terça-feira

SEM SAÍDA

SEM SAÍDA (Eden Lake, 2008, Rollercoaster Films/Aramid Entertainment, 91min) Direção e roteiro: James Watkins. Fotografia: Christopher Ross. Montagem: Jon Harris. Música: David Julyan. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Simon Bowles/Lisa Chugg. Produção executiva: Conor McCaughan. Produção: Christian Colson, Richard Holmes. Elenco: Kelly Reilly, Michael Fassbender, Jack O'Connell, Finn Atkins, Jumayn Hunter, Thomas Turgoose. Estreia: 12/8/08 

Em 2008 o ator alemão Michael Fassbender ainda não tinha o prestígio que viria a acumular alguns anos mais tarde em Hollywood, dividindo sua carreira entre blockbusters ("Prometheus" e a série de filmes "X-Men") e produções incensadas pela crítica e que lhe dariam indicações ao Oscar ("12 anos de escravidão" e "Steve Jobs"). No entanto, basta um pouco de atenção para perceber que, mesmo em filmes menores, de gênero e orçamento barato, ele já demonstrava grande talento. "Sem saída", uma obra despretensiosa, rodada na Inglaterra e sem grandes astros no elenco, é um dos mais aterradores filmes de suspense de sua época. Com nítida inspiração em clássicos como "Amargo pesadelo" (72) e "O massacre da serra elétrica" (73), o roteirista e diretor James Watkins transforma em realidade - ao menos nas telas - os mais angustiantes terrores da plateia, sem poupar sangue, violência e muita tensão.

Como é tradicional em filmes do estilo, tudo começa na maior tranquilidade, com a beleza da natureza como moldura e um belo casal de namorados apaixonados em busca de um fim-de-semana de paz e amor. A professora primária Jenny (Kelly Reilly) aceita o pedido de seu amado, Steve (Michael Fassbender), de conhecer um lago afastado, frequentado por ele na adolescência e que está em vias de ser limitado à visitação pela construção de um condomínio de luxo. Steve, na verdade, tem a intenção de pedir a mão da jovem em casamento, mas antes mesmo que ele tenha a oportunidade de tocar no assunto, um grupo de adolescentes pouco amigáveis cruza seu caminho: a princípio apenas inconvenientes, eles batem de frente com Steve, que, ao defender a namorada imediatamente se torna inimigo do bando. Depois de um trágico confronto,os arruaceiros - filhos conhecidos de moradores dos arredores e liderados pelo delinquente Brett (Jack O'Connell) - passam a aterrorizar os namorados, que, cercados por uma extrema violência, passam a lutar pela sobrevivência dentro de uma densa e isolada floresta.


Construindo o suspense com inteligência e parcimônia, Watkins mergulha a plateia em um universo onde, aos poucos, a única regra é sobreviver. Desprovidos de quaisquer ferramentas que possam lhes ajudar a escapar de uma situação banal transformada em um surreal pesadelo, Steve e Jenny conquistam a simpatia do público justamente por serem vítimas inocentes de um jogo cruel e gratuito, que chega aos limites do horror físico. Sem poupar cenas explícitas e sanguinolentas, o diretor embarca em uma trilha de sadismo de dar inveja a qualquer filme B - com a diferença crucial de que ele sabe como contar uma história e utilizar tais elementos agoniantes apenas como instrumentos para isso e não os elegendo como ponto principal da trama. Para isso, ele conta com a presença de ótimos atores nos papéis centrais, ao contrário da regra geral que sempre conta com um elenco de canastrões para ilustrar sequências de banhos de sangue irresponsáveis.

Com um subtexto extremamente relevante - como a criação paterna pode levar os filhos a estados do mais absoluto desrespeito pelos outros seres humanos - e um roteiro conciso, James Watkins (que alguns anos depois comandaria "A mulher de preto", com Daniel Radcliffe, com economia muito maior de sangue e violência) assina um trabalho digno de figurar entre os grandes de seu gênero. Michael Fassbender demonstra com seu Steve aquilo que todo mundo logo saberia - ele é um ator de grandes recursos, capaz de passar de um homem romântico a um homem disposto a tudo para defender a mulher que ama (apenas para tornar-se uma presa fácil de quem não tem nada a perder). Jack O'Connell, que seria revelado por Angelina Jolie em "Invencível" (2014), transmite com intensidade a fúria animal e quase irracional de seu Brett (com direito a uma última cena arrepiante). E à Kelly Reilly cabe a mais desafiadora parte do conjunto: ultrapassar os limites de sua personagem quase clichê (a mulher que precisa defender-se sozinha das ameaças à sua vida) e fazer dela alguém com quem o público realmente se importe. Não apenas ela consegue isso como torna o desfecho da história algo ainda mais surpreendente e chocante. Com um trio de protagonistas como esse, cenas de arrepiar (que podem incomodar aos mais sensíveis) e um roteiro que segue as regras mas consegue fazê-las parecerem novas em folha, "Sem saída" é uma gratíssima surpresa. Imperdível para quem gosta de sofrer no conforto de casa.

segunda-feira

A RECRUTA BENJAMIN

A RECRUTA BENJAMIN (Private Benjamin, 1980, Warner Bros, 109min) Direção: Howard Zieff. Roteiro: Nancy Meyers, Charles Shyer, Henry, Harvey Miller. Fotografia: David M. Walsh. Montagem: Sheldon Kahn. Música: Bill Conti. Figurino: Betsy Cox. Direção de arte/cenários: Robert Boyle, Jeffrey Howard/Arthur J. Parker. Produção executiva: Goldie Hawn. Produção: Nancy Meyers, Charles Shyer, Harvey Miller. Elenco: Goldie Hawn, Armand Assante, Harry Dean Stanton, Eileen Breenan, Albert Brooks, Craig T. Nelson, Robert Webber, Sam Wanamaker, Barbara Barrie, Mary Kay Place. Estreia: 07/10/80

3 indicações ao Oscar: Atriz (Goldie Hawn), Atriz Coadjuvante (Eileen Brennan), Roteiro Original

Em 1979, bem antes que as atrizes de Hollywood começassem a demonstrar seu descontentamento em relação à baixa quantidade de papéis femininos relevantes dentro da indústria - uma reclamação que vem de muito longe, mas nem sempre de forma assertiva - a jovem Goldie Hawn já havia percebido que o caminho mais efetivo para não depender exclusivamente dos grandes estúdios estava em produzir seus próprios filmes. Aos 34 anos e grávida de cinco meses de sua filha, Hawn, que já tinha em casa um Oscar de coadjuvante pelo filme "Flor de cacto" (69), resolveu assumir as rédeas de uma carreira já bem estabelecida e comprou a ideia da roteirista (e futura cineasta) Nancy Meyers para estrelar a comédia "A recruta Benjamin". Logo depois do nascimento de seu bebê (que se tornaria a atriz Kate Hudson) e passando por um processo de divórcio, ela já estava enfrentando um treinamento militar de seis semanas e supervisionando aquele que seria a sexta maior bilheteria de 1980 nos EUA e Canadá - e lhe daria uma surpreendente indicação ao Oscar de melhor atriz. Leve, agradável e com um viés feminista que combinava perfeitamente com o momento de seu lançamento, "A recruta Benjamin" permanece um passatempo divertido, mas é difícil entender porque concorreu ao Oscar de roteiro original e ganhou o prêmio do Sindicato de Roteiristas na categoria comédia: apesar de simpático, ele jamais atinge todas as possibilidades que apresenta em seu primeiro (e promissor) ato.

O filme começa muito bem: a jovem e mimada Judy Benjamin (interpretada com graça e timing perfeito por Hawn), uma socialite judia, acaba de se casar - pela segunda vez - com o bem-sucedido advogado Yale Goodman (Albert Brooks em participação especial). Seus problemas normalmente se resumem a encontrar os objetos corretos para decorar sua casa ou combinar roupas para eventos sociais, mas sua felicidade dura pouco: em plena noite de núpcias, Yale morre de um ataque do coração (durante o ato sexual). Deprimida e desorientada, ela encontra um caminho na figura de um excêntrico desconhecido, o sargento Jim Ballard (Harry Dean Stanton), que a convence dos benefícios de integrar as Forças Armadas americanas. Sem saber exatamente onde está se enfiando, Judy parte de malas e bagagens para o treinamento militar e acaba se tornando desafeto da Capitã Doreen Lewis (Eileen Brennan, indicada ao Oscar de atriz coadjuvante), que não suporta a futilidade da nova recruta. Sofrendo com a nova rotina, ela entra em conflito com outros superiores e, transferida para a Europa, se apaixona pelo francês Henri Trémont (Armand Assante), que pode vir a ser seu terceiro marido.


