quinta-feira

AGENTE 86

 


AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, personagens criados por Mel Brooks, Buck Henry. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Richard Pearson. Música: Trevor Rabin. Figurino: Deborah L Scott. Direção de arte/cenários: Wynn Thomas/Suzanne Cloutier, Paul Rotte, Leslie E. Rollins. Produção executiva: Bruce Berman, Steve Carell, Dana Goldberg, Jimmy Miller, Brent O'Connor, Peter Segal. Produção: Michael Ewing, Alex Gartner, Andrew Lazar, Charles Roven. Elenco: Steve Carell, Anne Hathaway, Dwayne Johnson, Alan Arkin, Terence Stamp, Terry Crews, David Koechner, Bill Murray, James Caan. Estreia: 20/6/2008

Em 1998, poucos nomes em Hollywood pareciam mais apropriados para uma versão cinematográfica da série de TV "Agente 86" do que o de Jim Carrey, Astro de comédias de sucesso que exploravam seu humor físico, o ator canadense soava como a escolha ideal para assumir o mais icônico papel do veterano Don Adams. Por uma série de razões, no entanto, o projeto acabou sendo deixado de lado até metade dos anos 2000 - mas, com a morte de Adams, em 2005, tornou-se quase obrigatória uma homenagem digna a um dos programas mais populares dos anos 1960. Para sorte de todos, foi também em 2005 que estreou, na NBC, a releitura da telessérie britânica "The office": seu protagonista, Steve Carell, mostrou-se, em poucos episódios, uma opção inequívoca para vestir a personalidade de Maxwell Smart, um agente secreto cujo brilhantismo intelectual contradizia sua total inabilidade para o trabalho de campo. Ciente de seu talento cômico - revelado e consagrado em "O virgem de 40 anos" (2005) - e da importância do trabalho, Carell entrou de corpo e alma em sua missão. Como produtor executivo e líder do elenco, ele transformou o que poderia ser apenas uma produção caça-níqueis em um sucesso quase inesperado: com 230 milhões de dólares arrecadados pelo mundo, "Agente 86" não apenas demonstrou respeitar o material original, mas também conquistou uma nova geração de fãs.

CONTROL, agência secreta norte-americana está em risco: boa parte de seus integrantes teve suas identidades reveladas por um grupo terrorista chamado KAOS - liderado pelo infame Siefgried (Terence Stamp) -, que ameaça praticar um atentado à bomba em local ainda desconhecido. Para impedir que tal hecatombe aconteça, o chefe no comando (Alan Arkin) resolve finalmente realizar o sonho de um seus mais dedicados agentes, Maxwell Smart (Steve Carell), e incumbí-lo de um trabalho de campo. Genial em suas missões intelectuais mas desastrado e desligado no dia-a-dia, Smart é rebatizado como Agente 86 e é designado a fazer dupla com a atraente Agente 99 (Anne Hathaway) - cujo rosto pós-cirurgia plástica é desconhecido pelos criminosos. A dupla pouco provável viaja então para a Rússia - e seus métodos opostos acabam por aproximá-los. A descoberta de um agente duplo, porém, põe em xeque seu incipiente relacionamento.

O roteiro - que contou com a colaboração não creditada de Carell e de seu colega de "The office", B.J. Novak - é apenas uma desculpa para uma série de piadas visuais e verbais, lançadas em um ritmo vertiginoso que realça o talento de sua dupla de protagonistas. Se Carell demonstra estar totalmente à vontade em cena, arrancando gargalhadas com sua simples presença, o trabalho de Anne Hathaway tampouco fica atrás: sexy e com um excelente tempo de comédia, a futura vencedora do Oscar não se deixa suplantar por seu parceiro (a sequência em que os dois dançam em uma festa, cada um com seu par, deixa qualquer um com um sorriso nos lábios). E se os protagonistas deitam e rolam, o elenco coadjuvante faz o mesmo, desde o veterano Alan Arkin até um surpreendente Dwayne Johnson, como o Agente 23, ídolo de Smart e seu exemplo dentro da agência. Até nomes pouco conhecidos, como Masi Oka e Nate Torrence conseguem fazer rir, graças à direção precisa de Peter Segal - cujo currículo inclui o terceiro capítulo da série "Corra que a polícia vem aí" e "Terapia de choque", estrelado por Jack Nicholson e Adam Sandler - que transforma todo pequeno momento em entretenimento puro.

O sucesso de "Agente 86" não foi suficiente, no entanto, para uma continuação. Apesar dos desejos da equipe, alguns fatores colaboraram para que o primeiro filme não rendesse uma sequência. A morte do produtor Alan Horn (que abandonou o projeto quando ele saiu das mãos da Disney) e do ator Alan Arkin e a agenda apertada de Anne Hathaway, além da dificuldade de encontrar um roteiro à altura acabaram por sepultar a possibilidade, para desgosto do público que esperava voltar a rir com as trapalhadas de Maxwell Smart. E se tudo funcionou como um relógio no primeiro capítulo não deixa de ser um alívio pensar que ninguém conseguiu estragar tudo com uma produção menos feliz em uma continuação equivocada.

quarta-feira

MEU PRIMEIRO AMOR


MEU PRIMEIRO AMOR (My girl, 1991, Columbia Pictures/Imagine Entertainment, 102min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Laurice Elehwany. Fotografia: Paul Elliott. Montagem: Wendy Greene Bricmot. Música: James Newton Howard. Figurino: Karen Patch. Direção de arte/cenários: Joseph T. Garrity/Linda Allen. Produção executiva: Joseph M. Caracciolo, David T. Friendly. Produção: Brian Grazer. Elenco: Anna Chlumsky, Dan Aykroyd, Jamie Lee Curtins, Macaulay Culkin, Griffin Dunne. Estreia: 27/11/91

No começo dos anos 1990, pouca gente estava mais na crista da onda do que Macaulay Culkin. Com o sucesso estratosférico de "Esqueceram de mim" (1990) - que arrecadou inacreditáveis 470 milhões de dólares ao redor do mundo -, o pequeno astro, então com apenas dez anos de idade era visto como uma mina de ouro, pelos estúdios e, como se soube mais tarde, principalmente pela família. Portanto, não chegou a surpreender que "Meu primeiro amor", uma comédia romântica infantojuvenil apenas simpática e sem grandes nomes no elenco tenha se tornado um êxito comercial tendo seu nome como principal chamariz. Mesmo sem o mesmo impacto de seu filme anterior - um fenômeno mundial que lhe rendeu até mesmo uma indicação ao Golden Globe -, a produção dirigida pelo pouco inspirado Howard Zieff confirmou seu status dentro da indústria (que seria ainda reforçado por "Esqueceram de mim 2" e "O anjo malvado") e, de quebra, levou milhares de fãs às lágrimas com sua história de amizade, amadurecimento e perdas. O que nem todo mundo percebeu, no entanto - ao menos na época do lançamento - é que, apesar de Culkin ter sido o principal ponto de interesse do filme, seu maior destaque atendia pelo nome de Anna Chlumsky. É ela que, tão jovem quanto seu colega mais famoso, carrega, com seu carisma e talento, a responsabilidade de encantar e emocionar as plateias - adulta e juvenil - com a história de Vada Sultenfuss.

No verão de 1972, Vada tem onze anos de idade e vive sozinha com o pai, Harry (Dan Ayckroyd), em uma pequena cidade da Pensilvânia. Esperta, hipocondríaca e alvo do despeito das meninas de sua idade, ela encontra consolo nas aulas de seu professor de Inglês, Mr. Bixler (Griffin Dunne), e em suas tardes com o melhor amigo, Thomas Sennett (Macaulay Culkin), também pouco popular e solitário. Órfã de mãe e obcecada com qualquer assunto relacionado à morte - em parte devido ao fato de seu pai ser dono de uma casa funerária -, Vada sofre com a falta de uma figura materna, mas vê sua rotina ser transformada com a chegada da excêntrica Shelley Devoto (Jamie Lee Curtis): contratada como maquiadora dos cadáveres/clientes de Harry, ela logo se torna interesse romântico do desajeitado viúvo e a nova configuração familiar abala o até então tranquilo cotidiano da menina, também em fase de autodescobertas. A princípio relutante em ter que dividir o amor do pai com outra mulher, Vada vai aos poucos percebendo que crescer muitas vezes é um processo doloroso, com perdas inevitáveis - ao mesmo tempo em que novas relações surgem e podem deixar o caminho menos árduo.

 

Lançado com o duvidoso título de "Meu primeiro amor" como forma de capitalizar em cima da presença bastante coadjuvante de Macaulay Culkin - ainda que seu nome original não seja exatamente um primor de criatividade, sendo apenas mais um exemplar de filmes batizados depois de sucessos musicais -, o filme de Howard Zieff não se limita apenas à história do pueril e encantador relacionamento entre Vada e Thomas, por mais que o marketing tenha se esmerado em explorá-lo e a memória afetiva do público assim o tenha percebido. A jovem protagonista, defendida com garra por Anna Chlumsky, tem o verão como rito de passagem, uma ponte de amadurecimento que vai além de um beijo rápido à beira de um lago. Nos poucos meses nos quais a história é contada, ela experimenta também a decepção romântica e ingênua com o professor adulto, o fato de que a solidão compulsória de seu pai tem data de vencimento, a percepção de que novas amizades podem estar onde menos se espera e, golpe de misericórdia, o encontro com a morte como algo bem mais palpável e cruel do que aquilo que, de certa forma, fazia parte de seu cotidiano. O roteiro não chega a aprofundar nenhuma dessas questões - afinal de contas, é apenas um filme com pretensões comerciais estrelado por duas crianças -,  mas sua evidente sinceridade em tratar de relações humanas torna impossível não se deixar comover. Para isso ajuda o frescor do elenco - não apenas o infantil, mas também o adulto, liderado por Dan Aykroyd e Jamie Lee Curtis (reunidos oito anos depois do sucesso de "Trocando as bolas").

