sexta-feira

BRINCANDO DE SEDUZIR

BRINCANDO DE SEDUZIR (Beautiful girls, 1996, Miramax Films, 112min) Direção: Ted Demme. Roteiro: Scott Rosenberg. Fotografia: Adam Kimmel. Montagem: Jeffrey Wolf. Música: David A. Stewart. Figurino: Lucy W. Corrigan. Direção de arte/cenários: Dan Davis/Tracey A. Doyle. Produção executiva: Bob Weinstein, Harvey Weinstein. Produção: Cary Woods. Elenco: Matt Dillon, Timothy Hutton, Noah Emmerich, Michael Rapaport, Rosie O'Donnell, Lauren Holly, Martha Plimpton, Max Perlich, Natalie Portman, Mira Sorvino, Uma Thurman, Pruitt Taylor Vince, Sam Robards, David Arquette, John Carrol Lynch. Estreia: 09/02/06

Esta é uma história real: na metade da década de 90, enquanto esperava por uma resposta em relação à sorte de um trabalho seu para um grande estúdio de Hollywood, o roteirista Scott Rosenberg voltou à sua cidade natal, no estado de Massachusetts, para fugir da tensão da situação. Lá, ao lado de amigos de infância, percebeu, quase como uma epifania, o quão imaturos todos eles eram, incapazes de aceitar o fato de que estavam chegando aos 30 anos e totalmente despreparados para assumirem compromissos sentimentais. Ciente de que tal estado de espírito também dizia respeito a quase todos os homens de sua geração - e talvez das anteriores e posteriores - Rosenberg partiu para a ação e escreveu "Brincando de seduzir", uma comédia cáustica, romântica e um tanto cínica sobre ele mesmo em particular e os homens em geral. Dirigido por Ted Demme - recém vindo do ácido "O árbitro" - e estrelado por um grupo de jovens atores e atrizes que se dividiam entre iniciantes e veteranos, o filme fez pouco barulho nas bilheterias, mas é, sem dúvida, um retrato fiel e - por que não? - encantador da amizade entre homens.

Willie Conway (Timothy Hutton caprichando no visual desleixado) toca pianos nos bares de Nova York enquanto espera sua grande chance de tornar-se rico e famoso. Namorando há anos a compreensiva advogada Tracy (Annabeth Gish), ele retorna à sua cidade natal para um reencontro com os colegas do ginasial, a quem não vê há anos - assim como seu pai e seu irmão caçula, que desde a morte de sua mãe entraram em uma rotina triste e sem expectativas. Chegando a seu destino, ele imediatamente conhece a nova vizinha, a adolescente Marty (Natalie Portman), que mesmo aos 14 anos, não hesita em flertar com o forasteiro - que, logicamente, sente-se atraído pelo frescor e juventude da menina. Seu desequilíbrio diante de um belo espécime do sexo feminino é compartilhado com seus outros amigos, conforme ele vai percebendo ao encontrá-los: Tommy (Matt Dillon), o galã da cidade, namora com a bela e dedicada Sharon (Mira Sorvino), mas mantém há tempos um caso com uma mulher casada, Darian (Lauren Holly). Seu sócio no negócio de limpar neve das calçadas é Paul (Michael Rapaport, sempre bom em papéis de homens bobalhões), que não se conforma com a traição da namorada, Jan (Martha Plimpton) e vinga-se dela atravancando sua garagem com detritos das tempestades que não param de chegar. O único da turma que parece feliz é Michael (Noah Emmerich), casado, pai de dois filhos e imune às tentações da carne - sempre ironizadas pela sarcástica Gina (Rosie O'Donnell). As noitadas regadas a bebida e reminiscências são abaladas, porém, com a chegada de Andera (Uma Thurman), a bela e independente prima de um amigo em comum que mexe com a libido de todos.


É difícil de acreditar que antes de "Brincando de seduzir" apenas um outro roteiro de Scott Rosenberg havia chegado às telas - e de um gênero totalmente distante, o policial "Coisas para se fazer em Denver quando você está morto", lançado em 1995. Dotado de ritmo, consistência dramática e personagens críveis e pateticamente humanos, o texto de Rosenberg flui com extrema naturalidade, chegando até ao espectador sem soar presunçoso ou autocomplacente. Mesmo quando toca em um assunto potencialmente perigoso - a atração do trintão Willie pela adolescente Marty - o roteiro substitui o peso de uma polêmica pela leveza da citação de Nabokov e sua Lolita. Ao defender a imaturidade masculina mesmo quando ela tem consequências pouco nobres ou altruístas, tanto Rosenberg quanto o diretor Ted Demme tem o cuidado de não parecerem machistas ou misóginos: eles parecem dizer, através dos diálogos certeiros e quase melancólicos em determinados momentos, que seus personagens não são maus, são apenas infantis e, portanto, dotados de um egoísmo inerente à sua condição. E para isso, eles contam com um elenco excelente, que se desincumbe com maestria das armadilhas de uma trama que prescinde de heróis ou vilões.

Timothy Hutton - que ganhou um Oscar de coadjuvante aos 19 anos por "Gente como a gente" (80) - sai-se bem como o desnorteado Willie, um homem perdido entre a juventude e a maturidade que vê no possível envolvimento com uma adolescente sua última chance de prender-se de vez ao passado. Uma Thurman desfila linda e carismática pela tela como a sedutora Andera e Michael Rapaport faz o papel de adorável paspalho que se tornaria sua marca registrada - o mesmo que acontece com Rosie O'Donnell, que rouba a cena com sua desbocada e realista Gina em pelo menos uma cena memorável, quando discursa sobre a ditadura da beleza feminina ideal dos homens (tema também de um diálogo brilhante proferido pelo personagem de Rapaport). Junto a eles, as duas oscarizadas Natalie Portman - ainda menina - e Mira Sorvino completam uma equipe iluminada, que vem suas cenas comentadas pela adequada e agradável trilha sonora de David A. Stewart.

Ah, o filme que Rosenberg escreveu antes de esconder-se em sua cidadezinha chegou às telas em 1997: era o blockbuster "Con Air, a rota da fuga"... que não tem, perceptivelmente, nada a ver com o delicioso "Brincando de seduzir".

quinta-feira

ANTES E DEPOIS

ANTES E DEPOIS (Before and after, 1996, Caravan Pictures/Hollywood Pictures, 108min) Direção: Barbet Schroeder. Roteiro: Ted Tally, romance de Rosellen Brown. Fotografia: Luciano Tovoli. Montagem: Lee Percy. Música: Howard Shore. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Gretchen Rau. Produção executiva: Roger Birnbaum, Joe Roth. Produção: Susan Hoffman, Barbet Schroeder. Elenco: Meryl Streep, Liam Neeson, Edward Furlong, Julia Weldon, Alfred Molina, Daniel von Bargen, John Heard. Estreia: 23/02/96

Nem sempre é possível confiar plenamente nos créditos iniciais de um filme. É isso que prova o drama "Antes e depois", lançado sem muito alarde em 1996 - talvez porque nem mesmo seus produtores acreditassem que o filme pudesse angariar mais do que indiferença apesar de sua equipe. Na abertura do filme, baseado em um romance inédito no Brasil, desfilam nomes capazes de impressionar qualquer cinéfilo: Meryl Streep e Liam Neeson liderando o elenco, Ted Tally - oscarizado por "O silêncio dos inocentes" - no roteiro, e Barbet Schroeder - diretor indicado à estatueta da Academia por "O reverso da fortuna" - no comando de todos. Acontece que, apesar de tantos talentos individuais, o resultado final é pálido e quase apático. Um drama com elementos policiais que nem comove nem sustenta seu suspense. E que vale a pena somente pelo prazer que sempre é assistir a uma atuação de Streep.