O grande problema de "A recruta Benjamin" é sua brusca queda de ritmo e interesse no ato final. O romance entre Judy e Henri soa deslocado em um filme que, a princípio, parece ser basicamente uma comédia ligeira, repleta de piadas físicas e do humor deliciosamente ingênuo de Goldie Hawn. Se até então o desenvolvimento da história já deixava para trás a chance de brincar com muito mais contundência com as dificuldades da protagonista em encarar um mundo completamente oposto ao que vivia, seu desvio de rota em direção à comédia romântica o deixa ainda menos consistente. A trama que mais prometia - a rixa entre Judy e a Capitã Lewis - acaba sendo esquecida e enfraquecida assim que o roteiro se transfere para a Europa, quando o treinamento de Benjamin (os momentos mais inspirados do filme) é substituído por um discurso feminista que, apesar de pertinente, se torna cansativo e superficial. Nem mesmo o talento de Goldie Hawn é capaz de contornar tal problema, mas felizmente seu sorriso desarma qualquer espectador.

Com o talento de arrancar risadas sem precisar falar sequer uma linha de diálogo, Goldie Hawn é o corpo e a alma de "A recruta Benjamin". Não à toa, foi a principal responsável por sua realização, ciente de que tinha em mãos um veículo perfeito para seus dotes como humorista e atriz dramática. O Oscar - que perdeu para Sissy Spacek em "O destino mudou sua vida" - certamente seria um exagro absurdo, mas é seu imenso carisma que sustenta o filme, salvando-o de ser apenas uma sessão da tarde esquecível. Está longe de ser, como votou a revista Premiére, em 2006, "uma das 50 maiores comédias de todos os tempos", mas sai-se bem como um passatempo despretensioso - e até rendeu uma série de TV (sem Goldie), que ficou no ar entre 1981 e 1983, com direito a prêmios Emmy e Golden Globe. Definitivamente, um tiro certo na carreira da atriz.

domingo

A MULHER DE PRETO

A MULHER DE PRETO (The woman in black, 2012, Hammer Films/Cross Creek Pictures, 95min) Direção: James Watkins. Roteiro: Jane Goldman, romance de Susan Hill. Fotografia: Tim Maurice-Jones. Montagem: Jon Harris. Música: Marco Beltrami. Figurino: Keith Madden. Direção de arte/cenários: Kave Quinn/Niamh Coulter. Produção executiva: Tobin Armbrust, Neil Dunn, Guy East, Roy Lee, Xavier Marchand, Marc Schipper, Nigel Sinclair, Tyler Thompson. Produção: Richard Jackson, Simon Oakes, Brian Oliver. Elenco: Daniel Radcliffe, Ciarán Hinds, Janet McTeer, Shaun Dooley, Mary Stockley. Estreia: 03/02/12

Vultos assustadores. Ruídos inesperados. Mansões abandonadas. Brinquedos que funcionam sozinhos. Trágicas e inexplicáveis mortes de crianças. E uma atmosfera arrepiante. Com esses elementos tão caros aos clássicos filmes de terror, "A mulher de preto" chegou aos cinemas como uma bela homenagem às antigas produções inglesas da produtora Hammer (não por acaso uma das responsáveis por seu lançamento). Primeiro filme do ator Daniel Radcliffe depois do fim de seu compromisso com a série "Harry Potter", a adaptação do romance de Susan Hill - que já havia dado origem a um telefilme de 1989 - tem todos os ingredientes necessários para uma experiência inesquecível, mas acaba esbarrando justamente na sua falta de ousadia em fugir do óbvio e dos clichês. É uma produção que segue à risca todas as regras há muito estabelecidas - e consagradas junto aos fãs do gênero -, mas que carece de um sabor a mais, que o faça ultrapassar a média. Mesmo assim, não deixa de ser um entretenimento de extrema qualidade técnica e, o que é mais importante, que se leva a sério.

Nadando contra a corrente do cinema de terror contemporâneo, que não resiste a apelar para a autoironia ou a piadas sem graça, "A mulher de preto" convida a plateia em visitar um universo que fez a glória de estúdios como a própria Hammer e a Universal. Com um cuidadoso trabalho de reconstituição de época e ambientação - para o que colaboram muito a fotografia acinzentada de Tim Maurice-Jones e a trilha sonora caprichada de Marco Beltrami -, o segundo longa do diretor James Watkins tem a elegância de um horror vitoriano somado com a sofisticação de um orçamento relativamente generoso de 17 milhões de dólares (muito bem recompensado com uma renda mundial de mais de 125 milhões, em grande parte graças à presença de Radcliffe no elenco). Milimetricamente calculado para impressionar o espectador com seu visual e fisgá-lo com sustos nas horas certas - além de jamais descuidar da trama e mantê-la coerente dentro de seu contexto - o filme dificilmente irá decepcionar aos admiradores de histórias de fantasmas, por respeitar suas regras e tratá-las com inteligência e sobriedade.


Um talvez jovem demais Daniel Radcliffe vive o personagem principal, o advogado Arthur Kipps, traumatizado pela morte precoce da esposa no parto de seu único filho. Escalado por seu patrão para realizar um trabalho fora de Londres, ele vai, a contragosto, até o pequeno vilarejo de Cryphon Grifford para cuidar da papelada referente ao inventário de uma cliente recém falecida. Logo que chega no lugar, o rapaz percebe que há algo de estranho, uma vez que todos os moradores parecem desgostar profundamente da mansão da morta, chamada Eel Marsh. Nem mesmo os receptivos anfitriões de Arthur, Sam e Elizabeth Daily (Ciarán Hinds e Janet McTeer), demonstram entusiasmo por sua visita - perturbados pela morte trágica do único filho, ainda criança, eles sabem mais do que aparentam a respeito de perturbadoras visões que o advogado passa a ter dentro da vasta e escura propriedade onde começa a trabalhar. Quebrando com frequência o silêncio e a aparente calma do local, uma mulher de preto misteriosa e fantasmagórica leva Kipps a investigar mais a fundo a história da cidade, o que o leva a descobrir uma lenda aterrorizante que envolve a morte de uma série de crianças - que não parece dar sinal de querer parar.

 Tentando deixar para trás a imagem do doce bruxinho Harry Potter, que tanto foi uma bênção quanto um problema para sua carreira, tamanho o impacto nela, Daniel Radcliffe mostra-se um ator esforçado, mesmo que seu personagem talvez exigisse alguém com mais idade e mais peso dramático. Para sua sorte, ele é amparado pelos trabalhos delicados dos veteranos Ciarán Hinds e Janet McTeer - ela, em especial, apesar de poucas cenas, dá um show a cada aparição, na pele de uma mulher traumatizada pela perda trágica do filho. O clímax do filme - em que Kipps tenta resolver de vez a questão da personagem-título - carece de um pouco de força, mas o desfecho da trama (que deve contrariar alguns espectadores e empolgar outros) não deixa de ser corajoso, ainda que deixe aberta uma porta para a desnecessária continuação, lançada em 2014 sem seu astro principal como chamariz de bilheteria. No fim das contas, "A mulher de preto" é um filme de terror à moda antiga, bem realizado, honesto e elegante - mas que não se torna inesquecível exatamente por não buscar novidades dentro de um gênero já há muito necessitado de sangue novo. Um bom passatempo e a prova de que Daniel Radcliffe ainda pode oferecer muito.

sábado

SUBLIME OBSESSÃO

SUBLIME OBSESSÃO (Magnificent obsession, 1954, Universal Pictures, 108min) Direção: Douglas Sirk. Roteiro: Robert Blees, adaptação de Wells Root do roteiro de Sarah Y. Mason, Victor Heerman, romance de Lloyd C. Douglas. Fotografia: Russell Metty. Montagem: Milton Carruth. Música: Frank Skinner. Figurino: Bill Thomas. Direção de arte/cenários: Bernard Herzbrun, Emrich Nicholson/Russell A. Gausman, Ruby R. Levitt. Produção: Ross Hunter. Elenco: Jane Wyman, Rock Hudson, Agnes Moorehead, Otto Kruger, Barbara Rush, Paul Cavanagh. Estreia: 15/7/54

Indicado ao Oscar de Melhor Atriz (Jane Wyman)

Quando Rock Hudson estrelou "Sublime obsessão" - um de seus melhores trabalhos com o cineasta Douglas Sirk - ele ainda não era o ator respeitado que viria a ser graças a filmes de prestígio como "Assim caminha a humanidade", de 1956 (que lhe daria sua única indicação ao Oscar) nem tampouco o ídolo popular que se tornaria devido à sua química irretocável com Doris Day a partir dos anos 60, em deliciosas e bem-sucedidas comédias românticas. No entanto, já era visível, desde então, o carisma  inigualável que faria, por décadas, a fantasia das mulheres e admiração dos homens. Mesmo diante de um roteiro novelesco e um personagem quase inverossímil, Hudson era capaz de convencer o público sem dificuldade - a ponto de repetir a dupla romântica com Jane Wyman no ano seguinte, novamente sob a direção de Sirk, em outro drama choroso, "Tudo o que céu permite". Foi Wyman quem recebeu a única indicação ao Oscar de "Sublime obsessão", mas sem a presença magnética o ator o remake do filme dirigido por John M. Stahl em 1935 - e estrelado por Robert Taylor e Irene Dunne - poderia ter escorregado perigosamente no melodrama choroso e inconsequente.


