quinta-feira

PRESO NA ESCURIDÃO

 


PRESO NA ESCURIDÃO (Abre los ojos, 1997, Sogetel/Las Producciones de Escorpion/Les Films Alain Sarde, 119min) Direção e roteiro: Alejandro Amenábar. Fotografia: Hans Burmann. Montagem: María Elena de Rozas. Música: Alejandro Amenábar, Mariano Marín. Figurino: Concha Solera. Direção de arte/cenários: Wolfgang Burmann/Carola Angula. Produção: Fernando Bovaira, José Luis Cuerda. Elenco: Eduardo Noriega, Penélope Cruz, Fele Martínez, Chete Lera, Najwa Nimri. Estreia: 17/12/97

Quando "Os outros" estreou, em 2001, o mundo todo ficou embasbacado com o talento de seu diretor/roteirista/produtor, o chileno Alejandro Amenábar. Porém, se boa parte do público que lotou as salas de cinema tinha a sensação de estar descobrindo um novo talento, um outro tipo de plateia já sabia o que esperar do cineasta: aqueles que conheciam suas obras anteriores, o perturbador "Morte ao vivo"- que lhe rendeu o Goya de melhor diretor estreante de 1996 - e o surpreendente "Preso na escuridão", que, lançado em 1997, colocou seu nome no mapa dos mais promissores realizadores do final do século. Ao misturar romance, suspense e ficção científica de forma orgânica e intrigante, Amenábar não apenas chamou a atenção da crítica, mas também de gente poderosa: impressionado com a trama estrelada por Eduardo Noriega e Penélope Cruz (por quem também se encantaria romanticamente), o astro Tom Cruise assumiu a produção e a protagonização de um remake americano e financiou o primeiro filme do jovem diretor em Hollywood - justamente "Os outros", com sua então esposa Nicole Kidman. O casamento de Kidman e Cruise acabou (assim como o relacionamento do ator com Penélope Cruz), o remake "Vanilla sky" (2001) foi um fiasco artístico e Amenábar ganhou um Oscar em 2005 pelo impecável "Mar adentro", mas nenhum de seus filmes posteriores teve a mesma coragem narrativa de "Preso na escuridão".

A trama, que segundo o diretor, surgiu durante pesadelos oriundos de uma gripe, é propositalmente elíptica, repleta de simbolismos e peças soltas que só fazem sentido no desfecho - quando o quebra-cabeças finalmente é revelado em sua totalidade. Tudo gira em torno de César (Eduardo Noriega), um jovem que, aos 25 anos de idade, tem tudo que qualquer um poderia ambicionar: é bonito, rico, charmoso, invejado - até mesmo pelo melhor amigo, Pelayo (Fele Martinez) - e conquista, sem muito esforço, qualquer mulher que deseja. E são justamente duas mulheres que formam o ponto de virada em sua vida sem sobressaltos. A primeira é a bela Sofía (Penélope Cruz), a quem conhece na festa de seu aniversário - e por quem se apaixona perdidamente - e a outra é Nuria (Najwa Nirmi), uma ex-namorada possessiva e obcecada que, ao sentir-se rejeitada por ele, tenta matá-lo junto com ela em um violento acidente de carro. Vivo mas desfigurado, César passa sem sucesso por uma série de cirurgias plásticas, sem nunca voltar a ter o mesmo rosto de antes, o que o deixa deprimido e revoltado. As coisas começam a mudar, no entanto, depois de uma noite em que, bêbado, ele chega a desmaiar em uma sarjeta: de uma hora para outra, César se vê novamente com a aparência antiga, ao lado de Sofia e levando a vida que sempre sonhou. Uma tragédia, porém, mais uma vez altera seu destino, e caberá a ele - preso por homicídio - tentar montar o quebra-cabeças em que se transformou sua existência.

 

O roteiro de Amenábar é um primor - assim como sua direção, que evita a previsibilidade e mergulha o espectador em uma atmosfera de pesadelo constante. Contando com a inspirada atuação de Eduardo Noriega, que transita com talento entre o playboy inconsequente e a trágica vítima de um amor obsessivo, o cineasta conduz sua trama com extrema segurança, utilizando-se, para isso, de um visual que acentua a sensação de labirinto em que se encontram seus personagens. É digno de nota, também, a forma com que o cineasta embaralha as cartas de seu jogo ao multiplicar a nuances dramáticas de cada jogador, oferecendo a seu elenco (uma jovem Penélope Cruz incluída) uma série de possibilidades, como um jogo de espelhos que reflete vários prismas sem deixar exatamente claro qual deles é o real. A trilha sonora discreta - também composta pelo diretor - pontua com precisão cada diálogo, cada sequência, cada reviravolta, e a edição - fator crucial para a manutenção do suspense - costura o enredo sem deixar pontas soltas (e, ao mesmo tempo, sem precisar recorrer a explicações óbvias, mesmo no angustiante clímax). Mesclando elementos de thriller e ficção científica, Amenábar homenageia ambos os gêneros ao mesmo tempo em que insere, dentro deles, uma personalidade moderna e uma personalidade muito bem-vinda - coisa que o remake dirigido por Cameron Crowe não soube fazer justamente por deixar de lado o fator surpresa do original.

Um belo cartão de visitas de um cineasta corajoso, com boas ideias e um raro domínio do suspense, "Preso na escuridão" recebeu dez indicações ao Goya (o Oscar espanhol), incluindo melhor filme, diretor, roteiro e ator, e demonstrou a força do cinema realizado fora de Hollywood, sem necessidade de prender-se a obrigações comerciais ao mesmo tempo em que não abandona completamente elementos clássicos de gêneros queridos pelo público. E se não bastasse tudo isso, ainda foi o filme que apresentou a beleza de Penélope Cruz para audiências internacionais - ainda demoraria para que ela deixasse de ser apenas uma linda mulher para se tornar uma atriz de prestígio e respeito, mas quando Sofía aparece diante de César, com seu sorriso irresistível, ninguém na plateia é capaz de julgar o rapaz pelos atos obsessivos que virão a seguir. Poucas atrizes tem esse poder!

quarta-feira

ENTRANDO NUMA FRIA

 


ENTRANDO NUMA FRIA (Meet the parents, 2000, Universal Pictures/DreamWorks Pictures, 108min) Direção: Jay Roach. Roteiro: Jim Herzfeld, John Hamburg, estória de Greg Glienna, Mary Ruth Clarke. Fotografia: Peter James. Montagem: Greg Hayden, Jon Poll. Música: Randy Newman. Figurino: Daniel Orlandi. Direção de arte/cenários: Rusty Smith/Karen Wiesel. Produção: Robert DeNiro, Jay Roach, Jane Rosenthal, Nancy Tenenbaum. Elenco: Robert DeNiro, Ben Stiller, Teri Polo, Blythe Danner, Owen Wilson, Nicole DeHuff, Jon Abrahams, James Rebhorn, Tom McCarthy, Phyllis George. Estreia: 06/10/2000

Indicado ao Oscar de Canção Original ("A fool in love")

Sétima maior bilheteria de 2000 - com uma renda global de mais de 300 milhões de dólares -, "Entrando numa fria" deu continuidade a uma nova fase da trajetória cinematográfica do ator Robert DeNiro, explorando seu - até então raramente demonstrado - timing cômico depois do sucesso de "A máfia no divã" (1999). Brincando mais uma vez com sua imagem de durão (conquistada por décadas interpretando criminosos das mais variadas estirpes e homens pouco loquazes), DeNiro encontrou em Jack Byrnes - um ex-agente secreto da CIA em confronto com o atrapalhado futuro genro - um dos personagens mais populares de sua carreira, em uma dupla de química impecável com Ben Stiller. O inusitado, porém, é que nem ele nem Stiller foram as primeiras escolhas para serem os astros do filme, um projeto que esteve nas mãos de ninguém menos que Steven Spielberg.

O caminho de "Entrando numa fria" em direção a tornar-se um êxito comercial que rendeu duas continuações começou em 1991, com um média-metragem independente escrito pelos ilustres desconhecidos Greg Glienna (também diretor) e Mary Ruth Clarke: incapazes de encontrarem distribuição para seu filme, rodado a um custo ínfimo de 100 mil dólares, os dois acabaram por vender seus direitos à Universal Pictures, ciente de seu potencial. No final da década de 1990, já com Spielberg interessado no projeto, o filme parecia estar a caminho das telas - e depois de nomes como Christopher Walken, Harrison Ford e Anthony Hopkins terem sido considerados para o papel principal, Al Pacino já estava confirmado como o imprevisível sogro do enfermeiro que seria interpretado por Jim Carrey. A demora na produção, no entanto, mudou tudo. Tanto Spielberg quanto Carrey pularam fora para dar seguimento a outros trabalhos - o cineasta para começar "A.I.: Inteligência Artificial" (2001) e o ator para fazer ""Eu, eu mesmo e Irene" (2000) e "O Grinch" (2000) - e Pacino aceitou a proposta de Oliver Stone para liderar o elenco de seu "Um domingo qualquer" (2000), substituindo... Robert DeNiro, mais disposto a fazer rir do que encarar um drama sobre futebol americano. Com Ben Stiller escolhido para viver o atrapalhado Greg Focker, e alterações no roteiro para melhor aproveitar seu tipo de humor (menos físico do que o consagrado por Carrey), a escolha do diretor não poderia ter sido mais feliz: vindo dos de uma carreira basicamente na comédia, o cineasta Jay Roach deu ao filme o tom certo de uma comédia familiar sem o ranço do politicamente correto.