Aliás, nem mesmo ela, com seu talento excepcional, consegue dar muita consistência à uma trama que começa instigante e vai se esvaziando no decorrer dos minutos. Mesmo levantando discussões interessantes - até onde você iria para proteger seus filhos? até que ponto a verdade é tão importante a ponto de comprometer um futuro? - o filme de Schroeder acaba resvalando na superficialidade, ficando na indecisão entre uma boa trama policial e um potente drama familiar. Enquanto sua primeira metade promete uma boa dose de adrenalina e tensão, a segunda cai na banalidade, quase na preguiça. Difícil é crer que um roteirista como Tally e um diretor como Schroeder tenham conseguido realizar um obra tão desprovida de personalidade. Com um visual de telefilme - e uma trama igualmente morna - "Antes e depois" até segura uma sessão descompromissada, mas fica devendo ao espectador tudo aquilo que promete em seu primeiro ato.


A trama começa mostrando a rotina diária de um casal da classe média de uma pequena cidade do interior americano. Lá, o artista plástico Ben Ryan (Liam Neeson) e a pediatra Carolyn (Meryl Streep) criaram os dois filhos como um exemplo para a comunidade. Tal perfeição é abruptamente destroçada quando uma jovem adolescente é encontrada morta - com sinais de uma violenta agressão - e o filho mais velho dos dois, Jacob (Edward Furlong), passa a ser considerado suspeito do crime: namorado da vítima, ele foi visto com ela pouco antes de sua morte e, não sendo o bastante, está desaparecido da cidade. Em pânico, Ben encontra manchas de sangue no carro do filho e destrói algumas pistas que podem levar à polícia até ele. Hostilizados pelos moradores, Ben e Carolyn ainda são obrigados a encarar um julgamento quando o rapaz retorna, trazendo com ele uma versão da história que pode ou não ser a verdadeira.

O maior problema de "Antes e depois" é justamente sua indecisão - ou mudança de foco na segunda metade, o que no final das contas dá no mesmo. Enquanto a primeira hora do filme mantém o interesse do espectador com as investigações do caso, provocando nele uma curiosidade natural, sua segunda metade não apenas destrói o suspense com uma sequência anticlimática que elucida o crime da maneira menos excitante possível como inicia um drama ao estilo "Você decide" que nem mesmo a presença de Alfred Molina como um advogado de sucesso consegue salvar. Quando Ben e Carolyn substituem seu primeiro conflito - a busca pelo filho e a dúvida acerca de sua inocência - pelo segundo - o que deve ser revelado à justiça - o filme perde seu encanto e seu ritmo (já pouco empolgante). Resta ao público apenas o trabalho sempre intenso de Meryl Streep e Liam Neeson - já que a Edward Furlong pouco cabe mais do que manter o olhar chapado e metido a perigoso que ele utilizou anteriormente em "Cemitério maldito 2". Poderia - e deveria - ser bem melhor.

quarta-feira

UM DRINK NO INFERNO

UM DRINK NO INFERNO (From dusk till dawn, 1996, Dimension Films, 104min) Direção: Robert Rodriguez. Roteiro: Quentin Tarantino. Fotografia: Guillermo Navarro. Montagem: Robert Rodriguez. Música: Graeme Revell. Figurino: Graciela Mazón. Direção de arte/cenários: Cecilia Montiel/Felipe Fernandez del Paso. Produção executiva: Lawrence Bender, Robert Rodriguez, Quentin Tarantino. Produção: Gianni Nunnari, Meir Teper. Elenco: Harvey Keitel, George Clooney, Juliette Lewis, Quentin Tarantino, Ernest Liu, Salma Hayek, Cheech Marin, John Hawks, Danny Trejo, Tom Savini, Kelly Preston, Michael Parks. Estreia: 19/01/96

Em 1995, o ator George Clooney estava começando a sentir o gostinho da fama: graças ao charmoso pediatra Doug Ross, seu personagem na telessérie "ER - Plantão médico", o sobrinho da cantora Rosemary Clooney finalmente era reconhecido nas ruas e era festejado pelo público - coisas que outros trabalhos em seu currículo anterior, como o trash "A volta dos tomates assassinos" (88), não havia permitido até então. Sabendo que o próximo passo em direção ao reconhecimento artístico seria fazer a difícil transição para o cinema, ele demonstrou um raro senso de oportunidade durante as gravações do último episódio da primeira temporada, "Maternidade", fazendo amizade com seu diretor. O diretor, que havia sido incensado em seu filme de estreia, estava a caminho de ganhar a Palma de Ouro no Festival de Cannes com seu novo trabalho - que também lhe daria o Oscar de roteiro original - e não demorou para que uma nova oportunidade de parceria surgisse entre eles. O diretor era Quentin Tarantino e quando um de seus futuros projetos ficou sem ator principal - depois que John Travolta, Tim Roth, Steve Buscemi e Christopher Walken o recusaram por problemas de agenda - o nome de Clooney surgiu como uma possibilidade a ser considerada.

Deixando de lado a ideia de dirigir seu roteiro de "Um drink no inferno" - o tal novo projeto no qual ele acumularia os créditos de roteirista e ator - Tarantino passou a bola para seu amigo Robert Rodriguez, outro prodígio que a indústria hollywoodiana incorporou depois do sucesso de um filme feito com apenas sete mil dólares ("El mariachi"). Entusiasta do cinema trash, feito com poucos recursos e muita imaginação, Rodriguez comprou a ideia de ter Clooney como protagonista e, com base em um roteiro que misturava bandidos cruéis e vampiros ainda mais sanguinolentos, criou um cult movie instantâneo, que tornou-se, guardadas as devidas proporções, o primeiro grande sucesso do galã da televisão em sua carreira cinematográfica - que, a partir daí, seria uma das mais sólidas e respeitadas de Hollywood. Já Tarantino, na ocasião da estreia do filme, já estava consagrado com o sucesso incontestável de "Pulp fiction, tempo de violência".


Na verdade, se olharmos com atenção, "Um drink no inferno" é uma espécie de prévia do que Tarantino e Rodriguez fariam em 2010, com o fracassado "Grindhouse" - uma sessão dupla de filmes baratos que naufragou nas bilheterias americanas e foi distribuído pelo resto do mundo como produtos isolados: é um filme que muda radicalmente de gênero, estilo de narrativa e heróis a partir de sua segunda metade, pegando o público de surpresa de uma tal forma que não lhe permite nem ao menos pensar a respeito. É como se a primeira parte fosse dirigida por Tarantino - estão ali muitas de suas características, desde longos diálogos até a forma politicamente incorreta de tratar seus personagens - e a segunda conduzida pelo insano Rodriguez - também facilmente reconhecível com sua tendência ao kitsch, à violência gráfica mas claramente fictícia e a escalação de nomes como Cheech Marin e o mestre da maquiagem Tom Savini. O melhor de tudo, porém, é que o que poderia se tornar um samba do criolo doido funciona que é uma beleza. "Um drink no inferno" é uma deliciosa viagem bagaceira ao deserto americano, com direito a muitos tiros, sangue e um humor pra lá de negro.

Mas o que pode ser dito a respeito da trama de "Um drink no inferno" sem que aqueles que nunca o assistiram percam o sabor de surpresa? Bem, a trama começa apresentando os irmãos Gecko, dois assaltantes de banco pouco afeitos a sutilezas na hora de cometer seus crimes: Seth (Clooney) ainda é menos violento, mas Richard (Quentin Tarantino) é um psicopata estuprador que não pensa duas vezes antes de deixar que seus instintos assassinos aflorem. A caminho do México, onde vão entregar o produto de seu último trabalho a um sócio, eles sequestram a família de Jacob Fuller (Harvey Keitel), pastor que abandonou o ministério após a morte da esposa. Prometendo libertar a ele e seus dois filhos - incluindo a jovem Kate (Juliette Lewis), por quem Richard sente-se inevitavelmente atraído - assim que chegarem à fronteira, Seth acaba entrando, junto com todos, no Titty Twister, um bar de aparência decadente com shows eróticos e frequentadores com cara de poucos amigos. E é justamente nesse bar que uma reviravolta - no roteiro e na trajetória de todos - transforma a viagem em uma aventura das mais bizarras.

