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TODOS DIZEM EU TE AMO

TODOS DIZEM EU TE AMO (Everyone says I love you, 1996, Miramax Films/Buena Vista Pictures/Magnolia Productions, 101min) Direção e roteiro: Woody Allen. Fotografia: Carlo DiPalmo. Montagem: Susan E. Morse. Música: Dick Hyman. Figurino: Jeffrey Kurland. Direção de arte/cenários: Santo Loquasto/Elaine O'Donnell. Produção executiva: J.E. Beaucaire, Jean Doumanian. Produção: Robert Greenhut. Elenco: Woody Allen, Julia Roberts, Goldie Hawn, Alan Alda, Drew Barrymore, Edward Norton, Tim Roth, Natasha Lyonne, Lukas Haas, Natalie Portman, Billy Crudup, Gabby Hoffman. Estreia: 06/12/96

Imaginar um musical dirigido por Woody Allen pode parecer tão difícil quanto visualizar um filme de terror comandado por John Ford. Mas é exatamente isso que "Todos dizem eu te amo" é. Ao homenagear suas três cidades preferidas (Nova York, Paris e Veneza), Allen construiu uma deliciosa comédia musical, onde suas personagens cantam e dançam do nada - da mesma forma que ocorria nos clássicos do gênero - enquanto vivem suas histórias de amor, narradas no mesmo tom sarcástico e sofisticado de suas obras anteriores, que o colocaram na posição privilegiada de ser um dos mais autorais cineastas norte-americanos.

A bem da verdade, o único fator que diferencia "Todos dizem eu te amo" do resto da filmografia de Allen é sua opção em utilizar algumas clássicas canções populares dos EUA em diálogos - mas por "populares" entenda-se conhecidos dentro de um restrito nicho de eruditismo que de certa forma o afasta de um sucesso mais amplo junto ao público. As músicas entoadas pelos atores escolhidos pelo diretor - que mais uma vez utiliza-se de um elenco à prova de qualquer crítica - são pérolas do cancioneiro americano, com obras de Cole Porter e Rodgers & Hart, entre outros menos famosos. E são cantadas sem preocupações em encantar os ouvidos da audiência. A proposta de Allen é justamente o oposto dos musicais tradicionais: seus atores não treinaram a voz e só souberam que estavam escalados para um musical depois de ter o contrato assinado. Dessa forma, nomes como Edward Norton, Goldie Hawn e Julia Roberts entoam desajeitadamente suas dores de amor sem maiores enfeites de pós-produção (apenas Drew Barrymore salvou-se do drama, convencendo o diretor que não tinha a menor condição de cantar...) E, por incrível que pareça, justamente essa canhestra opção é que diverte o público.


A trama do filme segue o estilo Woody Allen de sempre: Steffi (Goldie Hawn) e Bob Dandridge (Alan Alda) formam um bem-sucedido casal que vive em um amplo apartamento muitíssimo bem localizado em Nova York. Sua numerosa família passa por problemas amorosos, narrados por DJ (Natasha Lyonne), filha de Steffi com seu ex-marido Joe Berlin (Woody Allen), que mora em Paris. A filha mais velha de Bob, Skylar (Drew Barrymore), acaba de ficar noiva do mauricinho Holden Spencer (Edward Norton), mas começa a ter dúvidas a respeito do relacionamento quando conhece Charles Ferry (Tim Roth), um ex-presidiário protegido por Steffi. Enquanto isso, Joe, durante uma viagem à Veneza com DJ, se encanta por Von (Julia Roberts), uma americana de cujos desejos e aspirações ele tem conhecimento através dos atos de espionagem da filha.

Com uma fotografia carinhosa que abraça com paixão as cidades escolhidas pelo cineasta, "Todos dizem eu te amo" é uma declaração de amor ao ato de estar-se apaixonado. As histórias românticas contadas pelo roteiro simples de Allen tem em comum a luta das personagens por sua felicidade, mesmo que para isso tenham que quebrar a cara constantemente. Apesar de alguns diálogos bastante espertos, dessa vez Woody não capricha no enredo, preferindo dedicar sua atenção aos números musicais agradáveis e ágeis - além de divertidamente próximos da realidade. Mesmo assim, a fantasia toma conta quando o fantasma do patriarca da família Dandridge une-se a outros espectros para cantar um hino à vida e Goldie Hawn flutua no ar durante um número de dança em Paris. Para os detratores de Allen, que o consideram maçante, é um prato cheio. Para os fãs, que admiram seu bom-gosto e delicadeza, é uma festa para os olhos.

"Todos dizem eu te amo" é um típico filme de Woody Allen, ainda que, paradoxalmente, seja diferente de todos os demais. Não recomendável para iniciantes na obra do cineasta, é, no entanto, um oásis de criatividade diante da falta de originalidade do cinema americano. E não é sempre que vemos Edward Norton cantando e dançando "My baby just cares for me" em uma joalheria....

3 comentários:

renatocinema disse...

Sou preconceituoso com Woody Allen. Fora A Rosa Purpura do Cairo não aprecio sua linha de trabalho.

Mesmo assistindo essa produção, devido a participação de minha atriz predileta, Natalie Portman, não gostei da obra.

Mas, como eu tenho um pré-conceito em relação ao diretor, isso talvez influencie muito.


Abraços

Alan Raspante disse...

Nao consigo imaginar Edward Norton cantando em um musical! clênio, esse eu tenho mesmo que ver. Preciso!

[]s

Cine Mosaico disse...

Não sou muito fã do Woody Allen, mas fiquei curioso por essa cena musical de Norton. Veremos.

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