Baseado em um romance de Lloyd C. Douglas, "Sublime obsessão" cabe perfeitamente na filmografia de Douglas Sirk, com sua história repleta de tragédias e lágrimas românticas. Um cineasta capaz de emocionar os espectadores com enredos sem muita sofisticação, Sirk era também um profissional de grande talento em criticar, de forma sutil e elegante, a sociedade dos EUA nos anos pós-guerra, presa em hipocrisias e regras rígidas de comportamento. Se utilizando de todas as ferramentas à sua disposição, ele enfatizava suas ideias explorando com inteligência a música (aqui a cargo de Frank Skinner, melancólica e suave) e a fotografia (com Russell Metty iluminando de forma discreta cada estado de espírito de sua protagonista). À sua época tido como um realizador menor, por conta de sua predileção por estruturas dramáticas semelhantes a tragédias gregas, mas incrustadas no seio das melhores famílias americanas, Sirk só veio a ser merecidamente reconhecido com o passar dos anos, quando tornou-se cultuado por fãs do cinema clássico de Hollywood e passou a servir de referência a cineastas como Todd Haynes, que fez seu "Longe do paraíso" (2002) claramente inspirado em seu estilo particular - que, verdade seja dita, é até mesmo um bocado cafona.



Apesar - ou justamente por causa disso - "Sublime obsessão" é uma das mais características obras de Sirk, unindo todos os elementos que fizeram dele um dos cineastas mais populares de sua época. A trama é açúcar puro: Hudson interpreta Bob Merrick, um playboy mimado e imaturo que acaba sendo responsável indireto pela morte de um caridoso e altruísta médico de sua cidade. Sentindo-se culpado por ter sobrevivido enquanto alguém tão nobre perdeu a vida, ele se aproxima da viúva, Helen Phillips (Jane Wyman), com o objetivo de tentar reparar seu erro, tornando-se uma pessoa melhor. As consequências de tal decisão são ainda mais drásticas, e ao fugir dele, Helen é atropelada e fica cega. Aproveitando-se da deficiência da jovem, Merrick se faz passar por outra pessoa e os dois terminam por se apaixonar. O outrora irresponsável rapaz decide, então, fazer a faculdade de Medicina para curar a mulher que ama. Seu caminho é frequentemente atrapalhado pela incrédula irmã de Helen, a esperta Nancy (Agnes Moorehead), que sabe de sua real identidade.


Sem medo de mergulhar no mais profundo melodrama, Sirk conduz sua história com dignidade e sensibilidade, mesmo que nem sempre consiga escapar do exagero. A transformação de Merrick, por exemplo, soa abrupta demais, e somente o talento e o carisma de Rock Hudson impedem que a trama resvale no absurdo. Jane Wyman, por sua vez, é a intérprete perfeita para o papel, mantendo-se crível mesmo quando sua personagem fica a milímetros do óbvio. Perdeu o Oscar para Grace Kelly em "Amar é sofrer", mas seu dom para o dramalhão assumido é o equilíbrio perfeito para o belo sorriso de Hudson, adquirindo experiência para voos mais ambiciosos e menos rechaçados pela crítica. Para quem gosta de um belo e lacrimoso melodrama, "Sublime obsessão" é um programa perfeito!

sexta-feira

O LEÃO NO INVERNO

O LEÃO NO INVERNO (The lion in winter, 1968, Haworth Productions, 134min) Direção: Anthny Harvey. Roteiro: James Goldman, peça teatral de sua autoria. Fotografia: Douglas Slocombe. Montagem: John Bloom. Música: John Barry. Figurino: Margaret Furse. Direção de arte/cenários: Peter Murton/Lee Poll. Produção executiva: Joseph E. Levine. Produção: Martin Poll. Elenco: Peter O'Toole, Katharine Hepburn, Anthony Hopkins, Timothy Dalton, John Castle, Nigel Terry, Jane Merrow, Nigel Stock. Estreia: 30/10/68

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Anthony Harvey), Ator (Peter O'Toole), Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original, Figurino
Vencedor de 3 Oscar: Atriz (Katharine Hepburn), Roteiro Adaptado, Trilha Sonora Original
Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Peter O'Toole) 

A cerimônia de entrega do Oscar de 1969 - para premiar os melhores da temporada 1968 - não surpreendeu apenas àqueles que ficaram chocados com a vitória do açucarado "Oliver" em um período tão atribulado da história dos EUA, com a luta pelos direitos civis pegando fogo e o conservadorismo americano sendo posto em xeque com produções como "Bonnie & Clyde", "No calor da noite", "A primeira noite de um homem" e "Adivinhe quem vem para jantar?" - todos lançados em 1967 e amplamente incensados por crítica e público. O maior choque da noite foi o inédito empate na categoria de melhor atriz (fato até hoje não repetido pelos votantes) entre a novata Barbra Streisand (premiada também com um Golden Globe por sua performance em "Funny girl") e a veterana Katharine Hepburn, que não apenas vencia pela terceira vez (iria repetir a façanha em outra ocasião ainda, por "Num lago dourado", de 1981) como pegava todo mundo de surpresa ao ser escolhida novamente apenas um ano depois de sua estatueta por "Adivinhe quem vem para jantar?". Hoje, vista à distância, porém, é inegável afirmar que, mais do que apenas um gesto de carinho da Academia pela consagrada atriz, sua vitória foi incontestável: sutil, poderoso e avassalador, seu desempenho irretocável é, talvez, a maior qualidade de um filme repleto delas.

Adaptado da peça teatral escrita por James Goldman que estreou na Broadway em 1966, estrelada por Rosemary Harris e Robert Preston, o roteiro do próprio dramaturgo (vencedor do Oscar da categoria, batendo, entre outros, "O bebê de Rosemary", de Roman Polanski) se utiliza de personagens reais para imaginar uma trama de traições, ressentimentos e desajuste familiar em plena Inglaterra do século XII. Tudo começa quando, às vésperas do Natal de 1183, o Rei Henrique II (Peter O'Toole, indicado ao Oscar de melhor ator) resolve reunir sua família para decidir qual dos seus três filhos tem mais condições de ocupar o trono após sua morte. Para isso, além de chamá-los, ele também convida para o encontro sua esposa, Eleanor de Aquitaine (Katharine Hepburn), a quem mantém presa em uma torre distante de seu castelo devido a seus constantes desentendimentos. Eleanor tem preferência por seu filho Richard (Anthony Hopkins em seu segundo filme), e essa é apenas mais uma diferença entre ela e seu marido, que tenciona ser sucedido por John (Nigel Terry) - rapaz prometido há anos para a jovem Alais (Jane Merrow), irmã do Príncipe Philip II (Timothy Dalton), da França, também presentes nas festividades. O problema é que Alais é amante do rei - e esse será mais um empecilho para uma decisão simples e unânime: não demora para que as máscaras de civilidade e fraternidade caiam e todos mostrem suas verdadeiras (e nem sempre nobres) intenções.


Mantendo a estrutura teatral de sua origem mas sem perder o ritmo e mantendo constante a tensão que empurra a trama para frequentes embates entre os personagens, o roteiro de "O leão no inverno" se beneficia muito da extrema qualidade de seus diálogos e da direção precisa de Anthony Harvey - editor de clássicos, como "Lolita" (62) e "Dr. Fantástico"(64), de Stanley Kubrick. Ciente do excelente material que tinha em mãos, Harvey não faz muito mais do que deixar com que seus (ótimos) atores façam seus shows particulares, em especial Hepburn e O'Toole. Ainda se recuperando da perda de seu parceiro profissional e de vida Spencer Tracy, ela está em um de seus melhores momentos da carreira, com uma intocável aura de classe mesmo quando é humilhada pelo marido, interpretado por O'Toole com garra evidente. Na pele de um soberano tão cruel quanto caloroso, ele equilibra com segurança ímpar todas as nuances de um Rei Lear, preso a convenções familiares que deseja abandonar e lutando para manter o poder mesmo quando este parece escapar de suas mãos. Todas as vezes em que os dois monstros sagrados estão em cena é difícil tirar os olhos da tela: com o domínio completo da arte da atuação, eles nem mesmo precisam falar para transmitir uma vasta gama de sentimentos - e o olhar de Hepburn (ainda apaixonado, apesar de tudo) é, provavelmente, um dos mais fascinantes de Hollywood.

