey, compartilha com o filme de Jean-Marc Vallé (que também ganhou o Oscar de maquiagem) o mesmo tema - o início da epidemia da AIDS, no princípio da década de 80 - mas acaba se revelando muito mais satisfatório, tanto em termos emocionais quanto informativos. Com um excelente elenco liderado por Mark Ruffalo e Julia Roberts (casada com o diretor de fotografia do filme, Danny Moder), "The normal heart" segue a tradição de grandes obras sobre o tema, como "E a vida continua", "Meu querido companheiro" e "Angels in America", mas vai além deles ao ser o primeiro a explicitar sem medo a sexualidade de seus personagens centrais.

Baseado em personagens e histórias reais - alterados para efeito de maior liberdade dramática pelo autor Larry Kramer - "The normal heart" não tem medo de deixar bem claro ao espectador que seus protagonistas são gays com vida sexual ativa e despreocupada, ao contrário de obras criticadas pela comunidade homossexual (como "Filadélfia") em que os personagens transmitem a impressão de viver em quase celibato. A trama se concentra principalmente em Ned Weeks (Mark Ruffalo), escritor abertamente gay que se torna um determinado ativista na busca por informações e tratamentos para a então iniciante epidemia da AIDS nos EUA. Ainda chamada de "câncer gay" por médicos desconhecedores de detalhes sobre suas formas de transmissão e metabolismo, a doença chama a atenção da infectologista Emma Brookner (Julia Roberts), que se une a Weeks na tentativa de formar uma equipe de cidadãos interessados em ajudar novos pacientes. Cada vez mais apavorado com o crescente número de vítimas - boa parte deles seus conhecidos - o escritor incorre na ira do governo ao acusá-lo de ignorar os números e impedir o controle da doença. A seu lado, fica seu incansável namorado, o jornalista Felix Turner (Matt Bomer), a estoica médica (que precisa mover-se em uma cadeira de rodas em consequência de uma poliomielite) e alguns poucos amigos que relevam seus métodos raivosos de atacar as autoridades. Nem mesmo seu irmão mais velho, o influente advogado Ben (Alfred Molina) escapa de suas violentas acusações - e tudo fica ainda pior quando Felix se revela portador do vírus.


Começando sua história em 1981 e atravessando uma década inteira de desesperadoras tentativas do protagonista em se fazer ouvir ou acreditar - nem mesmo a própria comunidade gay aceitava suas ideias "absurdas" de diminuir a promiscuidade para evitar o contágio nos primeiros estágios da epidemia - o roteiro de Larry Kramer se equilibra com sucesso entre os dramas pessoais de Ned e Felix (um romance verossímil e que não prescinde de algumas tórridas cenas de amor) e sua exaustiva trajetória em direção à atenção da população em relação a uma das maiores epidemias da história da humanidade. Com uma edição precisa e uma trilha sonora acertada - nunca acima do tom, mas sempre presente quando necessária - "The normal heart" mostra um Ryan Murphy surpreendentemente sóbrio na condução da trama, sem os exageros habituais de suas séries e sem a insegurança que era o maior pecado de "Comer, rezar, amar", sua estreia no cinema. As cenas dramáticas surgem na hora certa e sem excessos, apenas como ilustração dramática de todo o trágico cenário que o roteiro desenha através dos acontecimentos e dos diálogos inteligentes que não hesitam em apontar o dedo para o governo norte-americano e a hipocrisia e o conservadorismo assassino do período Reagan. Assustador e por vezes revoltante, o filme também se beneficia da garra de seus atores.

Se Julia Roberts surge como um chamariz para o grande público - desprovida de glamour e de seu largo sorriso - é o elenco masculino quem acaba por destacar-se, em especial Mark Ruffalo e Matt Bomer, ambos premiados por suas interpretações. Ruffalo foi eleito o melhor ator de televisão no Satelitte Awards e Bomer levou pra casa um Golden Globe de melhor ator coadjuvante em minissérie ou filme televisivo, e fica difícil dizer qual dos dois está melhor em cena. Enquanto Ruffalo surpreende em uma atuação que equilibra fúria e delicadeza, Bomer se revela um ator de primeira linha ao dar vida a um homem que vê sua rotina radicalmente alterada por uma doença devastadora - sua transformação física é impressionante e, ao contrário do que acontece muitas vezes, trabalha a favor da profundidade de seu personagem, e não contra. É quase impossível segurar as lágrimas com seu desempenho - uma prova inconteste de sua imensa qualidade.

Tendo como um dos produtores executivos o ator Brad Pitt, e contando ainda no elenco com rostos conhecidos do público cativo da televisão, como Jim Parsons (de "Big Bang Theory"), Jonathan Groff (de "Looking"), Taylor Kitsch (da segunda temporada de "True detective") e Dennis O'Hare (de "American Horror Story"), "The normal heart" é um dos melhores filmes de 2014 - e pouco importa que não tenha sido feito diretamente para o cinema. No final das contas, isso é o que menos irá contar para todos que se permitirem um pouco de emoção real e honesta.

