terça-feira

EMBRIAGADO DE AMOR

 


EMBRIAGADO DE AMOR (Punch-drunk love, 2002, New Line Cinema/Revolution Studios/Ghoulardi Film Company, 95min) Direção e roteiro: Paul Thomas Anderson. Fotografia: Robert Elswit. Montagem: Leslie Jones. Música: Jon Brion. Figurino: Mark Bridges. Direção de arte/cenários: William Arnold/Jay R. Hart. Produção: Paul Thomas Anderson, Daniel Lupi, JoAnne Sellar. Elenco: Adam Sandler, Emily Watson, Philip Seymour Hoffman, Mary Lynn Rajskub, Luiz Guzmán. Estreia: 19/5/2002 (Festival de Cannes)

Vencedor do Melhor Diretor (Paul Thomas Anderson) no Festival de Cannes 

Durante uma coletiva de imprensa para o lançamento de "Magnólia" (1999), o cineasta Paul Thomas Anderson declarou a um jornalista britânico que seu próximo projeto seria uma comédia estrelada por Adam Sandler. Ninguém levou a sério tal informação - afinal o que poderia haver em comum entre um dos diretores mais festejados do momento, com filmes de narrativas densas e dramaticamente consistentes, e um ator de comédias ligeiras, relativamente populares mas de prestígio quase nulo junto à crítica? -, mas, três anos depois, também no Festival de Cannes, o que antes parecia uma piada mostrou-se uma realidade quase surreal. Distante das ambições dos projetos anteriores de Anderson - inclusive na duração de pouco mais de noventa minutos -, "Embriagado de amor" surpreendeu aos fãs, à indústria e à imprensa ao substituir o tom pesado de suas produções mais famosas por uma (aparentemente) singela história de amor. Considerado pela crítica como o melhor trabalho de Sandler até então, o romance atípico, com toques de um humor melancólico, deu a Anderson o prêmio de melhor diretor no festival francês e mostrou ao mundo uma faceta diferente de seu talento - ainda que sem abrir mão de algumas das características que o fizeram destacar-se no final dos anos 1990. De estrutura simples mas personagens complexos, o filme até tenta distanciar-se da sofisticação das produções anteriores do diretor, mas não pode ser considerado convencional (nem que seja graças à personalidade de seu protagonista).

Barry Egan (Adam Sandler em registro dramático e discreto) é um homem relativamente bem-sucedido. Dono de uma pequena empresa de objetos domésticos e independente, ele sofre, no entanto, com uma insegurança que o impede de manter contatos sociais duradouros ou românticos. Único homem de uma família de sete irmãs pouco amistosas, Barry sofre de uma angústia com a qual só consegue extravasar através de repentinos ataques de raiva. Sua rotina modorrenta sofre um baque, no entanto, através de duas situações inusitadas. Primeiro ele passa a ser chantageado por Georgia, atendente de telessexo com quem teve uma conversa em uma noite solitária - e seus violentos irmãos não brincam em serviço quando o assunto é "proteger" a irmã. E em segundo lugar, Barry conhece Lena Leonard (Emily Watson), amiga de uma de suas irmãs, que não hesita em deixar claro suas intenções amorosas com ele apesar de sua personalidade hesitante. Enquanto tenta fugir da pressão exercida por Georgia e dar a devida atenção a Lena, o complicado empresário busca o equilíbrio mental que somente a paz de espírito (que lhe é rara) pode proporcionar.

 
 
Não é difícil encontrar, em "Embriagado de amor", traços que remetem a obras anteriores de Paul Thomas Anderson, ainda que diluídas em uma estrutura menos ambiciosa. Barry Egan, por exemplo, é psicologicamente atormentado como os melhores personagens do cineasta, sendo capaz de entrar em uma obsessiva busca por pudins que podem lhe fazer economizar em viagens aéreas. Sua excentricidade encontra eco em seu nêmesis, o ameaçador Dean Trumbell (Philip Seymour Hoffman), que parece saído diretamente do roteiro de "Boogie nights: prazer sem limites" (1997). Suas irmãs, histéricas como um grupo de hienas, remetem diretamente às bizarrices trágicas de "Magnólia". E o desenrolar do romance entre Barry e Lena pode parecer tudo, menos um conto de fadas ao estilo de Hollywood: é repleto de neuroses, angústias, medos e incertezas, bem ao estilo pouco otimista do diretor. E, além de qualquer coisa, está intacta, em cada cena, a capacidade de Anderson de extrair performances impecáveis de seus atores - mesmo alguém cujo alcance dramático nunca tenha sido exatamente aplaudido, como Adam Sandler.