Com uma teia de traições e mentiras que vão se acumulando até o final climático, "O leão no inverno" é um espetáculo adulto, que prescinde de efeitos visuais poderosos ou piadas fáceis para atingir seu público. Não chega a ser historicamente acurado, apesar dos personagens terem realmente existido, mas é inteligente e dramático, recheado de cenas e situações que crescem com a potente trilha sonora de John Barry (também premiada com um Oscar) e a reconstituição de época caprichada, que mergulha o espectador em um universo distante no tempo mas paradoxalmente atual, com suas disputas pelo poder e alianças nem sempre legítimas. Aqueles que não tem paciência com filmes com longos diálogos talvez se sintam aborrecidos, mas é irresistível a todos que procuram um produto cujo brilho nem mesmo o passar das décadas conseguiu apagar. Uma pequena obra-prima - e pensar que ninguém sequer consegue lembrar de "Oliver"!!

quinta-feira

DUBLÉ DE CORPO

DUBLÉ DE CORPO (Body double, 1984, Columbia Pictures, 114min) Direção: Brian De Palma. Roteiro: Brian De Palma, Robert J. Avrecht, estória de Brian De Palma. Fotografia: Stephen H. Burum. Montagem: Jerry Greenberg, Bill Pankow. Música: Pino Donaggio. Figurino: Gloria Gresham. Direção de arte/cenários: Ida Random/Cloudia. Produção executiva: Howard Gottfried. Produção: Brian De Palma. Elenco: Craig Wasson, Melanie Griffith, Gregg Henry, Dennis Franz, Deborah Shelton. Estreia: 15/10/84

Brian De Palma é um fã confesso de Alfred Hitchcock. Mais do que isso, porém, é um cineasta de grande sensibilidade e talento, capaz de utilizar-se das referências ao mestre do suspense para dar forma a tramas surpreendentes, com um apuro visual impecável e pleno domínio do ritmo e da tensão. Um exemplo claro disso é "Dublê de corpo", um de seus mais famosos (e violentos) filmes: repleto de citações - diretas ou indiretas - à filmografia de Hitch, seu trabalho imediatamente posterior ao polêmico "Scarface" (83), refilmagem sanguinolenta do clássico de Howark Hawks, é uma aula de cinema, tanto tecnicamente quanto em termos de narrativa. Não exatamente reconhecido à época de seu lançamento - chegou a ser indicado a Pior Diretor no Framboesa de Ouro - e posteriormente alçado à categoria de cult, é um filme que resiste bravamente ao teste do tempo por ao menos uma grande razão: mais que uma simples homenagem a um dos mais seminais criadores do suspense no cinema, é, na verdade, um compêndio do que o melhor o gênero pode oferecer a seu público.

A partir de uma ideia surgida durante as filmagens de "Vestida para matar" - quando a atriz Angie Dickinson precisou de uma dublé de corpo para suas cenas no chuveiro - e preenchido com algumas experiências de De Palma nos bastidores de seus filmes anteriores, o roteiro de "Dublé de de corpo"  é repleto de reviravoltas e mudanças de rumo, que prendem o espectador do primeiro ao último minuto. Tudo começa quando o ator Jake Scully (Craig Wasson em papel oferecido a Kurt Russell), sofrendo de claustrofobia, é demitido de um filme B de terror, dirigido por seu amigo Rubin (Dennis Franz), por não conseguir manter-se no caixão onde seu personagem, um vampiro, passa parte de seu dia. Frustrado e humilhado, ele chega em casa e flagra a esposa com outro homem: em poucas horas ele está sem trabalho, sem mulher e sem casa para morar. Buscando um novo emprego, ele conhece o também ator Sam Bouchard (Gregg Henry), que lhe oferece uma solução inesperada: enquanto ele viaja a serviço, Scully pode ficar no fantástico apartamento de um amigo, tendo como única obrigação regar as plantas do lugar. Antes de deixar o novo hóspede sozinho, porém, Bouchard lhe apresenta outro atrativo do lugar: a sexy vizinha da casa em frente, que toda noite faz um sensual striptease diante da janela. Não demora para que Scully - sozinho e deprimido - se sinta completamente atraído pela bela e desinibida moradora, a quem vê também sendo espancada pelo marido (em uma referência clara à "Janela indiscreta", de 1956).


Obcecado pela vizinha, o ator passa a seguí-la, mas não consegue evitar que, em plena luz do dia, ela seja roubada por um sinistro indígena - sua claustrofobia volta a atacá-lo quando está correndo atrás do criminoso em um túnel, quase como James Stewart em "Um corpo que cai" (58) - nem tampouco que, mais tarde, ela seja violentamente assassinada. Testemunha ocular do homicídio, Scully (que chegou a trocar alguns beijos com a vítima) se surpreende, porém, quando, ao assistir um vídeo pornô, descobre que talvez seus olhos tenham lhe pregado uma peça. Penetrando o submundo dos filmes de sexo hardcore, ele conhece Holly Body (Melanie Griffith), uma profissional que será seu passaporte para uma série de descobertas desconcertantes a respeito de tudo aquilo que ele julgava saber - e pelo caminho, perceber que foi usado como um peão em uma conspiração muito mais complicada do que parecia.

Com pleno domínio das ferramentas que o cinema pode oferecer, Brian De Palma mergulha a plateia em um jogo de espelhos cruel e angustiante, sem poupar cenas de violência e um erotismo perturbador. Revelando Melanie Griffith - indicada ao Golden Globe de atriz coadjuvante por um papel recusado por Brooke Shields e oferecido também à Jamie Lee Curtis, Tatum O'Neal e Carrie Fischer - como um símbolo sexual quase inusitado e ousado a ponto de mostrar uma longa sequência sem diálogos (que remete a si mesmo, em um momento clássico de "Vestida para matar"), "Dublé de corpo" é também um fascinante estudo sobre o voyeurismo e a obsessão, retratados com um senso de urgência e paranoia de que somente De Palma é capaz sem soar derivativo ou vazio. Um dos grandes filmes da década de 80, tão marcante hoje quanto há trinta anos.

quarta-feira

REDS

REDS (Reds, 1981, Paramount Pictures, 195min) Direção: Warren Beatty. Roteiro: Warren Beatty, Trevor Griffiths. Fotografia: Vittorio Storaro. Montagem: Dede Allen, Craig McKay. Música: Stephen Sondheim. Figurino: Shirley Russell. Direção de arte/cenários: Richard Sylbert/Simon Holland. Produção executiva: Dede Allen, Simon Relph. Produção: Warren Beatty. Elenco: Warren Beatty, Diane Keaton, Jack Nicholson, Maureen Stapleton, Gene Hackman, Edward Herrman, Paul Sorvino. Estreia: 03/12/81

12 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Warren Beatty), Ator (Warren Beatty), Atriz (Diane Keaton), Ator Coadjuvante (Jack Nicholson), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Roteiro Original, Fotografia, Montagem, Figurino, Direção de Arte/Cenários, Som
Vencedor de 3 Oscar: Diretor (Warren Beatty), Atriz Coadjuvante (Maureen Stapleton), Fotografia
Vencedor do Golden Globe de Melhor Diretor (Warren Beatty) 

A concepção de um projeto cinematográfico é uma ciência inexata. Nunca se sabe em que circunstâncias uma ideia pode surgir - e que motivos inusitados podem levá-la a ver a luz dos refletores. Um exemplo claro dessa afirmação é "Reds", o milionário épico estrelado, dirigido, produzido e roteirizado por Warren Beatty: a história de um dos jornalistas mais importantes de sua época, John Reed, e de como ele testemunhou a Revolução Russa de 1917 começou a fervilhar na mente de seu criador por volta de 1966, quando, em viagem à Rússia, ele conheceu uma mulher que alegava ter tido um romance com Reed e lhe contou a história de sua vida. Alguns anos depois, aprendendo o idioma russo para conquistar a bailarina Maya Plisetskaya, Beatty aprofundou-se nos detalhes sobre seu protagonista e, em 1969, escreveu o primeiro esboço de um filme que só começaria a tomar forma de verdade dez anos depois - e que fez com que o astro recusasse o convite do cineasta soviético Sergey Bondarchuck de viver o jornalista em um outro filme. Ambicioso, caro (35 milhões de dólares), longo e arriscado, "Reds" chegou às telas americanas no final de 1981, mais de dois anos depois do começo de suas filmagens e, por incrível que pareça em relação a um filme com ideais claramente esquerdistas em uma Hollywood ainda torturada pelos anos do macarthismo, tornou-se um sucesso, especialmente de crítica e prêmios: indicado a 12 Oscar, levou três estatuetas para casa (direção, atriz coadjuvante e fotografia) e rendeu à Beatty láureas de direção do Golden Globe, da Associação de Diretores, dos críticos de Los Angeles e do National Board of Review. Nada mal para um filme que parecia que jamais iria estrear.