Engraçado, violento, exagerado e mostrando uma Salma Hayek nos limites da sensualidade, "Um drink no inferno" é um deleite para quem busca entretenimento e diversão atípicos. É só deixar o senso crítico de lado e se entregar à competente bobagem orquestrada por Tarantino e Rodriguez.

terça-feira

OLHO POR OLHO

OLHO POR OLHO (Eye for an eye, 1996, Paramount Pictures, 104min) Direção: John Schlesinger. Roteiro: Amanda Silver, Rick Jaffa, romance de Erika Holzer. Fotografia: Amir Mokri. Montagem: Peter Honess. Música: James Newton Howard. Figurino: Bobbie Read. Direção de arte/cenários: Stephen Hendrickson/Jan K. Bergstrom. Produção: Michael I. Levi. Elenco: Sally Field, Ed Harris, Kiefer Sutherland, Joe Mantegna, Philip Baker Hall, Keith David, Beverly D'Angelo, Charlayne Woodard. Estreia: 12/01/96

Desde que Charles Bronson vingou a morte da família no cultuado "Desejo de matar", de 1972, a justiça pelas próprias mãos tornou-se um assunto recorrente no cinema americano, mas normalmente como tema de filmes de orçamento limitado, com atores do segundo time e diretores pouco afeitos a objetivos outros que não lucrar com o desejo ilimitado da plateia em saborear o sangue marginal de vilões cruéis e dotados de todo o maniqueísmo de que um roteirista é capaz. Por isso não deixa de ser surpreendente ver uma atriz do nível de Sally Field e um diretor como John Schlesinger - ambos respeitados e vencedores do Oscar - envolvidos em "Olho por olho", um drama de suspense que, no fundo e apesar de contar com nomes de prestígio nos créditos, não passa de uma versão menos trash das dezenas de filmes do estilo. O fato de ser baseado em um livro não impede o roteiro de tropeçar em todos os clichês possíveis e só mesmo a presença da sempre carismática Sally Field impede a produção de soar como mais um telefilme barato.

Dirigido no piloto automático por John Schlesinger - que no passado comandou o clássico moderno "Perdidos na noite" (69) - "Olho por olho" peca principalmente por não acrescentar nada ao que já é quase um subgênero do cinema norte-americano. Seu filme não é um drama marcante, nem tampouco um suspense aterrorizante. Não desperta discussões a respeito de seu tema ou permanece na mente do espectador após o final da sessão. E é justamente essa falta de ousadia ou personalidade que joga no lixo todas as possibilidades da história, já não tão original. Karen McCann (Sally Field, boa atriz mas desperdiçada em um papel sem grandes nuances) leva uma vida pacata e feliz ao lado do marido, Mack (Ed Harris) e das duas filhas, Julie (Olivia Burnette) - do seu primeiro casamento - e Megan (Alexandra Kyle). Essa vida normal sofre um violento baque quanto Julie é estuprada e morta em casa, praticamente diante dos olhos de sua mãe, que ouve tudo pelo celular. A dor da perda logo é amenizada quando a polícia prende o criminoso, Robert Doob (Kiefer Sutherland, exercitando mais uma vez seu lado maligno), mas tudo vai por terra quando ele é absolvido por questões técnicas. Revoltada, Karen entra em um grupo de ajuda a pais na mesma situação e, escondida do marido, resolve vingar-se por conta própria do assassino.


Contando com a ajuda de dois colegas do grupo, Karen arruma uma arma, entra em aulas de defesa pessoal e tiro, enquanto inicia uma relação de confiança e amizade com outra integrante, Angel (Charlayne Woodard), que perdeu um filho pequeno em um assalto. Quando Doob passa a desconfiar das ideias de Karen - que ronda sua vizinhança como forma de planejar sua morte - as coisas ficam ainda piores: sentindo que o marginal também não hesitará em atacar a pequena Megan como represália, ela abre mão dos conselhos do marido e do bom-senso para vingar-se em grande estilo. Nem mesmo uma surpresa na sua relação com Angel a demove da ideia, que toma forma definitiva quando ela manda a família passar uma noite fora da casa onde vivem.

Sem grandes surpresas que justifiquem sua realização - o desfecho é anti-climático e a forma encontrada por Karen de sair da história de mãos limpas não chega a ser exatamente original - "Olho por olho" é o tipico filme que vale exclusivamente por seu elenco, repleto de talentos isolados que valorizam o produto final. Sally Field substituiu Jamie Lee Curtis e não precisa provar seu talento dramático no mínimo desde seu primeiro Oscar, por "Norma Rae" (79) e, apesar de ser subaproveitado como o marido da protagonista - que faz pouco mais do que ficar a seu lado durante seus momentos de crise emocional - Ed Harris segura com competência o nível de interpretação de Field, e Kiefer Sutherland mostra mais uma vez porque era um dos vilões preferidos de Hollywood antes de virar o herói Jack Bauer na série televisiva "24 horas". É o trabalho dos três que faz de um filme apenas médio uma sessão razoavelmente interessante.

segunda-feira

OTHELLO

OTHELLO (Othello, 1995, Castle Rock Entertainment, 123min) Direção: Oliver Parker. Roteiro: Oliver Parker, peça teatral de William Shakepeare. Fotografia: David Johnson. Montagem: Tony Lawson. Música: Charlie Mole. Figurino: Caroline Harris. Direção de arte/cenários: Tim Harvey. Produção executiva: Jonathan Olsberg. Produção: David Barron, Luc Roeg. Elenco: Laurence Fishburne, Kenneth Branagh, Irène Jacob, Nathaniel Parker, Michael Maloney, Anna Patrick, Michael Sheen, Nicholas Farrell, Indra Ové. Estreia: 15/12/95

Os anos 90 redescobriram Shakespeare. Ao menos no cinema, a metade da década presenteou os cinéfilos com várias adaptações da obra do bardo, que iam desde versões clássicas - como aquelas comandadas por Kenneth Branagh, que deu início ao movimento com seu "Henry V" ainda em 1989 - até subversões bem-sucedidas - caso da lisérgica visão de "Romeu + Julieta" dirigida pelo australiano Baz Luhrmann e que deu o empurrão definitivo na carreira de Leonardo DiCaprio. Dentre tantas opções, porém, um dos maiores destaques foi o lançamento de "Othello", dirigido por Oliver Parker. Menos por suas inúmeras qualidades, porém, o que mais chamou a atenção da crítica e do público foi o fato de, pela primeira vez na história do cinema, o protagonista - o famoso mouro de Veneza - ter sido interpretado por um ator negro, Laurence Fishburne. Até então, nomes consagrados como Orson Welles já haviam emprestado seu talento para o papel, mas por melhores atores que fossem, nenhum deles injetou ao trágico soldado tanta verdade quanto Fishburne, que parece ter nascido para interpretá-lo.

Vindo de uma indicação ao Oscar por seu desempenho como Ike Turner em "Tina" (92), Laurence Fishburne empresta a seu Othello uma fúria visceral e uma ternura apaixonada que somente um ator de grandes recursos consegue transmitir sem parecer inverossímil ou incoerente. Sua transformação de doçura em ira homicida acontece diante dos olhos do espectador de forma orgânica, ainda que seja extremamente difícil a qualquer roteirista de cinema fazer com que todas as intrigas criadas por Shakespeare - que funcionam às mil maravilhas em um palco - soem críveis a um público tão acostumado às modernidades do cinema hollywoodiano. Por isso, não deixa de ser louvável também o trabalho de Oliver Parker - que depois adaptaria Oscar Wilde em "O marido ideal" (99), "Armadilhas do coração" (01) e "O retrato de Dorian Gray" (09) - em não deixar que o ritmo de teatro clássico afugente a plateia. Temperando a história de ciúme, inveja e violência com algumas doses de sensualidade e dirigindo seu elenco com segurança, ele consegue melhores resultados, por exemplo, que Richard Loncraine, que apesar do trabalho irretocável de Ian McKellen, deixou sua versão de "Ricardo III" um tanto confusa para a audiência do século XX.