Uma espécie de patinho feio dentro da filmografia de Paul Thomas Anderson - foi solenemente ignorado pelo Oscar, por exemplo -, "Embriagado de amor" não deixa de ser um precursor de algumas obras menores do diretor que surgiriam alguns anos depois, como "Licorice Pizza", de 2021 (também uma história de amor entre pessoas pouco glamourosas). Sem o peso de seus primeiros trabalhos - que não poupavam seus personagens e os oprimia em situações extremas -, seu primeiro romance demonstra um pequeno raio de luz em uma obra frequentemente guiada pela escuridão. Não é tão marcante, nem tão poderoso. Mas não deixa de ser simpático.

segunda-feira

ATRAÍDOS PELO DESTINO

 


ATRAÍDOS PELO DESTINO (It could happen to you, 1994, TriStar Pictures, 101min) Direção: Andrew Bergman. Roteiro: Jane Anderson. Fotografia: Caleb Deschanel. Montagem: Barry Malkin. Música: Carter Burwell. Figurino: Julie Weiss. Direção de arte/cenários: Bill Groom/George DeTitta Jr.. Produção executiva: Gary Adelson, Craig Baumgarten, Joseph Hartwick. Produção: Mike Lobell. Elenco: Nicolas Cage, Bridget Fonda, Rosie Perez, Stanley Tucci, Isaac Hayes, Wendell Pierce, Seymour Cassel, Red Buttons, Richard Jenkins. Estreia: 13/7/94

Antes de surpreender o mundo com seu desempenho em "Despedida em Las Vegas" (1995), que lhe rendeu dezenas de prêmios e um merecido Oscar, Nicolas Cage dividia seu tempo entre produções de razoável prestígio junto à crítica - como "Feitiço da lua" (1987) e "Coração selvagem" (1990) - e filmes pouco memoráveis, que nada acrescentavam à seu currículo. "Atraídos pelo destino" faz parte do segundo grupo. Uma comédia romântica recheada de bons ideais e esperança na humanidade que faria a glória nas mãos de Frank Capra, o filme dirigido pelo pouco inspirado Andrew Bergman não fez barulho nas bilheterias, mas serviu para oferecer ao ator uma oportunidade rara de mostrar um lado doce e sensível que destoava dos personagens excêntricos pelos quais era conhecido até então. De quebra, dava à promissora Bridget Fonda a chance de mostrar seu talento como mocinha romântica - algo que não voltaria mais a acontecer até sua precoce aposentadoria, em 2002. Leve e esquecível, é uma inofensiva sessão da tarde, com tudo isso que tem de bom e de ruim.

Livremente inspirado em uma situação real ocorrida em 1984, "Atraídos pelo destino" contrasta com o cinismo dos anos 1990 ao apostar em uma trama sobre sentimentos nobres, personagens centrais dotados de ética e caráter bem definidos e uma visão otimista de um país que, à época, lutava por uma reestruturação social que amenizasse a criminalidade urbana e os conflitos raciais. Fugindo de qualquer controvérsia e/ou discussão mais séria, Andrew Bergman - que já havia dirigido Cage em "Lua-de-mel a três" (1992) e atingiria seu auge (não necessariamente de forma positiva) por "Striptease", estrelado por Demi Moore em 1996 - conduz seu filme sem nenhum lampejo de criatividade, amparado por um roteiro que usa e abusa do maniqueísmo e de camadas excessivas de açúcar. Porém, se a trama em si é difícil de comprar - a não ser em um universo utópico de contos de fadas ou produções da Disney -, a sorte do cineasta é contar com um elenco que quase consegue equilibrar a equação: Nicolas Cage, com sua cara de bobo alegre, convence em sua persona James Stewart, e Bridget Fonda (em papel recusado por Madonna e Marisa Tomei) está apaixonante em sua mescla de heroína clássica e mocinha sofredora - mas ao mesmo tempo independente e pouco afeita a lágrimas desnecessárias. E enquanto Rosie Perez mais uma vez surge no papel de perua desagradável, é uma pena que um jovem Stanley Tucci tenha tão pouco espaço - assim como um quase figurante Richard Jenkins.

 

O filme de Bergman começa com uma situação quase banal: durante mais um dia rotineiro pelas ruas de Nova York, o policial Charlie Lang (Nicolas Cage) - um homem de moral rígida, que leva seu trabalho a sério, a ponto de ajudar velhinhas a atravessar a rua - chega a um café onde trabalha a jovem Yvonne Biasi (Bridget Fonda), cuja vida financeira está à beira do caos. Sem dinheiro para lhe dar uma gorjeta, ele promete à simpática garçonete voltar no dia seguinte com o valor em dobro ou metade do prêmio da loteria na qual jogou - o que for mais. Para sua surpresa, ele acaba ganhando (junto com outras dezesseis pessoas) e, de posse de quatro milhões de dólares, volta ao local para cumprir o que foi prometido, para desespero de sua mulher, a ambiciosa Muriel (Rosie Perez). Sem acreditar no tamanho de sua sorte - e na honestidade de Charlie -, Yvonne muda de vida, compra a lanchonete onde trabalhava e reorganiza suas finanças. Charlie, por sua vez, começa a distanciar-se cada vez mais da esposa ao perceber suas falhas de caráter - e, ao aproximar-se de Yvonne, acaba por se apaixonar por ela.

