segunda-feira

ALMAS GÊMEAS

ALMAS GÊMEAS (Heavenly creatures, 1994, Wingnut Films, 108min) Direção: Peter Jackson. Roteiro: Peter Jackson, Frances Walsh. Fotografia: Alun Bollinger. Montagem: James Selkirk. Figurino: Ngila Dickinson. Direção de arte/cenários: Grant Major/Jill Cormack. Produção executiva: Hanno Huth. Produção: Jim Booth. Elenco: Kate Winslet, Melanie Linskey, Sarah Peirse, Diana Kent, Clive Merrison, Simon O'Connor. Estreia: 16/11/94

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

Antes de tornar-se milionário com a trilogia "O Senhor dos Anéis" - cujo último filme lhe rendeu inclusive um cobiçado Oscar de diretor - o neozelandês Peter Jackson mostrou ao mundo que, além de comandar batalhas grandiosas e convencer plateias a respeito da existência de hobbits, ele sabia falar de seres humanos. É difícil acreditar que o mesmo homem por trás do tenebroso "Fome animal" - um terror podreira repleto de vísceras e humor negro - é o mesmo responsável por "Almas gêmeas", um filme que mantém uma delicadeza feminina e etérea até mesmo em seus momentos mais crus e tensos. Baseado em um fato real e indicado ao Oscar de roteiro original - que perdeu para o incensado "Pulp fiction" - "Almas gêmeas" é a obra-prima de um cineasta cujas criatividade e imaginação são absolutamente inegáveis.

A história de "Almas gêmeas" se passa em Christchurch, uma pequena cidade da Nova Zelândia, e começa em 1952. A adolescente Pauline Parker (Melanie Lynskey), tímida e retraída, conhece e se encanta por sua cosmopolita colega de classe, a bela, milionária e culta Juliet Hulme (Kate Winslet). Entre as duas nasce uma imediata identificação, apesar de seus modos de vida totalmente opostos - enquanto Pauline vive em uma pensão de propriedade de seus pais, Juliet conhece o mundo todo graças a seus pais, parte da alta sociedade do país. A amizade entre elas começa a ficar mais intensa à medida em que elas entram em uma sintonia cada vez maior, a ponto de criarem um mundo à parte, onde podem exercitar sua imaginação fértil e um tanto distorcida. No entanto, quando os pais de Juliet resolvem se divorciar e consequentemente separar as duas amigas, o relacionamento entre as duas adolescentes começa a preocupá-los. Decididas a nunca mais se separarem, Juliet e Pauline tem, então, uma terrível ideia: acreditando que o maior obstáculo a sua relação é Honora (Sarah Peirse), a mãe de Pauline, elas tomam a decisão de assassiná-la. Todos os detalhes do plano são contados por Pauline em seu diário.

O roteiro do filme, co-escrito por Jackson e Frances Walsh é de uma inventividade ímpar. Ao invés de simplesmente narrar os acontecimentos que levaram à tragédia, os roteiristas dissecam as personalidades doentias, românticas e desesperadas de suas protagonistas com um carinho tétrico, um olhar assombrado mas fascinado e principalmente deixam-se levar pela mais alucinada fantasia. Juliet e Pauline tem um universo particular, o Quarto Mundo, onde, segundo elas, só existe lugar para o prazer e a arte, esta última representada pela Santíssima Trindade - o tenor Mario Lanza, o ator James Mason e o adorado Orson Welles, por quem elas nutrem uma relação de amor e ódio (a sequência em que elas imaginam estar sendo perseguidas pela personagem de Welles no filme "O terceiro homem" é extraordinária e resulta em uma das mais criativas cenas de sexo dos anos 90.

As extraordinárias ideias de Jackson, porém, seriam inúteis se ele não estivesse cercado de gente de muito talento. Tendo a sorte de realizar seu filme na Nova Zelândia, livre de qualquer pressão de executivos tacanhos e mercenários, ele pode escolher seu elenco da maneira que bem quis e o resultado é avassalador: a estreante Melanie Lynskey (escolhida poucos dias antes do início das filmagens) consegue ser fria, assustadora e emotiva de acordo com o momento, comprovando que beleza não põe mesa. E Kate Winslet, que poucos anos depois se tornaria estrela de primeira grandeza (e uma das atrizes mais respeitadas de sua geração) faz uma estreia auspiciosa, injetando força e fragilidade a sua complexa personagem (que hoje em dia é uma escritora de livros policiais, chamada Anne Perry).

"Almas gêmeas" não é e nem quer ser um filme comum. Fala de um relacionamento homossexual, mas passa longe de ser um filme de apelo somente ao mundo GLS. Apresenta um assassinato cruel, mas jamais poderia ser taxado de um filme de suspense. Tem cenas de lágrimas, choros e desespero, mas enquadrá-lo como um drama podaria grande parte de seu poder de fascínio. É um filme para quem gosta de cinema e para quem se dispõe a, por duas horas, se deixar fascinar, encantar e chocar por uma história bem contada.

domingo

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY

FRANKENSTEIN DE MARY SHELLEY (Mary Shelley's Frankenstein, 1994, TriStar Pictures, 123min) Direção: Kenneth Branagh. Roteiro: Frank Darabont, Steph Lady, romance de Mary Shelley. Fotografia: Roger Pratt. Montagem: Andrew Marcus. Música: Patrick Doyle. Figurino: James Acheson. Direção de arte/cenários: Tim Harvey/Martin Childs. Produção executiva: Fred Fuchs. Produção: Francis Ford Coppola, James V. Hart, John Veitch. Elenco: Kenneth Branagh, Robert De Niro, Helena Bonham Carter, Ian Holm, Aidan Quinn, Tom Hulce, John Cleese, Hugh Bonneville, Richard Briers. Estreia: 04/11/94

Indicado ao Oscar de Maquiagem

Entusiasmado com o sucesso de bilheteria e crítica de "Drácula de Bram Stoker" - sua visão opulenta e operística de um clássico absoluto - o cineasta Francis Ford Coppola teve a ideia de reapresentar a um público carente de boas produções do gênero alguns outros "monstros" da literatura de terror. Antes de desistir de um filme sobre lobisomens (mesmo porque o tenebroso "Lobo", de Mike Nichols, matou qualquer interesse no assunto), o diretor de "O poderoso chefão" produziu,  através de sua Zoetrope, a versão mais intensa e fiel de um dos livros mais conhecidos do estilo. No entanto, dirigido pelo irlandês Kenneth Branagh (em alta depois de ser considerado um novo Laurence Olivier, graças a suas adaptações de obras de Shakespeare), "Frankenstein de Mary Shelley" não atingiu as altas expectativas em torno de si: fracassou nas bilheterias e não empolgou a crítica.

Assim como em "Drácula de Bram Stoker" o filme de Branagh começa com um prólogo que suas versões anteriores dispensaram: no final do século XVIII, o explorador Robert Walton (Aidan Quinn) tenta descobrir novas terras, ignorando os perigos que a aventura proporciona. Durante uma viagem, ele encontra Victor Frankenstein (Kenneth Branagh), que lhe conta, sôfrego e apavorado, sua trágica história de desafio à ordem natural das coisas. Órfão de mãe desde a infância, ele sempre tentou encontrar uma maneira de reverter o processo da morte. Durante seu curso de Medicina - e depois de testemunhar a cruel morte de um mestre - ele finalmente tem a oportunidade que esperava: utilizando anotações de um professor, ele dá vida a uma criatura juntando partes de diversos corpos. Depois de rejeitá-la por considerá-la um erro, ele tenta continuar com sua vida normal ao lado da amada Elizabeth (Helena Bonham-Carter), mas o monstro criado por ele (Robert DeNiro) resolve vingar-se da rejeição da única maneira que conhece: com violência.

A história criada por Mary Shelley em uma única noite (segundo reza a lenda) tem inúmeras ressonâncias filosóficas e éticas que o roteiro de Steph Lady e Frank Darabont - este último diretor do ótimo "Um sonho de liberdade" - tenta manter, sem muito sucesso. O belo visual impresso pela fotografia imponente de Roger Pratt impressiona, mas a direção de Branagh esbarra em um erro crasso: a falta absoluta de sutileza. Não há espaço, nessa versão quase histérica, para momentos de silêncios ou discrição. Do início ao fim do filme, por exemplo, o ator Branagh surge em cena gritando, correndo e suando, enquanto seus colegas de elenco apenas tentam seguir seu ritmo acelerado (e não ágil, entenda-se). Helena Bonham-Carter, uma excelente atriz, pouco tem a fazer com sua Elizabeth, que nunca passa de uma expectadora passiva dos trágicos acontecimentos que ocorrem à sua volta até que torna-se vítima da ambição do amado. E Robert DeNiro, cujo currículo dispensa qualquer tipo de comentário, está no pior momento de sua carreira, restrito a caras e bocas exageradas que nem mesmo a maquiagem asquerosa (que concorreu merecidamente ao Oscar) consegue salvar.


