NOÉ (Noah, 2014, Paramount Pictures/New Regency Productions, 138min) Direção: Darren Aronofsky. Roteiro: Darren Aronofsky, Ari Handel. Fotografia:Matthew Libatique. Montagem: Andrew Weisblum. Música: Clint Mansell. Figurino: Michael Wilkinson. Direção de arte/cenários: Mark Friedberg/Debra Schutt. Produção executiva: Chris Brigham, Ari Handel. Produção: Darren Aronofsky, Scott Franklin, Arnon Milchan, Mary Parent. Elenco: Russell Crowe, Jennifer Connely, Ray Winstone, Anthony Hopkins, Emma Watson, Logan Lerman, Finn Wittrock, Douglas Booth, Nick Nolte. Estreia: 26/3/2014
Os protagonistas dos filmes de Darren Aronofsky não são exatamente banais. Mas quem poderia imaginar que depois de um cientista que acreditava ter descoberto o nome de Deus, uma família destruída pelo vício em drogas, um homem que atravessa dimensões atrás da mulher que ama, um lutador decadente, uma bailarina presa à sua incapacidade de assumir seus desejos mais profundos e dois irmãos pugilistas radicalmente diversos em seus destinos profissionais o cineasta elegeria como personagem principal de uma grande produção de estúdio um patriarca bíblico? Pois foi o que aconteceu: "Noé", uma das grandes apostas da Paramount para a temporada 2014 (com um orçamento generoso de 125 milhões de dólares), encontrou no pouco tradicional diretor um de seus maiores trunfos - e, paradoxalmente, seu maior problema. Ao recusar-se a contar a história da Arca que marcou a aliança entre Deus e a humanidade da forma mais previsível - ou seja, com um viés religioso que não ofenderia as plateias mais conservadoras -, Aronofsky perdeu parte do público que transformou "A paixão de Cristo" (2004) em um dos maiores êxitos comerciais da história, mas não todo o respeito acumulado por anos de elogios e prêmios (inclusive uma indicação ao Oscar por "Cisne negro"). Apesar do meio-termo entre a reverência com a história e o desejo de questionar seu anti-herói e levantar questionamentos modernos (meio ambiente, fanatismo, o ser humano em si), "Noé" não chegou a decepcionar em termos de bilheteria e chegou a quase 360 milhões de dólares de renda mundial - mais dinheiro do que um congênere lançado no final do mesmo ano, "Êxodo: deuses e reis", dirigido por Ridley Scott e estrelado por Christian Bale, coincidentemente a primeira escolha de Aronofsky para viver seu protagonista.
Acrescentando trechos de outras religiões e aspectos pouco conhecidos de uma história aparentemente já contada e recontada através de milênios, o roteiro de "Noé" retorna até Adão e Eva - e consequentemente a descendência de Caim, responsável por transformar o mundo em um lugar sombrio, violento e egoísta que precisa, pelos desígnios de Deus, ser limpo por um dilúvio que, dizimando toda a população (com exceção do patriarca e sua família), dará origem a um recomeço, a um tempo de purificação. Com uma montagem interessante que dita um ritmo de blockbuster a uma produção com pretensões mais sérias, os primeiros minutos de "Noé" conduzem o espectador a um universo que mescla a formalidade de uma narrativa tradicional com elementos de filmes de verão - o visual dos guardiões (seres mitológicos que são o elo entre o paraíso perdido e a vida atual na Terra), por exemplo, é nitidamente pensado como forma de atingir um público mais fã de efeitos visuais do que de enredos elaborados, e, paradoxalmente, é um dos maiores defeitos do filme, ao tirar o foco dos personagens humanos em momentos cruciais e remeter a obras de apelo infanto juvenil, como a série "Harry Potter". Para uma obra que pretende analisar os eventos da Bíblia sob um ponto de vista mais realista e menos fantasioso, não deixa de ser incoerente.
A saga de Noé é conhecida até mesmo por quem não é especialista em religião, mas o roteiro de Aronofsky e Ari Handel insere elementos dramáticos e personagens inexistentes na mitologia, até como forma de intensificar os conflitos familiares e éticos da releitura. É o caso de Ila, interpretada por Emma Watson: única sobrevivente de um massacre que vitimou todos os seus parentes, a menina é adotada por Noé (Russell Crowe) e Naameh (Jennifer Connelly) em seu caminho para encontrar o velho Matusalém (Anthony Hopkins), a quem Noé procura em busca de conselhos a respeito de uma visão relacionada a uma violenta enxurrada. Avô de Noé, Matusalém, um homem sábio e um dos últimos descendentes de Caim, confirma ao neto que a visão é um sinal vindo de Deus. Entendendo que sua missão é construir uma arca para salvar os animais de um dilúvio que irá devastar a Terra - e assim limpá-la de um período de iniquidade e trevas -, o patriarca torna-se obcecado em levar a cabo o que lhe foi ordenado. Para isso, entra em rota de colisão com o irascível Tubal-Cain (Ray Winstone), assassino de seu pai e disposto a qualquer coisa para fazer parte do grupo a ser salvo do dilúvio - inclusive jogar um dos filhos de Noé, o jovem Ham (Logan Lerman) contra o próprio genitor. Desafios superados, resta a ele cumprir os desígnios de Deus - e perceber que lidar com chuva ininterrupta, animais de todas as espécies e inimigos pessoais é apenas o início de uma saga.
Como cinema "Noé" não chega nem perto de tudo que Darren Aronofsky realizou anteriormente - nem em termos de ousadia narrativa nem em termos de direção de atores. Enquanto Jennifer Connely mais uma vez apresenta um desempenho consistente (apesar de sua Naameh não ser explorada o bastante), o trabalho de Russell Crowe esbarra em um personagem que falha em conquistar a simpatia da plateia e, por consequência, de envolvê-la em seus desvarios. O elenco coadjuvante faz o que pode com um roteiro que por vezes parece sem um foco definido e os efeitos visuais - que poderiam ser um destaque em uma produção cuja trama clama por eles - mais atrapalham do que encantam. Por incrível que pareça, no entanto, mesmo sem as características que fizeram de Aronofsky um dos cineastas mais interessantes do começo do século XXI, "Noé" é uma produção acima da média. Não é um filme religioso no sentido mais tradicional do termo - mas não se poderia esperar isso de alguém tão pouco convencional.


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