MEU PRIMEIRO AMOR (My girl, 1991, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 102min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Laurice Elehwany. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Wendy Greene Bricmot. Música: James Newton Howard. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Linda Allen. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, David T. Friendly. Produção: Brian Grazer. Elenco: Anna Chlumsky, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtins, Macaulay Culkin, Griffin Dunne. Estreia: 27/11/91
No começo dos anos 1990, pouca gente estava mais na crista da onda do que Macaulay Culkin. Com o sucesso estratosférico de "Esqueceram de mim" (1990) - que arrecadou inacreditáveis 470 milhões de dólares ao redor do mundo -, o pequeno astro, então com apenas dez anos de idade era visto como uma mina de ouro, pelos estúdios e, como se soube mais tarde, principalmente pela família. Portanto, não chegou a surpreender que "Meu primeiro amor", uma comédia romântica infantojuvenil apenas simpática e sem grandes nomes no elenco tenha se tornado um êxito comercial tendo seu nome como principal chamariz. Mesmo sem o mesmo impacto de seu filme anterior - um fenômeno mundial que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Golden Globe -, a produção dirigida pelo pouco inspirado Howard Zieff confirmou seu status dentro da indústria (que seria ainda reforçado por "Esqueceram de mim 2" e "O anjo malvado") e, de quebra, levou milhares de fãs às lágrimas com sua história de amizade, amadurecimento e perdas. O que nem todo mundo percebeu, no entanto - ao menos na época do lançamento - é que, apesar de Culkin ter sido o principal ponto de interesse do filme, seu maior destaque atendia pelo nome de Anna Chlumsky. É ela que, tão jovem quanto seu colega mais famoso, carrega, com seu carisma e talento, a responsabilidade de encantar e emocionar as plateias - adulta e juvenil - com a história de Vada Sultenfuss.
No verão de 1972, Vada tem onze anos de idade e vive sozinha com o pai, Harry (Dan Ayckroyd), em uma pequena cidade da Pensilvânia. Esperta, hipocondríaca e alvo do despeito das meninas de sua idade, ela encontra consolo nas aulas de seu professor de Inglês, Mr. Bixler (Griffin Dunne), e em suas tardes com o melhor amigo, Thomas Sennett (Macaulay Culkin), também pouco popular e solitário. Órfã de mãe e obcecada com qualquer assunto relacionado à morte - em parte devido ao fato de seu pai ser dono de uma casa funerária -, Vada sofre com a falta de uma figura materna, mas vê sua rotina ser transformada com a chegada da excêntrica Shelley Devoto (Jamie Lee Curtis): contratada como maquiadora dos cadáveres/clientes de Harry, ela logo se torna interesse romântico do desajeitado viúvo e a nova configuração familiar abala o até então tranquilo cotidiano da menina, também em fase de autodescobertas. A princípio relutante em ter que dividir o amor do pai com outra mulher, Vada vai aos poucos percebendo que crescer muitas vezes é um processo doloroso, com perdas inevitáveis - ao mesmo tempo em que novas relações surgem e podem deixar o caminho menos árduo.
Lançado com o duvidoso título de "Meu primeiro amor" como forma de capitalizar em cima da presença bastante coadjuvante de Macaulay Culkin - ainda que seu nome original não seja exatamente um primor de criatividade, sendo apenas mais um exemplar de filmes batizados depois de sucessos musicais -, o filme de Howard Zieff não se limita apenas à história do pueril e encantador relacionamento entre Vada e Thomas, por mais que o marketing tenha se esmerado em explorá-lo e a memória afetiva do público assim o tenha percebido. A jovem protagonista, defendida com garra por Anna Chlumsky, tem o verão como rito de passagem, uma ponte de amadurecimento que vai além de um beijo rápido à beira de um lago. Nos poucos meses nos quais a história é contada, ela experimenta também a decepção romântica e ingênua com o professor adulto, o fato de que a solidão compulsória de seu pai tem data de vencimento, a percepção de que novas amizades podem estar onde menos se espera e, golpe de misericórdia, o encontro com a morte como algo bem mais palpável e cruel do que aquilo que, de certa forma, fazia parte de seu cotidiano. O roteiro não chega a aprofundar nenhuma dessas questões - afinal de contas, é apenas um filme com pretensões comerciais estrelado por duas crianças -, mas sua evidente sinceridade em tratar de relações humanas torna impossível não se deixar comover. Para isso ajuda o frescor do elenco - não apenas o infantil, mas também o adulto, liderado por Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis (reunidos oito anos depois do sucesso de "Trocando as bolas").
Vindo do fracasso retumbante de "Nada além de problemas" (1991) - que estrelou e dirigiu, Dan Aykroyd demonstra, em suas cenas, uma mescla bem equilibrada de sensibilidade e humor. Escolhido pelo produtor Brian Grazer depois que Steve Martin e Bill Murray recusaram o papel por causa de outros compromissos - e pelas dúvidas sobre a capacidade de Chevy Chase de realizar um bom trabalho dramático -, Aykroyd se situa no meio do caminho entre duas forças femininas de gerações distintas. Enquanto Chlmusky representa a inocência infantil, Jamie Lee Curtis oferece um lado sensual, maduro e maternal - uma figura que irá, definitivamente, moldar a persona adulta de Vada e colocar nos eixos uma estrutura familiar capenga. E é justamene do crescimento emocional da menina - o que inclui, logicamente, o tal primeiro do amor do título brasileiro - que se trata o filme de Zieff, e nesse ponto pode-se dizer que, se não é uma obra-prima, ao menos ele é honesto e delicado. Não à toa, tornou-se filme conforto de milhares de espectadores através dos anos.
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