Mas, então, o que "Frankenstein de Mary Shelley" tem de bom, que justifique uma sessão? Longe de ser uma porcaria, o filme de Branagh (diretor do interessante "Voltar a morrer" e da genial adaptação de "Hamlet" feita logo em seguida) não é uma obra-prima como "Drácula de Bram Stoker" mas está longe de ser de todo ruim. Como já foi dito, o visual é arrebatador, desde a fotografia sombria até a direção de arte caprichada e a trilha sonora de Patrick Doyle é sensível o suficiente para amenizar algumas sequências mais pesadas. E a história de Shelley por si mesma já é boa o bastante para prender a atenção, sem contar em algumas ideias muito interessantes do cineasta - a criação do monstro, por exemplo, apresenta uma espécie de útero em tamanho descomunal, com direito a líquido amniótico e tudo. Porém, a concepção do filme é melhor do que seu resultado final, conforme o próprio Coppola admitiu, retirando-se da divulgação do produto.

No final de contas, "Frankenstein de Mary Shelley" vale a pena por seu visual barroco e por sua história atemporal e repleta de questionamentos. Mas sem dúvida poderia ter sido um filme bem melhor.

sábado

PULP FICTION - TEMPO DE VIOLÊNCIA

PULP FICTION, TEMPO DE VIOLÊNCIA (Pulp fiction, 1994, Miramax Films/Jersey Films/A Band Apart, 154min) Direção: Quentin Tarantino. Roteiro: Quentin Tarantino, histórias de Quentin Tarantino e Lawrence Bender. Fotografia: Andrzej Sekula. Montagem: Sally Menke. Figurino: Betsy Heinman. Direção de arte/cenários: David Wasco/Sandy Reynolds-Wasco. Produção executiva: Danny DeVito, Michael Shamberg, Stacey Sher. Produção: Lawrence Bender. Elenco: John Travolta, Bruce Willis, Samuel L. Jackson, Uma Thurman, Harvey Keitel, Christopher Walken, Tim Roth, Amanda Plummer, Maria de Medeiros, Ving Rhames, Frank Whaley, Quentin Tarantino, Alexis Arquette. Estreia: Maio de 1994 (Festival de Cannes)

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Quentin Tarantino), Ator (John Travolta), Ator Coadjuvante (Samuel L. Jackson), Atriz Coadjuvante (Uma Thurman), Roteiro Original, Montagem
Vencedor do Oscar de Roteiro Original
Vencedor do Golden Globe de Roteiro Original
Palma de Ouro no Festival de Cannes (Melhor Filme)

Já faz mais de quinze anos que "Pulp fiction" levou a Palma de Ouro no Festival de Cannes e sua influência sobre o cinema americano - e mundial - ainda está longe de arrefecer. Primeiro filme de Quentin Tarantino depois de sua bombástica estreia - o violento "Cães de aluguel" - "Pulp fiction" pegou o mundo de surpresa ao subverter praticamente todas as regras pré-concebidas do cinemão comercial e apresentar um painel cru, engraçado e amoral de pessoas que circulam em um universo particularmente interessante ao cineasta. Desfilam pela tela - por cerca de duas horas e meia de duração - assassinos de aluguel, gângsteres de esquina, boxeadores fracassados e junkies irremediáveis. Vindo da cabeça de Tarantino - dono de um enciclopédico conhecimento sobre filmes B - não é de se estranhar nenhum detalhe de "Pulp fiction". O que é de deixar qualquer um surpreso é o fato do filme ter chegado pertinho de ganhar o Oscar máximo. Não chegou lá - ficou "apenas" com a estatueta de roteiro original - mas só concorrer ao lado de obras certinhas - excelentes, sem dúvida, mas pouco inovadoras - como "Forrest Gump" e "Um sonho de liberdade", já é motivo de choque.


Quentin Tarantino - assim como David Lynch e Pedro Almodovar - é uma espécie de deus de seu próprio universo. Em seus filmes qualquer coisa é possível, qualquer absurdo é compreensível e qualquer personagem é crível. Dentro de seu específico mundo - decorado e sonorizado com uma mistura de anos 60, 70 e 80 aparentemente sem nexo - ele conduz o espectador a situações bizarras sem dar espaço a questionamentos supérfluos. É somente dentro da obra sui generis do cineasta que matadores verborrágicos em vias de converter-se cruzam o caminho de foragidos ameaçados de morte que adiam a fuga para correr atrás de relíquias familiares - e que dão de cara com bizarros estupradores sadomasoquistas. Sim, isso é "Pulp fiction". Isso e muito mais.

Narrado fora de ordem cronológica - artifício que funciona à perfeição aqui, mas que virou quase uma praga em seu rastro, uma vez que qualquer filme "moderno" a utilizou sem parcimônia desde então - "Pulp fiction" começa apresentando um casal de assaltantes, Pumpkin (Tim Roth) e Honey Bunny (Amanda Plummer), que decide dar uma virada na vida e partir para ações mais ambiciosas e menos perigosas. Antes mesmo que sua história tenha um desfecho, o público é levado a conhecer Vincent Vega (John Travolta no mais consistente retorno de sua carreira) e Jules Winfield (Samuel L. Jackson), em vias de cumprir uma "missão" para seu chefe, o temível Marsellus Wallace (Ving Rhames). Tão logo o trabalho dos dois companheiros é finalizado, começa a história do encontro entre o desajeitado Vincent com Mia (Uma Thurman), a esposa de seu patrão, uma ex-atriz apaixonada por drogas pesadas que o leva a um pesadelo noturno ao sofrer uma overdose acidental. Em seguida, somos jogados na aventura de Butch Coolidge (Bruce Willis), um boxeador que, desafiando o combinado com seus contratadores - entregar uma importante luta - foge em disparada rumo aos braços da namorada, Fabienne (Maria de Medeiros), mas é obrigado a fazer uma retirada estratégica para recuperar o relógio de ouro que pertenceu a seu avô e a seu pai - só para ser vítima de um estranho sequestro ao lado de seu inimigo. E para finalizar tudo, Jules e Vincent são obrigados a chamar o eficiente Mr. Wolf (Harvey Keitel) para resolver um grave e sangrento acidente provocado com um tiro disparado sem querer.



Mesmo hoje, depois de dezenas de imitações baratas e sofríveis, "Pulp fiction" se mantém como revolucionário e impactante. Seu texto afiado (e principalmente repleto de uma naturalidade rara), sua trilha sonora sensacional (impossível não lembrar de sequências inteiras ao ouvir algumas de suas canções), sua absoluta falta de compromisso com o déja-vu e seu humor sardônico são marcas registradas de Tarantino e não são encontradas em quaisquer filmes que beberam de sua fonte. O estilo de Tarantino é legítimo, ao contrário de seus copiadores, e isso faz toda a diferença: o texto de "Pulp fiction soa orgânico e jamais forçado e encontra em seus atores os intérpretes ideais. E é nesse quesito que o cineasta mais influente da década de 90 se sobressai gritantemente: sem seu elenco, escalado a dedo, "Pulp fiction" provavelmente perderia muito de seu impacto.

Ainda que tenha sido John Travolta o mais festejado dos atores do filme - em um retorno que lhe deu uma merecida indicação ao Oscar - é difícil não se deixar fascinar pelos olhos hipnotizantes de Samuel L. Jackson (dono dos diálogos mais substanciais e cultuados da obra) ou seduzir pelo charme de Uma Thurman (que só aceitou fazer parte do elenco depois que o próprio diretor leu o roteiro todo pelo telefone). Tanto Jackson quanto Thurman concorreram à estatueta mais cobiçada do cinema e poderiam facilmente ter vencido. E é um duro golpe aos detratores que insistem em dizer que Tarantino não é bom diretor de atores ver o que ele consegue fazer com Bruce Willis, por exemplo, na melhor atuação de sua carreira, ou com Ving Rhames, um ator pouco conhecido alçado à categoria de assustador com sua performance como Marsellus Wallace - um gângster perigoso flagrado pelas câmeras hiperativas do cineasta em um momento de extrema fragilidade. E isso que nem é preciso falar de nomes consagrados como Harvey Keitel, Christopher Walken e Tim Roth, que apenas reiteram seu talento mesmo em pequenos papéis.

