terça-feira

O CASAMENTO DE MURIEL


O CASAMENTO DE MURIEL (Muriel's wedding, 1994, Film Victoria/House & Moorhouse Films, 106min) Direção e roteiro: P.J. Hogan. Fotografia: Martin McGrath. Montagem: Jill Bilcock. Música: Peter Best. Figurino: Terry Ryan. Direção de arte/cenários: Patrick Reardon/Glen W. Johnson, Jane Murphy. Produção: Lynda House, Jocelyn Moorhouse. Elenco: Toni Collette, Bill Hunter, Rachel Griffiths, Jeanie Drynan, Gennie Nevinson, Matt Day, Daniel Lapaine. Estreia EUA: 10/3/95

Na mesma época em que as drag-queens de "Priscilla, a rainha do deserto" conquistavam o público com seu humor sarcástico e fina ironia a respeito de intolerância e preconceito, outro filme australiano trilhava caminho semelhante, seduzindo a audiência por onde passava. Escrito e dirigido por P.J. Hogan, "O casamento de Muriel" é uma deliciosa comédia dramática que trata de forma leve e bem-humorada temas difíceis como inadequação social, solidão e depressão. No tom quase de deboche do roteiro de Hogan, há uma ácida e agridoce visão sobre sonhos e como eles servem de apoio e/ou empecilho para uma felicidade que parece impossível de alcançar. Por trás de tudo, no entanto, há o elogio rasgado à amizade e em como ela pode transformar uma vida.

Muriel Heslop, a protagonista vivida com propriedade pela ótima Toni Collette, é uma jovem que vive em uma pequena cidade da Austrália onde seu pai (Bill Hunter) é um conhecido vereador. Acima do peso, incapaz de manter-se empregada e apaixonada pelas canções do grupo ABBA - também citado com destaque em "Priscilla" - ela sonha em ter um casamento no estilo que vê nas revistas e na televisão, mesmo que não tenha sequer um pretendente. Enquanto é obrigada a conviver com uma família extremamente medíocre - os irmãos não fazem nada a não ser vegetar no sofá assistindo TV, a mãe é absolutamente apática e o pai um político corrupto e adúltero - Muriel tenta manter a amizade com um grupo de ex-colegas de escola, garotas populares que a desprezam e humilham em público. Revoltada com sua vida, Muriel dá um desfalque no pai e foge para Sydney, onde, com o nome alterado para Mariel, resolve reinventar-se. Dividindo um apartamento com uma nova melhor amiga, a liberada Rhonda (Rachel Griffiths), ela descobre os prazeres de uma vida nova, mas não consegue livrar-se completamente de seu passado. E quando finalmente tem a chance de realizar seu sonho de casar-se na igreja - com um nadador sul-africano que precisa de um green card - ela percebe que talvez as coisas não sejam exatamente como ela sempre imaginou que fossem.



Apesar da melancolia que perpassa todo o filme, "O casamento de Muriel" não deixa de ser uma experiência bastante agradável. Hogan - cujo fetiche por cerimônias matrimoniais encontraria o auge com "O casamento do meu melhor amigo", com Julia Roberts - escreveu um roteiro redondo, perfeito em sua forma irônica de criticar a sociedade australiana, afogada em sua hipocrisia e suas tradições. Até mesmo o fato de Rhonda ser de certa forma "punida" por sua liberdade sexual demonstra claramente que o cineasta conhece o universo que retrata: ao contrário do que se possa pensar, ele não castiga a personagem e sim a empurra em direção a uma real liberdade, a mesma que Muriel procura desesperadamente e julga encontrar na realização de seu casamento.

Aparentemente uma comédia boba e despretensiosa, "O casamento de Muriel" é, na verdade, um filme sobre pessoas lutando por sua felicidade, ainda que nem mesmo saibam de verdade onde procurá-la. Muriel é o retrato de uma sociedade sem maiores ambições, mas sua fuga de casa a salva da mediocridade na qual o resto de sua família vive mergulhada. Ela quer que sua vida seja tão boa quanto uma canção do ABBA e isso faz dela uma heroína pós-moderna, capaz de atos insensatos para atingir seus objetivos. Muriel é ingênua, é irresponsável e romântica, mas é verdadeira, humana e sensível. Isso faz toda a diferença, principalmente com a atuação irrepreensível de Toni Collette, que engordou para fazer o papel e depois tornou-se uma atriz de respeito em Hollywood, chegando a ser indicada ao Oscar de coadjuvante por "O sexto sentido". A seu lado, também brilha a radiante Rachel Griffiths, que apresenta todas as nuances de sua Rhonda com uma segurança ímpar - não é à toa que ela também já chegou perto de uma estatueta por "Hilary & Jackie" e tornou-se conhecida pelas ótimas séries "A sete palmos" e "Brothers and sisters".

Embalado por uma nostálgica e dançante trilha sonora e com uma protagonista encantadora, "O casamento de Muriel" é um cult-movie por excelência. Uma sessão da tarde saborosa e com muito mais consistência do que mostra à primeira vista.

3 comentários:

Catão disse...

Olá Clênio,
Sou editor do site www.confrariadecinema.com.br e gostei bastante dos textos no seu blog. Existe algum e-mail por onde possamos entrar em contato para conversar? Obrigado.

Clenio disse...

Enfim... meu email para contato é o seguinte:

cobainpoa@yahoo.com.br

Tente entrar em contato, mas também não localizei um email. Obrigado pela visita.

Fernando Meurer disse...

Esse filme é muito bom. Realmente, não é apenas uma comediazinha, mas sim um filme instigante em relação a certos aspectos da vida.
Essa safra do cinema australiano foi muito boa!!
Tem um filme tb dessa safra, de 1994, chamado The Sum Of Us, com o Russel Crowe, que é muito bom!
Vale a pena dar uma conferida.
As tuas resenhas são muito boas!
Ideintifico-em muito com a maiorias dos filmes que você vem postando, principalmente, as produções de 1993 para frente. Pois foi nessa época que eu passei a me interessar muito por cinema!

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