 

Sempre ótimo em papéis que exploram o constrangimento, Ben Stiller vive Greg Focker, um sensível e romântico enfermeiro de Chicago que, apaixonado pela namorada, a doce professora Pam (Teri Polo), descobre que, antes de pedí-la em casamento, precisa da aprovação de seu pai, um homem rígido e conservador que trabalhava como estudioso de flores exóticas. A oportunidade de conhecê-lo surge com uma reunião familiar para o casamento da futura cunhada - mas as coisas não saem nem um pouco como esperadas. Não apenas Focker se envolve em uma série de incidentes - que envolvem desde as cinzas da matriarca da família até o mimado gato de raça - como descobre, da pior maneira possível, que o sisudo Jack Byrnes (Robert DeNiro) era, na verdade, um agente secreto da CIA, dado a espionar desafetos e controlar todos os movimentos da casa. Não bastasse isso, quem aparece nas comemorações do matrimônio é Kevin (Owen Wilson), ex-namorado de Pam que ainda frequenta a casa dos Byrnes e não esconde seus sentimentos em relação a ela.

Calcado principalmente no humor que surge da vergonha alheia - e equilibrando com presteza piadas verbais com momentos de uma irresistível comédia física -, "Entrando numa fria" se beneficia muito do comando de Jay Roach, experiente no gênero graças aos filmes estrelados de Austin Powers (o espião inglês vivido por Mike Meyers em três produções). Conduzindo a trama com um ritmo ligeiro mas nunca superficial, que explora as relações entre seus personagens de forma inteligente e (por que não?) sensível, o diretor acerta em cheio ao deixar espaço de sobra para o feliz encontro entre a suposta seriedade de DeNiro e o talento histriônico de Stiller: são nos momentos de interação entre eles que o filme cresce e conquista de vez o espectador. O roteiro, que acumula situações hilárias, expande o filme original e aprofunda as diferenças radicais entre os protagonistas de forma orgânica, oferecendo ao elenco - que conta ainda com Blythe Danner e Tom McCarthy (indicado ao Oscar de direção por "Spotlight: segredos revelados", de 2015) - sequências que já nasceram antológicas. E é justamente o encontro entre bons atores, um roteiro esperto e uma direção que imprime ritmo e consistência que faz de "Entrando numa fria" uma comédia acima da média - e que, não à toa, deu origem a duas sequências que desenvolvem ainda mais as relações entre o apaixonado Greg (ou Gaylord) Focker e a família disfuncional de sua amada Pam.

terça-feira

OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA


OS QUERIDINHOS DA AMÉRICA (America's sweethearts, 2001, Columbia Pictures/Revolution Studios, 102min) Direção: Joe Roth. Roteiro: Billy Crystal, Peter Tolan. Fotografia: Phedon Papamichael. Montagem: Stephen A. Rotter. Música: James Newton Howard. Figurino: Ellen Mirojnick. Direção de arte/cenários: Garreth Stover/Larry Dias. Produção executiva: Charles Newirth, Peter Tolan. Produção: Susan Arnold, Billy Crystal, Donna Arkoff Roth. Elenco: Julia Roberts, John Cusack, Billy Crystal, Catherine Zeta-Jones, Stanley Tucci, Christopher Walken, Alan Arkin, Hank Azaria, Seth Green, Rainn Wilson. Estreia: 17/7/2001

Quando Billy Crystal escreveu o roteiro de "Os queridinhos da América" seus planos incluíam dirigir o filme e ficar com o principal papel masculino - além de desejar repetir a vitoriosa dupla com Meg Ryan depois do sucesso de "Harry & Sally: feitos um para o outro" (1989). As coisas nem sempre saem como imaginado, porém, principalmente em Hollywood: quando a produção finalmente começou Ryan passava por um período difícil (que envolvia o fim de seu casamento de anos com Dennis Quaid e o relacionamento escandaloso e breve com Russell Crowe) e Crystal percebeu que estava velho demais para viver o galã de uma comédia romântica. A ideia de manter o projeto, no entanto, era boa demais para ser deixada de lado e, com o veterano ator deixando a direção a cargo de Joe Roth e assumindo o segundo (e talvez mais interessante) papel masculino da história, o filme recebeu o reforço de Catherine Zeta-Jones e Julia Roberts (ainda fresquinha do Oscar de melhor atriz) e estreou em pleno verão norte-americano. Pode não ter sido um sucesso estrondoso de bilheteria - menos de 150 milhões de dólares arrecadados internacionalmente -, mas foi um respiro adulto em uma temporada cujos maiores êxitos comerciais foram direcionados ao público infantojuvenil, como "Harry Potter e a pedra filosofal", "Monstros S/A" e "Shrek". Simpático e inofensivo - mesmo com as alfinetadas na indústria de cinema norte-americano -, o filme segura bem uma sessão da tarde, mas está a anos-luz de distância dos melhores exemplares do gênero.

A trama gira em torno de Eddie Thomas (John Cusack) e Gwen Harrison (Catherine Zeta-Jones), dois astros de cinema que, como deixa claro o título, são os queridinhos das plateias, que lotam as salas de cinema para vê-los juntos. Casados também na vida real, eles acabam se separando quando Gwen trai Eddie com o galã latino Hector (Hank Azaria), fato que leva o ator a uma crise de nervos que o afasta da mídia. Acusada de ser a culpada pela separação, Gwen vê a chance de recuperar a simpatia do público quando Lee Phillips (Billy Crystal), responsável pelo setor de  relações públicas do estúdio, a procura com a proposta de embarcar em um concorrido esquema de promoção para seu novo filme - o último que ela estrelou com o ex-marido. Gwen demora a aceitar a ideia, mas é convencida pela irmã e assessora Kiki (Julia Roberts), que é apaixonada em segredo por Eddie - que, mesmo ainda revoltado com a ex-mulher, sai da clinica para tentar salvar a imagem da dupla. O que nenhum dois dois atores sabe, na verdade, é que os esforços de Lee tem outro motivo: disfarçar o fato de que o diretor do filme, o excêntrico Hal Weidmann (Christopher Walken), está com o material escondido e pretende mostrar a montagem final somente na hora da pré-estreia. Enquanto Lee precisa lidar com a fogueira das vaidades de atores, diretores e executivos do estúdio (temerosos de um fracasso monumental devido ao escândalo de seus astros), um romance inesperado surge entre o traumatizado Eddie e Kiki, antes um patinho feio que vivia à sombra da irmã, e agora uma bela e bem resolvida mulher.

 

Apesar de o romance entre Kiki e Eddie ter sido vendido como o principal ponto de interesse de "Os queridinhos da América", o que mais funciona no filme de Joe Roth - cineasta pouco inspirado e sem maiores sucessos no currículo - são as referências e piadas sobre Hollywood e sua indústria. Na pele do experiente Lee Phillips, o ator e roteirista Billy Crystal solta farpas sobre tudo e todos - desde a figura do recluso Hal Weidmann, claramente inspirado no veterano Hal Ashby, até as infames e repetitivas entrevistas a que atores são submetidos durante o período de lançamento de seus filmes. Crystal, com seu conhecido cinismo e sagacidade, é quem melhor se sai, bem mais à vontade em cena do que seus colegas de elenco. Subaproveitada, Julia Roberts tem pouco a fazer com uma personagem que não explora todo o seu carisma, e John Cusack (substituindo Robert Downey Jr., à época ainda um nome pouco confiável junto aos estúdios, por seus problemas com drogas) parece desconfortável em explorar um lado romântico pouco comum em sua carreira repleta de tipos pouco convencionais. E do quarteto central, a bela Catherine Zeta-Jones sobressai-se com seu dom para a fina ironia, que seria recompensado pouco depois com um Oscar de coadjuvante por "Chicago" (2002).

É inegável que "Os queridinhos da América" sofre de falta de um foco narrativo claro. Afinal, qual é a história principal que quer contar? Os bastidores da indústria de cinema hollywoodiano? A relação complicada entre dois astros populares que tem suas vidas devassadas pelo público e pela mídia? O romance inesperado entre dois cunhados? A constante necessidade de aprovação que surge junto com a fama? Essa indecisão, apesar de alguns diálogos preciosos e do talento de todos os envolvidos (Stanley Tucci como um executivo, Alan Arkin como um médico pouco confiável, Rainn Wilson como um repórter bisbilhoteiro, Seth Green como um estagiário que confunde Audrey e Katherine Hepburn), prejudica o resultado final e torna o filme uma produção esquecível, ainda que agradável. Não chega de ser um desperdício de tempo, mas quase uma decepção que tanta gente boa possa ter feito algo tão insosso.

segunda-feira

ROCKETMAN

 


ROCKETMAN (Rocketman, 2019, Paramount Pictures/New Republic Pictures/Marv Films, 121min) Direção: Dexter Fletcher. Roteiro: Lee Hall. Fotografia: George Richmond. Montagem: Chris Dickens. Música: Matthew Margeson. Figurino: Julian Day. Direção de arte/cenários: Marcus Rowland/Judy Farr. Produção executiva: Michael Gracey, Elton John, Karine Martin, Tommaso Marzotto, Brian Oliver, Claudia Vaughn, Steve Hamilton Shaw, Danny Zamost. Produção: Adam Bohling, David Furnish, David Reid, Matthew Vaughn. Elenco: Taron Egerton, Jamie Bell, Richard Madden, Bryce Dallas Howard, Gemma Jones, Stephen Graham, Steven Mackintosh, Tom Bennett. Estreia: 16/5/2019 (Festival de Cannes)

Vencedor do Oscar de Canção Original ("I'm gonna love me again")

Vencedor de 2 Golden Globes: Melhor Ator Comédia/Musical (Taron Egerton), Canção Original ("I'm gonna love me again")

É inacreditável, mas um ano depois de ter homenageado o sofrível "Bohemian Rhapsody" com quatro (!!!) Oscar - incluindo para o desempenho medonho de Rami Malek -, a Academia de Hollywood simplesmente ignorou aquele que realmente merecia todos os elogios e estatuetas possíveis. Cinebiografia do cantor e compositor Elton John (também um dos produtores executivos do filme e autor de sua canção-tema), "Rocketman" é não apenas a tradução para as telas de sua vida caótica, mas principalmente uma celebração energética, empolgante e emocionante de uma das obras mais importantes da música popular do século XX. Sem medo de tocar em pontos polêmicos de Elton - sua sexualidade, o abuso de drogas e álcool, a relação conflituosa com os pais - e amparada em uma atuação nunca aquém de espetacular de Taron Egerton, a produção dirigida por Dexter Fletcher não cai nas armadilhas tão frequentes em filmes do gênero ao optar por uma visão mais lúdica e não naturalista, que permite a ruptura narrativa tradicional. Em tom ópera-rock (valorizada pelos figurinos excêntricos que recriam o visual do cantor desde a década de 1960), "Rocketman" é absurdamente bom. E, apesar dos Golden Globes (ator e canção original), extremamente subestimado. 