A força de "Pulp fiction" reside em suas inúmeras qualidades que, somadas, fazem dele o filme fundamental de sua época. Parte do inconsciente coletivo de uma legião de fãs da sétima arte, a obra-prima de Quentin Tarantino - se bem que quase todos os seus filmes o são - é um perfeito exemplo do quão inteligente, excitante e corajoso o cinema americano pode ser. Para ver, rever e trever, sempre com a mesma sensação de ineditismo.

sexta-feira

ED WOOD

ED WOOD (Ed Wood, 1994, Touchstone Pictures, 127min) Direção: Tim Burton. Roteiro: Larry Alexander, Scott Karaszewski, livro "Nightmare of ecstasy", de Rudolph Grey. Fotografia: Stefan Czapsky. Montagem: Chris Lebenzon. Música: Howard Shore. Figurino: Colleen Atwood. Direção de arte/cenários: Tom Duffield/Cricket Rowland. Produção executiva: Michael Lehmann. Produção: Tim Burton, Denise Di Novi. Elenco: Johnny Depp, Martin Landau, Patricia Arquette, Sarah Jessica Parker, Bill Murray, Jeffrey Jones, Lisa Marie, George "The Animal" Steele, Vincent D'Onofrio. Estreia: 28/9/94

Vencedor de 2 Oscar: Ator Coadjuvante (Martin Landau), Maquiagem
Vencedor do Golden Globe de Ator Coadjuvante (Martin Landau)

Edward D. Wood Jr. nasceu em 10 de outubro de 1924 e morreu em 10 de dezembro de 1978. Veterano da II Guerra Mundial, costumava combater vestido com roupas íntimas femininas e, graças a essa particularidade, realizou seu primeiro filme como cineasta, em 1953: "Glen ou Glenda?" A partir daí, pegou gosto pela coisa e, com a ajuda de seu fiel grupo de amigos e do veterano ator Bela Lugosi - em fim de carreira, viciado em morfina e falido - dirigiu alguns dos mais terríveis filmes vistos nas telas, e assumiu, com o passar dos anos, o título de pior diretor da história do cinema. Sem a menor noção de como fazer um filme - e realizando-os com o dinheiro de quem quisesse produzí-los - Wood é uma das personalidades mais fascinantes do lado B de Hollywood, e virou assunto de um dos trabalhos mais pessoais e sensíveis de Tim Burton. Estrelado pelo excêntrico Johnny Depp, "Ed Wood" não encontrou seu público - rendeu menos de 6 milhões de dólares nas bilheterias americanas - mas encantou a crítica e os fãs de bom cinema. Tudo devido à inteligência do roteiro, ao elenco impecável e ao carinho explícito do diretor pelo material.

Levemente inspirado na biografia "Nightmare of ecstasy", escrita pelo músico Rudolph Grey, "Ed Wood" não é exatamente uma cinebiografia, uma vez que concentra-se unicamente na carreira de cineasta do protagonista, deixando de lado sua vida antes de sua chegada ao cinema. Tudo começa em 1953, quando Wood (vivido com gosto por Johnny Depp), arrasado com as críticas negativas feitas a uma peça teatral que ele dirigiu, resolve iniciar uma nova fase em sua vida, realizando filmes para o cinema. O fracasso de seu primeiro filme - que contava a história de um homem em crise de identidade sexual, interpretado por ele mesmo - não o impede de manter-se esperançoso, principalmente quando conhece, por acaso, o ator Bela Lugosi (Martin Landau, impressionante e vencedor do Oscar de coadjuvante). Decadente e considerado ultrapassado, Lugosi se une a Wood em seus absurdos projetos cinematográficos, iniciando um relacionamento de amizade e admiração sinceras. Enquanto o jovem diretor insiste em filmar histórias sem pé nem cabeça - utilizando como atores médicos quiropratas, investidoras sem talento e filhos dos produtores - seu relacionamento com a namorada Dolores Fuller (Sarah Jessica Parker) vai pro brejo e ele inicia um romance com a dedicada Kathy O'Hara (Patricia Arquette).




Extraordinariamente fotografado em preto-e-branco por Stefan Czapsky (vencedor de importantes prêmios da crítica americana por seu trabalho), "Ed Wood" foge do tradicional esquema das cinebiografias também por permitir-se brincar com a personalidade de seu homenageado. Ao narrar com bom-humor e ironia as aventuras de Wood em busca de reconhecimento e sucesso - ele se comparava a Orson Welles - Burton utiliza os elementos a seu dispor com maestria. A trilha sonora de Howard Shore - substituindo pela única vez o parceiro constante do diretor, Danny Elfman - estabelece o clima sombrio/divertido do filme logo nos créditos iniciais (que, dizem, custaram sozinhos mais do que qualquer filme de Ed Wood). A espirituosa maquiagem vencedora do Oscar faz sua parte sem apelar para exageros e o elenco não poderia estar em dias mais inspirados.

Acostumado a papéis de maluquetes, Johnny Depp criou um Ed Wood completamente obcecado por sua carreira, capaz dos atos mais inacreditáveis para transformar suas ideias malucas em filmes, mas ao mesmo tempo consegue humanizar a personagem em suas cenas com Martin Landau, que foge magnificamente das armadilhas de interpretar alguém tão conhecido como Bela Lugosi. O sotaque empregado por Landau convenceu até mesmo o filho de Lugosi e sua cadavérica aparência casa com exatidão com as intenções de Tim Burton em realizar um filme que orgulharia Wood. E seria injusto esquecer um Bill Murray hilariante e um Jeffrey Jones sempre em vias de roubar a cena. Todos os momentos em que a equipe de Ed Wood está reunida são sublimes em sua visão romântica e apaixonada do ato de fazer cinema.

"Ed Wood" é isso! Uma homenagem carinhosa, romântica, sensível, engraçada e comovente a um dos artistas mais originais e apaixonados que o cinema americano produziu. Ed Wood pode ter sido o pior diretor da história, mas inspirou o melhor filme de um cineasta que provavelmente nasceu para contar sua história.

quinta-feira

UM SONHO DE LIBERDADE


UM SONHO DE LIBERDADE (The Shawshank Redemption, 1994, Castle Rock Entertainment, 142min) Direção: Frank Darabont. Roteiro: Frank Darabont, conto "Rita Hayworth and the Shawshank Redemption", de Stephen King. Fotografia: Roger Deakins. Montagem: Richard Francis-Bruce. Música: Thomas Newman. Figurino: Elizabeth McBride. Direção de arte/cenários: Terence Marsh/Michael Sierton. Produção executiva: Liz Glotzer, David Lester. Produção: Niki Marvin. Elenco: Tim Robbins, Morgan Freeman, Bob Gunton, Clancy Brown, James Whitmore, Gil Bellows. Estreia: 23/9/94

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Morgan Freeman), Roteiro Adaptado, Fotografia, Montagem, Trilha Sonora Original, Som

Ainda bem que dinheiro não compra tudo, nem mesmo em uma terra tão gananciosa quanto Hollywood. Apaixonado pela adaptação feita por Frank Darabont do conto "Rita Hayworth and the Shawshak redemption", que Stephen King publicou em seu livro "Quatro estações", o cineasta Rob Reiner ofereceu 2,5 milhões de dólares ao roteirista para que pudesse dirigí-lo. Proposta devidamente recusada - o que salvou o mundo de um filme com Harrison Ford e Tom Cruise juntos - o roteiro chegou às telas dirigido pelo próprio Darabont com o nome de "Um sonho de liberdade" e, se não fez um estrondo nas bilheterias, hoje é considerado um dos melhores filmes de prisão de todos os tempos, adorado pela crítica e pelo público, que nem se importa se as sete indicações ao Oscar jamais tenham se convertido em estatuetas - é bom lembrar que concorreu com o incensado "Forrest Gump, o contador de histórias" e com o cultuado "Pulp fiction, tempo de violência".

Realizado com uma competência avassaladora - em especial se for levado em consideração que é o filme de estreia de Darabont - "Um sonho de liberdade" conquista o público por não cair na armadilha de ser apenas "um filme de prisão" e nem tampouco apelar para a violência explícita. Apesar de contar com o nome de Stephen King nos créditos pouca coisa denuncia que o escritor - mais conhecido por suas tramas de terror - seja o autor de uma história tão humana (ainda que do mesmo livro tenha saído o conto que deu origem ao belo "Conta comigo").  Ao deixar de lado criaturas do além, fantasmas e cachorros raivosos, King criou personagens que seduzem a audiência aos poucos e, com a ajuda do belo roteiro de Darabont, de maneira irremediável. Mesmo que chegue perto de duas horas e meia de duração, "Um sonho de liberdade" jamais cansa o espectador, graças principalmente ao enorme talento de todos os envolvidos.

A história de "Um sonho de liberdade" começa nos anos 40, quando o banqueiro Andy Dufresne (Tim Robbins) é condenado a uma pena dupla de prisão perpétua, acusado de ter assassinado sua esposa e o amante dela. Mesmo dizendo-se inocente, ele vai parar no presídio de Shawshank, no Maine (cenário habitual das histórias de King). Lá, ele faz amizade com Red Redding (Morgan Freeman), que há anos tenta uma liberdade condicional e é conhecido por conseguir levar qualquer coisa para dentro dos muros da prisão. Enquanto o relacionamento entre os dois vai se aprofundando com o passar dos anos - e das décadas - Andy testemunha várias histórias: algumas comoventes, como a do veterano bibliotecário Brooks Hatlen (o sensacional James Whitmore), que não consegue sobreviver em liberdade e outras trágicas, como a do jovem Tommy (Gil Bellows), única pessoa capaz de revelar a verdade sobre o crime que aprisionou Andy.