Vindo do fracasso retumbante de "Nada além de problemas" (1991) - que estrelou e dirigiu, Dan Aykroyd demonstra, em suas cenas, uma mescla bem equilibrada de sensibilidade e humor. Escolhido pelo produtor Brian Grazer depois que Steve Martin e Bill Murray recusaram o papel por causa de outros compromissos - e pelas dúvidas sobre a capacidade de Chevy Chase de realizar um bom trabalho dramático -, Aykroyd se situa no meio do caminho entre duas forças femininas de gerações distintas. Enquanto Chlmusky representa a inocência infantil, Jamie Lee Curtis oferece um lado sensual, maduro e maternal - uma figura que irá, definitivamente, moldar a persona adulta de Vada e colocar nos eixos uma estrutura familiar capenga. E é justamene do crescimento emocional da menina - o que inclui, logicamente, o tal primeiro do amor do título brasileiro - que se trata o filme de Zieff, e nesse ponto pode-se dizer que, se não é uma obra-prima, ao menos ele é honesto e delicado. Não à toa, tornou-se filme conforto de milhares de espectadores através dos anos.

terça-feira

NOIVA EM FUGA


NOIVA EM FUGA (Runaway bride, 1999, Paramount Pictures/Touchstone Pictures, 116min) Direção: Garry Marshall. Roteiro: Josann McGibbon, Sara Parriott. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Bruce Green. Música: James Newton Howard. Figurino: Edgar Pomeroy, Albert Wolsky. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Stephanie Carroll. Produção executiva: Gary Lucchesi, David Madden, Ted Tannembaum. Produção: Robert W. Cort, Ted Field, Scott Kroopf, Tom Rosenberg. Elenco: Julia Roberts, Richard Gere, Joan Cusack, Hector Elizondo, Rita Wilson, Christopher Melony, Donal Logue, Laurie Metcalf. Estreia: 30/7/99

Nove anos se passaram entre "Uma linda mulher" e "Noiva em fuga". Nesse meio tempo, Julia Roberts foi do céu (Globo de Ouro, indicação ao Oscar, salários milionários) ao inferno (vida sentimental atribulada, brigas com a imprensa, fracassos de bilheteria), e Richard Gere equilibrou (poucos) êxitos comerciais com uma boa quantidade de fiascos financeiros. A reunião da dupla era algo que os fãs - e principalmente os estúdios, ávidos por dólares - esperavam ansiosamente desde que a comédia romântica, dirigida por Garry Marshall, tornou-se um fenômeno na temporada 1990, e depois de várias tentativas infrutíferas (inclusive projetos sempre abortados de uma continuação), finalmente o público pode conferir se a química milionária ainda se mantinha e se o raio poderia cair duas vezes no mesmo lugar. A resposta para ambas as perguntas foi um sonoro "sim" - mais de 300 milhões de dólares de arrecadação mundial e críticas majoritariamente favoráveis. Mas por que, então, a impressão de que, no final das contas, ficou faltando alguma coisa?

Talvez o maior problema de "Noiva em fuga" seja a falta do frescor de "Uma linda mulher" - especialmente quanto ao desempenho de Julia Roberts, então em começo de carreira e sem as marcas (boas e ruins) de uma década de caminhada. Ou talvez o roteiro pouco inspirado e sem o glamour da Los Angeles sofisticada do filme de 1990. Quem sabe até mesmo o excesso de personagens secundários, que tira o foco dos protagonistas e deixa o ritmo menos enxuto. O fato é que o reencontro de um casais mais icônicos do cinema moderno não despertou as faíscas esperadas - mesmo porque nem sempre eles foram os atores idealizados para os papéis centrais. Nos dez anos que separam o começo de sua gestação e sua estreia, nomes como Mel Gibson, Harrison Ford, Michael Douglas e Ben Affleck foram sondados para viver o jornalista Ike Graham, enquanto Geena Davis, Sandra Bullock e Demi Moore chegaram perto de assumirem a independente Maggie Carpenter. Levando-se em consideração o quanto tais intérpretes são diferentes entre si, pode-se imaginar o quanto o roteiro mudou ou se adaptou nesse período - o que não chega a ser surpresa, uma vez que o próprio "Uma linda mulher" também sofreu alterações radicais antes de seu lançamento - e o quanto as presenças de Roberts e Gere são quase acidentais em uma trama sem maiores encantos além de suas presenças carismáticas.

 

Apesar do título dar destaque a Roberts, pode-se dizer que o personagem principal de "Noiva em fuga" é Ike Graham (Richard Gere), colunista de um grande jornal de Nova York que se vê demitido depois de publicar - sem checar a veracidade dos fatos - um texto a respeito de uma jovem do interior de Maryland conhecida na cidade por ter abandonado vários noivos no altar sem explicação nenhuma. Tentando provar que estava certo em sua história, Ike vai até a pequena cidade de Hale para testemunhar, em primeira mão, mais uma fuga da bela Maggie Carpenter (Julia Roberts) - cuja carta para seus editores foi a responsável por sua dispensa. Noiva pela quarta vez - agora do professor de Educação Física Bob Kelly (Christopher Meloni) - e decidida a honrar definitivamente seu compromisso (até como forma de desmentir Ike), Maggie a princípio hostiliza o repórter, que se aproxima de seus amigos e família, mas aos poucos vai se deixando conquistar por seu charme e sua lábia. Confiando nele - apesar de sua fama de ser pouco simpático ao sexo feminino -, a jovem e bela noiva torna-se não apenas objeto de uma possível nova matéria, mas também a mulher que pode enfim fazê-lo descobrir o amor. Apaixonada, ela fica dividida entre finalmente casar-se com quem não ama, ou assumir seus sentimentos e deixar que Ike fique com a razão sobre seu passado pouco invejável.

Apesar de apresentar momentos divertidos e algumas situações no mínimo agradáveis, "Noiva em fuga"  é um filme irregular. Nem tudo funciona como deveria (os personagens secundários muitas vezes ficam sem função alguma a não ser soltar piadas avulsas) e o clímax tampouco empolga - culpa talvez da falha em envolver o espectador no romance entre seus protagonistas. A aura apaixonada que cobria Gere e Roberts em "Uma linda mulher" simplesmente inexiste aqui, apesar da química manter-se intacta, e nos embates mais dramáticos entre eles fica evidente a fragilidade do roteiro e a direção pouco inspirada de Garry Marshall, que parece confiar tanto em seus atores que esquece de dar-lhes um bom material. No final das contas, é uma comédia romântica simpática, mas muito aquém do que se poderia esperar da união de um time cujo primeiro encontro deu origem a um dos mais queridos filmes de seu tempo.

 

segunda-feira

FUGA À MEIA-NOITE

 


FUGA À MEIA-NOITE (Midnight run, 1988, Universal Pictures, 126min) Direção: Martin Brest.Roteiro: George Gallo. Fotografia: Donald E. Thorin. Montagem: Chris Lebenzon, Michael Tronick, Billy Weber. Música: Danny Elfman. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Angelo Graham/George R. Nelson. Produção executiva: William S. Gilmore. Produção: Martin Brest. Elenco: Robert DeNiro, Charles Grodin, Joe Pantoliano, Yaphet Kotto, Dennis Farina, John Ashton. Estreia: 20/7/88
 
Jack Nicholson, Al Pacino, John Travolta, Michael Douglas. Mel Gibson, Sylvester Stallone, Arnold Schwarzenegger. Charles Bronson, Clint Eastwood, Gene Hackman. Burt Reynolds, Richard Gere, Mickey Rourke, Jeff Bridges. Dustin Hoffman, Jon Voight, Harrison Ford. Em determinado período da segunda metade da década de 1980, praticamente todo ator de razoável visibilidade em Hollywood foi cogitado, sondado ou meramente imaginado no papel principal de "Fuga à meia-noite", uma comédia de ação que, explorando o velho clichê das duplas improváveis - que havia sido o motor do megasucesso "Máquina mortífera" (1987) -, era a principal aposta da Paramount Pictures para a temporada 1988. Com um roteiro leve, ágil e engraçado e a direção de Martin Brest - vindo da consagração de "Um tira da pesada" (1984) -, o projeto surpreendeu ao mudar de mãos antes do começo das filmagens: por tais famosas "diferenças criativas", os executivos do estúdio passaram a ideia adiante e, em sua nova casa, a Universal Pictures, o filme tornou-se um dos maiores êxitos comerciais do ano, com uma renda superior a 80 milhões de dólares - e agradou em cheio também à crítica, com duas indicações ao Golden Globe (ator e filme/comédia ou musical) e a inclusão na lista dos dez melhores do National Board of Review. E se o perfeito equilíbrio entre os gêneros e a direção precisa de Brest são ingredientes cruciais ao sucesso da produção, é inegável que seu maior trunfo é a presença irresistível de Robert DeNiro - no final das contas a escolha mais acertada para liderar o elenco, a despeito de sua imagem de ator dramático.

