ELES NÃO USAM BLACK-TIE (Eles não usam black-tie, 1981, Embrafilme, 120min) Direção: Leon Hirszman. Roteiro: Leon Hirszman, peça teatral homônima de Gianfrancesco Guarnieri. Fotografia: Lauro Escorel. Montagem: Eduardo Escorel. Música: Adoniran Barbosa, Chico Buarque, Gianfrancesco Guarnieri. Figurino: Yurika Yamasaki. Direção de arte/cenários: Jefferson Albuquerque Júnior, Francisco Osório, Marcos Weinstock. Produção: Leon Hirszman. Elenco: Gianfrancesco Guarnieri, Fernanda Montenegro, Carlos Alberto Riccelli, Bete Mendes, Milton Gonçalves, Lélia Abramo. Estreia: 05/9/81 (Festival de Veneza)
Um claro sinal de que nem sempre a história avança tão rapidamente quanto
deveria é o fato da peça teatral "Eles não usam black-tie", de
Gianfrancesco Guarnieri, ter sofrido tão poucas alterações em sua
adaptação para o cinema, realizada 23 anos mais tarde pelo cineasta Leon
Hirszman (oriundo do Cinema Novo). Com pequenas modificações na trama
(transportada do final da década de 50 para o começo dos anos 80, portanto
durante o fortalecimento do movimento sindicalista do ABC paulista), o roteiro
do cineasta enfatiza as relações interpessoais dos personagens, ameniza o tom
político quase panfletário do texto original e altera sutilmente a
personalidade de uma das protagonistas, mas mantém intocado o teor ideológico
de uma das obras seminais do teatro brasileiro contemporâneo. Lançada em
fevereiro de 1958, a peça de Guarnieri encontrou em Hirszman, marxista
assumido, a ponte ideal para sua transposição para as telas - uma produção tão
amplamente influenciada pelo neorrealismo italiano que saiu do Festival de
Veneza de 1981 com o prêmio especial do júri e o prêmio da crítica. É, de
longe, o melhor longa de ficção do diretor - que já havia assinado adaptações
para o cinema de Nelson Rodrigues ("A falecida", de 1965) e
Graciliano Ramos ("São Bernardo", de 1972) - e um dos mais
importantes filmes nacionais de todos os tempos (ainda que nem sempre seja tão
louvado quanto deveria).
A trama do filme se passa em 1980, época de enorme turbulência entre os
operários paulistas, que começavam a se organizar em movimentos sindicais,
liderados por expoentes da própria indústria siderúrgica, como o futuro
presidente Lula. É nesse ambiente efervescente que o jovem Tião (Carlos Alberto
Riccelli) recebe a notícia de que será pai: sua namorada, Maria (Bete Mendes),
também operária, está grávida, e o casal decide casar-se imediatamente. Seus
planos encontram um empecilho, porém, quando justamente às vésperas do
compromisso, eclode uma greve que divide os empregados da fábrica onde
trabalha, além de Tião e Maria, o pai do rapaz, Otávio (Gianfrancesco
Guarnieri) - que, preso durante a ditadura militar, não esconde suas tendências
de esquerda. Com medo de perder o emprego e não ser capaz de sustentar o filho
a caminho, Tião resolve furar a greve e entra em rota de colisão com o pai, os
colegas e até mesmo com Maria - que não aceita a possibilidade de se casar com
um homem fraco de espírito. Só quem permanece serena diante de todos os fatos é
Romana (Fernanda Montenegro), a matriarca da família: um oásis de
compassividade e compreensão perante toda a família.
Em sua estreia, em 1958, a versão teatral de "Eles não usam
black-tie" contava com Guarnieri como Tião, Montenegro como Maria e Lélia
Abramo como Romana - todos eles voltam na adaptação de Hirszman, em papéis
diferentes (Abramo assume o papel da mãe de Maria), e apenas Milton Gonçalves
permanece com a mesma missão: interpretar Bráulio, um colega de Otávio, uma
espécie de liderança entre os operários e que remete (ao menos no filme) ao
metalúrgico Santo Dias, morto pela polícia em 1979, durante manifestações
grevistas. Tal toque - que obviamente difere da peça - é um trunfo extra na
visão cinematográfica, que aproxima o público ainda mais dos personagens e seus
dramas, independentemente de suas visões políticas. Como todo boa obra neorrealista,
o roteiro se concentra nos dramas familiares como principal ponto de interesse,
utilizando-se dos movimentos sindicalistas apenas como um pano de fundo -
potente, é verdade, e imprescindível, mas como palco de um embate entre
ideologias e responsabilidades, entre o certo e o mais prático, entre escolhas
que podem destruir uma família ou mantê-la sob a sombra da culpa. Esse viés
dramático é um acerto, principalmente porque o elenco conta com atores que
estão em grandes momentos das carreiras.
Cinco anos antes
de contracenarem na novela "Cambalacho", com registro cômico e leve,
Fernanda Montenegro e Gianfrancesco Guarnieri inundam a tela de um
talento discreto, mas poderoso a ponto de apagar quaisquer vestígios de
interpretações anteriores ou posteriores - a cena final, em uma conversa
aparentemente banal na cozinha, enquanto escolhe feijão para cozinhar,
Montenegro mostra, sem esforço algum, porque é uma das maiores atrizes
do mundo. Diante de uma dupla tão avassaladora, resta a Carlos Alberto
Riccelli e Bete Mendes representarem uma nova geração - na trama, de
operários e trabalhadores em busca de justiça; fora dela, como dois
jovens atores esforçados, em papéis de suprema importância em suas
trajetórias artísticas. E à direção de Hirszman - discreta, silenciosa,
humana - cabe dar dimensão e verdade a cada um de seus personagens,
evitando julgamentos óbvios e maniqueísmos baratos. A complexidade do
roteiro - mérito que já vem do texto teatral - mergulha o espectador em
um universo realista, sincero e passional, onde cada gesto ou omissão é
catalisador de transformações radicais. "Eles não usam black-tie" é um
drama perfeito - em intenções, em resultado, em ideologia. É, sem
dúvida, um dos melhores filmes da história do cinema nacional.
Filmes, filmes e mais filmes. De todos os gêneros, países, épocas e níveis de qualidade. Afinal, a sétima arte não tem esse nome à toa.
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