O impressionante roteiro - e o conto em si - não tem pressa em construir as relações entre as personagens nem tampouco atropela os acontecimentos, que vão se desenrolando frente aos olhos do público de maneira delicada. Todas os detalhes da trama vão sendo apresentadas de forma sutil, para que em seu final absolutamente inesquecível façam todo o sentido. Nada no filme é desnecessário ou supérfluo: cada linha de diálogo, cada cena é extremamente necessária. As surpresas, mais do que simples truques baixos para manter acesa a audiência, são realmente convincentes e utilizadas com parcimônia, nos momentos apropriados e casam com perfeição no clima proposto pela fotografia cinzenta de Roger Deakins e pela edição tranquila de Richard Francis-Bruce.

Talvez a maior qualidade de "Um sonho de liberdade" seja, no entanto, sua opção em brincar carinhosamente com todos os clichês dos filmes de prisão com inteligência ímpar. Estão na receita comandantes sádicos (um Clancy Brown impecável em sua frieza), apenados violentos e ameaçadores, planos mirabolantes de fuga e a crueldade de seu diretor (Bob Gunton). Mas algumas cenas criadas por Darabont e companhia são de lavar a alma e emocionam os espectadores por sua absoluta originalidade, em especial quando Dufresne se tranca na sala do diretor e oferece aos colegas prisioneiros a possibilidade de ouvir alguns minutos de ópera. Também é comovente o desfecho da história de Brooks Hantley, que sai da cadeia depois de décadas e percebe que o mundo fora das grades não lhe pertence.

Como dupla, Tim Robbins e Morgan Freeman não poderiam estar melhores. Freeman - que ficou com uma personagem que no conto de King é irlandês e branco - foi indicado ao Oscar, mas Robbins poderia tranquilamente também ter concorrido à estatueta, uma vez que a delicadeza de sua interpretação tem o tom perfeito exigido por sua personagem silenciosa e contemplativa. Juntos, ele e Morgan Freeman são a cara do filme, dando à história a complexidade e a humanidade que ela precisa. Somados ao roteiro preciso e à trilha sonora discreta mas eficiente de Thomas Newman, eles fazem de "Um sonho de liberdade" a adaptação mais brilhante de uma obra de Stephen King.

sábado

ASSASSINOS POR NATUREZA

ASSASSINOS POR NATUREZA (Natural born killers, 1994, Warner Bros/Regency Enterprises, 118min) Direção: Oliver Stone. Roteiro: Oliver Stone, David S. Veloz, Richard Rutowski, história de Quentin Tarantino. Fotografia: Robert Richardson. Montagem: Brian Berdan, Hank Corwin. Música: Brent Lewis. Figurino: Richard Hornung. Direção de arte/cenários: Victor Kempster/Merideth Boswell. Produção executiva: Arnon Milchan, Don Murphy, Clayton Townsend. Elenco: Woody Harrelson, Juliette Lewis, Robert Downey Jr., Tommy Lee Jones, Tom Sizemore, Rodney Dangerfield, Arliss Howard, Balthazar Getty. Estreia: 26/8/94

Não existe nada parecido com "Assassinos por natureza". Vagamente baseado em uma história original de Quentin Tarantino, bastante modificada no roteiro final, a história de um casal de assassinos que torna-se fenômeno da mídia encontrou no polêmico Oliver Stone seu diretor ideal. Mesmo acostumado com controvérsias - afinal, ele tem "Nascido em 4 de julho" e "JFK" no currículo - Stone jamais poderia imaginar o verdadeiro escândalo que seu ... longa causaria junto à imprensa, à crítica e até mesmo à justiça. Eleito pela revista americana Premiere como "O Filme Mais Perigoso de Todos os Tempos", "Assassinos por natureza" chegou a colocar seu diretor no banco dos réus, acusado de incitar a violência e inspirar assassinatos. Mas, afinal de contas, é ou não um filme tão perigoso quanto pintam?

Sem dúvida, "Assassinos por natureza" é um filme diferente de tudo que foi visto no cinema comercial americano, e passados 16 anos de sua estreia, mantém sua extrema capacidade de surpreender, chocar e fazer pensar. Utilizando 18 formatos diferentes de filmagem e quase 3000 cortes - que tomaram 11 meses de trabalho dos editores Brian Berdan e Hank Corwin - a trajetória sanguinária de Mickey e Mallory Knox foge dos padrões convencionais de se contar uma história e, com isso, conseguiu tanto fãs inveterados quanto detratores tão violentos quanto seus protagonistas. O escritor John Grisham, por exemplo, comprou briga com Oliver Stone ao acusá-lo de ser o responsável indireto por uma tentativa de homicídio cuja vítima era seu amigo: o casal que atirou na vítima havia assistido ao filme depois de uma sessão de alucinógenos e, depois de matar uma pessoa, deixou outra presa em uma cadeira de rodas. Stone foi absolvido somente em 2002, mas o episódio apenas reitera o poder do filme junto a audiência. O fato de ter sido solenemente ignorado nas cerimônias de premiação do ano - apesar de muitas críticas entusiasmadas - é sintomático: mesmo no ano em que "Pulp fiction" (não exatamente um filme familiar) chegou perto de ganhar o Oscar, "Assassinos por natureza" foi rechaçado e julgado transgressor além da conta.  O que, de certa forma, não deixa de ser um elogio e tanto...

Narrado de forma não-convencional, "Assassinos por natureza" conta a história de Mickey e Mallory Knox, vividos com intensidade e com uma química explosiva por Woody Harrelson e Juliette Lewis. Depois de matarem os pais da jovem - que abusava sexualmente dela -, eles partem em uma viagem pelos EUA, cometendo assassinatos a esmo e tornando-se conhecidos da população graças principalmente a programas sensacionalistas de TV. Transformados em ídolos de uma parcela da audiência jovem e desiludida não apenas americana, mas mundial, eles acabam sendo presos pelo igualmente psicótico Jack Scagnetti (Tom Sizemore) - traumatizado pela morte violenta da mãe. Às vésperas de ser mandado para uma lobotomia, Mickey aceita dar uma entrevista exclusiva e ao vivo para o repórter Wayne Gale (Robert Downey Jr., espetacular), a ser transmitida direto do presídio de segurança máxima onde está preso a um ano. Durante o programa, uma rebelião começa e, com a câmera na mão, Gale acompanha Mickey e Mallory em sua eletrizante fuga, mostrada ao vivo para o país inteiro.

Dividido claramente em duas partes, "Assassinos por natureza" tem ritmos distintos para cada uma delas, que se completam com maestria. Na primeira hora do filme, a audiência acompanha os fatos que levaram o casal à prisão, narrados de forma quase anárquica e psicodélica por Stone e seus editores - a profusão de cores, de sons e de efeitos que distorcem as imagens soam como a maneira com que os protagonistas vêem o mundo. A entrevista de Mickey com Wayne Gale é fotografada com claridade e cores vivas e a rebelião em um claustrofóbico preto-e-branco. É seguro dizer que, apesar de ter detestado o roteiro do filme, o premiado Robert Richardson - vencedor do Oscar por "JFK" - realizou aqui um dos melhores e mais desafiadores trabalhos de sua carreira. Alternando-se entre formatos dos mais variados - até mesmo animação e super 8 - a fotografia é mais um dos pontos altos do filme, uma vez que a visão de Stone é muito particular, em especial a quase afirmar, através de imagens quase surreais, que Mickey e Mallory são na verdade anjos exterminadores em um mundo caótico - e o hipnotizante diálogo entre o assassino e seu entrevistador reitera essa posição.

 

E se a maneira sui generis de Oliver Stone enxergar seus protagonistas encontra excelência na fotografia e na edição, é impossível negar que sua criatividade atinge o ápice em algumas das geniais sequências criadas por seu roteiro delirante. A sofrida vida doméstica de Mallory antes de seu encontro com Mickey, por exemplo, é retratada em forma de um episódio de sitcom (com direito a gargalhadas fake ao fundo e palavrões omitidos), com o humorista Rodney Dangerfield no papel de um pai escroto e cruel. A busca de Mickey por soro antiofídico em uma drogaria deserta é mostrada em forma de desenho animado. E, inseridos entre cenas de violência explícita, comerciais de Coca-cola e imagens de arquivo da televisão americana dos anos 60. Misturadas a uma trilha sonora pulsante - que inclui desde Patti Smith, Nine Inch Nails e Bob Dylan a um extraordinário Leonard Cohen (cujas canções abrem e encerram o filme) essas ideias fora do comum demonstram o poder de Oliver Stone em passar, através de seus filmes, ideologias e discursos no mínimo polêmicos.
 