E o roteiro de Oliver Parker não tem nada de confuso, deixando tudo o mais simples possível sem fugir do texto original. Othello (Laurence Fishburne) é um general de Veneza valorizado por seus talentos e sua seriedade profissional. Porém, quando ele promove o jovem Cássio (Nathaniel Parker, irmão do diretor) a seu braço-direito em detrimento de Iago (Kenneth Branagh), que ambicionava o cargo, ele sem querer arma sua própria derrota pessoal. Consumido pela inveja de Cássio e pelo ódio pelo chefe - que vê nele um homem de absoluta confiança - Iago dá início a uma bem urdida intriga que põe em dúvida a fidelidade da esposa de Othello, a bela Desdêmona (a francesa Irène Jacob em seu primeiro filme em língua inglesa). Torturado pela desconfiança de um caso de sua mulher - branca, nobre, de boa família e boa educação - com Cássio, o imponente Othello se deixa levar pelas mentiras de Iago, o que conduz todos a uma tragédia.

Traduzindo em belas imagens um dos textos mais poderosos de Shakespeare, Oliver Parker tem também como seu maior trunfo no trabalho espetacular de Kenneth Branagh, o irlandês que substituiu Laurence Olivier como o embaixador não-oficial das obras do dramaturgo no cinema. Às vésperas de lançar uma versão definitiva de "Hamlet" - com o texto integral e quase quatro horas de duração - Branagh está absolutamente brilhante na pele do invejoso Iago, um dos papéis mais complexos do teatro mundial. Sua experiência nos palcos permite a ele que transforme em suas as palavras do vilão, dando a cada uma delas o peso próprio, a intenção adequada e o ritmo correto. Assim como é Iago quem comanda a ação da história, é o ator quem conduz o filme, apesar das grandes atuações de Fishburne e Jacob. Toda vez que está em cena ele mostra porque o bardo ainda é tão essencial, atual e imprescindível.

domingo

FERIADOS EM FAMÍLIA

FERIADOS EM FAMÍLIA (Home for the holidays, 1995, Polygram Filmed Entertainment/Paramount Pictures, 103min) Direção: Jodie Foster. Roteiro: W. D. Richter, conto de Chris Radant. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Lynzee Klingman. Música: Mark Isham. Figurino: Susan Lyall. Direção de arte/cenários: Andrew McAlpine/Barbara Drake. Produção executiva: Stuart Kleinman. Produção: Jodie Foster, Peggy Rasjki. Elenco: Holly Hunter, Robert Downey Jr,. Anne Bancroft, Charles Durning, Dylan McDermott, Geraldine Chaplin, Steve Guttenberg, Cynthia Stevenson, David Straithairn, Claire Danes. Estreia: 03/11/95

Em sua segunda incursão como diretora, Jodie Foster não quis afastar-se muito da temática de sua estreia, o drama doméstico "Mentes que brilham". "Feriados em família", uma crônica agridoce sobre as difíceis porém indeléveis relações entre pais, filhos e irmãos mostra que a atriz/diretora/produtora amadureceu artisticamente ainda mais nos quatro anos que separam seus dois trabalhos, mas esbarra em uma certa frieza que contrasta com o calor humano demonstrado em seu primeiro filme. Equilibrando um senso de humor amargo com um elenco de grandes atores, ela constrói um retrato sem exageros de um núcleo familiar cuja união está nas diferenças e, apesar da irregularidade, comprova que sua transição para o lado de trás das câmeras não foi apenas um capricho vaidoso.

Baseado em um conto de Chris Radant, "Feriados em família" se passa no mais tradicional feriado norte-americano, o Dia de Ação de Graças, quando - ao menos segundo o cinema hollywoodiano - todas as diferenças acumuladas durante o ano todo são exorcizadas em volta da farta mesa de jantar. E para a protagonista Claudia Larson (Holly Hunter) a coisa não será nada fácil: além de encarar as eternas discussões familiares, ela está passando por uma das piores crises da sua vida. Não só perdeu o emprego e saiu dele trocando um inesperado beijo com seu sexagenário ex-patrão como acaba de receber da única filha, a adolescente Kitt (Claire Danes), a notícia de que ela está decidida a perder a virgindade com o namoradinho. Chegando na pequena cidade onde moram seus pais, ela precisa enfrentar a insistência da mãe, Adele (Anne Bancroft), de que se entenda com um amigo de infância apaixonado por ela, Russell (David Straithairn) e voltar a ser tratada como adolescente pelo pai, Henry (Charles Durning). Sua pressão só diminui com a chegada do irmão caçula, Tommy (Robert Downey Jr.), homossexual assumido que traz à tiracolo um amigo, Leo Fish (Dylan McDermot), por quem ela logicamente sente-se atraída.


Não bastasse tudo isso, a reunião familiar fica completa quando entra em cena Glady (Geraldine Chaplin) - que mantém escondido um segredo há décadas e não se importa em revelá-lo à hora da refeição - e a terceira filha de Adele e Henry, a reprimida Joanne (Cynthia Stevenson), que se orgulha de ter uma família sólida ao lado do marido Walter (Steve Guttenberg) e mantém uma relação de desprezo com a vida sexual do irmão. A noite torna-se cada vez mais tumultuada quando as diferenças passam a ser resolvidas da pior maneira possível - o que inclui até um inesperado banho de recheio de peru. Nesse meio tempo, Claudia não consegue evitar a aproximação com Leo - a quem julga ser o novo parceiro do irmão, que também tem uma revelação a fazer a todos no final do feriado.

Ao contrário do que fez em "Mentes que brilham", Jodie Foster não busca a emoção da plateia com "Feriados em família". Sua opção pelo humor - sutil, quase imperceptível em sua discrição - mostra um distanciamento bastante saudável em relação às complicadas teias familiares descritas no roteiro, que vai tornando-se mais interessante à medida em que a trama realmente começa a mostrar seus desdobramentos e os personagens vão se despindo de suas cascas e mostrando suas dores e delícias. São nesses momentos, em que a individualidade de cada um vem à tona, que o filme mostra a que veio e Foster deixa claro seu maior talento como cineasta: dirigir atores. Sendo um drama centrado em personagens - mais do que em acontecimentos - "Feriados em família" depende quase que exclusivamente do elenco e sua escolha não poderia ter sido mais feliz: não há um único elo fraco entre todos os atores que, cada um à sua maneira, transmite toda a gama de sentimentos necessários para manter aceso o interesse da plateia.

Holly Hunter e Anne Bancroft - ambas premiadas com o Oscar por trabalhos anteriores e atrizes consagradas - roubam a cena sem precisar muito esforço, enquanto Robert Downey Jr. (que fez o filme inteiro à base de heroína, para tristeza de Foster) comprova que sempre foi um ator de imenso talento, felizmente reconhecido e recuperado a tempo de tornar-se popular. E não deixa de ser delicioso ver em cena uma atriz como Geraldine Chaplin, perfeita em seu timing de tia maluca que é bem menos demente do que todos pensavam. É ela, junto com todos os atores que transformam a sensação de assistir-se a "Feriados em família" em uma noite de (bom) teatro.

sábado

RICARDO III

RICARDO III (Richard III, 1995, Mayfair Entertainment International, 104min) Direção: Richard Loncraine. Roteiro: Ian McKellen, Richard Loncraine, peça teatral de William Shakespeare. Fotografia: Peter Biziou. Montagem: Paul Green. Música: Trevor Jones. Figurino: Shuna Harwood. Direção de arte/cenários: Tony Burrough. Produção executiva: Maria Apodiacos, Ellen Dinerman Little, Ian McKellen, Joe Simon. Produção: Stephen Bayly, Lisa Katselas Paré. Elenco: Ian McKellen, Annette Bening, Robert Downey Jr., Jim Broadbent, Kristin Scott Thomas, Nigel Hawthorne, John Wood, Maggie Smith, Jim Carter, Dominic West. Estreia: 20/8/95 (Brasil)

2 indicações ao Oscar: Figurino, Direção de Arte/Cenários

De todas as polêmicas que envolvem o dramaturgo inglês William Shakespeare - desde sua sexualidade até a autoria verdadeira de suas obras - duas certezas emergem soberanas sempre que um filme baseado em alguma peça sua chega aos cinemas: a perenidade de sua percepção da alma humana e a estrutura sempre moderna de seus textos, que permite que qualquer adaptação mantenha o espírito do original intocado. Um perfeito exemplo dessa afirmação é "Ricardo III", que o ator Ian McKellen levou dos palcos para as telas em 1995. Baseado em uma montagem ousada que alterava a data da ação para os primórdios da ascensão do nazismo (incutindo assim uma crítica política que em nada diminui o impacto da trama) e enxugava o texto em cerca de 50%, o filme de Richard Loncraine é um triunfo artístico, mas peca em ditar o ritmo necessário que poderia fazer dele uma das mais excitantes transposições do bardo para o cinema.