E foi justamente a vontade de DeNiro em explorar um lado novo de seu talento que o aproximou do projeto de "Fuga à meia-noite": depois de perder o papel principal de "Quero ser grande" (1988) para Tom Hanks, o ator agarrou com unhas e dentes a oportunidade de viver Jack Walsh, um ex-policial tornado caçador de recompensas envolvido em um jogo de gato e rato que lembra os melhores momentos do clássico "Acorrentados", que em 1958 uniu Tony Curtis e Sidney Poitier em um road movie dos mais movimentados e empolgantes. Ao lado de um inspirado Charles Grodin, DeNiro não abdica de seus trejeitos mais conhecidos, mas os usa de forma inteligente, como ferramentas para fazer rir como nunca antes em sua carreira: calcado em diálogos espirituosos e na brincadeira com a percepção do público a seu respeito, ele prescinde de caretas ou exageros para alcançar o tom ideal - e quando necessita oferecer emoção, o faz com a sutileza de que só os grandes são capazes. Mesmo que seja uma comédia - um gênero tradicionalmente menosprezado pela crítica considerada séria - o filme de Brest não descuida da direção de atores, e no fim é isso que faz toda a diferença.
 
 
O roteiro, repleto de reviravoltas e sequências que capricham na ação e no humor, conta a história da conturbada relação entre Jack Walsh e Jonathan Mardukas. Walsh saiu da polícia depois de acontecimentos mal expliados envolvendo criminosos da pesada e seu casamento fracassado. Mardukas é um contador foragido que deu um golpe em seu patrão mafioso, Jimmy Serrano (Dennis Farina), distribuiu 15 milhões de dólares a instituições de caridade e se encontra escondido da polícia. Seus caminhos se cruzam quando o agente de fianças Eddie Moscone (Joe Pantoliano) contrata Walsh para localizar Mardukas em Nova York e entregá-lo em Los Angeles no prazo de quatro dias. O experiente caçador de recompensas aceita o desafio e tudo parece correr dentro do previsto apesar da personalidade irritante do contador. Porém, o que Walsh não sabe é que há mais gente disposta a qualquer coisa para colocar as mãos em seu companheiro de viagem: a polícia, na figura do agente do FBI Alonso Mosely (Yaphet Kotto); o competitivo rival de Walsh, Marvin Dorfler (John Ashton em papel considerado para John Goodman e John Candy); e o próprio Jimmy Serrano, em busca de vingança por seu dinheiro roubado. No caminho até Los Angeles - e até o pouco confiável Moscone, os dois novos parceiros começam a desenvolver uma relação de amizade (atípica) e respeito (ainda que velado).

Brilhante em sua forma de equilibrar humor e ação, "Fuga à meia-noite" é um produto típico de sua época, apresentando uma série de clichês e explorando-os da maneira mais inteligente possível. A dupla formada por DeNiro e Charles Grodin - no melhor desempenho de sua carreira - pode facilmente fazer parte de uma linhagem de parceiros antológicos do cinema hollywoodiano (uma lista da qual fazem parte Butch Cassidy & Sundance Kid e Riggs & Murtaugh), e é dela os melhores momentos do longa, principalmente quando acontecem os divertidos embates de personalidade, capazes de fazer gargalhar o mais mau-humorado espectador. E destacar-se em um universo de produções que parecem seguir sempre a mesma fórmula (ainda que nem sempre de maneira memorável) não deixa de ser um feito e tanto!

P.S.: E quanto às "diferenças criativas" que fizeram a Paramount entregar o filme de bandeja à Universal? Basta dizer que, para aumentar as chances de sucesso da produção, o estúdio queria alterar o gênero de Mardukas para criar uma tensão sexual entre os protagonistas - e tinha até o nome de Cher como possibilidade de estrela. Depois da rejeição peremptória de Martin Brest, houve a sugestão de Robin Williams - vindo do sucesso de "Bom dia, Vietnã" (1987) -, mas a insistência do cineasta em manter Charles Grodin como coprotagonista (a despeito de não ser um grande nome) acabou por desagradar os engravatados, que acharam por bem abandonar o barco e deixar o projeto para outros. O tempo mostrou quem estava enganado...

sábado

COCKTAIL

 


COCKTAIL (Cocktail, 1988, Touchstone Pictures, 104min) Direção: Roger Donaldson. Roteiro: Heywood Gould, romance de sua autoria. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Neil Travis. Música: J. Peter Robinson. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Mel Bourne/Hilton Rosemarin. Produção: Robert W. Cort, Ted Field. Elenco: Tom Cruise, Bryan Brown, Elisabeth Shue, Gina Gershon, Kelly Lynch. Estreia: 29/7/88

Em 1989, Tom Cruise já havia começado sua transição de galã juvenil para ator respeitado pela crítica e pela indústria - o que confirmou-se com sua indicação ao Oscar por "Nascido em 4 de julho", dirigido por Oliver Stone. Antes de abandonar seu status de símbolo sexual, porém, deu de presente a seus fãs um último trabalho capaz de explorar seu sorriso e seu carisma. Baseado no romance homônimo de Heywood Gould, também autor do roteiro pouco inventivo - e que foi premiado com o Framboesa de Ouro da categoria -, "Cocktail"se enquadra nos tradicionais dramas românticos de fundo moralista que tanto fizeram sucesso na década de 1980, mas que, valorizado por uma embalagem atraente (belas locações na Jamaica, trilha sonora de hits, elenco de jovens astros em ascensão) o levou a arrecadar polpudos 170 milhões de dólares ao redor do mundo. Uma prova inconteste do apelo de Cruise junto ao público, o filme do neozelandês Roger Donaldson - vindo do ótimo "Sem saída" (1987), que deu a Kevin Costner um de seus melhores papéis no cinema - o coloca novamente ao lado de um ator veterano como forma de contraste entre duas gerações. Se em "A cor do dinheiro" (1986) a dupla era com Paul Newman (que ganhou o Oscar por seu desempenho), e em "Rain Man" (lançado pouco meses depois de "Cocktail") o encontro foi com Dustin Hoffman (igualmente oscarizado por seu trabalho), o filme de Donaldson promove o encontro de Cruise com o australiano Bryan Brown - que pouco tem a fazer com um personagem atolado em clichês.

A trama é simples e inspirada na própria experiência do roteirista por trás dos balcões de bares: Brian Flanagan (interpretado por Cruise) é um jovem ambicioso que abandona sua pequena cidade natal com o objetivo de vencer no mercado financeiro de Nova York. Seus planos logo se mostram mais complicados do que pareciam, e ele se vê trabalhando como bartender ao lado do experiente Douglas Coughlin (Bryan Brown), que lhe serve como mentor e melhor amigo. Aos poucos, esbanjando carisma e dedicação, Brian se torna um dos mais conhecidos profissionais do ramo e, mudando o rumo de seus desejos de sucesso, se une a Douglas no objetivo de abrir um negócio próprio. As coisas não saem como planejado e, depois de abandonar Manhattan - culpa de uma briga com seu futuro sócio -, o rapaz começa uma vida nova na Jamaica, onde novamente se destaca com suas coreografias elaboradas e seu sorriso cativante. É lá que ele conhece a jovem Jordan (Elisabeth Shue), com quem inicia um apaixonado romance. Mais uma vez, no entanto, tudo vira do avesso em sua vida quando Douglas reaparece, rico, bem casado e disposto a apagar as rusgas do passado - o que pode ameaçar o nascente relacionamento com a doce Jordan.

 

Apesar de depender quase unicamente do sorriso e do carisma de Cruise - algo que o então jovem galã não economizava, para alegria dos fãs -, "Cocktail" nem sempre teve tal trunfo em mãos. Antes que Cruise acertasse sua participação no filme, atores de vários tipos físicos, idades e perfis foram cotados para liderar o elenco - um forte indício da falta de personalidade de um projeto que, segundo o próprio Heywood Gould, deu origem a 40 diferentes versões do roteiro. Dessa forma, nomes como Robin Williams, Charlie Sheen, John Travolta, Rob Lowe, Jeff Bridges, Matthew Broderick e Mel Gibson chegaram a ser pensados - Keanu Reeves, Tom Hanks e Bill Murray só foram deixados de lado por conflitos com outros compromissos. Da mesma forma, o papel do mentor do protagonista também teve sua lista de possíveis intérpretes, que iam de Paul Newman e Dustin Hoffman (que voltariam a contracenar com Cruise) a Jack Nicholson, Harrison Ford, Tommy Lee Jones, Joe Pesci e Michael Caine (que pulou fora do barco para integrar o elenco do hilário "Os safados", ao lado de Steve Martin. E até mesmo a atriz para viver a doce heroína do filme, Jordan, foi objeto de discussão, com Elisabeth Shue batendo nomes fortes como Demi Moore, Jennifer Jason Leigh, Jennifer Grey, Sarah Jessica Parker, Daryl Hannah e, pasmem, Jodie Foster.