Mas falar de "Assassinos por natureza" sem tecer loas a seu elenco seria no mínimo injusto, uma vez que é crucial para o filme que ele seja interpretado da maneira correta, sob pena de sair da sátira e da crítica para transformar-se em uma comédia involuntária. Sendo assim, a escolha por Woody Harrelson (saindo imediatamente de "Proposta indecente") e Juliette Lewis (nunca menos do que fantástica) mostrou-se muito acertada, assim como dar ao ótimo Robert Downey Jr. o crucial papel de Wayne Gale (que o autor da história, Quentin Tarantino, queria para si nos primórdios do projeto). Por incrível que pareça é o premiado Tommy Lee Jones quem destoa do conjunto. Oscarizado por "O fugitivo", ele parece confundir ironia com palhaçada, quase estragando o clímax do filme com uma atuação exagerada e fora de contexto. Felizmente sua participação é relegada a segundo plano quando a violência e a tensão assumem a protagonização da história, em detrimento de seu sarcasmo.
 
Crítica ácida à forma como a mídia transforma vilões em heróis, "Assassinos por natureza" não é um filme para qualquer público, mas justamente sua ousadia temática e visual é que faz dele uma das obras fundamentais do cinema americano dos anos 90.

segunda-feira

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO

 

PRISCILLA, A RAINHA DO DESERTO (The adventures of Priscilla, queen of the desert, 1994, Polygram Filmed Entertainment, 104min) Direção e roteiro: Stephan Elliott. Fotografia: Brian J. Breheny. Montagem: Sue Blainey. Música: Guy Gross. Figurino: Lizzy Gardiner, Tim Chappell. Direção de arte: Owen Paterson. Produção executiva: Rebel Penfold-Russell, Sue Seeary. Produção: Al Clark, Michael Hamlyn. Elenco: Terence Stamp, Hugo Weaving, Guy Pearce, Bill Hunter. Estreia: 10/8/94

Vencedor do Oscar de Melhor Figurino

Nos anos 60, o britânico Terence Stamp chegou a ser considerado o homem mais bonito do mundo. Astro do polêmico "Teorema", do italiano Pier Paolo Pasolini, amante de nomes como Julie Christie e Brigitte Bardot e capa do single "What difference does it make", do grupo The Smiths, foi dirigido por nomes como Federico Fellini, Howard Hawks e Stephen Frears. Praticamente desconhecido da geração de cinéfilos acostumados a filmes-evento, Stamp reapareceu sob os holofotes depois dos 50 anos em um papel surpreendente: Bernardette, um transexual amargurado e devastado pela morte do amante na comédia australiana "Priscilla, a rainha do deserto". Discreta, cheia de classe e dona de um humor irônico e sarcástico, Bernardette é provavelmente uma das personagens mais marcantes de sua carreira.

Escrito e dirigido por Stephan Elliot, "Priscilla, a rainha do deserto" foi um dos mais interessantes filmes da onda que colocou a cinematografia australiana no mapa, durante os anos 90. Engraçado sem ser bobo e tocando com bom humor em temas polêmicos e até mesmo pesados - como preconceito e violência doméstica - o roteiro de Elliot oferece a seus três atores centrais papéis que surpreendem pela naturalidade e veracidade. Como agradecimento, todos eles tem performances impecáveis, o que suas subsequentes carreiras comprovaram. Além da ressurreição da carreira de Stam - que surpreendentemente foi quem menos se beneficiou do sucesso do filme, haja visto a quantidade de títulos pálidos e sem expressão dos quais participou depois - o filme deu um senhor empurrão para Hugo Weaving (vilão da série "Matrix") e Guy Pearce (que participou dos excelentes "Los Angeles, cidade proibida" e "Amnésia").

Na verdade o protagonista de "Priscilla" é Ticky (Hugo Weaving), que trabalha de drag-queen em casas noturnas de Sydney, nem sempre obtendo o sucesso e o respeito que deseja. Quando ele recebe o convite de uma amiga - na verdade, ex-mulher e mãe de seu filho - para uma série de shows no hotel em que ela trabalha, ele vê a chance de tentar uma nova oportunidade na carreira. Para isso, ele convida a amiga Bernardette (Stamp, genial), um transexual de meia-idade que acaba de perder o amante, para acompanhá-lo na viagem. A eles junta-se o jovem, impetuoso e debochado Adam (Guy Pearce), que imediatamente inicia uma relação de implicância com Bernardette. Comprando um ônibus - que batizam com o nome do filme - eles embarcam em uma viagem pelo deserto da Austrália, enfrentando o preconceito dos moradores de cidades do interior, abismando os mais conservadores e, por incrível que pareça, fazendo inimagináveis amizades.



A exuberância e a irreverência dos protagonistas - refletidas principalmente no espirituoso e criativo figurino vencedor do Oscar - talvez sejam os principais atrativos de "Priscilla", e são certamente os maiores responsáveis pelo sucesso do filme até mesmo junto a uma parcela do público que não é exatamente o alvo dos produtores. Espertamente, Stephan Elliot brinca com a imagem e os ícones gays para passar uma mensagem de tolerância e respeito, sem denegrir nem idealizar nada nem ninguém - ao menos de forma inconsequente e rasa. A convivência forçada entre suas personagens principais - de personalidades bem marcadas mas nunca previsíveis - serve como reflexo de uma sociedade ainda preconceituosa e que precisa lidar com a diversidade (seja ela pessoal, sexual ou de qualquer tipo). É uma metáfora inteligente e sutil, ainda que retratada de maneira propositalmente exagerada.

E falar de "Priscilla, a rainha do deserto" sem mencionar sua trilha sonora seria um crime hediondo. Dançantes e alto-astral, as músicas escolhidas por Stephan Elliot são o que há de melhor no que convencionou-se chamar de "música gay": ABBA, Pet Shop Boys e Gloria Gaynor batem o ponto, normalmente em cenas que tornaram-se clássicas justamente pela combinação perfeita das canções, das coreografias e das roupas pra lá de extravagantes que pontuam uma narrativa alegre, de bem com a vida e capaz de comprovar a vitalidade do cinema australiano.

Quem nunca assistiu a "Priscilla, a rainha do deserto" não sabe o que está perdendo! É diversão certa, com atores perfeitamente escalados - Guy Pearce é um show à parte com sua desaforada Felicia - e um clima de festa mesmo em seus momentos mais delicados.

terça-feira

O CLIENTE

O CLIENTE (The client, 1994, Warner Bros, 119min) Direção: Joel Schumacher. Roteiro: Akiva Goldsman, Robert Getchel, romance de John Grisham. Fotografia: Tony Pierce-Roberts. Montagem: Robert Brown. Música: Howard Shore. Figurino: Ingrid Ferrin. Direção de arte/cenários: Bruno Rubeo/Anne D. McCulley. Produção: Arnon Milchan, Steven Reuther. Elenco: Susan Sarandon, Tommy Lee Jones, Brad Renfro, Anthony LaPaglia, Mary-Louise Parker, Will Patton, William H. Macy, Anthony Edwards, Anthony Heald, Bradley Whitford. Estreia: 20/7/94. Bilheteria EUA: U$ 92.115.211

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Susan Sarandon)

Do alto de seu prestígio como um dos mais bem-sucedidos escritores de ficção do início dos anos 90, John Grisham tinha o poder de dar a palavra final a respeito do elenco das adaptações cinematográficas de suas obras e, ao contrário do que se poderia supor, tinha certo talento para isso. Recusando-se terminantemente a aceitar qualquer criança-prodígio para protagonizar "O cliente" - por achar que minaria a credibilidade da trama - ele obrigou o diretor Joel Schumacher a realizar centenas de testes antes de escolher Brad Renfro, então com 10 anos de idade. A escolha não poderia ter sido melhor. Renfro demonstrou, logo em sua estreia, uma segurança ímpar, que o fez contracenar, sem medo, com nomes consagrados como Susan Sarandon e Tommy Lee Jones. Sua morte, aos 25 anos, em janeiro de 2008, não deixa de ter sido uma lamentável perda, ainda que ele estivesse longe de ter se tornado o astro que poderia ter sido.

Em "O cliente", Renfro vive Mark Sway, um menino que mora em um trailer ao lado da mãe constantemente desempregada e sem maiores talentos para a ternura (Mary-Louise Parker) e do irmão caçula. Uma tarde, ao sair para fumar escondido, ele testemunha o suicídio de um mau-encarado advogado que, antes de dar um tiro na boca, revela a ele a localização do corpo de um senador, assassinado por seu cliente, o mafioso Barry Muldano (Anthony LaPaglia). Pressionado pelo FBI - na figura do excêntrico Roy Foltrigg (Tommy Lee Jones) - que tem a alcunha de Reverendo por citar a Bíblia nos tribunais - o menino procura a ajuda da advogada Reggie Love (Susan Sarandon), a quem confunde, pelo nome, com um homem. A princípio hesitante em confiar em uma mulher, ele aos poucos passa a confiar na advogada - que teve problemas com a bebida e perdeu a guarda do filho por causa disso. Enquanto luta para defender o garoto dos interesses perigosos do FBI e da própria máfia, ela vê nele a possibilidade de dar o amor que é impedida de dar ao filho verdadeiro. Surge então, entre elas, uma delicada relação materna.