Quando Warren Beatty deu o pontapé inicial às filmagens de "Reds", em agosto de 1979, o cronograma previa quinze ou dezesseis semanas de trabalho. Quando finalmente o perfeccionista diretor se deu por satisfeito, seis meses já haviam se passado e o material filmado era suficiente para nada menos que duas semanas e meia de projeção. A própria Paramount Pictures, financiadora do projeto, só teve acesso ao filme pronto um mês antes de sua estreia - e. logicamente, tinha reservas em relação a como o tema (delicado e talvez político demais para o público médio) iria ser tratado por Beatty, já então um ator politicamente ativo. O resultado foi mais que positivo: ao contrário do que se poderia esperar, o roteiro de "Reds" não se detém na Revolução Russa, passando por ela apenas como uma das vastas experiências de seu protagonista junto a seu trabalho como repórter político e sua relação conturbada com outra jornalista, a independente Louise Bryant (Diane Keaton). Mais uma história de amor do que uma história política, "Reds" conquista pelo tom épico, pela fotografia deslumbrante de Vittorio Storaro e por um elenco coadjuvante onde se destacam Jack Nicholson e Maureen Stapleton, ambos indicados ao Oscar, assim como Beatty e Keaton.


O filme começa em novembro de 1915, quando John Reed, um repórter da revista de esquerda The Masses conhece a inteligente e liberada Louise, que não hesita em abandonar o marido para se entregar à paixão que sente pelo experiente e sedutor jornalista. O romance entre os dois é atrapalhado somente pelo excesso de viagens de Reed e por seus pontos de vista distintos em relação à fidelidade matrimonial: enquanto ele não nega os romances passageiros que vive enquanto está fora de casa, ela se tortura psicologicamente por seu envolvimento com um amigo do casal, o dramatugo Eugene O'Neil (Jack Nicholson), completamente apaixonado por ela. A entrada dos EUA na Primeira Guerra Mundial serve como estopim para novas crises em seu relacionamento: depois de uma separação traumática, ele a convence a acompanhá-lo para uma viagem à Rússia, onde ele acredita que está se preparando uma grande revolução comunista que irá mudar o mundo. As consequências da revolução, porém, acaba ameaçando sua relação quando Reed se vê preso no país e Louise resolve, mesmo correndo riscos, procurar uma maneira de resgatá-lo. Nesse meio-tempo, Reed tenta também encontrar um modo de fazer com que seus conterrâneos abracem a causa comunista como forma de igualdade social.

Intercalando sua história com depoimentos reais de pessoas que conheceram os protagonistas (em entrevistas filmadas desde o começo dos anos 70), Warren Beatty constrói sua narrativa de forma quase documental, contando com a ajuda providencial da fotografia espetacular de Vittorio Storaro, que por pouco não abandonou o projeto devido às temidas "diferenças artísticas", devidamente solucionadas de forma a equilibrar os planos estáticos desejados por Beatty e os movimentos fluidos e ágeis de câmera propostos por Storaro - merecidamente premiado com um Oscar por seu trabalho. Boa parte do fascínio de "Reds" vem justamente do visual impresso na tela, com paisagens de tirar o fôlego entremeadas por longas cenas de diálogos inteligentes e dramaticamente consistentes: são nesses momentos que brilha Diane Keaton (então namorada do diretor e astro), que transforma sua Louise Bryant na verdadeira protagonista do filme, uma mulher decidida e forte que vê sua vida completamente transformada por amor a um homem e a uma causa. Beatty, galã de prestígio e um dos homens mais poderosos da indústria de então (foi indicado em quatro categorias do Oscar, por "Reds", seguindo outras quatro por "O céu pode esperar", de 1978) quase fica em segundo plano diante da potência do desempenho e Keaton, provando de vez que sua carreira não dependia de sua sociedade artística com Woody Allen. Talvez justamente sua performance tão sensacional dê a impressão de que "Reds" é mais uma história romântica - algo como "Doutor Jivago" (65) - do que uma história política. Melhor assim: sua ideologia não assustou ao público, foi bem aceita pela crítica e legou ao filme a fama de ser um dos épicos mais importantes de sua época. Poderia ser menos longo e mais focado, mas ainda assim é um belo e memorável espetáculo, prejudicado apenas pelo egocentrismo de seu ator principal - não é difícil perceber o quanto o filme fica mais interessante quando ele não está em cena!

terça-feira

NO CALOR DA NOITE

NO CALOR DA NOITE (In the heat of the night, 1967, The Mirisch Corporation/United Artists, 110min) Direção: Norman Jewison. Roteiro: Stirling Silliphant, romance de John Ball. Fotografia: Haskell Wexler. Montagem: Hal Ashby. Música: Quincy Jones. Figurino: Alan Levine. Direção de arte/cenários: Paul Groesse/Robert Priestey. Produção: Walter Mirisch. Elenco: Sidney Poitier, Rod Steiger, Warren Oates, Lee Grant, Larry Gates, James Patterson, William Schallert, Beah Richards. Estreia: 02/8/67

7 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Diretor (Norman Jewison), Ator (Rod Steiger), Roteiro Adaptado, Montagem, Som, Efeitos Sonoros
Vencedor de 5 Oscar: Melhor Filme, Ator (Rod Steiger), Roteiro Adaptado, Montagem, Som
Vencedor de 3 Golden Globes: Melhor Filme/Drama, Ator/Drama (Rod Steiger), Roteiro 

Às vezes o destino age de forma cruel ou irônica até mesmo em Hollywood. Em abril de 1968 o assassinato de Martin Luther King adiou pela segunda vez na história a cerimônia de entrega do Oscar. Dois dias depois da data prevista, quase como uma homenagem involuntária ao líder do movimento pelos direitos civis da população negra, a estatueta de melhor filme de 1967 - além de outros quatro prêmios, incluindo melhor ator e roteiro adaptado - era anunciada para "No calor da noite", uma produção polêmica que retratava, sem meias-palavras, o racismo latente e violento do sul dos EUA. Através de uma trama policial baseada em um livro de John Ball, o filme de Norman Jewison remexe na profunda ferida da discriminação se utilizando de todas as regras consagradas do gênero - e acaba por fazer um gol de placa ao casar de forma exemplar um entretenimento de primeira categoria com um estudo cru e desprovido de sentimentalismos de um dos problemas sociais mais graves do país. Tudo isso amparado em atuações admiráveis de Sidney Poitier e Rod Steiger, como dois improváveis parceiros profissionais.

Filmado principalmente em Sparta, uma cidade do estado do Illinois, já que Potier já havia recebido ameaças de morte pela Ku Klux Klan do sul do país, "No calor da noite" acabou por tornar-se o filme preferido do ator, dentre os vários projetos em que atuou. Claramente, motivos não faltam: além do tom condenatório do racismo proposto pelo roteiro, o personagem do maior astro negro de sua geração (e um dos maiores ídolos do cinema dos anos 60) foge bravamente do vitimismo ou de qualquer situação condescendente em relação a sua cor. Em uma das cenas mais impactantes - e dá pra imaginar ainda hoje o tamanho de sua importância dentro do contexto social em que surgiu -, o detetive de polícia Virgil Tibbs, interpretado por Poitier, devolve uma bofetada recebida, sem pensar duas vezes. Detalhe: o autor da agressão era um homem branco e poderoso da cidade onde se passa a história. O choque provocado por tal atitude nas telas foi, certamente, um dos motivos que fizeram com que o filme atingisse tão diretamente o coração dos EUA: uma cena que fez com que o próprio diretor, Norman Jewison, percebesse o tamanho de sua responsabilidade junto ao público. Mas, é claro, tal cena não existe sozinha, e faz parte de um conjunto repleto de acertos que conduziu a produção à mais cobiçada estatueta de Hollywood.


Sem o subtexto racial que é imprescindível a seu desenvolvimento dramático, o roteiro de "No calor da noite" seria apenas mais um dentre tantos que surgem frequentemente dentro da indústria de cinema americano. Porém, ao eleger como um dos principais pontos de sua narrativa a problemática relação entre um xerife branco, ríspido e conservador e um detetive urbano, inteligente, refinado e negro, a trama de John Ball, adaptada com precisão por Stirling Silliphant (vencedor, com merecimento, do Oscar da categoria), escapa do lugar-comum e garante um lugar de honra entre os mais relevantes momentos do cinema na década de 60. Tudo começa com o assassinato de um proeminente homem de negócios da pequena Sparta: vindo para a cidade para construir uma nova fábrica, o empresário batia de frente com o todo-poderoso Endicott (Larry Gates), que passa a ser o principal suspeito do crime logo depois que o irascível xerife Gillespie (Rod Steiger) se convence que o misterioso forasteiro Virgil Tibbs (Sidney Poitier) não apenas é inocente como é também o principal detetive de polícia da Filadélfia. Mesmo hesitante em contar com sua ajuda - o rapaz é negro e por isso passível de sofrer discriminação na racista região do sul dos EUA -, o xerife acaba cedendo ante os pedidos da viúva da vítima (Lee Grant), que acredita no talento e na intuição do visitante. Porém, as coisas não serão tão simples, já que os temores de Gillespie se mostram bastante realistas quando Tibbs se torna persona non grata na cidade.