A premissa inicial do roteiro não se sustenta por muito tempo, dando espaço à relação tóxica entre Charlie e Muriel e às desventuras românticas de Yvonne - também parte de um casamento atribulado. Ao deixar de lado as consequências do ato inesperado do policial e concentrar-se nas engrenagens já muito óbvias das comédias românticas, o filme acaba por apresentar ao público um resultado morno, com um desenvolvimento em nada empolgante ou inspirador. A química entre Cage e Fonda inexiste, e até mesmo os momentos de humor - cortesia de Rosie Perez - são em número insuficiente para transformar o produto final em algo marcante. A direção apática de Andrew Bergman tampouco ajuda, e somente a simpatia de seus astros é capaz de manter o interesse até o previsível final feliz. "Atraídos pelo destino" não é um filme ruim a ponto de irritar, mas é doce demais, meigo demais, otimista demais. Recomendável somente aos mais ardorosos fãs do gênero - ou àqueles que não perdem nenhuma produção com Nicolas Cage mesmo que não seja repleta de adrenalina.

sexta-feira

NOÉ

 


NOÉ (Noah, 2014, Paramount Pictures/New Regency Productions, 138min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Ari Handel. Fotografia:Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Debra Schutt. Produção executiva: Chris Brigham, Ari Handel. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Arnon Milchan, Mary Parent. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connely, Ray Winstone, Anthony Hopkins, Emma Watson, Logan Lerman, Finn Wittrock, Douglas Booth, Nick Nolte. Estreia: 26/3/2014

Os protagonistas dos filmes de Darren Aronofsky não são exatamente banais. Mas quem poderia imaginar que depois de um cientista que acreditava ter descoberto o nome de Deus, uma família destruída pelo vício em drogas, um homem que atravessa dimensões atrás da mulher que ama, um lutador decadente, uma bailarina presa à sua incapacidade de assumir seus desejos mais profundos e dois irmãos pugilistas radicalmente diversos em seus destinos profissionais o cineasta elegeria como personagem principal de uma grande produção de estúdio um patriarca bíblico? Pois foi o que aconteceu: "Noé", uma das grandes apostas da Paramount para a temporada 2014 (com um orçamento generoso de 125 milhões de dólares), encontrou no pouco tradicional diretor um de seus maiores trunfos - e, paradoxalmente, seu maior problema. Ao recusar-se a contar a história da Arca que marcou a aliança entre Deus e a humanidade da forma mais previsível - ou seja, com um viés religioso que não ofenderia as plateias mais conservadoras -, Aronofsky perdeu parte do público que transformou "A paixão de Cristo" (2004) em um dos maiores êxitos comerciais da história, mas não todo o respeito acumulado por anos de elogios e prêmios (inclusive uma indicação ao Oscar por "Cisne negro"). Apesar do meio-termo entre a reverência com a história e o desejo de questionar seu anti-herói e levantar questionamentos modernos (meio ambiente, fanatismo, o ser humano em si), "Noé" não chegou a decepcionar em termos de bilheteria e chegou a quase 360 milhões de dólares de renda mundial - mais dinheiro do que um congênere lançado no final do mesmo ano, "Êxodo: deuses e reis", dirigido por Ridley Scott e estrelado por Christian Bale, coincidentemente a primeira escolha de Aronofsky para viver seu protagonista.

Acrescentando trechos de outras religiões e aspectos pouco conhecidos de uma história aparentemente já contada e recontada através de milênios, o roteiro de "Noé" retorna até Adão e Eva - e consequentemente a descendência de Caim, responsável por transformar o mundo em um lugar sombrio, violento e egoísta que precisa, pelos desígnios de Deus, ser limpo por um dilúvio que, dizimando toda a população (com exceção do patriarca e sua família), dará origem a um recomeço, a um tempo de purificação. Com uma montagem interessante que dita um ritmo de blockbuster a uma produção com pretensões mais sérias, os primeiros minutos de "Noé" conduzem o espectador a um universo que mescla a formalidade de uma narrativa tradicional com elementos de filmes de verão - o visual dos guardiões (seres mitológicos que são o elo entre o paraíso perdido e a vida atual na Terra), por exemplo, é nitidamente pensado como forma de atingir um público mais fã de efeitos visuais do que de enredos elaborados, e, paradoxalmente, é um dos maiores defeitos do filme, ao tirar o foco dos personagens humanos em momentos cruciais e remeter a obras de apelo infanto juvenil, como a série "Harry Potter". Para uma obra que pretende analisar os eventos da Bíblia sob um ponto de vista mais realista e menos fantasioso, não deixa de ser incoerente.