terça-feira

ÁLBUM DE FAMÍLIA

ÁLBUM DE FAMÍLIA (August: Osage County, 2013, The Weinstein Company, 121min) Direção: John Wells. Roteiro: Tracy Letts, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Adriano Goldman. Montagem: Stephen Mirrione. Música: Gustavo Santaolalla. Figurino: Cindy Evans. Direção de arte/cenários: David Gropman/Nancy Haigh. Produção executiva: Ron Burkle, Celia Costas, Jerry Frankel, Claire Rudnick Polstein, Jeffrey Richards, Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: George Clooney, Jean Doumanian, Grant Heslov, Steve Traxler. Elenco: Meryl Streep, Julia Roberts, Ewan McGregor, Sam Shepard, Chris Cooper, Benedict Cumberbatch, Juliette Lewis, Abigail Breslin, Margo Martindale, Julianne Nicholson, Dermot Mulroney. Estreia: 09/9/13 (Festival de Toronto)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Meryl Streep), Atriz Coadjuvante (Julia Roberts)

O dramaturgo Tracy Letts foi apresentado ao público cinéfilo com o ultra-violento e cínico “Killer Joe, matador de aluguel”, que chegou às telas sob a direção do veterano William Friedkin e apresentava uma família cuja desfuncionalidade chegava às raias do assassinato. Os personagens de “Álbum de família”, também baseado em um de seus textos teatrais, não alcançam tal extremo, mas dificilmente podem ser considerados exemplos de equilíbrio e respeito por laços de sangue. Interpretados por alguns dos maiores nomes do cinema atual, os membros da família Weston fazem desfilar pela tela, em cerca de duas horas de duração, um festival de rancores, humilhações, ciúmes, inveja e agressão capaz de causar inveja à Tenessee Williams e Edward Albee. Infelizmente, nem mesmo a experiência do elenco excepcional consegue disfarçar a inseguirança do diretor John Wells, que, confiando plenamente em seus atores e no texto pulsante de Letts, parece ter medo de fugir da armadilha do teatro filmado.

Ok, Wells até foge dos limites do cenário único – no caso, a velha casa da família Weston, localizada na pequena cidade de August, condado de Osage (daí o título original) – mas não é o bastante para esconder as origens teatrais da história. Para sua sorte, o texto de Letts é ágil o bastante para prender a atenção do público até suas cenas finais, principalmente porque os dramas do clã retratado pelo dramaturgo são os mais variados possíveis, indo de romances ilícitos até a segredos mantidos por décadas. No centro de todo o furacão emocional está a matriarca Violet (Meryl Streep no papel que lhe rendeu sua 18ª indicação ao Oscar), que depois do desaparecimento do marido, Beverly (Sam Shepard), recebe em sua propriedade toda a sua família - e, junto com ela, uma série de problemas que resolvem vir à tona encorajados pela falta de tato da anfitriã, que sofre de câncer na língua e vê seus medicamentos falarem mais alto que a delicadeza. É assim que ela enfrenta, amarga e cruel, a filha mais velha, Barbara (Julia Roberts), que passa por uma grave crise no casamento com Bill (Ewan McGregor) – cujo relacionamento extraconjugal com uma mulher mais jovem não consegue ser esquecida por ela – e na criação da única filha, a adolescente Jean (Abigail Breslin em papel para o qual foi testada a também excelente Chloe Grace Moretz). Barbara era a filha preferida de Beverly, e quando ele finalmente é encontrado morto, seu funeral aprofunda ainda mais as diferenças da família.



A única que ficou em casa cuidando da mãe durante sua doença, Ivy (Julianne Nicholson) é tratada com desprezo por Violet, que não vê nela a capacidade de casar ou viver uma história de amor – em segredo, porém, ela está apaixonada e é correspondida pelo primo, Charlie (Benedict Cumberbatch), que, assim como ela, é menosprezado pela mãe, Mattie Fae (a ótima Margo Martindale substituindo Kathy Bates, sondada pela produção), mas protegido pelo pai, Charles (Chris Cooper). Fechando o barulhento grupo está a caçula do trio de filhas de Violet, a inconsequente Karen (Juliette Lewis), que chega acompanhada do novo namorado, Steve (Dermot Mulroney) – que acaba por se engraçar com a adolescente Jean, para desespero de Barbara e Bill. Testemunhando toda a confusão, há a empregada doméstica Johnna (Misty         Uphaim), de origem indígena e alvo de constantes ataques de racismo por parte de Violet. É essa família que irá passar um fim-de-semana inteiro lavando a roupa suja acumulada por anos e anos de segredos e meias-verdades.

“Álbum de família” é um show de atores. John Wells nem tem muito trabalho em comandar seu elenco, completamente à vontade em papéis repletos de possibilidades – todas elas exploradas à perfeição. Os embates mais verbalmente violentos – entre Meryl Streep e Julia Roberts, ambas indicadas pela Academia – são uma delícia de assistir, principalmente porque Streep deita e rola com uma personagem francamente desagradável e hostil e Roberts deixa de lado sua persona de estrela para entregar uma atuação forte e visceral. Wells não se preocupa em criar um visual marcante, preferindo dedicar-se a aproveitar a carpintaria dramática do texto de Letts – com reviravoltas dignas de uma boa telenovela – como base para seu filme. Experiente em programas de televisão (dirigiu vários episódios da série “Plantão médico”) mas com apenas um outro filme no currículo, o pouco visto “A grande virada”, de 2001, Wells não consegue escapar de uma direção pouco inventiva e ousada. Mesmo que a produção caminhe sem trancos até o final (diferente do desfecho da peça) fica a nítida impressão de um filme que não atingiu todo o seu potencial. Ainda assim, é um prazer enorme ser testemunha de tantos shows de interpretação concentrados em pouco mais de duas horas.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...