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segunda-feira

O GALANTE MR. DEEDS

 


O GALANTE MR. DEEDS (Mr. Deeds goes to town, 1936, Columbia Pictures, 115min) Direção: Frank Capra. Roteiro: Robert Riskin, estória de Clarence Budington Kelland. Fotografia: Joseph Walker. Montagem: Gene Havlick. Música: Howard Jackson. Direção de arte: Stephen Gooson. Figurino: Samuel Lange. Produção: Frank Capra. Elenco: Gary Cooper, Jean Arthur, George Bancroft, Lionel Stander, Douglass Dumbrille. Estreia: 08/4/36

5 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Frank Capra), Ator (Gary Cooper), Roteiro Original, Som

Vencedor do Oscar de Diretor (Frank Capra)

Quando "O galante Mr. Deeds" estreou, em abril de 1936, fazia pouco mais de um ano que "Aconteceu naquela noite" havia se tornado a primeira produção da história a arrebatar os cinco principais Oscar (filme, diretor, roteiro, ator e atriz), e Frank Capra já era considerado um dos mais populares cineastas de Hollywood, a ponto de ter seu nome com destaque nos cartazes, acima inclusive do título - privilégio concedido por Harry Cohn, chefão da Columbia Pictures com fama de poucos amigos e muitos desafetos. Dono de uma obra que exalava um otimismo entusiasmado em relação ao ser humano (mesmo que tentasse disfarçá-lo sob um verniz de sarcasmo), Capra não chegou a surpreender quando levou uma segunda estatueta da Academia por uma comédia dramática que reforçava seus ideais. Grande sucesso de crítica e bilheteria, "O galante Mr. Deeds" quase rendeu uma continuação - a ideia resultou em outro êxito do diretor, "A mulher faz o homem" (1939) - e rendeu a Gary Cooper sua primeira indicação ao Oscar: sua atuação como o ingênuo e caloroso Longfellow Deeds justifica a teimosia do diretor em tê-lo como astro a ponto de esperar seis meses por sua liberação de compromissos anteriores (e a um considerável custo extra de cem mil dólares ao orçamento inicial do projeto). 

Dono de uma personalidade saudável e simpática, ideal para fortalecer o imaginário do americano médio pré-I Guerra Mundial, Cooper - que voltaria a trabalhar com Capra em "Adorável vagabundo" (1941) - nem parece fazer muito esforço para dar vida a seu personagem, um homem simples que vê sua rotina pacífica alterada graças a uma inesperada herança. Longfellow Deeds vive na pequena cidade de Mandrake Falls, onde trabalha escrevendo pequenas poesias para cartões de felicitações e se divertindo ocasionalmente tocando tuba na banda local. Bem quisto pela comunidade local mas sem maiores ambições pessoais, ele é, sem que saiba, o único herdeiro de Martin Semple, um tio milionário que conhecia apenas pelo nome. Seu novo status financeiro o leva até Nova Iorque, onde ele conhece o o inescrupuloso John Cedar (Douglass Drumbille), advogado de seu falecido tio que tem por objetivo manter-se como o principal responsável pela fortuna, mesmo que por meios pouco leais. Deslumbrado com a cidade grande, Deeds não percebe que sua pureza é alvo fácil de inúmeros interesses escusos - inclusive da imprensa, sedenta pela história do que passa a chamar de Cinderelo. Quando finalmente descobre que vem sendo manipulado, ele toma a decisão estarrecedora de usar sua herança para ajudar a pessoas necessitadas - o que o leva a ser interditado e ter que provar na justiça a sua sanidade mental. Para isso, precisa da ajuda de Babe Bennet (Jean Arthur), uma jovem jornalista que mentiu sua identidade para aproximar-se dele - e se apaixonou.

Escrito por Robert Riskin, habitual colaborador de Capra, o roteiro de "O galante Mr. Deeds" (também indicado ao Oscar) apresenta todas as características mais marcantes da obra do cineasta: diálogos ágeis repletos de ironia, personagens a um passo do maniqueísmo (mas dotados de uma humanidade quase palpável), uma trama a um passo do piegas (ainda que divertida a ponto de disfarçar qualquer excesso) e uma direção de atores impecável. Jean Arthur, que ficou com o principal papel feminino depois que Carole Lombard preferiu fazer "Irene, a teimosa" (1936), encontrou o tom ideal para sua Babe Bennett mesmo embarcando no projeto poucos dias antes do começo das filmagens e enfrentando a má vontade de Harry Cohn, que não a queria no filme. Gary Cooper, a primeira e única escolha de Capra para interpretar o protagonista, tem o carisma necessário para fazer com que a pureza de seu personagem soe como uma qualidade louvável e não um defeito que o afaste do público menos afeito a romantismos. O elenco coadjuvante tampouco fica atrás - outro elemento crucial do cinema de Capra é sua capacidade de escolher a dedo atores capazes de amparar sem prejuízo o universo criado a seu redor, e aqui tal capacidade atinge níveis de excelência, com atores secundários que em nada ficam atrás dos protagonistas. São eles, inclusive, que enfatizam o tom sarcástico da produção - que chega a criticar, sem muito disfarce, da chamada elite cultural do famoso Algonquin Hotel, que contava com nomes como Dorothy Parker e Robert Benchley.

Refilmado em 2002 como "A herança de Mr. Deeds" - dirigido por Steven Brill e estrelado por Adam Sandler -, "O galante Mr. Deeds" chegou a ser banido na Alemanha nazista pelo fato de contar com atores não-arianos, e é um dos filmes fundamentais da carreira de Frank Capra. Mais do que isso, no entanto, é uma comédia dramática e romântica das mais inteligentes e um exemplar perfeito do cinema comercial de Hollywood de sua época. Indicado a cinco Oscar - incluindo melhor filme, ator e roteiro -, perdeu para o hoje pouco lembrado "Ziegfeld: o criador de estrelas" mas se mantém como um dos mais queridos trabalhos do cineasta, principalmente por sua atmosfera otimista e pelo carisma de seus atores centrais. Um filme sem contraindicações.

O PREÇO DA TRAIÇÃO

  O PREÇO DA TRAIÇÃO (Chloe, 2009, StudioCanal/Sony Pictures Classic, 96min) Direção: Atom Egoyan. Roteiro: Erin Cressida Wilson, roteiro ...