Escrito pelo mesmo Lee Hall do excelente "Billy Elliot" (2000), "Rocketman" já começa quebrando toda e qualquer expectativa de se ver uma cinebiografia tradicional: vestido em um de seus exuberantes e clássicos trajes - recriados com excelência por Julian Day -, o cantor Elton John entra em uma reunião onde anônimos trocam experiências a respeito de seu vício em drogas. Cansado de viver em negação e sofrendo com os problemas inerentes a adicção, o cantor começa a relembrar toda a sua vida, desde sua infância nos anos 1950 em uma pequena cidade do interior da Inglaterra. Ainda com o nome de Reginald Dwight (e interpretado pelo ótimo ator mirim Matthew Illesley), o futuro astro vivia no meio da relação inconstante entre um pai distante, Stanley (Steven Macintosh), e uma mãe pouco afeita a atos de carinho, a quase fria Sheila (Bryce Dallas Howard). Contando com o apoio da avó, Ivy (Gemma Jones), e sentindo-se deslocado, ele encontra um caminho na música e, com o passar do tempo, passa dos estudos na Royal Academy of Music para os palcos de pubs noturnos. Descoberto por um empresário mais dedicado ao dinheiro do que à arte em si, Dick James (Stephen Graham), Elton assume um nome artístico, conhece o jovem compositor Bernie Taupin (Jamie Bell) e inicia uma das carreiras mais longevas e populares da história. Misturando sua vida profissional com a pessoal, se envolve amorosamente com outro empresário, John Reid (Richard Madden) e mergulha nas drogas e no álcool.

 

Assumindo com coragem e quase orgulho todas as nuances que fazem de Elton John um dos mais longevos e influentes ícones pop da história, "Rocketman" abraça o exagero e o camp como forma de traduzir, em duas horas de duração, o consagrado estilo do cantor, famoso por suas roupas, seus óculos, seus sapatos e principalmente por suas atitudes no palco, que incendiava com apresentações nunca menos que antológicas. O roteiro, ágil e informativo na medida certa, se utiliza com perfeição das canções de Elton e Taupin, que ilustram cada momento com humor, emoção e uma energia que ultrapassa a tela. A direção de Dexter Fletcher - que assinou também o subestimado "Voando alto" (2015) - usa e abusa de cores e texturas, aproximando o espectador do universo alucinante e alucinado de seu protagonista, vivido com dedicação e gosto por Taron Egerton. Egerton, aliás, é provavelmente a melhor escolha da produção: carismático e talentoso, o jovem ator britânico tem um desempenho exemplar, funcionando à perfeição como ator, cantor e dançarino, oferecendo um show particular que justifica plenamente seu Golden Globe e deixa ainda mais injusta sua esnobada junto à Academia. Ficando com um papel para o qual estavam cotados James McAvoy, Daniel Radcliffe e Justin Timberlake - preferido de Elton John desde sua participação no videoclipe de "This train don't stop here anymore", de 2001 -, Egerton se transforma no cantor sem deixar-se levar pelo caminho fácil da imitação e/ou caricatura.

Sem querer esconder do público os pontos mais polêmicos da vida e da carreira de Elton John, "Rocketman" mescla os elementos tradicionais das cinebiografias com a irreverência típica do músico. Ao contar sua história através de canções e números musicais - bem coreografados e produzidos com extrema competência -, Dexter Fletcher demonstra uma segurança ímpar em um gênero difícil, em que qualquer excesso (ou carência) pode por tudo a perder. Repleto de canções icônicas em momentos emocionantes e sem pesar a mão mesmo quando se encaminha para uma fase menos colorida na trajetória pessoal do protagonista, o filme de Fletcher é um programa sem contraindicações, ideal para os fãs e para quem ainda não conhece a potência de um ídolo atemporal.

terça-feira

DESEJO PROIBIDO


DESEJO PROIBIDO (If these walls could talk 2, 2000, HBO Films/Team Todd, 96min) Direção: Jane Snderson ("1961"), Martha Coolidge ("1972"), Anne Heche ("2000"). Roteiro: Jane Anderson ("1961"), Sylvia Sichel, estória de Sylvia Sichel e Alex Sichel ("1972"), Anne Heche ("2000"). Fotografia: Peter Deming, Paul Elliott, Robbie Greenberg. Montagem: Margaret Goodspeed. Música: Basil Poledouris. Figurino: Julia Caston. Direção de arte/cenários: Nina Ruscio/Susan Mina Eschelnach, K. C. Fox, Mary E. Gullickson. Produção executiva: Ellen DeGeneres, Jennifer Todd, Suzanne Todd. Produção: Mary Kane. Elenco: Vanessa Redgrave, Michelle Williams, Chloe Sevigny, Sharon Stone, Ellen DeGeneres, Paul Giamatti, Elizabeth Perkins, Marian Seldes, Nia Long, Natasha Lyonne, Heathe McComb, Rashida Jones, Regina King, Kathy Najimy. Estreia: 05/3/2000

Em 1996, a HBO lançou, com enorme sucesso de público e crítica, o polêmico "O preço de uma escolha", que trata, em três histórias distintas, de um assunto bastante controverso na sociedade norte-americana: o aborto. Com um elenco que contava com Demi Moore, Catherine Keener e Cher - também uma das diretoras -, o filme chegou a ser indicado a três Golden Globes e estabeleceu um alto parâmetro para as produções do canal. Quatro anos mais tarde, "Desejo proibido" tentou repetir o êxito, voltando a discutir uma questão delicada (ao menos para a audiência mais conservadora) e seguindo a mesma estrutura do original. Ao retratar a homossexualidade feminina - e a forma como ela é vista - em três tempos e enfoques distintos, a produção manteve o tom sério e respeitoso do primeiro filme, mas como normalmente acontece com antologias, não conseguiu escapar da irregularidade. Potente em sua primeira parte, interessante em sua segunda e leve em seu encerramento, "Desejo proibido" revela um panorama abrangente de seu tema, mas nem sempre consegue atingir todo o seu potencial.

O primeiro (e melhor) capítulo se passa em 1961 e apresenta a triste história de Edith Tree (Vanessa Redgrave), que vê sua vida desmoronar com a morte de Abby Hedley (Marian Seldes), sua parceira há mais de cinquenta anos. A tragédia fica ainda maior quando um sobrinho distante de Abby, o pouco afetivo Ted (Paul Giamatti) surge para reivindicar a propriedade onde elas moravam: sem o amparo legal que poderia lhe dar o direito de ficar com a casa que ajudou a pagar, Edith precisa lidar com questões práticas ao mesmo tempo em que experimenta a impensável dor da perda. A diretora e roteirista Jane Anderson é extremamente feliz em imprimir o tom de melancolia e amor maduro, valorizado pela atuação monstruosa de Vanessa Redgrave. Começando sua história já em grande estilo - com uma citação direta do clássico "Infâmia" (1961), em que Shirley MacLaine e Audrey Hepburn tinham sua escola atacada por insinuações de homossexualidade -, Anderson é elegante e romântica, ao mesmo tempo em que desperta no espectador toda a indignação possível diante da situação absurda. Destaca-se também o belo trabalho de Elizabeth Perkins, na pele de Alice, a fútil e insensível esposa de Ted, e a sutileza do roteiro, que vai apresentando camadas ao tema conforme a trama vai se desenhando: do medo de andar próximas na rua às burocracias médicas, tudo é tratado com delicadeza extrema, que eleva o primeiro episódio do filme ao status de pequena obra-prima.

 

Já o segundo segmento, dirigido por Martha Coolidge, peca por sua incapacidade (ou opção) de aprofundar um questionamento bastante relevante - inclusive dentro da comunidade gay. Em 1972, quando os movimentos feministas e homossexuais estavam em alta dentro da sociedade dos EUA, a jovem Linda (Michelle Williams), um tanto decepcionada com o preconceito que presencia junto às pretensamente liberadas e modernas ativistas, se envolve com Amy (Chloe Sevigny), a quem conhece em um bar frequentado por lésbicas. Apesar de morar com um amigas também gays, ela passa a conhecer a discriminação dentro da própria casa, já que Amy, ao contrário delas, se veste como homem e age de forma masculinizada. Sem saber como lidar com a diferença entre elas - e pressionada pelas colegas, pouco à vontade com sua nova namorada -, Linda passa a questionar até que ponto as aparências podem influir na saúde de seu relacionamento. Coolidge (que assinou o delicado "As noites de Rose", que indicou Laura Dern e Diane Ladd ao Oscar, em 1992) constrói uma obra de textura visual quase palpável, que mergulha o espectador no universo de suas personagens, mas tropeça na superficialidade do roteiro, que não sabe desenvolver a contento todas as possibilidades do tema e ainda surge com um desfecho artificialmente feliz e fácil. Michelle Williams - começando sua trajetória em interpretar mulheres sofridas e atormentadas - está bem, mas Chloe Sevigny - recém vinda de uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante por "Meninos não choram" (1999) - já apresenta alguns trejeitos e expressões que seriam comuns à toda a sua carreira posterior.