É inegável que, sob a luz da nostalgia, "Cocktail" é uma sessão da tarde deliciosa, descompromissada, leve e agradável. Como cinema, porém, é apenas um veículo para explorar a popularidade de Tom Cruise - e sob esse ponto de vista, o filme é um sucesso. A bilheteria expressiva ajudou o estúdio (a Touchstone Pictures), a ascensão do astro (que em breve focaria a carreira em produções mais sérias) e o público, que lotou salas de exibição para acompanhar uma história quase maniqueísta, fotografada de forma tão solar e romântica que mal deixava vislumbrar seu moralismo quase ingênuo. No frigir dos ovos, a química entre Cruise, Brown e Shue - somada à trilha sonora que incluía até mesmo uma canção original dos Beach Boys - foi o suficiente para as plateias menos exigentes e serviu para reafirmar a posição de seu astro como um dos nomes mais fortes do cinema hollywoodiano dos então vindouros anos 1990.

sexta-feira

TODO PODEROSO

 


TODO PODEROSO (Bruce Almighty, 2003, Universal Pictures, 103min) Direção: Tom Shadyac. Roteiro: Steve Koren, Mark O'Keefe, Steve Oedekerk, estória de Steve Koren, Mark O'Keefe. Fotografia: Dean Semler. Montagem: Scott Hill. Música: John Debney. Figurino: Judy Ruskin Howell. Direção de arte/cenários: Linda DeScenna/Rick McElvin. Produção executiva: Gary Barber, Roger Birnbaum, Steve Oedekerk. Produção: Michael Bostik, James D. Brubaker, Jim Carrey, Steve Koren, Michael O'Keefe, Tom Shadyac. Elenco: Jim Carrey, Morgan Freeman, Jennifer Aniston, Philip Baker Hall, Steve Carell, Sally Kirkland. Estreia: 14/5/2003

Depois de provar-se como um ator capaz de alçar maiores voos dramáticos - em filmes como "O show de Truman: o show da vida" (1998), "O mundo de Andy" (1999) e "Cine Majestic" (2001) - o canadense Jim Carrey achou que já era hora de voltar à sua zona de conforto e abraçar o gênero que lhe deu fama, dinheiro e o amor de milhares de fãs. Ao reunir-se com o cineasta Tom Shadyac - que lhe deu seu primeiro grande sucesso de bilheteria, "Ace Ventura: um detetive diferente" (1994) e lhe confirmou o status de astro com "O mentiroso" (1997) - e assumir novamente seu talento em fazer rir com caras e bocas, Carrey tornou "Todo poderoso" a comédia de maior sucesso de sua carreira e, mais impressionante ainda, da história (batendo o recorde de "Esqueceram de mim", lançado em 1990). Contando com a luxuosa ajuda de Morgan Freeman e Jennifer Aniston - no auge do sucesso de "Friends" -, Carrey nem precisa se esforçar muito para arrancar gargalhadas das plateias, mesmo que nem sempre o roteiro atinja todas as suas possibilidades. Baseado livremente no romance "Almighty me", de Robert Bausch - que não é citado em nenhum momento como fonte oficial -, o filme de Shadyac brinca com a ideia universal de um ser humano adquirir poderes divinos, e aposta todas as suas fichas em seu astro. E ganha.

Criado como veículo para Kevin Hart, que abandonou o projeto por considerar o tema sacrílego, "Todo poderoso" apresenta Carrey como Bruce Nolan, um repórter televisivo infeliz com o rumo de sua carreira. Constantemente subestimado por seus superiores - que lhe escalam sempre para cobrir amenidades irrelevantes -, Nolan atinge o ápice de seu desgosto com a vida quando vê seu maior rival profissional, Evan Baxter (Steve Carrell), ficar com seu almejado posto de âncora do telejornal local. Frustrado e irado com a situação, ele acaba chamando a atenção de Deus, que ouve seus lamentos e lhe aparece (na figura de Morgan Freeman) para informar que, durante um período em que estará de férias, é o próprio Nolan quem irá ficar em seu lugar, tomando todas as decisões inerentes à função. Dotado de super poderes e com o dom de realizar milagres, conceder graças e - em pequenos atos de mesquinhez - prejudicar seu arquirrival no caminho do sucesso. Enquanto se diverte com a situação, porém, o aspirante a celebridade percebe que o Homem-aranha já sabe ("grandes poderes trazem grandes responsabilidades") e passa a negligenciar seu romance com a apaixonada Grace (Jennifer Aniston).

 


Se o roteiro escrito por Steve Koren, Mark O'Keefe e Steve Oedekerk não consegue escapar das armadilhas de uma trama quase moralista (com uma mensagem que não exatamente combina com o tom iconoclasta do humor praticado por seu ator central), Jim Carrey deita e rola em um papel que remete aos melhores momentos da comédia física que lhe consagrou. Quando o roteiro insiste em falar sério ou até mesmo apelar para o romantismo, o filme de Shadyac mostra que ambiciona mais do que simplesmente fazer rir descompromissadamente - como em seus outros trabalhos com o astro -, mas acaba por criar, involuntariamente, uma quebra de ritmo que compromete o resultado final. Os fãs de Carrey, logicamente, tem muito a aproveitar - o ator está em plena forma - e encontrarão diversos momentos hilariantes. De brinde, ainda há a participação de Steve Carell (ainda creditado como Steven) em uma sequência das mais engraçadas - não por acaso o próprio Carell assumiu a protagonização da continuação, lançada, sem o mesmo êxito, em 2007.

Banido no Egito devido a seu conteúdo considerado ofensivo, "Todo poderoso" é mais um sucesso incontestável na bem-sucedida carreira de Jim Carrey - que levou uma bolada de 25 milhões de dólares de cachê. Leve, despretensioso (ainda que levemente mais profundo do que boa parte de suas comédias) e solar, contrasta radicalmente de seu currículo até então - um currículo que seria enriquecido ainda mais no ano seguinte com o belo "Brilho eterno de uma mente sem lembranças", que ofereceria às plateias um novo lado do ator: o romântico. Antes de sua estreia, porém, o público pode divertir-se às pencas com uma trama que apostava em seu humor debochado e frequentemente exagerado - características que sempre fizeram dele uma aposta certeira quando se tratava de arrancar gargalhadas quase histéricas do espectador.

quinta-feira

ALIANÇA DO CRIME

 


ALIANÇA DO CRIME (Black Mass, 2015, Cross Creek Pictures, 123min) Direção: Scott Cooper. Roteiro: Mark Mallouk, Jez Butterworth, livro de Dick Lehr, Gerard O'Neill. Fotografia: Masanobu Takayanagi. Montagem: David Rosenbloom. Música: Tom Holkenborg. Figurino: Kasia Walicka Maimone. Direção de arte/cenários: Stefania Cella/Tracey Doyle. Produção executiva: Brett Granstaff, Gary Granstaff, Phil Hunt, Peter Mallouk, Ray Mallouk, Steven Mnuchin, James Packer, Brett Ratner, Compton Ross, Christopher Woodrow. Produção: Scott Cooper, John Lesher, Patrick McCormick, Brian Oliver, Tyler Thompson. Elenco: Johnny Depp, Joel Edgerton, Benedict Cumberbatch, Dakota Johnson, Kevin Bacon, Peter Sarsgaard, Jesse Plemons, Rory Cochrane, David Harbour, Adam Scott, Corey Stoll, Julianne Nicholson, Juno Temple. Estreia: 04/9/2015 (Festival de Veneza)

É difícil assistir a qualquer cena de "Aliança do crime" sem que o cinema de Martin Scorsese surja na memória do espectador. Não por sua qualidade (apenas razoável), mas porque, de uma forma ou outra, o cineasta nova-iorquino criou uma espécie de cânone em relação ao subgênero de filmes de gângster - ao menos aqueles menos épicos - do qual poucos diretores conseguem escapar. E, apesar da violência de sua trajetória e do número de vítimas que deixou em seu caminho, James "Whitey" Bulger - protagonista do filme de Scott Cooper - jamais poderia ser considerado um personagem glamoroso. Provavelmente o mais notável criminoso da história de South Boston (e irmão de um senador) foi beneficiado, durante anos, por um acordo com o FBI - que permitiu a ele expandir seus negócios escusos e aumentar sua lista de homicídios - e, em mãos ousadas como as de Scorsese poderia render uma pequena obra-prima (não por acaso há ecos de sua história em "Os infiltrados", vencedor do Oscar de 2007). Comandado por Scott Cooper, porém, o roteiro baseado no livro de Dick Lehr e Gerard O'Neill acabou esbarrando em uma direção quase apática - tão influenciada por outras produções semelhantes que acaba por tornar-se pouco memorável, apesar do caprichado trabalho de Johnny Depp no papel central.