McKellen, também autor do roteiro, está espetacular como o personagem-título - reza a lenda que ele perdeu uma indicação ao Oscar 96 por apenas dois votos - o deformado e vil irmão caçula do Rei Edward (John Wood) que, na Europa dos anos 30, cobiça o trono da Inglaterra a ponto de urdir intrigas e assassinatos para alcançá-lo. Frio e cruel, ele não hesita em incluir até mesmo outro irmão, Clarence (Nigel Hawthorne), entre as vítimas que faz rumo ao poder. Sua trajetória sangrenta, porém, encontra firme resistência na Rainha Elizabeth (Annette Bening) - tornada americana na adaptação de Loncraine - e no irmão dela, Lord Rivers (Robert Downey Jr.), a quem ele considera dois arrivistas sociais. Casado com a bela Lady Anne (Kristin Scott Thomas), viúva de uma suas vítimas, Richard não medirá esforços em atingir seu objetivo e tornar-se um monarca ditatorial e fascista.


Com cuidadosa reconstituição de época - foi indicado aos Oscars de figurino e direção de arte - "Ricardo III" é uma produção que enche os olhos, conquistando o espectador logo de cara com uma sequência de ação empolgante que apresenta seu protagonista já mostrando seu lado maligno - no que muito colabora o olhar ensandecido de McKellen, um dos grandes atores de seu tempo. Conforme a história avança, no entanto, algo parece sair do lugar. Talvez os cortes no texto original de Shakespeare tenham sido exagerados, pois em vários momentos fica a impressão clara de que algo aconteceu e não foi explicado à plateia. Esse sentimento de confusão permanece até o final, e essa confiança do cineasta no conhecimento prévio do público da história que está sendo contada acaba por prejudicar sua narrativa. Não fica claro, por exemplo, os motivos que levam o protagonista a odiar tanto a Lord Rivers - exceto, lógico, pelo fato de ele ser o cunhado do rei. Tampouco é explicado o motivo que leva Lady Anne a aceitar desposar Ricardo, a despeito de ele ser o assassino de seu marido.

Essas falhas no roteiro de "Ricardo III" terminam por ser o calcanhar de Aquiles da obra, de resto um trabalho exemplar de grandes atuações e um texto poderoso enfatizado por um desenho de produção impecável e luxuoso. Shakespeare sabia como ninguém burilar as ambições e desejos humanos e poucos personagens seus são tão absurdamente apavorantes em sua sinceridade quanto o rei Ricardo, que encontra na atuação do monstro Ian McKellen a personificação ideal. Nem seu ritmo um tanto irregular apaga o brilho de seu desempenho.

sexta-feira

ENQUANTO VOCÊ DORMIA

ENQUANTO VOCÊ DORMIA (While you were sleeping, 1995, Hollywood Pictures/Caravan Pictures, 103min) Direção: Jon Turteltaub. Roteiro: Daniel G. Sullivan, Fredric LeBow. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Bruce Green. Música: Randy Edelman. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Steve Barron, Arthur Sarkissian. Produção: Roger Birnbaum, Joe Roth. Elenco: Sandra Bullock, Bill Pullman, Peter Gallagher, Jack Warden, Peter Boyle, Glynis Johns, Micole Mercurio, Michael Rispoli, Ally Walker, Monica Keena. Estreia: 21/4/95

Em 1995 não havia jovem atriz mais quente em Hollywood do que Sandra Bullock. Vinda do inesperado sucesso de "Velocidade máxima", ela tornou-se a escolha de dez entre dez produtores para ficar com os papéis que previamente eram oferecidos à Julia Roberts, então em um momento delicado da carreira que só seria superado com o êxito comercial de "O casamento do meu melhor amigo", em 1997. Foi assim que Bullock - uma atriz não mais que mediana, mas carismática o suficiente para agradar tanto ao público masculino quanto ao feminino - segurou nas costas a polpuda bilheteria de "Enquanto você dormia", uma comédia romântica simples mas eficiente, e assumiu o posto de uma das atrizes mais bem pagas do cinema americano. E pensar que, na primeira versão do roteiro, seu personagem era masculino...

Explica-se: quando o roteiro de "Enquanto você dormia" chegou às mãos dos executivos dos estúdios - aqueles mesmos engravatados que dão palpites infelizes e via de regra estragam boas ideias com sua obsessão por lucros - ele contava a história de um homem apaixonado que fingia ser noivo de uma mulher em coma. Como a premissa soava um tanto assustadora - em especial em tempos onde patrulhas ideológicas começavam a se espalhar pelos quatro cantos do mundo - a ideia para tirar o roteiro do papel foi inverter os gêneros. O resultado? Uma deliciosa história de amor pontuada por uma sucessão de mal-entendidos engraçados e leves que lotou as salas de cinema e, além de confirmar o status de Bullock como nova namoradinha da América, revelou os dotes de galã de Bill Pullman, um ator até então relegado a papéis pouco glamourosos e que, no ano seguinte, seria um dos astros do megasucesso "Independence day", de Roland Emmerich.


Seguindo a tradição das comédias românticas passadas nas festas de Natal, "Enquanto você dormia" começa mostrando a vida solitária e tediosa da tímida Lucy Moderatz (Sandra Bullock), que trabalha coletando os tíquetes da estação de trens de Chicago. Seus dias pacatos são preenchidos pela fantasia que nutre de viver uma história de amor com um dos passageiros frequentes, o calado Peter Callahan (Peter Gallagher), a quem vê todos os dias a caminho do trabalho. Às vésperas do Natal, acontece o impensado: Peter é assaltado e jogado nos trilhos do trem. Desesperada, Lucy acaba salvando-o de uma morte certa, mas não de um coma que o deixa inconsciente. Para piorar, por um mal-entendido, ela é confundida como noiva do rapaz, que mantém uma relação um tanto distante da família. Adotada carinhosamente por todos - um grupo de pessoas doces e engraçadas que veem na aproximação com ela uma forma de manter-se perto do filho - Lucy se vê envolvida em uma mentira que vai tomando maiores proporções conforme os dias avançam. Tudo se complica, porém, quando dois novos elementos se unem à trama: a verdadeira noiva de Peter, uma dondoca chamada Ashley Bacon (Ally Walker) e o irmão dele, Jack (Bill Pullman), que trabalha com o pai enquanto não tem coragem de criar o próprio negócio e se apaixona perdidamente pela futura cunhada - e é correspondido.