Vindo das melhores críticas de sua carreira graças ao filme "Um dia de fúria", aqui Joel Schumacher assume quase que um papel de testemunha silenciosa, deixando que a história fale por si mesma. Discreta e fluente, sua condução da trama permite que tudo se desenvolva de maneira tranquila, proporcionando a Sarandon e Renfro que brilhem em atuações extremamente eficientes. Sarandon, inclusive, concorreu ao Oscar por seu desempenho, uma prova do prestígio que desfrutava então junto à Academia - prestígio esse que converteu-se em uma merecida estatueta no ano seguinte, pelo contundente "Os últimos passos de um homem". O trabalho inteligente e repleto de nuances de Sarandon encontra, porém, na atuação de Tommy Lee Jones um empecilho: com maneirismos e exageros que se avolumariam com o tempo - em "Assassinos por natureza", por exemplo, seriam quase insuportáveis - Lee Jones foge do tom naturalista imposto pelo diretor entregando uma atuação bastante fraca. Felizmente o roteiro de Akiva Goldsman e Robert Getchel dá preferência à história de identificação entre Reggie Love e Mark Sway, deixando toda a batida trama de máfia vs FBI em um segundo plano que só assume a protagonização de verdade no terceiro e último ato.



O final de "O cliente", aliás, é o mais excitante dentre as adaptações da obra de Grisham até então - depois do correto "A firma" e do chatinho "O dossiê Pelicano". Mesmo que Joel Schumacher não seja um diretor dos mais inspirados em cenas de ação - que o digam suas versões vexatórias de Batman lançadas poucos anos depois - ele não chega a estragar o clímax do livro, entregando à plateia um desfecho coerente e redondo, ainda que um tanto previsível. A renda de mais de 90 milhões de dólares provou que as escolhas realmente foram acertadas.

"O cliente" pode não ser a melhor adaptação de um livro de John Grisham - título que "Tempo de matar", dirigido pelo mesmo Joel Schumacher adquiriu, um ano depois - mas é interessante, bem interpretado e com a dose certa de emoção e sensibilidade, além de ser extremamente fiel à sua origem literária. E Susan Sarandon sempre vale uma bela espiada.

segunda-feira

TRUE LIES

TRUE LIES (True lies, 1994, 20th Century Fox/Lighstorm Entertainment, 141min) Direção: James Cameron. Roteiro: James Cameron, basedo no roteiro "La totale", de Claude Zidi, Simon Michael, Didier Kaminka. Fotografia: Russell Carpenter. Montagem: Conrad Buff, Mark Goldblatt, Richard A. Harris. Música: Brad Fiedel. Figurino: Marlene Stewart. Direção de arte/cenários: Peter Lamont/Cindy Carr. Produção executiva: Lawrence Kasanoff, Rae Sanchini, Robert Shriver. Produção: Stephanie Austin, James Cameron. Elenco: Arnold Schwarzenegger, Jamie Lee Curtis, Tom Arnold, Bill Paxton, Tia Carrére, Charlton Heston, Art Malik, Grant Heslov. Estreia: 15/7/94. Bilheteria EUA: U$ 146.261.000

Indicado ao Oscar de Efeitos Visuais
Vencedor do Golden Globe de Melhor Atriz Comédia/Musical (Jamie Lee Curtis)

Em 1994 a carreira de Arnold Schwarzenegger estava por um fio. O fracasso comercial de "O último grande herói", em que ele brincava com sua imagem de astro de filmes de ação o havia colocado em uma situação delicada dentro de uma indústria onde tudo é medido por dólares. Para recuperar seu prestígio - e uma bilheteria respeitável - ele reuniu-se ao cineasta que melhor havia sabido lidar com seu talento dramático limitado em seus maiores êxitos financeiros, os dois capítulos iniciais de "O exterminador do futuro". Com James Cameron na direção e Schwarza na liderança do elenco não havia como "True lies" dar errado. E não deu. Mesmo com um orçamento de 120 milhões de dólares, a refilmagem da desconhecida comédia francesa "La totale" - obviamente inchada com efeitos visuais de primeira qualidade - devolveu ao ator seu status de grande herói das telas, além de ter brindado o público com um dos mais divertidos filmes de sua carreira.

Brincando de James Bond, Schwarzenegger tem em "True lies" seu melhor papel, no qual ele consegue ultrapassar suas limitações e atingir um patamar inédito em sua carreira. Como Harry Tasker, um agente secreto do governo americano envolvido em uma perigosa trama de terrorismo nuclear, o monossilábico Exterminador não apenas explode automóveis, mas anda a cavalo pelo Central Park (e dentro de um elevador), pilota um avião de caça, fala árabe e dança tango. Tudo enquanto tenta salvar seu casamento.

Tasker é um agente do governo americano que esconde até mesmo da família sua verdadeira profissão. Sob o disfarce de um tedioso vendedor de computadores, ele leva uma vida repleta de adrenalina enquanto sua esposa, Helen (Jamie Lee Curtis) acredita que ele é um burocrata sonolento. Durante um de seus perigosos trabalhos, no entanto, Harry descobre que sua mulher está se envolvendo com outro homem, em busca de mais emoção para sua vida. Para salvar seu casamento, ele inventa uma missão para ela, mas eles acabam tendo que lidar de verdade com uma ameaça de terroristas árabes.


"True lies" é tudo que o cinema de entretenimento holywoodiano pode oferecer. É divertido do início ao fim, equilibrando com maestria sequências de ação realmente empolgantes com momentos extremamente engraçados. Jamie Lee Curtis - merecidamente premiada com o Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical - rouba a cena descaradamente, explorando cada diálogo e cada possibilidade de sua personagem. A cena em que Helen precisa forjar um striptease, por exemplo, é um primor de bom humor e tanto Curtis quanto Schwarzenegger deitam e rolam na pele de personagens que parecem feitos sob medida.  Tom Arnold e Bill Paxton, em papéis coadjuvantes, também colaboram para o alto astral do filme que, mesmo falando sobre assuntos um tanto polêmicos jamais deixa de ser o que se propõe: uma aventura delirante, alucinante e muito, muito cara.

O orçamento milionário de "True lies", ao contrário do que acontece em muitos filmes, é plenamente justificável quando se assiste a cada uma de suas cenas. Cada centavo gasto por Cameron - um cineasta com grande tendência à megalomania - é visível nas telas. Os 120 milhões gastos - que dariam para produzir quase quatro filmes como "Velocidade máxima" - nunca parecem supérfluos nas mãos de Cameron, que cuida de cada detalhe com mão de ferro. Pode ser um inferno para quem trabalha com ele, mas para o público que assiste a seus filmes, esse detalhismo todo faz toda a diferença.

É impossível não gostar de "True lies". Quem procura uma comédia irá dar altas gargalhadas com as desventuras do casal Tasker. Quem busca um filme de ação ficará grudado na poltrona ao assistir sequências criativas e aparentemente impossíveis. E quem gosta de esquecer dos problemas por duas horas de duração vai ter 140 minutos da diversão mais competente que o dinheiro pode comprar. Se todos os filmes de ação fossem como "True lies" o mundo seria um lugar mais inteligente.

sexta-feira

VELOCIDADE MÁXIMA

VELOCIDADE MÁXIMA (Speed, 1994, 20th Century Fox, 120min) Direção: Jan De Bont. Roteiro: Graham Yost. Fotografia: Andrezj Bartkowiak. Montagem: John Wright. Música: Mark Mancina. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Jackson De Govia/K.C. Fox. Produção executiva: Ian Bryce. Produção: Mark Gordon. Elenco: Keanu Reeves, Dennis Hopper, Sandra Bullock, Jeff Daniels, Alan Ruck, Joe Morton. Estreia: 10/6/94

3 indicações ao Oscar: Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 2 Oscar: Som, Efeitos Sonoros

Aqueles que acreditam que, para ser bom, um filme de ação precisa de um orçamento gigantesco e um astro de primeira grandeza devem ter ficado de queixo caído com o desempenho de "Velocidade máxima", lançado pela Fox em 1994. Ao custo de meros 25 milhões de dólares - menos que o salário de Arnold Schwarzenegger, por exemplo - e com um Keanu Reeves pré-Matrix como protagonista, o filme de estreia do diretor de fotografia Jan De Bont como cineasta rendeu pelo menos quatro vezes isso somente no mercado americano e transformou tanto Reeves como Sandra Bullock em ídolos, chegando inclusive a gerar uma tenebrosa continuação - que trocava Keanu por Jason Patric.

