domingo

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO

HOUVE UMA VEZ UM VERÃO (Summer of '42, 1971, Warner Bros, 103min) Direção: Robert Mulligan. Roteiro: Herman Raucher. Fotografia: Robert Surtees. Montagem: Folmar Blangsted. Música: Michel Legrand. Direção de arte/cenários: Albert Brenner/Marvin March. Produção: Richard A. Roth. Elenco: Jennifer O'Neill, Gary Grimes, Jerry Houser, Oliver Conant, Katherine Allentuck, Christopher Norris, Lou Frizzell. Estreia: 09/4/71

4 indicações ao Oscar: Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original
Vencedor do Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Uma década antes das escatologias de "Porky's" e quase trinta anos à frente do sucesso comercial de "American Pie", um outro filme,  que também tratava da busca adolescente pelo santo graal da perda da virgindade chegava às telas de cinema. Porém, sem vulgaridade de nenhuma espécie e banhado em pureza, ingenuidade e poesia, "Houve uma vez dois verões", baseado em uma história real vivida pelo roteirista Herman Raucher - que chegou a ser indicado ao Oscar da categoria - ficou marcado na memória dos apaixonados espectadores como um dos mais belos retratos da perda da inocência masculina já mostrados pela sétima arte. Lembrado principalmente pela extraordinária trilha sonora de Michel Legrand, que embalou toda uma geração e pela beleza delicada de Jennifer O'Neill, o filme de Robert Mulligan ainda é capaz de seduzir a audiência cínica dos blockbusters de hoje graças ao perfeito balanço entre comédia e drama atingido por seu diretor.

Assim como deixa bem claro o título original do filme, "Houve uma vez um verão" tem sua ação situada em 1942, em uma ilha americana onde o adolescente Harmie (Gary Grimes) passa a temporada juntamente com sua familia e seus amigos, em especial o indiscreto Oscy (Jerry Houser), cujo maior objetivo nas férias é perder a virgindade. Tímido e desajeitado, Harmie acaba acompanhando seu amigo em suas tentativas de completar sua missão, mas não consegue deixar de lado a atração irresistível que sente por Dorothy, uma mulher mais velha que mora em uma casa distante do centro da cidade: linda e delicada, ela é casada com um soldado que está na guerra e acaba se aproximando do rapaz quando ele a auxilia a carregar suas compras e surge entre eles uma espécie de amizade - que ele tenta esconder de sua turma como um tesouro raro e precioso. Dividindo seu tempo entre idas ao cinema, encontros fortuitos com meninas de sua idade - e uma hilariante visita à farmácia para comprar preservativos - Harmie não demora a perceber que está apaixonado pela primeira vez na vida.


Escrito inicialmente como uma homenagem à memória de Oscy - que na vida real morreu na Guerra da Coreia no dia do aniversário do escritor - "Houve uma vez um verão" acabou transformando-se, de maneira orgânica, na relação entre Harmie (alter-ego do autor Herman Raucher) e Dorothy, e na forma indelével com que ela ficou marcada em sua história. Apesar de na vida real a relação de amizade entre os dois ter sido mais longa do que a retratada no filme, Raucher fez questão de manter intactos no roteiro os nomes dos personagens e até mesmo algumas situações de seu inesquecível verão - que acabou tornando-se inesquecível também para as plateias. Filmado com leveza por Robert Mulligan - consagrado por "O sol é para todos" (62) - o filme mescla com parcimônia momentos de extrema beleza romântica (no que a trilha sonora ajuda lindamente) e cenas engraçadíssimas, como a já citada sequência na farmácia e as cenas em que Harmie e Oscy tentam decifrar os códigos de um livro sobre sexo roubado da estante de um amigo. É um humor puro, que, a despeito de seu tema, jamais ofende ou constrange o espectador e ainda por cima reflete com exatidão como se vivia à época.

A história real de "Houve uma vez um verão" - que acabou sendo homenageado pelo cineasta Jorge Furtado em seu primeiro longa, "Houve uma vez dois verões", de 2002 - não termina quando os créditos finais sobem na tela. A julgar por uma entrevista de Raucher, o que veio a seguir daria um outro e excelente filme. Segundo ele, assim que o filme foi lançado ele recebeu centenas de cartas de mulheres que se diziam a Dorothy do filme - de quem ele, por incrível que pareça, nunca perguntou o sobrenome. Depois de passar por situações bastante tristes na vida - como a morte do futuro cunhado, de Oscy e de seu pai no prazo de pouquíssimo tempo - ele só veio a ter notícias da verdadeira Dorothy em 1971. Ela perguntava, em sua carta, se havia cometido um crime psicológico contra ele após o verão de 42. O escritor até pode achar que "é melhor deixar quietos os fantasmas daquela noite", mas sem dúvida nenhuma criou um pequeno clássico moderno com sua bela história de amor e crescimento.

sábado

CABARET

CABARET (Cabaret, 1972, Allied Artists Pictures/ABC Pictures, 124min) Direção: Bob Fosse. Roteiro: Jay Allen, estórias de Christopher Isherwood, musical de Joe Masteroff, John Van Druten. Fotografia: Geoffrey Unsworth. Montagem: David Bretherton. Música: John Kander. Figurino: Charlotte Flemming. Direção de arte/cenários: Rolf Zehetbauer/Jurgen Kiebach. Produção: Cy Feuer. Elenco: Liza Minnelli, Michael York, Joel Grey, Marisa Berenson, Helmut Griem, Fritz Wepper. Estreia: 13/02/72

10 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 8 Oscar: Diretor (Bob Fosse), Atriz (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey), Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Adaptada, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor de 3 Golden Globe: Melhor Filme Comédia/Musical, Atriz Comédia/Musical (Liza Minnelli), Ator Coadjuvante (Joel Grey)

Pode uma obra ser indicada a 10 estatuetas do Oscar elevar oito delas sem ficar justamente com a mais importante, a de melhor filme? Sim, especialmente se concorrer diretamente com a saga da família Corleone. Foi isso que aconteceu na cerimônia de 1973, quando a transposição para o cinema de "Cabaret", famoso e consagrado musical da Broadway viu suas esperanças de sair com todas as suas indicações convertidas em prêmios acabarem com a vitória de "O poderoso chefão" como melhor filme, ator e roteiro adaptado (a outra categoria em que tinha chances). Hoje em dia talvez seja inadmissível que a obra-prima de Francis Ford Coppola não tenha sido campeã também em número de Oscar, mas basta apenas uma sessão do filme de Bob Fosse para que se perceba que, a despeito da qualidade inimitável da primeira parte da história de Michael Corleone, "Cabaret" é realmente um grande filme, uma obra de arte que mistura com poesia sátira política, liberdade sexual, música e uma forte crítica social à decadente Alemanha pré-II Guerra. Não é pouco para um musical aparentemente inocente.

A trama se passa na Berlim de 1931, onde chega o estudante inglês Brian Roberts (Michael York) para terminar seus estudos. Ele se hospeda na mesma pensão onde mora a americana Sally Bowles (Liza Minnelli), uma das atrações do cabaret Kit Kat Club, uma casa noturna decadente cujo palco é liderado por um sinistro Mestre de Cerimônias (Joel Grey, defendendo na tela o mesmo papel que o havia consagrado nos palcos, nos anos 60). Alegre e despachada - e com muitos sonhos de vencer na vida - Sally torna-se a referência de Brian na Alemanha prestes a mergulhar no nazismo. Sua relação torna-se ainda mais próxima quando ambos se descobrem interessados no mesmo homem, o milionário Barão Maximiliam von Heune, que os acena com uma vida de prazeres luxuosos. Enquanto o triângulo nem tão amoroso assim se desenvolve, uma outra história de amor, verdadeira, acontece sob a sombra do nacionalismo de Hitler e envolve dois alunos de Brian, a judia Natalia Landauer (Marisa Berenson) e o católico Fritz Wendel, que esconde um segredo que pode modificar suas vidas.