 

O ato final da produção, por sua vez, aposta na leveza, no bom humor e até no otimismo - como um aceno aos novos tempos que (todos esperavam) estavam por surgir. No ano 2000, um casal bem resolvido, feliz e apaixonado, resolve ter um filho e completar sua família não convencional. A princípio, Fran (Sharon Stone) e Kal (Ellen DeGeneres) querem que um amigo seja o pai biológico de seu bebê, mas ao ver sua proposta recusada por Arnold (Mitchell Anderson) e Tom (George Newbern), passam a tentar outros modos de concepção. Para isso, buscam um doador anônimo de esperma (em um site especializado), inseminação artificial (em uma clínica conceituada) e meses de tensão enquanto esperam um resultado positivo. Enquanto isso, questionam (mas não muito) a ideia de por um filho em um mundo preconceituoso, violento e super povoado. Escrito e dirigido por Anne Heche (esposa de Ellen DeGeneres à época), o episódio é bem menos denso do que os primeiros, preferindo um tom positivo que encontra eco no desempenho solar de Sharon Stone e no sarcasmo de DeGeneres. Novamente faz falta um aprofundamento do tema, mas sua opção em seguir um caminho oposto ao drama dos dois primeiros segmentos não deixa de ser acertado, principalmente ao contrapor a dor do preconceito à esperança de um novo e mais tolerante mundo.

No cômputo final, "Desejo proibido" tem mais acertos do que erros. Em uma época em que a televisão ainda engatinhava em tratar de temas polêmicos - ao menos de forma tão explícita -, o filme tem a coragem não apenas de falar sobre a homossexualidade feminina em algumas de suas diversas formas, mas também de não esconder o amor das protagonistas em cenas veladas e/ou falsamente pudicas. Com sequências de sexo dirigidas com bom gosto e delicadeza (mesmo que limitadas pelo veículo) e sem medo de se posicionar ao lado contrário a qualquer tipo de intolerância, a produção posicionou a HBO como um importante aliado na causa gay e deu um passo à frente na caminhada da emissora pelo prestígio de que viria a desfrutar logo em seguida.

 

quinta-feira

ENTRE FACAS E SEGREDOS

 


ENTRE FACAS E SEGREDOS (Knives out, 2019, Lionsgate, 130min) Direção e roteiro: Rian Johnson. Fotografia: Steve Yedlin. Montagem: Bob Ducsay. Música: Nathan Johnson. Figurino: Jenny Eagan. Direção de arte/cenários: David Crank/David Schlesinger. Produção executiva: Tom Karnowski. Produção: Ram Bergman, Rian Johnson. Elenco: Daniel Craig, Ana de Armas, Jamie Lee Curtis, Christopher Plummer, Toni Collette, Chris Evans, Don Johnson, LaKeith Stanfield, Katherine Langford, Riki Lindhome, Jaden Martell, Eddi Patterson, K Callan, Frank Oz, Noah Segan. Estreia: 07/9/2019 (Festival de Toronto)

Indicado ao Oscar de Roteiro Original

É impossível ser apresentando a Benoit Blanc sem que o personagem mais famoso de Agatha Christie venha à mente. Claramente calcado no belga Hercule Poirot - presença em 33 romances e 54 contos da escritora inglesa -, o detetive criado pelo diretor e roteirista Rian Johnson para seu "Entre facas e segredos" não envergonha sua maior fonte de inspiração: excêntrico, inteligente e sofisticado, Blanc também encontrou em Daniel Craig seu intérprete ideal e teve a suprema sorte de fazer sua primeira aparição nas telas em uma produção que consegue ser uma empolgante história de detetive, uma deliciosa comédia e um belo (ainda que descompromissado) estudo de personagens. Indicado a um merecido Oscar de roteiro original (que perdeu para o impecável "Parasita") e o pontapé inicial do que promete ser uma bem-sucedida série de filmes, "Entre facas e segredos" se beneficia ainda de um elenco impecável, que reúne nomes consagrados (Christopher Plummer, Jamie Lee Curtis), novatos promissores (Ana de Armas, Katherine Langford) e astros populares (Chris Evans, Toni Collette). Lançado no Festival de Toronto, em setembro de 2019, tornou-se um dos maiores sucessos de bilheteria do ano - com mais de 300 milhões de dólares arrecadados internacionalmente - e confirmou Johnson (de "Star Wars: os últimos Jedi") como um dos novos (e originais) talentos de Hollywood.

A trama criada por Johnson começa quando Harlan Thrombey (Christopher Plummer), famoso escritor de romances policiais, é encontrado morto no dia seguinte à festa em comemoração a seus 85 anos de idade. Apesar de todas as evidências levarem a crer que o escritor cometeu suicídio, o detetive Benoit Blanc (Daniel Craig) é misteriosamente contratado para fazer uma investigação mais aprofundada, para surpresa da disfuncional família da vítima - todos com sólidos motivos para ficarem satisfeitos com o desaparecimento do patriarca. Richard (Don Johnson), seu genro, acabara de ter um romance extraconjugal descoberto pelo sogro, que o obrigava a contar a verdade à esposa, Linda (Jamie Lee Curtis); Walt (Michael Shannon), seu filho caçula, fora demitido do cargo de responsável pela editora da família, que ocupava mesmo com conflitos de interesse com o pai; sua nora, Joni (Toni Collette), tivera desmascarado seu esquema de embolsar duas vezes o pagamento da universidade da filha adolescente; e seu neto, Ramson (Chris Evans) fora deserdado depois de um sério desentendimento. Enquanto conversa com os suspeitos e se aproxima da família, Blanc conta com a ajuda da amiga e cuidadora de Harlan, a brasileira Marta Cabrera (Ana de Armas) - que parece saber muito mais do que aparenta, mas teme por sua família de imigrantes.

 


Ao utilizar-se de vários elementos que fizeram a glória das histórias policiais clássicas - uma mansão que é parte integrante da narrativa, uma vítima de índole duvidosa, uma série de suspeitos pouco afeitos à verdade, pistas falsas, reviravoltas constantes e um detetive fascinante - "Entre facas e segredos" conquista a plateia sem muito esforço. Basta poucos minutos para que o público já esteja envolvido na trama e com sua própria versão da verdade definida - o que, logicamente, muda conforme a ação vai se desenvolvendo. A edição inteligente, que usa e abusa de flashbacks intrigantes e reveladores, é um destaque extra, ao enfatizar as várias camadas do belo roteiro. E se Daniel Craig tem a chance de um novo personagem a ser explorado em uma série de filmes - "Glass Onion" estreou em 2022 e outros capítulos devem vir com o tempo -, o elenco de coadjuvantes de peso não fica atrás. Antes de sua indicação ao Oscar pelo polêmico "Blonde" (2022), a cubana Ana de Armas apresenta um misto de carisma e inocência que justifica a atenção de Hollywood a seu nome; Jamie Lee Curtis mostra que a maturidade lhe fez muito bem; Toni Collette mais uma vez rouba a cena sempre que aparece; e Chris Evans surpreende ao explorar com sagacidade sua imagem de galã irônico e mordaz. Mérito da direção firme de Rian Johnson - com um belo timing cômico a serviço de uma boa história -, a química impecável do elenco mostra-se providencial para prender a atenção do espectador, e a direção de arte reflete visualmente as características exuberantes da trama e dos personagens, repletos de idiossincrasias e segredos.

Divertido e sagaz como os melhores livros de Agatha Christie, "Entre facas e segredos" é um presente aos fãs do gênero. Anos-luz à frente das modernas adaptações da obra da escritora dirigidos por Kenneth Branagh - que matam suas maiores qualidades em busca de um público mais afeito a redes sociais do que a telas de cinema -, o filme de Rian Johnson é a prova de que enredos espertos, diretores competentes e atores talentosos são muito mais importantes do que pretensas rupturas narrativas e visuais. Tradicional e clássico na estrutura e no desenvolvimento - mas com a agilidade do bom cinema  norte-americano comercial -, é capaz de conquistar, sem contraindicações, qualquer tipo de público que goste de ser seduzido por uma boa trama de mistério e bom-humor.

quarta-feira

O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO

 


O DESPERTAR DE UMA PAIXÃO (The painted veil, 2006, Warner Independent Pictures/Bob Yari Productions, 125min) Direção: John Curran. Roteiro: Ron Nyswaner, romance de W. Somerset Maughan. Fotografia: Stuart Dryburgh. Montagem: Alexandre de Franceschi. Música: Alexandre Desplat. Figurino: Ruth Myers. Direção de arte/cenários: Juhua Tu/Peta Lawson. Produção executiva: John Curran, Mark Gordon, Robert Katz, Ron Nyswaner. Produção: Sara Colleton, Jean-François Fonlupt, Edward Norton, Naomi Watts, Bob Yari. Elenco: Edward Norton, Naomi Watts, Liev Schreiber, Toby Jones, Juliet Howland. Estreia: 13/12/2006

Vencedor do Golden Globe de Trilha Sonora Original

Publicado em forma de folhetim na revista Cosmopolitan, entre novembro de 1924 e março de 1925, o o romance "The painted veil", de W. Somerset Maughan, deu origem a duas adaptações cinematográficas antes de 2006. A primeira, lançada em 1934 como "O véu pintado",  tinha Greta Garbo como estrela mas não chega a ser um grande destaque na carreira da icônica atriz. A segunda, batizada como "O sétimo pecado", estreou em 1957e apresentava Eleanor Parker no principal papel feminino - e é igualmente pouco lembrada em seu currículo. Por isso, quando uma terceira versão do filme chegou às telas, no final de 2006, não houve a gritaria sempre tão comum quando se trata de refilmagens de clássicos. Dirigido por John Curran (cineasta sem um grande sucesso para chamar de seu) e estrelado por dois atores de grande prestígio, Edward Norton e Naomi Watts, "O despertar de uma paixão" é uma adaptação fiel e elegante de uma história sobre amor, traição e perda - e se não alcançou o sucesso merecido, isso diz mais sobre o mau costume do público de consumir produtos rasos do que sobre suas várias qualidades.