Substituindo Guy Pearce - que abandonou o projeto - e dedicando a ele um cuidado que chegou a planejar um encontro (nunca realizado) com o verdadeiro Bulger, Depp impressionou os consultores do filme, antigos associados do criminoso, parte da imprensa especializada (que o indicou a um Critic's Choice Awards) e de seus colegas de ofício (que o fizeram concorrer a um prêmio do Sindicato de Atores). Seu desempenho é realmente potente, enfatizado por uma caracterização impecável, que inclui a maquiagem, o figurino e a expressão corporal que o afastam de boa parte dos personagens exóticos que marcam sua carreira: por incrível que pareça, apesar da monstruosidade de seus atos, Bugler encontra, no trabalho de seu protagonista, um tom que evita o maniqueísmo absoluto - algo que nem mesmo o roteiro morno consegue impedir. Em um elenco repleto de ótimos atores - dentre os quais Benedict Cumberbatch, Kevin Bacon, Jesse Plemons e Joel Edgerton - o normalmente exagerado Depp consegue destacar-se sem apelar para a caricatura e entrega sua melhor atuação desde "Donnie Brasco" (1997) - coincidentemente outro filme sobre um infiltrado na máfia. Desta vez do lado do crime, o ator preferido de Tim Burton deita e rola com seu personagem, mesmo que o ritmo imposto por Cooper - que dirigiu "Coração louco" (2009) e deu a Jeff Bridges seu merecido Oscar - seja contemplativo demais para uma produção do gênero.

 

Assim como em seu "Tudo por justiça" (2013), em que a ação transcorria em um ritmo próprio, sem pressa e concentrado mais em seus personagens do que na narrativa propriamente dita, Scott Cooper imprime a "Aliança do crime" uma pegada menos ágil e mais dramática. Ainda há violência - é um filme sobre gângsters, afinal de contas -, mas ela não se restringe apenas a tiros, sangue e agressões físicas: interessa mais ao cineasta o turbilhão emocional de seus personagens, afetados (ou não) pela tensão constante à sua volta. Bulger não é uma ilha, e cercado por familiares e associados, enreda a todos em sua rotina de fora da lei, desde a mulher, Lindsey Cyr (Dakota Johnson) - um relacionamento fadado a uma tragédia que envolve o filho pequeno - até o irmão, Billy (Benedict Cumberbatch), senador que põe a própria carreira em risco devido a seus laços de sangue. É, aliás, o relacionamento de Bulger com o agente do FBI John Connolly (Joel Edgerton em papel herdado de Tom Hardy) que empurra a trama: amigo de infância do temido bandido, Connolly convence seus superiores a fazer um acordo com ele, dando-lhe relativa liberdade de ação em troca de informações sobre a máfia local (um inimigo em comum). Aos poucos Bulger vai se tornando mais e mais poderoso - mas as coisas mudam quando um novo procurador é designado para a área. Disposto a não mais fechar os olhos para os crimes do gângster, Fred Whysack (Corey Stoll) dá início à derrocada de um império.

Mesmo que o ritmo de "Aliança do crime" fuja da agilidade esperada de um filme do gênero - especialmente quando o público já está devidamente acostumado à adrenalina de obras como "Os bons companheiros" (1990) -, o filme de Scott Cooper cumpre boa parte do que promete. O roteiro por vezes confunde com seu excesso de personagens e a edição repleta de flashbacks do experiente David Rosenbloom nem sempre dá conta de lidar com tanta informação, mas é inegável que a atuação hipnotizante de Johnny Depp e a trama em si (inacreditável por natureza) são elementos fortes o bastante para sustentar uma produção que tem o cuidado de recriar a Boston dos anos 1970 com precisão - aplausos também para o figurino caprichado de Kasia Walicka Maimone (que depois faria parceria com Steven Spielberg em "Ponte dos espiões", de 2015) e a trilha sonora, que inclui Rolling Stones, Fletwood Mac, Blondie e Ella Fitzgerald. No saldo final, "Aliança do crime" pode não ser uma obra-prima, mas oferece ao espectador um conjunto suficiente de elementos para mantê-lo diante da tela e aproveitar suas inúmeras qualidades.

quarta-feira

LOBO

 


LOBO (Wolf, 1994, Columbia Pictures, 125min) Direção: Mike Nichols. Roteiro: Jim Harrison, Wesley Strick. Fotografia: Giuseppe Rotunno. Montagem: Sam O'Steen. Música: Ennio Morricone. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Jim Dultz, Juliet Taylor/Linda DeScenna. Produção executiva: Robert Greenhut, Neil Machlis. Produção: Douglas Wick. Elenco: Jack Nicholson, Michelle Pfeiffer, James Spader, Christopher Plummer, Kate Nelligan, Richard Jenkins, David Hyde Pierce, Eileen Atkins, Ron Rifkin. Estreia: 17/6/94

Quando o ator Jack Nicholson e seu amigo e parceiro profissional, o roteirista Jim Harrison, tiveram a ideia de fazer um filme sobre lobisomens, jamais imaginaram que, apesar do prestígio do astro, ainda demorariam mais de uma década para vê-lo nas telas. Com algumas pequenas alterações na trama originalmente imaginada - o protagonista deixou de ser um advogado para virar um editor literário, por exemplo - e mudanças no elenco durante a fase de pré-produção - até mesmo Marlon Brando esteve envolvido com o projeto em determinado momento -, "Lobo" estreou no verão norte-americano de 1994 com grandes expectativas por parte do público e da Columbia Pictures, ávida por um sucesso de bilheteria mas temerosa devido a fracas exibições-teste, que adiaram seu lançamento por quase um ano. Dirigido pelo experiente Mike Nichols e com o objetivo de conquistar um público adulto e mais exigente - em tese o oposto das plateias que lotavam as salas para testemunharem banhos de sangue adolescente -, o filme acabou por decepcionar a todos: não apenas teve uma bilheteria doméstica morna (que nem chegou a cobrir seu orçamento de aproximadamente 70 milhões de dólares) como ficou aquém, em termos artísticos, ao que se poderia esperar da reunião de Jack e Mike - que, juntos, já haviam realizado "Ânsia de amar" (1971), O golpe do baú" (1976) e "A difícil arte de amar" (1986).

Sugerido para a direção por Jack Nicholson - que tinha direito à palavra final na escolha do nome para a condução do projeto -, Mike Nichols oferece a "Lobo" uma visão elegante e madura, realçada por um elenco de primeira linha e uma equipe técnica brilhante. Da fotografia impressionante do italiano Giuseppe Rotunno (colaborador frequente de Fellini e Visconti) à trilha sonora quase minimalista de Ennio Morricone (que substituiu John Williams devido ao atraso do cronograma de produção), tudo no filme respira classe. Sem apelar para a violência extrema (o que de certa forma decepcionou parte do público), Nichols conduz seu filme com um tom de seriedade muito bem-vindo - não à toa alguns temas citados por ele a respeito da obra (a morte de Deus, o declínio da civilização ocidental e até a epidemia da AIDS) são bastante densos e contrastam radicalmente da falta de conteúdo da maioria das produções do gênero. Tanta preocupação com subtextos, no entanto, não conseguem esconder o fato de que, a despeito de suas qualidades de produção, o filme de Nichols falha em sua principal missão: contar sua história de forma marcante - ou a menos com a força que se espera de uma produção de seu nível. O público fã do gênero tem muito a gostar, mas o resultado final não deixa de ser um tanto frustrante.

 

A trama criada por Jim Harrison - e reescrita por Wesley Strick, para desgosto do autor original - já começa em plena ação: o editor literário Will Randall (Jack Nicholson), em uma viagem de volta ao lar, atropela e é mordido por um lobo em plena noite de lua cheia. Ao mesmo tempo em que começa a perceber estranhas mudanças em seu organismo - a audição fica apurada, sua força física aumenta e o faro torna-se mais potente -, Randall vê sua vida entrar em franca decadência. Demitido por seu chefe, Raymond Alden (Christopher Plummer), abandonado pela esposa, Charlotte (Kate Nelligan), e traído por seu homem de confiança, Stewart Swinton (James Spader), Randall encontra apenas um consolo: a atração recíproca que sente pela bela filha de Alden, a voluntariosa Lauren (Michelle Pfeiffer). Conforme vai percebendo que o ataque do lobo pode tê-lo transformado em um lobisomem, o executivo aproveita as vantagens da situação ao mesmo tempo em que se preocupa com a possibilidade de ver sua nova natureza assumir um tom violento e irracional.