Equilibrando números musicais fascinantes que, ao invés de atrapalhar o desenvolvimento da história, a ajuda com comentários irônicos e/ou informativos, Bob Fosse mostrou que sabia como ninguém construir uma narrativa criada para os vastos palcos da Broadway em formato de cinema, provando-se à altura do compromisso de dirigir um filme recusado por Gene Kelly e Billy Wilder. Coreógrafo experiente e dono de um olhar extremamente crítico e sagaz, ele ousa contar sua história sem nenhum tipo de julgamento moral, limitando-se a, no máximo, deixar que a música fale por ele. E ela é excepcional. Apesar de apenas cinco números do espetáculo terem sobrevivido na versão para as telas, a trilha sonora de "Cabaret" é envolvente e contagiante, com algumas canções já tornadas clássicas ("Money, money" e a música-título, em especial) interpretadas com verve e dinamismo por Joel Grey - que ganhou o Oscar mesmo disputando com três atores de "O poderoso chefão" - e Liza Minnelli, merecida vencedora do Oscar de melhor atriz. Filha de Judy Garland e do cineasta Vincent Minnelli, Liza é, até hoje, a única oscarizada da história a ter os dois pais também premiados pela Academia. Mas, como ela mesma declarou ao receber a estatueta, os méritos são realmente dela.

Na pele de Sally Bowles, Liza consegue ser transgressora, delicada, romântica, cínica e engraçada, além de cantar e dançar com uma desenvoltura raras. Não foi à toa que o escritor Christopher Isherwood - que criou a personagem em um conto - declarou que a única falha da atriz na sua composição foi fazer de Bowles uma artista tão talentosa, uma vez que a original era apenas medíocre. Na tela, Minnelli é uma explosão de talento, conquistando a plateia com seu humor particular, suas idiossincrasias e especialmente sua carência de amor, explicitadas em sua relação com Brian. As cenas em que ambos são obrigados a tomar decisões cruciais para seu futuro são de partir o coração, e até nesses momentos fica claro o cuidado de Fosse em não se deixar cair no piegas. Assim como não há excessos no humor do roteiro também não o há no drama. Esse perfeito equilíbrio - que ainda encontra espaço para comentar discretamente a situação política da Alemanha e sua iminente transformação em inimiga do mundo - é que dá a "Cabaret" sua aura de eterno.

sexta-feira

SOB O DOMÍNIO DO MEDO

SOB O DOMÍNIO DO MEDO (Straw dogs, 1971, ABC Pictures, 113min) Direção: Sam Peckinpah. Roteiro: David Zelag Goodman, Sam Peckinpah, romance "The siege of Trencher's farm", de Gordon M. Williams. Fotografia: John Coquillon. Montagem: Paul Davies, Tony Lawson, Roger Spotiswoode. Música: Jerry Fielding. Direção de arte/cenários: Ray Simm/Ken Bridgeman. Produção: Daniel Melnick. Elenco: Dustin Hoffman, Susan George, Peter Vaughan, T.P. McKenna, Del Henney, Jim Norton, Donald Webster, Len Jones, Peter Arne. Estreia: 93/11/71

Indicado ao Oscar de Melhor Trilha Sonora Original

Não é à toa que Sam Peckinpah recebeu o apelido de Mestre da Violência. Se em "Meu ódio será tua herança" (69) ela ainda aparecia de certa forma estilizada e quase poeticamente, em "Sob o domínio do medo", seu filme seguinte, nada disfarça a forma cruel e inexorável com que ela invade a vida e a consciência de um homem pacato e até então avesso a qualquer tipo de manifestações crueis. Um dos filmes mais polêmicos dos anos 70 - que chegou a ver seu lançamento em vídeo e DVD banido na Inglaterra entre os anos de 1984 e 2002 - também coloca um dos atores-símbolo da época, Dustin Hoffman, em um papel atípico em sua carreira. Avesso a qualquer tipo de violência, Hoffman sempre assumiu que aceitou o papel de David Sumner apenas por dinheiro - ficando com um papel que foi considerado para Donald Sutherland, Jack Nicholson e até Sidney Poitier e que até hoje é lembrado como um dos mais importantes de seu currículo. Sua presença física diminuta e quase desconfortável diante dos caipiras gigantescos que transformam sua vida não poderia ter sido melhor aproveitada por Peckinpah, que filma sua metamorfose de cidadão comum em um vingador ensandecido e truculento com a dose certa de voyeurismo e sadismo. Esse ângulo da questão - que convida o espectador a testemunhar e torcer pela violência - talvez seja o aspecto mais controverso do filme. E é também o mais interessante.

David Sumner (Hoffman em seu melhor estilo "gente como a gente") é um matemático americano que acaba de chegar à cidadezinha da Inglaterra litorânea que é a terra de sua jovem e desejável esposa, Amy (Susan George). O que ele deseja é paz de espírito e tranquilidade para terminar um livro, mas logo percebe que as coisas não serão exatamente como ele espera: logo de cara ele conhece um ex-namorado de Amy, Charlie Venner (Del Henney), que demonstra claramente ter esperanças de reconquistar a amada. Sempre acompanhado de dois primos mal-encarados, Charlie acaba sendo contratado por David para fazer os reparos necessários na fazenda onde o casal está se instalando. Aos poucos, fica evidente que a relação entre David e Amy está passando por uma fase difícil, o que facilita a aproximação de Charlie - que passa a perseguir o matemático e, em uma ocasião em que o afasta de casa, estupra Amy, junto com um colega. Amy esconde o fato do marido, mas não consegue esquecer a violência - que ela acredita ter causado, uma vez que encorajava a aproximação do ex-namorado.


Tudo se transforma em uma descida ao inferno logo em seguida, porém, justamente na noite em que a igreja local oferece uma festa aos moradores. O deficiente mental da cidade, Henry Niles (David Warner) - praticamente proscrito por acusações de pedofilia - acidentalmente mata uma jovem adolescente e, em sua fuga, é atropelado por Donald, que, sem saber do ocorrido, o leva para casa. Enfurecido com a tragédia, Charlie e um grupo de homens armados fica sabendo da localização do ex-presidiário e cerca a propriedade de David, forçando-o a entregá-lo ao que fica claro tratar-se de um provável linchamento. Ciente das consequências de tal ato, o matemático recusa-se a ceder e precisa, então, defender sua casa, sua vida e sua mulher de uma escalada de violência cada vez maior à sua volta. Nesse meio-tempo, ele precisa, também, contar com a ajuda de Amy, que não tem tanta certeza que manter Niles a salvo será bom para eles.

O ato final de "Sob o domínio do medo", quando Peckinpah finalmente mostra suas armas, é de arrepiar. Se até então o cineasta apenas insinuava a crueldade e a beligerância de seus personagens - através de atos covardes como a morte de um gato e um estupro que, a princípio, parecia sexo consensual - em seus trinta minutos finais ele solta as amarras e entrega à audiência um suspense de primeira linha, tanto em termos visuais quanto psicológicos. É especialmente hipnotizante a sequência em que Amy, traumatizada com a violência sofrida, não consegue separá-la da festa religiosa a que está presente, quase como se Peckinpah estivesse preparando o público para o festival de sangue que virá a seguir. A transformação de David Sumner em um bárbaro violento e vingativo é mostrada com coerência e não é difícil prever que boa parte dos espectadores compartilha de sua mudança e de seu desejo de vingança. Quanto mais violência vem a seu encontro, mais capaz de atos quase desumanos ele é, em um processo de desumanização - ou volta à barbárie - que é, ao mesmo tempo, chocante e fascinante. Não é de se estranhar, portanto, que no final do filme ele mesmo assuma que não sabe mais o caminho de volta para casa - ou para o seu antigo "eu", pacífico e contemporizador.