A história se passa na década de 1920 e começa com o casamento da bela e frívola Kitty Garstin (Naomi Watts em papel oferecido a Nicole Kidman) com o jovem bacteriologista Walter Fane (Edward Norton). Ansiando por fugir dos domínios da mãe possessiva, Kitty aceita o pedido do introvertido Fane e se muda com ele para Shangai. Lá, sentindo-se solitária e deslocada, ela se apaixona por um conterrâneo, o vice-cônsul Charles Townsend (Liev Schreiber), e inicia um tórrido romance que, pouco discreto, acaba descoberto por seu marido. Ofendido em seus brios e disposto a punir a esposa, Fane planeja, então, uma vingança das mais cruéis: cabe a Kitty passar por um divórcio escandaloso e, por consequência, ser rejeitada pela sociedade, ou acompanhá-lo a um distante vilarejo acometido por um violento surto de cólera. Decepcionada com a atitude de Townsend em não ampará-la, Kitty embarca com o marido para uma viagem da qual não sabe se voltará. Longe da cidade, porém, ela acaba por encontrar um sentido para a própria vida - ajudar as freiras a cuidar de um orfanato - e ver com outros olhos o homem com quem se casou. A dúvida que surge, no entanto, é uma só: será que as provações poderão reaproximar o casal, ou o relacionamento já está definitivamente condenado?

 

Embalado pela bela trilha sonora de Alexandre Desplat, premiada com o Golden Globe, "O despertar de uma paixão" acerta o tom ao optar por uma narrativa clássica e suave, sem atropelos de ritmo ou excessos melodramáticos. O roteiro de Ron Nyswaner - autor de "Filadélfia" (1993) - conta sua história de forma a envolver o espectador gradualmente, dando tempo aos personagens (e ao público) de compreender todas as suas implicações, sejam elas românticas ou sociais. Mesmo que a direção de Curran seja pouco inventiva e até trivial visualmente, é difícil não se deixar impactar pelo belo trabalho de Edward Norton e Naomi Watts, também produtores do filme: em um registro minimalista que evita a grandiloquência, os dois atores mergulham em um universo de dor e sofrimento que se revela através de gestos simples e olhares angustiados. É interessante a maneira com que Curran transita entre o sublime dos momentos românticos e o terror das sequências que mostram as consequências da epidemia, como se mostrasse dois filmes que se cruzam em um mesmo e melancólico clímax. Para isso colabora a atmosfera claustrofóbica imposta pela fotografia quente de Stuart Dryburgh, que transmite com precisão o desespero da situação imposta pela história e os personagens.

Injustamente pouco lembrado dentro da filmografia de seus astros, "O despertar de uma paixão" passou praticamente em branco pelas cerimônias de premiação e tampouco fez barulho nas bilheterias. Filmado na China e coproduzido por uma companhia local que exigiu controle sobre o roteiro e o corte definitivo - felizmente sem maiores ônus ao resultado final -, talvez tenha sido prejudicado pelo tema pesado e pela campanha pouco esforçada do estúdio. Mas é uma produção caprichada, feita para adultos que procuram mais do que simplesmente finais felizes anódinos e artificiais. Pode-se dizer, sem medo, que é a versão definitiva do romance de Maughan.

terça-feira

NASCE UMA ESTRELA

 


NASCE UMA ESTRELA (A star is born, 2018, Warner Bros, 136min) Direção: Bradley Cooper. Roteiro: Bradley Cooper, Eric Roth, Will Fetters, estória de William Wellman, Robert Carson, roteiros de Moss Hart (1954), John Gregory Dunne, Joan Didion, Frank Pierson (1976). Fotografia: Matthew Libatique. Montagem: Jay Cassidy. Figurino: Erin Benach. Direção de arte/cenários: Karen Murphy/Ryan Watson. Produção executiva: Basil Iwanyk, Sue Kroll, Niija Kuykendall, Ravi Mehta, Heather Parry, Michael Rapino. Produção: Bradley Cooper, Bill Gerber, Lynette Howell Taylor, Jon Peters, Todd Phillips. Elenco: Lady Gaga, Bradley Cooper, Sam Elliott, Rafi Gavron, Anthony Ramos, Ron Rifkin. Estreia: 31/8/201 (Festival de Veneza)

8 indicações ao Oscar: Melhor Filme, Ator (Bradley Cooper), Atriz (Lady Gaga), Ator Coadjuvante (Sam Elliott), Roteiro Adaptado, Fotografia, Canção Original ("Shallow"), Mixagem de Som

Vencedor do Oscar de Canção Original ("Shallow")

Vencedor do Golden Globe de Canção Original ("Shallow")

A trama de "Nasce uma estrela" fascina Hollywood - e o público - desde 1937, quando o filme estrelado por Janet Gaynor e Fredric March estreou (e ganhou o Oscar de melhor roteiro). De lá pra cá, outras  versões da trágica história de amor entre dois artistas  - ele decadente; ela em plena ascensão - povoaram a mente e o coração de diferentes gerações, sempre com sucesso de crítica e bilheteria. E levando-se em conta de que era praticamente tradicional que surgisse um novo remake a cada duas décadas, até que demorou para que o século XXI apresentasse a sua própria visão do tema. Tudo bem que projetos já existiam há tempos - e até nomes como Steven Spielberg e Clint Eastwood estiveram ligados a ele em determinados momentos -, mas foi somente em 2018 que finalmente o quarto "Nasce uma estrela" chegou às telas. A demora, no entanto, revelou-se uma bênção: tivesse sido realizado antes, o filme não teria contado com seu maior trunfo - a presença luminosa e potente de Lady Gaga. Uma das maiores estrelas pop surgidas nos anos 2000, Gaga foi, provavelmente, o maior chamariz da produção, e não apenas foi a principal responsável pelos mais de 400 milhões de dólares coletados pelo filme nas bilheterias: premiada com o Golden Globe e indicada ao Oscar de melhor atriz, ela tornou-se a imagem mais potente do filme, que lhe rendeu a estatueta de melhor canção original (situação que espelha o que aconteceu com Barbra Streisand em 1976).

A presença de Gaga no papel central de "Nasce uma estrela" deve-se muito aos esforços do ator/diretor/roteirista/produtor Bradley Cooper, que insistiu em sua escalação a despeito da resistência da Paramount Pictures, pouco confiante no talento e no poder de fogo da cantora - conhecida por suas apresentações excêntricas que flertavam abertamente com o bizarro e a ruptura do status quo. Para o papel, que exigia dotes musicais além do corriqueiro, o estúdio preferia nomes menos polêmicos, como Beyoncé, Jennifer Lopez, Shakira, Rihanna e até Selena Gomez, mas Cooper, certo de que a escolha de Gaga era a mais certeira, lançou mão do mais velho dos truques, filmando a si mesmo e à cantora em cenas escritas por ele mesmo e o corroteirista Will Fetters: diante do resultado final, com o sucesso estrondoso do filme e o arrastão de prêmios da temporada (com oito indicações ao Oscar, incluindo melhor filme), dificilmente os executivos se arrependeram da decisão. Mesclando inocência, garra, paixão e força, Lady Gaga engole o filme toda vez que está em cena, mesmo ao lado de um Bradley Cooper no melhor momento de sua carreira.

 

Gaga interpreta (com segurança de veterana) a garçonete Ally Campana, que sonha em ver reconhecido seus talentos de cantora e compositora. Recém saída de um relacionamento tóxico, ela vê sua vida mudar radicalmente quando conhece Jackson Maine (Bradley Cooper), astro da música country que a descobre em um bar de drag queens e lhe oferece a chance de cantar com ele em um show. Maine está passando por um longo período de batalha contra as drogas e o álcool, mas isso não o impede de encantar-se com a jovem e convidá-la a juntar-se a ele em uma turnê. Aos poucos o relacionamento profissional evolui para um apaixonado romance, mas enquanto Ally começa a tornar-se mais e mais reconhecida por seus dotes musicais - a ponto de suplantá-lo em sucesso comercial e prestígio -, Maine se afunda progressivamente em sua doença. Brigado com o irmão mais velho, Bobby (Sam Elliott), e com a carreira ameaçada, o outrora celebrado cantor tenta sobreviver à ideia de ficar à sombra da mulher que ama, mas seus demônios interiores crescem à medida em que ela atinge o ápice de sua carreira.