Escrito com um invejável senso de ritmo por Graham Yost, "Velocidade máxima" é um filme que funciona justamente por não querer inventar moda. Simples e direto, ele cumpre o que promete em suas duas horas de duração manter a plateia grudada na poltrona do eletrizante início em um elevador em vias de despencar de 40 andares ao climático final no metrô de Los Angeles. Contando ainda com um carismático herói, o policial Jack Traven - papel oferecido a nomes tão díspares quanto Alec Baldwin, Johnny Depp e Tom Hanks antes que Keanu Reeves o assumisse - o filme conquista também por sua despretensão. Apesar de parecer um filme caro (as sequências de ação são caprichadíssimas e em nenhum momento traem seu orçamento apertado), "Velocidade máxima" estreou sem maiores expectativas e talvez por isso mesmo tenha surpreendido tanta gente.



O início de "Velocidade máxima" já dá uma mostra do que vem pela frente quando dois policiais da SWAT, Jack Traven (Keanu Reeves) e Harry Temple (Jeff Daniels) se vêem obrigados a resgatar um grupo de pessoas de um elevador ameaçado de ir pelos ares por um psicopata que exige 3 milhões de dólares em troca de desarmar a bomba. Depois de ser bem-sucedido na missão, Traven é novamente desafiado pelo criminoso - na verdade um ex-policial de nome Howard Payne (Dennis Hopper) - quando fica sabendo que uma bomba está armada em um dos ônibus da cidade de Los Angeles. Uma vez que o ônibus não pode nunca andar a menos de 50 milhas por hora para que a bomba não exploda, ele conta com a ajuda da civil Annie (Sandra Bullock) - que perdeu a licença de motorista justamente por excesso de velocidade - para manter o veículo em movimento e salvar a vida dos passageiros.

A maior qualidade de "Velocidade máxima" é justamente a maneira com que o roteiro de Yost e a direção de Jan De Bont combinam de forma a jamais perder a atenção da audiência. Não há cenas desnecessárias e a edição enxuta de John Wright extrai o melhor de cada sequência, todas elas de perder o fôlego. Tecnicamente impecável - foi oscarizado em duas categorias sonoras - o filme não deixa espaço para questionamentos racionais, utilizando o escapismo com inteligência e parcimônia. O único escorregão talvez seja o romance pouco provável entre os protagonistas quem, em uma situação extrema como a mostrada no filme conseguiria cair de amores por quem quer que seja??

Aliás, é perceptível, já em "Velocidade máxima", o quanto Sandra Bullock é chata. Sua personagem é irritante, esganiçada e cansativa e Bullock - em vias de tornar-se uma espécie de namoradinha da América graças a filmes como "Enquanto você dormia" - não é muito diferente. A historinha de amor entre Annie e Traven é o único elo fraco de um filmaço de ação que nada deixa a dever a seus irmãos mais anabolizados. "Velocidade máxima" é um clássico dos anos 90!

quinta-feira

MAVERICK


MAVERICK (Maverick, 1994, Warner Bros/Icon Entertainment, 127min) Direção: Richard Donner. Roteiro: William Goldman, personagens criados por Roy Huggins. Fotografia: Vilmos Zsigmond. Montagem: Stuart Baird, Mike Kelly. Música: Thomas Newman. Figurino: April Ferry. Direção de arte/cenários: Tom Sanders/Lisa Dean. Produção: Bruce Davey, Richard Donner. Elenco: Mel Gibson, Jodie Foster, James Garner, Alfred Molina, James Coburn, Graham Greene, Dan Hedaya. Estreia: 20/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino

"Maverick", dirigido pelo mesmo Richard Donner da série "Máquina mortífera" se beneficiou de duas tendências comerciais que estavam em voga no início dos anos 90: os faroestes e as adaptações de séries de TV para o cinema. Tanto "Os imperdoáveis" - western de Clint Eastwood - e "O fugitivo" - estrelado por Harrison Ford - haviam sido grandes sucessos de bilheteria e o primeiro chegou a faturar o Oscar de melhor filme. Aproveitando a onda, Donner juntou-se ao amigo Mel Gibson e correu pro abraço. Com uma renda de mais de 100 milhões de dólares somente no mercado americano, "Maverick"  fechou as contas com um belo saldo, e de quebra, apesar de não ter chegado nem perto das cerimônias de premiação, parece ter divertido tanto o elenco quanto a plateia.

Criado por Roy Huggins na década de 50 e interpretado na TV por James Garner, Bret Maverick chegou às telas na pele de Mel Gibson, em vias de tornar-se um diretor respeitado e oscarizado pelo épico "Coração valente". No roteiro de William Goldman - que ecoa, guardadas as devidas proporções, seu trabalho em "Golpe de mestre" - Maverick é um conceituado jogador de pôquer que precisa juntar dinheiro suficiente para participar de um torneio milionário que acontecerá em um barco. Disposto a arrecadar a grana necessária, ele vai em busca de alguns credores, encontrando em seu caminho o xerife Cooper (o próprio Garner em participação afetiva) e a trapaceira Annabelle Bransford (Jodie Foster pela primeira vez em um papel menos sério dos que costuma interpretar). Juntos, eles passarão por situações inacreditáveis - diligências desgovernadas, ataques indígenas (em uma participação hilária de Graham Greene), roubos e trapaças, além de um violento rival (Alfred Molina) que, a mando de alguém cuja identidade ninguém conhece, tenta impedí-lo de inscrever-se no torneio.

 

"Maverick" é quase um "Máquina mortífera" no velho-oeste. É impossível dissociar Bret Maverick de Martin Riggs, vivido por Gibson na série do mesmo Richard Donner - e a impagável participação especial de Danny Glover reitera a afirmação. O senso de humor familiar, o talento em dirigir cenas de ação e o controle do ritmo identificam claramente o estilo do cineasta, que iniciou uma brilhante carreira no final dos anos 70 com "Superman, o filme" e depois do quarto capítulo de "Máquina mortífera", em 1998, entrou em uma curva descendente que ainda se mantém. Em "Maverick", Donner brinca com os clichês do velho oeste com um carinho evidente - até mesmo a direção de arte soa um tanto fake, o que lhe dá um certo charme retrô que encontra no elenco escolhido acertadamente um complemento extremamente feliz.

Se Gibson já estava estabelecido como um ator de filmes de ação quando interpretou Bret Maverick o mesmo não pode ser dito de Jodie Foster. Atriz séria, respeitada e especializada em papéis fortes e densos, a vencedora de dois Oscar apresenta, como Annabelle Bransford, uma faceta até então desconhecida para seus inúmeros fãs. Com um perfeito timing cômico e uma feminilidade poucas vezes explorada em seus trabalhos, Foster rouba a cena, principalmente quando atua com Mel Gibson - a química do casal é hilariante e eles aproveitam os diálogos de Goldman com inteligência e frescor. Ver Jodie tão à vontade - na época em que estava em vias de estrear mais um de seus dramas pesados, "Nell", que lhe deu mais uma indicação ao Oscar - é mais um motivo forte para que se assista a Maverick.

Divertido do começo ao fim, "Maverick" é uma sessão da tarde com todas as qualidades que fazem dos filmes de Richard Donner tão agradáveis. Com um humor que não ofende ninguém, um grupo de atores em dias inspirados e um roteiro que nunca cai no marasmo, é uma pedida perfeita para momentos de tédio. Não muda a vida de ninguém, mas diverte.

quarta-feira

A RAINHA MARGOT

A RAINHA MARGOT (La reine Margot, 1994, Renn Productions, 144min) Direção: Patrice Chereau. Roteiro: Patrice Chereau, Danielle Thompson, romance de Alexandre Dumas. Fotografia: Phillipe Rousselot. Montagem: François Gédigier, Hélène Viard. Música: Goran Bregovic. Figurno: Moidele Bickel. Direção de arte: Richard Peduzzi, Olivier Radot. Produção executiva: Pierre Grunstein. Produção: Claude Berri. Elenco: Isabelle Adjani, Daniel Auteil, Virna Lisi, Vincent Perez, Jean-Hugues Angladé, Pascal Greggory, Miguel Bosé, Thomas Kreschtmann. Estreia: 13/5/94

Indicado ao Oscar de Figurino
Palma de Ouro no Festival de Cannes: Melhor Atriz (Virna Lisi)
Vencedor do Prêmio do Júri - Festival de Cannes

Sempre que um filme francês foge de seu tradicional padrão - leia-se ritmo lento, verborragia excessiva e conteúdo existencial/dramático - a imprensa especializada apressa-se em encontrar nele ecos do cinema americano, depreciando suas qualidades próprias. Foi isso que aconteceu, por exemplo, com a adaptação do romance "A rainha Margot", do escritor Alexandre Dumas. Violento, ágil e principalmente muito caro, o filme de Patrice Chereau encontrou brava resistência junto à crítica, que o acusou de ser derivativo do cinema hollywoodiano. Isso não o impediu, porém, de encontrar seu público - fez enorme sucesso comercial - e de encantar o júri do Festival de Cannes - que deu a Virna Lisi o merecidíssimo prêmio de melhor atriz.