 

A saga de Noé é conhecida até mesmo por quem não é especialista em religião, mas o roteiro de Aronofsky e Ari Handel insere elementos dramáticos e personagens inexistentes na mitologia, até como forma de intensificar os conflitos familiares e éticos da releitura. É o caso de Ila, interpretada por Emma Watson: única sobrevivente de um massacre que vitimou todos os seus parentes, a menina é adotada por Noé (Russell Crowe) e Naameh (Jennifer Connelly) em seu caminho para encontrar o velho Matusalém (Anthony Hopkins), a quem Noé procura em busca de conselhos a respeito de uma visão relacionada a uma violenta enxurrada. Avô de Noé, Matusalém, um homem sábio e um dos últimos descendentes de Caim, confirma ao neto que a visão é um sinal vindo de Deus. Entendendo que sua missão é construir uma arca para salvar os animais de um dilúvio que irá devastar a Terra - e assim limpá-la de um período de iniquidade e trevas -, o patriarca torna-se obcecado em levar a cabo o que lhe foi ordenado. Para isso, entra em rota de colisão com o irascível Tubal-Cain (Ray Winstone), assassino de seu pai e disposto a qualquer coisa para fazer parte do grupo a ser salvo do dilúvio - inclusive jogar um dos filhos de Noé, o jovem Ham (Logan Lerman) contra o próprio genitor. Desafios superados, resta a ele cumprir os desígnios de Deus - e perceber que lidar com chuva ininterrupta, animais de todas as espécies e inimigos pessoais é apenas o início de uma saga.

Como cinema "Noé" não chega nem perto de tudo que Darren Aronofsky realizou anteriormente - nem em termos de ousadia narrativa nem em termos de direção de atores. Enquanto Jennifer Connely mais uma vez apresenta um desempenho consistente (apesar de sua Naameh não ser explorada o bastante), o trabalho de Russell Crowe esbarra em um personagem que falha em conquistar a simpatia da plateia e, por consequência, de envolvê-la em seus desvarios. O elenco coadjuvante faz o que pode com um roteiro que por vezes parece sem um foco definido e os efeitos visuais - que poderiam ser um destaque em uma produção cuja trama clama por eles - mais atrapalham do que encantam. Por incrível que pareça, no entanto, mesmo sem as características que fizeram de Aronofsky um dos cineastas mais interessantes do começo do século XXI, "Noé" é uma produção acima da média. Não é um filme religioso no sentido mais tradicional do termo - mas não se poderia esperar isso de alguém tão pouco convencional.

quinta-feira

O REINO DE DEUS

 


O REINO DE DEUS (God's own country, 2017, BFI/Creative England/MetFilm Production, 104min) Direção e roteiro: Francis Lee. Fotografia: Joshua James Richards. Montagem: Chris Wyatt. Figurino: Sian Jenkins. Direção de arte: Stéphane Collonge. Produção executiva: Cavan Ash, Mary Burke, Anna Dufield, Celine Haddad, Richard Holmes, Emma Jouannet, Diarmid Scrimshaw, Paul Webster, Christopher Granier-Deferre. Produção: Manon Ardisson, Jack Tarling. Elenco: Josh O'Connor, Alec Secareanu, Gemma Jones, Ian Hart. Estreia: 23/01/2017 (Festival de Sundance)

É praticamente impossível não lembrar-se de "O segredo de Brokeback Mountain" (2005) ao assistir-se ao belo "O reino de Deus". Se não pela temática homossexual, ao menos sua desconstrução da masculinidade em ambientes francamente viris, seu uso sensível dos cenários naturais como personagens de vital importância e sua história de amor que contraria os preconceitos remetem diretamente à obra-prima do diretor Ang Lee. Ao contrário do sucesso do filme estrelado por Heath Ledger e Jake Gyllenhaal, porém, o trabalho do diretor Francis Lee não chegou a ser abraçado tão entusiasticamente pelas plateias e ficou restrito ao carinho de seu público-alvo e de uma parcela bem menos barulhenta de espectadores: aqueles que acompanham festivais de cinema e buscam alternativas ao cinema comercial de Hollywood. Sorte de quem se arriscou: "O reino de Deus" não é um filme de emoções pausterizadas, mas sim um belo conto sobre como o amor pode ser o motor de uma existência previamente sem sentido.

Estrelado por Josh O'Connor muito antes de o ator virar um queridinho do público e da crítica - o que aconteceu ao intercalar produções independentes e projetos comerciais, quase uma década depois -, "O reino de Deus" tem, em sua origem, as memórias do diretor e roteirista Francis Lee de seu período como trabalhador rural em uma fazenda no interior do Reino Unido. Homossexual, Lee via em sua rotina um empecilho quase intransponível a seus desejos de seguir uma carreira no teatro. Seu protagonista, o jovem Johnny Saxby (interpretado com uma sutileza palpável por O'Connor) também lida com a repressão a seus instintos: morando em uma fazenda no interior do país e ajudando o pai doente, Martin (Ian Hart, de "Os cinco rapazes de Liverpool") e a avó pouco dada a afetos, Deirdre (Gemma Jones), o rapaz dribla a solidão em encontros fortuitos e efêmeros em bares e feiras agrícolas. Sem maiores expectativas na vida, ele passa os dias bebendo e trabalhando - muitas vezes sem o devido reconhecimento de seus familiares. As coisas mudam quando, para ajudar no período em que as ovelhas do rebanho dão cria, seu pai contrata o imigrante romeno Gheorghe (Alec Secareanu): experiente e dedicado, o jovem acaba por derrubar as barreiras impostas por Johnny a sua chegada e, depois de um começo conturbado, os dois acabam se apaixonando. Mas Johnny não é uma pessoa fácil - resiste bravamente a qualquer aproximação menos casuais - e sua personalidade arredia, somada aos preconceitos em relação à sua sexualidade são uma ameaça ao relacionamento.