Dotado de uma narrativa convencional - mas com uma edição ágil o bastante para não aborrecer às plateias mais jovens -, "Lobo" apresenta qualidades quase redentoras, como a atuação habitualmente caprichada de Jack Nicholson, a beleza estonteante de Michelle Pfeiffer (em papel recusado por Sharon Stone e Annette Bening e que quase ficou com Mia Farrow, em meio à sua polêmica confusão com Woody Allen) e o roteiro que enfatiza o tom de suspense que acompanha o folclore em torno dos lobisomens. Não deixa de ser atípico ver um cineasta como Mike Nichols (mais acostumado com relações pessoais e crises sentimentais do que com efeitos visuais) no comando de uma obra tão comercial, mas seria ainda mais surpreendente se a primeira escolha do estúdio tivesse se mantido: ninguém menos que Stanley Kubrick foi sondado para a tarefa - e recusou, para surpresa de ninguém. É de se imaginar o que o britânico poderia ter feito com o material (não se pode esquecer que já havia dirigido Jack Nicholson em outro filme de terror, o infame "O iluminado", de 1980), mas certamente teria sido menos esquecível - para o bem ou para o mal.

segunda-feira

JADE

 


JADE (Jade, 1995, Paramount Pictures, 95min) Direção: William Friedkin. Roteiro: Joe Eszterhas. Fotografia: Andrzej Bartkowiak. Montagem: Augie Hess. Música: James Horner. Figurino: Marilyn Vance. Direção de arte/cenários: Alex Tavoularis/Gary Fettis. Produção executiva: William J. MacDonald. Produção: Gary Adelson, Craig Baumgarten, Robert Evans, Christine Peters. Elenco: David Caruso, Linda Fiorentino, Chazz Palminteri, Richard Crenna, Michael Biehn, Donna Murphy, Angie Everhart. Estreia: 13/10/95

Vencedor do Oscar de melhor diretor por "Operação França" (1971) - que também levou a estatueta de melhor filme - e o nome por trás do estrondoso sucesso de "O exorcista" (1973), William Friedkin declarou, em uma entrevista, que dentre todos os seus trabalhos, o seu favorito era "Jade", lançado em 1995. Das duas uma: ou o veterano cineasta buscava reacender as polêmicas em torno do filme ou estava seriamente fora de seu juízo perfeito. Medíocre, quase amador e constrangedor em suas tentativas de soar sexy ou transgressor, a produção estrelada por David Caruso e Linda Fiorentino naufragou fragorosamente nas bilheterias - custou cerca de 50 milhões de dólares e rendeu menos de 10 - e praticamente enterrou a carreira de seu astro, vindo da bem-sucedida série de televisão "Nova York contra o crime" e que, com dois fracassos consecutivos (o outro foi "O beijo da morte", que estreou poucos meses antes), chegou a pensar em abandonar Hollywood. Parte de uma série de produções da primeira metade da década de 1990 que apostavam no erotismo para chamar a atenção das plateias, "Jade" demonstrou, sem espaço para dúvidas, o desgaste da fórmula - e o fato de ter um elenco sem carisma e uma história fraca ajudou (e muito) em sua pouca repercussão.

Apesar de o roteirista de "Jade" ser o mesmo Joe Eszterhas de "Instinto selvagem" (1992) - o enorme sucesso popular que deu início ao boom do gênero - e de sua estrutura ter similaridades bastante óbvias, o filme de Friedkin sofre com a apatia de seu protagonista masculino (tanto o personagem quanto o ator, David Caruso), a sensualidade pouco atraente de sua estrela feminina (Linda Fiorentino sem repetir o êxito de sua performance avassaladora em "O poder da sedução") e a direção quase preguiçosa de William Friedkin - também responsável pelas constantes alterações no roteiro, provável motivo da fragilidade do produto final. Mesmo nas sequências de ação, o cineasta fica longe de demonstrar a segurança vista, por exemplo, em "Operação França" - as perseguições automobilísticas soam repetitivas e são incapazes de empolgar o público, além de parecerem completamente deslocadas da trama (confusa, desinteressante e, pior de tudo, totalmente artificial em suas tentativas de parecer sensual).

 

Assim como em "Instinto selvagem" e "Corpo em evidência" (1992) - estrelado por Madonna e igualmente amparado em sexo e violência -, "Jade" começa com um violento assassinato relacionado a aventuras eróticas. A vítima é um proeminente empresário, morto a golpes de machado. Durante a investigação, a equipe liderada pelo procurador assistente de São Francisco, David Corelli (David Caruso), encontra uma série de fotos do governador do estado, Lew Edwards (Richard Crenna), mantendo relações com uma prostituta chamada Patrice Jacinto (Angie Everhart). Interrogada pela polícia, Patrice revela que o morto mediava encontros de garotas de programa com homens ricos da região e que a mais desejada dentre todas era uma mulher com o nome de guerra de Jade - uma profissional conhecida por realizar todos os desejos de seus clientes, por mais bizarros que possam ser. Novas pistas, porém, levam a Katrina Gavin (Linda Fiorentino), respeitada psicóloga clínica casada com o advogado Matt Gavin (Chazz Palmiteri em papel oferecido a Kenneth Branagh) - Katrina é Jade, uma personalidade que lhe permite atingir o prazer sexual, e tal revelação leva o próprio Corelli a suspeitar de sua inocência, por mais que isso lhe incomode pessoalmente: ele não apenas é amigo íntimo de Gavin como também é completamente apaixonado pela principal suspeita do caso.

A trama pouco verossímil de "Jade" - assim como seu ritmo pouco convidativo e o desenvolvimento precário de seus personagens - colabora com a sensação de filme feito às pressas, sem cuidado com questões cruciais de roteiro e pós-produção. Além de esteticamente decepcionante - nem mesmo as cenas de sexo são minimamente excitantes - e transmitir uma aura de filme B, o trabalho de Friedkin sofre com um elenco fraquíssimo, incapaz das menores nuances de realismo. Caruso - inexpressivo como poucos -, ficou com o papel recusado por Warren Beatty (!!!) e Fiorentino, vinda dos elogios unânimes por "O poder da sedução" - onde pintava e bordava com sua sexualidade franca e amoral -, é subaproveitada, sem ter seu carisma explorado a contento. Escalada para um papel em que praticamente toda Hollywood foi considerada - das óbvias Sharon Stone, Madonna e Demi Moore às mais ousadas possibilidades Nicole Kidman, Jodie Foster e Julia Roberts -, ela acabou por sofrer as consequências do fracasso da produção: de estrela promissora, passou a figurar em uma lista de coadjuvantes pouco lembrados (apesar de ainda obter sucesso como o principal nome feminino de "Homens de preto", de 1997). Já o caso de David Caruso foi quase pior: depois de dois grandes fiascos seguidos, tomou parte de algumas produções obscuras e só retornou ao relativo prestígio em 2002, quando assumiu o papel principal de "CSI: Miami".

Esquecível e quase constrangedor, "Jade" é uma mancha na carreira de William Friedkin, apesar de sua opinião contrária. Talvez sirva para madrugadas insones - mas mesmo assim só se não houver mais nenhuma opção.

sexta-feira

MUITO GELO E DOIS DEDOS D'ÁGUA

 


MUITO GELO E DOIS DEDOS D'ÁGUA (Muito gelo e dois dedos d´água, 2006, Globo Filmes/Lereby Productions, 108min) Direção: Daniel Filho. Roteiro: Alexandre Machado, Fernanda Young. Fotografia: Nonato Estrela. Montagem: Felipe Lacerda. Figurino: Marília Carneiro. Direção de arte: Cláudio Amaral Peixoto. Produção executiva: Iafa Britz. Produção: Daniel Filho. Elenco: Mariana Ximenes, Paloma Duarte, Laura Cardoso, Angelo Paes Leme, Thiago Lacerda, Carla Daniel, Aílton Graça. Estreia: 04/10/2006 

Não há quem possa negar a importância de Daniel Filho na história da televisão brasileira - é ele o responsável por alguns dos programas de maior repercussão e prestígio da Rede Globo, a quem ajudou a modernizar-se e estabelecer-se como uma das maiores emissoras do mundo. Criou e dirigiu novelas, séries, programas musicais - e marcou presença como ator em várias dessas produções. Seu talento indiscutível como homem de televisão, porém, não se repetiu no cinema - para onde investiu seu tempo com afinco desde o começo do século XXI. Apesar do sucesso de bilheteria, filmes como "A partilha" (2001) e "Se eu fosse você" (2006) - assim como sua sequência, de 2008 - ficaram muito aquém de sua capacidade artística, jamais conseguindo escapar dos vícios de produções televisivas. "Muito gelo e dois dedos d'água", lançado em 2006, é uma confirmação da regra: apesar de alguns nomes promissores na equipe, é uma comédia quase constrangedora, repleta de piadas de mau gosto e - salvo raras exceções - atuações que surpreendem  pelo exagero (mesmo que dentro da proposta de excessos impressa em cada centímetro de celuloide).

Uma mistura pouco inspirada de Pedro Almodóvar (no visual de cores berrantes e personagens à beira de um ataque de nervos) e comédia pastelão, "Muito gelo e dois dedos d'água" conta a história de uma vingança familiar com todas as probabilidades de fracasso: praticamente torturadas pela avó desde a infância, quando eram obrigadas a passar os verões sendo humilhadas, duas irmãs resolvem dar o troco na vida adulta. Suzana (Paloma Duarte, a melhor em cena) tem uma vida estável com Francisco (Thiago Lacerda) - um médico certinho e pouco afeito a sair da rotina - e um filho pequeno. Por sua vez, Roberta (Mariana Ximenes) nunca conseguiu se acertar com nenhum namorado e leva a vida em uma constante festa regada a álcool e drogas. Traumatizadas pelos abusos psicológicos sofridos quando crianças - quando sua avó, Judite (Laura Cardoso) não media esforços para ensiná-las regras inalcançáveis de etiqueta e educação -, as duas irmãs traçam um plano de revanche e sequestram a idosa, com o objetivo de levá-la (no porta-malas do carro) até o litoral de Alagoas e repetir com ela todas as pequenas torturas sofridas. No caminho, elas encontram outro desajustado não-assumido, Renato (Angelo Paes Leme), e passam a ser perseguidas pela polícia e pelo inconsolável Francisco.