Sem abrir mão de momentos clássicos das versões anteriores da trama - como o clássico momento em que Jackson invade, bêbado, a cerimônia de consagração de Ally -, o remake 2018 de "Nasce uma estrela" consegue o feito raro de modernizar o enredo original sem precisar desrespeitar seus antecessores. Em seu primeiro trabalho como diretor, Bradley Cooper equilibra com destreza as sequências musicais (dentre as quais destaca-se a bela "Shallow", premiada com o Oscar) e os dramas pessoais de seus protagonistas, com uma embalagem visual atraente e um ritmo adequado às plateias de seu tempo. Se Judy Garland estava no auge de sua carreira quando estrelou a versão de 1954 e Barbra Streisand já era uma atriz e cantora de prestígio em 1976, Lady Gaga surpreende ao demonstrar uma segurança ímpar na construção de sua Ally Campana mesmo em sua estreia no cinema. Dona de um carisma irresistível, Gaga bate de frente com o experiente Cooper em cenas de alta carga dramática e, se o público não consegue resistir às lágrimas em seu final, muito se deve à sua dedicação ao papel e ao apelo universal (e atemporal) da história, adaptada (felizmente) sem muitas invenções. Com uma produção caprichada - fotografia deslumbrante, a trilha sonora marcante, edição ágil - e uma direção precisa, "Nasce uma estrela" não decepciona frente a seus irmãos mais velhos e se apresenta como um dos filmes essenciais do gênero.

segunda-feira

MÃES PARALELAS

 


MÃES PARALELAS (Madres paralelas, 2021, El Deseo/Pathé Films, 123min) Direção e roteiro: Pedro Almodóvar. Fotografia: José Luis Alcaine. Montagem: Teresa Font. Música: Alberto Iglesias. Figurino: Paola Torres. Direção de arte/cenários: Antxón Gomez/Vicent Díaz. Produção: Agustin Almodóvar, Esther García. Elenco: Penélope Cruz, Milena Smit, Israel Elejalde, Aitana Sánchez-Gijón, Rossy de Palma. Estreia: 01/9/2021 (Festival de Veneza)

2 indicações ao Oscar: Atriz (Penélope Cruz), Trilha Sonora Original

Os filmes do espanhol Pedro Almodóvar dificilmente podem ser resumidos em poucas palavras sem que se perda, no processo, todas as nuances de tramas raramente simples como podem parecer em um primeiro momento. "Mães paralelas" não foge à regra: o que a princípio soa como um mero melodrama (gênero no qual o diretor navega com conforto e experiência), se mostra, ao final, um poderoso estudo não apenas sobre a maternidade em si, mas também sobre relações familiares, sobre escolhas de vida e sobre o passado como força motriz para transformações no presente. Ao unir a história de duas desconhecidas que tem suas vidas transformadas pelo nascimento de seus bebês com uma trama a respeito de mortos pela ditadura franquista, Almodóvar se arrisca em um terreno novo - o drama político - sem abdicar de suas características mais notáveis (e que fizeram sua glória junto a cinéfilos e críticos).

"Mães paralelas" apresenta quase tudo aquilo que se pode esperar de um bom Almodóvar: personagens femininas fortes (com o bônus de uma atuação monstruosa de Penélope Cruz, a cada dia mais bonita e boa atriz), uma trama repleta de idas e vindas (que causa o terror de quem tenta resumir suas sinopses), uma trilha sonora marcante (indicada ao Oscar) e a capacidade de envolver o público sem muito esforço - além do retorno de sua parceria com a ótima Rossy de Palma. Voltando a um tema bastante caro a si mesmo - a maternidade -, o cineasta abre mão do deboche de suas produções mais anárquicas e aponta sua câmera em direção a uma história mais sombria e dramática, em que questões éticas e menções políticas caminham lado a lado sem que se atropelem ou ofusquem. Pode-se dizer que é um de seus filmes mais maduros e elegantes - o que, de certa forma, deixa pouco espaço para soluções mais catárticas e/ou lacrimosas. Pode soar um tanto anticlimático vindo de um diretor de sangue tão efervescente, mas não deixa de ser também um aceno a tempos mais delicados e sutis. "Mães paralelas" é um Almodóvar tanto atípico quando extremamente característico: um paradoxo que é, a seu modo, a cara de um dos mais fecundos e criativos realizadores da Europa desde a década de 1980.


A trama de "Mães paralelas" começa com o encontro de Janis (Penélope Cruz) e Ana (Milena Smit) em uma maternidade: a primeira, com 40 anos, está prestes a dar à luz ao filho de seu amante casado; a segunda, adolescente, tem uma relação difícil com a mãe, uma atriz retomando a carreira, e não conta com o apoio do pai do bebê. Algum tempo depois, as duas se reencontram em uma situação pouco comum - não convém dar mais detalhes para não estragar as surpresas que vão surgindo - e criam laços inesperados e profundos. Enquanto isso, Janis insiste em seu projeto profissional de buscar, com a ajuda do pai de sua filha, as ossadas de presos políticos desaparecidos durante o regime franquista. 

Mencionado em uma única linha de diálogo de "Carne trêmula" (1997) - e mesmo assim de forma bastante implícita -, o sangrento período, compreendido entre 1939 e 1976, em que Francisco Franco espalhou violência e repressão junto a seus opositores na sociedade espanhola, surge em "Mães paralelas" com importância crucial, ainda que isso só fique claro em seus instantes finais. O que pode parecer um tanto gratuito transforma-se, aos poucos, em mais uma prova da capacidade de Almodóvar em conduzir o espectador por caminhos imprevisíveis - e com mais camadas do que se pressupunha. Afinal, se o cerne de seu filme é a maternidade (símbolo maior de lar e família), não seria o reencontro com o passado uma forma de fazer as pazes com o futuro? Almodóvar não apresenta respostas, apenas aponta questões - como um bom artista em sintonia com a sensibilidade e a inteligência de sua plateia. Talvez tudo só faça sentido um bom tempo depois da sessão, mas não é essa perenidade que caracteriza o bom cinema?

sexta-feira

AO ENTARDECER

 


AO ENTARDECER (Evening, 2007, Hart Sharp Entertainment/Twins Financing/MBF Erste Filmproduktiongesellschaft, 117min) Direção: Lajos Koltai. Roteiro: Michael Cunningham, Susan Minot, romance de Susan Minot. Fotografia: Gyula Pados. Montagem: Allyson C. Johnson. Música: Jan A. P. Kaczmarek. Figurino: Ann Roth. Direção de arte/cenários: Caroline Hanania/Catherine Davis. Produção executiva: Michael Cunningham, Jill Footlick, Michael Hogan, Robert Kessel, Susan Minot. Produção: Jeffrey Sharp. Elenco: Claire Danes, Patrick Wilson, Hugh Dancy, Vanessa Redgrave, Toni Collette, Natasha Richardson, Meryl Streep, Mamie Gummer, Eileen Atkins, Glenn Close, Barry Bostwick. Estreia: 09/6/2007 (Newport International Film Festival)

Autor dos livros que deram origem ao premiado "As horas" (2002) - vencedor do Oscar de melhor atriz e indicado a outras sete estatuetas - e ao pouco conhecido "Uma casa no fim do mundo" (2004), estrelado por Colin Farrell e Robin Wright -, o norte-americano Michael Cunningham tem predileção por personagens torturados por lembranças do passado e escolhas erradas. Por isso não é surpresa ver seu nome como um dos roteiristas de "Ao entardecer", baseado no romance de Susan Minot: o drama dirigido pelo húngaro Lajos Koltai tem muito da personalidade do escritor e de sua sensibilidade quase feminina, e sua história de amor, renúncia e arrependimentos é o material ideal para emocionar ao público fiel do gênero. Nem sempre a mistura funciona, no entanto, e por mais que sua lista de créditos seja invejável, o filme, lançado sem muito alarde no verão norte-americano de 2007, não chega a ser um marco na carreira de seus envolvidos.

Narrado em dois tempos cronológicos que se intercalam e completam, "Ao entardecer" tem como protagonista Ann Grant, uma mulher que, à beira da morte (e na pele da excelente Vanessa Redgrave), se deixa mergulhar em lembranças de um passado tão romântico quanto dolorido. Suas reminiscências remetem direto a um fim-de-semana em particular, quando (vivida por Claire Danes), compareceu ao casamento da melhor amiga, Lila Wittenborn (Mamie Gummer) em sua mansão litorânea de Newport. Acompanhada do melhor amigo Buddy (Hugh Dancy) - irmão da noiva -, a aspirante a cantora não resiste à beleza natural do local e à atmosfera romântica do evento e acaba por se apaixonar por Harris Arden (Patrick Wilson), um amigo não aristocrático da família. O problema é que não apenas Lila ainda tem fortes sentimentos pelo rapaz - com quem teve um rápido envolvimento no passado -, mas também o inconstante e quase irresponsável Buddy parece nutrir algo mais do que simples amizade por ele. Quando uma tragédia mancha irremediavelmente a festa, cabe a Ann decidir os rumos de sua vida adiante - uma decisão que irá atormentá-la pelo resto de seus dias.