Equilibrando com inteligência a trama policial - coerente e surpreendente na medida certa - com os lances dramáticos a respeito do preconceito, "No calor da noite" é um filme de ação que é também um divisor de águas dentro do cinema americano. Pela primeira vez mostrando em um filme comercial um herói negro sem que ele precise ser subserviente ou uma cópia de personagens brancos, a produção de Norman Jewison - que voltaria a trabalhar com o tema do racismo em "A história de um soldado" (84) e "Hurricane: o furacão" (99) - é corajosa, contundente e, acima de tudo, envolvente como um bom entretenimento precisa ser. Editado com destreza pelo futuro cineasta Hal Ashby e fotografado com extremo cuidado pelo veterano Haskell Wexler - pela primeira vez na história trabalhando com uma iluminação própria para atores com a pele escura -, é um marco absoluto, um filme de gênero que consegue sobressair-se a suas limitações óbvias e permanecer como uma excelente diversão acima de tudo.

segunda-feira

NOVE RAINHAS

NOVE RAINHAS (Nueve reinas, 2000, FX Sound, 114min) Direção e roteiro: Fabian Bielinski. Fotografia: Marcelo Camorino. Montagem: Sergio Zottola. Música: Cesar Lerner. Figurino: Mônica Toschi. Direção de arte/cenários: Daniela Passalaqua/Marcelo Salvioli. Produção: Pablo Bossi. Elenco: Ricardo Darin, Gastón Pauls, Leticia Brédice, Oscar Nuñez, Ignasi Abadal. Estreia: 31/8/00

A cinematografia argentina, forte, criativa e inteligente, começou a despontar com toda a sua força no início dos anos 2000, quando passou a ser respeitada não apenas pela crítica e pelos assíduos frequentadores de cinematecas, mas também pelo público em geral, que só raramente tomava conhecimento de sua qualidade - até mesmo a Academia de Hollywood já havia se rendido a ela, lhe oferecendo, em 1985, o Oscar de melhor produção estrangeira por "A história oficial", de Luis Puenzo. Um dos primeiros filmes a chamar a atenção dos espectadores por sua mistura perfeita entre entretenimento e inteligência foi "Nove rainhas", um delicioso exercício de estilo do diretor Fabián Belinski que consegue a façanha de prender a atenção da audiência do primeiro ao último minuto sem precisar apelar para cenas de ação desnecessárias ou efeitos especiais milionários. Calcado basicamente em um roteiro repleto de diálogos saborosos, uma edição ágil e atores no topo de sua forma, Belisnki criou uma diversão perfeita - a ponto de chamar a atenção de Hollywood, que quatro anos mais tarde, lançou um remake estrelado por John C. Reilly e Diego Luna, logicamente sem o mesmo brilho.

Sem perder muito tempo - até mesmo os créditos só aparecerão no final da sessão - e indo diretamente ao ponto, o roteiro de "Nove rainhas" começa quando o jovem Juan (Gastón Pauls) é flagrado tentando dar um golpe em um mini-mercado e é socorrido pelo veterano Marcos (Ricardo Darín), que, se passando por policial, consegue administrar a situação e livrá-lo de uma punição mais severa do que um simples sermão. Longe do local da contravenção, o experiente Marcos - que vive de expedientes e de passar a perna em quem quer que esteja distraído - propõe sociedade ao novato, explicando que não gosta de trabalhar sozinho e que acaba de perder o parceiro. Convencido depois de perceber que o generoso estranho tem um vasto catálogo de truques, Juan - que precisa juntar dinheiro para ajudar ao pai, que está preso - aceita ser seu companheiro por um período. Depois de um tempo juntos, em que testam a capacidade um do outro em improvisar e escapar de imprevistos, os dois finalmente tem a grande chance de dar um golpe milionário - graças à involuntária presença de Valeria (Leticia Brédice), irmã de Marcos.





Revoltada com Marcos devido a problemas na herança que recebeu do pai, Valeria acaba por ser a responsável pelo reencontro do irmão com um antigo colaborador, Sandler (Oscar Nuñez), no hotel onde ela trabalha. Com a saúde frágil e debilitada, Sandler oferece a Marcos a possibilidade única de ganhar uma bolada, ao vender uma cartela de selos falsos - intitulada Nove Rainhas - a um colecionador milionário hospedado no local. Sabendo que a oportunidade é boa demais para ser recusada, Marcos e Juan aceitam o desafio e começam uma apressada jornada para conseguir fazer com que o pretenso comprador, Vidal Gandolfo (Ignasi Abadal), não saia de Buenos Aires sem a mercadoria que pode lhes deixar ricos. Para isso, apelam para as mais variadas e criativas mentiras - enquanto Juan se sente irremediavelmente atraído por Valeria.

E a partir daí, o roteiro do diretor Fabián Belinsky convida o espectador a uma montanha-russa: enquanto acompanha Marcos e Juan em suas tentativas nem sempre bem-sucedidas de enganar o próximo, o público se sente parte do cambalacho, mesmo que não saiba exatamente quem está enganando a quem. Recheando sua trama de reviravoltas e personagens pouco confiáveis, Belinsky exige da plateia atenção redobrada em cada diálogo, em cada expressão de seus atores, em cada silêncio revelador. Inserindo um humor inteligente e sardônico na narrativa, ele consegue transformar seus protagonistas em herois, mesmo que eles tenham, logicamente, grandes falhas de caráter - até mesmo Juan, que aprendeu com o pai todos os truques que conhece mas ainda mantém uma certa ética. A química excelente entre Ricardo Darín (o maior astro do cinema argentino) e Gastón Pauls é outro dos grandes trunfos do filme, que cativa e surpreende na medida exata, oferecendo um final de deixar qualquer um com um enorme sorriso estampado no rosto. Cinema de primeira linha!

domingo

UM DIA MUITO LOUCO

UM DIA MUITO LOUCO (Freaky friday, 1976, Walt Disney Productions, 95min) Direção: Gary Nelson. Roteiro: Mary Rodgers, romance de sua autoria. Fotografia: Charles F. Wheeler. Montagem: Cotton Warburton. Música: Johnny Mandel. Direção de arte/cenários: John B. Mansbridge, Jack Senter/Robert Benton. Produção: Ron Miller. Elenco: Barbara Harris, Jodie Foster, John Astin, Patsy Kelly, Dick Van Patten, Marc McClure. Estreia: 17/12/76

O ano de 1976 foi, no mínimo, bastante estranho para Jodie Foster, então uma atriz-mirim se encaminhando para tornar-se uma intérprete adulta: não apenas perdeu a chance de estrelar o que seria uma das maiores bilheterias da história ("Star Wars", onde faria o papel da Princesa Leia) por problemas de contrato com a Disney, como confirmou-se uma das mais talentosas promessas de sua geração ao mostrar duas facetas completamente opostas de seu trabalho. No início do ano viveu a jovem prostituta Iris no cultuado "Taxi driver", de Martin Scorsese - que lhe rendeu uma indicação ao Oscar de coadjuvante - e no final do ano estava nas telas do cinema em mais uma comédia inconsequente do estúdio do Mickey: em "Um dia muito louco", ela provou que também sabia fazer rir, tirando de letra o desafio de viver não apenas uma pré-adolescente rebelde mas também sua mãe certinha, que toma seu corpo devido a uma troca inexplicável e que torna seu dia um pandemônio de que somente o cinema comercial americano é capaz de imaginar. Na verdade, nem ele: o roteiro de Nancy Rodgers é baseado em seu romance, publicado em 1972 e que rendeu, posteriormente, duas refilmagens: uma em 1995 (com Shelley Long e Gaby Hoffman) e outra, bem-sucedida, estrelada por Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. Leve, despretensiosa e um clássico absoluto da Sessão da Tarde, "Um dia muito louco" é um filme de sabor nostálgico, em que até seus "defeitos" especiais contribuem para a sensação de voltar à infância.

Do visual cafona à configuração social que contrasta com as conquistas femininas das últimas décadas, tudo em "Um dia muito louco" remete imediatamente aos anos 70, um período de ouro para as produções familiares da Disney - estúdio pelo qual Jodie Foster fez vários filmes em sua infância e pré-adolescência. Uma produção nitidamente com ambições de conquistar as plateias infanto-juvenis, a comédia dirigida por Gary Nelson - veterano de telefilmes e episódios de séries de TV - é um primor de entretenimento descompromissado e bem-humorado. Contando com atuações inspiradas de Foster e Barbara Harris, ambas indicadas ao Golden Globe de melhor atriz em comédia ou musical (perderam a estatueta para Barbra Streisand, por "Nasce uma estrela"), o filme conquista pelo ritmo ágil, pela simpatia do elenco e pelas situações criadas pelo roteiro, que brincam não apenas com as percepções equivocadas de mãe e filha sobre suas rotinas mas também sobre como o mundo feminino (ou ao menos aquele dos EUA do final da década) se comportava diante de situações domésticas e profissionais. Mesmo que pareça estender-se demais em seu ato final - um clímax repleto de ação e cenas do mais puro pastelão (um deleite para as crianças) - e sofra com um tanto de superficialidade no desenvolvimento de suas personagens, o filme de Nelson entrega exatamente o que promete: diversão.