Visto hoje, uma época em que qualquer filmeco de terror apresenta esquartejamentos sem o menor pudor para plateias que os assistem enquanto comem pipoca, "Sob o domínio do medo" pode parecer quase pueril. Mas ainda é, para os fãs do verdadeiro cinema, uma aula de narrativa de suspense e violência - tanto que virou refilmagem nas mãos de Rod Lurie ("A conspiração"), estrelada por James Marsden. A iniciativa de apresentar a história às novas gerações é louvável. O resultado ainda deixa muito a desejar em relação ao original.

quinta-feira

KLUTE, O PASSADO CONDENA

KLUTE, O PASSADO CONDENA (Klute, 1971, Warner Bros, 114min) Direção: Alan J. Pakula. Roteiro: Andy Lewis, David E. Lewis. Fotografia: Gordon Willis. Montagem: Carl Lerner. Música: Michael Small. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: George Jenkins/John Mortensen. Produção: Alan J. Pakula. Elenco: Jane Fonda, Donald Sutherland, Roy Scheider, Charles Cioffi, Dorothy Tristan, Rita Gam. Estreia: 23/6/71

2 indicações ao Oscar: Atriz (Jane Fonda), Roteiro Original
Vencedor do Oscar de Melhor Atriz (Jane Fonda)
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz/Drama (Jane Fonda)

No início dos anos 70, poucas atrizes eram consideradas tão "perigosas" quanto Jane Fonda. Suas ideias fortes e polêmicas a respeito de temas controversos como o movimento feminista e os protestos contra a guerra do Vietnã - que chegaram a lhe render o apelido nada elogioso de "Hanoi Jane" -  não apenas deixavam sua já difícil relação com seu pai Henry, um notório conservador, ainda mais complicada, como também lhe rendiam muitas antipatias. Por esse motivo, havia uma certa aura de apreensão na noite de 10 de abril de 1972, quando foram entregues as estatuetas do Oscar aos melhores do ano de 1971. Era esperado que a então caçula do clã Fonda, uma das favoritas ao prêmio de melhor atriz por seu desempenho no policial "Klute, o passado condena", fosse fazer um discurso político se levasse o prêmio. Porém, se no filme de Alan J. Pakula ela não decepcionou ninguém - nem aos produtores, que a viram sagrar-se vencedora - seu discurso provavelmente deixou muita gente surpresa. Contrariando todas as expectativas, Jane foi concisa e elegante: "Há muita coisa a ser dita, mas eu não as direi hoje esta noite."

Por mais que em muitas de suas pautas políticas Jane estivesse coberta de razão, ela não poderia ter sido mais feliz em sua discrição na entrega do Oscar. O que estava sendo celebrado aquela noite era seu trabalho fascinante como Bree Daniel, uma garota de programa de luxo que comandava a ação do policial cerebral de Alan J. Pakula, um cineasta que como poucos de sua geração, conseguiu captar com perfeição o espírito paranoico de seu tempo - após "Klute" ele assinaria ainda os contundentes "A trama" e "Todos os homens do presidente", que deixariam claro ao público sua inclinação em desvendar o que se passa por trás das portas fechadas não só de pessoas comuns mas também daqueles que governam o país mais influente do mundo. Bree, a personagem de Fonda, é uma mulher que procura na prostituição uma forma de ganhar a vida enquanto não se acerta como atriz ou modelo e não faz disso um drama - ainda que tente equilibrar suas dúvidas existenciais com uma terapeuta. Sua vida aparentemente tranquila sofre uma reviravolta inesperada, porém, quando ela conhece John Klute (Donald Sutherland), um detetive particular que chega até ela em busca de um possível cliente seu misteriosamente desaparecido.


Klute é interpretado por Sutherland - vindo do sucesso da comédia de guerra "MASH", dirigida por Robert Altman - em notas sutis. Na pele de um detetive do interior, desacostumado a maiores violências e pouco à vontade com o ritmo acelerado de Nova York, o ator foge do exagero, preferindo seguir um minimalismo que combina à perfeição com o clima sóbrio e quase claustrofóbico imposto por Pakula. O roteiro não se prende à tentativa de criar um suspense convencional, revelando o criminoso bem antes do final, optando por contar mais a história da relação entre o sóbrio Klute e a sensual e insegura Bree - que a princípio assustada com a aproximação do investigador, que chega a grampear seus telefonemas, logo se vê atraída por suas maneiras delicadas e gentis. A diferença radical entre seus protagonistas e a forma com que eles lidam com ela é que segura "Klute, o passado condena" e o afasta do rótulo fácil de filme policial. Os elementos do gênero estão todos presentes (assassinatos misteriosos, telefonemas assustadores, suspeitos mal-intencionados), mas interessa mais ao cineasta o estudo de seus personagens do que viradas espetaculares na trama.

E, para sorte de Pakula, o que não falta em "Klute" são bons atores. Se Sutherland está discreto, pontuando com eficiência e sensibilidade um espetáculo que tem a violência como tema (mas não como chamariz) e Roy Scheider mostra porque era um dos vilões preferidos dos diretores de sua época pré-"Tubarão", Jane Fonda brilha radiante em mais uma atuação irretocável. Dona de um estilo de interpretação que valoriza mais os pequenos detalhes que criam a personagem do que gestos espalhafatosos, Fonda conquista o espectador pelo olhar, que diz coisas diferentes a cada momento: angústia em suas sessões de terapia, audácia em seus primeiros encontros com Klute e fragilidade logo adiante e principalmente uma certa desesperança em perceber como seus sonhos de estrelato fogem de suas mãos a cada audição frustrada. Seu Oscar foi mais do que merecido, embora o filme possa decepcionar a quem procura uma trama policial comum. Se não for esse o caso, é um belo drama de suspense que vale a pena conferir - nem que seja para aplaudir Jane, uma ausência cada vez mais sentida na tela grande.

quarta-feira

OS RAPAZES DA BANDA

OS RAPAZES DA BANDA (The boys in the band, 1970, Cinema Center Films, 118min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Mart Crowley, peça teatral homônima de sua autoria. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Gerald Greenberg, Carl Lerner. Figurino: W. Robert La Vine. Direção de arte/cenários: John Robert Lloyd/Phil Smith. Produção executiva: Dominick Dunne, Robert Jiras. Produção: Mart Crowley. Elenco: Kenneth Nelson, Frederick Combs, Cliff Gorman, Laurence Luckinbill, Keith Prentice, Peter White, Reuben Greene, Robert La Tourneaux, Leonard Frey. Estreia: 17/3/70

Aqueles que conhecem o William Friedkin cinemático de "Operação França"(71) - que lhe rendeu um Oscar - e "O exorcista"(73) - um dos maiores sucessos de bilheteria de todos os tempos - talvez tomem um susto ao dar de cara com "Os rapazes da banda", realizado por ele um pouco antes de tornar-se um dos mais confiáveis cineastas comerciais de Hollywood. O possível susto não é devido à qualidade do filme - uma adaptação febril de um sucesso da Broadway - mas sim a seu assunto. Em uma América pré-AIDS e muito antes da onda de correção política e certa liberalidade temática no cinema americano, "Os rapazes da banda" é um retrato sem filtros e sem medo da polêmica do estilo de vida gay do final da década de 60, ainda que centrado em um grupo de personagens que dificilmente podem ser chamados de simpáticos e/ou agradáveis. Controverso justamente por apresentar gays em severas crises de identidade e em um tom de agressividade comparável a "Quem tem medo de Virginia Woolf" - a peça de Edward Albee e o filme de Mike Nichols - o filme acabou por ser defendido por Friedkin com uma frase que deixa explícito o que se pode esperar da trama: "Eu espero que haja homossexuais felizes. Eles apenas não estão no meu filme."

E, realmente, feliz é o último adjetivo que pode ser aplicado a qualquer um dos personagens da peça de Mart Crowley, que chegou às telas com o mesmo elenco da produção teatral, fato raro mas exigido pelo produtor/autor. Todos os personagens retratados em cena sofrem de algum tipo de problema pessoal, em maior ou menor grau, o que vai ficando mais e mais claro conforme a história vai se desenrolando. Como acontece normalmente em um bom texto teatral, cada personagem vai se revelando gradualmente até o clímax, onde diversas catarses finalmente os fazem deixar cair as máscaras que porventura ainda estivessem usando mesmo em um ambiente amigável. E seguindo o texto ao pé da letra, Friedkin dirige seus atores praticamente com uma lente de aumento, captando cada nuance, cada sorriso ambíguo e cada fantasma de dentro de cada um com sensibilidade e neutralidade. Essa ausência de um julgamento moral é que faz do filme o sucesso que ele é em termos dramáticos: por mais desprezíveis que alguns atos sejam ou pareçam, pela lente de Friedkin eles se transformam em atitudes perdoáveis, por um motivo ou outro.

A trama se passa durante uma única noite, no apartamento de Michael (Kenneth Nelson), um duplex com terraço localizado em Nova York. É aniversário do venenoso Harold (Leonard Frey), um de seus melhores amigos, e Michael reúne um grupo de amigos, todos homossexuais - ou, como ele mesmo descreve, "um grupo de sete rainhas escandalosas" - para a comemoração. O que deveria ser apenas uma noite comum regada a bebida, música disco e risadas - incrementadas pela presença de um jovem michê imitando Jon Voight em "Perdidos na noite" (Robert La Tourneaux) - se transforma repentinamente em uma sessão de análise indesejada com a presença de Alan (Peter White), um colega de faculdade de Michael, que se diz heterossexual e, com seu preconceito, deflagra uma violenta reação por parte do anfitrião - que tem sérias dúvidas a respeito da sexualidade do antigo amigo. Conforme a noite vai avançando (e com uma tempestade os impedindo de sair do local), Michael sugere um jogo que vai definitivamente selar o destino de todos os convidados. É assim que o casal formado pelo promíscuo Larry (Keith Prentice) e pelo sério Hank (Laurence Luckinbill) - que acabou de divorciar-se por amor ao novo parceiro - põe em pratos limpos sua relação, o afeminado Emory (Cliff Gorman) e o discreto Bernard (Reuben Greene) revelam as frustrações amorosas que os assombram e Harold finalmente põe Michael contra a parede, obrigando-o a lidar com suas próprias dúvidas a respeito de sua vida sexual. Nem mesmo o pretenso heterossexual Alan escapa impunemente do desvario da histeria de Michael.