 

Apesar de não apresentar a profundidade que se poderia esperar de uma trama tão repleta de melancolia e culpa, "Ao entardecer" se beneficia - e muito - de um poderoso elenco feminino que se dá ao luxo de ter, em curtas participações especiais, as espetaculares Meryl Streep e Glenn Close. A primeira dá vida à madura Lila, quando, em visita à sua melhor amiga, rememora a dor dos dias trágicos que praticamente as afastaram. Close, por sua vez, surge em cena como a excêntrica mãe de Lila e Buddy - com direito a pelo menos uma cena digna de seus melhores trabalhos. Dividindo o papel de Ann em diferentes fases da vida, Claire Danes e Vanessa Redgrave compartilham, também, a força da sutileza, optando sempre pelo mínimo para transmitir a variada gama de sentimentos de sua personagem. Na pele das filhas adultas de Ann - duas mulheres com visões distintas da vida e que se vêem diante da iminência da morte -, as ótimas Toni Collette e Natasha Richardson (filha de Vanessa Redgrave também na vida real) encontram o tom exato entre a angústia da perda  e a surpresa em descobrir uma história escondida na vida da mãe aparentemente feliz. Ao elenco masculino resta pontuar com correção o brilho das mulheres: Patrick Wilson é o galã ideal, másculo e romântico, e Hugh Dancy (que se apaixonou por Claire Danes durante as filmagens, e foi correspondido) se destaca como o vibrante e pouco ortodoxo Buddy. Premiado diretor de fotografia indicado ao Oscar por "Malena" (2000), Lajos Koltai sai-se relativamente bem no comando de seus atores e brilha na composição visual das cenas - algumas delas dotadas de uma poesia tocante  -, mas nem sempre consegue manter o ritmo de sua narrativa, o que acaba por comprometer o resultado final e amenizar seu impacto emocional. A carreira musical de Ann, por exemplo, é apenas citada em alguns diálogos - apenas no casamento de Lila ela solta a voz, mas sua paixão por Harris muitas vezes soa maior do que pela música, e até mesmo sua história de amor não alcança profundidade o suficiente para que o espectador se importe com ela. Claire Danes é uma atriz fantástica, mas sua química com Patrick Wilson é apenas morna, o que enfraquece o ponto principal de todo o filme.

Pouco lembrado dentro da filmografia de seus atores - todos eles com um vasto e relevante currículo -, "Ao entardecer" é um belo filme, tanto em termos visuais quanto dramáticos, mas carece da força que os grandes possuem. A história pouco memorável é valorizada pelo ótimo elenco, mas por vezes soa como um dèja-vu, misturando elementos de várias outros romances sem grandes critérios. O roteiro - coescrito por Michael Cunningham e pela autora do livro que lhe deu origem, Susan Minot - não apresenta maiores novidades e é quase previsível, com um final tão sutil que priva o espectador da catarse que se espera de uma produção do gênero. Apesar dos pesares, no entanto, tem tudo para comover aos mais sensíveis - e nunca é perda de tempo assistir gente como Claire, Vanessa, Meryl, Toni e Glenn Close.

quarta-feira

O DIREITO DO MAIS FORTE É A LIBERDADE

 


O DIREITO DO MAIS FORTE É A LIBERDADE (Faustrecht der Freiheit/Fox and his friends, 1975, City Film/Tango Film, 124min) Direção e roteiro: Rainer Werner Fassbinder. Fotografia: Michael Balhaus. Montagem: Thea Eymesz. Música: Peer Raben. Figurino: Helga Kempke. Direção de arte: Kurt Raab. Produção: Rainer Werner Fassbinder. Elenco: Rainer Werner Fassbinder, Karlheinz Bohm, Peter Chatel, Adrian Hoven, Christiane Maybach. Estreia: 15/5/75 (Festival de Cannes)

Um dos mais importantes representantes do Novo Cinema Alemão - surgido na influência da Nouvelle Vague e de grande importância cultural nas décadas de 1960 e 1970 -, Rainer Werner Fassbinder sempre recusou-se a rótulos. Com mais de 40 obras no currículo, transitou entre filmes de gângsteres, épicos sobre as consequências da II Guerra, adaptações teatrais e melodramas, sempre ressaltando nelas o aspecto humano das relações e suas fissuras. Polêmico na frente e atrás das câmeras - com uma legião de detratores que rivalizam com o amplo número de admiradores -, o diretor/ator/produtor/roteirista morreu em 1982, aos 37 anos de idade, deixando para trás algumas produções cruciais para a filmografia de seu país, mesmo que controversas e incômodas. Uma delas, "O direito do mais forte é a liberdade" é sintomática: uma história forte e contundente sobre a futilidade e a fragilidade dos vínculos emocionais no mundo homossexual que critica, ao mesmo tempo, a sociedade em geral e o mundo gay em particular. Amargo, pessimista e sem firulas estéticas e/ou narrativas, o filme que levou o Grande Prêmio do Júri no Festival de Cinema de Chicago de 1975 mantém uma dolorosa atualidade que apenas comprova a visão incisiva do diretor sobre o mundo que o rodeava.

O próprio Fassbinder assume o papel principal do filme, Fox Biberkopf, um jovem homossexual que, depois da prisão do amante, vê sua vida transformada com uma vitória na loteria. Oriundo da classe operária e sem qualquer tipo de sofisticação (social ou cultural), ele se envolve com Eugen (Peter Chatel), o herdeiro de uma empresa em constante crises financeiras. Sentindo-se deslocado com a vida de luxo do novo namorado, Fox se deixa manipular por ele, aceitando suas aulas de etiqueta e se afastando, mesmo contra a vontade, de sua antiga vida operária - o que inclui sua vulgar irmã, Hedwig (Christiane Maybach). Tentando encaixar-se em uma vida que não é sua, Fox sente dificuldade em equilibrar seus desejos de ascensão e sua real personalidade - e conforme sua relação com Eugen vai se aprofundando, mais explorado ele passa a ser (pelos sogros, pelos supostos amigos e até pelo namorado).

 

Com uma estética crua que foge do sentimentalismo e se dedica a contar sua história com o mínimo de recursos artificiais, Fassbinder constrói, aos poucos, uma fábula melancólica que examina, sem meio-termos, a mediocridade da classe burguesa alemã e a futilidade do universo gay masculino, perdido em um mundo de aparências e promiscuidade. Não é uma imagem agradável, e sendo o diretor homossexual assumido - ainda que repleto de incoerências em sua vida pessoal -, não deixa de ser também um retrato bastante acurado e negativo. A coragem de Fassbinder reside em escolher como algozes não uma sociedade homofóbica e preconceituosa (apesar de haver, subrepticiamente, uma crítica a ela), mas sim os próprios homossexuais: enquanto Fox serve como a vítima ingênua e quase romântica - cuja generosidade acaba por ser sua maior tragédia -, Eugen e seus amigos (em níveis diversos de frivolidade e apatia) se mostram parte integrante de um sistema cruel e impiedoso. Se os gays mostrados no cinema dos anos 1970 se dividiam entre a caricatura e a violência - quando não eram apenas sacos de pancada ou condenados a desgraças variadas -, no filme de Fassbinder eles assumem papel de domínio e livre arbítrio, com tudo que isso tem de bom e de ruim. Fox não deixa de ser um anti-herói - apesar de sua generosidade, ele nunca abandona seu desejo quase patológico de ascender social e culturalmente, o que acaba por vir a ser sua tragédia -, mas o roteiro jamais cai na armadilha de fazer dele um mártir inocente. O final (em imagens secas, mas dolorosas em sua realidade) apenas enfatiza o tom cruel imposto desde suas primeiras cenas, e deixa um gosto amargo na boca do espectador - mas em hipótese alguma busca a emoção fácil.

"O direito do mais forte é a liberdade" não é, nem de longe, o filme mais famoso e celebrado de Fassbinder - "As lágrimas amargas de Petra Von Kant" (1972), "O casamento de Maria Braun" (1979), "Lili Marlene" (1981) e "Querelle" (1982) são facilmente suas obras mais conhecidas. Porém, é inegável que encapsula boa parte de suas obsessões como cineasta. Se não se sai exatamente bem como ator - e nem tem um carisma forte o bastante para angariar a simpatia incondicional do público -, ao menos como diretor ele atinge seu objetivo de incomodar e questionar o status quo. É uma característica marcante de sua filmografia - e justifica a importância de seu nome dentro do cinema alemão.

terça-feira

PARENTE É SERPENTE


PARENTE É SERPENTE (Parenti serpenti, 1992, Clemi Cinematografica, 105min) Direção: Mario Monicelli. Roteiro: Carmine Amoroso, Suso Cecchi D'Amico, Piero De Bernardi, Mario Monicelli, estória de Carmine Amoroso. Fotografia: Franco Di Giacomo. Montagem: Ruggero Mastroianni. Música: Rudy De Cesaris. Figurino: Lina Nerli Taviani. Direção de arte/cenários: Franco Velchi/Livia Del Priore. Produção Giovanni Di Clemente. Elenco: Tommaso Bianco, Renato Cecchetto, Marina Confalone, Alessandro Haber, Cinzia Leone, Eugenio Masciari, Paolo Panelli, Monica Scattini, Pia Velsi. Estreia: 26/3/92

Um dos mais celebrados cineastas italianos do pós-guerra, Mario Monicelli forjou seu nome na história graças a filmes que entraram para o inconsciente coletivo das plateias, como "O incrível exército Brancaleone" (1966) e "Quinteto irreverente" (1982), que explicitam seu estilo direto e sardônico ao retratar personagens banais e frequentemente falíveis. Com três produções indicadas ao Oscar de melhor filme estrangeiro - "Big deal on Madonna Street" (1958), "A grande guerra" (1959) e "The girl with a pistol" (1968) - e outras duas indicações à estatueta de roteiro original, Monicelli construiu, em mais de seis décadas, uma filmografia dedicada a prescutar a alma humana, sempre de forma bem-humorada mas paradoxalmente carinhosa. Sem pensar em aposentadoria mesmo na idade em que muitos já estavam descansado e contando o vil metal, ele surpreendeu a todos quando, em 1992, aos 77 anos, lançou mais um de seus petardos. Irônico e quase amargo, "Parente é serpente" tornou-se mais um de seus sucessos, dessa vez mirando sua atenção a um símbolo da estabilidade da sociedade: a família.