Recheado de bons momentos cômicos - cortesia do engraçadíssimo Michael Rispoli como Joe Jr., o vizinho apaixonado por Lucy - e realizado com simpatia e leveza, "Enquanto você dormia" mereceu o sucesso que fez. Escrito com sensibilidade e dirigido com mão leve por Jon Turteltaub é uma comédia romântica típica, com todos os ingredientes clássicos do gênero misturados com inteligência e estrelada por uma atriz perfeita para o papel - que, coincidência ou não, foi pensando anteriormente, para Julia Roberts.

quinta-feira

COLCHA DE RETALHOS

COLCHA DE RETALHOS (How to make an american quilt, 1995, Amblin Entertainment/Universal Pictures, 109min) Direção: Jocelyn Moorhouse. Roteiro: Jane Anderson, romance de Whitney Otto. Fotografia: Janusz Kaminski. Montagem: Jill Bilcock. Música: Thomas Newman. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Leslie Dilley/Marvin March. Produção executiva: Laurie MacDonald, Deborah Jelin Newmyer, Walter F. Parkes. Produção: Sarah Pilsbury, Midge Sanford. Elenco: Winona Ryder, Anne Bancroft, Ellen Burstyn, Dermot Mulroney, Kate Nelligan, Alfre Woodard, Claire Danes, Lois Smith, Jean Simmons, Kate Capshaw, Adam Baldwin, Maya Angelou, Dennis Arnt, Rip Torn, Johnathon Schaech, Samantha Mathis, Loren Dean, Melinda Dillon, Richard Jenkins, Jared Leto. Estreia: 06/10/95

Se é que existe um subgênero cinematográfico que se pode chamar "filme de mulher", o drama romântico "Colcha de retalhos" é um perfeito exemplar dele. Dirigido pela australiana Jocelyn Moorhouse com base no romance de Whitney Otto, o filme lembra a estrutura do belo "O clube da felicidade e da sorte", substituindo as gerações de nipo-americanas do filme de Wayne Wang por um grupo de amigas de meia-idade que se utilizam de suas experiências de vida para dar rumo à confusa neta de uma delas, que não se sente preparada para assumir o compromisso de um casamento - ao mesmo tempo em que termina uma tese para a faculdade. Com um invejável elenco feminino e dotado de sensibilidade e delicadeza, o filme de Moorhouse pode não ter feito muito barulho em seu lançamento, mas dentro do que se propõe não deixa de ser um entretenimento agradável, apesar de ser prejudicado por sua estrutura frágil e um tanto previsível.

Finn Todd (Winona Ryder, linda e disfarçando seus defeitos como atriz com carisma e simpatia) é uma jovem de 26 anos que acaba de ser pedida em casamento por seu namorado, o arquiteto Sam (Dermot Mulroney). Com medo das responsabilidades que vem junto com o compromisso, ela pede a ele um tempo e viaja para a fazenda de sua avó, Hy (Ellen Burstyn). Lá, ela espera concluir sua tese de mestrado, enquanto decide os rumos de sua vida. Suas dúvidas aumentam quando ela conhece o sedutor Leon (Johnathon Schaech), que balança seus alicerces com seu ar romântico que contrasta com a praticidade de Sam. No decorrer do verão, Finn - que tem como espelho de relacionamento o casamento frustrado dos pais - passa a conhecer as diversas histórias que circundam as amigas de sua avó e da irmã dela, Glady Joe (Anne Bancroft), que se reunem diariamente para confeccionar uma colcha de retalhos: cada uma delas, incluindo suas familiares, tem dramas e tragédias pessoais em seu passado, que ajudarão a jovem a decidir seu destino.


Apesar de ser a espinha dorsal do filme, a hesitação de Finn em entregar-se a uma vida adulta romanticamente estável é a parte menos interessante do trabalho de Moorhouse, talvez por não ser suficientemente explorada psicologicamente - a protagonista parece mais uma jovem mimada do que uma mulher realmente em busca de estabilidade emocional, apesar dos esforços de Winona Ryder, uma atriz limitada mas aqui razoavelmente convincente. São as tramas paralelas que a envolvem que fazem valer a pena assistir-se a "Colcha de retalhos", principalmente porque sempre é um prazer testemunhar os shows de interpretação de gente como Anne Bancroft e Ellen Burstyn, que, na pele de duas irmãs com um passado traumático, roubam sem muito esforço cada cena em que aparecem. O elenco veterano, aliás, está extremamente à vontade, provando à Hollywood que, se bons papéis para atrizes maduras são raros, não o são intérpretes de talento e carisma. Uma pena, porém, que tais atrizes - Lois Smith, Kate Nelligan, Melinda Dillon - tenham tão pouco tempo em cena.

No final das contas, "Colcha de retalhos" cumpre o que promete. É romântico, sincero, dramático sem exageros e bem interpretado. Não ousa nem surpreende, mas tampouco eram essas as intenções dos produtores e da diretora. Seu público-alvo certamente não tem do que se queixar. É um entretenimento simples e eficiente que tem, entre seus coadjuvantes juvenis, Claire Danes e Jared Leto em início de carreira. Talvez carregue no açúcar em alguns momentos, mas não tem contra-indicações.

quarta-feira

EPIDEMIA

EPIDEMIA (Outbreak, 1994, Warner Bros, 127min) Direção: Wolfgang Petersen. Roteiro: Laurence Dworet, Robert Roy Pool. Fotografia: Michael Ballhaus. Montagem: William Hoy, Lynzee Klingman, Stephen Rivkin, Neil Travis. Música: James Newton Howard. Figurino: Erica Edel Phillips. Direção de arte/cenários: William Sandell/Rosemary Brandenburg. Produção executiva: Duncan Henderson, Anne Kopelson. Produção: Gail Katz, Arnold Kopelson, Wolfgang Petersen. Elenco: Dustin Hoffman, Rene Russo, Morgan Freeman, Kevin Spacey, Cuba Gooding Jr., Donald Sutherland, Patrick Dempsey. Estreia: 06/3/95

Um filme sobre um ameaçador vírus capaz de matar em poucas horas - e que está perigosamente se espalhando pelos EUA - dirigido por Ridley Scott, estrelado por Robert Redford e Jodie Foster e chamado "Hot zone" estava em preparação na Fox quando a notícia de que uma produção similar estava em andamento na Warner. O fato de dois filmes semelhantes estarem em desenvolvimento nem é tão raro em uma terra de poucas ideias realmente originais quanto Hollywood, mas tornou-se uma batalha aberta, com os dois estúdios ansiosos pela primazia nas bilheterias. Porém, ao contrário do que acontece na maioria das vezes (quando mais de um filme sobre o mesmo assunto realmente chega a estrear e disputar público), "Epidemia", a produção da Warner, dirigida por Wolfgang Petersen e estrelada por Dustin Hoffman e René Russo acabou por abortar o trabalho de Scott, Redford e companhia e chegar sozinho às telas. Embalado pela epidemia do vírus Ebola na África poucos meses antes - um marketing macabro mas bastante eficiente - o filme se deu bem nas bilheterias, rendendo quase 200 milhões de dólares mundo afora.

Ficando com o papel que seria de Harrison Ford em uma primeira versão do roteiro, Dustin Hoffman faz sua estreia em um filme de ação na pele de Sam Daniels, um coronel do exército norte-americano encarregado de investigar o surgimento de uma epidemia de febre hemorrágica oriunda da África. Como responsável pelo USAMRIID (Instituto de Pesquisa Médica para Doenças Infecciosas dos EUA), ele alerta as autoridades sobre o possível alcance da doença em território americano, mas vê seus conselhos ignorados por seu superior, o General Billy Ford (Morgan Freeman), que afasta a possibilidade de uma epidemia em seu país. O que Daniels não sabe é que o mesmo Ford, em conluio com outro general, Donald McClintock (Donald Sutherland) já sabia da existência de um vírus semelhante, surgido no Zaire em 1967 - e que ambos juraram ter extinguido depois da ordem de explodir a aldeia que apresentava a doença, em uma ação secreta do governo. Vinte e cinco anos depois, porém, o vírus está de volta, transmutado, mais potente e ameaçando o país, onde chegou através de um pequeno macaco contrabandeado. Quando uma pequena cidade torna-se o centro da epidemia, cabe a Daniels impedir que a mesma decisão seja tomada: com a ajuda do jovem Major Salt (Cuba Gooding Jr.) e da ex-mulher Robby (René Russo) - cientista por quem ainda é apaixonado - ele tem que localizar o hospedeiro, encontrar uma cura e salvar a vida de centenas de pessoas.


Dividindo seu foco entre as pesquisas científicas, a busca pelas causas da epidemia, as conspirações governamentais de gabinete e as trágicas consequências da epidemia, o filme de Wolfgang Petersen surpreendentemente não se torna uma obra sem personalidade. O roteiro equilibrado permite à plateia que se envolva com cada uma das histórias contadas, que, unidas, formam um conjunto coeso e bastante interessante, especialmente porque escapa do sensacionalismo quase inevitável do tema. Petersen evita inclusive imagens muito gráficas, preferindo a sugestão ao invés do óbvio: claro que há cenas que mostram as vítimas agonizando e com o corpo perdendo sangue profusamente, mas até mesmo nesses momentos há uma elegância e uma discrição que o afasta dos slasher movies sanguinolentos. Não interessa ao diretor apavorar o público com imagens cruéis e sim prendê-lo na poltrona com uma história de tensão e ação com inteligência acima da média. E isso ele consegue sem fazer muita força.