Servindo quase como o olhar da audiência, é o discreto Donald (Frederick Combs) quem permanece incólume frente à tempestade, testemunhando a deteriorização da noite festiva em um velório de silêncios mortos que ressuscitam violentamente. O ato final do filme, que substitui o humor ferino e mordaz de seu começo - que faz o público rir com tiradas repletas de um sarcasmo tipicamente gay - serve como palco para seus atores demonstrarem seus dotes dramáticos, até então mantidos em fogo brando. Ironicamente, cinco dos atores centrais do filme morreram de AIDS até o início da década de 90, o que dá à obra um tom ainda mais urgente, mais contundente e mais triste. Os homossexuais retratados na história, como bem disse Friedkin, não são aqueles homossexuais normalmente frequentes nas telas de cinema - nem à época nem agora. Mesmo que Emory pareça o alívio cômico da trama com seus trejeitos exagerados e Harold pontue o roteiro com tiradas genialmente irônicas - "Eu sou uma bicha judia feia de 32 anos, com a cara esburacada, e que precisa de horas para decidir se vale a pena por a cara na rua!" - o tom geral do filme é de desilusão, de melancolia, como se fosse uma espécie de previsão dos anos torturantes que a comunidade encararia em pouco tempo, com a epidemia da AIDS batendo à porta violentamente. E é mérito do cineasta e de seu elenco que tudo não seja ainda mais deprimente.

"Os rapazes da banda" não é exatamente um retrato fiel do mundo gay em geral. Fugindo da generalização ao fazer um recorte muito específico de um grupo quase homogêneo - sem se preocupar com outras várias nuances do povo homossexual - o roteiro faz um jogo de contrastes entre aparências e a realidade que poderia facilmente se passar em universo heteronormativo sem maiores prejuízos. O cerne da trama - os conflitos interiores e as lutas pessoais contra os instintos e a favor da individualidade - é forte o bastante para conquistar espectadores de quaisquer orientações sexuais. E Friedkin, que aqui mostra uma direção segura que amadureceria ainda mais em seus filmes seguintes, voltaria à temática gay uma outra vez mais na carreira - e novamente causando polêmica - com o policial "Parceiros da noite". Outro enfoque, mas novamente um filme instigante e marcante.

terça-feira

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO

UM ASSALTANTE BEM TRAPALHÃO (Take the money and run, 1969, Palomar Pictures, 85min) Direção: Woody Allen. Roteiro: Woody Allen, Mickey Rose. Fotografia: Lester Shorr. Montagem: Paul Jordan, Ron Kalish. Música: Marvin Hamlisch. Direção de arte/cenários: Fred Harpman/Marvin March. Produção executiva: Sidney Glazier. Produção: Charles H. Joffe. Elenco: Woody Allen, Janet Margolin, Marcel Hillaire, Jacquelyn Hyde, Lonny Chapman. Estreia: 18/8/69

Woody Allen não era nenhum novato nas telas de cinema quando dirigiu seu primeiro longa-metragem, em 1969. Seu inconfundível rosto já havia sido visto em "Qque é que há, gatinha?" (65) - cujo roteiro ele também escreveu - e "Cassino Royale" (a versão cômica de 1967, não o filme de James Bond estrelado por Daniel Craig). Insatisfeito com ambas as experiências, ele resolveu que era hora de fazer o seu próprio filme. Com a recusa de seu ídolo Jerry Lewis em dirigir "Um assaltante bem trapalhão" (título genérico que lembra os filmes de Renato Aragão), o comediante de stand-up deu então seu primeiro passo em direção a uma carreira brilhante de cineasta. E quem hoje acusa seu humor de ser elitista ou sofisticado demais para o grande público tem a obrigação de dar ao menos uma olhada em sua estreia atrás das câmeras: ao mesmo tempo que faz rir com um instantâneo humor visual, Allen também brinda o espectador com tiradas hilariantes, em especial com a narração em off, que dá ao filme a honra de ser o primeiro "mockumentary" (falso documentário) lançado em grande escala nos cinemas - e que alcançaria um de seus maiores representantes em outro filme do mesmo diretor, o genial "Zelig" (83).

Dividindo com o protagonista a sua própria data de nascimento (01 de dezembro de 1935), Allen conta a errante trajetória de Virgil Starkwell (vivido por ele mesmo) no crime, através de depoimentos de seus pais (escondidos atrás de máscaras de Groucho Marx por causa da vergonha que sentem do filho bandido), professores e de várias pessoas que passaram por sua vida, como médicos psiquiatras e diretores de presídio. A narrativa começa com a infância de Starkwell, que iniciou-se na vida de fora-da-lei roubando balas e se mantém até seus dias como uma mente criminosa mais sofisticada (ou o mais perto disso), quando resolve passar a assaltar bancos. Logicamente, sob o ponto de vista satírico de Allen, todo o caminho do aspirante a meliante esbarra em situações surreais - como o medicamento em teste que como efeito colateral transforma o paciente em rabino - e vira do avesso até mesmo as convenções românticas (Starkwell se apaixona ao tentar roubar uma bolsa e nem mesmo apaixonado abandona seus intentos por um bom tempo).

Criando seu filme em formas de sketchs cômicos unidos por uma história bastante tênue - que, segundo o cineasta, foi salvo pela edição inteligente de Ralph Rosenblum, que tornou-se um colaborador assíduo em suas obras seguintes - Allen demonstra já em seu primeiro trabalho atrás das câmeras o gosto pelo humor sardônico, de situações normais transformadas em momentos de grande resultado histriônico. "Um assaltante bem trapalhão" não é uma comédia de altas gargalhadas - como não o é a maioria dos trabalhos do diretor - e sim um filme que extrai sua graça do absurdo do dia-a-dia. Sem apelar para piadas de baixo calão ou para o humor escatológico, Allen faz rir com coisas simples - o assalto ao banco, por exemplo, que é barrado pela burocracia e pela letra ilegível de seu bilhete ameaçador, ou a fuga com um revólver feito de sabão que é frustrada pela chuva que o dissolve na hora H - e tira proveito de sua persona naturalmente desajeitada para conquistar a empatia do público.

"Um assaltante bem trapalhão" não é uma obra-prima. Marinheiro de primeira viagem, Allen ainda não havia burilado suficientemente seu estilo de humor e cinema - coisa que progressivamente faria até a consagração com os Oscar de filme, direção e roteiro de "Noivo neurótico, noiva nervosa", oito anos mais tarde. Mas em seu cerne já estão explícitas muitas das características que lhe seriam a marca registrada daí em diante, como o senso de humor inteligente e irônico, o despojamento no modo de filmar e a tendência a ridicularizar temas até então tidos como intocáveis pela comédia, como a psicanálise (tema frequente de vários futuros filmes) e a família. Desde então, tendo mudado o final previsto para sua história - substituindo o trágico pelo engraçado por sugestão do editor - o cineasta nova-iorquino oficializou um gênero em si: seus filmes não são comédias, dramas ou musicais, são "filmes de Woody Allen". Os cinéfilos de bom-gosto agradecem.

segunda-feira

A NOITE DOS DESESPERADOS

A NOITE DOS DESESPERADOS (They shoot horses, don't they?, 1969, ABC/Palomar Pictures, 129min) Direção: Sydney Pollack. Roteiro: James Poe, Robert E. Thompson, romance de Horace McCoy. Fotografia: Philip H. Lathrop. Montagem: Fredrick Steinkamp. Música: John Green. Figurino: Donfeld. Direção de arte/cenários: Harry Horner/Frank McKelvey. Produção executiva: Theodore B. Sills. Produção: Robert Chartoff, Irwin Winkler. Elenco: Jane Fonda, Michael Sarrazin, Gig Young, Susannah York, Red Buttons, Bonnie Bedelia, Michael Conrad, Bruce Dern, Al Lewis. Estreia: 10/12/69