A trama é simples e conhecida: em uma sexta-feira 13 aparentemente normal, uma dona-de-casa dedicada ao lar, ao marido e ao casal de filhos (Barbara Harris) se vê com a personalidade da filha pré-adolescente, Annabel (Jodie Foster) - uma jovem ligeiramente desleixada e rebelde que também percebe estar vivendo sob a perspectiva de sua mãe. A princípio se divertindo com a situação, aos poucos as duas notam que estão diante de um grande problema, já que justamente nesse dia o pai da família (John Astin) conta com a presença de ambas em uma recepção que pode lhe dar uma promoção no trabalho. A confusão, então, está armada: na pele de sua mãe, Annabel precisa lidar com a administração de uma casa (com eletrodomésticos que não sabe utilizar e problemas com fornecedores e uma empregada doméstica pouco afável) e sua mãe, chocada com o dia-a-dia da jovem, tenta disfarçar o caos que se instala quando ela precisa fazer parte do time da escola em uma partida importante de beisebol. Não bastasse isso, Annabel aproveita que está com o visual de sua mãe para tentar convencer o jovem vizinho, Boris (Marc McClure), de que é a namorada perfeita para ele apesar de seu jeito descuidado.

De posse de uma história surreal e que em nenhum momento tenta explicar-se além do superficial (o que, de certa forma, é melhor do que explicações rasteiras), o roteiro de "Um dia muito louco" leva o espectador a noventa minutos de um humor pueril e recheado de sequências que remetem diretamente a um cinema sem neuroses e totalmente desprovido de pretensões - um contraponto interessante ao que começava a acontecer junto a cineastas como Francis Ford Coppola, Sidney Lumet e Martin Scorsese. O fato de Jodie Foster ser a ponte entre esses dois estilos opostos de cinema não deixa de ser curioso - e uma prova do talento incrível da então jovem atriz, que se tornaria uma das mais respeitadas e inteligentes da Hollywood dos anos 90 em diante. Sua criação como a intrépida Annabel Andrews (em papel para o qual também foi testada Debra Winger) é definitivamente a prova de sua versatilidade e carisma. "Um dia muito louco" é diversão simples e descompromissada - com o selo de qualidade da Disney.

sábado

INSTINTO FATAL

INSTINTO FATAL (Monkey shines, 1988, Orion Pictures, 113min) Direção: George A. Romero. Roteiro: George A. Romero, romance de Michael Stewart. Fotografia: James A. Contner. Montagem: Pasquale Buba. Música: David Shire. Figurino: Barbara Anderson. Direção de arte/cenários: Cletus Anderson/Diana Stoughton. Produção executiva: Gerald S. Pasonessa. Produção: Charles Evans. Elenco: Jason Beghe, John Pankow, Kate McNeil, Stanley Tucci, Joyce Van Patten, Christine Forrest, Stephen Roote, Janine Turner. Estreia: 29/7/88

Alçado ao posto de rei dos filmes B graças a seu seminal "A noite dos mortos-vivos" (68), o cineasta Roger A. Romero fez sua carreira investindo em produções quase indigentes, que conquistavam o público justamente pela falta de sofisticação e pelo tom apocalíptico. Diretor, roteirista e produtor respeitado e admirado, Romero finalmente rendeu-se ao poder dos estúdios de Hollywood no final da década de 80, quando assinou contrato com a Orion Pictures para adaptar o romance "Monkey shines", de Michael Stewart. Com um orçamento (generoso para seus padrões) de 7 milhões de dólares, ele experimentou, pela primeira vez, a sensação de ter que dar satisfação de cada centavo gasto - além de ter de brigar para fazer o filme da maneira que havia imaginado. O resultado desse conflito - o meio-termo entre o produto comercial desejado pelo estúdio e o filme concebido pela imaginação criativa e um tanto doentia de seu diretor - é "Instinto fatal", um suspense intrigante e violento que une o talento de Romero em criar sequências aterrorizantes às regras do cinema mainstream. Por uma fina ironia, porém, o público deu a entender nas bilheterias que prefere a versão menos refinada de seu ídolo: com menos de 5 milhões de dólares arrecadados nos cinemas americanos, o filme traumatizou Romero - que só voltou a realizar um filme dentro dos padrões hollywoodianos cinco anos mais tarde (com a adaptação de "A metade negra", de Stephen King).

Na verdade, "Instinto fatal" tem todos os ingredientes para agradar aos fãs da filmografia trash de Romero e ao público em geral - seu fracasso comercial foi absolutamente injusto. Mesmo que a trama seja menos tosca do que a média (o livro de Stewart se aproveita de uma base científica para criar uma história repleta de surpresas quase críveis), Romero mantém intocada a aura rude de seus filmes mais conhecidos, evitando ao máximo o polimento excessivo que fatalmente limitaria sua assinatura tão reconhecida. No papel principal, por exemplo, não há um astro com apelo popular, e sim o (bom) ator Jason Beghe, que dá conta muito bem de todas as armadilhas do roteiro e de quebra tem o porte físico ideal para interpretar o protagonista - ator que dedicou grande parte da carreira a participações em séries de TV, ele cai como uma luva na pele do anti-heroi de Romero, um homem torturado por suas emoções e sentimentos de mágoa e raiva. Com direito até mesmo a cenas de sexo - fato raro quando se trata de personagens fisicamente limitados -, Beghe só não rouba o filme inteiro para si porque contracena com a grande estrela do projeto: a macaquinha Ella, "interpretada" pela expressiva (sim, expressiva) Boo.


Logo nas primeiras cenas o espectador é apresentado à rotina do jovem atleta Allan Mann: dedicado e esforçado, ele tem um futuro promissor pela frente, até que, ainda nos créditos de abertura tal futuro é abortado violentamente com um atropelamento. Tetraplégico e relegado a uma cadeira de rodas, o talentoso corredor se vê abandonado até pela namorada, Linda (Janine Turner), e conta apenas com o apoio da mãe, Dorothy (Joyce Van Patten), e do melhor amigo, o cientista Geoffrey Fisher (John Pankow). E é justamente Geoffrey que será o responsável por uma importante reviravolta na vida do amigo, ao apresentar-lhe à Ella, uma simpática e prestativa macaquinha treinada exatamente para servir de companhia e enfermeira. Porém, o que Allan não sabe é que a aparente inteligência de Ella faz parte de uma série de experiências científicas de Geoffrey - experiências estas ainda não totalmente encerradas e que podem ter consequências desastrosas. Com o passar dos dias, Ella não apenas se torna indispensável para Allan - para desgosto de sua enfermeira - como parece adivinhar seus pensamentos e compartilhar de seus sentimentos mais profundos. Quando desafetos do rapaz começam a ser violentamente atacados, a única (apesar de bizarra) explicação tem a ver com o fato do animalzinho servir como instrumento para castigar a todos que tiveram alguma participação no destino triste do jovem atleta.

Apesar da premissa um tanto fantasiosa, o roteiro de Romero não subestima a inteligência da plateia, estabelecendo com cuidado todas as regras do jogo para então partir para a violência explícita. O terço final da narrativa, quando toda a sutileza é deixada de lado em nome de um clímax o mais violento possível - e nisso está clara a influência de seu diretor - o filme até descamba para o exagero, com cenas longas e desnecessariamente sangrentas, mas mesmo assim não deixa de ser coerente com a filmografia anterior de Romero. Equilibrado com as pretensões de um estúdio cioso de suas finanças, "Instinto fatal" é um filme que não chega a ser completamente característico do cineasta, mas tampouco é um produto típico do cinemão comercial americano. É um saudável meio-termo, capaz de agradar aos fãs do gênero e não decepcionar o séquito de admiradores do conjunto da obra de um dos mais ousados criadores do terror moderno. Um filme digno de seu diretor e que consegue atingir também até àqueles que nunca ouviram falar de suas travessuras independentes.

sexta-feira

RUTH EM QUESTÃO

RUTH EM QUESTÃO (Citizen Ruth, 1996, Miramax, 106min) Direção: Alexander Payne. Roteiro: Alexander Payne, Jim Taylor. Fotografia: James Glennon. Montagem: Kevin Tent. Música: Rolfe Kent. Figurino: Tom McKinley. Direção de arte/cenários: Jane Ann Stewart/Lisa Denker. Produção: Cathy Conrad, Cary Woods. Elenco: Laura Dern, Swoosie Kurtz, Burt Reynolds, Tippi Hedren, Kurtwood Smith, Mary Kay Place, Kelly Preston. Estreia: Janeiro de 1996 (Festival de Sundance)

Um professor frustrado em luta contra uma estudante obcecada pela perfeição. Um viúvo tentando se reconectar com a família ao sentir o gostinho da solidão. Dois amigos praticamente desencantados com a vida buscando o prazer através do vinho. Um homem que descobre a traição da esposa quando ela está em coma. Um idoso já com problemas mentais que acredita ter ganho um prêmio na loteria. Quem conhece a obra de Alexander Payne sabe muito bem que o cineasta tem especial predileção pelos pobre-diabos, por aqueles que, por uma razão ou outra, estão em situações-limite de suas existências frequentemente medíocres. Por isso, não chega a ser surpresa que seu filme de estreia, "Ruth em questão", seja uma pequena amostra do que viria pela frente: cínica, cáustica e iconoclasta, sua comédia de humor negro, lançada no Festival de Sundance de 1996 e premiada no Festival de Montreal na categoria de melhor atriz (Laura Dern) é um tapa na cara no american way of life e um desafio ao politicamente correto. Escrito com extremo sarcasmo e dirigido sem medo de chocar aos mais sensíveis, "Ruth em questão" é um delicioso cartão de visitas de um diretor que já demonstrava, de cara, seu talento para encontrar qualidades até mesmo no pior dos seres humanos.