 

Filmado em ordem cronológica em Yorkshire - terra natal do diretor Francis Lee -, "O reino de Deus" chama a atenção também pela veracidade que circunda toda a produção. Suas cenas extremamente gráficas ao retratar a vida rural do interior britânico (com direito a partos bastante sangrentos filmados sem uso de dublês ou qualquer outro artifício) aproximam o espectador da trama e do universo de seu protagonista de forma quase asfixiante. A fotografia de Joshua James Richards comenta a ação de maneira discreta, utilizando os cenários naturais como tela para um panorama de emoções represadas - é exemplar o modo como a luz forte das primeiras tomadas vai se tornando mais quente conforme a relação entre Johnny e Gheorghe progride. Da mesma forma, até mesmo elementos discretos como o uso de tempero na comida serve como metáfora para a revolução de que um amor (por mais complexo) é capaz. Tais detalhes visuais (nada óbvios, mas bastante eficientes) demonstram o talento de Lee em equilibrar o visual com o emocional, amparado em uma direção de atores das mais inteligentes. Josh O'Connor se destaca com seu olhar triste e expressivo, mas é sua química com o romeno Al Secareanu que transforma "O reino de Deus" em uma produção especial e acima da média, celebrada em diversos festivais de cinema, como Berlim e Sundance: ao contrário da maioria dos filmes do gênero, que privilegiam histórias assépticas e rasas, o trabalho de Francis Lee parte em busca de uma história de amor que mergulha o público em uma espiral de angústia e fluidos corporais - que podem ou não resultar em um final feliz.

Inspirado no cinema dos irmãos Dardenne e de Jacques Audiard - segundo declarações do próprio diretor Francis Lee - e proibido no Oriente Médio e em vários países da Europa Oriental devido à temática homossexual (foi exibido apenas na Romênia, graças à participação do ator Alec Secareanu), "O reino de Deus" busca a conexão com seu público através da emoção, da sensibilidade e da identificação com temas universais, como o amor, a solidão e o medo de um um mundo hostil a qualquer diferença. Talvez por isso comova e seja mais consistente do que muitos congêneres que se contentam apenas com a superfície. Com silêncios mais loquazes do que seus diálogos, é uma produção que permanece com o espectador mesmo depois dos créditos finais.

quarta-feira

O VIRGEM DE 40 ANOS

 


O VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N. Green. Montagem: Brent White. Música: Lyle Workman. Figurino: Debra McGuire. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Steve Carell, Jon Poll. Produção: Judd Apatow, Shauna Robertson, Clayton Townsend. Elenco: Steve Carell, Catherine Keener, Paul Rudd, Romany Malco, Seth Rogen, Elizabeth Banks, Leslie Mann, Jane Lynch, Kat Dennings, Jonah Hill, Mindy Kaling. Estreia: 19/8/2005 

Fazia pouco menos de seis meses que a versão norte-americana da série "The office" havia estreado nos EUA quando "O virgem de 40 anos" chegou às telas. Era a primeira oportunidade do ator Steve Carell como protagonista no cinema - depois de ter roubado a cena em "Todo poderoso" (2003) e ter trabalhado com Woody Allen (em "Melinda e Melinda") - e havia certo receio de que o humor quase vulgar do filme de Judd Apatow (também em sua primeira incursão fora do circuito de televisão) pudesse ofender às plateias mais suscetíveis e, por consequência, afundasse nas bilheterias. Tudo, porém, não passou de um medo infundado: graças principalmente ao carisma inconteste de Carell, a comédia romântica mais inusitada da temporada encheu os bolsos da Universal (mais de 175 milhões de dólares de arrecadação mundial), abriu caminho para a consagração do seriado estrelado por seu ator central a partir da segunda temporada e apresentou Apatow como o diretor ideal de comédias adultas no começo dos anos 2000. Com um elenco coadjuvante recheado de nomes que fariam parte do imaginário do gênero pelos anos seguintes - como Paul Rudd e Seth Rogen -, o filme acabou por tornar-se, também, um capítulo importantíssimo nas carreiras de todos os envolvidos. 