9 indicações ao Oscar: Diretor (Sydney Pollack), Atriz (Jane Fonda), Ator Coadjuvante (Gig Young), Atriz Coadjuvante (Susannah York), Roteiro Adaptado, Montagem, Trilha Sonora Original, Figurino, Direção de Arte/Cenários
Vencedor do Oscar de Ator Coadjuvante (Gig Young)
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Gig Young)

Um dos mais cruéis e chocantes retratos da desumanização que veio em consequência da Grande Depressão americana, o amargo "A noite dos desesperados", baseado em romance de Horace McCoy mantém até hoje, 45 anos depois de seu lançamento, a dúbia honra de ser o filme com maior número de indicações ao Oscar sem ter sido lembrado na categoria principal. Indicado em nove categorias - incluindo diretor, atriz e roteiro adaptado - o filme deu a Gig Young a estatueta de melhor ator coadjuvante, mas, visto à luz do tempo, merecia ter tido mais atenção dos eleitores. Forte, contundente e frequentemente dotado de uma ironia tão fina e sutil que muitas vezes passa despercebida, o filme de Sydney Pollack se mantém muito atual nessa época em que realities show pipocam a cada esquina, borrando a linha entre a dignidade e o desespero.

Pollack, que manteve uma carreira que flutuava entre sucessos comerciais de qualidade - "Tootsie" (82) - êxitos de prestígio e Oscars - "Entre dois amores" (85) - e filmes simplesmente medíocres - "Havana" (90) - provavelmente nunca dirigiu um filme tão poderoso quanto este, tanto em termos visuais quanto em termos de densidade psicológica. Ao fazer uma dura crítica à indiferença das classes privilegiadas em relação àqueles menos favorecidos através de uma aparentemente inocente maratona de dança, Pollack utilizou todas as ferramentas do bom cinema para construir uma obra extraordinária em todos os sentidos: a sintonia entre roteiro, direção, elenco e técnica dá à trágica e melancólica trama um revestimento de arte mesmo quando o âmago do que é contado é negro, doloroso e feio. A feiúra do que é contado encontra eco na alma dúbia de alguns personagens, mas Pollack brilhantemente enfeita o lixo com uma poesia que jamais deixa com que seu filme descambe para o dramalhão hipócrita ou falsamente panfletário. O tom seco da narrativa é o acerto final em uma obra simplesmente imperdível.


Jane Fonda - que dois anos depois ganharia seu primeiro Oscar por "Klute, o passado condena" - está fascinante na pele de Gloria Beatty, uma aspirante a atriz desencantada com a vida e a profissão que, no fundo do poço financeiro e pessoal, entra em uma maratona de dança que pagará 1.500 dólares ao par vencedor. Perdendo seu acompanhante na hora da inscrição, ela se une ao jovem e inocente Robert (Michael Sarrazin) na disputa cruel e desumana do concurso, cujas regras rígidas e violentas os impede de dormir mais do que poucos minutos por dia, os faz comer em pé e sem parar de dançar e, vez ou outra, lança mão de uma corrida que elimina os últimos colocados. Dias após o início da maratona - que é assistida por um público que escolhe seus favoritos enquanto come pipoca e aplaude sem muito interesse nas consequências físicas da disputa - Gloria começa a ver outros candidatos perderem o pouco que resta de suas dignidades pessoais. Entre eles estão Alice (Susannah York), que também sonha em ganhar Hollywood e vai perdendo sua razão dia-a-dia, um velho marinheiro (Red Buttons) que mente a idade para manter-se como concorrente e até mesmo uma jovem mulher grávida, Ruby (Bonnie Bedelia, que depois faria a ex-esposa de Bruce Willis em "Duro de matar") que não abre mão do prêmio mesmo correndo o risco de perder o bebê ou morrer. No comando de tudo, está o animador do concurso, o frio e manipulador Rocky (Gig Young, vencedor do Oscar).

Relatado de forma fria e paradoxalmente angustiante, "A noite dos desesperados" mostra um Sydney Pollack no auge da criatividade. Utilizando-se de flashforwards que dão uma pista do final trágico e de certa maneira previsível (mas nunca anticlimático) e de um ritmo que intercala dramas pessoais com momentos eletrizantes reforçados pela edição inteligente de Fredric Steinkamp - como as corridas, capazes de deixar o público na beira da poltrona - o filme também se beneficia de uma reconstituição de época caprichada e de uma história forte o bastante para falar por si. Confiando nessa força, o roteiro prescinde de artifícios que fujam do cenário único, concentrando todo o foco em Gloria, Robert e seus companheiros de dor e de cruz. Uma opção correta que fortalece um dos mais potentes dramas sociais realizados por Hollywood na década de 60.

domingo

UM CAMINHO PARA DOIS

UM CAMINHO PARA DOIS (Two for the road, 1967, 20th Century Fox, 111min) Direção: Stanley Donen. Roteiro: Frederic Raphael. Fotografia: Christopher Challis. Montagem: Madèleine Gug, Richard Marden. Música: Henry Mancini. Direção de arte: Willy Holt. Produção: Stanley Donen. Elenco: Audrey Hepburn, Albert Finney, Eleanor Bron, William Daniels, Claude Dalphin, Nadia Gray, Jacqueline Bisset. Estreia: 27/4/67

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Para TT...

Perdido entre vários filmes adorados pelos fãs de Audrey Hepburn - principalmente "Bonequinha de luxo" e "My fair lady" - a comédia romântica dramática "Um caminho para dois" quase nunca é mencionado como um favorito. Sofisticado dramaturgicamente e dotado de uma melancolia que perpassa inclusive seus inúmeros momentos cômicos, o filme de Stanley Donen - um dos homens por trás do sucesso de "Cantando na chuva" - é um retrato doloroso e realista do declínio de um relacionamento aparentemente indestrutível, que só não é mais angustiante por conta da química entre Hepburn e Albert Finney, pela edição inteligente e pelo tom bem-humorado que o afasta da indigesta catarse no qual poderia se transformar em mãos menos hábeis.

Contado através de três linhas temporais que se intercalam graças à edição ágil e esperta de Madèleine Gug e Richard Marden, "Um caminho para dois" conta a história de amor, decepção, traição e momentos inesquecíveis entre Joanna (Hepburn) e Mark (um jovem Albert Finney). Quando se encontram, durante uma viagem à Europa, ela é uma corista em busca da realização profissional e ele um arquiteto iniciante. Os dois se apaixonam perdidamente e se envolvem em um casamento repleto de momentos de eletrizante felicidade, mesmo quando precisam contar moedas e passam por situações constrangedoras devido à falta de dinheiro. Conforme o tempo passa e a família aumenta, os problemas também começam a mostrar sua cara, o que os leva fatalmente a crises cada vez mais sérias, em oposição à ascensão de Mark em sua carreira. Quando o filme começa, eles estão a caminho de uma festa na França, onde terão que finalmente decidir que rumo tomar em suas vidas - fato este que os faz também relembrar todos os bons e maus dias de seu relacionamento.


O roteiro de Frederic Raphael, indicado ao Oscar da categoria, é um primor de sensibilidade e inteligência, equilibrando com especial maestria cenas do mais divertido humor visual com a ironia certeira de diálogos mais apurados e sofisticados, além de alcançar as notas certas também nas sequências mais dramáticas. Sua estrutura, fundamentada basicamente em três road-movies simultâneos contados fora de ordem cronológica - fato que a princípio pode confundir um pouco o espectador mas depois mostra-se crucial para a apreciação do panorama geral proposto pela sinopse - é rica em ironia, ao comparar, frequentemente, um passado financeiramente difícil mas feliz, com a realização monetária acompanhada de crises na relação. Por mais que pareça apontar uma espécie de simplismo com essa opção (como se o dinheiro fosse o culpado pelos males do casamento), a trama de Raphael não se deixa cair nessa armadilha, apontando outros fatores para o desgaste sem nunca abdicar de deixar bem claro o amor que une os protagonistas.