Ainda que seja coadjuvante - a protagonista é vivida por uma deslumbrante Isabelle Adjani - a Catarina de Médicis criada por Lisi é, sem sombra de dúvida, a personagem mais interessante do filme, uma presença maligna e ambiciosa que rouba todas as cenas em que aparece. Espectral como um fantasma e malévola como tal, Catarina manipula todos a seu redor, com o objetivo único de entregar o poder da França a seu filho preferido, o Conde D'Anjou (Pascal Greggory), mesmo que, para isso, tenha que ser a responsável por um dos episódios mais sangrentos da história de seu país.


A trama de Dumas - adaptada a contento por Chereau e Danielle Thompson - se passa na Paris de 1572, quando as brigas entre católicos e protestantes estão a um passo de transformarem-se em uma guerra civil. Para apaziguar ambos os lados, o Rei Charles (o ótimo Jean-Hugues Angladé) acata a ideia de sua mãe, Catarina de Médicis (Virna Lisi) de casar sua irmã católica, Margot (Isabelle Adjani) com Henrique de Navarre (Daniel Auteiuil), um rei protestante. O que era para ser uma ocasião festiva, no entanto, torna-se uma noite sangrenta quando, devido a articulações de Catarina, centenas de protestantes são assassinados violentamente. Refugiando-se da morte no quarto de Margot - casada contra a vontade e não exatamente um exemplo de puritanismo, uma vez que tem dezenas de amantes - o jovem La Môle (Vincent Perez) acaba se apaixonando por ela e sendo correspondido. Para ficarem juntos, eles precisam sobreviver às intrigas do palácio e à violência da ambição de Catarina e seu séquito, capazes de conspirações e assassinatos covardes.

Vendido ao mercado internacional como uma história de amor, na verdade "A rainha Margot" é um épico repleto de suspense, interpretado por alguns dos melhores atores franceses de sua época. Ao lado da impressionante Virna Lisi e da bela Isabelle Adjani estão nomes como Daniel Auteil e Jean-Hugues Angladé, que extraem o melhor possível de seus papéis, em especial o segundo, que, na pele do fraco rei Charles - que tem um filho bastardo mas não a coragem de assumí-lo perante a corte e sua dominadora mãe - dá um show particular. Principal vítima das articulações maldosas de sua progenitora, ele acaba sendo sacrificado por engano, culminando na tragédia do desfecho do filme - que não se deixa seduzir por um falso final feliz.

Fotografado com precisão por Phillipe Rousselot - que amplia a escuridão dos palácios e das ruas de Paris para reiterar as trevas que circundam as personagens - e com uma reconstituição de época caprichada (com ênfase no figurino indicado ao Oscar de Moidele Bickel), "A rainha Margot" conquista justamente pelos motivos que incomodaram os críticos sem abdicar dos elementos próprios de sua cinematografia (nudez frontal masculina ainda é tabu em Hollywood, por exemplo) e absorvendo o melhor do cinema americano, ele é um filme que serve tanto como entretenimento quanto como história (ainda que disfarçada de romance). Não é um típico produto francês, mas é bem mais nutritivo do que filmes de ação americanos.

terça-feira

BACKBEAT, OS CINCO RAPAZES DE LIVERPOOL

BACKBEAT, OS CINCO RAPAZES DE LIVERPOOL (Backbeat, 1994, Polygram Filmed Entertainment) Direção: Iain Softley. Roteiro: Iain Softley, Michael Thomas, Stephen Ward. Fotografia: Ian Wilson. Montagem: Martin Walsh. Música: Don Was. Figurino: Sheena Napier. Direção de arte/cenários: Joseph Bennett/Barbara Herman-Skelding. Produção executiva: Hanno Huth, Nik Powell. Produção: Finola Dwyer, Stephen Wooley. Elenco: Stephen Dorff, Sheryl Lee, Ian Hart, Gary Bakewell, Chris O'Neill, Scott Williams, Kai Wiesinger. Estreia: 01/4/94

Stuart Sutcliffe nasceu em Edimburgo (Escócia) em 23 de junho de 1940 e morreu de hemorragia cerebral em Hamburgo (Alemanha) em 10 de abril de 1962. Como artista plástico, foi extremamente elogiado, tendo sido influenciado por artistas abstratos expressionistas americanos e exposto em galerias do mundo todo. Apesar de seu inegável talento como pintor, no entanto, Stuart não ficou conhecido através de sua arte e sim por um fato de extrema importância no universo musical - Stuart Sutcliff, ou simplesmente Stu foi o quinto Beatle, antes que Lennon, McCartney & cia dominassem o mundo. E a história da amizade entre ele e John Lennon - e a espécie de triângulo amoroso formado por eles e a fotógrafa Astrid Kircherr - é contada em "Backbeat, os cinco rapazes de Liverpool".

Inspirado pela comoção pública em torno da morte de John Lennon em dezembro de 1980, o britânico Iain Softley demorou mais de uma década para passar da ideia à ação. É difícil dizer com certeza, mas provavelmente nesse caso o tempo foi um belo aliado. Distante do calor do momento e da imaturidade inerente à juventude, o cineasta realizou um filme sóbrio, elegante e sem os exageros de um fã. No roteiro co-escrito pelo diretor ao lado de Stephen Ward e Michael Thomas, as personagens não são astros do rock: são jovens ambiciosos e talentosos em busca do lugar ao sol e completamente entregues à sua vontade de viver.

A trama de "Backbeat" começa quando Lennon (Ian Hart) convence seu melhor amigo, Stu (Stephen Dorff) a utilizar o dinheiro da venda de um quadro na compra de um baixo. Mesmo sem muito talento para a música, o rapaz aceita acompanhar o amigo e os outros integrantes de sua banda a uma viagem a Hamburgo, na Alemanha. Lá, os dois, acompanhados de Paul McCartney (Gary Bakewell) e Pete Best (Chris O'Neill) fazem uma série de shows em bares um tanto decadentes. Tudo sofre uma reviravolta quando entram em cena o artista plástico Klaus (Kai Wiesinger) e a bela fotógrafa Astrid (Sheryl Lee, a Laura Palmer da série de TV "Twin Peaks"), que cria o visual da banda. Apaixonado pela bela alemã, Stu passa a dedicar-se mais à pintura do que à música, o que apressa seus conflitos com a banda e com o melhor amigo, enciumado com a relação entre os dois.



O roteiro de "Backbeat" concentra-se principalmente nas relações entre Lennon/Astrid/Stuart. Dividido entre uma promissora carreira plástica uma medíocre trajetória como músico, Stu não deseja magoar os sentimentos do melhor amigo, a quem a banda é o mais importante de tudo. Mesmo assim, ele sabe, sem dúvida alguma, que ama Astrid, e que não pretende abandoná-la para acompanhar o grupo musical dos amigos. Essa crise existencial de Sutcliffe é a alma do filme de Softley e encontra em Stephen Dorff um intérprete à altura: mesmo que não seja exatamente carismático, Dorff é o ator ideal para encarnar as dúvidas de sua personagem, sempre à beira de um colapso nervoso. Com uma química invejável com Sheryl Lee (linda e etérea), ele também consegue fazer com Ian Hart uma dupla verossímil e afinada. Mesmo que não seja fisicamente ideal para o papel de Lennon, Hart entrega uma atuação visceral e intensa, que conquista o público justamente por sua entrega.

Ao contar a história dos Beatles antes que eles se tornassem os Beatles que todo mundo conhece, "Backbeat" aproveita para apresentar ao público uma trilha sonora vibrante e contagiante. Músicas dos primórdios da banda mais famosa do mundo desfilam pela tela, comentando a ação em cenas que desafiam qualquer um a ficar parado. A musicalidade dos Beatles sempre esteve presente, parece querer dizer o roteiro e as cenas pré-Cavern Club, e as tragédias pessoais pelas quais passou o grupo apenas fomentaram uma das bandas mais sensacionais, criativas e mágicas da história.

"Backbeat" é um filme de fãs para fãs. Mas é também a história de uma amizade, de um amor e de uma tragédia. É simples e sofisticado, assim como as músicas dos Beatles. Delicioso!

O VIRGEM DE 40 ANOS

  O VIRGEM DE 40 ANOS (The 40 year old virgin, 2005, 116min) Direção: Judd Apatow. Roteiro: Judd Apatow, Steve Carell. Fotografia: Jack N....