A maior qualidade de "Epidemia", no entanto, vem do fato de ele conseguir ser um filme de puro entretenimento a respeito de um assunto sério e assustador. Sem a intenção de ser didático, ele é apenas um filme de ação, realizado com toda a competência de que um cineasta como Petersen é capaz. Além do mais, apresenta um elenco de competência indiscutível - além de Hoffman, Morgan Freeman e Donald Sutherland, há ainda um Kevin Spacey pré-consagração - e um senso de ritmo dos mais felizes. O terço final, quando Daniels está em vias de encontrar o macaco hospedeiro e o governo já está mandando aviões acabarem com a pequena cidade onde a epidemia está se descontrolando, é um primor de suspense, enfatizado pela trilha sonora de James Newton Howard e pela edição soberba, capaz de deixar qualquer espectador com a respiração suspensa. E, além de tudo, não é sempre que o público tem a chance de testemunhar um dos maiores atores do cinema - Dustin Hoffman - brincar de herói de filme de ação. Um diferencial a mais em um filme que cumpre o que promete.

terça-feira

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA

JEFFREY, DE CASO COM A VIDA (Jeffrey, 1995, The Booking Office, 92min) Direção: Christopher Ashley. Roteiro: Paul Rudnick, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Jeffery J. Tufano. Montagem: Cara Silverman. Música: Stephen Endelman. Direção de arte/cenários: Michael Johnston/Andrew Baseman. Produção executiva: Kevin McCollum. Produção: Mark Balsam, Mitchell Maxwell, Victoria Maxwell. Elenco: Steven Weber, Sigourney Weaver, Patrick Stewart, Victor Garber, Christine Baranski, Camryn Manheim, Kathy Najimy, Nathan Lane, Olympia Dukakis. Estreia: 04/8/95

Filmes como "Meu querido companheiro" (90) e "E a vida continua" (92) retrataram, com uma boa dose de melancolia e realismo, a devastação causada pela AIDS na comunidade gay norte-americana. A doença, que espalhou paranoia, preconceito e dor entre os homossexuais - até que assumiu o status de epidemia a ultrapassar os limites da sexualidade para encontrar suas vítimas - é também o motor propulsor de "Jeffrey, de caso com a vida", que, apesar do tema sombrio é, surpresa, uma comédia. Baseado em uma peça off-Broadway lançada em 1993, o filme de Christopher Ashley - que também comandou a montagem nos palcos - o filme brinca com os clichês relativos ao mundo gay sem desrespeitá-lo e, através da ironia e do humor debochado, tenta fazer um inventário das relações amorosas entre homens. Em alguns momentos até consegue atingir seus objetivos, mas acaba preso a uma irregularidade que o impede de se tornar melhor do que é.

Jeffrey, o protagonista vivido com gosto e carisma por Steven Weber - que em seguida seria corajoso o bastante para substituir Jack Nicholson em uma versão para a TV de "O iluminado", escrita pelo próprio Stephen King em formato de minissérie - é um ator desempregado que, para ganhar a vida, trabalha como garçons em eventos. Traumatizado com uma sequência de aventuras sexuais frustradas pelo medo da contaminação pelo vírus da AIDS, ele toma uma decisão radical: abdicar totalmente de sexo. Essa categórica decisão não é bem-vista nem por seus pais liberais nem tampouco por seu melhor amigo, Sterling (Patrick Stewart), cujo amante Darius (Bryan Batt) é soropositivo. Todos eles acreditam que o rapaz não precisa do celibato e sim de um novo amor. Esse novo amor surge na pele de Steve Howard (Michael T. Weiss), que ele conhece na academia e por quem imediatamente sente-se atraído. A atração e o apoio dos amigos, porém, não são o suficiente para Jeffrey, que tem medo de envolver-se em uma relação amorosa que pode acabar em dor e sofrimento.


É preciso louvar a coragem do dramaturgo e roteirista Paul Rudnick em transformar um tema tão pesado quanto a AIDS em uma comédia leve e despretensiosa: a sombra da doença paira densa sobre os personagens do filme, sempre lembrando-os de sua existência perniciosa, mas os diálogos e o desenvolvimento da trama fogem com destreza do dramalhão, até mesmo quando ele esmurra com força a porta. Patrick Stewart, por exemplo, usou a tristeza que sentiu ao ler o roteiro como elemento para uma cena dramática de "Jornada nas estrelas: generations" (94). Mas, talvez como maneira de exorcizar o tema, Rudnick preenche suas cenas com um humor ácido e recheado de referências culturais típicas do universo gay, como filmes musicais, programas de auditório cafonas e as mães exageradamente liberais - caso da personagem interpretada pela sempre sensacional Olympia Dukakis, que vive a mãe de um homem gay que se tornou lésbica (!!) e que está em vias de fazer uma operação de mudança de sexo.

Contada de forma episódica - o que enfraquece o desenvolvimento de seus personagens, até mesmo os principais - "Jeffrey" tem a seu favor também a participação especial de nomes consagrados em papéis pequenos. Sigourney Weaver brilha como uma espécie de palestrante de autoajuda a quem o protagonista recorre em seu desejo de aprovação - e que se mostra preconceituosa e arrogante. Patrick Stewart - ícone da série "Star Trek" e dos filmes "X-Men" - vive um gay extremamente afetado mas muito carinhoso e dedicado aos amigos e ao amante. Christine Baranski interpreta uma milionária que dá festas beneficentes como quem troca de sapatos. Victor Garber faz uma ponta como um viciado em sexo que participa do grupo que Jeffrey passa a frequentar. E Dukakis, como já citado, brilha como uma mãe orgulhosa do rebelde rebento. Essas participações dão credibilidade ao filme de Ashley - iniciante em cinema - e disfarçam suas inconsistências dramáticas. A criatividade de muitos momentos - criados para o palco e que nem sempre funcionam na transição para a tela grande - se perde na falta de coesão do resultado final, mas mesmo assim é refrescante ver a praga da AIDS sob um novo - e menos fatalista - ângulo.

segunda-feira

ESQUEÇA PARIS

ESQUEÇA PARIS (Forget Paris, 1995, Castle Rock Entertainment, 101min) Direção: Billy Crystal. Roteiro: Billy Crystal, Lowell Ganz, Babaloo Mandel. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Kent Beyda. Música: Marc Shaiman. Figurino: Judy Ruskin. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Seirton. Produção executiva: Peter Schindler. Produção: Billy Crystal. Elenco: Billy Crystal, Debra Winger, Joe Mantegna, Cynthia Stevenson, Richard Masur, Julie Kavner, William Hickey, Cathy Moriarty. Estreia: 19/5/95

Levando-se em consideração que um dos maiores sucessos da carreira de Billy Crystal foi a comédia romântica "Harry & Sally, feitos um para o outro", que ele estrelou ao lado de Meg Ryan em 1989, não é de estranhar que ele tenha tentado repetir a façanha quinze anos depois. Em "Esqueça Paris" ele não apenas aparece como protagonista masculino de uma história de amor recheada de sarcasmo e ironia: ele também é o diretor, o produtor e um dos roteiristas, ao lado dos então festejados Lowell Ganz e Babaloo Mandel. Vindo do sucesso modesto de "Mr. Saturday Night, a arte de fazer rir" (92), o cineasta Crystal mostra-se dotado de ritmo, inteligência, sensibilidade e seu tradicional bom humor, mas nada disso ajudou na carreira nacional e internacional do filme. Azar de quem perdeu. Seu filme é uma deliciosa comédia que, assim como "Harry & Sally", analisa de forma carinhosa/ácida/romântica, as relações amorosas em geral ao concentrar-se em uma única tram: a história de idas e voltas do casal Mickey Gordon (vivido pelo próprio Crystal) e Ellen Andrews (Debra Winger, esbanjando um insuspeito timing cômico).