Inspirado na história real de Martina Greywind - uma mulher de 28 anos com muitas das características da protagonista do filme -, o roteiro, coescrito por Payne e aquele que se tornaria seu colaborador habitual, Jim Taylor, é um primor de humor negro e deboche. A personagem do título é Ruth Stoops (em uma genial atuação de Laura Dern), uma irresponsável e indigente usuária de drogas que se vê grávida pela quinta vez - depois de ter dado todos os outros bebês à adoção. Com sua nova gravidez descoberta na prisão, ela imediatamente se torna alvo de disputa desesperada entre dois lados opostos na questão do aborto. Enquanto Gail Stoney (Mary Kay Place) a chama para seu grupo de mulheres pró-vida, Ruth e sua história também são cobiçadas por Diane Siegler (Swoozie Kurtz), uma militante dos direitos da mulher à escolha. Não exatamente uma mulher brilhante intelectualmente, Ruth se torna um joguete nas mãos de ambos os grupos - cada um com táticas de persuasão pouco ortodoxas, que incluem até dinheiro e espaço na mídia. Mesmo pouco esperta, não demora à Ruth descobrir que ela é peça dispensável na situação - e resolve aproveitar ao máximo todas as vantagens que isso pode lhe oferecer.


Evitando o maniqueísmo e direcionando sua metralhadora de ironia para todos os lados, o roteiro esperto de Payne e Taylor brinca sem pena com os exageros politicamente corretos e o radicalismo que ronda o sempre polêmico tema do aborto. Sem tomar partido algum, o filme mostra, sem espaço para dúvidas, que até mesmo atitudes aparentemente altruístas podem estar recheadas de interesses pessoais e escusos. Praticamente se engalfinhando diante das câmeras de televisão, partidários de grupos rivais são ridicularizados em uma narrativa que utiliza o humor negro como forma de crítica social - e conta com veteranos como Burt Reynolds e Tippi Hedren oferecendo um ar sério e respeitável ao projeto. Realizado com um custo irrisório de estimados 3 milhões de dólares - valor que hoje em dia não paga nem o marketing de um filme relativamente barato - e lançado sem muito alarde, "Ruth em questão" fez de Alexander Payne um queridinho imediato junto ao público de cinema independente, graças a sua união perfeita entre roteiro, direção e elenco. Sua visão mordaz e impiedosa pode até soar incômoda a alguns espectadores, mas é inegável que sua ousadia é uma de suas maiores qualidades - a ponto de encerrar sua fábula sobre a hipocrisia com um desfecho irônico e coerente com o tom da trama.

Escorado em uma atuação brilhante de Laura Dern - equilibrando todos os tons e nuances de sua personagem sem escorregar na caricatura - e acertando em cheio no meio-termo entre o deboche e a seriedade, "Ruth em questão" é uma comédia esperta e relevante. Com personagens bem construídos e situações imprevisíveis, conquista o espectador por não tratá-lo com condescendência ou subestimar sua inteligência. Não é um filme para qualquer um - o cineasta se tornaria visualmente mais sofisticado com o passar dos anos e orçamentos mais generosos - mas se destaca principalmente por sua inventividade e coragem em bater de frente com a correção política e a hipocrisia típica da população norte-americana. Um filme a ser descoberto e discutido como um dos mais interessantes de sua temporada.

quinta-feira

SERPICO

SERPICO (Serpico, 1973, Paramount Pictures, 130min) Direção: Sidney Lumet. Roteiro: Wado Salt, Norman Wexler, livro de Peter Maas. Fotografia: Arthur J. Ornitz. Montagem: Dede Allen. Música: Mikis Theodorakis. Figurino: Anna Hill Johnstone. Direção de arte/cenários: Charles Bailey/Thomas H. Wright. Produção executiva: Roger M. Rothstein. Produção: Martin Bregman. Elenco: Al Pacino, John Randolph, Jack Kehoe, Biff McGuire, Barbara Eda-Young, Cornelia Sharpe. Estreia: 05/12/73

 2 indicações ao Oscar: Ator (Al Pacino), Roteiro Adaptado
Vencedor do Golden Globe de Melhor Ator/Drama (Al Pacino) 

Um período de ouro para cineastas e jovens atores dispostos a tratar com realismo as mazelas da sociedade norte-americana, a década de 70 foi também uma época bastante fértil para todos aqueles que não tinham medo de ousar dentro da indústria frequentemente rígida de Hollywood. Uma das duplas mais interessantes de então foi formada por Sidney Lumet e Al Pacino. Dois anos antes de lançarem sua obra-prima "Um dia de cão" (75) e logo depois de Pacino tornar-se astro com "O poderoso chefão" (72), diretor e astro foram os pilares de um grande sucesso de crítica, uma história real que apontava sua tendência em provocar polêmica e discussões: "Serpico" estreou em dezembro de 1973 nos cinemas dos EUA e tornou-se um clássico imediato. Elogiado unanimemente pela crítica, premiado no National Board of Reviwe e no Golden Globe (ambos escolheram Al Pacino como melhor ator do ano) e até hoje considerado pelo consagrado intérprete um de seus melhores desempenhos, o filme de Lumet é um soco no estômago de uma das instituições mais controversas do país: a polícia nova-iorquina.

Narrado em tom semi-documental e propositalmente seco e direto, o filme acompanha a inglória luta do policial Frank Serpico, que, entre o final dos anos 60 e o começo dos 70, bateu de frente com seus colegas por recusar-se a participar dos mais variados esquemas de corrupção policial. Visto como uma aberração - tanto por seus princípios, considerados pouco inteligentes, quanto por seu visual quase hippie - e isolado por todos aqueles que percebiam nele uma ameaça real a um estilo de vida quase banal dentro da corporação, Serpico acaba por ter sua própria vida ameaçada quando passa da indignação passiva e resolve denunciar a prática de suborno para autoridades superiores: não apenas rejeitado em todas as tentativas de promoção, ele se torna persona non grata, chegando a ser vítima de um atentado. Idealista acima de tudo, ele resiste, contando com o apoio da namorada, Laurie (Barbara eda-young).





Realizado por Sidney Lumet de forma pouco comum - as filmagens começaram pelo fim da história e aconteceram em ordem reversa, por exemplo - e com um elenco sem astros - Pacino ainda estava começando a ser conhecido, graças a "O poderoso chefão" (72) -, "Serpico" pode ser quase considerado um precursor dos filmes independentes de Hollywood: com um custo de apenas 3 milhões de dólares, rendeu quase dez vezes esse valor somente no mercado doméstico, mostrando que o público do começo da década de 70 era muito mais aberto a produções sérias e maduras do que o que veio a partir do sucesso estrondoso de "Tubarão" (75), que marcou, de certa forma, a maneira com que a indústria passaria a perceber as bilheterias e as estratégias de marketing. Lançado pouco tempo depois que a história real aconteceu, o filme de Lumet ganhou pontos pelo frescor - e nem precisou contar com Paul Newman e Robert Redford para isso: concebido como um veículo para os dois astros de "Butch Cassidy e Sundance Kid", "Serpico" mudou completamente de formato e chegou às telas como um produto adulto e politicamente relevante - a ponto de receber duas indicações ao Oscar: melhor ator e roteiro adaptado.


Repleto de detalhes inteligentes - como o primeiro encontro entre o protagonista e Laurie, ao som da ópera "Tosca", de Puccini, que fala, entre outras coisas, de corrupção e abuso de poder - e editado com uma crueza que combina perfeitamente com seu tema, "Serpico" é um dos filmes mais importantes de sua época, um retrato poderoso e corajoso de um dos mais preocupantes problemas urbanos dos EUA. Para viver o personagem principal, Pacino não apenas conviveu com o verdadeiro Frank Serpico como visitou alguns lugares barra-pesada de Nova York, já caracterizado e tentando mergulhar no universo de um filme dirigido com firmeza e extrema sobriedade. Pode não ser seu melhor trabalho com Lumet - "Um dia de cão" consegue atingir níveis mais altos de qualidade final - mas é um desempenho digno de nota e aplausos. Não à toa, tornou-se um clássico contemporâneo.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...