E, se o roteiro bem escrito e a direção leve de Donen - que sai-se melhor nos momentos alegres, traindo seu currículo anterior - são dignos dos mais rasgados elogios, a química perfeita entre Hepburn e Finney não fica atrás. Hepburn, que aceitou o papel apenas depois de ler o roteiro inteiro - antes ela havia recusado por medo de fazer mais um filme que rompia com as regras estabelecidas pelo cinema comercial americano como havia sido seu mal-sucedido "Quando Paris alucina" - era uma atriz cheia de nuances, todas elas exploradas com carinho pela direção: durante o filme, vemos sua Joanna apaixonada, decepcionada, triste, feliz, raivosa, arrependida e esperançosa, sem que nunca caia na mesmice ou na repetição. Finney - que ficou com um papel oferecido a Paul Newman e Michael Caine e cobiçado por Tony Curtis - demonstra maturidade e desenvoltura em criar um Mark que deixa transparecer seu amadurecimento sem perder sua essência. São Audrey e Finney quem sustentam todas as bases do roteiro, que dão respaldo a cenas emocionantes (quando lembram da distância que percorreram entre seu primeiro dia juntos e o impasse de seu casamento, quando se identificam com casais que ficam em silêncio durante as refeições, quando veem sua praia particular destruída pelo progresso representado por um prédio construído pelo próprio Mark) e que elevam o status do filme a mais do que simplesmente uma comédia romântica.

"Um caminho para dois" merecia estar entre os filmes mais populares de Audrey Hepburn. É deliciosamente engraçado, comoventemente romântico e dolorosamente triste, tudo na medida certa. É preciso mais que isso?

sábado

FREUD, ALÉM DA ALMA

FREUD, ALÉM DA ALMA (Freud, 1962, Universal International Pictures,140min) Direção: John Huston. Roteiro: Charles Kaufman. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: Ralph Kemplen. Música: Jerry Goldsmith. Figurino: Doris Langley Moore. Direção de arte: Stephen B. Grimes. Produção: Wolfgang Reinhardt. Elenco: Montgomery Clift, Susannah York, Larry Parks, Susan Kohner, Fernand Ledoux. Estreia: 12/12/62

2 indicações ao Oscar: Roteiro Adaptado e Trilha Sonora Original

Uma das mais importantes personalidades da história científica mundial, o austríaco Sigmund Freud poucas vezes foi representado nas telas de cinema, especialmente de forma a mostrar ao grande público o nascimento de suas teorias - violentamente refutadas em sua época, mas amplamente influentes conforme a comunidade médica foi percebendo seu alcance no tratamento de neuroses e outras patologias psicológicas. Suas tentativas de criar um método de cura para seus pacientes psicóticos são a base na qual se sustenta "Freud, além da alma", em que o respeitado cineasta John Huston retrata o pai da psicanálise como um homem profundamente dedicado à sua ciência a ponto de buscar dentro de si mesmo as respostas para as difíceis questões que lhe atravessam o caminho para o sucesso. Esse lado torturado do protagonista encontra eco na atuação de um dos atores mais intensos da Hollywood da década de 60: Montgomery Clift.

Em seu segundo trabalho com Huston - depois do polêmico e complicado "Os desajustados" - Clift encontrou um diretor bastante diferente daquele do primeiro contato. Enquanto durante as filmagens do faroeste tardio estrelado também por Marilyn Monroe e Clark Gable, o atormentado ator teve contato com um cineasta paternalista e carinhoso que relevava seus problemas com álcool e tranquilizantes, em seu reencontro com ele as coisas foram bastante diferentes. Segundo declarações de membros da equipe, Huston pressionava Clift frequentemente a respeito de sua enrustida homossexualidade, utilizando vários conceitos do próprio Freud em sua tentativa de arrancar do ator uma atuação ainda mais potente. Se os métodos do cineasta não foram exatamente simpáticos, porém, é impossível negar que, em termos artísticos eles funcionaram perfeitamente. Com seu olhar profundo e uma interpretação que equilibra momentos de excitação e dúvida, Montgomery Clift apresenta um dos melhores trabalhos de sua carreira - e o penúltimo dela.


A trama de "Freud, além da alma" começa em 1885, mostrando Freud no início de seus estudos sobre hipnose como forma de tratamento psicológico. De maneira a criar um arco dramático adequado, o roteiro de Charles Kaufman - uma vez que o script do filósofo Jean-Paul Sartre foi descartado por ser extenso demais - condensa vários pacientes (de sintomas variados) em uma única personagem, a neurótica Cecily Koertner (Susannah York), uma mulher que sofre de histeria profunda, repressão sexual e fixação paterna. Conforme vai se aprofundando nas consultas com Cecily - que já foi paciente de um amigo seu e teve por uma obsessão romântica - Freud vai criando um método novo de tratamento, chegando ao âmago de cada problema através de uma série de regressões psicológicas que remetem à infância e que também o leva a questionar sua relação com o próprio passado, que tenta manter esquecido no fundo da memória.

A atuação memorável de Montgomery Clift encontra respaldo no cuidado de John Huston com os detalhes da encenação. A fotografia em preto-e-branco de Douglas Slocombe (que depois seria o diretor de fotografia dos primeiros filmes da série "Indiana Jones") mescla o realismo seco do dia-a-dia dos personagens com filtros que remetem às alucinações de Cecily e os pesadelos constantes do protagonista, dignos dos mais assustadores filmes surrealistas de Luis Buñuel. Entre tudo isso, há o roteiro quase didático mas extremamente eficiente, a direção criativa de Huston e a competente reconstituição de época que remete o espectador à Viena do final do século XIX. O enorme sucesso do filme - fato que fez a Universal desistir de processar Clift pelos atrasos nas filmagens - mostrou que a personalidade polêmica de Sigmund Freud não era coisa do passado.

sexta-feira

JULES E JIM, UMA MULHER PARA DOIS

JULES E JIM, UMA MULHER PARA DOIS (Jules et Jim, 1962, Les Films du Carrosse, 105min) Direção: François Truffaut. Roteiro: François Truffaut, Jean Gruault, romance de Henri-Pierre Roché. Fotografia: Raoul Coutard. Montagem: Claudine Bouché. Música: Georges Delerue. Figurino/Direção de arte: Fred Capel. Produção executiva: Marcel Berbert. Produção: François Truffaut. Elenco: Jeanne Moreau, Oskar Werner, Henri Serre, Vanna Urbino, Bassiak, Sabine Haudepin. Estreia: 23/01/62

Em seu filme "Uma mulher é uma mulher", lançado em 1961, o cineasta Jean-Luc Godard - que, assim como François Truffaut era um dos críticos da prestigiosa revista "Cahiers du Cinéma" - faz com que o personagem vivido por Jean-Paul Belmondo encontre com a atriz Jeanne Moureau (no papel dela mesma) e pergunte a ela "Como está indo 'Jules e Jim'?" Essa pequena brincadeira entre amigos (frequentemente os diretores colaboravam nos projetos do outro) é a primeira menção feita no cinema àquele que se tornaria um dos mais conhecidos, amados e reverenciados filmes franceses de todos os tempos. Terceiro filme de Truffaut - depois do memorialista "Os incompreendidos" (59) e do quase experimental "Atire no pianista" (60) - o drama romântico "Jules e Jim, uma mulher para dois" se baseia no romance autobiográfico de Henri-Pierre Roché para contar a história de um triângulo amoroso libertário que encontrou na juventude revolucionária dos anos 60 sua audiência perfeita. Uma pena que o próprio Roché tenha morrido antes de ver na esplendorosa fotografia em preto-e-branco de Raoul Coutard a personificação de sua Catherine na bela e fascinante Jeanne Moreau.

A trama tem início antes da Primeira Guerra Mundial, quando o alemão Jules (Oskar Werner) e o francês Jim (Henri Serre), inseparáveis e amantes da arte, da vida boêmia e dos prazeres mundanos que Paris lhes pode oferecer, conhecem a independente Catherine (Jeanne Moreau), que logo conquista a ambos com sua vivacidade, beleza e uma certa dose de amoralidade. Sentindo-se irresistivelmente atraída a Jules, ela acaba se casando e tendo uma filha com ele. Separados pela guerra - e pelo medo paralisador de matarem um ao outro sem o saber - os dois amigos ficam anos sem encontrar-se, comunicando-se apenas por cartas. O final do conflito, porém, volta a aproximá-los apenas para que Jim perceba que o relacionamento entre Jules e Catherine não é mais o mesmo, tendo sido abalado pelo tempo, por traições e pela rotina. Apaixonando-se novamente pela mulher do amigo, Jim se surpreende quando é convidado por ele a morar com a família. A ideia de Jules é simples: sabendo que não tem mais o amor da esposa, aceita que ela se envolva com o rapaz, como forma de não perdê-la de uma vez por todas.