Carell já tinha 43 anos de idade, dez anos de casado e dois filhos quando apresentou ao mundo o tímido e desajeitado Andy Stitzer, um homem cuja vida gira em torno de um emprego sonolento em uma loja de aparelhos eletrônicos, partidas de videogame e bonecos colecionáveis que são sua maior paixão. Seus amigos são seus colegas de trabalho, e suas relações com o sexo oposto nunca ultrapassam o nível mais superficial - para não dizer que elas praticamente não existem. Para Andy a vida parece ter chegado a um patamar do qual jamais sairá, e de certa forma ele chega a se conformar com o fato, ao menos até ter sua situação amorosa nula descoberta por seus companheiros profissionais. Surpresos (mas não muito) ao perceberem sua total inexperiência no campo sexual, David (Paul Rudd), Jay (Romani Malco) e Cal (Seth Rogen) se unem, então, em uma força-tarefa para resolver o problema do amigo. Nesse meio-tempo - onde encontra mulheres dos mais variados tipos e com as mais variadas expectativas -, Andy tenta lidar com um sentimento novo: a atração/paixão por Trish (Catherine Keener), uma mulher madura que nem de longe desconfia de sua condição de virgem.

 

Repleto de momentos cômicos inspirados - vários deles improvisados por um elenco coeso e homogêneo -, "O virgem de 40 anos" conseguiu a proeza de equilibrar o humor quase ofensivo de Judd Apatow, centrado em piadas de duplo sentido, trocadilhos infames e tiradas a respeito de sexo sem o menor pudor, com um tom de comédia romântica adulta, com personagens convivendo com angústias condizentes (ao menos em parte) com uma faixa etária muito acima da média para o gênero. Abaixo da camada mais óbvia da trama, existe, pairando como uma névoa de melancolia, as preocupações com a solidão, com o amadurecimento, com as relações pessoais em um mundo em constante evolução. O roteiro (coescrito por Apatow e Carell) não tem por objetivo discutir a sério nenhum desses temas, mas de certa forma os apresenta em um nível subjacente bastante interessante - e que em nenhum momento sobrepuja seu principal ponto: fazer rir com situações que beiram o ridículo e que escapam milagrosamente do excesso por mérito de seus intérpretes. Steve Carell mescla o humor histérico e o tom quase triste de Andy com uma maestria que seria ainda mais desenvolvida em trabalhos seguintes - como em "Foxcatcher: a história que chocou o mundo", que lhe rendeu uma indicação ao Oscar, dez anos mais tarde - e Catherine Keener oferece uma base sólida de seriedade à trama, sem que a faça perder o ritmo (e chegou a ser premiada pelos críticos de Boston e Los Angeles). Além deles, o trio de amigos de Andy conquistam o público sem fazer esforço - não à toa são um dos grandes destaques do filme, com personagens mais ricos do que se poderia pressupor: são eles os responsáveis pelo contraste entre a teoria e a prática que sustenta a trama.

Mesmo que vez ou outra apele para um humor quase chulo - o que preocupou Steve Carell no início da produção -, "O virgem de 40 anos" acerta ao brindar o espectador com um nível de inteligência e autoironia que raramente se vê nas comédias hollywoodianas. Em muitos momentos ele soa exatamente o que é - uma comédia tipicamente fruto de seu tempo e sua geografia -, mas consegue, ao mesmo tempo, soar universal e atemporal em seu retrato de uma masculinidade a um passo da toxicidade e da imaturidade geracional. Mas nem mesmo seus pequenos desvios de rota esconde sua principal qualidade: fazer rir descompromissadamente enquanto fala de assuntos sérios (ou nem tão sérios assim).  

terça-feira

UMA NOITE NA ÓPERA

 


UMA NOITE NA ÓPERA (A night at the Opera, 1935, MGM, 96min) Direção: Sam Wood. Roteiro: George S. Kaufman, Morrie Ryskind, história de James Kevin McGuinness. Fotografia: Merritt B. Gerstad, Montagem: William LeVanWay. Música: Herbert Stothart. Direção de arte: Cedric Gibbons. Elenco: Groucho Marx, Harpo Marx, Chico Marx, Kitty Carslile, Allan Jones, Walter King, Sig Ruman, Margaret Dumont. Estreia: 01/11/1935

A boa relação entre Chico Marx e Irving G. Thalberg (todo-poderoso chefão da MGM nos anos 1930), e seu gosto por partidas de bridge podem ser considerados os principais responsáveis por "Uma noite na ópera" ter chegado às telas. Sabendo que a relação entre os executivos da Paramount e os irmãos Marx - gênios da comédia e extremamente populares no começo da década - estavam abaladas com o fracasso financeiro de "O diabo a quatro" (1933), Thalberg não demorou em mexer seus pauzinhos para levar o grupo para seu estúdio: as negociações, iniciadas em uma mesa de jogo e que incluíram a promessa de uma turnê onde os atores testariam as piadas antes mesmo do começo das filmagens, acabaram resultando em uma das comédias mais insanas da carreira do grupo. A princípio rejeitado - a primeira exibição, em Long Beach, foi um fiasco monumental que obrigou o roteirista George S. Kaufman e o próprio Irvin Thalberg a reeditarem pessoalmente o produto que tinham em mãos -, "Uma noite na ópera" acabou estreando com nove minutos a menos e finalmente agradou às plateias. Quando foi relançado pouco depois - em programa duplo com "São Francisco: a cidade do pecado" (1936) - fez ainda mais sucesso e imediatamente tornou-se um clássico absoluto. 