 

É inacreditável que o roteiro de "Muito gelo e dois dedos d'água" seja de Alexandre Machado e Fernanda Young, autores de pequenas obras-primas do humor televisivo, como "Os normais" e "Os aspones": mesmo que seu senso de humor seja reconhecido em um momento ou outro do filme (especialmente em alguns diálogos de duplo sentido), na maior parte da produção o que se vê é uma sequência de piadas visuais que raramente funcionam, uma trama que flerta descaradamente com a escatologia (outra característica da dupla de roteiristas) e uma tentativa pouco feliz de brincar com a linguagem de animação - como os créditos de abertura deixam bastante óbvio. Tal objetivo - o de abandonar o realismo e assumir um tom de farsa - é relativamente atingido, mas o problema é que em nenhum momento o filme de Daniel consegue deixar de parecer um especial de televisão (mais ousado, é verdade, recheado de palavrões e nudez, mas ainda assim limitado artisticamente).

O que deixa a produção razoavelmente suportável é o elenco, ainda que nem todo mundo esteja em seus melhores momentos da carreira. Se Paloma Duarte surpreende com um registro cômico raro em sua trajetória, o desempenho de Thiago Lacerda, por exemplo, estaria mais adequado em programas de humor popular. Se Angelo Paes Leme encontra um caminho inteligente de mostrar uma face nova de seu talento, Mariana Ximenes sofre com uma caracterização escorada em clichês - e que atrapalha seu trabalho, por melhor atriz que ela seja. E a veterana Laura Cardoso, coitada, fica perdida em meio a um turbilhão de gritos, personagens superficiais e uma direção caótica (no mau sentido). Um passo em falso no currículo invejável de Alexandre Machado e Fernanda Young, "Muito gelo e dois dedos d'água" promete muito mais do que entrega - é uma comédia que provoca mais sorrisos amarelos e constrangedores do que risadas orgânicas e sinceras.

quinta-feira

A SUPREMA FELICIDADE

 


A SUPREMA FELICIDADE (A suprema felicidade, 2010, Ramalho Filmes, 121min) Direção: Arnaldo Jabor. Roteiro: Arnaldo Jabor, Ananda Rubinstein. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Leticia Giffoni. Figurino: Valeria Stefani. Produção executiva: Andréa Ramalho. Produção: Arnaldo Jabor, Francisco Ramalho Jr., Lucia Seabra. Elenco: Jayme Matarazzo, Michel Joelsas, Marco Nanini, Dan Stulbach, Mariana Lima, Caio Manhente, Maria Flor, Elke Maravilha, João Miguel, Ary Fontoura, Maria Luísa Mendonça, Tammy Di Calafiori, Emiliano Queiroz. Estreia: 29/10/2010

Quem conhece a filmografia de Arnaldo Jabor deve ter levado um susto ao assistir a seu "A suprema felicidade": até pouco mais da metade do filme, quase nada leva a crer que o homem por trás de obras como "Eu te amo" (1980) e "Eu sei que vou te amar" (1986) - trabalhos verborrágicos, cínicos e sarcásticos - também é o autor de um olhar tão carinhoso e nostálgico sobre um Rio de Janeiro que só existe na memória e no coração de quem o conheceu. Ao deixar de lado o tom neurótico de suas produções mais celebradas e abraçar o caminho da saudade (que remete a Federico Fellini e seus mergulhos na metalinguagem), o polêmico cineasta acabou por revelar uma insuspeita simpatia à humanidade - através de sequências oníricas, personagens maiores que a vida (e paradoxalmente dotadas de grande sinceridade) e diálogos que se equilibram entre o poético e o mundano. Intercalando épocas distintas da vida de seu protagonista, o roteiro de Jabor (co-escrito por Ananda Rubinstein) apresenta um rico panorama pessoal e social das décadas de 40, 50 e 60, com um viés emocional que encontra respaldo na produção caprichada e em um elenco totalmente entregue à proposta do cineasta.

Sem filmar desde "Eu sei que vou te amar" - que deu à Fernanda Torres a Palma de Ouro no Festival de Cannes 1986 -, Arnaldo Jabor voltou ao cinema com um discurso mais suave, mais terno, mais delicado, quase radicalmente oposto a seus trabalhos anteriores, calcados em personagens à beira de constantes ataques de nervos. Seu protagonista em "A suprema felicidade" - uma espécie de alter ego pouco disfarçado - é Paulo, que, conforme vai amadurecendo, vai encontrando diversas formas de amor, desejo e solidão, em uma cidade capaz de lhe oferecer tanto momentos líricos quanto a dureza de uma civilização recém saída de uma guerra mundial. Aos oito anos de idade, Paulo é interpretado pelo carismático Caio Manhente - é 1945, o Brasil comemora o fim do conflito na Europa e o menino testemunha a relação ainda calorosa entre os pais, Marcos (Dan Stulbach) e Sofia (Mariana Lima), cuja história de amor remete a um passado mais feliz e colorido. Cinco anos mais tarde, é Michel Joelsas quem assume o posto de ator central, em uma fase onde o jovem começa a descobrir o amor ao mesmo tempo em que percebe as rachaduras na harmonia conjugal familiar. Aos dezenove (e justamente na fase mais crucial) quem interpreta Paulo é o fraco Jayme Matarazzo - e é nesse momento que a trama trai a autoria do diretor/roteirista: ao encarar a boemia carioca e seus desdobramentos, Paulo toma contato com prostitutas arriscando a vida, bêbados contumazes, uma possível amante do pai e a torturada Deise (Maria Flor) - uma típica personagem jaboriana, com traumas e neuroses que remetem diretamente a suas obras anteriores. 

 

Ao optar por uma estrutura narrativa que privilegia episódios independentes ao invés de uma trama sólida, com começo, meio e fim bem definidos, o roteiro impede o espectador de construir a conexão necessária com seu protagonista. Sua colcha de retalhos - com idas e vindas no tempo - dá vazão também à interessante ideia de homenagear (visual e tematicamente) estéticas cinematográficas nacionais, como a chanchada, musicais da Atlântida e o Cinema Novo: estão em cena os personagens caricatos da primeira, as marchas de carnaval de rua da segunda e o tom seco que acompanha a boemia trágica e crua da noite carioca que remete diretamente à influência do neorrealismo. Nem sempre todos esses elementos dialogam a contento, mas Jabor parece menos amargo do que em boa parte de sua filmografia, sendo capaz inclusive de lampejos de um otimismo quase piegas - uma sensação que só é eliminada graças à atuação impecável de Marco Nanini, que na pele do avô de Paulo, o idiossincrático Noel, rouba a cena com uma construção de personagem lúdica e comovente, capaz de minimizar os problemas do produto final.

E há problemas: o terço final de "A suprema felicidade" deixa claro a fragilidade do roteiro de Jabor e sua estrutura episódica. Paulo, seu protagonista, não tem a força necessária para angariar a simpatia incondicional do espectador, se comportando como a testemunha ocular de uma série aparentemente desconexa de acontecimentos e personagens soltos e rasos. A bem da verdade, não há uma história no filme, apenas situações que, juntas, compõem um álbum de recordações ora doces ora indigestos. Para sorte de todos - diretor e público - há um elenco que, apesar de tudo, alcança momentos de pura graça: Dan Stulbach e Mariana Lima estão soberbos como o casal que atravessa todas as fases de um casamento, e Maria Flor brilha como a neurótica Deise (talvez a única personagem que combina com o universo do cineasta). São eles (e de certa forma o acertado tom de leveza da fotografia e da edição) que impedem o último filme de Jabor (morto em 2022) de parecer anacrônico e superficial. Não deixa de ser irônico que um artista que deu ao mundo petardos como "Toda nudez será castigada" (1973) e "O casamento" (1975) - ambos baseados em obras de Nelson Rodrigues - tenha se despedido com um filme tão delicado e de bem com a vida.

quarta-feira

REVELAÇÃO

 


REVELAÇÃO (What lies beneath, 2000, 20th Century Fox/DreamWorks Pictures, 130min) Direção: Robert Zemeckis. Roteiro: Clark Gregg, história de Clark Gregg, Sarah Kernochan. Fotografia: Don Burgess. Montagem: Arthur Schmidt. Música: Alan Silvestri. Figurino: Susie DeSanto. Direção de arte/cenários: Rick Carter, Jim Teegarden/Karen O'Hara. Produção executiva: Joan Bradshaw, Mark Johnson. Produção: Jack Rapke, Steve Starkey, Robert Zemeckis. Elenco: Harrison Ford, Michelle Pfeiffer, Miranda Otto, James Remar, Diana Scarwid, Katharine Towne. Estreia: 18/7/2000

Em 2000, quando dirigiu "Revelação", o cineasta Robert Zemeckis já tinha no currículo uma comédia adolescente ("Febre de juventude"), um clássico da ficção científica juvenil ("De volta para o futuro" e suas continuações), um marco na interação entre live action e animação ("Uma cilada para Roger Rabbit"), um vencedor de múltiplos Oscar ("Forrest Gump: o contador de histórias") e uma adaptação de Carl Sagan ("Contato"). Faltava ainda exercitar seu músculo hitchcockiano e a oportunidade chegou na pausa das filmagens de "Náufrago" - enquanto Tom Hanks sofria para emagrecer o necessário para a segunda etapa dos trabalhos do filme que lhe daria mais uma indicação à estatueta, Zemeckis mergulhou em seu desejo de assustar os espectadores com uma trama que mistura fantasmas, assassinatos... e um Harrison Ford deixando de lado a persona heroica para dar vida a um personagem no mínimo dúbio. 

