segunda-feira

O PREÇO DA TRAIÇÃO

 


O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro original de Anne Fontaine. Fotografia: Paul Sarossy. Montagem: Susan Shipton. Música: Mychael Danna. Figurino: Debra Hanson. Direção de arte/cenários: Phillip Barker/Jim Lambie. Produção executiva: Olivier Courson, Daniel Dubiecki, Ron Halpern, Tom Pollock, Jason Reitman. Produção: Jeffrey Clifford, Joe Medjuck, Ivan Reitman. Elenco: Julianne Moore, Liam Neeson, Amanda Seyfried, Max Thieriot, Nina Dobrev. Estreia: 13/9/2009 (Festival de Toronto)

Lançado em 2004 e estrelado por Fanny Ardant, Gérard Depardieu e Emanuelle Béart, o filme "Nathalie X", um thriller onde o erotismo surgia dos detalhes, dos diálogos e do clima proposto pela diretora Anne Fontaine - como toda produção francesa que se preza, a mente dos personagens interessava mais do que seus atos, nem sempre sensatos. Como acontece com frequência, porém, cinco anos depois produtores de Hollywood acharam por bem recontar sua história - apimentando sua trama já bastante quente, alterando seu tom cerebral e, é claro, escalando para seus papéis principais atores conhecidos e já devidamente celebrados pelo público e pela crítica. Dirigida pelo canadense Atom Egoyan - indicado ao Oscar pelo belo "O doce amanhã" (1997) -, a versão americana do filme, batizada no Brasil como "O preço da traição", opta por transmutar a tensão apenas sugerida do original em uma produção de suspense que dialoga de forma mais assertiva com uma plateia bem menos afeita a elocubrações do cinema europeu. Um meio-termo entre cinema de arte e um filme com pretensões comerciais, "O preço da traição" se ressente justamente dessa indecisão, a despeito do esforço de seu elenco, liderado pela sempre intensa Julianne Moore.

Moore - a inspiração primeira e única da roteirista Erin Cressida Wilson em sua reimaginação do original - vive (com todo o seu talento) já amplamente conhecido, a ginecologista Catherine Stewart, uma mulher realizada tanto profissionalmente quanto em termos pessoais. Mora em uma bela casa  em Toronto, é respeitada pelas pacientes e aparentemente feliz em seu casamento com David (Liam Neeson), um professor universitário querido pelos alunos e colegas. Sua relação, porém, está passando por um período de estagnação e frieza - o que fica evidente quando ela passa a desconfiar que o marido lhe é infiel. Torturada pelas suspeitas, Catherine tem, então, uma ideia pouco ortodoxa: contratar os serviços de Chloe (Amanda Seyfried), uma garota de programa de luxo, para flertar com David e assim testar sua fidelidade. Chloe, uma mulher sensual, elegante e jovem, aceita o trabalho e, depois de um primeiro encontro, se vê cada vez mais envolvida na doentia paranoia de Catherine. Conforme as coisas vão evoluindo - com a esposa praticamente dirigindo as relações entre o marido e a suposta amante, de forma quase apaixonada -, passa a nascer entre as duas uma intensa simbiose, que se aprofunda quando Chloe resolve também seduzir o filho do casal, o ingênuo Michael (Max Thieriot).


 

Filmado com extrema elegância por Egoyan - que explora a sexualidade de suas atrizes com segurança e classe -, "O preço da traição" foge da armadilha de ser apenas a fetichização do corpo feminino graças ao tom quase psicanalítico imposto pela tensão entre as protagonistas. Mesmo que por vezes não haja aprofundamento o bastante para envolver o público em sua trama improvável, o trabalho do diretor mescla sutileza e ousadia de forma consistente, buscando verdade em cada diálogo (por mais complexo que seja) e criatividade em cada ângulo - para o que colabora a fotografia estilizada de Paul Sarossy e a sofisticada direção de arte, que enfatiza a distância do casal protagonista e o calor que aproxima as duas mulheres aparentemente antagônicas em suas percepções de amor e sexo. Quando a história de volúpia e traição dá sua guinada em direção ao suspense, no entanto, não é apenas o ritmo que é alterado: o tom quase jazzístico de até então é substituído por uma urgência quase comprometedora, que subverte o ritmo plácido dos atos iniciais. Quando Chloe se revela mais do que simplesmente um joguete nas mãos de Catherine e decide rejeitar o papel passivo que desempenhava, a ponto de seduzir até mesmo o jovem Michael, o roteiro do filme chega perigosamente perto do trivial - o que só não acontece justamente graças a seu belo elenco. Julianne Moore é sempre ótima ao interpretar mulheres inseguras e Amanda Seyfried - ainda antes de tornar-se uma das jovens atrizes mais requisitadas de sua geração - enfrenta o desafio de contracenar com a veterana de forma surpreendente. A Liam Neeson, como o marido de personalidade dúbia, resta apenas pontuar com eficiência o show de suas colegas de cena.

"O preço da traição" não é um filme de suspense tipicamente comercial, apesar de algumas soluções narrativas um tanto previsíveis em seu ato final. Ao mesmo tempo, não é uma produção de arte, daquelas que fazem a festa dos ratos de cinemateca. Um meio-termo entre esses dois extremos, o trabalho de Egoyan peca justamente por sua indecisão - mas é perceptivelmente uma obra classuda, inteligente e destinada a um público-alvo cada vez mais desconsiderado pelos executivos de cinema: os adultos que anseiam por histórias que podem ser contadas sem efeitos especiais ou super-heróis.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...