Tecnica e narrativamente mais sofisticado do que os filmes anteriores dos irmãos Marx, "Uma noite na ópera" foi o primeiro trabalho do grupo sem Zeppo, de certa forma substituído por Allan Jones como o galã da trama. Dirigido pelo cineasta Sam Wood, a quem o próprio Jones considerava desagradável e inseguro - e que tampouco era chegado a improvisações, para desespero de Groucho e de todo o elenco, que sofria com repetições infinitas de cada cena -, o filme foi o mais ambicioso e caro da carreira dos astros, acostumados a lidar com orçamentos apertados e nem sempre condizentes com seu status dentro da indústria. Com um roteiro que foi sendo escrito e reescrito conforme avançavam as filmagens - e deixando uma série de autores demitidos no processo -, "Uma noite na ópera" foge da estrutura de piada atrás de piada para apostar em uma trama bem definida e quase convencional (dentro do estilo anárquico típico dos Marx). Apresentando diálogos ágeis característicos de Groucho e piadas físicas de extrema precisão que entraram para a história (em especial a antológica sequência em uma cabine onde não para de entrar entrar gente), o filme de Wood abandonou a primeira sinopse - cujo rascunho foi aproveitado por Mel Brooks em seu genial "Primavera para Hitler" (1968) - e teve sua cena de abertura (passada na Itália) cortada em sua exibição nos anos 1940, durante a guerra, para remover qualquer menção ao país, aliado do Japão e da Alemanha. Seus três primeiros minutos estão, desde então, perdidos - o que não atrapalha em nada seu resultado final.

 
A trama (pela primeira vez importante e coesa em um filme do grupo) gira em torno dos preparativos de uma companhia lírica europeia para uma turnê pelos EUA - com uma inesperada história de amor em segundo plano. O protagonista é o picareta Otis Driftwood (Groucho Marx), que insiste em conquistar a milionária Sra. Claypool (Margaret Dumont) para abocanhar parte de sua fortuna. Tentando fazer parte da alta sociedade, a riquíssima solteirona é convencida por ele a investir na Companhia de Ópera de Nova York, dirigida pelo pouco confiável Herman Gottlieb (Sig Ruman), que tem a intenção de contar com o protagonismo do tenor Rodolfo Lassparri (Walter Woolf King), seu protegido. Rodolfo, por sua vez, passa seus dias assediando a estrela do grupo, Rosa Castaldi (Kitty Carlisle), que o renega por estar apaixonada por um tenor mais jovem, Riccardo Barone (Allan Jones). Embarcando clandestinamente em um navio rumo a Nova Iorque, o calado Tomasso (Harpo Marx) - demitido pelo arrogante Rodolfo - e o esperto Fiorello (Chico Marx) - amigo de Riccardo, que se faz passar por seu empresário -, juntam-se a Ottis em seu objetivo de unir o casal de enamorados e elevá-los à condição de grandes nomes da ópera.

Dotado de um notável equilíbrio entre diálogos espirituosos (recitados como uma locomotiva pelo elenco excepcional) e momentos do mais puro humor nonsense, "Uma noite na ópera" foi considerado pelo próprio Groucho como seu filme preferido dentre todos que fez com seus irmãos. Sem ressentir-se do fato de ter um roteiro mais caprichado - o que, pelo contrário, apenas aumenta sua perenidade e seu alcance popular e crítico -, o trabalho de Sam Wood é, certamente, a mais importante e bem-acabada produção dos Marx, capaz de arrancar gargalhadas do público mesmo quase um século depois de seu lançamento.

segunda-feira

O GALANTE MR. DEEDS

 


O GALANTE MR. DEEDS (Mr. Deeds goes to town, 1936, Columbia Pictures, 115min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, estória de Clarence Budington Kelland. Fotografia: Joseph Walker. Montagem: Gene Havlick. Música: Howard Jackson. Direção de arte: Stephen Gooson. Figurino: Samuel Lange. Produção: Frank Capra. Elenco: Gary Cooper, Jean Arthur, George Bancroft, Lionel Stander, Douglass Dumbrille. Estreia: 08/4/36

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (Gary Cooper), Roteiro Original, Som

Vencedor do Oscar de Diretor (Frank Capra)

