MUDANÇA DE HÁBITO (Sister act, 1992, Touchstone Pictures, 100min) Direção: Emile Ardolino. Roteiro: Paul Rudnick (como Joseph Howard). Fotografia: Adam Greenberg. Montagem: Richard Halsey. Música: Marc Shaiman. Figurino: Molly Maginnis. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/Thomas L. Roysden. Produção executiva: Scott Rudin. Produção: Teri Schwartz. Elenco: Whoopi Goldberg, Maggie Smith, Harvey Keitel, Bill Nunn, Kathy Najimy. Estreia: 29/5/92
Algumas comédias, por razões diversas, conseguem a façanha de dar certo a despeito de serem construídas sobre a frágil base de uma piada única. "Mudança de hábito" é um desses milagres. Lançado sem grandes expectativas no outono americano de 1992, o filme produzido pela Touchstone Pictures tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria de um ano repleto de cartas marcadas, como "Batman: o retorno" e "Máquina mortífera 3". A explicação possível para tamanho êxito? O carisma exuberante de Whoopi Golberg: fresquinha do Oscar de coadjuvante por "Ghost: o outro lado da vida" (1990), a atriz revelada por Steven Spielberg em "A cor púrpura" (1985) demonstrou, ao exibir seus dons cômicos e musicais, poder suficiente para protagonizar produções comerciais para toda a família. É impossível não se deixar cativar por Goldberg, capaz de chamar os holofotes para si mesmo ao lado de atores excepcionais como Maggie Smith e Harvey Keitel.
Um projeto que remete a 1987 - e que sofreu um processo por plágio, encerrado após a recusa de um acordo com os requerentes -, "Mudança de hábito" seria um veículo para o estrelato de Bette Midler, então o grande nome feminino do estúdio. Sua desistência acabou por acarretar diversas mudanças no roteiro conforme o tempo passava - e nomes importantes, como Nancy Meyers e Carrie Fisher estiveram envolvidas nas mudanças que acabaram, segundo o roteirista original, Paul Rudnick, desfigurando o material original a ponto de fazê-lo assinar os créditos com um pseudônimo. E se a presença de Goldberg ajudou no sucesso comercial do filme, seu relacionamento com o diretor Emile Ardolino - mais conhecido por "Dirty dancing: ritmo quente" (1987) - não foi das melhores, principalmente devido às interferências da atriz no roteiro. Tais dificuldades, no entanto, acabaram não transparecendo no resultado final: leve e divertido, "Mudança de hábito" conquista desde as primeiras cenas, e se não deixa de ser um tanto previsível, ao menos não tenta parecer mais inventivo do que realmente é.
A trama gira em torno de Deloris Van Cartier (vivida com graça e verve por Goldberg), que vive como cantora em Reno, Nevada, onde tenta convencer o namorado, Vince LaRocca (Harvey Keitel), a abandonar a esposa para assumir seu relacionamento. Em uma noite como tantas outras, porém, Deloris dá de cara com LaRocca assassinando um empregado, o que a faz cair na real de que o amante é um gângster perigoso e com sérios problemas na justiça. Com medo de também ser morta, ela procura a polícia e, a contragosto, é convencida a esconder-se até que possa prestar depoimento e colocar o criminoso na cadeia. Mas se já não estava feliz com o fato de ter que sumir do mapa, a pouco confiável Deloris entra em pânico quando descobre que irá ficar por meses em um convento. Sob as ordens da pouco amistosa Madre Superiora (Maggie Smith), ela assume o nome de Irmã Mary Clarence e, a princípio revoltada com as rígidas regras do local, aos poucos descobre uma missão quase impossível: transformar o coral das freiras - desafinado, apático e desacreditado - em uma nova potência. Mas é claro que LaRocca não está disposto a desistir de encontrar a testemunha de seu crime...
E é só isso. A piada única - o confronto entre a dionisíaca Deloris e a paz quase celestial do convento - se estende por 100 minutos, sem aprofundamento de nenhum tipo. Logicamente não se pode esperar tratados éticos/religiosos em uma comédia feita para se assistir comendo pipoca, mas faz falta um embate maior entre a protagonista e a Madre Superiora (Maggie Smith sempre esplêndida, mas dessa vez subaproveitada) e até um tempo maior no desenvolvimento de sua amizade com as outras freiras - é decepcionante, por exemplo, que a ótima Kathy Najimy seja desperdiçada. É falta de ousadia, inclusive, ter uma protagonista envolvida em casas noturnas, crimes, bebida e drogas sem que tal assunto seja sequer mencionado de forma mais adulta - mais uma vez a classificação etária e o puritanismo hollywoodiano (em especial da Touchstone) sepultaram o que poderia render ótimos momentos de humor. É de se imaginar o que faria o espanhol Pedro Almodóvar, cotado para dirigir o filme depois do sucesso internacional de seu "Mulheres à beira de um ataque de nervos" (1988).
E
para encerrar, uma curiosidade das mais inusitadas: enquanto começava a
escrever o primeiro tratamento de seu roteiro, Paul Rudnick recebeu, de
Bette Midler, o conselho de visitar um convento verdadeiro, para
conhecer melhor sua rotina. Ideia aceita, Rudnick foi até um convento em
Connecticut e descobriu que sua Madre Superiora, Dolores Hart, havia
trabalhado, na juventude, em Hollywood: atriz, cantora e dançarina, fez
parte do elenco de algumas produções, como "Balada sangrenta" (1958) e
é, ainda hoje, membro da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas,
com direito a voto no Oscar.