Tido por muitos jovens de sua época como uma espécie de ode ao amor livre, "Jules e Jim" é, no entanto, o exato oposto dessa ideia, por mais excitante que ela possa parecer. Com suas imagens icônicas e sempre lembradas pelos fãs de cinema - a corrida dos três amigos em uma ponte, Jeanne Moreau vestida de homem, com direito a bigodinho e tudo - François Truffaut traduziu, para toda uma geração, a ansiedade em relação aos próprios sentimentos. Mesmo com todo o glamour da primeira parte do filme, quando todo um universo está disponível aos personagens, fica claro, em sua metade final, de que arriscar-se no amor é um jogo de azar e que, por mais modernos e descolados que as pessoas sejam, a dor é uma possibilidade bastante grande. Apesar disso, no entanto, o cineasta tem o bom gosto de mostrar isso de maneira poética e sutil, contando para isso com a jovialidade de seu talento e seu elenco excepcional - em especial a inesquecível Jeanne Moreau.

Se Oskar Werner e Henri Serre serão eternamente lembrados como os dois amigos enfeitiçados pelos encantos de uma sereia francesa de olhar penetrante e sorriso misterioso, é Jeanne Moreau quem domina o filme com seus encantos, sua voz sedutora - que inclusive canta graciosamente em uma sequência agradável e leve que remete aos primórdios de sua relação a três, antes que ela se tornasse mais complicada do que deveria - e seu carisma. Apaixonado pela atriz à época das filmagens, Truffaut dá a ela, visualmente, o status de uma divindade, inalcançável e paradoxalmente acessível. Moreau - que ajudou inclusive a financiar o filme quando o dinheiro inicialmente disponível acabou - sorri e faz com que o espectador sorria com ela. É difícil de condenar Jules e Jim por amá-la. É difícil não se apaixonar pela Catherine de Jeanne Moreau. E esse magnetismo é impossível fingir!

quinta-feira

LOLITA

LOLITA (Lolita, 1962, MGM Pictures/Seven Arts Productions,152min) Direção: Stanley Kubrick. Roteiro: Vladimir Nabokov, romance homônimo de sua autoria. Fotografia: Oswald Morris. Montagem: Anthony Harvey. Música: Nelson Riddle. Direção de arte: Bill Andrews. Produção: James B. Harris. Elenco: James Mason, Peter Sellers, Shelley Winters, Sue Lyon. Estreia: 12/6/62

Indicado ao Oscar de Roteiro Adaptado

Antes de consagrar-se como um dos mais importantes e influentes cineastas norte-americanos de todos os tempos com seus "2001: uma odisséia no espaço" (68) e "Laranja mecânica" (71), Stanley Kubrick brincou com fogo ao adaptar um dos mais polêmicos romances do século XX. Escrita por Vladimir Nabokov e publicado pela primeira vez em 1955, a saga de um homem de meia-idade obcecado por uma menina de 12 anos a ponto de casar-se com a mãe dela para manter-se por perto tornou-se maldita por tocar em um assunto ainda hoje motivo de controvérsia: a pedofilia. Por não julgar seu protagonista e, mais corajosamente ainda, torná-lo também o narrador da história, com direito inclusive a um senso de humor que muitos consideraram inapropriado, Nabokov logo viu seu livro tornar-se um proscrito em países como a Inglaterra e a França. Isso não impediu que Kubrick, vindo do sucesso de crítica de seu "Spartacus" (60), se munisse da ousadia necessária para transferir a trama das páginas de um livro polêmico para as telas de cinema. Chamando o próprio autor do romance para escrever o roteiro - mesmo que depois tenha o modificado bastante - o cineasta partiu atrás de seu elenco, sabendo que seria uma tarefa bastante árdua.

Conscientes do risco que o papel do obssessivo Humbert Humbert poderia representar para uma carreira, vários atores consagrados não tiveram a coragem de aceitar o convite de Kubrick. Foi o caso de Marlon Brando, Cary Grant, Laurence Olivier, Peter Ustinov e David Niven, que por um motivo ou outro, pularam fora do projeto. Até mesmo o outrora galã Errol Flynn chegou a ser cotado, mas morreu antes mesmo que o filme fosse realizado. Sorte de James Mason, primeira escolha do cineasta que, depois de ter sido impedido de aceitar o trabalho por compromissos com o teatro, ficou com um dos papéis mais marcantes de sua carreira. Sua construção de Humbert é um meio-termo entre o patético e o quase cômico. Ao contrário do que poderia acontecer - tornar-se um protagonista asqueroso e rejeitado pelo público - ele cria um homem tão perdido em uma paixão avassaladora e sem esperanças que só resta ao espectador acompanhar sua trajetória à espera da próxima queda.


Interpretada pela novata Sue Lyon, que bateu 800 candidatas, a Lolita do filme de Kubrick é um pouco mais velha do que a personagem do romance, por razões óbvias (diminuir a sugestão de pedofilia). Esse detalhe, somado ao fato de Lyon aparentar ainda mais idade, atenua bastante o impacto do filme, especialmente nos dias de hoje, onde seu pretenso erotismo velado soa quase pueril. Lolita - diminuitivo de Dolores - é a filha única de Charlotte (Shelley Winters), uma viúva alegre e levemente vulgar que aluga um quarto para o estudioso de literatura Humbert Humbert (James Mason). Ciente do impacto de sua sexualidade latente e no limiar da adolescência na seriedade sóbria do novo hóspede, Lolita não hesita em provocá-lo, até que ele, em um impulso, acaba se casando com sua mãe apenas para ficar por perto. A relação entre eles, porém, ainda vai sofrer muitas reviravoltas, principalmente quando entra em cena outro velho conhecido da menina, o roteirista Clare Quilty (Peter Sellers, brilhante em um papel aumentado no roteiro).

Mesmo que esteja longe do brilhantismo das obras mais famosas de Stanley Kubrick, "Lolita" conquista o espectador graças principalmente a seu clima decadente e às sutilezas impostas pelo diretor no desenrolar de uma trama que tinha todas as possibilidades de escorregar no ridículo. Enquanto Peter Sellers dá um show em cada aparição, James Mason se esforça em arrancar da plateia um mínimo de simpatia para um personagem fadado à repulsa - a opção do roteiro em deixar de lado sua história pregressa, que envolve uma paixão do passado que de certa forma justifica sua obsessão por Lolita, chega a ser questionável nesse ponto. Mas a maneira inteligente com que Kubrick dribla o óbvio - toda a relação entre os protagonistas no segundo ato é mantida propositalmente dúbia - é sensacional, dando ao filme uma densidade que não seria possível se todas as cartas estivessem na mesa.

Refilmado de forma menos feliz por Adrian Lyne em 1997, "Lolita" colocou o fleumático Jeremy Irons no papel de Humbert Humbert e Melanie Griffith como Charlotte Haze, além de ter lançado a carreira da então promissora Dominique Swain. Mesmo com considerável maior liberdade com o tema, no entanto, Lyne não obteve o mesmo resultado de Kubrick, sendo praticamente ignorado por público e crítica.

quarta-feira

OS INOCENTES

OS INOCENTES (The innocents, 1961, 20th Century Fox, 100min) Direção: Jack Clayton. Roteiro: William Archibald, Truman Capote, John Mortimer, romance "A volta do parafuso", de Henry James. Fotografia: Freddie Francis. Montagem: James Clark. Música: Georges Auric. Figurino: Motley. Direção de arte: Wilfrid Shingleton. Produção executiva: Albert Fennell. Produção: Jack Clayton. Elenco: Deborah Kerr, Peter Wyngarde, Megs Jenkins, Michael Redgrave, Pamela Franklin, Martin Stephens. Estreia: 24/11/61

Quarenta anos antes do chileno Alejandro Amenabar conquistar crítica e público com seu assustador "Os outros" - um dos mais fascinantes e inteligentes representantes do gênero terror no século XXI - um outro filme que divide com ele a atmosfera lúgubre e a sugestão em detrimento do explícito, estreava na Inglaterra. Baseado no livro "A volta do parafuso", de Henry James (ou mais precisamente na peça de teatro de 1950, adaptada por William Archibald da obra de James), "Os inocentes" diferia radicalmente dos filmes de terror do estúdio Hammer (também inglês), que na mesma época fazia sucesso usando e abusando de monstros clássicos da literatura e do cinema. Elegante, sutil e muito mais tétrico do que qualquer Frankenstein ou lobisomem, o filme de Jack Clayton ficou marcado da memória de muita gente: Deborah Kerr o considera seu melhor trabalho, a cantora Kate Bush compôs uma música inspirada no filme, o exigente François Truffaut declarou-o o melhor filme feito na Inglaterra pós-Hitchcock e Guillermo Del Toro (diretor dos ótimos "A espinha do diabo" e "O labirinto do fauno") o tem na lista de seus seis filmes de terror prediletos. A questão é: por que tanto auê?