A um custo estimado de cem milhões de dólares - recuperado facilmente nas bilheterias ao redor do mundo, seduzido pela presença de Ford e da estrela Michelle Pfeiffer -, "Revelação" é uma exibição das técnicas de Zemeckis como diretor, um filme repleto de jogos de câmera, cortes rápidos, uso generoso da trilha sonora e exploração inteligente do som e da fotografia. Mas é, também, um filme com sérios problemas de roteiro e um desfecho atolado em clichês - problemas disfarçados por uma embalagem luxuosa proporcionada pelo orçamento milionário e por seus astros fotogênicos. Pfeiffer, linda e exuberante, brilha a maior parte do tempo - mesmo quando o roteiro apela para explicações sobrenaturais pouco críveis para uma trama que se propõe séria. Ford, por sua vez, só é devidamente aproveitado na segunda metade da história - mas não consegue fugir do tom monocórdio da maioria de seus trabalhos que não Indiana Jones. A dupla de atores - escolhas únicas do cineasta desde a concepção do projeto - apresenta uma química interessante que vai crescendo a cada sequência, mas ambos esbarram na preferência de Zemeckis em abusar de seus virtuosismos visuais em detrimento da consistência da história que deseja contar.

 

"Revelação" gira em torno do casal Spencer. Ele, Norman, é um cientista respeitado que tenta desesperadamente fugir da sombra do pai, igualmente prestigiado pela comunidade. Ela, Claire, é uma violoncelista que abandonou a carreira para cuidar do marido e da filha e que, um ano depois de um violento acidente de carro, se vê diante da solidão causada pela viagem de sua filha adolescente à universidade. Sozinha e entediada, Claire começa a acreditar que seu vizinho (James Remar) assassinou a esposa (Miranda Otto), a quem testemunhou chorando através da cerca de sua propriedade. Tal certeza coloca seu casamento em crise - agravada ainda mais quando a bela dona-de-casa passa também a ouvir vozes misteriosas e sentir presenças ameaçadoras em sua bela casa à beira de um lago de Vermont. Norman tem certeza de que sua esposa está passando por uma séria crise de nervos, mas a situação muda completamente quando tais eventos começam a remeter à identidade de uma jovem estudante desaparecida - cujo destino parece intimamente ligado à mansão dos Spencer.

A história concebida pelo também ator Clark Gregg - que coescreveu o roteiro com Sarah Kernochan - apresenta várias possibilidades para o espectador, mas infelizmente não consegue equilibrá-las a contento. Ao mesclar uma narrativa policial tradicional com elementos do mais puro terror sobrenatural, o filme parece derrapar em dois gêneros que, em mãos mais seguras, podem ser complementares - mas que sob o comando de Zemeckis nem sempre conseguem dialogar entre si. De talento mais que comprovado, o cineasta perde a mão ao enfatizar o suspense visual e deixar de lado o desenvolvimento de seus personagens - talvez mais uma homenagem a Hitchcock, que privilegiava a manipulação dos nervos do público através de artifícios narrativos visuais e sonoros. Em especial no ato final, a tensão assume um protagonismo tal que a trama em si soa ainda mais insignificante, como se servisse unicamente como vitrine das peripécias estilísticas de seu diretor. No final das contas, "Revelação" se mostra um filme de suspense acima da média, mas que fica aquém do talento de seu time - ao menos em termos de roteiro e consistência.

terça-feira

MEU PAI


MEU PAI (The father, 2020, Sony Pictures/Les Films du Cru/Film4/Orange Studio, 97min) Direção: Florian Zeller. Roteiro: Christopher Hampton, Florian Zeller, peça teatral de Florian Zeller. Fotografia: Ben Smithard. Montagem: Yorgos Lamprinos. Música: Ludovico Eunadi. Figurino: Anna Mary Scott Robins. Direção de arte/cenários: P
eeter Francis/Cathy Featherstone. Produção executiva: Daniel Battsek, Lauren Dark, Paul Grindey, Hugo Grumbar, Tim Haslam, Ollie Madden. Produção: Philippe Carcassone, Simon Friend, Jean-Louis Livi, David Parfitt, Christophe Spadone. Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Rufus Sewell, Imogene Poots, Mark Gatiss, Ayesha Dharker. Estreia: 27/01/2020 (Sundance Film Festival)

6 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Anthony Hopkins), Atriz Coadjuvante (Olivia Colman), Roteiro Adaptado, Montagem, Direção de Arte/Cenários

Vencedor de 2 Oscar: Ator (Anthony Hopkins), Roteiro Adaptado

A cerimônia do Oscar 2021 - dirigida por Steven Soderbergh e realizada em plena pandemia de Covid-19 - estava programada e organizada para acabar com a vitória de Chadwick Boseman na categoria de melhor ator, por "A voz suprema do blues". Até mesmo a regra já consagrada de deixar o anúncio de melhor filme para o final do evento havia sido alterada para que Boseman - morto precocemente poucos meses antes, aos 43 anos - fosse homenageado com um prêmio póstumo. Para surpresa geral, no entanto - de Soderbergh, dos convidados e dos telespectadores ao redor do mundo -, os membros da Academia preferiram oferecer sua cobiçada estatueta a um antigo vencedor. Por seu desempenho avassalador em "Meu pai", o galês Anthony Hopkins saiu da temporada seu segundo e inesperado Oscar - que foi fazer companhia ao prêmio dos críticos de Boston e ao BAFTA. E até mesmo os fãs do protagonista de "Pantera Negra" foram obrigados a reconhecer que, apesar de seu bom trabalho, sua derrota para Hopkins foi absolutamente justa. Assim como já havia acontecido em 1992, com "O silêncio dos inocentes", basta alguns momentos para que se perceba que premiar outro intérprete seria algo inconcebível.

Um dos mais devastadores retratos do mal de Alzheimer registrados no cinema, "Meu pai" é o filme de estreia do francês Florian Zeller, também autor da peça teatral que lhe deu origem e corroteirista da adaptação - pela qual levou um Oscar, que dividiu com Christopher Hampton. Seu trabalho é minucioso e sensível: sem abandonar a origem de seu texto, Zeller se utiliza de todos os recursos cênicos do cinema como forma de potencializar a sensação de desorientação do protagonista. Não à toa seus principais destaques além do elenco - a edição e o desenho de produção - foram igualmente lembrados pela Academia, rendida à inteligência do autor em contar sua história de forma a mergulhar o espectador na mente confusa de seu personagem central: ao invés de simplesmente mostrar a fragmentação de suas memórias e pensamentos, o filme perturba a zona de conforto do público ao fazê-lo questionar, desde suas primeiras cenas, o que é realidade e o que é parte do transtorno mental de Anthony, um inglês octogenário que se vê sucumbindo rapidamente à demência que borra radicalmente as linhas divisórias entre os fatos e as armadilhas de sua mente.

 

Assistir a "Meu pai" é adentrar em um universo que impede qualquer tipo de certezas factuais. Logo na primeira cena, Anthony (em uma atuação nunca aquém de magistral de Hopkins) se vê encostado na parede por sua filha, Anne (Olivia Colman, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que tenta convencê-lo a aceitar os cuidados de uma enfermeira: ciente de que o pai está a cada dia mais confuso e perdendo a noção do que é real, ela também lhe informa que está em vias de sair de Londres e se mudar para Paris com o novo namorado. A partir daí, no entanto, o estado mental do octogenário entra em colapso absoluto, confundido nomes, datas, cenários, conversas e cronologias. O filme de Zeller, então, trabalha com a inconstância psicológica de seu protagonista através de uma edição primorosa, que embaralha as cenas e as situações decorrentes da premissa inicial. Em seus delírios (devidamente testemunhados por um atarantado espectador), Anthony confunde rostos e nomes, datas e situações, aposentos domésticos e até mesmo mantém como viva a memória de uma filha morta precocemente. Sua angústia atinge principalmente Anne, cuja vida não consegue progredir enquanto não resolver o problema de conviver com o mal de seu pai - uma questão que prejudica seu relacionamento com Paul (Rufus Sewell), pouco paciente com a falta de perspectivas em relação ao futuro.

"Meu pai" é uma obra-prima em todos os aspectos. Anthony Hopkins oferece ao público o maior desempenho de sua carreira - o que, se tratando do homem que legou ao cinema o apavorante Hannibal Lecter de "O silêncio dos inocentes" (1991) - e a direção segura de Florian Zeller nem de longe dá pistas de que este é seu trabalho de estreia. Sofisticado e inteligente ao mesmo tempo em que não foge da emoção mais primordial - uma das cenas finais arrancou lágrimas até mesmo da equipe, no momento da filmagem -, fica na memória do público graças à feliz confluência de elementos essenciais para um resultado dos mais sólidos do cinema recente. Uma pena que o filme seguinte do diretor, "Um filho" (2022) - que acompanha a relação entre um pai e seu filho com problemas com drogas - ficou muito abaixo das expectativas apesar da presença do esforçado Hugh Jackman.

 

AGENTE 86

  AGENTE 86 (Get Smart, 2008, Warner Bros/Village Roadshow Pictures, 110min) Direção: Peter Segal. Roteiro: Tom J. Astle, Matt Ember, pers...