Mickey é um voluntarioso árbitro de basquete que vive em Nova York. Ellen é funcionária de uma empresa de aviação e vive em Paris. O destino os apresenta quando ele precisa viajar até a França para enterrar o corpo do pai - um veterano de guerra com quem ele não mantinha a melhor das relações - e a companhia onde ela trabalha envia o caixão, por engano, para outro país. Afastado de suas funções devido a uma confusão em uma partida, Mickey resolve passar uma semana na capital francesa e Ellen se oferece para servir de guia em seus passeios. Não demora muito e logo eles estão apaixonados como nas melhores produções do gênero, com direito à música romântica, citações cinematográficas e paisagens deslumbrantes - além de, como não poderia de ser em se tratando de um filme de Billy Crystal, diálogos brilhantes e engraçadíssimos. Acontece que ela tem um grave impedimento para a continuidade do romance - além da distância física que os separa na vida cotidiana - e eles irão viver uma história de amor das mais atribuladas pelos anos seguintes.


Quanto menos se souber a respeito dos desdobramentos de "Esqueça Paris" melhor - ainda que ele continue saboroso mesmo quando revisto. Todos os empecilhos à felicidade entre Mickey e Ellen que surgem no desenrolar da trama soam orgânicos e realistas, apesar do tom cômico imposto pelo roteiro, que muitas vezes se sobressai aos elementos dramáticos. Carreira, família e dificuldades diversas se interpõem entre eles e o final feliz dos seus sonhos, mas sempre de forma leve e divertida, permitindo ao público um equilíbrio perfeito entre risadas e reflexões - equilíbrio muito ajudado pela química excelente entre o casal protagonista. Se Crystal já tinha mostrado seu lado conquistador/cínico ao lado de Meg Ryan quase uma década e meia antes, é Debra Winger quem se destaca, revelando uma faceta nova a seus fãs: solar e encantadora, ela brinca de Katharine Hepburn - uma mulher independente, batalhadora, de língua afiada - com uma classe e um carisma raros em sua carreira recheada de personagens dramáticos e densos. Talvez seja ela a maior qualidade de um filme repleto delas.

E entre as várias qualidades de "Esqueça Paris" está, sem dúvida, a estrutura com que o roteiro é montado: a história de Mickey e Ellen é contada ao público ao mesmo tempo em que é narrada à Liz (Cynthia Stevenson), que está prestes a casar-se com um dos melhores amigos de Mickey, o vendedor de carros Andy (Joe Mantegna). No decorrer do filme, não apenas Andy mas outros casais amigos - e conhecedores da complicada relação - vão acrescentando detalhes à deliciosa narração, com pontos de vista díspares e observações argutas sobre a vida social, a instituição do casamento e até mesmo sobre suas próprias vidas. Como prova da capacidade incrível de Crystal em criar personagens interessantes, até mesmo o garçom que serve a mesa dos personagens - vivido pelo ótimo Robert Constanzo - tem seus momentos de brilho, diante de um elenco coadjuvante excepcional que inclui Cathy Moriarty, Julie Kavner e Joe Mantegna em dias inspirados.

"Esqueça Paris" é um filme que merece ser descoberto e cultuado. Assim como "Harry & Sally", é inteligente, sensível, engraçado e dotado de um realismo sofisticado e banhado em delicadeza. Um dos melhores e mais subestimados filmes românticos dos anos 90.

domingo

UM SONHO SEM LIMITES

UM SONHO SEM LIMITES (To die for, 1995, Columbia Pictures Corporation, 106min) Direção: Gus Van Sant. Roteiro: Buck Henry, romance de Joyce Maynard. Fotografia: Eric Alan Edwards. Montagem: Curtiss Clayton. Música: Danny Elfman. Figurino: Beatrix Aruna-Pasztor. Direção de arte/cenários: Missy Stewart/Carol Lavoie. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, Jonathan Taplin. Produção: Laura Ziskin. Elenco: Nicole Kidman, Matt Dillon, Joaquin Phoenix, Casey Affleck, Illeana Douglas, Dan Hedaya, Kurtwood Smith, Wayne Knight, Alison Folland. Estreia: 20/5/95 (Festival de Cannes)

Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Nicole Kidman)

No livro "To die for", de Joyce Maynard, a protagonista - que sonha desesperadamente tornar-se famosa - declara que, se um filme fosse feito a respeito de sua vida, ela gostaria de ser interpretada pela atriz Nicole Kidman (à época do lançamento ainda conhecida mais como a esposa de Tom Cruise do que por seus dotes dramáticos). Coincidência ou destino, anos depois, quando o cineasta Gus Van Sant viu Meg Ryan pular fora da adaptação do romance de Maynard foi Kidman quem o procurou, ávida pela chance de estrelar o filme, por cujo roteiro ela havia se apaixonado perdidamente. Seu assédio a Van Sant funcionou e o Hollywood viu surgir uma estrela de primeira grandeza. Mesmo ignorada pelo Oscar, Nicole abocanhou o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical, recebeu elogios unânimes da crítica e, pela primeira vez desde que aportou no cinema americano mostrou que era bem mais do que um rosto lindo e um corpo desejável: ela era uma intérprete de verdade.

Vindo do fiasco crítico e comercial de "Até as vaqueiras ficam tristes" (93), um western lésbico estrelado por Uma Thurman, o diretor Gus Van Sant não poderia ter escolhido melhor o material para sua volta ao trabalho. Ácido e momentoso, o romance de Maynard brincava com o culto à celebridade, o desejo irracional por fama a qualquer custo e o desmoronamento da instituição do casamento com um humor delicioso, tom mantido no roteiro enxuto de Buck Henry, que consegue jogar com o suspense, o erotismo, o documentário e a comédia sem nunca embaralhar os gêneros. É crédito também de Henry - e um poucão da atuação de Kidman - conseguir fazer com que o público sinta-se conectado à protagonista apesar de todos os seus pecados e crimes. Poucas vezes o cinema americano mostrou uma personagem central feminina tão amoral, ambiciosa e fria como Suzanne Maretto. E poucas vezes o público ficou tão encantado com uma personagem desse naipe.


Morando na pequena cidade de New Hampshire, Suzanne Stone (uma Kidman loira e perigosa em sua sensualidade latente) tem como maior objetivo da vida ser famosa e sabe o que fazer para realizar seu intento. Em seu caminho para ser a âncora do telejornal local, porém, ela esbarra justamente na única pessoa que deveria estar a seu lado: o marido, Larry (Matt Dillon). Boa-praça e querido por todos, ele é o herdeiro de um pequeno restaurante na cidade, tem uma relação de extremo afeto com a família e é apaixonado pela esposa até o limite da quase cegueira. Com ambições bem menores do que as dela, ele deseja fazer uma reforma em seu negócio, ter filhos e viver uma tranquila e pacata vida de casado. Apavorada com tal possibilidade, Suzanne aproveita que está fazendo um documentário sobre a adolescência para a TV local para seduzir um de seus entrevistados, o rebelde Jimmy Emmett (Joaquin Phoenix), e convencê-lo a tirar Larry da jogada.

Uma femme fatale das mais atrevidas e cínicas, Suzanne Maretto chora cinicamente quando precisa mostrar-se arrasada, usa e abusa do poder de sedução para enlouquecer jovens no auge da testosterona, mente sobre o que for preciso e recorre até ao homicídio para conquistar seus objetivos. Sua absoluta falta de pudor acaba fazendo com que a personagem escape da esfera do trágico para atingir o cômico, o que é um acerto e tanto do roteiro e da direção. Ao dar leveza à trágica história que conta, Van Sant permite ao público um respiro de alívio que, mesmo sendo de viés, o afasta da tensão e do peso. Para isso, ele conta com a interpretação irretocável de Nicole Kidman, que deita e rola em um dos melhores papéis de sua carreira: além de extremamente sexy, ela transmite todas a complexidade da personagem sem nunca cair na caricatura ou no exagero. A seu lado, cabe a Matt Dillon e Joaquin Phoenix pontuar com correção um show de perfeito timing cômico e dramático.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...