É simples responder: partindo de uma premissa simples e aparentemente banal e lugar-comum, "Os inocentes" acaba se desviando, em seu percurso, para um apavorante e perturbador conto gótico que ousa em utilizar as crianças do enredo não apenas como escada para os sustos, mas sim como componentes essenciais de uma tragédia romântica. Tudo aquilo que hoje é considerado clichê nos filmes do gênero funciona à perfeição aqui, conduzindo o espectador a um torvelinho de chocantes conclusões, que fogem radicalmente do que poderia ser considerado previsível. A trama é tão radical que o próprio diretor não permitiu que as crianças do elenco lessem o roteiro inteiro - por motivos que, quando se assiste ao resultado final, ficam bastante claros. Jack Clayton - cuja direção levou Simone Signoret ao Oscar por "Almas em leilão" e ainda dirigiria outro filme de terror elogiado, "Todas as noites às nove", e a adaptação de "O grande Gatbsy" estrelada por Robert Redford e Mia Farrow - faz de sua obra um sóbrio estudo sobre amor e obsessão. Se o medo surge no caminho é porque ele sabe exatamente que notas tocar para que isso aconteça.


E as notas começam a ser tocadas logo no começo, quando a Srta. Giddens (Deborah Kerr, ótima) chega à mansão do interior da Inglaterra vitoriana, onde passará a trabalhar como governanta: em seus primeiros passos na imensa propriedade, ela já ouve vozes femininas chamando a pequena Flora (Pamela Franklin), uma das sobrinhas de seu empregador - e uma das duas crianças de quem ela deve cuidar. Não demora muito para que Giddens conquiste a simpatia da menina e da outra empregada da casa, que, mesmo não querendo, acaba contando a ela a trágica história de amor que matou dois funcionários da mansão, um ano antes. A volta para casa de Miles (Martin Stephens), irmão de Flora que foi expulso por motivos obscuros da escola a que frequentava deflagra de vez acontecimentos até então tidos pela governanta como pura imaginação: ela passa a ver fantasmas, ouvir vozes e perceber mudanças repentinas no comportamento dos meninos. Depois de decidir chamar um padre, porém, ela decide resolver pessoalmente a situação.

A resolução da trama pouco tem de convencional, surpreendendo justamente por desviar dos atalhos do clichê. A forma como os fantasmas se manifestam, seus motivos e a maneira como Clayton ilustra seu conto assombroso são uma festa para os olhos e ouvidos. A fotografia de Freddie Francis - que mescla dias luminosos com penumbras arrepiantes - e a trilha sonora de Georges Auric, que inclui uma tétrica canção antes mesmo do logo da Fox (produtora do filme) são pontos altos da produção, que também conta com uma dupla exemplar de atores mirins e um clima sufocante de tensão e medo. Sem mostrar mais do que ligeiras aparições fantasmagóricas nas horas certas e um final que vai contra toda e qualquer regra atual, "Os inocentes" é terror de primeira, daqueles de tirar o sono.

terça-feira

MEU PASSADO ME CONDENA

MEU PASSADO ME CONDENA (Victim, 1961, Allied Film Makers, 100min) Direção: Basil Dearden. Roteiro: Janet Green, John McCormick. Fotografia: Otto Heller. Montagem: John D. Guthridge. Música: Philip Green. Direção de arte: Alex Vetchinsky. Produção: Michael Relph. Elenco: Dick Bogarde, Sylvia Sims, Dennis Price, Anthony Nicholls, Peter Copley, Peter McEnery, John Barrie, John Cairney. Estreia: 08/61

O início é aflitivo. Um jovem rapaz inglês escapa desesperadamente da polícia e procura vários amigos na busca de ajuda para uma fuga iminente, sem, no entanto, conseguir com nenhum deles o necessário para uma viagem que lhe parece imprescindível. Demora um pouco até que o público finalmente consiga entender o que está se passando diante de seus olhos: Jack Barrett (Peter McEnery) é um homossexual que roubou uma considerável quantia da empresa onde trabalha para pagar uma chantagem. Explica-se: no início da década de 60, homossexualidade ainda era um crime passível de prisão, na Inglaterra - com o mesmo peso criminal de assalto à mão armada, por exemplo. Quando Barrett se suicida na cadeia, os policias descobrem sua ligação com Melvin Farr (Dick Bogarde), um exemplar advogado de 40 anos, casado e em ascensão na carreira, almejando inclusive uma vaga na Câmara dos Lordes. Torturado pela culpa de não ter atendido as ligações de Barrett antes de sua trágica morte, Farr - que teve um envolvimento emocional com o rapaz e cuja foto era o material da chantagem - resolve descobrir, por conta própria e com a ajuda de um dos amigos do rapaz morto, a identidade do chantagista.

Em ritmo de suspense hitchcockiano - o que inclui até mesmo o cuidado com detalhes irônicos, como uma reprodução do Davi de Michelângelo na parede de um dos chantagistas - o cineasta Basil Dearden causou polêmica com seu "Meu passado me condena", lançado em uma época em que o tema ainda era considerado um grande tabu, especialmente na Inglaterra, onde se passa a história. O roteiro inteligente mescla a trama policial da busca pelo chantagista - um criminoso que se aproveitava do fato de homossexualidade ser igualmente um crime, ironicamente menos aceito pelo status quo - com insights brilhantes sobre a sociedade de então (e assustadoramente distante apenas 50 anos de hoje). Desfilam pela tela um festival de preconceitos - velados ou não - que desenha de forma indelével uma parcela da sociedade muito mais doente do que os considerados assim. Surge o barman que trata os gays de forma amigável apenas por motivos comerciais mas que não hesita em fazer piadas pelas costas. Aparece o investigador de polícia que não vê mal nenhum em "ser puritano" - até ouvir de seu superior que houve um tempo em que isso também era contra a lei. E há o cunhado amigável que vira as costas assim que descobre a verdade sobre o marido da irmã - além da esposa de um dos amigos de Barrett, que o manda "ficar junto com os seus".


O desfile de preconceitos de "Meu passado me condena" - felizmente expostos sob uma lupa com objetivos claros de mostrá-los como a verdadeira anomalia de uma sociedade - apenas sublinha uma trama forte e contundente o bastante para que pudesse tranquilamente manter-se de pé sem eles. Dearden usa as convenções do thriller para contar uma história sobre discriminação, mas nunca deixa que lhe falte ingredientes para manter a audiência interessada em seu desfecho. O roteiro espalha pistas pelo caminho, apresenta suspeitos, surpreende o espectador constantemente com novas revelações - aquele homem aparentemente tão certinho no final de contas também é um alvo das chantagens - e, mais interessante de tudo, não tem vergonha de apostar na força do amor verdadeiro através da esposa de Farr, Laura, interpretada com convição e emoção por Sylvia Syms nas cenas mais comoventes do filme.

Se tem o mérito de ser o primeiro filme inglês a falar abertamente sobre homossexualidade e a chaga do preconceito, "Meu passado me condena" tem também a seu favor o carinho com que trata seus personagens. Todas as vítimas do chantagista, por exemplo, são vistos com ternura, com verdadeira compaixão e não como aleijões dignos de pena (o que poderia acontecer em mãos menos seguras). É particularmente emocionante ver como homens dignos, trabalhadores e honestos - alguns até mesmo de idade avançada - podiam ter suas vidas destruídas simplesmente por "amar errado". E a dignidade transmitida pelo filme deve muito à presença de Dick Bogarde, que ficou com um papel que foi cogitado até para James Mason, e entrega uma atuação visceral em sua discrição: são os olhos que falam por Melvin Farr, e neles se percebe claramente um turbilhão de dor, dúvidas e medo.

Em um período negro repleto de fundamentalistas cristãos que pregam o ódio, o preconceito, a discriminação e a violência contra os homossexuais, "Meu passado me condena" é obrigatório. Nunca um filme da década de 60 pareceu tão atual.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...