NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99
Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?
Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.
Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.
Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga" é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.
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