Subvertendo o otimismo e a delicadeza de filmes de Natal - aqueles com finais felizes e recheados de boas intenções -, "Parente é serpente" é narrado pelo pequeno Mauro (Riccardo Scontrini) , que com seu ponto de vista ingênuo não percebe o quão frágil é a aparente normalidade de sua vasta família - idiossincrática, um tanto hipócrita e repleta de pequenos atos de mesquinhez, disfarçados por uma religiosidade tradicionalista e uma série de rituais anuais. É no Natal que acontece um dos raros encontros de todas as ramificações do clã dos Colapietro - pais idosos, quatro filhos de meia-idade e dois netos em fase de transição (de graus variados) para a adolescência. Saverio (Paolo Panelli) e Trieste (Pia Velsi) vivem sozinhos na casa onde criaram os filhos e que não pode ser exatamente descrita como confortável - o aquecimento é falho, as acomodações nem sempre são ideais e sua distância das casas dos rebentos é um incômodo pouco mencionado. Para comemorarem a data festiva, todos se reúnem. A filha mais velha, Lina (Marina Confalone), mãe de Mauro, é hipocondríaca e mal consegue esconder uma certa inveja da cunhada, Gina (Cinzia Leone), uma mulher sofisticada que não se conforma com a falta de vaidade da única filha, Monica (Eleonora Alberti) - que sonha ser bailarina mas não abre mão dos prazeres da gula. A irmã de Lina é Milena (Monica Scattini), que sofre com a incapacidade de engravidar e com a possibilidade de tal problema afetar seu casamento com o suave Filippo (Renato Cecchetto). O único solteiro do grupo é Alessandro (Eugenio Masciari), um professor que mora sozinho enquanto não encontra "a mulher certa". O reencontro, marcado pelos tradicionais momentos nostálgicos, pela missa do galo e pela comilança generalizada é finalizado, no entanto, com uma bomba detonada pelos patriarcas: com medo das limitações que os anos vindouros podem trazer, eles resolveram - unilateralmente, é claro - que irão morar com um dos filhos. Cabe aos rebentos apenas decidirem qual deles será o felizardo a ter a vida alterada pela nova configuração familiar.

 

A partir do anúncio feito por Saverio e Trieste, o tom de "Parente é serpente" fica ainda mais amargo - apesar de não abandonar o humor, dessa vez com origem em uma série de revelações inesperadas e um ritmo mais apurado. Se até então as rachaduras na estrutura familiar estavam disfarçadas pelas regras de etiqueta natalina e os ressentimentos pareciam definitivamente enterrados, a notícia dada pelos pais transforma a aparente cordialidade fraternal em um campo de guerra. Cada um tem seus motivos para não desejarem a convivência diária com os genitores - que vão desde a falta de espaço e privacidade até a possibilidade de terem descobertos seus segredos mais profundos. Os embates - até então discretos e embalados pelo senso de preservação - se tornam mais raivosos (e por consequência mais propensos à agressão). E ninguém parece disposto a abrir mão das pretensas liberdades, nem mesmo com a chance de ficar com o apartamento prometido como forma de abono. E é nesse ato final que a ferocidade do humor de Mario Monicelli fica ainda mais evidente, desvelando sem medo a hipocrisia que cerca os núcleos familiares: os diálogos (deliciosos em sua sordidez) encontram eco em uma direção de atores precisa, que explora o melhor de cada um dos atores, dando a todos um momento de brilho. Como em uma boa peça de teatro, o roteiro vai crescendo até o clímax - uma mescla surpreendente de ironia e melancolia que encerra a narrativa com chave de ouro, além de reforçar o impecável tom de humor sombrio.

Mesmo não sendo o mais popular ou influente filme da carreira de Monicelli, "Parente é serpente" é uma produção que jamais envergonha sua obra pregressa. Inteligente, sarcástico e dotado de uma boa dose de cinismo, o resultado final conquista ao revelar em seus personagens (falíveis, dúbios, capazes de grandezas e mesquinharias) um espelho dos espectadores. Sem heróis ou vilões, o filme se utiliza do humor como ferramenta para discutir - sem falsos moralismos - as relações familiares, a velhice, a intolerância e a superficialidade da vida de aparências. O final - que flerta com o absurdo, mas sempre com os pés firmes no chão - é um primor de coragem mesmo em um mundo ainda longe das limitações do politicamente correto. É Mario Monicelli em seu melhor!

segunda-feira

QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER

 


QUANDO UM HOMEM AMA UMA MULHER (When a man loves a woman, 1994, Touchstone Pictures, 126min) Direção: Luis Mandoki. Roteiro: Ron Bass, Al Franken. Fotografia: Lajos Koltai. Montagem: Garth Craven. Música: Zbigniew Preisner. Figurino: Linda Bass. Direção de arte/cenários: Stuart Wurtzel/Kara Lindstrom. Produção executiva: Ron Bass, Al Franken, Simon Maslow. Produção: Jon Avnet, Jordan Kerner. Elenco: Meg Ryan, Andy Garcia, Lauren Tom, Philip Seymour Hoffman, Ellen Burstyn, Tina Majorino, Mae Whitman. Estreia: 29/4/94

Por incrível que pareça - levando-se em conta o quanto o filme em si não é nada memorável e pouco acrescentou às carreiras dos envolvidos -, a ideia central de "Quando um homem ama uma mulher" surgiu de um rascunho de dez páginas escritas por ninguém menos que Orson Welles. Isso mesmo: o homem responsável por abalar a indústria do cinema com seu "Cidadão Kane" (1941) foi quem escreveu os primeiros rascunhos do filme lançado em 1994 e que conta a história de uma família ameaçada pelo fantasma do alcoolismo. Parte das tentativas de Meg Ryan em abandonar a imagem doce de estrela de comédias românticas, no entanto, a produção dirigida pelo inexpressivo Luis Mandoki não encontrou seu público e, se não foi um fracasso imenso nas bilheterias, tampouco tornou-se um sucesso comercial. Em parte por culpa do tema sombrio - ainda que revestido de uma leveza típica dos filmes Disney (através da Touchstone, sua subsidiária para filmes adultos) -, em parte pela falta de ousadia em mergulhar mais fundo no tema, o filme de Mandoki fica no meio-termo entre o que é e o que poderia ter sido. Pode emocionar aos mais sensíveis, mas sua superficialidade não deixa de incomodar.

Assumindo um papel que foi pensado para Debra Winger (e que também foi oferecido à Michelle Pfeiffer), a adorável Meg Ryan deixa de lado sua persona agradável e encantadora para dar vida (e lágrimas) à Alice Green, uma mãe de família dedicada que esconde, por trás de seus modos gentis e carinhosos, um vício quase paralisante por álcool. Quem sabe de seu problema é Michael (Andy Garcia), um piloto de avião que passa seus dias tentando encobrir as crises da mulher - às vezes sutis, outras bastante violentas. Suas filhas pequenas, Jess (Tina Majorino) e Casey (Mae Whitman), são testemunhas dos acessos da mãe, e sofrem a cada discussão entre os pais - além de serem potenciais vítimas da violência que pode surgir a qualquer momento. Depois de uma crise particularmente grave, Alice aceita ir para uma clínica de reabilitação - mas seu retorno acaba tendo efeitos colaterais graves em sua relação com o marido: antes o pilar que mantinha a família de pé, o responsável e amoroso Michael se vê repentinamente sem função na dinâmica da casa e o casamento encontra, então, uma nova ameaça.

 

Não é que o filme de Mandoki seja exatamente ruim. O problema é que, comparado a outras (e mais corajosas) produções sobre o mesmo tema, "Quando um homem ama uma mulher" empalidece irremediavelmente. Não há, nele, a sensação de urgência de "Farrapo humano" (1945) e "Vício maldito" (1962), que não à toa são referenciais em relação ao assunto. "Despedida em Las Vegas", que seria lançado no ano seguinte, também tem a ousadia que lhe falta, ao mergulhar Nicolas Cage em um espiral de desespero poucas vezes agradável ao olhos do espectador. Visualmente asséptico e emocionalmente superficial, o resultado final soa mais como uma telenovela do que como cinema - para isso conta também o roteiro quadradinho, escrito pelo vencedor do Oscar (por "Rain Man", de 1988) Ron Bass: a relação entre o casal de protagonistas, por exemplo, nunca atinge todo o seu potencial dramático, sendo ofuscado em diversas ocasiões pela dupla de atrizes mirins que interpretam suas filhas. Por mais que a intenção seja retratar o estrago feito pelo vício em um núcleo familiar, não deixa de ser frustrante ver o esvaziamento de uma questão tão séria em uma realização tão pouco ousada e que prefere o melodrama a discussões mais contundentes.

Nitidamente se esforçando em demonstrar uma nova faceta de seu talento, Meg Ryan nem sempre dá conta do recado, muitas vezes caindo na armadilha do exagero que o papel cria a cada cena - mas é louvável que leve a sério sua tarefa (a ponto de ter sido lembrada pelos colegas com uma indicação ao Screen Actors Guild). Andy Garcia, por sua vez, faz o que pode com um personagem que é praticamente o apoio para as crises de Ryan - é de se imaginar como Tom Hanks, a primeira escolha para o papel, se sairia em cena ao lado de Debra Winger. E no elenco coadjuvante, um jovem Philip Seymour Hoffman mal consegue destacar-se, assim como a veterana Ellen Burstyn - mal-aproveitada como a mãe de Alice. Amparando-se na força do tema, mas sem conseguir desenvolvê-lo a contento, "Quando um homem ama uma mulher" é um filme sobre alcoolismo para quem não tem a intenção de vê-lo com toda a feiura e dor que ele traz.

OS AGENTES DO DESTINO

  OS AGENTES DO DESTINO (The Adjustment Bureau, 2011, Universal Pictures, 106min) Direção: George Nolfi. Roteiro: George Nolfi, conto ...