Quando "O galante Mr. Deeds" estreou, em abril de 1936, fazia pouco mais de um ano que "Aconteceu naquela noite" havia se tornado a primeira produção da história a arrebatar os cinco principais Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e atriz), e Frank Capra já era considerado um dos mais populares cineastas de Hollywood, a ponto de ter seu nome com destaque nos cartazes, acima inclusive do título - privilégio concedido por Harry Cohn, chefão da Columbia Pictures com fama de poucos amigos e muitos desafetos. Dono de uma obra que exalava um otimismo entusiasmado em relação ao ser humano (mesmo que tentasse disfarçá-lo sob um verniz de sarcasmo), Capra não chegou a surpreender quando levou uma segunda estatueta da Academia por uma comédia dramática que reforçava seus ideais. Grande sucesso de crítica e bilheteria, "O galante Mr. Deeds" quase rendeu uma continuação - a ideia resultou em outro êxito do diretor, "A mulher faz o homem" (1939) - e rendeu a Gary Cooper sua primeira indicação ao Oscar: sua atuação como o ingênuo e caloroso Longfellow Deeds justifica a teimosia do diretor em tê-lo como astro a ponto de esperar seis meses por sua liberação de compromissos anteriores (e a um considerável custo extra de cem mil dólares ao orçamento inicial do projeto). 

Dono de uma personalidade saudável e simpática, ideal para fortalecer o imaginário do americano médio pré-I Guerra Mundial, Cooper - que voltaria a trabalhar com Capra em "Adorável vagabundo" (1941) - nem parece fazer muito esforço para dar vida a seu personagem, um homem simples que vê sua rotina pacífica alterada graças a uma inesperada herança. Longfellow Deeds vive na pequena cidade de Mandrake Falls, onde trabalha escrevendo pequenas poesias para cartões de felicitações e se divertindo ocasionalmente tocando tuba na banda local. Bem quisto pela comunidade local mas sem maiores ambições pessoais, ele é, sem que saiba, o único herdeiro de Martin Semple, um tio milionário que conhecia apenas pelo nome. Seu novo status financeiro o leva até Nova Iorque, onde ele conhece o o inescrupuloso John Cedar (Douglass Drumbille), advogado de seu falecido tio que tem por objetivo manter-se como o principal responsável pela fortuna, mesmo que por meios pouco leais. Deslumbrado com a cidade grande, Deeds não percebe que sua pureza é alvo fácil de inúmeros interesses escusos - inclusive da imprensa, sedenta pela história do que passa a chamar de Cinderelo. Quando finalmente descobre que vem sendo manipulado, ele toma a decisão estarrecedora de usar sua herança para ajudar a pessoas necessitadas - o que o leva a ser interditado e ter que provar na justiça a sua sanidade mental. Para isso, precisa da ajuda de Babe Bennet (Jean Arthur), uma jovem jornalista que mentiu sua identidade para aproximar-se dele - e se apaixonou.

Escrito por Robert Riskin, habitual colaborador de Capra, o roteiro de "O galante Mr. Deeds" (também indicado ao Oscar) apresenta todas as características mais marcantes da obra do cineasta: diálogos ágeis repletos de ironia, personagens a um passo do maniqueísmo (mas dotados de uma humanidade quase palpável), uma trama a um passo do piegas (ainda que divertida a ponto de disfarçar qualquer excesso) e uma direção de atores impecável. Jean Arthur, que ficou com o principal papel feminino depois que Carole Lombard preferiu fazer "Irene, a teimosa" (1936), encontrou o tom ideal para sua Babe Bennett mesmo embarcando no projeto poucos dias antes do começo das filmagens e enfrentando a má vontade de Harry Cohn, que não a queria no filme. Gary Cooper, a primeira e única escolha de Capra para interpretar o protagonista, tem o carisma necessário para fazer com que a pureza de seu personagem soe como uma qualidade louvável e não um defeito que o afaste do público menos afeito a romantismos. O elenco coadjuvante tampouco fica atrás - outro elemento crucial do cinema de Capra é sua capacidade de escolher a dedo atores capazes de amparar sem prejuízo o universo criado a seu redor, e aqui tal capacidade atinge níveis de excelência, com atores secundários que em nada ficam atrás dos protagonistas. São eles, inclusive, que enfatizam o tom sarcástico da produção - que chega a criticar, sem muito disfarce, da chamada elite cultural do famoso Algonquin Hotel, que contava com nomes como Dorothy Parker e Robert Benchley.

Refilmado em 2002 como "A herança de Mr. Deeds" - dirigido por Steven Brill e estrelado por Adam Sandler -, "O galante Mr. Deeds" chegou a ser banido na Alemanha nazista pelo fato de contar com atores não-arianos, e é um dos filmes fundamentais da carreira de Frank Capra. Mais do que isso, no entanto, é uma comédia dramática e romântica das mais inteligentes e um exemplar perfeito do cinema comercial de Hollywood de sua época. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme, ator e roteiro -, perdeu para o hoje pouco lembrado "Ziegfeld: o criador de estrelas" mas se mantém como um dos mais queridos trabalhos do cineasta, principalmente por sua atmosfera otimista e pelo carisma de seus atores centrais. Um filme sem contraindicações.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...